CAP 6 Combustíveis para MCIA Prof. Vinicius Gomes, Esp. COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS 2 • O petróleo é conhecido pela humanidade desde a antiguidade; • A era da produção dos MCIA’s é paralela à era da indústria petrolífera, iniciada com a descoberta de óleo cru em 1859, na Pensilvânia, EUA; • A figura abaixo mostra as projeções para as reservas restantes de petróleo neste século XXI. • Principais derivados do petróleo em ordem crescente de densidade e crescente de temperatura de destilação (mais leves sobem na torre). Gás liquefeito de petróleo (GLP) o Uso como gás de cozinha e na fabricação de plásticos; o Mistura de alcanos com 1 a 4 átomos C; o Faixa de vaporização: abaixo de 40 C; Nafta o Líquido altamente volátil usado como solvente e gás de síntese (distribuição urbana por gasodutos). É também adicionado ao gasóleo desde meados de 1990 e, a partir de nov./2014, à gasolina; o Mistura de alcanos com 5 a 9 átomos C; o Faixa de vaporização: 60 a 100 C; Aguarrás o o o Líquido solvente geral usado na fabricação de ceras e tintas; Mistura de alcanos alifáticos (cadeias abertas) com 10 ou mais átomos C; Faixa de vaporização: 151 a 240 C. Gasolina o Líquido de uso automotriz; o Mistura de alcanos alifáticos e cicloalcanos com 5 a 12 átomos C; o Faixa de vaporização: 32 a 180 C; Querosene o Líquido usado em jatos, tratores especiais e como solvente; o Mistura de alcanos alifáticos e aromáticos com 10 a 18 átomos C; o Faixa de vaporização: 175 a 325 C; Gasóleo (óleo diesel) o Líquido de uso automotriz, energético, e às vezes, solvente; o Mistura de alcanos alifáticos e cicloalcanos com 12 a mais átomos C; o Faixa de vaporização: 250 a 330 C. Óleo lubrificante o o o Derivado sem finalidade combustível; Mistura de alcanos alifáticos, cicloalcanos e aromáticos de cadeias longas, com 20 a 50 átomos C; Faixa de vaporização: 300 a 375 C; Óleo combustível o o o Derivado pesado, às vezes o próprio petróleo bruto, de uso energé tico industrial e como insumo intermediário para outros produtos; Mistura de alcanos alifáticos, cicloalcanos e aromáticos de cadeias curtas e longas com 20 a 70 átomos C; Faixa de vaporização: 370 a 600 C; Resíduos o Coque, asfalto, alcatrão, breu e ceras com várias aplicações; o Mistura de cicloalcanos com 70 ou mais átomos C; o Faixa de vaporização: acima de 600 C. COMBUSTÍVEIS PARA MOTORES DE IGNIÇÃO POR CENTELHA 7 Gasolina Pura e Aditivada Mistura de hidrocarbonetos com vaporização entre 32 C e 180 C. Suas fra- ções leves, que vaporizam abaixo de 40 C, permitem partida a frio de MCIAct. Porém, a concentração dessas frações na mistura não deve ser excessiva, para não deslocar ar no processo de admissão do motor; Gasolina pura pode ser representada por uma das fórmulas: C8H15 (Pulkra- bek, 1997); C8H18 e C8,26H15,8 (Heywood, 1988); e C7H17 (Ferguson, 1986); No Brasil, a gasolina pura é aditivada com 27% de álcool etílico anidro (desi dratado) combustível, sigla AEAC. A sigla da mistura gasolina-AEAC é M27; A compressão da mistura ar-M27 em MCIAct deve ocorrer sem autoigni- ção (AI) nem detonação (DT, ou “batida de pino”); o o AI ocorre se a gasolina não tem capacidade antidetonante adequada, porque a frente de chama corre o cilindro pressionando a mistura à frente. Se o combustível não suportar a pressão, autoinflama-se (vide o sl. 9, Cap. 7-1); DT pode ocorrer na ascensão do pistão, se o MCIA está submetido a sobrecarga, mesmo o combustível tendo capacidade antidetonante adequada. A estrutura química dos hidrocarbonetos tem muita influência na capaci- dade antidetonente da gasolina. Regra geral, quanto maior o conteúdo de compostos voláteis (baixa pressão de vaporização) na gasoilna, maior a sua resistência a AI e DT. Assim: o Parafinas de cadeia linear: tem menor resistência a AI e DT que as parafinas de cadeia ramificada, que as olefinas e que os hidrocarbonetos cíclicos aromáticos; o Hidrocarbonetos naftênicos (cíclicos saturados): tem menor resistência a AI e DT que os aromáticos (cíclicos insaturados). As formas de se obter gasolina com capacidade antidetonante mais alta (sem uso de aditivos), portanto mais cara (de uso aeronáutico), são: o Reforma catalítica: inclui reações de isomerização, alquilação e polimerização; o Reações de desidrogenação de naftênicos: geram compostos aromáticos; e o Hidrocraqueamento catalítico de parafinas: parafinas mais pesadas são “quebra das” em parafinas mais leves e voláteis. O primeiro aditivo antidetonante, usado a partir de 1930, foi o chum bo tetraetila – (C2H5)4Pb, de eleva das capacidades anti AI e DT (fig.); O chumbo tetraetila caiu em desuso a partir de 1990 em todo o Mundo, devido sua toxidez e incompatibilida de com catalisadores de exaustão; Nota: NO – “número de octano” (índice de antidetonação – CAP. 7-1). Fonte: Salazar, Fernando. Internal Combustion Engines. University of Notre Dame. USA, 1998. Atualmente, no exterior são empregados os antidetonantes: MTBE (metil- tercibutil éter), ETBE (etiltercibutil éter) e TBA (álcool butílico terciário); No Brasil, o chumbo tetraetila foi eliminado em 1992, sendo substituído pe lo etanol anidro (sem água, sigla AEAC), como aditivo antidetonante; Padrões brasileiros para gasolinas puras: “comum C” e “premium C” (Port. ANP nº 309/2001); Propriedades médias: gasol. = 738 kg/m³ e PCIgasol. = 45 MJ/kg. Álcoois Podem ter origem biológica (a maioria) ou fóssil; Dois tipos são usados em MCIAct (já foram testados em MCIAcp): o Álcool metílico (metanol): CH3OH – mais utilizado nos EUA, onde é obtido do mi lho com grande uso de petróleo. É venenoso (se não mata, cega); o Álcool etílico (etanol): C2H5OH – tipo usado no Brasil há muito tempo. É obtido da cana de açúcar sem usar petróleo (aproveita o bagasso como fonte térmica); No Brasil, são usados os produtos: o o Álcool etílico anidro (desidratado) combustível – AEAC: para uso exclusivo na adição à gasolina pura, até 2015, na proporção de 22% em volume (sigla M22). A partir de então, devido a razões macroeconômicas e ambientais, a proporção su biu para 27% (sigla M27); Álcool etílico hidratado (4% em volume) combustível – AEHC: para uso como com bustível direto em MCIA (a hidratação é estratégia para evitar que o etanol absorva umidade na armazenagem e no transporte, dada sua solubilidade em água; também contribui para a diluição de ácidos que restam no processo de obtenção). A figura ao lado mostra co- mo se distribui o uso do etanol como aditivo da gasolina no Mundo. Apesar do Brasil liderar em conteú do, é o segundo maior produtor mundial. Os EUA são o primeiro, desde 2015; O radical OH pode ser considerado uma “precombustão” dos compostos base (CH3 e C2H5), daí o menor conteúdo energético dos álcoois; Uma característica interessante dos álcoois é que suas temperaturas de va- porização à pressão ambiente, acima de 70 C (o dobro das frações mais leves da gasolina) permite que esses combustíveis produzam menos emissões evaporativas (vapores emitidos pela tancagem) que a gasolina; Propriedades médias do etanol: et. = 789 kg/m³ e PCIet. = 29,7 MJ/kg. Gás natural (GN) Na natureza, o GN é uma mistura de vários gases, do metano (CH4) ao bu- tano (C4H10), contendo ainda, CO2, N2, traços de H2O, etc.; Pode ser usado consorciado ao gasóleo, em MCIAcp, em proporções entre 80% a 95% (neste caso, o gasóleo inicia a combustão); Quando usado em veículos com motores MCIAct, é chamado de gás natural veicular (GNV), padronizado pela ANP conforme a tabela abaixo. Tabela 1. GNV padronizado pela ANP PARÂMETRO URUCU SUL-SUDESTE (BOLÍVIA) Poder calorífico superior (PCS) 1 34,0 a 38,4 MJ/Nm³ 35,0 a 43,0 MJ/Nm³ Número de metano (Cap. 7-2) 65 65 68% molar 85% molar Teor de inertes (N2 + CO2)máx. 21% molar (ou vol. nas CNTP) 6% molar (ou vol. nas CNTP) Massa específica (20 C , 1 atm) ² 0,895 4 kg/Nm³ 0,850 9 kg/Nm³ Teor de CH4.mín. Fonte: Resolução