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unidade 1
O que é Filosofia
Objetivos de aprendizagem
„„ Identificar no modo humano a origem e a necessidade
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da atividade filosófica.
„„ Conhecer e compreender a Filosofia como atitude,
autonomia, reflexão, crítica, criatividade, sabedoria e
visão de mundo.
„„ Identificar os primórdios da Filosofia e do pensamento
ocidental.
„„ Conhecer os objetivos e motivações do projeto
pedagógico do curso de graduação em Filosofia da
UnisulVirtual.
Seções de estudo
Seção 1 O desejo de compreender o mundo
Seção 2 O que é Filosofia?
Seção 3 Os primórdios da Filosofia
Seção 4 Filosofia na UnisulVirtual
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Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de estudo
Nesta primeira unidade, conversaremos sobre a importância do
pensar e sobre o desejo humano de compreender a vida e o mundo.
Também veremos o que é a Filosofia e conheceremos as principais
etapas que percorreu no Ocidente. Afinal, concluiremos que a
busca pelo conhecimento e pela sabedoria fez surgir a Filosofia, e
que esta muito caracteriza o modo humano de ser.
Seção 1 – O desejo de compreender o mundo
Nosso impulso ao conhecimento é forte demais para
que ainda sejamos capazes de estimar a felicidade sem
conhecimento, ou a felicidade de uma ilusão forte, firme.
(NIETZSCHE, 1983, p. 139).
Diante do mundo, da realidade que o cerca, encontram-se
no homem o desejo e a necessidade de conhecer, explicar,
compreender, dominar, etc. Desejo e necessidade nos tiraram das
cavernas, dando início à aventura humana.
Homem: um ser que pensa
O homem é o animal que pensa! Assim se define o ser cuja
principal característica é a racionalidade. A possibilidade do uso da
razão nos faz diferentes de todos os outros seres, caracterizandonos como senhor de engenhos e potencialidades. E nos coloca
diante da realidade. Diferentemente de outros seres vivos que estão
“apenas” imersos no mundo, o homem está diante do mundo,
enfrentando-o, dando-lhe um sentido, transformando-o.
Veja o que diz Buzzi sobre o pensar humano.
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Introdução à Filosofia
Para Buzzi (1983, p. 11), “Pensar, na significação etimológica
do termo, quer dizer sopesar, pôr na balança para avaliar o peso
de alguma coisa”. Assim, aprender a pensar é aprender a avaliar.
Descobrir o verdadeiro “peso” de cada coisa, fato, realidade.
É esta atividade que produz o conhecimento: a justa medida
sobre determinado objeto. É por isso que Buzzi diz que o
conhecimento das “coisas” é obra dos que pensam.
Um ser que busca explicações
A Filosofia é obra humana. É da atitude do homem que pensa.
Ao fazê-lo, constrói a sua existência e origina a Filosofia.
Pensar é filosofar. Tudo começou na Grécia, banhada pelo mar
Mediterrâneo, cujas águas foram o berço de civilizações e impérios.
É na Grécia, com suas costas irregulares e suas muitas ilhas, que
um punhado de homens contempla os mistérios do céu e do mar.
O homem exercita o pensamento, diante do mistério. O homem
que pensa é inquieto e suspeita do que vê. A realidade como
se apresenta instiga o pensamento. O exercício do pensamento
desvela mistérios, revela o escondido, descobre a realidade.
Veja o que expressa Martins Filho (1997, p. 19) sobre os
primórdios da Filosofia:
Nos primórdios da história, as explicações que os homens
davam para os fenômenos e para as coisas eram de caráter
mitológico: forjavam mitos em que os deuses permeavam
todos os acontecimentos (lendas e estórias de seres
fabulosos, heróis e divindades) e que eram transmitidos
de geração em geração através da tradição oral [...] Os
gregos são o primeiro povo a dar explicações racionais
às coisas, surgindo daí a Filosofia. No entanto, nos
seus começos, a Filosofia não se distinguia das demais
ciências: o conhecimento humano primitivo era um
amálgama único...
Afinal, o que leva um homem à Filosofia?
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Para Aristóteles, é a admiração. Desde que dotado para tanto,
o homem, impressionado pelo mundo que o circunda, pela
variedade e diversidade das coisas que lhe são próximas, e,
mesmo, as que se encontram bem distantes, tenta explicá-las com
o recurso da razão.
Parafraseando Pessoa: “Pensar é preciso! Viver não é preciso.”
