XXIX Congresso Nacional de Pesquisa em Transporte da Anpet OURO PRETO, 9 a 13 de novembro de 2015 FALHA DE UM DORMENTE DE CONCRETO POR DETERIORAÇÃO DA REGIÃO DE APOIO DOS TRILHOS - CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS Romerson Serejo Silva Andrielli Morais De Oliveira Universidade Federal do Pará Faculdade de Engenharia Civil – Campus Tucuruí RESUMO O dormente é elemento fundamental da via permanente na via ferroviária. Tradicionalmente o material utilizado na fabricação desses dormentes é a madeira, contudo com a escassez deste material e por questões ambientais, a indústria ferroviária busca um material alternativo. O concreto tem sido um material alternativo na fabricação de dormentes, pois oferece boa resistência aos esforços dos trens e uma vida útil de 40 a 50 anos. Todavia existem diversos mecanismos de falha em dormentes de concreto que podem levá-los a redução de sua vida útil ou mesmo a necessidade de substituição, que é bastante onerosa. Este artigo de revisão da literatura tem como objetivo apresentar as falhas e as consequências da deterioração na região do material no apoio dos trilhos (DRT) em dormentes de concreto em vias ferroviárias. ABSTRACT The sleeper is a fundamental element of the railway basic track. Traditionally, the material used in the fabrication of the sleepers is the wood. However, the shortage of this material is pushing the railroad industry to find an alternative material. The concrete has been widely accepted as an alternative sleeper material, for the reason of its properties of resistance and its life cycle of 40 to 50 years. Nevertheless, concrete sleepers has a variety of failure mechanisms that could lead to reduce its life cycle or even a necessity of substitute them, which is very expensive. This literature review paper have the objective of present the failures and the consequences of the Rail Seat Deterioration (RSD) on railway track Concrete Sleepers. 1. INTRODUÇÃO O dormente é um elemento fundamental da via permanente ferroviário e é responsável por suportar as altas solicitações pontuais aplicadas sob os trilhos pelos trens, transferindo-as para as camadas inferiores de lastro e sublastro. Tradicionalmente, o material usado na confecção dos dormentes é a madeira, pois é um material com boas propriedades de resistência mecânica, elasticidade e durabilidade. Apesar dessa tradição, a madeira é um material cada vez mais escasso, o que naturalmente induz a indústria ferroviária a buscar materiais alternativos para a confecção de dormentes. De acordo com Riley e Strong (2003), o concreto tem sido cada vez mais aceito como material para a fabricação de dormentes, principalmente nas ferrovias destinadas ao transporte de cargas pesadas. O dormente de concreto tem como principais vantagens a sua resistência mecânica, massa específica, boa manutenção de bitola, invunerabilidade à fungos, isolamento elétrico e principalmente, uma longa vida útil. De acordo com a maioria dos autores, o dormente de concreto tem uma estimativa de vida útil de 40 a 50 anos. Porém, a vida útil de dormentes de concreto instalados em vias permanentes pode ser consideravelmente reduzida quando este dormente está exposto a possíveis falhas pontuais, relacionadas a fatores externos à estrutura do dormente, como fixações, mau suporte do lastro, cargas dinâmicas e danos oriundos do processo de socaria (Zakeri e Rezvani, 2012). Segundo respostas à uma pesquisa internacional realizada por Van Dyk et al. (2012), a deterioração do concreto na região de apoio dos trilhos (DRT), geralmente resultante de um processo de abrasão, é um dos problemas mais citados como falha em dormentes de concreto e Infraestrutura Modelagem, Aeroportos e Ferrovias I 265 XXIX Congresso Nacional de Pesquisa em Transporte da Anpet OURO PRETO, 9 a 13 de novembro de 2015 suas fixações na América do Norte. Uma vez que se ocorra perda de concreto superficial na região de apoio, uma angulação não esperada do trilho pode se formar, resultando em desestabilização do comprimento da bitola e, por sua vez, iniciar o processo de descarrilamento do trem. Desta forma, este artigo de revisão da literatura tem como objetivo apresentar os processos de deterioração do material concreto na região de apoio dos trilhos em dormentes de concreto. Também será apresentado os mecanismos de deterioração do concreto e sua influência na vida útil desses dormentes. 