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SonoRetificação

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Centro de Ciências Sociais
Faculdade de Ciências Econômicas
Lucas Foffano Junqueira // Matr.: 201510118211
Trabalho e gênero: A que nível trade-offs de limitação de tempo e fatores
naturais de gênero e idade impactam o sono de um indivíduo?
Rio de Janeiro
2019
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Sumário
1.
Resumo ........................................................................................................................................... 3
2.
Introdução ....................................................................................................................................... 3
3.
Literatura Relacionada .................................................................................................................... 4
4.
Metodologia .................................................................................................................................... 4
5. Dados ................................................................................................................................................. 5
6. Estimativas Econométricas ................................................................................................................ 6
6.1 O efeito da idade sobre o sono ..................................................................................................... 6
6.2 O efeito do gênero sobre o sono ................................................................................................... 7
7. Conclusão ........................................................................................................................................... 9
8. Referências Bibliográficas................................................................................................................9
9. Lista de Tabelas...............................................................................................................................10
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1. Resumo
O impacto da jornada de trabalho sobre os minutos disponíveis para sono de um indivíduo não
representa o foco usual da literatura sobre o tema. Ainda assim, sugerimos nesse artigo que o trade-off
imposto pela limitação natural de tempo seja um dos fatores predominantes para a determinação da
duração do sono ao longo da semana, assim como o primeiro canal de diferenciação do sono entre
homens e mulheres. Ainda, o presente trabalho busca validar observações genéricas a respeito das
consequências da idade e do gênero de um indivíduo, questionando a significância estatística do
primeiro e mostrando que o segundo, embora dependa de maiores desenvolvimentos, pode sim ter
impacto sobre a rotina de sono a medida que se tornam latentes tradicionais papéis de gênero.
2. Introdução
O objetivo desse paper é observar a significância do possível trade-off existente quanto ao tempo
de sono em relação ao tempo trabalhado e, como hipóteses adicionais, dos efeitos das variáveis idade
e, com mais ênfase, gênero, sobre o tempo de sono total. Para tanto utilizamos uma base de dados de
706 indivíduos residentes nos Estados Unidos em 1975 com a introdução gradual de variáveis de
controle, analisando diferentes especificações.
Uma vez que a literatura relacionada é em certa medida consolidada sobre a predominância de
menores tempos de sono em indivíduos mais velhos (Mander et. al, 2017) e entre homens (Burgard e
Ailshire, 2013), parte de nossos achados irá corroborar com esses resultados, enquanto que algumas
especificações demonstrarão condições necessárias para sua validade. Com algumas dessas
especificações, buscaremos responder especificamente questões da relação entre gênero e sono como
“por que mulheres possuem mais tempo de sono?” e “como homens e mulheres reagem ao trade-off
entre tempo de lazer e tempo de sono?”
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3. Literatura Relacionada
Embora a maior parte da literatura sobre o tema repouse sobre distúrbios de sono e seus efeitos
sobre cognição, algumas alterações naturais no tempo de sono de indivíduos são de consenso na maior
parte dos trabalhos, como a redução no tempo de sono total de indivíduos com a idade (Mander et. al,
2017). No primeiro momento, as mudanças de rotina consequentes do envelhecimento atrapalham o
padrão de sono praticado até um determinado momento da infância e, em idades mais avançadas, a
redução do metabolismo e outras funções biológicas reduzem também essa necessidade.
Já em Burgard e Ailshire (2013), a observação inicial de que mulheres possuem maior tempo
de sono em média do que homens na população é interpretada através dos papéis de gênero na vida
doméstica, principalmente após o casamento. A expectativa desses papéis ocasiona, na população
masculina, maiores rotinas de trabalho formal que são impeditivos diretos a maiores ciclos de sono e,
na população feminina, uma associação do tempo livre com atividades de cuidado doméstico ou com
filhos que, embora permitam a extensão do período de sono, o tornam condicionado a emergência de
situações que requerem atenção e, portanto, fragilizam, ou mesmo reduzem o período de sono no caso
de mulheres com filhos, em comparação aos homens.