Não há nesta frase do poeta nenhum desprezo pela vida, ou
elogio exagerado à racionalidade. Pessoa fala de precisão, da
confiança, da certeza que brota do exercício do pensamento,
contrapondo-se às imprecisões que marcam a vida,
principalmente quando vivida sem reflexão.
Veja que, já na origem da Filosofia ocidental, encontramos a
convicção de que a vida, sem reflexão, não tem sentido. Sócrates,
por exemplo, é um grande defensor desta perspectiva.
Um ser capaz de compreender
Compreender o mundo em que vivemos e o tipo de sociedade
à qual pertencemos, o tipo de cultura e de civilização que
nos envolvem é tarefa da qual nenhum de nós pode abrir
mão. Por isso, pensar é preciso, pois permite a construção do
conhecimento, e disto depende a qualidade das nossas escolhas, a
realização dos nossos sonhos e projetos.
Pensar nos faz sujeito, protagonista da nossa própria
história, senhor de si. Pensar liberta, torna-nos livres.
Sistemas autoritários, regimes totalitários, tudo faz
com que o homem não pense. Fazem uso de todas as
formas de manipulação, alienando-o da sua própria
existência, levando-o a realizar um projeto de vida
que não é seu.
O pensamento e o conhecimento produzem ideias, renovam
todas as coisas, reinventam o mundo. Entre as qualidades
exigidas de um gestor no mundo dos negócios, por exemplo,
sobressai-se a capacidade de pensar. Ou seja, avaliar o peso de
cada coisa, fato, situação. Medir o peso de cada atitude, escolha,
decisão. A sobrevivência e o sucesso pessoal e profissional,
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em realidade tão competitiva, dependem desta capacidade de
compreender o mundo que nos envolve, os relacionamentos e as
circunstâncias que nos definem.
Seção 2 - O que é Filosofia?
Você já pôde perceber que a Filosofia não é muito fácil de ser
definida, não é mesmo? Ela é conhecimento do homem sobre
si mesmo e o mundo. Diante desta afirmação, um universo de
saberes e mistérios podem ser vislumbrados.
Figura 1.1 - Immanuel Kant
Fonte: Neo Lumen Veritatis (2011).
Filosofia é uma atitude
Saiba que Filosofia é antes uma prática, um exercício do pensar.
Implica colocar a racionalidade a serviço da curiosidade, do
prazer de conhecer. Não basta apenas aprender uma série de
definições e teorias. É necessário aprender a filosofar. O filósofo
Immanuel Kant (1724-1804) costumava dizer a seus alunos:
“Não há Filosofia que se possa aprender, só se aprende a filosofar”
(KANT apud ARANHA e MARTINS, 1996, p. 72).
Filosofia é uma atitude! Você já deve ter ouvido esta expressão
em algum momento da sua vida: “Você tem que ter atitude!”
A atitude do filósofo caracteriza-se pela humildade
intelectual de quem convive com a dúvida; pela
admiração crítica diante dos mistérios e contradições
da realidade; pelo espanto e encantamento diante
do que se apresenta como normal ou natural.
Filosofia é autonomia
Conforme Pacheco e Nesi (2007, p. 23), a palavra “autonomia
está ligada à capacidade de pensar por si próprio”. Tem “origem
grega e é composta por duas outras palavras, autós e nómos.
Autós refere-se à condição de independência, de realizar algo
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por si mesmo, por si próprio. Nómos refere-se à lei, à norma, à
regra”. Autônomo “é aquele que é capaz de estabelecer regras e
procedimentos a partir de si mesmo”.
Os seres humanos encontram na autonomia um pressuposto
para a realização do sujeito no exercício da liberdade. Não
desenvolver esta habilidade implica ser conduzido, manipulado,
robotizado, coisificado. Filosofia é autonomia, pois, enquanto
reflexão, possibilita as escolhas que irão determinar os caminhos
pelos quais trilhará o indivíduo que pensa a vida e se torna apto a
conduzi-la segundo a sua própria vontade.
Filosofia é reflexão
O trabalho filosófico é um trabalho de reflexão. Esta palavra
define bem a atitude do filósofo: reflexão vem do verbo latino
reflectere, que significa voltar atrás. Filosofar significa, portanto,
retomar, reconsiderar os dados disponíveis, revisar, analisar,
examinar, prestar atenção. É este o sentido da expressão “acercarse amorosamente do saber”.
A Filosofia é um exercício de raciocínio, é uma maneira
de se posicionar diante das coisas e fatos do mundo.
