Big Raminhos Neurofisiológicos Sebenta de Neurofisiologia 2º Ano – 2º Semestre Atualizada por: José Vicente Castro 2017/2018 Introdução Índice Aula 1 - Modelo Experimental de Excitabilidade da Membrana (3) Aula 2 - Condução das Fibras Motoras e Sensitivas, Reflexo Simpático Cutâneo e Placa Neuromuscular (6) Aulas 3 - Reflexos Tendinosos, Cutâneos e Posturais (13) Aula 4 - Força Muscular e Tónus, Coordenação e Cerebelo (19) Aula 5 - Sensibilidade Nociceptiva, Tátil e Profunda (24) Aula 6 - Reflexos Pupilares, Campos Visuais, Visão (26) Aula 7 - Sistema Motor - Modelo Computacional (32) Versão original por: Joana Marques e Rui Barata Sebenta atualizada para o ano letivo 2017/2018 Contribuições para a versão atual: Inês Passos Coelho Isabel Pinto Margarida Ramalho Micaela Pascoal 2 Modelo Experimental de Excitabilidade da Membrana Sinal: informações codificadas sobre os sistemas físicos ou fisiológicos. A semiologia médica trata de saber interpretar estes sinais. Exemplos: temperatura, pulsações, ruídos cardíacos e força de contração muscular. Os Equipamentos de Registo medem a diferença de potencial entre 2 polos e comparamno com 0. Estes servem para aumentar o número e a qualidade dos sinais obtidos. Exemplo: o galvanómetro mete tensões ou correntes elétricas. O potencial de membrana é a diferença de potencial entre o meio intra e extracelular, junto à membrana (pois no geral estamos sempre em equilíbrio elétrico). O ião mais importante para original este potencial é o K+ pois existe maior permeabilidade deste do que do Na+. O potencial de ação é a inversão do potencial de membrana após a ocorrência de um estímulo. Os canais de Na+ dependentes de voltagem alteram a sua conformação quando sentem altas voltagens, entrando este na célula e tornando-a eletropositiva. A Equação de Nernst mede a tensão em ambos os lados da membrana para um ião. A Equação de Goldman-Hodgkin-Katz fá-lo para mais do que um ião. Teoria do dipolo: Quando a frente de onda se aproxima, existe uma deflexão positiva. Quando a frente de onda se afasta, existe uma deflexão negativa. Quando a frente de onda é perpendicular, existe uma deflexão bifásica. 3 Registo da atividade elétrica Leis de eletricidade: o Tensão (V): diferença de energia entre 2 pontos. o Corrente Elétrica (A): movimento de cargas elétricas em função do tempo. o Resistência Elétrica (Ω): medida de oposição à passagem da corrente elétrica. o Lei de Ohm: A tensão entre A e B é proporcional à corrente e à resistência. V=R.I ou V= Ω.A Muitos dos sinais têm baixa amplitude e necessitam de alta sensibilidade. Assim é necessário amplificar e filtrá-los (uma vez que estamos constantemente a receber radiações provenientes dos aparelhos eletrónicos, rádio, etc.). Propriedades do sinal elétrico: Frequência, amplitude e fase. O Eletrocardiograma e o pré-amplificador Neurolog são exemplos de aparelhos que amplificam sinais biológicos. SNR (Signal-to-noise ratio): Permite quantificar a relação entre o sinal e o ruído. Quanto maior for o SNR, melhor, pois conseguimos amplificar o sinal com pouco ruído. Identificação das frequências num sinal: análise de Fourier. Os filtros podem ser analógicos ou digitais (Exemplo: Transformada Rápida de Fourier). Filtro passa baixo (low pass): corta as altas frequências (deixando passar as mais baixas que a Frequência de Corte). Exemplo: Frequência de corte de 10Hz, são cortadas as frequências de 10 a +∞Hz e passam as de 0 a 10Hz. 4 Filtro passa alto (high pass): corta as baixas frequências Filtro passa banda (band pass): corta as altas e baixas frequências. Exemplo: Só deixa passar entre 10 e 15 HZ. Filtro rejeita banda (notch): rejeita uma banda selecionada, usado universalmente para corte da interferência elétrica. Filtros para efeitos de pré-processamento do Eletrocardiograma: • • • Filtro para redução do ruído elétrico: rejeita banda de 3ª ordem Filtro para redução da componente muscular: filtro passa baixo com frequência de corte de 35Hz, passa baixo butterworth (tipo de filtro desenvolvido de modo a ter uma resposta em frequência mais plana possível) de 2ª ordem Filtro para redução da linha de base: passa alto de 2ª ordem butterworth com frequência de corte de 0,5 HZ Averaging: Forma de melhorar o SNR por repetição da medição do fenómeno. O K+ é o determinante do potencial de repouso e o Na+ o do potencial de ação. • Quando aumenta a permeabilidade do Na+ existe despolarização. Quando diminui a permeabilidade do Na+ não existem alterações pois em repouso esta já é baixa. 