APRESENTAÇÃO ORAL
Fernão de
Magalhães
Mensagem, de Fernando Pessoa
Os Lusíadas, de Luís de Camões
Disciplina de Português
Realizado por: Salvador Dias
Introdução
A figura de Fernão de Magalhães ocupa um lugar central na memória colectiva portuguesa, sendo
recordada tanto pela epopeia renascentista quanto pela poesia moderna. O navegador, nascido
por volta de 1480 e morto em 1521, comandou a primeira expedição a circum-navegar o globo,
ainda que ao serviço da coroa de Espanha.
A presente apresentação tem como objectivo comparar duas representações literárias deste
navegador: a estrofe 140 do Canto X de Os Lusíadas, de Luís de Camões, publicada em 1572, e o
poema “Fernão de Magalhães”, integrado na obra Mensagem, de Fernando Pessoa, publicada em
1934.
Procura-se analisar a estrutura formal e o conteúdo de cada texto, identificar os recursos
expressivos predominantes e, por fim, confrontar as duas visões, evidenciando as semelhanças e
as diferenças na forma como cada poeta interpreta o feito e o destino de Magalhães.
Fernão de Magalhães: o navegador
Nota biográfica
c. 1480 - 1521
Sabrosa, Portugal
•
Navegador português nascido por volta de 1480, provavelmente
em Sabrosa, no norte de Portugal.
•
Participou em expedições portuguesas no Oriente,
nomeadamente na Índia e em Malaca, e em acções militares no
Norte de África, onde sofreu um ferimento que o deixou coxo.
•
Perante a recusa de aumento da sua pensão por D. Manuel I,
ofereceu os seus serviços à coroa de Espanha.
•
Em 1519 partiu de Sevilha no comando de uma armada
destinada a alcançar as ilhas das especiarias pela rota ocidental,
descobrindo o estreito que hoje tem o seu nome.
•
Morreu em 1521, na ilha de Mactan, nas Filipinas. A viagem de
circum-navegação foi concluída por Juan Sebastián Elcano.
MENSAGEM
Fernão de Magalhães
No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto Cingi-lo, dos homens, o primeiro -,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.
Texto integral do poema (quatro estrofes)
Análise do conteúdo (Mensagem)
Primeira estrofe
Segunda estrofe
O poema abre com uma cena nocturna e ritualista:
uma fogueira ilumina o vale e uma dança “sacode a
terra inteira”.
Revela-se a identidade dos figurantes: são os Titãs,
“os filhos da Terra”, divindades da mitologia
clássica.
As “sombras disformes e descompostas” e os
“clarões negros” criam uma atmosfera de mistério e
inquietação.
Dançam para celebrar a morte do marinheiro, isto
é, de Magalhães, “que quis cingir o materno vulto”,
ou seja, abraçar e dar a volta à Terra.
O ambiente sugere forças primitivas e telúricas,
anteriores à ordem civilizada, preparando a entrada
das figuras mitológicas.
Sublinha-se o seu pioneirismo: foi, “dos homens, o
primeiro” a fazê-lo. A referência ao corpo “por fim
sepulto” recorda a sua morte longe da pátria.
Análise do conteúdo (Mensagem)
Terceira estrofe
Quarta estrofe
Os Titãs dançam sem saber que “a alma ousada do
morto ainda comanda a armada”.
A expressão “Violou a Terra” afirma o cumprimento
do feito: o homem dominou e devassou o planeta.
Mesmo após a morte, o espírito de Magalhães guia
as naus: é um “pulso sem corpo ao leme”.
Os Titãs continuam a dançar “na solidão”,
ignorando que já foram vencidos pela ousadia
humana.
A obra do navegador transcende a sua existência
física. “Até ausente” conseguiu “cercar a terra
inteira com seu abraço”, numa imagem da circumnavegação concluída.
O poema encerra com as sombras a perderem-se
“nos horizontes” e a subirem “dos mudos montes”,
num desfecho que dissolve o mito perante a vitória
do esforço humano.
Estrutura formal (Mensagem)
Organização do poema
Recursos expressivos
•
Quatro estrofes: três sextilhas e uma estrofe
final de seis versos, com encurtamento do
último.
Personificação
Versos maioritariamente octossílabos
(redondilha maior alargada), com variação no
verso final.
Metáfora
•
•
•
Rima predominantemente emparelhada e
cruzada, conferindo musicalidade e ritmo de
cântico.
Estrutura circular: a imagem das “sombras
disformes e descompostas” abre e regressa no
final do poema.
