SER HUMANO É COMUNICAÇÃO
Desde os primórdios que a humanidade comunica. A comunicação foi, desde o
princípio, factor de crescimento, de suplantação das outras espécies.
O ser humano conseguiu sobrepor-se às outras espécies porque, para além da
capacidade de trabalho conjunto, como grupo, foi capaz de comunicar e, portanto, de
planear, de criar estratégias e de as alterar de acordo com a realidade circundante.
O ser humano necessita de comunicar. Ele desenvolve-se comunicando, cresce
comunicando. A humanidade desenvolve-se porque comunica, porque transmite o
conhecimento de uma geração para a outra. É por isso que eu gosto muito da frase do
monge Bernardo de Chartres que diz: “Somos como anões montados em ombros de
gigantes para podermos ver mais e ver mais longe do que eles, não pela acuidade do
nosso próprio olhar ou pela estatura do nosso corpo, mas porque somos erguidos ao
alto e somos alçados pela grandeza de gigantes”.
A comunicação, de acordo com a teoria que mais se destaca actualmente,
compõe-se de cinco elementos, a saber:
O emissor – Ponto de partida da mensagem;
O receptor – Ponto de chegada da mensagem;
A mensagem – Conteúdo da comunicação;
O canal – veículo da mensagem
O código – conjunto de sinais moduladores.
Ou seja – o processo de comunicação consiste em um emissor fazer chegar uma
mensagem a um receptor, através de um determinado canal e utilizando um código
determinado.
Para que a mensagem reja recebida (percebida) é necessário que o código seja
comum aos dois elementos extremos da comunicação, ou seja, que o emissor e o
receptor utilizem um código comum. Se eu tentar dar uma aula de filosofia em
português a um japonês que não entende a língua em que falo, a mensagem não chega
ao seu destino.
A comunicação só pode acontecer em sociedade. Não pode haver um emissor
reconhecido como tal se não houver um receptor que assim o defina.
Desde o seio materno que o ser humano está em comunicação quer com o meio
ambiente, o útero materno, quer com o ambiente exterior através dos meios auditivos e
sensoriais. A criança consegue ouvir a partir das vinte semanas e já grava no seu cérebro
em desenvolvimento o som ambiente, nomeadamente as vozes das pessoas que a
rodeiam e com quem mais contacta.
No mundo exterior, a linguagem, nas suas diversas formas, é o meio privilegiado
que o ser humano utiliza para comunicar.
Esta, a linguagem, reveste diversas formas:
A linguagem verbal, a não verbal e a mediada.
Muito resumidamente podemos dizer que a linguagem verbal é a que se serve da
palavra, a não-verbal, a que usa os gestos e expressões e, a mediada, a que chega ao
receptor por um canal não directo, por intermediação.
Quando se escreve um livro, um texto, um poema, estamos a usar a linguagem
verbal, mas mediada.
Os receptores da mensagem não têm diante de si a componente não-verbal da
mensagem e que seria fundamental para que a recepção da mensagem possa ser mais
completa.
Na verdade, o ser humano, quando fala, transmite muito mais informação (cerca
de 83%) pela linguagem não-verbal do que pelo sentido literal das palavras que usa.
Quando lemos um texto de outra pessoa, deparamo-nos com essa limitação –
falta-nos a “interpretação” não-verbal da autora ou do autor do texto. É uma tarefa
muito mais ingrata, difícil e morosa quando temos que transmitir o nosso mundo
interior a leitores que apenas irão dispor do sentido literal das palavras que usarmos. Irá
faltar o estado de espírito em que nos encontramos quando escrevemos. Irão faltar os
gestos que reforçarão ou atenuarão o sentido do texto. Irá faltar, como enquadramento, o
nosso mundo, aquele em que crescemos e nos formámos.
De facto, o mundo tal como cada um de nós o vê e sente é só nosso. É
impossível de transmitir porque o outro, aquelas ou aqueles que nos vão ler, não têm
nem podem ter a mesma compreensão do que os rodeia que nós temos. A sua visão do
mundo resulta das vivências que cada um teve e que são diferentes de todas as outras.
É por isso que ao escrever para os outros, o escritor corre sempre o risco da
incompreensão, da distorção, da deturpação.
Mas todos nós sentimos necessidade de comunicar, de partilhar com os outros os
nossos sentimentos, a nossa forma de ver e viver o mundo e de trazer os outros, através
das suas interpretações, para o nosso mundo e, dessa forma, enriquecer mais o nosso
mundo interior.