Linguagem didática - uma nova conceituação Emília M. Romariz Costa * 1. 1. Introdução. 2. Histórico. 3. Linguagem. INTRODUÇÃO Após a leitura de alguns livros de didática, causou-nos especIe a classificação de linguagem didática ao meio usado na escola para a transmissão do ensino. Dos nossos estudos, relacionados com a lingüística, em nenhum momento encontramos tal classificação. Seria, então, o caso de procurarmos em livros especializados de teoria da comunicação, já que a transmissão cultural é um dos objetivos desta ciência. Também foi em vão, pois nada havia concernente a isto. Não nos restou senão fazer um estudo aprofundado dos vários tipos de linguagem, aliado aos dos gêneros literários, para ver até onde chegaríamos. Logo, inicialmente, distinguimos linguagem usada na escola para a transmissão das mais variadas informações ou no desenvolvimento de bons hábitos e efetivas habilidades, da linguagem usada pelos mestres para a divulgação dos seus princípios didáticos. Cabe-nos, então, distinguir a linguagem dos mestres, ou seja, a transmissão de princípios e técnicas didáticas, isto sim, pelo emprêgo de uma terminologia própria, distinta da usual, com cono• Professõra do Colégio de Aplicação da UFRJ. Curriculum, Rio de Janeiro, 10(4) : 13/23, out./dez. 1971 tações específicas, em tudo digna de ser chamada linguagem didática como língua técnica que é, da linguagem usada pelos mestres, quer na sua exposição oral, quer na escrita, para transmitir a sua herança cultural, que está diretamente relacionada com a teoria da comunicação. Certamente, mesmo falando ou escrevendo aos seus pares, o professor estará usando dos recursos proporcionados pela teoria da comunicação, mas, sem dúvida, a sua linguagem revestir-se-á de têrmos técnicos a que sàmente os iniciados saberão dar o verdadeiro valor. Nos livros de didática, as características dadas a êste tipo de linguagem, em nada diferem das dos demais tipos já que se referem à propriedade da linguagem, ou às qualidades de estilo. Tôda a exposição oral tem por obrigação seguir os preceitos apresentados: clara, simples e acessível; sóbria, direta e incisiva; exata e precisa; gramaticalmente correta; e, tendo, quando oral, características fundamentais da elocução: bem articulada e enunciada com boa dicção; natural e fluente, sem precipitação; animada, expressiva e, por vêzes, enfática; dotada de bom volume de voz e bom timbre. As características, relacionadas anteriormente, são comuns a tôda linguagem que pretenda ser adequada, efetiva e produtiva. Nada há que a torne especial, tipicamente didática, já que não há elementos distintivos de outros tipos de comunicação. Preocupou-nos, paralelamente, o estudo da exposição didática escrita. Para tanto, recorremos a diversos autores e procuramos descobrir as peculiaridades de sua linguagem. Não foi surprêsa, vermos que o objetivo didático está presente em quase tôdas as produções literárias, já que o homem não se satisfaz simplesmente em comunicar, êle quer também persuadir, levar o leitor a uma modificação do seu comportamento após a leitura de sua obra. Neste desejo de transmitir suas experiências, o escritor não usa de recursos lingüísticos específicos, quer em prosa quer em verso, nos mais variados gêneros literários; a linguagem não tem especificidade pelo fato de ter um objetivo subsidiário, sem dúvida, didático. 14 Curriculum 4/71 Parece-nos, então, que a linguagem é um meio e como tal terá suas características como a lingüística, a poética ou a estilística, servindo aos mais variados objetivos, entre êles, o didático. Por êste estudo que ora apresentamos, procuraremos conceituar o que seja linguagem, em que esta poderá distinguir-se de língua, os vários tipos de língua, as funções da linguagem, as diferenciações entre língua escrita e falada, e complementar o nosso estudo com uma relação de têrmos específicos da didática. Como introdução ao nosso trabalho, andamos pesquisando na Antiguidade clássica, pelo fato de, entre os antigos, o objetivo didático ser altamente relevante nas suas obras, alguma coisa que caracterizasse a linguagem usada. 