A Construção da Identidade e da Memória em Dom Casmurro, de Machado de Assis
Resumo
Este artigo analisa a construção da identidade narrativa e da memória no romance Dom
Casmurro (1899), de Machado de Assis. A partir da perspectiva do narrador-protagonista
Bentinho, investiga-se como a memória atua como instrumento de reconstrução subjetiva dos
acontecimentos e como essa reconstrução influencia a percepção do leitor acerca da suposta
traição de Capitu. O estudo fundamenta-se em conceitos de narrador não confiável e
subjetividade literária, buscando demonstrar que o romance ultrapassa a questão do adultério
e se consolida como reflexão sobre memória, ciúme e autoengano.
Palavras-chave: Machado de Assis; narrador não confiável; memória; identidade; literatura
brasileira.
1. Introdução
Publicado em 1899, Dom Casmurro insere-se no contexto do Realismo brasileiro e constitui
uma das obras mais discutidas da literatura nacional. A narrativa em primeira pessoa
apresenta a tentativa de Bentinho, já envelhecido, de “atar as duas pontas da vida” por meio
da escrita. No entanto, essa reconstrução memorialística levanta questionamentos sobre a
veracidade dos fatos narrados.
O objetivo deste artigo é analisar como a memória, enquanto construção subjetiva, interfere
na elaboração da identidade do narrador e na interpretação dos acontecimentos.
2. O Narrador e a Construção da Verdade
Bentinho assume o controle total da narrativa, selecionando episódios, descrevendo
personagens e interpretando ações. Essa centralização cria uma perspectiva unilateral dos
fatos. A crítica literária frequentemente classifica o personagem como narrador não confiável,
pois sua narrativa é atravessada por ciúme, insegurança e ressentimento.
A ausência de provas concretas da traição de Capitu reforça a ambiguidade do romance. A
semelhança entre Ezequiel e Escobar, por exemplo, é apresentada como indício, mas não
como evidência definitiva. Assim, a verdade no romance não é objetiva, mas construída
discursivamente.
3. Memória e Autojustificação
A memória em Dom Casmurro não se apresenta como registro fiel do passado, mas como
reconstrução seletiva. Bentinho escreve décadas após os acontecimentos, o que implica
distanciamento temporal e possibilidade de distorção.
Ao narrar, o protagonista parece buscar não apenas recordar, mas justificar suas atitudes e
decisões. O texto sugere que a escrita funciona como mecanismo de autopreservação e
tentativa de validação emocional.
4. A Ambiguidade como Estratégia Literária
Machado de Assis constrói o romance de modo a manter a dúvida como elemento central. O
autor evita oferecer respostas definitivas, transferindo ao leitor a responsabilidade
interpretativa. Essa estratégia consolida a obra como um marco do Realismo psicológico
brasileiro.
A ambiguidade não é falha narrativa, mas recurso estético que amplia a complexidade da obra.
5. Conclusão
A análise demonstra que Dom Casmurro transcende a discussão sobre traição conjugal e se
configura como reflexão profunda sobre memória, identidade e subjetividade. Bentinho, ao
narrar sua própria história, revela mais sobre si mesmo do que sobre Capitu. Dessa forma, o
romance permanece atual por sua capacidade de problematizar a construção da verdade e a
fragilidade da percepção humana.
Referências
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Garnier, 1899.
CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
SCHWARZ, Roberto. Ao Vencedor as Batatas. São Paulo: Duas Cidades, 2000.