5 • • • • • • • • • • Quando aumenta a permeabilidade do K+, este sai da célula levando a uma hiperpolarização embora pouco acentuada pois naturalmente a membrana já é permeável a este ião. Quando diminui a permeabilidade do K+ existe despolarização pois aumenta a carga positiva na célula. Quando aumenta a permeabilidade do Cl- este vai entrar na célula hiperpolarizando-a. Quando diminui a permeabilidade do K+ e aumenta a do Cl- tem um efeito nulo pois o primeiro despolariza e o segundo hiperpolariza. Quando aumenta a permeabilidade do Na+ e do Cl- existe uma despolarização com menor eficácia pois existe mais Na+ do que Cl- não sendo anulado o efeito. Em hipercalemia, K+ não sai da célula, acumulando-se e levando à despolarização. Em hipocalemia, K+ sai da célula, levando à hiperpolarização. Em hipercloremia, Cl- não sai da célula, acumulando-se e levando à hiperpolarização. Em hipocloremia, Cl- sai da célula, levando à despolarização. Em hipernatremia, Na+ não sai da célula, acumulando-se e levando à despolarização Em hiponatremia, Na+ sai da célula, levando à hiperpolarização. Condução das Fibras Motoras e Sensitivas, Reflexo Simpático Cutâneo e Placa Neuromuscular Sabemos que o sistema nervoso se divide em: Sistema Nervos Central (SNC) e Sistema Nervoso Periférico (SNP). O SNP, por sua vez, vai ser constituído por um Sistema Nervoso Autónomo (que apresenta fibras mais finas) e um Sistema Nervoso Somático. O último vai ser constituído tanto por nervos sensitivos como por nervos motores. -Emergem do corno anterior da medula. -Entram na medula através do corno posterior. é responsável pela inervação de um grupo motora). -A contração de um músculo pressupõe o -Miótomo corresponde ao grupo de músculos inervado por uma única raiz nervosa. de sensibilidade de uma raiz radicular). -Área sensitiva corresponde à área de sensibilidade de um nervo. 6 Ambos os tipos de neurónios são associados a células de Schwann. As fibras não mielinizadas são envolvidas por prolongamentos citoplasmáticos (sem mielina) destas células de suporte. As fibras mielinizadas são envolvidas pelo citoplasma das células de Schwann que se organizam em várias camadas e contêm mielina. A presença de mielina permite a condução saltatória do impulso, aumentando a velocidade de condução do sinal. Verifica-se que as fibras mielinizadas têm uma velocidade de condução de 40-70m/s comparando com uma velocidade de 0,5-2,0m/s para as fibras não mielinizadas. A eficiência da transmissão é superior para neurónios com maior diâmetro axonal e subsequente espessamento da camada de mielina e aumento da distância entre nódulos de Ranvier. O estudo da condução nervosa vai basear-se nos princípios básicos dos potenciais de ação, em que se aplica uma corrente elétrica com determinada intensidade que irá provocar uma resposta quando ultrapassado o limiar de excitabilidade. A utilização destes estudos permite avaliar lesões dos nervos periféricos (tanto sensitivos como motores). Permite-nos avaliar o local exato da lesão bem como a caracterização precisa da função nervosa periférica. A reobase e a cronaxia permitem diferenciar entre fibras lentas e rápidas. As fibras lentas têm reobase e cronaxia maiores que as das fibras rápidas. Ou sejam precisam ser mais estimuladas e durante mais tempo para provocar uma resposta. 