UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO
PUBLICIDADE E PROPAGANDA - HISTÓRIA DA ARTE
“Romantismo e Realismo”, por René Galesi
Yasmin Baia Recla
O texto de René Galesi, apresenta uma reflexão sobre como os movimentos
artísticos do século XIX, em especial o Romantismo e o Realismo, foram essenciais
para a formação da modernidade, tanto no campo estético quanto no político e
social. O autor percorre os desdobramentos históricos e culturais que motivaram
essas transformações, articulando as obras e as trajetórias de artistas
emblemáticos, e incluindo imagens fundamentais que ilustram essas mudanças na
arte ocidental.
Ao longo do capítulo, Galesi demonstra como o Romantismo rompe com os ideais
neoclássicos, marcados pela razão, pela objetividade e por uma visão universalista
oriunda do Iluminismo. Em contrapartida, os românticos propõem a valorização do
sentimento, da subjetividade, do nacionalismo e da natureza, trazendo para a arte
um caráter mais íntimo e social. Por sua vez, o Realismo surge como uma reação
crítica tanto ao idealismo neoclássico quanto à emotividade romântica, pautando-se
na representação concreta da realidade social, sobretudo da desigualdade e das
classes trabalhadoras.
O autor inicia situando o Romantismo como uma consequência das grandes
transformações sociais, políticas e econômicas do final do século XVIII e início do
XIX, sobretudo a Revolução Francesa e a Revolução Industrial. Enquanto o
Neoclassicismo propunha um modelo universal, ético e racional, o Romantismo
surge como uma reação a essa rigidez, buscando na história, nos sentimentos
nacionais e na subjetividade a base para a criação artística.
Entre os conceitos fundamentais do Romantismo, Galesi destaca a ruptura com os
cânones neoclássicos, a valorização da emoção e da individualidade, o
nacionalismo e o culto à natureza. O Romantismo, segundo ele, começa como um
“estado de espírito”, mas se consolida como um movimento que centra sua visão de
mundo no indivíduo e em sua relação com a sociedade e a natureza.
Um exemplo expressivo dessa ruptura é a obra do espanhol Francisco de Goya,
cuja trajetória e produção refletem de forma intensa os ideais românticos. Goya,
embora contemporâneo de Jacques-Louis David, expoente do Neoclassicismo,
rejeitou os temas clássicos, preferindo retratar dramas humanos, pesadelos e
críticas à tirania. Obras como El tres de Mayo de 1808 e a série Os Desastres da
Guerra mostram a crueldade e a violência sofridas pelo povo espanhol durante a
invasão napoleônica, revelando o caráter humanista e visionário do artista. As
Pinturas Negras, criadas no final de sua vida, intensificam ainda mais essa visão
atormentada e subjetiva.
Outro artista essencial citado por Galesi é Théodore Géricault, cujo quadro A
Jangada da Medusa rompe com a glorificação heróica napoleônica, retratando um
episódio contemporâneo marcado pelo sofrimento e desespero humano. Sua obra,
carregada de energia e drama, aproxima-se do Realismo, inaugurando uma nova
sensibilidade.
Eugène Delacroix, por sua vez, reforça a dimensão política do Romantismo. Sua
célebre obra A Liberdade Guiando o Povo transforma um episódio revolucionário em
símbolo da luta por liberdade e justiça. A figura alegórica da Liberdade, mulher com
trapos do povo e fuzil, sintetiza o ideal romântico de liberdade nacional e de
engajamento social.
O Romantismo também valorizou o sublime da natureza, colocando-a como
protagonista das obras. Galesi dedica atenção aos paisagistas William Turner e
John Constable. Turner explorou a luz, a cor e os fenômenos atmosféricos para criar
paisagens carregadas de emoção e movimento, como em O Navio Negreiro, onde
denuncia os horrores da escravidão através de uma pintura caótica e vibrante.
Constable, em contraste, buscava fidelidade ao real, retratando as paisagens rurais
com detalhes minuciosos, como em A Carroça de Feno, e consolidando a paisagem
como gênero autônomo na pintura.