A Filosofia não é um conjunto de conhecimentos
prontos, um sistema acabado, fechado em si mesmo.
Mas um constante ver e rever, que permite o desenvolvimento e a evolução.
A reflexão é o que qualifica o conhecimento filosófico, e esta
reflexão tem que ser um exercício profundo e sério: ela tem que
ser crítica.
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Filosofia é crítica
A palavra crítica vem do grego “krisis” (crise) e significa
purificação, crescimento. É o conceito de crítica que torna a
reflexão filosófica qualitativamente superior a uma reflexão, pelo
simples prazer de refletir.
Conforme Pacheco e Nesi (2007, p. 25), “a crítica está ligada a
nossa capacidade de questionar e julgar”. Criticar significa “não se
conformar com as explicações já fornecidas sobre o nosso mundo”
e a realidade que nos cerca. A crítica está sempre em relação com
algo que nos é apresentado. É uma maneira privilegiada de nos
posicionarmos perante fatos, objetos, conceitos e situações. O
filósofo, feito criança envolta num mundo de muitos e variados
porquês, não pára de questionar. Tem um espírito inquiridor,
inquieto, investigativo.
Conforme Pacheco e Nesi (2007, p. 25), criticar abrange duas
características básicas: questionar os fundamentos, as idéias, as
causas e os efeitos de um fenômeno; julgar estes fundamentos ou
idéias como aceitáveis ou não.
Filosofia é crítica. A filosofia parte do que existe, analisa, critica,
coloca em dúvida, faz perguntas importunas, abre a porta das
possibilidades, faz entrever outros mundos e outros modos de
compreender a vida.
A Filosofia questiona o modo de ser das pessoas, das
culturas, do mundo. Questiona as práticas política, científica, técnica, ética, econômica, cultural e artística. E, por
isso, incomoda. A Filosofia quer encontrar o significado
mais profundo dos fenômenos. Não basta saber como
funcionam, mas o que significam na ordem geral do
mundo humano. A Filosofia emite juízos de valor, ao
julgar cada fato, cada ação em relação ao todo.
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Filosofia é criatividade
A Filosofia é criatividade e, conforme Pacheco e Nesi (2007, p. 25):
a criatividade está relacionada com a nossa capacidade de
gerar [novas explicações e realidades,] de criar o novo. [É
a atitude ou atividade criadora.] A criatividade representa
um passo posterior em relação à crítica. Se, ao criticar,
questionamos e julgamos as explicações sobre o nosso
mundo, então, agora estamos preparados para desenvolver
a criatividade, ao propor uma ‘nova’ explicação sobre o
mundo.
A crítica queima e purifica. A criatividade, por sua vez, constrói
o novo.
Aqui a Filosofia encontra-se com a ousadia. O filósofo não
tem medo de balançar as estruturas do que está estabelecido
e caminhar em direção ao novo, ao inaudito. O filósofo é
pensamento em busca do novo. Atividade de quem apressa o
parto de novas ideias e concepções, gerando novos sentidos e
explicações para a realidade.
A criatividade, enquanto atitude filosófica, exige a contemplação, a admiração, que são filhas do tempo. A
criatividade exige o tempo da gestação do novo. Por isso
ela não pode ser apressada sob pena de ser falseada e
confundida com mero modismo, que muito barulho faz
para, num breve e curtíssimo tempo, dissolver-se no ar
pueril das novidades.
Filosofia é amor à sabedoria
A etimologia da palavra Filosofia confirma o enunciado. O
vocábulo, originário do verbo grego philosophein, significa amar
(philia) a sabedoria (sophia) ou procura amorosa da verdade,
entendida como reflexão da pessoa acerca da vida e do mundo. A
Filosofia, além de sofia (saber, ciência), é a procura dessa sofia.
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A essência da Filosofia é a procura do saber e não
somente a sua posse: “O que eu sei, é que nada sei”,
dizia Sócrates (470-399 a.C.). O sábio não julga saber,
o sábio busca, procura, investiga. O verdadeiro sábio
sabe que a verdade não lhe pertence e, por isso, acerca-se amorosamente dela.
Figura 1.2 – Pitágoras
A palavra Filosofia foi utilizada pela primeira vez por Pitágoras Fonte: Souza (2008).
(século V a.C.). Em resposta aos que o chamavam de “sábio”,
Pitágoras retrucava, exigindo não ser chamado assim, mas apenas
de “amante da sabedoria”, alguém que procura pelo saber, ou seja:
um filósofo. Veja a figura 1.2.