4. Metodologia
Uma vez que a base de dados representa um corte de dados transversal, utilizamos regressões
lineares MQO para melhor avaliação das principais variáveis de interesse de acordo com o
modelo: 𝑆𝑙𝑒𝑒𝑝 = 𝛽0 + 𝛽1 βˆ™ π‘‘π‘œπ‘‘π‘€π‘Ÿπ‘˜ + 𝛽2 βˆ™ 𝑒𝑑𝑒𝑐 + 𝛽3 βˆ™ 𝐴𝑔𝑒 + 𝛽4 βˆ™ π΄π‘”π‘’π‘†π‘ž + πΆπ‘œπ‘›π‘‘π‘Ÿπ‘œπ‘™π‘’π‘ ,
4
onde
as
variáveis de controle foram inseridas de acordo a formar as especificações necessárias para avaliação
de nossas hipóteses adicionais.
Para avaliarmos o efeito da idade sobre o tempo de sono total, adicionamos o controle para
residente em área metropolitana como forma de reduzir possível viés de composição demográfica em
regiões com diferentes níveis de poluição visual e sonora que poderiam interferir com o ciclo de sono,
e também controles a respeito da experiência de trabalho e anos casado como forma de limitar a
interferência que a renda adicional ou a organização familiar como consequência da maior idade
poderiam ocasionar. Além disso, levantando a hipótese de que uma de nossas variáveis de interesse
tempo de trabalho estava correlacionada com a idade, rodamos uma nova regressão retirando a
variável.
Já para a questão de gênero, rodamos a regressão com o acréscimo da variável Female, sem
controles adicionais e, diante dos resultados, buscamos controlar primeiro por uma variável tempo de
lazer calculada a partir do tempo diário não-gasto dormindo ou trabalhando e, em sequência, através
de um conjunto de controles maior, com as variáveis de interação FemaleMarr e FemaleMarrKid além
de Marr e YngKid, visando avaliar a hipótese levantada por Burgard e Ailshire de que o papel
doméstico de gênero, principalmente a partir do casamento e de filhos, teria papel significativo sobre
o tempo de sono total de mulheres.
5. Dados
A base de dados utilizada foi referente a uma população de 706 indivíduos residentes nos
Estados Unidos em 1975 e, embora não tenham sido utilizados como controle todos os dados
disponibilizados, novas variáveis foram adicionadas como desdobramentos da base original. Os dados
5
para as variáveis utilizadas no modelo, contando com os desdobramentos, são descritos de acordo com
a tabela 1.
6. Estimativas Econométricas
Como resultado geral, a variável Totwrk manteve-se significante em nível de 99% de confiança
para todas as especificações do modelo onde foi incluída, comprovando a existência do trade-off entre
o tempo trabalhado e o tempo de sono. O impacto desse trade-off, na regressão realizada sem variáveis
de controle, era de aproximadamente -0,146 minutos de sono por semana para cada minuto adicional
trabalhado.
Na regressão onde os controles para o tempo de lazer disponível e o gênero do indivíduo foram
explicitados, o efeito torna-se de aproximadamente -0,8012 minutos de sono para cada minuto
trabalhado, com uma razão-t de 20,41, como observado na tabela 2. Sendo essa também a regressão
de maior R² entre as especificações (79,89%), parece significativa a subestimação desse trade-off em
modelos que consideram a possibilidade de substituição de tempo de lazer ao invés de tempo de sono
para ganhar tempo de trabalho, ou, ainda, o impacto do trade-off entre trabalho e sono é mais
significativo em modelos mais robustos que consideram também o impacto do trade-off entre trabalho
e lazer.
6.1 O efeito da idade sobre o sono
Em conflito com a literatura estabelecida sobre o tema, as variáveis Age e AgeSq mantiveramse pouco significantes tanto no modelo inicial quanto para o modelo com os controles Smsa, Exper e
YrsMarr adicionados. Considerando então a possibilidade de que a variável Totwrk estivesse
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interferindo com as variáveis de idade, dada a relação direta entre a rotina de trabalho e a idade de um
indivíduo, a retiramos, e obtivemos o resultado consensual de significância a 90% da variável Age e
95% de AgeSq, com efeito de -22,1663 minutos de sono para cada ano adicional e 0,298675 minuto
de sono para cada ano adicional ao quadrado.
Esse segundo resultado parece nos apontar que o efeito da idade sobre o ciclo de sono de um
indivíduo só é significante através do canal da rotina de trabalho, diminuindo-o nos primeiros anos
onde a carga semanal torna-se maior e aumentando-o nos anos finais, quando o indivíduo reduz ou
elimina sua carga total de trabalho. Possíveis efeitos fisiológicos, caso existentes, não se mostraram
significantes em nosso modelo.