7 Tipos de Lesões Nervosas continuidade axonal. Associada a compressão e subsequente desmielinização. semanas) Há perda da continuidade axonal, mantendo-se a bainha de mielina integra. Associada a lesão do nervo (por estiramento, por exemplo). A recuperação associa-se a crescimento axonal (dura 2 a 6 meses). Há lesão de toda a estrutura neuronal incluindo os elementos de conexão. todas as funções. Eletroneuromiografia É um exame complementar de diagnóstico que permite avaliar a integridade dos nervos periféricos. Vai limitar-se ao estudo das fibras do Sistema Nervoso Somático por serem as mais espessas, logo com maior velocidade de condução (a análise individualizada de fibras do SNA não é possível por este método já que são fibras mais finas, logo mais difícil de estudar). Este exame divide-se em duas componentes: neurografia e eletromiografia. Neurografia Faz-se o estudo tanto de condução nervosa sensitiva e da condução nervosa motora. Na condução nervosa sensitiva um único nervo sensitivo é estimulado à superfície da pele, sobre o trajeto do nervo sendo registado o potencial de ação sensitivo sobre o nervo num outro ponto do seu trajeto. Assim, designa-se por registo ortodrómico àquele em que o estímulo é aplicado distalmente e o registo é proximal (a favor do sentido natural do impulso no nervo sensitivo); registo antidrómico corresponde ao contrário, ou seja, o estímulo é aplicado mais proximal e o registo mais distal. Na condução nervosa motora é estimulado o nervo percutaneamente sobre o seu trajeto, sendo registado o potencial sobre o músculo que inerva. Neste registo há uma amplificação da resposta pelo músculo (há soma de resposta pelas várias unidades motoras). 8 Nestes testes procede-se à medição de: • Latência – corresponde ao tempo que a resposta demora a aparecer desde o momento de aplicação do estímulo. • Amplitude • Duração – tempo desde que a resposta surge até que cessa. • Área sob a curva Na condução nervosa motora o tempo de latência é dado por: • Tempo de ativação da fibra motora (tempo condução no tecido + tempo limiar/excitação do nervo) • Tempo de condução do nervo • Condução ramo distal • Condução placa neuromuscular (1ms) • Tempo ativação fibra muscular • Tempo condução fibra muscular (3-5m/s) • Tempo da propagação da corrente até elétrodo de registo A amplitude vai depender de todas as fibras, da transmissão neuromuscular e do volume do músculo. A duração é uma medida de sincronização das fibras e depende das diferentes velocidades de condução dos vários axónios do nervo e do tempo condução fibra muscular (3-5m/s). Na condução nervosa sensitiva o tempo de latência é dado por: • Tempo de ativação da fibra sensitiva (tempo condução no tecido + tempo limiar/excitação do nervo) • Tempo de condução do nervo • Tempo da propagação da corrente até elétrodo de registo Para as duas é ainda calculada: • Velocidade de Condução • Diferença de Amplitudes • Dispersão Temporal Para a realização deste exame é necessário ter algumas coisas em conta, nomeadamente: • • • • Deverá ser empregue uma intensidade supramáxima para assegurar que todas as fibras rápidas estão a ser estimuladas. Consideramos que para intensidades supramáximas a amplitude é máxima. A condução nervosa pode ser afetada por alguns fatores como: o Temperatura: a velocidade de condução aumenta com o aumento da temperatura corporal. A alteração é de aproximadamente 5% por cada 1ºC. o Variações de nervos e segmentos: a velocidade de condução é maior nas fibras dos membros superiores do que nas dos membros inferiores e menor nos segmentos distais (axónios de menor calibre). o Idade: a velocidade de condução não é a mesma ao longo de toda a vida do indivíduo. Verifica-se uma velocidade de condução menor no primeiro ano de vida e um decréscimo gradual a partir dos 30-40 anos de idade. No que diz respeito à amplitude também se vai apresentar diminuída com o avançar da idade. A determinação da velocidade de condução sensitiva é conseguida através da medição da distância entre o local de estimulação e o local de registo da informação. É possível ser determinada diretamente já que tanto a estimulação como o registo são feitos sobre o nervo. A velocidade de condução motora depende da estimulação sobre o trajeto do nervo em dois 9 • • locais distintos, permitindo depois pela diferença entre os tempos de latência determinar a velocidade. Esta não pode ser determinada diretamente porque a propagação do estímulo é atrasada pela junção neuromuscular. Quando se faz a estimulação em dois pontos do trajeto do nervo a diferença entre as amplitudes proximal e distal superior a 50% é considerada patológica. A amplitude da condução sensitiva é da ordem dos microvolts (µV) enquanto a amplitude da condução motora é da ordem dos milivolts (mV). O estudo da condução nervosa poderá permitir a associação deste exame complementar