“Uma dança sacode a terra”; a alma que “comanda a
armada”.
“cingir o materno vulto” e “cercar a terra com seu abraço” (a
circum-navegação).
Adjectivação expressiva
“sombras disformes e descompostas”, “clarões negros”.
Referência mitológica
Os Titãs, “filhos da Terra”, simbolizam as forças da natureza.
OS LUSÍADAS
Canto X, estrofe 140
Mas cá onde mais se alarga, ali tereis
Parte também, co pau vermelho nota;
De Santa Cruz o nome lhe poreis;
Descobri-la-á a primeira vossa frota.
Ao longo desta costa, que tereis,
Irá buscando a parte mais remota
O Magalhães, no feito, com verdade,
Português, porém não na lealdade.
Luís de Camões, Os Lusíadas, 1572
Análise do conteúdo (Os Lusíadas)
v. 1-4
v. 5-6
v. 7-8
A ninfa Tétis profetiza a Vasco da Gama o futuro. Indica a existência de uma vasta terra a ocidente,
assinalada pelo “pau vermelho” (o pau-brasil), à qual será dado o nome de Santa Cruz e que será
descoberta pela primeira frota portuguesa.
Anuncia-se que, ao longo dessa costa, alguém irá procurar “a parte mais remota”, isto é, a
passagem para sul. Trata-se de uma referência antecipada à viagem de Magalhães em busca do
estreito.
Identifica-se explicitamente o navegador: “O Magalhães”. Camões reconhece o valor do seu feito,
“com verdade”, mas censura-o por ter servido outra coroa, afirmando que foi “Português, porém
não na lealdade”.
Estrutura formal (Os Lusíadas)
Organização do excerto
Recursos expressivos
•
Apóstrofe
•
•
•
Uma oitava (estância de oito versos), forma
fixa que estrutura toda a epopeia.
Versos decassílabos, com predomínio do
decassílabo heróico, próprio da poesia épica.
Esquema rimático da oitava camoniana:
ABABABCC, com rima cruzada nos seis
primeiros versos e emparelhada nos dois
últimos.
O dístico final concentra o juízo crítico sobre o
navegador, encerrando a estrofe com força
conclusiva.
O discurso dirige-se a Vasco da Gama: “ali tereis”, “vossa
frota”.
Antítese
Contraste entre “com verdade” e “não na lealdade”: o valor e
a censura.
Hipérbato
Inversão da ordem sintáctica: “De Santa Cruz o nome lhe
poreis”.
Profecia (prolepse)
A narração antecipa factos futuros através da voz da ninfa
Tétis.
Mensagem e Os Lusíadas: confronto
Semelhanças
Diferenças
•
Ambos os textos celebram o feito de
Magalhães e reconhecem a grandeza da
circum-navegação.
•
Em Os Lusíadas, Camões valoriza o feito, mas
critica a deslealdade de Magalhães por ter
servido Espanha (“porém não na lealdade”).
•
Os dois poetas integram o navegador numa
visão mais ampla da expansão marítima
portuguesa.
•
Em Mensagem, Pessoa não formula qualquer
censura; exalta o navegador como herói cujo
espírito triunfa mesmo após a morte.
•
Em ambos os casos, a figura de Magalhães
adquire dimensão simbólica e exemplar,
ultrapassando o registo meramente histórico.
•
Camões adopta um registo épico e narrativo;
Pessoa constrói um poema simbólico e mítico,
marcado pela atmosfera e pelo mistério.
Conclusão
A comparação entre a estrofe 140 do Canto X de Os Lusíadas e o poema “Fernão de Magalhães” de
Mensagem permite observar como uma mesma figura histórica pode ser objecto de leituras literárias
distintas.
Camões, condicionado pelo contexto da epopeia nacional e pela rivalidade entre Portugal e Espanha,
reconhece o mérito do navegador, mas não deixa de o censurar por ter colocado o seu talento ao
serviço de uma coroa estrangeira.
Pessoa, por sua vez, liberta-se desse julgamento moral e apresenta Magalhães como um símbolo da
ousadia humana, cuja vontade prevalece sobre a própria morte e sobre as forças míticas da natureza.
Conclui-se, assim, que os dois textos se complementam: enquanto Os Lusíadas inscreve o feito numa
perspectiva histórica e patriótica, Mensagem eleva-o a uma dimensão espiritual e intemporal.
Obrigado pela atenção
Salvador Dias | Disciplina de Português