1.1. Justificativa O dormente de concreto está cada vez mais em uso nas construções de novas linhas ferroviárias no Brasil, assim como na reforma de linhas antigas. Esses dormentes são projetados para suportar grandes solicitações e manter uma longa vida útil. Porém, problemas localizados, como a deterioração do material na região de apoio dos trilhos, podem levar estes dormentes à falha prematura e até a descarrilamentos. Dormentes de concreto são mais caros, pesados e difíceis de instalar em comparação a outros materiais, o que torna a sua troca onerosa, tanto na aquisição do material, como na mão de obra de instalação. Por fim, o estudo dessa patologia é importante, pois pode representar riscos de acidentes, diminuição do ciclo de vida do material e perdas financeiras na substituição dos dormentes defeituosos. 2. OS DORMENTES DE CONCRETO 2.1. Tipos As ferrovias brasileiras utilizam predominantemente dois tipos de dormentes de concreto: o monobloco protendido (representado na figura 1) e o bi-bloco. O primeiro é fabricado segundo as normas da ABNT 11709 e, segundo a empresa estatal de infraestrutura ferroviária VALEC (2012), deve ter as características de comprimento de 2,8 m (para bitola de 1,6 m) e resistência característica à compressão de 45 MPa aos 28 dias. Figura 1: Dormente monobloco de concreto protendido (Dorbrás - Companhia Brasileira de Dormentes, 2012). O dormente bi-bloco, representado na figura 2, consiste basicamente da ligação de dois blocos de conreto armado interligados por um perfil metálico. Segundo a Dorbrás (2012), estes são Infraestrutura Modelagem, Aeroportos e Ferrovias I 266 XXIX Congresso Nacional de Pesquisa em Transporte da Anpet OURO PRETO, 9 a 13 de novembro de 2015 fabricados com concreto de f ck 40MPa e seu comprimento varia de acordo com a bitola da via. Figura 2: Dormente bi-bloco de concreto armado (Dorbrás - Companhia Brasileira de Dormentes, 2012). 2.2. Fixações McQueen (2003) descreve que o conjunto de fixações de dormentes de concreto usualmente consistem nos seguintes elementos: (Figura 3): Ombreira e Shoulder: peças de aço que são engastadas no dormente no momento da concretagem. Estas tem três funções, a saber: a primeira é localizar exatamente o local de disposição do trilho, a segunda é resistir à forças laterais transmitidas pelas rodas dos trens e a terceira é prover encaixe para os grampos; Isoladores: peças dispostas entre o patim do trilho e a face das ombreiras. O isolamento entre o trilho e as demais peças é necessário para o sistema de controle de tráfego ferroviário. Placa de apoio, palmilha ou almofada: são dispostos na zona de apoio dos trilhos, entre o patim dos trilhos e o concreto do dormente. Tem como função diminuir o atrito entre o trilho e o dormente; Grampos: são responsáveis por segurar os trilhos no seu devido lugar. Figura 3: Típico conjunto de fixação elástica tipo Pandrol (Valec, 2011). 3. PROPRIEDADES DOS MATERIAIS E ENSAIOS Existem normatizações brasileiras e internacionais a respeito da erosão por abrasão do concreto relacionando a perda de massa ou a perda em volume erodida de concreto com o tempo de ensaio. Contudo, esses ensaios provavelmente não conseguem magnificar a natureza de cargas dinâmicas aplicadas em trilhos. Como exemplo ao que ocorre em vertedouros de usinas Infraestrutura Modelagem, Aeroportos e Ferrovias I 267 XXIX Congresso Nacional de Pesquisa em Transporte da Anpet OURO PRETO, 9 a 13 de novembro de 2015 hidrelétricas, onde o desgaste abrasivo também pode ser um problema ao longo de sua vida útil, além de um bom projeto e execução do vertedouro, normalmente, os concretos possuem agregados resistentes e de maiores dimensões, compatíveis com a matriz cimentícia e com a resistência característica de projeto. 