2. HISTÓRICO o primeiro homem que falou teve em mente transmitir uma mensagem ao seu semelhante, integrando-se com êle pela troca de experiências. Mas, insatisfeito com as limitações da palavra falada, procurou dar-lhe maior amplitude no tempo e no espaço e concebeu a escrita que eternizaria as suas mensagens. Desde os mais antigos documentos literários de origem religiosa e moral, patenteia-se a preocupação de transmitir às novas gerações as experiências, o acervo de conhecimentos capitalizado pelas gerações passadas. Ao analisarmos o Antigo Testamento, encontraremos os primórdios de uma doutrina moral e religiosa, fruto do temor humano diante da divindade, vazados em linguagem poética com objetivo didático. Mesmo na Antiguidade Clássica, a poesia não estava afastada do ensinamento religioso unido ao moral. Segundo Platão, seus contemporâneos consideravam Homero, na Zlíada e na Odisséia, o educador de tôda a Grécia, acentuando assim o caráter moralizR.nte do primeiro poeta épico. Revelava-se com isto, que no antigo pensamento grego a estética não se separava da ética. Os poetas líricos, como Semônides de Amorgos, ou satíricos, como Arquíloco, não descuidavam do caráter educativo ao relatar os Linguagem didática 15 seus desencantos pessoais ou ao atacar a sociedade da época. Sob a forma do verso iâmbico, a poesia jônica revela a sua preocupação didática. "Para que novas eXlgencias obtenham o reconhecimento público era necessário que se expressassem na forma didática e reflexiva própria da elegia e da poesia iâmbica posterior a Arquíloco. O he~ donismo não se revela nela como um sentimento acidental do in~ divíduo. Pelo contrário, fundam os poetas o 'direito' do indivíduo ao gôzo da vida em princípios universais. Os poemas de Semôni~ des e Mimnermo recordam a cada passo que nos achamos nos tempos em que vai dar comêço a consideração racional da nature~ za e da filosofia natural milésia. O pensamento se detém ante os problemas da filosofia relativos a êste período, ao limitar-se, a maioria das vêzes, ao aspecto cosmológico. Invade e inspira o espírito da poesia que desde então se converte em portadora de idéias morais. Lamentam-se problemas que devem ser discutidos por si mesmos, o poeta aparece a seus ouvintes como filósofo da vida. Os poemas que se conservaram de Semônides não são já, como em Arquíloco, meras expansões impulsivas que podem tomar ocasionalmente a forma reflexiva, senão verdadeiramente alocuções di~ dáticas, sôbre um tema determinado". 1 O emprêgo da poesia para a transmissão do conhecimento e de experiências pessoais, nas primitivas sociedades, é perfeitamente explicável, já que, não dispondo de outros meios de comunicação, como a imprensa, por exemplo, êles tinham de contar tão-somente com a transmissão oral, confiando apenas na memória para verem as suas idéias mais amplamente difundidas. Acrescente-se a isto, a superioridade conferida à poesia, fazendo com que ela servisse para a glorificação de grandes temas, como a filosofia materialista e cosmogônica dos primeiros pensadores gregos. Nunca se sentiu tanto o valor moral e didático quanto nas produções dramáticas dos grandes trágicos gregos Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, que, por meio de seus versos, cumpriam a mais alta função educativa, incutindo nos espectadores o respeito aos deuses e ao Estado e glorificando os heróis nacionais. 1 JAEGER, 16 Werner. Paidéia. v. 1, p. 149. Curriculum 4/71 A tradição didática da poesia transmite-se a Roma como advento do helenismo. É, sem dúvida, o poeta epicurista Lucrécio quem melhor vai representar esta fusão do ensino e da poesia. "Assim como os médicos, quando tentam dar às crianças o repugnante absinto, primeiro põem no bordo da taça, louro, fluido e doce mel, de modo que, pela idade imprevidente e pelo engano dos lábios, tomem a amarga infusão do absinto e, não significando êste engano prejuízo, possam dêste modo readquirir saúde, assim também eu, como esta doutrina parece muito desagradável a quem não a tratou, e foge diante dela, horrorizada, o vulgo, quis, em verso eloqüente e harmonioso, expor-te as minhas idéias, e ungilas, por assim dizer, do doce mel da Musa; a ver se por acaso posso manter o teu espírito encantado com meus versos, enquanto penetras tôda a natureza e as leis de sua formação". 