ANP 16/2008; ¹ Métodos NBR 15213, ISO 6976 e ASTM D 3588. ² Densidade relativa ao ar (20 C e 1 atm) entre 0,55 a 0,69 (http://pib.socioambiental.org/c/noticias?id=5635; acessado em: dezembro/2009). Abaixo se mostram as reservas mundiais de GN até o ano de 2007; A tabela não contempla as reservas brasileiras do pré sal, nem o “shale- gas” que deram autosuficiência em GN aos EUA; Rússia, Irã e Catar juntos detinham, em 2007, 55.3% das reservas mundiais de GN. Este número está caindo, desde então, até hoje. O “shale gas” (gás de xisto), é a fonte de GN que os EUA iniciaram explo- ração em 2010. Antes não havia tecnologia para explorá-la (gás preso em rocha subterrânea). Hoje é usado o fraturamento hidráulico (“fracking”); Vários países tem reservas de “shale gas” (tabela abaixo). Tabela 2 – “Shale gas” no Mundo POSIÇÃO PAÍS GÁS [trilhão Nm³] 1 CHINA 32 2 ARGENTINA 23 3 ARGÉLIA 20 4 EUA 19 5 MÉXICO 16 6 CANADÁ 15 7 AUSTRÁLIA 12 8 ÁFRICA DO SUL 11 9 RÚSSIA 8 10 BRASIL 7 Fonte: O promissor mercado de shale gas na Argetina, apud http://www.gasnet.com.br/ conteudo/15629 (acessado em: setembro/2013). COMBUSTÍVEIS PARA MOTORES DE IGNIÇÃO POR COMPRESSÃO 16 Óleos combustíveis Assim como a gasolina, são misturas de vários hidrocarbonetos com massas moleculares crescentes; Há dois tipos básicos de óleo combustível: o ÓLEO LEVE (gasóleo ou “óleo diesel”) – de uso veicular e estacionário até 1 MW. Sua fórmula molecular varia de C12,3H22,2 (Mmédia = 170 kg/kmol; Pulkrabek, 1997) a C10,8H18,7 (Mmédia = 148,6 kg/kmol; Heywood, 1988); o ÓLEO PESADO – de uso naval (grande porte) e industrial. São padronizados pela ANP nas denominações BPF (baixo ponto de fulgor) e APF (alto ponto de fulgor). São mais viscosos que os óleos leves. Pode-se adotar para suas fórmulas moleculares a generalização C14,6H24,8 (Mmédia = 200 kg/kmol; Ferguson, 1987); Propriedades médias (ambos): od = 852 kg/m³ e PCIod = 42 MJ/kg. No Brasil, o gasóleo (veicular) é classificado em A, B, C e D, em termos do teor de enxofre decrescente, como segue: o Tipo A: pode conter no máximo 1% S. Foi usado em todo o País até 1988; o Tipo B: pode conter até 0,5% S. Foi o óleo padrão para uso em transportes no Brasil até meados de 1990, exceto nas principais regiões metropolitanas, onde era usado o tipo C; o Tipos C e D: o tipo C pode possuir até 0,3% S; e o tipo D, até 0,2% S. São mais vo- láteis que os tipos A e B, porque contem mais frações leves (nafta). Em meados dos anos de 1990, substituiram progressivamente, do Sul ao Norte do País, o uso veicular do tipo B nas regiões metropolitanas brasileiras, segundo a política de iniciar pelo tipo C e depois substituí-lo pelo tipo D (a última grande cidade a receber o tipo D foi Manaus, em 2005). Biodiesel Rudolph Diesel inventou o MCIAcp visando o uso de óleos vegetais in natu ra, tendo obtido sucesso na empreitada; ¹ O biodiesel é um bom substituto do gasóleo, sendo obtido por transesteri- ficação alcoólica sob catálise de óleos vegetais ou de gorduras animais. A EMBRAPA e a UNB já conseguiram produzi-lo por craqueamento; o Transesterificação: separa glicerina ( 20%) do óleo vegetal. O que resta são éste- res. A glicerina eleva muito a viscosidade, e é removida por um álcool na presença de um catalisador (NaOH ou KOH). No Mundo, predomina o uso do álcool metílico na produção de biodiesel, mas o Brasil usa o álcool etílico, dada a abundância desse insumo no País, no que pese seu menor rendimento no processo; Para todos os fins práticos, considera-se que o biodiesel tem as mesmas propriedades gerais do gasóleo. 1 Fonte: http://www.biodiesel.gov.br/docs/Cartilha_Sebrae.pdf (acessado em: junho/2013). Biodiesel não é usado puro, mas misturado ao gasóleo, com vantagens nas emissões de particulados, CO e HC, mas com desvantagem na emissão de NOx (figura abaixo). Fonte: Biodiesel. US Dept. of Energy. Handling and Use Guidelines. DOE/GO-102006-2358. 2006. 