4. DETERIORAÇÃO DA REGIÃO DE APOIO DOS TRILHOS (DRT) Um defeito comum nos dormentes de concreto modernos, especialmente no monobloco protendido, é a deterioração da região de apoio dos trilhos (Figura 4). Esta deterioração é resultado de um processo de abrasão, que é um desgaste gradual da pasta de cimento do concreto, o que expõe o agregado da superfície do dormente abaixo da placa de apoio (Lutch, 2009). Figura 4: Exemplo de Deterioração da região de apoio dos trilhos (Zeman, 2010). O desgaste é causado principalmente em função da natureza das cargas dinâmicas aplicadas sob os trilhos. Nas zonas de apoio do trilho, a superfície de cimento do dormente é desgastada por esforços repetitivos de flexão oriundos dos trilhos carregados, tendo auxílio também da presença de água e agentes abrasivos no local. O agregado graúdo parcialmente exposto deteriora a placa de apoio que consequentemente “afrouxa” a fixação do grampo (National Transportation Safety Board – NTSB, 2006). 4.2. Principais causas da DRT Segundo Lutch (2009), os seguintes fatores exercem grande influência no desenvolvimento da DRT: a presença de água, as altas solicitações de trens com carga pesada, trechos de subida com inclinações elevadas e especialmente curvas com o grau de curvatura maior que dois dígitos. Em regiões de clima gelado, onde a via permanente está exposta a ciclos de congelamentos e descongelamento, o processo de DRT geralmente é acelerado. 4.1.1. Presença de água Uma das mais citadas causas da DRT é a presença de água na área de apoio dos trilhos. Zeman (2010) estudou experimentalmente (Figura 5) três possíveis fenômenos hidráulicos a fim de relacionar quais deles poderiam atuar no processo de degradação, os fenômenos foram: fissurações por pressão hidráulica, erosão hidro abrasiva, e erosão por cavitação. Infraestrutura Modelagem, Aeroportos e Ferrovias I 268 XXIX Congresso Nacional de Pesquisa em Transporte da Anpet OURO PRETO, 9 a 13 de novembro de 2015 Figura 5: Tanque d’água utilizado nos testes hidráulicos de Zeman (2010). Depois de análises experimentais em laboratório, Zeman (2010) chegou as seguintes conclusões: Fissurações por pressão hidráulica: aparenta ser o possível mecanismo hidráulico da DRT. Este mecanismo foi analisado a partir de uma estimativa da pressão exercida pela água na área de apoio dos trilhos e qual seria o dano causado pela pressão no concreto. Erosão hidro abrasiva: foi estudada a partir de uma velocidade teórica da água sob os trilhos e os limites inferiores teóricos da velocidade das partículas do concreto em suspensão, associados à erosão do concreto. O estudo apontou que é possível que o fenômeno contribua na DRT. Todavia, é difícil prever o quanto este mecanismo contribui para a DRT, sem que haja um estudo experimental com a função de medir a velocidade destas partículas em suspensão. Erosão por cavitação: os experimentos de Zeman (2010) demonstram que esta mecanismo pode ser impraticável ou altamente improvável, pois a teoria de colapso de bolhas estudada, para o tamanho das bolhas e ação das mesmas, corroboram que a hipótese da erosão por cavitação não causaria o dano da DRT ou mesmo influenciariam na mesma. Por fim, a presença de água é apenas parte do processo da DRT. A existência de forças atuantes e de outros materiais abrasivos são necessários para a atuação do mecanismo de desgaste. 4.1.2. Ciclos de congelamento e descongelamento Muitos casos de DRT tendem a acontecer em regiões frias ou com flutuações de temperaturas, que aliados a presença de água, geram ciclos de congelamento e descongelamento. Assim como qualquer outro material de concreto, os dormentes são afetados por estes ciclos (Lutch, 2009). Zeman (2010) explicou que a água causa DRT por meio de pressão hidráulica, porém, quando esta água é congelada o seu volume aumenta, gerando e propagando fissuras. Segundo Lutch (2009), o papel do congelamento na DRT ainda não foi cientificamente determinado, no entanto, a experiência empírica mostra que estes ciclos afetam e amplificam o problema. 