Filosofia é visão de mundo
Filosofar é olhar o mundo com os “olhos” da Filosofia. Por ser
uma particularidade do ser pensante, há um grau considerável de
subjetividade na atitude filosófica. Os filósofos podem chegar a
conclusões diversas, dependendo das premissas de partida e da
situação histórica dos próprios pensadores.
A Filosofia está sempre vinculada a um determinado contexto
histórico que procura, ao seu tempo, responder às questões que
intrigam a racionalidade humana. Estas diferentes concepções
são chamadas de sistemas filosóficos. Mas, em qualquer situação,
o processo do filosofar ultrapassará a mera informalidade,
enquanto compromisso com respostas satisfatórias e com assento
na realidade.
A Filosofia informal
Na vida cotidiana, as pessoas deparam-se com situações para as
quais buscam respostas. Estas questões rotineiras são refletidas no
ritmo em que acontecem, sem nenhum compromisso com a lógica,
a coerência, o formalismo científico, por pessoas comuns, dotadas
de racionalidade. Este pensar cotidiano dá origem a uma “filosofia”
vulgar, ou seja, popular, ou do povo. Uma sabedoria de vida.
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Além destas reflexões que são provocadas naturalmente pelos
acontecimentos diários, as pessoas optam -- condicionadas pelo
meio em que vivem ou por tradições arraigadas -- , por princípios
básicos que norteiam as suas vidas. E, de alguma forma, mesmo
sem ser filósofo, toda pessoa tem uma proposta de vida, valores
que são eleitos no decorrer da vida, um perfil do que pretende
realizar na sua existência, uma maneira específica de enxergar e
viver a realidade, mesmo que isto não seja muito claro para ela.
Eis aqui o que podemos chamar de “filosofia” de vida.
É preciso deixar claro, no entanto, que esta “filosofia” informal é subjetiva e superficial. Não obedece a
nenhuma exigência formal ou rigorosa. É construída
artesanalmente ou espontaneamente, de acordo
com a vida que cada indivíduo vai levando. Seu único
limite são as convenções sociais, o espaço do outro.
Assim compreendida a Filosofia, cada ser humano
é um filósofo, pois pensa, reflete e cria a sua própria
forma de enxergar o mundo.
A Filosofia formal
A Filosofia não se resume apenas à filosofia de vida. Ela também
tem sua elaboração formal, seu compromisso com a lógica, seus
critérios universais. É a chamada Filosofia formal.
Para que uma reflexão possa ser chamada de filosófica, é preciso
que satisfaça a uma série de exigências. Entre elas, Saviani (2002)
destaca três:
„„
„„
radicalidade: a Filosofia exige que a questão a ser
analisada seja colocada em termos radicais. Quer dizer, é
preciso que se vá até as raízes, até seus fundamentos, ou
seja, uma reflexão em profundidade;
rigorosidade: deve-se proceder à reflexão com rigor, ou
seja, sistematicamente, segundo métodos determinados;
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„„
totalidade: a questão não pode ser analisada de
modo parcial, mas em uma perspectiva de conjunto,
relacionando-a com os demais aspectos do contexto em
que está inserida.
O filósofo, além de pensar com maior rigor lógico,
com maior coerência, com maior espírito de sistema,
deve conhecer a história do pensamento humano,
saber explicar o desenvolvimento que o pensamento
teve e ser capaz de retomar os problemas a partir do
ponto em que se encontram, depois de terem sofrido
as mais variadas tentativas de solução. Esta estrutura
racional de tratamento das questões promove a passagem do mito para o logos, das explicações mitológicas e religiosas para as explicações racionais.
Seção 3 - Os primórdios da Filosofia
Na história do pensamento ocidental, a Filosofia nasce na
Grécia, por volta do século VI a.C. Surge, por meio de longo
processo histórico, promovendo a passagem do saber mítico ao
pensamento racional.
O que caracteriza, portanto, a origem da Filosofia, o
aparecimento do espírito filosófico enquanto tal é a
passagem das explicações a partir do sobrenatural
para as explicações racionais ou humanas.
Os primeiros filósofos, assim como os poetas Homero e Hesíodo,
buscam uma explicação para a relação entre o caos e a ordem
do mundo. O que muda é a maneira de entender essa relação.
Enquanto o poeta vê os deuses como os responsáveis por tudo
que existe e acontece, os antigos pensadores preferem partir das
formas da natureza (terra, água, ar etc...) para entender a vida.
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