CMU 0691 - Seminário de Execução Musical III
Docente responsável: Prof. Dr. Alexandre Fontainha Ficarelli
Período - 19/04/2021 - 26/07/2021
David Manoel Silva Brasil n. USP 11227150
Ricardo Ballestero - Aula ministrada em 24/05
(Resenha)
A aula do professor Ricardo Ballestero sempre é carregada de ideias musicais inspiradoras que
abrem um leque gigantesco para a interpretação criativa da obra que está sendo estudada. Digo isso
por ter tido o privilégio de ser orientado por ele na matéria de música de câmara, e essa experiencia
possivelmente influenciou a minha escolha sobre qual aula comentar nessa resenha.
A primeira aluna a apresentar foi a fagotista Gabriela Matsas, tocando uma transcrição do Prelúdio
da primeira suíte para violoncelo de Bach.
O professor iniciou sua fala contando sobe uma experiencia sua em uma aula de contraponto, onde
o professor propôs uma série de exercícios com o intuito de criar uma base sobre como construir um
pensamento contrapontístico bachiano. Começando com exercícios de baixo cifrado para entender
as possíveis progressões harmônicas dentro do gênero em questão e em seguida pedindo para que os
alunos escrevessem um prelúdio em cima de uma progressão harmônica pré estabelecida por ele.
Norteados por algumas instruções dadas pelo professor, como por exemplo, à principio deveria ser
criado uma figura pouco regular, para condizer com a proposta barroca, depois, pontuar as
cadências e também explorar o registro do instrumento em algum ponto do prelúdio.
O cromatismo assim como o próprio distanciamento da tonalidade, foi um ponto frisado pelo
professor, onde é possível tomar mais tempo e evidenciar as tensões escritas. Em seguida, olhando a
parte podemos entender as nuances e contrastes propostos pela harmonia e pelo movimento e
direção das estruturas rítmicas, sempre buscando enxergar à partir de uma visão mais ampla da
coisa. Observando tais aspectos podemos construir a interpretação, tensionando e relaxando nos
momentos adequados para dar vida a obra. No compasso vinte, temos a nota mais grave até então e
é justamente um trítono com relação a tonalidade da obra, isso deve ser claramente enfatizado. Os
materiais de repetição sempre devem ser colocados em segundo plano para enfatizar o material
principal da passagem, é importante observar esses aspectos já que nem sempre estão claros na
performance. A escala cromática do compasso trinta e sete evoca um crescendo de dinâmica e
tensão que deve ser explorado, conduzindo a frase para seu ápice. A respiração foi abordado como
um dos principais assuntos. Em função de sua experiencia com cantores, o professor explicou que a
respiração antes de mais nada é fundamental para viver, pensando nisso, devemos sempre
considerá-la como um aspecto importante da performance de qualquer instrumento, certamente para
instrumentos de sopro não é diferente. Primeiramente foi chamado a atenção para a inevitabilidade
da respiração na obra, ainda que de um ponto de vista simplista, a partitura não possui lugares para
respirar, contudo precisamos entender que a respiração vai ocorrer, e não pode ser ocultada. Então
devemos cuidar do entorno desse inevitável momento de respiração. A principio podemos
manipular o tempo, dilatando o mesmo para minimizar o momento da respiração de modo que não
interfira no fluxo de continuidade da obra. Após essa respiração, o tempo pode ser reestabelecido
sutilmente ou subitamente com um dinâmica bastante suavizada.
O professor Ficarelli comentou brevemente no final, aconselhando a aluna a praticar a respiração
continua para interpretar a obra em questão. O arco do violoncelo tem um caráter continuo que pode
ser atingido no fagote por meio de alguns artifícios, dentre eles, a respiração contínua. Comentou
também sobre uma masterclass onde o professor aconselhou o estudo da respiração no geral, a fim
de nos tornarmos capazes de controlar com mais propriedade nossos ataques e finalizações. Por fim,
comentou sobre uma passagem do final da suite que possui varias trocas de cordas quando tocadas
por instrumentos de cordas. Aconselhou a aluna a buscar um timbre mais fanho nas notas que
teoricamente seriam em outra corda, através de recursos do próprio fagote, aludindo à troca de
corda do violoncelo.