2 A glorificação de suas tradições, de suas crenças, de seus princípios morais, de sua superioridade histórica está sempre presente nos principais poetas latinos, quer líricos quer épicos. A Eneida é a exaltação de um passado de sacrifícios, promessa de um futuro venturoso. Nas Bucólicas, cantando a tranqüilidade da vida campestre, ou nas Geórgicas, recordando as primitivas lendas, a mensagem é sempre de retôrno aos campos, de cultivo das terras, de admiração pelo homem simples, pastor ou agricultor, responsável pelo futuro de Roma. Horácio, na variedade dos seus metros líricos, transmite o ideal moral da política renovadora de Augusto, no seu desejo de paz social e produção agrícola. Ainda mais longe foi êle, ao pretender ensinar aos nobres da época a criar obras literárias, escrevendo as famosas Epistulae ad Pisones, ou seja, a Arte Poética, em versos, para testemunhar a efetividade dos seus ensinamentos. Diz, Horácio , na sua obra citada: "Aut prodesse volunt aut delectare poetae Aut simul et iucunda et idonea dicere vitae" 3 2 LUCRÉcIO. De natura. p. 73. a HORÁCIO. Epistulae ad Pisones. versos 333/334. Linguagem didática 17 (os poetas querem ou ensinar ou agradar ou, ao mesmo tempo, dizer coisas úteis e agradáveis da vida). Vimos, portanto, pelos mais variados poetas da Antiguidade, o objetivo didático presente nas suas obras e a poesia, como a forma empregada para a transmissão de ensinamentos e de experiências, obedecendo ao princípio de que o belo é o bom, ressaltando que a estética não está dissociada da ótica. Mas é na prosa, com os sofistas, que a função didática mais se acentua. Êstes primeiros professôres eram mestres na dialética e na arte da persuasão - a oratória. Para os sofistas, a verdade está onde a linguagem pode levar, partindo daí a crítica de Sócrates aos seus métodos, revelada nos diálogos de Platão. Baseados em processo de raciocínio, fundamentados sàmente na oratória, chegam às mais absurdas conclusões. "A retórica constitui a forma predominante da educação nos últimos tempos da Antiguidade. Adaptava-se de um modo tão perfeito à predisposição formal do povo grego, que se converteu numa fatalidade, ao desenvolver-se como uma rêde sôbre tudo mais. Porém êste fato não deve influir em nossa apreciação da importância educadora do nôvo descobrimento. Na união da gramática e da dialética, a retórica se converteu no fundamento da formação formal do mundo ocidental. Constituíram juntas, desde os últimos tempos da Antiguidade, o chamado 'trivium', que juntamente com o 'quadrivium' constituíram as artes liberais que sobreviveram nesta forma escolar a todo o esplendor da arte e da cultura antiga". 4 Sócrates, Platão e Aristóteles, ao optarem pela prosa, opondo-se aos filósofos cosmogônicos, conferiram-lhe uma dignidade desconhecida até então para a expressão superior do pensamento - a filosofia. Seja por diálogos, seja por exposições filosóficas, em tôdas as suas comunicações sente-se o caráter didático. • JAEGER, 18 Werner. Paidéia. v. 1, p. 331. Curriculum 4/71 A importância da oratória entre os romanos faz com que ela se torne a mais relevante das disciplinas nas escolas romanas de eloqüência. Simulando discussões para o adestramento dos futuros advogados nos recursos oratórios, nas suasoriae - obras de caráter político ou ético - e nas controversiae - discursos do gênero jurídico - procuravam aperfeiçoar-se na arte mais caracteristicamente romana de comunicação social, expondo suas idéias, defendendo suas opiniões. Nunca a prosa alcançou lugar mais alto que entre os romanos. Longe estamos dos primeiros helenos que julgavam que somente a poesia glorificavam um tema. A dignidade, conferida pelos romanos à prosa, fêz com que ela se tornasse o meio mais comum para a comunicação e a interação social. Já