PEÇA: ATÉ A ÚLTIMA FRONTEIRA — Mais que um Desafio, um
Chamado**
NARRADOR:
João é um rapaz conhecido na igreja. Dedicado, sempre presente, sempre com a Bíblia nas mãos.
Todos o admiram — o pastor o elogia, os amigos o respeitam, e ele mesmo sente que nasceu pra
servir.
Mas... servir até onde?
Até quando?
Até a última fronteira?
Certa noite, enquanto lia Isaías capítulo 61, seus olhos se prenderam às palavras:
> (João interrompe a fala do narrador recitando o versículo) “O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque o Senhor me ungiu para pregar boas novas aos pobres; enviou-me a curar os quebrantados
de coração, a proclamar liberdade aos cativos e a abrir a prisão aos presos.”
E foi ali... naquele silêncio, que tudo começou.
Cena 1
JOÃO (cheio de fervor):
Oh, glória! Aleluia! Bendito seja o nome do Senhor!
O Senhor me ungiu, eu sinto!
Pra pregar, pra libertar, pra curar, pra levar a Tua palavra aos confins da terra! Senhor, eis-me aqui!
Manda-me a mim! Porque eu sou ungido, ungido eu sou!
Eu tô pronto! Pode mandar pra qualquer lugar — cidade, deserto, floresta, outro país, outra tribo!
Pode mandar, Senhor, porque eu sou ungido, ungido eu sou!
**(Uma voz suave, firme, ecoa do alto.)**
VOZ DE DEUS:
Então vá... e pregue a Palavra.
(João se assusta, olha em volta.)
JOÃO: Senhor? Agora? Mas... pra quem?
MÚSICA ALEGRE
(Entra uma jovem alegre, com livros nas mãos — a VESTIBULANDA/Aninha.)
VESTIBULANDA (animada):
Passei! Eu passei! Consegui entrar em medicina! Meu Deus, eu nem acredito — primeiro lugar!
JOÃO:
Uau... que bênção! Parabéns! Inteligente demais essa menina.
VOZ DE DEUS: Pregue a
Palavra.
**(João hesita.)**
JOÃO (nervoso):
Senhor... pra ela?
Mas ela é estudiosa, inteligente, cheia de planos. Vai querer saber de mim?
Ela tem o futuro inteiro pela frente...
Ah, Senhor, talvez o Senhor tenha alguém mais preparado pra ela, alguém do meio acadêmico, quem
sabe...
(Abre a Bíblia, nervoso.)
“Passa de mim este cálice...” — é, Senhor, acho que o Senhor entende, né? Mas manda outro Senhor,
manda outro. Eu tô aqui! Porque eu sou ungido, ungido eu sou!
(VESTIBULANDA sai feliz no “passa de mim”. Entra uma mulher elegante, a MODELO, com um ar de
superioridade e um celular na mão.)
**MODELO:**
Hoje fechei um contrato internacional!
Todos me querem, todas as marcas me chamam. Sou linda, sou desejada, sou... o sucesso.
(João a observa, deslumbrado.)
JOÃO (baixo):
Meu Deus... realmente, viu? A cara do sucesso!
VOZ DE DEUS: Evangelize-a.
JOÃO (chocado):
Senhor... essa mulher?
Mas ela nem vai me ouvir!
Ela vive num mundo que eu nem entendo — fama, luxo, dinheiro... Como eu vou falar de cruz pra
quem vive de aplausos?
Não dá, Senhor... passa de mim.
Eu sou Teu servo... eu sou ungido, ungido eu sou, mas essa missão... essa é demais pra mim.
(Ele fecha a Bíblia com força. A música aumenta em intensidade, com um toque de tensão.)
NARRADOR:
E assim começa o conflito.
O chamado de João o confronta.
Entre o “Eis-me aqui” e o “Passa de mim”, há uma distância que só o amor verdadeiro pode
atravessar.
Mas até onde ele está disposto a ir... por amor às almas?
Cena 2
JOÃO (pensativo):
Eu disse que iria, não disse?
“Eis-me aqui, Senhor...”
Mas, na hora, parece que o medo fala mais alto.
Afinal... pregar é fácil no púlpito. Difícil é falar pra quem o mundo esqueceu.
(entra uma jovem de aparência rebelde — a TROMBADINHA. Música urbana ao fundo, ritmo leve
de rap ou batida de rua.)
VOZ DE DEUS: Fale do
Meu amor.
**TROMBADINHA 1:**
Ei, cara! Tem uns trocados aí?
(Ela simula planejar algo. Sempre mal encarado)
VOZ DE DEUS: Fale do Meu amor.
JOÃO (assustado):
Senhor, essa garota é perigosa!
