UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA
POLÍTICA II- (HUM06829)
Prof. BRUNO MARQUES SCHAEFER
QUESTÃO 3: Quais as principais diferenças entre os paradigmas Institucionalismo
Antigo e o Comportamentalismo em termos metodológicos e teóricos?
Ana Carolina Marques
1. INTRODUÇÃO
O debate a respeito dos métodos e caminhos teóricos para melhor conduzir uma
pesquisa é matéria sempre presente no meio acadêmico. Entre as ciências humanas, em que
os objetos de estudo são extremamente diversos e únicos, a produção de afirmativas exatas é
ainda mais complicada, exigindo do pesquisador um método coerente que o conduza a um
resultado confiável. O modelo metodológico que escolhemos para conduzir uma pesquisa
acaba por influenciá-la e refletir em seu resultado e, por isso, é extremamente importante para
o melhor entendimento de certos estudos, que analisemos, além da obra, a história do método
que foi utilizado para produzi-la. Nessa perspectiva, o presente Ensaio busca elucidar as
principais características dos modelos Institucionalismo Antigo e Comportamentalismo, que
tiveram seu auge nos séculos XIX e XX.
2. FUNDAMENTAÇÃO
Thomas Kuhn, importante físico e filósofo estadunidense, conceituou paradigmas
como realizações científicas reconhecidas universalmente como fornecedoras de problemas e
soluções para uma comunidade durante certo tempo (KUHN, 1962). Ao nos referirmos ao
Institucionalismo Antigo e ao Comportamentalismo como paradigmas, portanto, estamos
reconhecendo sua efemeridade e limitações para solucionar problemas e acompanhar as
mudanças da sociedade ao longo do tempo. Suas metodologias e princípios teóricos,
entretanto, são modelos de estudo utilizados até hoje para o aperfeiçoamento de novos
paradigmas. A necessidade da criação de paradigmas para a consolidação de teorias
científicas foi defendida diversas vezes por Thomas Kuhn, como podemos ver na passagem:
“A constituição de um paradigma é uma necessidade
para Kuhn, posto que, como foi dito anteriormente, ele
imagina que só a partir deste momento é que se pode
caracterizar a existência de uma determinada ciência. Isto
porque, se por um lado o paradigma limita a atividade
científica, ao eleger um conjunto de problemas de pesquisa
“legítimo” e abordá-lo por meio de métodos comuns, por
outro, ele permite a concentração da pesquisa em áreas
identificadas como relevantes. Comparando-se a pesquisa
desenvolvida baseada em um paradigma com o que é feito na
fase pré-paradigmática, o resultado líquido é inevitavelmente
maior.” (FERNÁNDEZ, 2005)
O paradigma Institucionalismo Antigo tem como principal dogma teórico a
centralidade das instituições sociais, jurídicas e administrativas. Baseando-se em autores
clássicos da teoria política, como Aristóteles, Locke e Montesquieu, os institucionalistas
defendem a importância do estudo das instituições para o estabelecimento e manutenção de
regimes políticos (TROIANO, 2016). As bases teóricas também compreendem a chamada
engenharia constitucional, citada por artigos federalistas que defendiam a existência de
modelos prescritivos com princípios gerais e regras que uma constituição deve conter para o
sucesso da nação (PERES, 2008).
Com base em uma metodologia formalista e normativa, portanto, o Institucionalismo
Antigo cativou diversos acadêmicos das áreas de economia, direito e sociologia, levando os
estudos da política para outras áreas, buscando explicar as maneiras como as instituições
políticas e culturais exerciam sua influência no comportamento econômico e social das
pessoas. Essa mesma metodologia, entretanto, fez com que o paradigma fosse demasiado
estático e limitado ao seus ideais do que deveria ser a política, resultando na incapacidade do
modelo de explicar a ascensão de novos fenômenos políticos que passaram a dominar o
cenário na década de 1930, como as crises do liberalismo e da representação, o fascismo e o
nazismo.