a lesões nervosas, encontrando-se algumas alterações na tabela que se segue. Condução Nervosa Sensitiva Condução Nervosa Motora Neuropraxia Axonotmesia Alteração da junção neuromuscular Diminuição da massa muscular ↑Latência ↓Velocidade de Condução ↓ Amplitude (prolongada) ↓Amplitude = Latência --- ↑Latência ↓Velocidade de Condução ↓Amplitude = Latência = Velocidade de condução ↑Latência ↓Amplitude ↓Amplitude Eletromiografia Neste teste é introduzida uma fina agulha no músculo para registar a atividade elétrica de apenas uma unidade motora em repouso e durante o movimento voluntário. A agulha vai então registar um Potencial de Unidade Motora (PUM), ou seja, a soma do potencial de todas as fibras que se encontram em seu redor e que constituem a unidade motora de uma fibra. Vai fazer-se o registo de: • • • • Latência Amplitude Número de Fases Duração Um músculo saudável não apresenta registo em repouso. Na mobilização ativa quando se trata de uma miopatia regista-se uma ↓Amplitude do PUM. Se estamos na presença de uma neuropatia verifica-se que o período de latência é superior e a amplitude se encontra diminuída numa fase aguda. Numa fase posterior em que ocorra inervação colateral (as fibras motoras vizinhas ficam responsáveis pela inervação do músculo) a amplitude apresenta valores aumentados comparativamente com os valores de referência. Princípio de Henneman do recrutamento de unidades motoras: são recrutadas fibras das mais pequenas às maiores. Primeiro são recrutadas as fibras resistentes à fadiga e com pouca força (tipo I) e depois as com mais força e menos resistentes à fadiga (tipo IIa e depois IIb). 10 Estimulação Repetitiva Este teste é utilizado para avaliação de doentes com suspeita de doença na junção neuromuscular, como a miastenia gravis ou outros síndromes miasténicos. Neste teste há aplicação de uma série de 8 a 10 estímulos sendo registadas as amplitudes das respostas sequenciais. Se aplicados estímulos de baixa frequência (2-5Hz), nos quais se promove a libertação de neurotransmissores mas em que não se facilita a transmissão neuromuscular, a amplitude deverá diminuir (cerca de 5%) nos primeiros 4 a 5 estímulos sendo que depois se deverá verificar um aumento da amplitude em U até ao final. A diferença mais significativa é entre o 1º e o 2º estímulo. A diferença entre o estímulo de maior amplitude e o de menor amplitude não deverá ser superior a 10%. Em doenças em que há depleção dos níveis de acetilcolina (como na miastenia gravis) na estimulação repetitiva registam-se amplitudes cada vez menores. Quando se aplicam estímulos de alta frequência (20-50 Hz) procura-se pôr em evidência distúrbios na libertação de transmissores. No botão pré-sináptico existem canais de Ca+ que bloqueiam com a voltagem. Estes canais abrem para frequências baixas mas são bloqueados quando o estímulo é muito elevado, devido ao “safety gate” que existe. Para doentes que não têm este “safety gate” (é o caso do síndrome miasténico de Lambert-Eaton) os níveis de cálcio vão encontrar-se muito elevados no botão pré-sináptico após o exercício ou após a estimulação de alta frequência e assim sendo registam-se amplitudes muito grandes. Após uma estimulação supramáxima aplicada em qualquer ponto do trajeto do nervo motor existe uma pequena resposta tardia (onda F) após o potencial de ação “normal” (onda M). Esta onda F é um potencial de ação tardio induzido pela ativação antidrómica de neurónios motores. Para perceber melhor, quando nós estimulamos um neurónio motor aquilo que vai acontecer é por um lado a despolarização no sentido distal, que provoca o potencial de ação dito “normal” e uma despolarização no sentido proximal. Esta última despolarização prolonga-se até à medula onde há despolarização do corpo celular. Este estímulo poderá induzir um backfiring voltando o axónio a ser despolarizado e assim o aparecimento de novo potencial de ação que apresenta uma latência muito superior e uma amplitude menor. Este backfiring tem baixa amplitude e nem sempre ocorre pelo que se faz a aplicação de séries de 10 a 20 estimulações para resultados mais fidedignos. Onda M 11 Vai-se realizar o registo de: • • • • Amplitude da onda F Latência Percentagem de presença de onda