O ESTRANHO CASO DE JEKYLL KENT E SUPER HYDE:
APONTAMENTOS SOBRE O PARADIGMA DO SUPER-HERÓI AMERICANO
I was the first that could plod in the public eye
with a load of genial respectability, and in a moment, like a schoolboy,
strip off these lendings and spring headlong into the sea of liberty.
Robert Louis Stevenson, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde
O Sintoma Hyde na Cultura Ocidental: a Dupla Natureza do Homem
Ao reler The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, e ao chegar ao que, na
minha opinião, é o seu melhor capítulo, Henry Jekyll’s full Statement of the Case, não
consegui evitar de reparar que o modelo do super-herói americano se encontra
inesperadamente aqui definido, 50 anos antes de Superman ter “smashed to bits” um
ford na capa da Action Comics nº1. Mas esse modelo encontra-se configurado numa tal
perspectiva que Jekyll e Hyde mais se assemelham ao reflexo invertido, como num
espelho, do super-herói paradigmático: Clark Kent e o seu alter ego Superman.
Não vou tentar sequer insinuar a suspeita de que Stevenson calhou ser uma fonte
literária que Joe Shuster e Jerry Siegel simplesmente se esqueceram de mencionar. É
irrelevante. Interessa-me, antes, notar que The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde
constitui um sintoma cultural de uma peculiar vivência interior humana que, em poucos
anos, se observou estar generalizada em toda a sociedade ocidental. Refiro-me à
experiência psicológica que Stevenson enunciou de forma tão lapidar: “man is not truly
one, but truly two”.
A Personalidade Comum
Em ambas as criações ficcionais, os autores partem de um determinado conceito
de ser humano “normal” para imaginar nele uma segunda personalidade escondida, um
“outro” ser de natureza tão “extraordinária” que dificilmente pode ser considerado
humano, apesar de parece-lo. Mas as concepções de homem “normal”, de Stevenson e
de Shuster e Siegel, são inversas uma da outra.
Na opinião de Lois Lane, Clark Kent é “a spineless unbearable coward!”. Pelas
palavras do próprio Jekyll ficamos a saber que:
1
“I was born in the year 18— to a large fortune, endowed besides with
excellent parts, inclined by nature to industry, fond of the respect of the wise
and good among my fellowmen, and thus, as might have been supposed, with
every guarantee of an honourable and distinguished future.”
A explicação mais imediata deste aparente contraste encontra-se na intenção dos
autores: Clark Kent e Henry Jekyll parecem o oposto um do outro porque Shuster e
Siegel pretendem contar uma história de elevação, mas Stevenson prefere contar uma
história de queda, por isso, o primeiro tem de ser apresentado num ponto baixo, o
segundo num ponto alto.
Se levarmos em conta o contexto cultural em que se insere cada uma destas duas
importantes narrativas da Literatura Moderna, e admitirmos em ambas as personagens a
formulação de uma ideia geral de Humanidade, apercebemo-nos que é a própria Europa
a ver, pelos olhos de Stevenson, o ser humano como um ser que, no passado, tinha uma
natureza superior mas que, no presente, está caído em desgraça (ainda que pareça não
estar), e que são os Estados Unidos, pelos olhos de Shuster e Siegel, a pressentirem no
ser humano um ser superior (ainda que pareça não o ser), e a estarem convencidos de
que, mesmo que a Humanidade tenha um passado, isso pouco importa porque hoje é
como se fosse o primeiro dia da Criação.
Repare-se: os criadores de Superman explicam-nos que:
“As a distant planet was destroyed by old age, a scientist placed his
infant son within a hastily devised space-ship, launching it toward Earth!”
Pouco importa, pois, a história desse velho planeta. O importante é o que vai acontecer
àquele “infant son” daqui para a frente. Por outro lado, Jekyll confessa-nos, no
momento da transformação:
“I knew myself, at the first breath of this new life, to be more wicked,
tenfold more wicked, sold a slave to my original evil.”
Para Stevenson, pelo contrário, o que importa não é o que se segue – o que se segue é
perfeitamente previsível porque nada mais é do que a repetição da expulsão do Paraíso –
2
o verdadeiro problema é esse fatídico evento ocorrido num passado longínquo, esse
“original evil” que destinou a Humanidade a uma vida de desgraça e votou
irremediavelmente ao fracasso a experiência de Henry Jekyll.
Dir-se-ia que a perspectiva do Velho Continente é a de um velho pessimista que
já passou por muitas e repetidas ilusões, a do Novo Mundo é a duma criança ingénua
cheia de optimismo no futuro e numa nova vida. Portanto, ao confrontarmos, lado a
lado, estas duas obras de ficção, ficamos com a impressão de que, tanto a Europa como
os Estados Unidos, pensam a Humanidade segundo o mito formulado na tradição cristã,
mas partem de momentos distintos do Génesis bíblico para o fazerem: Clark Kent é um
Adão inocente que ainda não provou a maçã, Jekyll é um Adão pecaminoso expulso do
Paraíso. Eis porque o inglês Dr. Jekyll não conseguiu transformar-se, como era o seu
desejo, no americano Superman, mas sim em Edward Hyde que, “alone in the ranks of
mankind, was pure evil”.