4.1.3. Altas solicitações de trens com carga pesada As ferrovias vem aumentando cada vez mais a quantidade de carga carregada por eixo. Estas altas cargas concentradas são o principal mecanismo gerador de DRT, pois elas são o ponto Infraestrutura Modelagem, Aeroportos e Ferrovias I 269 XXIX Congresso Nacional de Pesquisa em Transporte da Anpet OURO PRETO, 9 a 13 de novembro de 2015 inicial dos demais mecanismos de abrasão. Portanto, alguns estudos verificaram experimentalmente a intensidade destas cargas, como os descritos brevemente abaixo: Conforme Kernes et al. (2011) ensaios realizados nos laboratorios da University of Illinois at Urbana-Champaign - UIUC demonstraram que as pressões aplicadas nas regiões de interação de apoio apresentam valores próximos de 20 MPa, valores consideravelmente altos considerando a área de aplicação destas pressões. Outro estudo de investigação de um descarrilamento, realizado em 2006 pela e Volpe Center, estimou valores de pressão médios aplicadas na região de apoio dos trilhos. Nesse estudo, consideraram-se forças laterais e verticais calculadas por meio de um carro experimental. Como resultado, os pesquisadores calcularam valores de pressão aplicados sob a área de apoio dos trilhos entre 3 MPa e 113 MPa (Kernes et al., 2011). 4.1.4. Curvas com alto grau de curvatura Curvas são os locais onde são observadas a maioria das ocorrências de DRT. Choros et al. (2007) verificaram que curvas de alto grau curvatura apresentam um padrão de desgaste do material de concreto em formato triangular, como ilustrado na figura 6. Figura 6: Padrão triangular de abrasão num dormente de concreto. As linhas pretas estão delineando um padrão de distribuição de pressão triangular, assumido na análise de Choros et al. (2007) Na análise de Choros et al. (2007) a geometria da curvatura acompanhada das altas pressões aplicadas nos trilhos geram padrões de abrasão irregulares, geralmente na forma de uma distribuição triangular. 4.1.5. Falha dos elementos de fixação Há pesquisadores que defendem que a principal causa da DRT é oriunda de falha dos materiais do conjunto de fixação. McQueen (2003) assume que os isoladores são os maiores responsáveis pela DRT, pois em trechos de curvas particularmente há uma tendência do trilho de exercer uma rotação em função da ação do friso das rodas do trem. Por consequência das altas forças transmitidas do trilho para o isolador e pela rotação dos mesmos, a face vertical dos isoladores se desgasta rapidamente. 5. CONSEQUÊNCIAS DA DRT Infraestrutura Modelagem, Aeroportos e Ferrovias I 270 XXIX Congresso Nacional de Pesquisa em Transporte da Anpet OURO PRETO, 9 a 13 de novembro de 2015 5.1. Pesquisa Internacional A fim de conhecer quais eram os principais defeitos nos dormentes de concreto e suas fixações, Van Dyk et al. (2012) realizaram uma pesquisa internacional com profissionais da comunidade ferroviária na Ásia, Austrália, Europa e América do Norte. Os resultados foram divididos em dois grupos de respostas: os das respostas internacionais e os das Norte Americanas. A resposta foi classificada de 1 a 8, onde 8 é o mais crítico. A tabela 1 traz um resumo da pesquisa nos países da América do Norte. Tabela 1: Os problemas mais críticos dos dormentes de concreto e fixações de acordo com as respostas na América do Norte (Van Dyk et al., 2012) Problemas mais críticos dos dormentes de concreto e fixações Deterioração do material da Região do apoio dos Trilhos (DRT) Desgaste ou fadiga do sistema Placa de Apoio/Fixações Fissuração por cargas dinâmicas Dano causado por descarrilamento Classificação Média 6,43 6,38 4,83 4,57 Fissuras por momento fletor negativo no centro do dormente Danos no processo de Soca 4,14 Outros (ex. Defeitos de Fabricação) 3,57 Fissuração por degradação ambiental ou química 3,50 4,50 Dessa pesquisa, os autores encontraram que o problema mais preocupante para os entrevistados Norte Americanos é o da deterioração do material da região de apoio dos trilhos (DRT) e o último da lista de preocupações seria a fissuração por degradação ambiental ou química. Zeman et al. (2009) explica que o DRT ocorre predominantemente na América do Norte, provavelmente pela combinação única de altas cargas por eixo nos trens, alto tráfego nas vias e condições ambientais necessárias. A mesma pesquisa, respondida por profissionais de ferrovias internacionais, listou o DRT como o último na escala de problemas mais críticos. Os danos no processo da soca são os que mais preocupam os profissionais pesquisados no espectro internacional, Van Dyk et al. (2012) assume que esta resposta poderia indicar que os danos poderiam estar relacionados a socaria insuficiente ou não frequente. 