Velocidade de condução É preciso ter em conta que nem sempre se registam ondas F já que quando a despolarização ocorre no sentido proximal, pode nem sempre progredir da mesma forma. Por esta mesma razão se verifica que a forma e latência da onda F variam para todas as estimulações (como se pode ver no gráfico anterior) enquanto a onda M se mantém sempre igual. Tudo isto permitem-nos saber informações sobre o estado de todo o nervo. Assim, verifica-se que: • Uma pessoa saudável apresenta mais de 70% de ondas F (em 15 estímulos tem pelo menos 11 ondas F). • Num processo de desmielinização a onda F terá um período de latência maior. • A diferença entre a menor e a maior latência registada designa-se por cronodispersão. Valores de cronodispersão superiores a 4ms são indicativos de processo de desmielinização. • A comparação de resultados bilateralmente é também muito importante! A sua utilização é de extrema importância na deteção de polineuropatias sendo um dos métodos mais eficazes na identificação de lesões neuronais proximais. Reflexo H Corresponde ao reflexo de estiramento induzido pela estimulação elétrica aplicada sobre um nervo periférico. É um reflexo monossináptico formado pelas fibras sensitivas Ia e pelos neurónios motores alfa. Reflexo H Distingue-se da onda F por necessitar de um estímulo submáximo e por não ser possível de se detetar em todos os grupos musculares dos membros. É detetado no palmar longo, solhar e gastrocnémio em adultos. É necessário aplicar um estímulo de intensidade baixa para que sejam estimulados nervos sensitivos e motores sem que esteja uma resposta máxima presente. Onda M Quando se aplica o estímulo há despolarização direta tanto de neurónios sensitivos Ia como de neurónios motores alfa. A despolarização dos neurónios alfa leva ao aparecimento da onda M. A despolarização que percorre o nervo sensitivo até à medula espinhal vai permitir a transmissão do estímulo para neurónios motores como se de um arco reflexo se tratasse. A despolarização vai depois percorrer o neurónio alfa registando-se um potencial. Quando aumentamos a intensidade do estímulo passam a ser estimuladas mais fibras motoras. Há evidências de que a estimulação de aferências motoras conduz a uma inibição pré-sináptica das fibras Ia e assim sendo o reflexo H diminui a sua amplitude até que para estímulos supramáximos o reflexo H se encontra ausente. Para a avaliação das ondas é analisada a amplitude e latência, comparandas com valores de referência adequados à idade e à altura do indivíduo. O reflexo H permite avaliar as funções motora e sensitiva do mesmo nervo periférico (por exemplo o nervo tibial). As alterações no reflexo H possibilitam a deteção de anomalias neuropáticas precocemente. 12 Sympathetic Skin Response É o método que permite o estudo das fibras do SNA, as fibras C. São fibras muito finas não mielinizadas que têm como neurotransmissor a acetilcolina. Estas fibras vão inervar as glândulas sudoríparas sendo assim possível o seu estudo. Reflete a função simpática sudomotora colinérgica. Podem ser aplicados estímulos elétricos, sons altos repentinos ou inspiração profunda (ativam o SN Simpático) registando-se assim um potencial. Deste é necessário ter em conta a amplitude, a latência (às vezes é difícil avaliar o período de latência principalmente se for através de estímulo sonoro ou inspiração), área e período de recuperação. A aplicação de estímulos repetitivos causa habituação. É patológico quando não se regista qualquer resposta cutânea. A latência no membro superior é menor que para o membro inferior. O tempo de latência para as mãos deve ser <2ms e para os pés <3ms. Problemas deste método: respostas simpáticas cutâneas espontâneas, artefactos de movimento, elétrodos danificados e amplificação errada. Reflexos Tendinosos, Cutâneos e Posturais Os Reflexos são sequências de estímulo-resposta importantes na manutenção da homeostase do organismo e desenvolvem-se, na maior parte das vezes, de forma involuntária e inconsciente (especialmente aqueles que regulam o meio interno). No entanto, alguns reflexos resultam da aprendizagem e da prática, sendo por isso designados por Reflexos Apreendidos ou Adquiridos. O estudo da integridade e motilidade reflexa