20 Os maiores produtores de biodiesel no Mundo, até 2007: 1 o EUA: 6,55 bilhão m³ (rota: óleo de soja); o Alemanha: 3,15 bilhão m³ (rota: óleo de canola e girasol); o Itália: 1,01 bilhão m³ (rota: óleo de canola); o França: 0,91 bilhão m³ (rota: óleo de canola); o Resto da UE: 0,21 bilhão m³ (rota: óleo de canola); A Alemanha (44% do total da UE) é o único país onde, até 2010, se podia abastecer um veículo com 100% biodiesel (B100); No Brasil, o biodiesel é misturado ao gasóleo, visando complementar sua demanda; 1 A adição de biodiesel no Brasil obedece à Lei no. 11.097/2005: 1 o 2005/20012 – 2% e 3%, denominados B2 e B3; o 2013/2014 – 5%, denominado B5; o A partir de nov. 2014 – 7%, denominado B7. 1 Fonte: http://www.biodiesel.gov.br/docs/Cartilha_Sebrae.pdf (acessado em: novembro/2013). PROPRIEDADES MAIS IMPORTANTES DOS COMBUSTÍVEIS 22 COMBUSTÍVEIS LÍQUIDOS Ponto de fulgor (PF) – temperatura na qual, sob a ação de uma chama, ocorre uma ignição que não se sustenta (lampejo). Sua determinação é feita no aparelho do próximo slide. É um fator impor tante a ser considerado no armazenamento do combustível; Ponto de ignição (PI) – temperatura maior que o PF, na qual a combustão se sustenta. Obtido no mesmo aparelho do PF; Temperatura de autoignição (TA) – temperatura maior que o PI, na qual a combustão é iniciada e se mantém sem a presença de uma chama, na pressão atmosférica; Ponto de fluidez – temperatura mínima na qual o combustível, so- lidificado por resfriamento, se torna um fluido; Viscosidade – medida do atrito fluido. Permite definir as tempera- turas de armazenamento, de bombeamento e de preparação do combustível para a combustão, respectivamente. Medidor de PF/PI/TA: 1 – vaso de Cleveland para a amostra; 2 – termômetro; 3 – bico oscilatório da chama piloto; 4 – placa aquecedora do vaso e suporte do bico da chama piloto; 5 – base do conjunto; 6 – pinça do termômetro; 7 – bico de Bunsen da chama aquecedora da cuba; 8 – depósito de gás para os bicos. COMBUSTÍVEIS GASOSOS Densidade (𝒅[0 C⁄1 atm] ) – razão, a 0 C e 1 atm, entre a massa específica do gás (𝝆𝒈[0 C⁄1 atm] ) e a massa específica do ar seco (𝝆𝒂𝒓[0 C⁄1 atm] ); Número de Wobbe (𝑾) – razão entre o poder calorífico superior do gás e a raiz quadrada da sua densidade, ambos a 0 C e 1 atm: 𝑊= 𝑃𝐶𝑆 𝑑 = 𝑃𝐶𝑆 [0 C⁄1 atm] 𝜌 𝜌 J⁄kg [0 C⁄1 atm] Gases que tenham o mesmo valor 𝑾 podem ser trocados em um queimador (retrofiting), porque escoam a mesma quantidade de energia; 𝑾 permite classificar as famílias gasosas como seguem: o Gases derivados de carvão ou de petróleo: 19 J/kg W < 39 J/kg; o GN ou gases fabricados de mesma composição: 19 J/kg W < 59 J/kg; o GLP: 75 J/kg < W < 92 J/kg. Limites de inflamabilidade (superior e inferior) – valores máximo e mínimo da razão AC para que o gás queime. Estes limites garan tem a segurança do armazenamento do gás. Os líquidos também os tem, mas neles importam menos quanto à segurança, porque a queima de um líquido também depende do seu ponto de fulgor; Velocidade de chama (Vc) – significa a velocidade com que a chama se desloca inflamando a mistura ar-combustível. o o Vc depende da vazão e da velocidade do ar fornecido, do PCS do combustível e do tamanho das gotículas de combustível (o próximo slide apresenta alguns valores de Vc); Vc deve ser menor ou igual que a velocidade de entrada da mistura ar-combustível na chama, para evitar o seu retrocesso a jusante do queimador, o que pode resultar na explosão do depósi to do combustível gasoso (líquido também). A figura abaixo fornece valores de Vc de alguns gases combustíveis, relativamente à quantidade percentual de ar primário que entra no queimador premixado ao combustível (onde o combustível recebe ar secundário complementar, até um total de 100% de ar para uma queima estequiométrica). Fonte: http://www.gasnet.com.br/gasnatural/combust_completo.asp#introd (acessado em: outubro/2014). 27
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