O outro aluno a se apresentar foi o clarinetista Wallace Cavallari, interpretando uma obra de Béla
Kovács, Homenagem a Richard Strauss. O professor Ballestero iniciou a aula comentando à partir
da partitura, chamou a atenção para os elementos constituintes da obra. Um primeiro elemento com
forte perfil rítmico seguido por um contrastante menos incisivo. Sendo assim, seria interessante
procurar mais estabilidade nesse primeiro elemento mais rítmico. Em seguida no nove por oito,
alguns gestos novos são apresentados, esses gestos são escalares e possuem dois elementos
principais que consistem na base central desta obra. Esses elementos devem ser racionalizados e
utilizados na construção de uma interpretação, os elementos a se considerar são, quantos materiais
distintos existem e quais as características desses materiais. Baseando-se nessas questões, devemos
buscar inferir ideias na interpretação que não foram notadas pelo compositor, possivelmente para
que o próprio interprete tenha espaço para explorar suas ideias. O professor sugeriu que as notas
curtas que precedem notas longas sejam mais conectadas de fato, numa espécie de crescendo
surgindo de dentro da nota longa, sem seccionar a passagem. Comentando um pouco sobre Strauss,
o professor explicou que as óperas compostas por ele como O Cavaleiro da Rosa e Electra possuem
diversos elementos que são reaproveitados na peça do Kovács, logo, podemos usa-las como
referenciais para a interpretação da obra em questão. A ausência de uma tonalidade pré estabelecida
pode ser a norteadora de um processo de busca de recursos interpretativos contrastantes no
instrumento. Os impulsos da obra devem ser priorizados também, pensar o ritmo com sua devida
importância mas usar o gesto como fator principal. Em suma, a liberdade possível na interpretação
deve ser embasadas nas referencia obtidas à partir da escuta das óperas de Strauss.
Por fim, o professor Alexandre comentou sobre a necessidade do interprete pesquisador, que busca
referencias e intenções para construir sua interpretação. E não a ideia de separação que comumente
é feita entre interprete e pesquisador. Devemos sempre entender a interpretação de uma obra como
um processo de pesquisa, buscando nossas próprias ideias e explorando os elementos possíveis que
estão além da notação musical. Decorar talvez seja um bom primeiro passo para explorar esse
campo interpretativo mais desconexo da mera leitura da partitura. Antes de finalizar a aula, o
professor reforçou a recomendação dada anteriormente por Ballestero, no que se diz respeito a
buscar conhecer e entender o compositor em questão, afim de iniciar o processo interpretativo com
diversas ideias e possibilidades latentes em sua imaginação.
Gostaria de comentar um pouco sobre a relevância da matéria de seminário para mim. Decidi cursar
a matéria como optativa por ter aproveitado muito os outros semestres que à cursei. A ideia da
matéria em si é maravilhosa, ter a possibilidade de escutar professores extremamente qualificados
dando aulas para alunos de instrumentos diferentes do seu, desafio os dois lados, mas resulta em
uma troca riquíssima de questões que estão muito além da técnica e que as vezes são negligenciadas
por nós. Minha experiencia pessoal com a matéria é a melhor possível, em mais de uma ocasião, um
conselho dado por um professor especialista em um determinado instrumento para um aluno que
toca outro instrumento, foi completamente útil no meu estudo de violino, um terceiro instrumento
diferente nessa trama. Ou seja, a pluralidade de conhecimento e a troca de informações que existe
nessa aula em função da estrutura proposta, torna a matéria de Seminário de Execução Musical
essencial para os mais diversos tipos de alunos aspirantes a musico.