torna-se, assim, importante no contexto do exame neurológico, já que estes fornecem informações de diagnóstico relevantes e independentes da colaboração ou estado de consciência do doente – são sinais objetivos. Desta forma, é possível distinguir 3 tipos de reflexos com base nos seus padrões anatómicos, fisiológicos e patológicos: Reflexos Tendinosos, Reflexos Cutâneos e Reflexos Patológicos. A via que medeia um dado reflexo constitui o seu Arco Reflexo, cuja integridade vai ser a condição essencial para a produção desse mesmo reflexo. O Arco Reflexo vai então ser constituído, de uma forma geral, por: um órgão sensitivo (Fusos Neuromusculares ou Órgãos de Golgi), um neurónio aferente (ou sensitivo), uma estação de integração (onde ocorrem as sinapses), um neurónio eferente (ou motor) e um órgão motor periférico (músculo). Qualquer lesão que, de alguma forma, interrompa este circuito, levará à abolição do reflexo. 13 O Fuso Neuromuscular deteta a variação do comprimento muscular (aferências Ia e II). O Órgão Tendinoso de Golgi deteta a variação da tensão muscular e participa no Reflexo Miotático Inverso: durante a contração das fibras musculares, alem da coativação gama nos fusos, os órgãos tendinosos de Golgi também são estimulados: as fibras aferentes Ib originam potenciais de ação que excitam interneurónios inibitórios que sinapsam os neurónios motores ativos de forma a serem inibidos. Protege contra a contração excessiva. Este tipo de arco reflexo no qual só ocorre uma sinapse (entre o neurónio aferente e o eferente, ao nível do SNC) designa-se por arco monossináptico (dos quais são exemplo o reflexo miotático inverso e o reflexo de estiramento). No entanto, alguns arcos reflexos, além destes elementos básicos, são também constituídos por um neurónio central intercalado entre o neurónio aferente e o eferente – o neurónio de associação ou interneurónio. Nestes casos, estamos perante um arco polissináptico, entre os quais se destacam os reflexos de proteção (defesa, corneano e tosse), os reflexos nutricionais (deglutição), os reflexos locomotores e os vegetativos (circulação, respiração, função sexual, …). Contudo, estes circuitos podem envolver outras conexões, como as aferências que recebem das vias piramidais. De facto, os feixes motores voluntários que as constituem exercem uma ação inibitória sobre os arcos reflexos, de tal forma que uma lesão na via piramidal conduz a um exagero dos reflexos tendinosos (por supressão da ação inibidora). Reflexo de extensão cruzada 14 Exame Neurológico Deve ter-se em mente os seguintes pontos: • • • • • • • Colocar o doente e a nós próprios numa posição confortável Colocar o membro numa posição adequada Obter relaxamento completo do membro Comparar SEMPRE o reflexo de um lado com o do lado oposto (diferentes respostas nos dois lados devem sempre suscitar suspeita) Examinar TODOS os reflexos (e não somente os das regiões afetadas) Comparar reflexos dos membros superiores com os dos inferiores Percutir no local adequado e, se necessário, recorrer à palpação para a sua determinação A pancada deve ser brusca, seca e de intensidade moderada (devendo-se sempre modificar a intensidade no sentido inverso ao da resposta reflexa). Tendo em conta as características da resposta, podemos classificar os reflexos como encontrando-se normais, exagerados, fracos ou abolidos. A intensidade dos reflexos deve ser semelhante dos dois lados. Assim, a assimetria de um ou mais reflexos é sempre considerada patológica. Ao estado habitual dos reflexos de um indivíduo designamos Regime Reflexo. Assim, o estado exagerado de todos os reflexos do indivíduo, por exemplo, não deve à partida ser considerado patológico. É às pequenas variações deste padrão normal que devemos estar atentos, e são estas alterações e desvios ao regime reflexo que são consideradas anormais. Desta forma, um reflexo exagerado caracteriza-se por apresentar: • Limiar baixo • Energia e amplitude de movimento altas • Aumento da zona reflexogénea (área cuja estimulação desencadeia a resposta reflexa) • Prolongamento e repetição da resposta (resposta policinética ou reflexo policinético) • Irradiação Novamente, é importante referir que um exagero das respostas reflexas não