agora todos os gêneros podem ganhar a forma discursiva e corrente, e ela é considerada como um reflexo do amadurecimento cultural de um povo, pelo seu caráter racional e lógico. Por Quintiliano, nas suas Instituições Oratórias, vão ser definidas as três propriedades fundamentais da linguagem: a correção, a clareza, e a elegância, considerando o gramático as demais que possam ser aventadas como ornato de estilo. Para Quintiliano falar bem é uma decorrência de conhecer e aplicar as regras gramaticais. Vemos, portanto, que estas propriedades pertencem a qualquer tipo de expressão, prosa ou poesia, a qualquer gênero, épico, lírico ou dramático, enfim, devem estar presentes sempre que se tem em mente escrever ou falar. São qualidades inerentes à linguagem e transcendem a qualquer linguagem específica. Concluímos, ainda, pelo exposto, que os objetivos a que se propõe um autor não estão limitados a um gênero literário específico como tão pouco a uma forma especial. Podemos ter um objetivo didático no gênero épico, lírico ou dramático, formalizado em prosa, ou poesia. Convém, apenas, ressaltar a prioridade de um objetivo sôbre os demais. O objetivo didático será sempre subsidiário nas obras de literatura, já que o seu primeiro objetivo será sempre a mensagem poética, em que a língua é, a um só tempo, meio e fim. Linguagem didática 19 Nesta busca da interação social, por outro lado, a arte sempre didática, procurando desenvolver a sensibilidade do indivíduo e conduzi-lo a um maior aperfeiçoamento. Vimos, portanto, que o problema resulta apenas em uma teleologia, ou seja, no estudo dos objetivos, e não nos meios que usamos, já que êles são comuns a várias formas de expressão. 3. LINGUAGEM Falar em linguagem é falar em comunicação social. De tal modo estão as duas palavras associadas que são tomadas como sinônimas. Quer procurando integrar-se socialmente pela intercomunicação, quer procurando equilibrar-se interiormente, o homem usa sempre da linguagem como meio para alcançar êstes objetivos. A importância da linguagem sempre foi ressaltada pelos principais filósofos e psicólogos de todos os tempos. "A linguagem é o instrumento do pensamento"," afirma Dauzat, e, modernamente, Piaget, num estudo mais profundo do pensamento, diz que êle "precede a linguagem e que esta se limita a transformá-lo, profundamente, ajudando-o a atingir suas formas de equilíbrio através de uma esquematização mais desenvolvida e de uma abstração mais móvel" . (l Se tomarmos uma definição bem geral, como a de B. Leroy, "linguagem é um sistema de signos", veremos que ela variará segundo as variantes dos signos. Os signos que servem à comunicação social são das mais variadas ordens, ou seja, de várias naturezas, como olfativos, tácteis, visuais e auditivos, e concluiremos com Vendryes de que haverá uma linguagem olfativa, uma táctil, uma visual, e uma auditiva. Mas é o emprêgo do signo auditivo, chamado signo lingüístico, que nos interessa em especial, pelo seu caráter geral e amplo, ocasionando uma variedade de expressão que satisfaz plenamente à comunicação social. "Êste tipo de linguagem é definido por Mattoso Câmara como "a faculdade que tem o homem de exprimir seus estados mentais por G DAUZAT, li PIAGET, 20 Albert. La filosofia 'dei lenguaje. p, 15. Jean, Seis estudos de psicologia, p. 86, Curriculum 4/7/ meio de um sistema de sons vocais chamado língua, que os organiza numa representação compreensiva em face do mundo exterior objetivo e do mundo subjetivo interior". 7 A linguagem está presente em todos os momentos da vida humana. Numa sociedade em que os meios de comunicação ganham grande importância, é ela o mais simples, rudimentar e, nem por isso, menos completo meio de intercomunicação social. Por todo o tempo, ela estêve sempre presente desde as mais simples atividades até às mais complexas. Quer nas trocas entre os membros de uma sociedade, quer nas preces religiosas, quer nos relatos passados ou previsões, o seu lugar é insubstituível no procedimento humano. É esta participação social do indivíduo por meio da linguagem que faz com que Bally afirme que "a língua não existe senão nos cérebros dos que a falam, e de que são as leis do espírito humano e da sociedade as que explicam os fatos lingüísticos". 