E se ela me roubar? Se zombar de mim?
Eu sou Teu servo, mas não sou doido, Senhor!
Eles não vão querer ouvir sobre Jesus... eles precisam de polícia, não de pregação!
Tem missionários de rua pra isso, né? Eu... eu sou da Palavra, do estudo, da teologia!
(Ele se afasta lentamente, como quem foge.)
Não, Senhor... passa de mim também. Até porque eu sou ungido, ungido eu sou!
Cena 3
MÚSICA CASAMENTO
**NOIVA (feliz):**
Hoje é o dia mais feliz da minha vida!
Vou me casar com o homem que eu amo... ele prometeu me dar o mundo!
JOÃO (curioso):
Que bênção... e quem é o noivo?
**NOIVA (feliz):**
Ah, ele... Ele é um homem forte, bonito... Algumas pessoas me disseram que ele é perigoso, mas ele
me faz sentir viva!
(João se espanta.)
JOÃO:
Senhor... o noivo dela é um traficante! E o Senhor quer que eu pregue pra ela hoje?
Ela tá sonhando, achando que encontrou amor...
Se eu falar, ela vai rir de mim, vai me chamar de fanático! Não, Senhor, essa missão é demais.
VOZ DE DEUS: Pregue o evangelho.
JOÃO (quase gritando):
Mas Senhor! Eu já preguei tanto na igreja! Já ministrei, já cantei, já fiz missões locais! Por que o
Senhor insiste em me mandar pros lugares onde ninguém quer ouvir?!
Não dá, Senhor... passa de mim.
Eu te amo, até porque eu sou ungido, ungido eu sou, mas não posso ir tão longe.
Cena 4
NARRADOR:
E o tempo foi passando...
João dizia que amava o Senhor, mas seus passos paravam sempre antes da fronteira. Antes do risco,
antes da dor, antes do confronto.
Talvez ele não percebesse...
Mas cada “não” que dizia a Deus, o afastava um pouco mais do propósito eterno.
Os dias se transformaram em semanas...
E as semanas, em meses.
João continuava pregando — nos cultos, nas redes sociais, nos eventos — mas o eco do chamado
ainda o perseguia nas madrugadas.
Um chamado que ele fingia não ouvir.
MÚSICA ATENÇÃO
VOZ DE DEUS (ecoando forte):
Filho... há povos que nunca ouviram o Meu nome. Há línguas que nunca pronunciaram “Jesus”.
Há olhos que nunca viram uma Bíblia aberta. Quem irá por eles?
**MULHER 1 (com olhar triste):**
Meu povo vive nas montanhas.
Lá, não há Bíblia, nem nome de Jesus.
Dizem que o sol é deus, e a chuva é o castigo.
Mas, às vezes, eu olho pro céu... e sinto que há Alguém que me vê.
**MULHER 2 (com lenço na cabeça, olhar cansado):**
No deserto, as meninas da minha aldeia são prometidas antes dos 12 anos.
Nos ensinaram a calar... e a aceitar.
Mas, à noite, eu oro — mesmo sem saber a quem — pra que Alguém me escute.
(Silêncio. Elas olham para frente paralisadas como estátuas)
JOÃO (desesperado):
Senhor, até quando?!
Quantas vezes o Senhor vai me pedir pra ir?
O mundo é grande demais, o sofrimento é demais, a dor é demais! Eu sou só um homem... eu não
posso carregar isso tudo!
VOZ DE DEUS:
Pregue a Palavra.
JOÃO:
Mas e se eu falhar?
E se zombarem de mim? E se eu morrer, Senhor?
VOZ DE DEUS: Não te
mandei Eu?
Eu sou contigo até o fim dos tempos.
(João dá um passo pra trás, abalado.)
JOÃO:
E se eu morrer, Senhor?
VOZ DE DEUS (suave, mas firme):
Então morrerás em obediência.
Mas se te calares... outros morrerão sem salvação.
NARRADOR:
As vozes das nações ecoavam no coração de João...
Mas o medo, a vaidade e o conforto falavam mais alto. E a cada “não” que ele dizia, uma vida se
apagava.
Cena 5
SHIRLEY (prostituta)
E aí, menina? O que você tá achando do ponto hoje?
Ah, tá cheio de gatinho, viu? Acho que hoje vai render... já descolou alguém?
OUTRA PROSTITUTA:
Ontem eu dei sorte! Peguei um cara riquíssimo, uma verdadeira madame de novela. Me senti
poderosa!
Carro importado, perfume caro... por uma noite, achei que tinha vencido.
SHIRLEY:
Ah, deixa de história! Tu vive sonhando.
OUTRA:
É inveja, isso sim!
Pelo menos eu não fico parada esperando milagre.