constitui uma situação patológica causada, por exemplo, por lesão das vias piramidais. Há indivíduos que, de facto, apresentam um regime reflexo naturalmente exagerado, além de que as próprias emoções exageram os reflexos. Apesar de as respostas reflexas se caracterizarem por serem respostas involuntárias e inconscientes, até certo ponto podem ser reforçadas ou inibidas voluntariamente. Muitas vezes, mesmo que o doente se queira descontrair para facilitar o exame neurológico, não o consegue, acabando muitas vezes por surtir o efeito contrário. Nestes casos, devemos recorrer a técnicas para distrair o doente, como mandar o doente “olhar para o lado”, “fechar os olhos”, “contar de trás para a frente uma série de algarismos”, “cerrar os dentes”, … É neste contexto que, muitas vezes, se utiliza a Manobra de Jendrassik – pede-se ao doente para entrelaçar os dedos e puxar as mãos com força. Mesmo se, depois de aplicadas estas técnicas, restarem dúvidas, dever-se-á repetir o exame noutra ocasião, já que a abolição ou modificação de um reflexo constitui um elemento semiológico de primeira ordem. 15 Reflexos Tendinosos, Osteo-Tendinosos ou Profundos 1 - Reflexo Radial ou Estilo-Radial • • • • • • Coloca-se o doente diante de nós, sentado, e com o antebraço fletido em ângulo reto sobre o braço. Com a mão esquerda, devemos manter o antebraço em ligeira pronação Percussão faz-se na apófise estiloideia do rádio Resposta consiste na flexão do antebraço com supinação variável (resultado da contração do longo supinador e, por vezes, do bicípete) Centro medular localiza-se nos segmentos C5 e C6 Poderá haver contração moderada dos flexores dos dedos (com centro em C8) A abolição da flexão do antebraço juntamente com um exagero da flexão dos dedos denomina- se inversão do reflexo radial e indica lesão dos segmentos C5 e C6 2 Reflexo Bicipital • • • • • • Coloca-se o doente numa posição semelhante à anterior Com a mão esquerda abraçamos o cotovelo do doente e, com o polegar, comprime-se levemente o tendão do bicípete Com o martelo, percutimos o nosso próprio dedo Resposta consiste na flexão e supinação do antebraço Centro medular localiza-se em C5 e C6 Mesmo que o reflexo esteja fraco, devemos sentir a saliência do tendão sob o polegar causada pela contração do músculo 3 Reflexo Tricipital • • • • Doente deve ter o antebraço semi-fletido e relaxado Percute-se o tendão do tricípete (o tendão é curto, sendo facilmente estimulado, acima, o músculo mecanicamente ou, abaixo, o reflexo olecraniano ósseo) Resposta consiste na extensão do antebraço Centro medular localiza-se em C6, C7 4 Reflexo Rotuliano ou Patelar • • • • • • Coloca-se o doente sentado, com os pés assentes no chão, fazendo as pernas um ângulo ligeiramente obtuso com a coxa Percute-se o tendão rotuliano (entre a rótula e a inserção tibial). Caso este não seja facilmente observável, deve recorrer-se à palpação para determinar a sua localização A resposta consiste na extensão da perna sobre a coxa Caso o doente não se possa levantar faz-se o exame em decúbito dorsal. Passando o antebraço por baixo dos seus joelhos levantamo-los à mesma altura e, com a mão direita, percutimos alternadamente um e outro lado Centro medular localiza-se em L2, L3 e L4 Em casos de híper-reflexia, verifica-se a irradiação do reflexo, dando-se a contração de outros músculos (pode mesmo estender-se à região posterior da coxa) 5 - Reflexo Aquiliano • O doente deve ajoelhar-se numa cadeira, de costas para nós, de forma a que os pés fiquem fora da mesma, livres. Caso o doente não consiga executar esta posição, coloca-se em 16 • • • decúbito dorsal, cruzamos-lhe as pernas, colocando-nos do lado oposto ao que exploramos, segurando com a mão esquerda o pé Percute-se o tendão de Aquiles A resposta consiste na contração dos músculos posteriores da perna, resultando na flexão plantar Centro medular localiza-se em L5, S1 e S2 [NOTA: A ocorrência de AVC’s agudos ao nível do córtex nas zonas onde se originam as vias piramidais vai levar, numa primeira fase, a uma híper-reflexia, por supressão da sua ação inibidora sobre os arcos reflexos. Numa segunda fase, por AVC crónico, verificar-se-á atrofia muscular, com consequente abolição do reflexo] Reflexos Cutâneos