8 Pensamos e raciocinamos pela linguagem, já não dissociamos uma imagem de um símbolo depois de os associarmos. Pensar significa falar interiormente. medida que o ser humano vai-se desenvolvendo, a sua linguagem também vai-se enriquecendo. Ernst Fischer, transcrevendo Horder, diz que os árabes tinham 50 palavras para designar leão, 200 para cobra, 80 para mel, e mais de mil para espada, concluindo que as denominações sensoriais ainda não se tinham concentrado completamente em abstrações, afirmando que "uma linguagem primitiva é rica porque é pobre" . À [I Concluímos, portanto, com Vendryés afirmando que o problema da língua "se confunde com a origem do próprio homem e das sociedades humanas",l" o que a torna um fato social por excelência, resultado de contatos sociais. Se a linguagem é a capacidade geral do homem para expressar-se, é a língua o seu veículo específico. A língua é "o sistema de sons 7 MATTOSO CÂMARA JR., Joaquim. Dic. de filol. e de gramo p. 225. S BALLY, CHARLES. El lenguaje y la vida. p. 19. , FISCHER, Ernest. A necessidade da arte. p. 32. 10 VENDRYÉS, Norbert. EI lenguaje. p. 8. Linguagem didática 21 vocais por que se processa numa comunidade humana e uso da linguagem",ll como define Mattoso Câmara. O homem possui a capacidade da linguagem que é exercida por meio das mais variadas línguas, como por exemplo, o português, o espanhol, o inglês, etc. Cabe à língua o primeiro lugar no estudo da linguagem já que "a faculdade - natural ou não - de articular palavras não se exerce senão com a ajuda de instrumento criado e fornecido pela coletividade; não é, então, ilusório dizer que é a língua que faz a unidade da linguagem",12 como afirma Saussure. Celso Cunha, a propósito da interdependência entre os têrmos linguagem, língua e discurso - transcreve as palavras de Tatiana Slama-Casacu: "A língua é uma criação, mas também o fundamento da linguagem - que não poderia funcionar sem ela -; é, simultâneamente, o instrumento e o resultado da atividade de comunicação. Por outro lado, a linguagem não pode existir, manifestar-se e desenvolver-se a não ser pelo aprendizado e pela utilização de uma língua qualquer. A forma mais freqüente da manifestação do mecanismo e de meios expressivos é a linguagem falada, concretizada no discurso, ou seja, a realização verbal do processo de comunicação. O discurso, ou seja, a realização verbal do processo de comunicação. O discurso é um dos aspectos da linguagem - o mais importante - e, ao mesmo tempo, ... , a forma concreta sob a qual se manifesta a língua. O discurso define-se, pois, como o ato de estilização individual concreto da língua no quadro de processo complexo da linguagem. Os três têrmos estudados - linguagem, língua, discurso - designam no fundo três aspectos, diferentes mas estritamente ligados, do mesmo processo unitário e complexo" . J:l Contudo, o uso dos dois têrmos - língua e linguagem - é muitas vêzes indefinido, tomados como sinônimos. Alguns empregam, indistintamente, expressões como 'linguagem literária' e 'língua lili 12 13 22 MATTOSO CÂMARA JR., Joaquim. Dic. de filo e gramo p. 223. SAUSStRE, Ferdinand de. Curso de ling. geral. p. 18. CUNHA, Celso. Gramát. tZe porto contemporâneo. P. 16. Curriculum 4/71 terária', 'linguagem técnica' e 'língua técnica'. Na realidade, vemos que o uso da palavra língua revela uma maior precisão, já que linguagem é mais um têrmo geral e indefinido. "A linguagem é a matéria heterogênea e flutuante donde tomou corpo a língua; é a cada momento, o banho nutridor em que se submerge e que por infiltrações lhe dá os meios de renovar-se e de substituir. A distinção entre língua e linguagem não somente é difícil por definição, senão que também varia segundo o idioma" .14 (Continua no próximo número) . 14 BALLY, Charles. El lenguaje y la vida. p. 129. Linguagem didática 23
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