Março de 2012 Agroanalysis
Macroeconomia
Macroeconomia & Finanças
Rogério Mori*
O
s mercados financeiros sempre tiveram um papel importante
nas economias modernas. Eles desempenham um papel fundamental ao direcionar os recursos disponíveis na economia
para empresas que desejam realizar investimentos produtivos. Também permitem que as famílias realizem empréstimos
para obter bens e serviços. Por sua vez, os
países podem obter recursos no exterior e
estimular seu crescimento.
A globalização e o crescimento dos mercados financeiros amplificaram o papel
destes. Seu escopo transcendeu o mero
estímulo ao crescimento econômico, e os
mesmos passaram a determinar o emprego e a política nos países.
Ao longo das últimas décadas, observou-se uma crescente liberalização no
segmento financeiro nos EUA e na Europa, sendo que a criação de cada vez mais
inovações financeiras foi a tônica nesse
processo.
Essa mudança e ampliação do escopo de
ação dos mercados foi acompanhada por
cada vez mais episódios de crises financeiras. Nos anos 1990, várias economias
emergentes (México, países asiáticos, Rússia e Brasil) sofreram com as mudanças
nos humores do mercado e enfrentaram
crises profundas.
A abundância de liquidez nos EUA e em
alguns países europeus levou inúmeros
agentes de mercado a praticarem excessos
na década passada, com alavancagens exageradas e aplicações de elevado potencial
de risco. O resultado desse processo foi observado na crise de 2008 e na subsequente
estagnação econômica dos EUA nos últimos anos. Na Europa, a situação chega a
ser mais crítica: os excessos de gastos de
diversos governos foram tolerados por
vários anos por bancos que carregavam a
dívida desses países. A súbita reversão do
ciclo econômico e a crescente aversão ao
risco têm diminuído o apetite por papéis
desses países, que estão sendo forçados a
fazer ajustes recessivos em um ambiente
de desemprego alto e recessão.
Apesar dessa problemática, os economistas foram incapazes de antever essas crises. Mesmo com todos os sinais,
poucos foram os que de fato alertaram
de forma consistente para os problemas
latentes do exponencial crescimento dos
mercados financeiros e da crescente desregulação do sistema.
Nesse contexto, pode se dizer que essa
incapacidade reside, em certo sentido, em
como a ciência econômica aborda a questão dos mercados financeiros e da temática
relativa a Finanças. Sob essa perspectiva,
qualquer livro-texto de Macroeconomia
orientado para a graduação em ciências
econômicas ou para cursos de MBA não
abrange de forma adequada o papel do sistema financeiro na economia. Nesse contexto, no processo de formação do economista
moderno, a compreensão dos mercados e
o seu impacto sobre o sistema econômico
são relegados a segundo plano. Mesmo em
nível de pós-graduação, em obras de Macroeconomia Avançada, é difícil encontrar
uma análise adequada dos mercados e do
seu papel na economia moderna.
O estudo da Macroeconomia ainda se
pauta, em grande medida, em modelos
que não incorporam questões relativas
a Finanças. Tome-se, por exemplo, o regime de metas para inflação, que é a estrutura básica de alguns dos principais
bancos centrais do mundo (Banco Central Europeu, Banco da Inglaterra, Banco
do Japão, Banco Central do Brasil etc.)
para a administração da política monetária. Esse regime nasceu em fins dos anos
1980 e representa a expressão clara de
que a política monetária tem como papel
principal controlar a inflação e é incapaz
de manter o produto acima do pleno emprego permanentemente. Nessa sistemática, o foco central da atuação do Bacen é
coordenar os esforços da política monetária no sentido de fazer com que a inflação atinja o centro da meta estabelecida.
Nesse processo, o Banco Central também
tem como papel promover o pleno emprego na economia.
Embora esses princípios sejam louváveis do ponto de vista econômico e, de
fato, colocam corretamente a inflação
no eixo central da ação do Bacen, ela
desconsidera inteiramente os efeitos potenciais da ação dos juros sobre outros
aspectos da economia e da dinâmica
potencialmente danosa desse processo.
Por exemplo, a prática de juros excessivamente baixos nos EUA pelo FED (Federal
Reserve System) por boa parte da década
passada representou um dos fatores que
estimularam a formação da bolha de preços de imóveis e dos excessos do lado do
crédito. O FED agiu corretamente dentro
da lógica de priorizar a inflação e o crescimento, mas desconsiderou os efeitos
potencialmente danosos para a economia
norte-americana oriundos do processo
de formação de bolhas que ocorreu a partir disso.
O efeito prático da dissociação do estudo da Macroeconomia e de Finanças é
que um importante segmento da economia, que é o mercado financeiro, no qual
decisões fundamentais são tomadas em
questão de minutos, ainda é pouco ou
inadequadamente compreendido pelos
economistas no mundo afora.
*Professor da Escola de Economia de São Paulo da
Fundação Getulio Vargas (FGV/EESP)
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