JOÃO (se aproximando, constrangido):
Melhor seria trabalhar... o melhor ganho é o que vem limpo. Jesus pode mudar a vida de vocês, se
quiserem ouvir...
OUTRA:
Ah não... olha aí, o crente!
Só podia ser... vem falar de Deus logo aqui! (risadas)
JOÃO (baixo, aflito):
Misericórdia... Senhor, o Senhor não quer mesmo que eu fale pra elas, né? Não é pra mim esse
campo... não é pra mim...
VOZ DE DEUS (firme):
Fale do meu amor.
JOÃO (lutando consigo mesmo):
Mas Senhor... o povo vai julgar!
Se me virem conversando com elas, vão pensar mal!
O Senhor sabe, eu sou Teu servo, Teu ungido...
O Senhor me chamou pra multidões, pra grandes lugares! Não pra... isso.
Falar pra elas é pouco demais pra mim, Senhor.
Eu não posso me rebaixar... o Senhor entende, não entende? Mas manda mais, Senhor, porque eu
sou ungido, ungido eu sou!
NARRAÇÃO:
E assim, João seguiu o seu caminho...
Mas naquela noite, algo aconteceria que jamais se apagaria da sua memória.
(Surge Carla, andando lentamente. O som do vento se mistura com uma música
triste ao fundo.)
Cena 6
MÚSICA MAIS SÉRIA
PROSTITUTA (se aproximando):
Oh, Shirley, mulher, porque tu tá tão abatida, em?
SHIRLEY (olhar distante):
Tô... tô cansada.
Hoje me bateu uma dor aqui dentro que eu não sei explicar.
Sabe quando você percebe que ninguém nunca te amou de verdade? Nem pai, nem mãe, nem
ninguém?
OUTRA:
Ah, amiga, sei... Mas é só arrumar alguma coisa pra fazer que passa
SHIRLEY:
Eu achei que o dinheiro, a maquiagem, os homens... iam preencher. Mas tudo é vazio.
Eu olho pra mim e pergunto: o que eu sou nessa vida?
Sou só um corpo usado, uma alma esquecida.
(Pausa. Ela chora, respira fundo. Pausa e continua)
Eu tenho filhos... lá no sertão.
Eles acham que eu trabalho num banco.
Ah, se eles soubessem...
Eu não aguento mais mentir, não aguento mais viver assim. Mas quer saber? Eu tomei minha
decisão.
Amanhã... eu vou ser famosa.
Você vai ver meu nome, vai ver minha foto nos jornais.
Vai ser o último dia que vão rir de mim.
(A outra se vira de costas, olha num espelho e age como de aquilo tudo fosse uma grande baboseira)
PROSTITUTA (em choque):
Amiga deixa de besteira (ainda de costas) pra mim teu mal é fome...
SHIRLEY (entre soluços)
Faz um favor pra mim...
Se encontrar meus filhos, diz que eu amo eles... com tudo o que sobrou de mim.
(outra se vira num impulso e Shirley atira)
(Som de tiro. Prostituta se desespera grita e tenta fazer Shirley reagir, mas nada. A música cresce em
intensidade.)
JOÃO (entra correndo):
Carla! Carla!!!! Meu Deus... o que aconteceu?! Não... não pode ser!
Senhor, eu vi ela hoje, eu podia ter falado! Por que eu calei? Por quê?!
Ela morreu sem Te ouvir, Senhor!
A morte dela... É minha culpa!
VOZ DE DEUS (solene, cortante):
O sangue dessa mulher será requerido de ti.
Eu te chamei... e tu te calaste.
(João cai de joelhos, chorando intensamente.)
JOÃO:
Senhor, perdoa-me!
Eu pensei que o chamado era palco... mas era cruz. Pensei que era multidão... mas era compaixão.
Se ainda houver vida, se ainda houver tempo... Eis-me aqui.
Leva-me onde ninguém quer ir. Faz de mim a Tua voz... até a última fronteira.
NARRADOR (voz profunda e emocionada):
(enquanto o narrador fala todos os personagens voltam para o púlpito e seguram uns nas mãos dos
outros, menos Shirley)
A morte de Shirley não foi o fim...
Foi o despertar de um coração que havia adormecido. Quantas Shirleys mais precisam morrer... para
que a igreja entenda o valor de uma alma? Que o peso da omissão não pese sobre nós. Que o amor
fale mais alto que o medo, e que a voz do chamado ecoe além das paredes do templo. Há vidas
esperando, há almas clamando, e o nosso Deus... diz: Vão!
Sara:
A missão não acabou. Ela continua. Enquanto houver povos não alcançados, perseguidos ou
afastados, a Igreja precisa se levantar. E nós fazemos parte disso.