5.2. Substituição de dormentes A substituição de dormentes é bastante onerosa e requer equipamento mecânico adequado. Além disso, na substituição de dormentes é necessário fechar a via férrea, o que gera ainda mais prejuízos (Brina, 1983). Os dormentes devem ser substituídos quando estes apresentam um dano considerável, consequência de DRT ou de outros danos, pois a falha nestes elementos pode levar a descarrilamentos, que além de gerar um grande prejuízo para a ferrovia, pode danificar totalmente todos os dormentes da região (Brina, 1983). Infraestrutura Modelagem, Aeroportos e Ferrovias I 271 XXIX Congresso Nacional de Pesquisa em Transporte da Anpet OURO PRETO, 9 a 13 de novembro de 2015 5.3. Aumento da bitola e descarrilamento De acordo com Kernes et al. (2011), quando o material de concreto da região de apoio dos trilhos é perdido, surgem problemas como o aumento de bitola e perda de superelevação do trilho (a inclinação da região de apoio dos trilhos). As vias permanentes que apresentarem um destes dois problemas podem levar o trem ao processo de descarrilamento. Assim como ocorreu com um trem de passageiros da empresa americana de transporte de passageiros Amtrak (Figura 8), que descarrilou próximo a uma curva na cidade de Home Valley, estado de Washington (National Transportation Safety Board – NTSB, 2006). Figura 8: Local do descarrilamento do trem de passageiros da empresa Amtrak (NTSB, 2006) Em investigação, o órgão americano National Transportation Safety Board – NTSB (2006), verificou após o acidente que haviam na região do descarrilamento, 19 dormentes de concreto consecutivos apresentando falhas por DRT. A figura 9 apresenta a indicação das falhas nos dormentes investigados. Figura 9: Rolamento do trilho e DRT em um dos dormentes do local do descarrilamento (NTSB, 2006) Os trilhos do local do acidente desprenderam-se de suas fixações por consequência de DRT, pois o grampo perdeu sua força de fixação, o que iniciou o processo de descarrilamento. Infraestrutura Modelagem, Aeroportos e Ferrovias I 272 XXIX Congresso Nacional de Pesquisa em Transporte da Anpet OURO PRETO, 9 a 13 de novembro de 2015 6. POSSÍVEIS PROCEDIMENTOS DE MITIGAÇÃO Na busca de mitigar os efeitos da abrasão da DRT, Shurpali et al. (2012) realizaram experimentos de alterar os materiais utilizados no concreto destinado à fabricação de dormentes. Os autores utilizaram os materiais listados na Tabela 2 e avaliaram seu efeito na resistência de abrasão do concreto em relação ao exemplar de controle. Tabela 2: Mudança na resistência à abrasão relativa em relação ao exemplar de controle (Shurpali et al., 2012) Mudança na resistência de Tipo de exemplar abrasão (%) 0% de Ar incorporado -3,4 3.5 % de Ar incorporado *controle 6% de Ar incorporado -22,0 Concreto auto adensável -9,0 Agregado miúdo de aço 62,0 Concreto reforçado com 10,0 fibras Película de poliuretano 85,0 Película de Epóxi 11,0 Shurpali et al. (2012) concluíram a partir de seus resultados que a adição de película de poliuretano aumentou em cerca de 85% a resistência à abrasão do concreto em relação ao concreto de controle. Por outro lado, a incorporação ou remoção de ar, assim como o concreto auto adensável, reduziram a resistência à abrasão dos corpos de prova testados quando comparado aos de controle. 6.1. Soluções da indústria A revista Americana Railway Track & Structures – RT&S (2013) apontou algumas soluções da indústria para o reparo de áreas danificadas pela DRT. Entre elas estão a aplicação de uma camada de poliuretano sólido de cura rápida na área afetada do dormente. Este material foi desenvolvido para manter a aderência ao concreto em uma variedade de condições e resistir à abrasão local. A aplicação do produto pode ser feita em campo ou ainda na fábrica de dormentes. a) b) Figura 10: a) Aplicação de poliuretano sólido em campo (WVCO Railroad Division, 2015); Infraestrutura Modelagem, Aeroportos e Ferrovias I 273 XXIX Congresso Nacional de Pesquisa em Transporte da Anpet OURO PRETO, 9 a 13 de novembro de 2015 b) Aplicação automatizada de poliuretano em