A Personalidade Extraordinária
Esta diferença de perspectivas tão radical entre a cultura europeia e a cultura
americana tem de reflectir-se, naturalmente, em Superman e em Edward Hyde – as
personalidades extraordinárias de Clark Kent e de Henry Jekyll – condicionando os
respectivos autores a criá-los de tal forma que acabam por ser também imagens
invertidas uma da outra. Mas sob o escopo de uma análise mais cuidada, evidencia-se
um facto surpreendente: esta oposição é, na realidade, superficial.
Stevenson informa-nos que Hyde:
“was so much smaller, slighter and younger than Henry Jekyll. Even as
good shone upon the countenance of the one, evil was written broadly and
plainly on the face of the other. Evil besides (which I must still believe to be the
lethal side of man) had left on that body an imprint of deformity and decay.”
Não há qualquer dúvida de que corpo atarracado e deformado de Hyde é o oposto da
figura atlética e bem parecida de Superman desenhada por Shuster. Mas quando
tomamos conhecimento da vivência psicológica de Jekyll no corpo de Hyde, o que mais
nos chama a atenção não são as diferenças morais entre Hyde e Superman, mas sim as
3
semelhantes vantagens que ambos os alter egos proporcionam às suas respectivas
personalidades comuns:
“I felt younger, lighter, happier in body; within I was conscious of a
heady recklessness, a current of disordered sensual images running like a millrace
in my fancy, a solution of the bonds of obligation, an unknown but not an
innocent freedom of the soul.
(…) I was the first that could plod in the public eye with a load of genial
respectability, and in a moment, like a schoolboy, strip off these lendings and
spring headlong into the sea of liberty. But for me, in my impenetrable mantle,
the safety was complete. Think of it—I did not even exist! Let me but escape
into my laboratory door, give me but a second or two to mix and swallow the
draught that I had always standing ready; and whatever he had done, Edward
Hyde would pass away like the stain of breath upon a mirror; and there in his
stead, quietly at home, trimming the midnight lamp in his study, a man who
could afford to laugh at suspicion, would be Henry Jekyll.
(…) This familiar that I called out of my own soul, and sent forth alone
to do his good pleasure, was a being inherently malign and villainous; his every
act and thought centered on self; drinking pleasure with bestial avidity from any
degree of torture to another; relentless like a man of stone. Henry Jekyll stood at
times aghast before the acts of Edward Hyde; but the situation was apart from
ordinary laws, and insidiously relaxed the grasp of conscience. It was Hyde, after
all, and Hyde alone, that was guilty. Jekyll was no worse; he woke again to his
good qualities seemingly unimpaired; he would even make haste, where it was
possible, to undo the evil done by Hyde. And thus his conscience slumbered.”1
Acerca de Superman, Shuster e Siegel contam-nos que:
“Attendants, unaware the child’s physical structure was millions of years
advanced of their own, were astounded at his feats of strength. When maturity
was reached, he discovered he could easily: leap 1/8 th of a mile; hurdle a
1
Os sublinhados são meus.
4
twenty-story building; raise tremendous weights; run faster than an express
train; and that nothing less than a bursting shell could penetrate his skin! Early,
Clark decided he must turn his titanic strength into channels that would benefit
mankind. And so was created Superman! Champion of the oppressed, the
physical marvel who had sworn to devote his existence to helping those in
need!”
Dir-se-ia que os poderes físicos atribuídos a Superman são precisamente aqueles
que tornam possível o tipo de experiência que Jekyll testemunha vivenciar na
personalidade extraordinária de Hyde, poderes que possibilitam a mesma vivência de
“freedom”, de “solution of the bonds of obligation”, de “complete safety” e de estar
“apart from ordinary laws”; poderes que fazem de Superman tão “reckless” que não
teme enfrentar qualquer adversário ou perigo, tão “lighter” que “could easily: leap 1/8 th
of a mile; hurdle a twenty-story building; run faster than an express train”, tão
“impenetrable” e “unimpaired” que “nothing less than a bursting shell could penetrate
his skin”; enfim, poderes que fazem desta personalidade extraordinária um autêntico
“man of stone”.
Para concluir: se excluirmos os aspectos moral e ético, que já vimos variar de
acordo com a perspectiva cultural e as intenções dos autores, não podemos deixar de
reconhecer que, em The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, se encontra
perfeitamente formulado o modelo do super-herói popularizado pelos comics
americanos e pelas pulp magazines:
a) a personalidade comum, i.e., o ser humano “normal”, não passa de uma
aparência, pois o ser humano “normal” oculta, como uma máscara…
b) … uma segunda personalidade extraordinária, mais autêntica, mais “real”
do que a primeira, que proporciona a vivência de uma grande liberdade (“sea
of liberty”), e de um grande poder (“titanic strength”), que de outro modo
permaneceriam inacessíveis à personalidade comum.
Por mais inesperada e surpreendente que esta conclusão possa parecer, o que a
mim, na verdade, me parece realmente perturbante, e ainda por explicar, é a evidência
deste estranho fenómeno psicológico, transversal a toda a sociedade ocidental, do qual
5
estas criações ficcionais nada mais são do que mero sintoma: a sensação de que em cada
um de nós se esconde um “outro”, uma personalidade extraordinária que, tal como
Jekyll confessa:
“in my eyes it bore a livelier image of the spirit, it seemed more express and
single, than the imperfect and divided countenance I had been hitherto
accustomed to call mine”
Álvaro Áspera
Julho 2009
Bibliografia
STEVENSON, Robert Louis, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1886
SHUSTER, Joe, e SIEGEL, Jerry, Superman, in Action Comics #1, June 1938
6