Enquanto o Romantismo ainda idealizava a subjetividade e a liberdade, o Realismo
emerge como uma resposta crítica às contradições sociais do século XIX, sobretudo
às desigualdades geradas pela industrialização e pelo capitalismo. Galesi explica
que os artistas realistas rejeitam tanto o idealismo romântico quanto o academismo
clássico, optando por retratar o cotidiano das classes trabalhadoras e camponesas
com crueza e sem idealizações.
Um dos primeiros artistas a incorporar essa nova perspectiva foi Honoré Daumier,
conhecido por suas caricaturas políticas. Ele usou a litografia para difundir críticas à
burguesia e ao sistema judicial, influenciado por Goya. Sua arte militante denuncia a
hipocrisia do poder e valoriza as lutas populares.
Jean-François Millet também se destacou nesse contexto, pintando a vida
camponesa com lirismo, mas sem esconder a dureza do trabalho rural, como em
Les glaneuses. Sua obra, apesar de criticada por seu sentimentalismo, representava
a dignidade das figuras humildes em harmonia com a natureza.
Gustave Courbet, por sua vez, radicalizou ainda mais a proposta realista, rejeitando
as convenções acadêmicas e retratando com brutal honestidade a vida dos
trabalhadores, como em Os Quebradores de Pedras. Courbet também se envolveu
diretamente na política, participando da Comuna de Paris, e influenciou movimentos
artísticos posteriores, como o Impressionismo.
O texto também dedica um trecho importante à análise do Academicismo no Brasil,
mostrando como ele foi utilizado para legitimar o império brasileiro e construir uma
identidade nacional. Sob a influência das academias europeias, a arte acadêmica
brasileira seguiu inicialmente os princípios neoclássicos, mas acabou absorvendo
elementos românticos e realistas.
Pedro Américo, com Independência ou Morte, representa bem a função ideológica
da pintura histórica, exaltando os sentimentos nacionalistas e reforçando o mito
fundacional do país. Victor Meirelles, em A Primeira Missa no Brasil, também
contribuiu para a construção dessa narrativa, retratando um evento simbólico da
colonização com rigor acadêmico e pesquisa histórica.
Em contraponto a essa visão idealizada, José Ferraz de Almeida Júnior retratou o
cotidiano do povo, afastando-se do ufanismo e se aproximando da sensibilidade
realista, como se observa em Caipira Picando Fumo.
O capítulo finaliza com uma reflexão sobre a fotografia, que emerge no século XIX
como produto do desenvolvimento técnico-industrial. Longe de substituir a arte, a
fotografia se torna também um meio artístico, com fotógrafos como Nadar
explorando as possibilidades estéticas dessa nova linguagem.
A fotografia impactou a pintura ao assumir algumas de suas funções tradicionais,
como retratos e paisagens, permitindo que os pintores explorassem outros
caminhos expressivos, mais subjetivos ou abstratos.
Conclusão
O texto de René Galesi oferece uma análise densa e bem articulada sobre como o
Romantismo e o Realismo contribuíram para a construção da modernidade artística.
Ele evidencia que ambos os movimentos, embora diferentes em suas propostas,
compartilharam a busca por uma arte mais livre, comprometida com os sentimentos
individuais, as questões sociais e a crítica ao status quo.
O Romantismo foi um movimento de libertação estética e emocional, que exaltou a
natureza, o nacionalismo e os dramas humanos. O Realismo, por sua vez, trouxe
para o centro da arte a realidade concreta das classes trabalhadoras e a crítica
social, inaugurando uma arte mais engajada.
As imagens analisadas ao longo do texto, como El tres de Mayo de 1808, A
Jangada da Medusa, A Liberdade Guiando o Povo, O Navio Negreiro, entre outras,
são fundamentais para compreender o impacto desses movimentos na história da
arte. Elas não apenas ilustram os conceitos discutidos, mas também funcionam
como exemplos potentes das transformações culturais do século XIX.
Em síntese, a leitura do capítulo mostra que o Romantismo e o Realismo não são
apenas estilos artísticos, mas também expressões de novas sensibilidades, de
novas formas de compreender o homem, a sociedade e a natureza, em um contexto
marcado por revoluções políticas, sociais e tecnológicas. Ambos movimentos
continuam inspirando artistas contemporâneos e são indispensáveis para entender
a arte moderna e suas raízes históricas.