fábrica, com cura em infravermelho (Encore Rail Systems Inc, 2015). Lutch (2009) apontou alguns métodos desenvolvidos pela fabricante de dormentes americana L.B. Foster CXT, em colaboração com a ferrovia canadense Canadian National (CN). Estes métodos buscavam proteger a área a ser afetada pela DRT de forma econômica e sem alterar a forma geométrica dos dormentes. Dos vários métodos testados, concluiu-se que o método de incluir uma chapa de aço na região de apoio dos trilhos durante a concretagem do dormente teria os melhores resultados na mitigação da DRT (Figura 9). Figura 11: Placa de aço antes de ser concretada no dormente (Lutch, 2009 apud Peters, 2003) 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS A deterioração do material concreto na região de apoio dos trilhos tem sido um assunto cada vez mais discutido no meio ferroviário. No Brasil, este assunto tem interesse, sobretudo porque na ferrovia Norte-Sul empregou-se dormentes em concreto. Nem todas as causas e mecanismos de falha da DRT foram devidamente esclarecidos e, portanto, há ainda algumas lacunas no conhecimento. Isso pode ser preocupante a médio e longo prazo quando a maioria dos dormentes aplicados em ferrovias no Brasil e no mundo sejam produzidos em concreto. O problema de DRT ainda é pouco estudado e documentado no Brasil, onde o mesmo é apenas citado em manuais técnicos de empresas ferroviárias, como no Manual Técnico da Via Permanente da empresa Vale (Vale, 2009). Entretanto, com a demanda de maiores cargas nas ferrovias brasileiras, a probabilidade de que o DRT ocorra é maior e isto pode motivar maiores estudos sobre o tema. Por fim, há crescente interesse de grandes ferrovias em entender plenamente a origem do problema de DRT, desenvolver materiais resistentes e técnicas de mitigação da mesma. Contudo, o DRT é um problema degenerativo de ação lenta. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABNT NBR 11709 (2010) Dormentes de concreto – projeto, materiais e componentes. Associação Brasileira de Normas Técnicas, Rio de Janeiro. Brina, Helvécio. (1983) Estradas de Ferro. Vol. I. Editora UFMG, Belo Horizonte. Choros, J.; B. Marquis e M. N. 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(2009) Causes and Preventative Methods for Rail Seat Abrasion in North America’s Railroads. ASCE Cold Regions Engineering Conference. American Society of Civil Engineers (ASCE), Duluth, Minnesota, USA. p. 1-12. McQueen, P. J. (2003) Railseat abrasion of concrete ties - Summary report of the problem and existing solutions. RSA, USA. National Transportation Safety Board - NTSB. (2006) DCA-05-FR-010. Railroad Accident Brief. Washington, D.C., USA Shurpali, A. A.; J. R. Edwards; R. G. Kernes; L. Xiang; D. A. Lange e C. P. L. Barkan (2012) Investigation of Material Improvements to Mitigate the Effects of Abrasion Mechanism of Concrete Crosstie Rail Seat Deterioration (RSD) - TRB 13-4271. Transportation Research Board 92nd Annual Meeting. Washington, D.C., USA. p.1-15. Railway Track & Structures – RT&S (2013) Annual crosstie report 2013. Disponível em: <http://www.rtands.com/index.php/track-structure/ballast-ties-rail/annual-crosstie-report-2013.html>. Acesso em: 15 set. 2015. Riley, Joseph E. e J. C. Strong (2003) Basic Track In: American Railway Engineering and Maintenance of Way Association – AREMA. Practical Guide To Railway Engineering. Lanham, MD, USA. p. 67-147. Vale (2009). Manual Técnico da Via Permanente. Vale S.A., Rio de Janeiro. Valec (2012). Especificação de Material de Superstrutura - Dormente Monobloco de Concreto Protendido. Valec Engenharia, construções e Ferrovias S.A., Brasília. Valec (2012). Fixação elástica para trilho UIC-60 conjunto geral - 80-DES-000A-58-8039 Rev1. Valec Engenharia, construções e Ferrovias S.A, Brasília. Van Dyk, B. J.; M. S. Dersch e J. R. Edwards (2012) International Concrete Crosstie and Fastening System Survey - Final Results. Federal Railroad Administration (FRA). Washington, D.C.,USA WVCO Railroad Division (2015) Concrete Tie Repair: CTR-100. Disponível em: <http://www.wvcorailroad.com/concrete-tie-repair-ctr-100.html>. Acesso em: 15 set. 2015. Zakeri, J. e F. 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