Assim, a Revolução Comportamentalista passou a ser a preferência dos pesquisadores
para a explicação dos fenômenos da contemporaneidade. A ruptura epistemológica que essa
mudança paradigmática representa foi acompanhada de novas técnicas de análise,
incorporando a estatística, as pesquisas de opinião e a elaboração de escalas à metodologia de
pesquisa. Os cientistas passaram a se orientar mais pelo positivismo e empiria,
preocupando-se com fenômenos observáveis e em descrevê-los quantitativa e analiticamente
(PERES, 2008).
O fenômeno, segundo Peres (2008), se popularizou inicialmente na psicologia, a partir
do desejo de prever, entender e controlar o comportamento humano. O tema do
comportamento humano chamou a atenção de pesquisadores de áreas como sociologia,
antropologia, economia e ciência política, restaurando a unidade entre as ciências sociais.
Assim, a perspectiva pluralista e multidisciplinar do comportamentalismo auxiliou em sua
consolidação, tirando o foco dos pesquisadores das instituições para o comportamento,
valores e objetivos dos atores políticos.
Essas
mesmas metodologias analíticas e
positivistas e sua
característica
interdisciplinar, entretanto, contribuíram para a precoce queda do comportamentalismo. Sua
consolidação como paradigma foi controversa, atraindo muitos críticos tanto dos métodos
quanto da filosofia positivista que os embasava. Como Terence Ball (2004) disse:
“Embora os comportamentalistas estivessem habituados a
estabelecer uma forte distinção entre Filosofia e Ciência,
descartando
a
primeira
em
favor
da
segunda,
o
comportamentalismo era de fato extremamente dependente de
uma filosofia particular – o positivismo. Pois foi do
positivismo – ou, como era mais frequentemente denominado,
positivismo
lógico
ou
empirismo
lógico
–
que
o
comportamentalismo emprestou muitas de suas categorias e
distinções chave.”
O rigor metodológico e teórico do paradigma era sufocante para muitos pesquisadores
das ciências sociais que necessitavam do comprometimento moral com a pesquisa e da
adequação metodológica para os padrões da análise política, cujos dados nem sempre podem
ser quantificados.
Assim, a academia experienciou, durante os anos 1970, a volta do paradigma
institucionalista sob o nome de neo-institucionalismo, que possui novos focos de pesquisa e
metodologias renovadas.
3. CONCLUSÃO
As mudanças paradigmáticas dentro dos campos das ciências sociais são
notavelmente marcadas pelas crises e acontecimentos ao longo da nossa história. A tentativa
de elaborar um modelo que conduza as pesquisas à previsões e teorias certeiras sempre foi
um objetivo a ser alcançado na ciência, e os paradigmas aqui analisados também fizeram
parte deste movimento, moldando a história da ciência política, assim como de outras
ciências sociais. As metodologias e teorias de cada época dizem muito de nossa sociedade,
quer mostrem pesquisadores esperançosos e focados em atingir uma utopia de paz e
prosperidade, quer mostrem cientistas frios e calculistas que necessitam da comprovação
estatística para acreditar em algo. O que podemos identificar como comum em todos eles,
entretanto, é a confiança na ciência e na pesquisa para a produção de conhecimento,
particularidade que falta em muitos de nós nos dias de hoje.
4. REFERÊNCIAS
BALL, Terence. Aonde vai a teoria política?. Revista Sociologia Política. Curitiba , n. 23,
p. 9-22. Novembro de 2004.
FERNÁNDEZ, Ramón Garcia; VIEIRA, José Guilherme Silva. A Estrutura das
Revoluções Científicas na Economia e a Revolução Keynesiana. Est. econ. São Paulo,
36(2): 355-381. Abr-jun de 2006.
KUHN, S. Thomas. A Estrutura das Revoluções Científicas. Editora Perspectiva. 1962.
PERES, Paulo Sérgio. COMPORTAMENTO OU INSTITUIÇÕES? A evolução histórica do
neo-institucionalismo da ciência política. Revista Brasileira de Ciências Sociais.Vol. 23 nº
68. Outubro de 2008.
TROIANO, Mariele; RISCADO, Priscila. Instituições e o Institucionalismo: notas acerca da
construção do debate e seus principais desafios na contemporaneidade. Revista Política Hoje
- Volume 25, n. 1 - p. 113-132. 2016.