6.2 O efeito do gênero sobre o sono
No modelo com a simples introdução da variável Female, chegamos ao resultado contrário a
literatura onde, a um nível de significância mediano, mulheres dormiriam em média -87,7524 minutos
por semana que homens. Dada a presença da variável Totwrk, e com a menor inclusão da mulher no
mercado de trabalho e em jornadas de 8 horas de trabalho formal, principalmente em 1975, a
observação consensual aponta assim para maior tempo de sono feminino desconsiderando o tempo
trabalhado, enquanto nosso resultado demonstra que, com a mesma carga de trabalho semanal, os
indivíduos Female sofram com essa perda adicional de sono. Esse é nosso primeiro resultado no
sentido da possível existência de obrigações femininas adicionais ao tempo de trabalho formal que
interferem negativamente com a quantidade de sono.
Com a introdução de Leis2, entretanto, o tempo de lazer e Totwrk, com ainda mais força,
tornam-se os determinantes significativos do tempo de sono, enquanto a variável Female perde
significância. Dessa forma, nosso resultado anterior parece apontar para um menor tempo de sono
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feminino como consequência de um maior período semanal de lazer, ou, ainda, que mulheres optam
por tempo de lazer no trade-off com o tempo de sono. Considerando que a definição de tempo de lazer
na base de dados, porém, só subtrai trabalho formal, é possível ainda que o tempo de lazer feminino,
como descrevem Burgard e Ailshire, esteja superestimado por conta de atividades domésticas, o que
nos levou ao terceiro modelo com o maior conjunto de controles, porém retirando a variável Leis2.
Nesse novo conjunto de resultados, a variável Female, assim como outras das variáveis de
controle adicionadas, mantém-se pouco significantes. A variável de interação FemaleMarrKid,
entretanto, demonstrou significância ao nível 95% e impacto de -228,086 minutos de sono semanais
para mulheres casadas com crianças até 3 anos. Embora essa seja somente uma confirmação parcial
dos efeitos previstos na hipótese dos autores, a comparação com a variável de pouca significância
Yngkid, que engloba a presença de filhos pequenos para ambos homens e mulheres, demonstra a
relevância dos papéis de gênero previstos.
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7. Conclusão
Diante dos resultados encontrados, o efeito do trade-off entre o tempo de trabalho e os minutos
de sono parece significante e estável, ainda quando é dada aos indivíduos a possibilidade de arbitrarem
tempo de lazer para evitar a perda de sono. O efeito da idade, por sua vez, demonstrou ser
estatisticamente não significativo quando isolado do aspecto da carga de trabalho que em geral o
acompanha, o que levanta dúvidas quanto ao impacto previsto pela literatura médica da redução de
funções biológicas sobre nossa análise estatística.
Quanto à questão de gênero, fomos capazes de responder que sim, mulheres possuem
predominantemente mais minutos de sono semanais, revelado como consequência de menores
jornadas de trabalho. Esse resultado por si só não comprova a significância dos papéis de gênero sobre
o tempo de sono total, mas é acrescentado pela demonstração de que mulheres sofrem com um maior
impacto de redução de sono ao terem filhos pequenos dentro de um casamento ou ao assumirem a
mesma carga de trabalho, o que parece apontar para uma menor capacidade de arbitragem entre tempo
de lazer e tempo de sono. Esses resultados em particular demandam um maior desenvolvimento dentro
dos modelos articulados, e em particular de uma base de dados que possa ser expandida para incluir a
dimensão doméstica das atividades, mas serve como uma primeira avaliação estatística das hipóteses
levantadas pela literatura.
8. Referências Bibliográficas
Mander BA, Winer JR, Walker MP. Sleep and Human Aging. Neuron. 2017;94(1):19–36.
Burgard SA, Ailshire JA. Gender and Time for Sleep among U.S. Adults. Am Sociol Rev. 2013;78(1):51–69.
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9. Tabelas
Tabela 1: Descrição das Variáveis Utilizadas nas Regressões
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Tabela 2: Regressão Inicial sem controles e especificações para resultados sobre Idade e Sono
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Tabela 3: Especificações de controles para resultados sobre gênero e sono
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