Universidade Federal de Campina Grande
Professor: Duilio Pereira da Cunha Lima
Disciplina: Pesquisa em Teatro - DRAMATURGIA
Aluno: Paulo Ricardo Martins Ferreira
Atividade: Apontamentos da análise do texto "Casa de Bonecas"
Casa de bonecas é uma peça que começa com uma felicidade quase
plastificada, desde a comemoração da festividade, até os apelidos “carinhosos” que
o marido Torvald (Helmer) fala, até de sua contratação no banco. A paz que existe
no texto é fragilizada, há momentos que os desequilíbrios são disfarçados por
tensões de uma possível desestruturação familiar. David Ball chamaria isso de
estase, a condição de equilíbrio antes da história começar. No caso dessa historia,
esse chão quase que de vidro que os personagens se permanecem equilibrados até
o tocar da campainha. A introdução da Sra. Linde e Krogstad são considerados uma
intrusão a esse estado de inércia que a narrativa carrega, ela não é aleatória, cria
uma desordem necessária para que as ações continuem em um efeito domino.
Anos antes, o Torvald, por estar muito doente, precisou ir para a Itália em uma
grande despesa nas costas de Nora, que criou um empréstimo através da
falsificação de documentos da assinatura de seu pai, a ação central que precede
os eventos da peça. Ela comete um crime que para ela, não havia problemas em
nome do amor. Além disso, o Torvald agora, que é novo diretor do banco, e neste
novo momento da história quer demitir Krogstad, cria um rompimento com a
estabilidade. É importante constar que este evento não se da por competência de
sua carreira, mas por puro orgulho, que retornara ao fim da peça. O ciclo dramático
está em andamento.
Destes pequenos eventos que somam consequentemente, um efeito cascata
se intensifica para o que pode se chamar de catástrofe. Ball define isso bem ao criar
a definição para o gatilho e o monte. O Torvald quer demitir Krogstad, isso é um
gatilho, onde o monte será Krogstad ameaçar Nora de contar a cruel verdade, que
virará então outro gatilho para a próxima ação, a Nora tentar novamente, mas sem
efetividade, fazendo com que Torvald consequentemente demita Krogstad, o que vai
culminar nele colocando a carta no correio da casa de Nora. Um objeto tão banal se
torna o destaque simbólico, o conflito que o segundo ato carrega, a verdade. A Nora
dança em um pranto de panico e angustia tentando desfocar a atenção de Torvald
da caixa, e da verdade, transformando o terror em movimento e seu próprio
julgamento na segurança de não se obter a verdade. A carta então se torna uma
grande antecipação, a própria solidificação da verdade manifestada ao público por
meio de um simbólico, que cativa até o momento de sua revelação.
Nora acreditava que havia uma fantasia romântica, o prodigio, que ele teria
compaixão por sua ação pelo amor, mas Torvald a destrói com sua necessidade de
uma reputação pura. Porem na revirada da revirada, Krogstad e Sra. Linde se
juntam em uma nova vida, e em redenção perdoam o contrato quebrado por
Torvald. Torvald a perdoa, em um gesto quase maniaco de normatizar seu surto
mediante palavras doces e até um destaque egocêntrico de seu próprio “resgate”.
No fundo, para Torvald, o clímax dessa historia foi a revira da reviravolta, mas para
Nora, o clímax esta exatamente na reação que Torvald teve entre essas duas
cartas. É aí que a peça ganha o seu nome, essa casa de bonecas, um casamento
travestido de felicidade, plastificado como uma Barbie, sedimentado como uma
manufatura de padrões que remetem ao pensamento da época que a obra critica. A
ausência do prodígio e a falta do milagre que não aconteceu cria uma quebra da
imagem que Nora tem de Torvald. Com as palavras de Nora, “Talvez... se lhe tirarem
a boneca.”, ela rompe a imagem que Torvald tem de si, até o retratando como
estranho, comparando-o com o seu pai que também sofreu esta mesma
necessidade de servidão. O fim se dá pela batida da porta, a saída desta casa. Uma
nova estase se instaura, a Nora agora vai ao desconhecido para se reencontrar.
Ao ler a peça de trás para frente é possível perceber, quase como uma
decupagem, o caminho que Nora percorreu. Como uma cena de crime, você já sabe
o fim da vítima, mas entendendo os pontos narrativos que moveram a calamidade,
pode-se criar uma espécie de análise que não existe imprevisibilidade. Aqui, a prova
de cada acontecimento é nítida. Pode-se destacar, por exemplo:
- Se Torvald não tivesse se tornado diretor de banco, Krogstad não ameaçaria
mandar a carta com a verdade, que não teria feito Nora se desesperar e
evitar que ele a pegasse, que não culminaria na grande realização da
personagem.
- A exposição dos acontecimentos é gradual, quando, por exemplo, só se
torna nítido o que esta realmente acontecendo na Cena IV quando Krogstad
confronta Nora da data do documento, que ele havia deixado em branco, e foi
assinado após a data do falecimento do pai de Nora. Por Ball, a informação
deve ser dada no momento mais eficaz, gerando uma intensidade teatral
maior. É uma dinâmica de ausência de informação, ou do público, ou dos
personagens.
- A peça percorre inúmeros conflitos definidos por David Ball, desde o interno
(a provação de Nora), o externo (Krogstad e a sua relação com Torvald), e
social (o que é esperado dessa esposa boneca da época).
- Ate o momento a métrica de personagem definia a Nora por suas atitudes,
uma esposa que fazia de tudo para satisfazer e salvar o casamento que a ela
já não pertencia mais. É na reviravolta do último ato que as ações da
personagem mudam totalmente, demonstrando assim uma nova métrica de
sua expressividade.
- O contexto de produção da peça também influência em sua dramaturgia, da
escrita em 1879 em uma sociedade fortemente patriarcal. Por exemplo,
mulheres só foram entrar nas universidades brasileiras nesta mesma época,
e apenas com autorização masculina, reforçando que nesta época a luta por
uma igualdade de gêneros ainda se firmava. Também nesse contexto, um
divórcio era algo extremamente estigmatizado, e ter uma peça que rompe
com esses padrões delimita uma fronteira do debate que o teatro sempre foi
palco.