Estes reflexos, ao contrário dos tendinosos, envolvem mais do que 3 neurónios: • • • • • 1º neurónio (espinhal) – conduz os estímulos sensitivos até ao bulbo (Núcleos de Goll e Burdach) 2º neurónio (bulbo-talâmico) – conduz o impulso ao tálamo 3º neurónio (tálamo-cortical) – conecta o tálamo ao córtex da circunvolução parietal ascendente 4º neurónio – transmite o impulso à área motora, de onde parte a via piramidal para as células dos cornos anteriores da medula 5º neurónio (motor) – sai da medula em direção ao músculo, onde termina Além disso, diferem dos reflexos tendinosos na medida em que, nestes, lesões no 1º neurónio motor tornavam o reflexo exagerado e lesões no 2º aboliam-no ou enfraqueciam-no; enquanto que, no caso dos reflexos cutâneos, qualquer uma destas lesões leva ao seu enfraquecimento ou abolição. 1 - Reflexos Abdominais • • • • • • • • • Risca-se o ventre com um alfinete ou um objeto de ponta romba, de fora para dentro ou de dentro para fora Resposta consiste na contração dos músculos abdominais com desvio do umbigo para o lado estimulado Centro medular localiza-se em T6 a T12 Procura-se em 3 alturas: R. Abdominal Superior - paralelo ao rebordo costal, abaixo do mesmo (T6-T9) R. Abdominal Médio - altura do umbigo, transversal R. Abdominal Inferior - linha paralela à prega das virilhas (T10-T12) Abolição destes reflexos é sugestivo de lesão das vias piramidais (como esclerose em placas) São difíceis de provocar em obesos, multíparas e crianças com menos de 1 ano 17 2 - Reflexo Plantar • Reflexo bem definido, que se testa com o doente deitado • • • longo do bordo externo do pé Resposta consiste na flexão de todos os dedos do pé Centro medular localiza-se em L5 e S1 • Se o pé estiver frio, o reflexo pode não aparecer Reflexos Patológicos – lesão das vias piramidais São reflexos que só aparecem quando a via piramidal se encontra lesada (sendo também chamados de sinais da via piramidal). Sinal de Babinski (ou sinal do grande dedo do pé) • • • • Pesquisa-se como o reflexo plantar Quando existente, a resposta consiste na extensão do 1º dedo do pé (os restantes dedos podem fletir, estender ou ficar imóveis) É normal ocorrer em bebés com idade inferior a 2 anos de vida, sendo que o reflexo plantar normal só aparece depois dos 3 anos É o sinal da via piramidal mais frequente. Por esta razão, quando existe, torna-se desnecessário pesquisar os restantes Clono É uma sucessão rítmica de movimentos reflexos profundos, sendo, portanto, um reflexo policinético. Não é um sinal de lesão da via piramidal, mas sim de hiper-excitabilidade. Clono da Rótula • • • Segura-se a rótula entre o polegar e o indicador e empurra-se para baixo com força Resposta consiste numa série de contrações rítmicas do quadricípede – dança da rótula Dependendo do tempo que leva até à extinção destas contrações, classificamos este clono em: Ligeiro/Fruste ou Inextinguível Clono do Pé • • • Faz-se a flexão dorsal brusca do pé, mantendo a posição A resposta consiste na contração sucessiva do solhar e dos gémeos – dança do pé Pode existir em indivíduos normais (clono funcional), podendo confundir-se com um clono patológico. A distinção faz-se com base no seguinte critério: no clono funcional, quando se flete completamente a perna sobre a coxa ele desaparece completamente, ao contrário do que acontece no clono patológico 18 Diagnóstico das Síndromes Piramidais Utilizam-se as seguintes provas: Prova dos braços estendidos: o doente estende os braços, formando um ângulo reto com o corpo. Se houver défice piramidal, o braço parético cai verticalmente, gradualmente. Prova de Mingazzini: com o doente em decúbito dorsal, flete-se as pernas formando um ângulo reto com o leito. Se houver lesão, a perna parética desflete-se progressivamente. Prova de Barre — Doente em decúbito ventral, pernas fletidas sobre as coxas em angulo reto. Esta posição é mantida por alguns minutos sem maior esforço, não persiste se houver défice dos músculos flexores das pernas. Reflexos Primitivos São reflexos caraterísticos dos bebés e que contribuem para a sua sobrevivência e desenvolvimento motor. Pela sua importância, destacam-se os reflexos de sucção e o reflexo da marcha. Eles perdem-se com a idade. Reflexos Posturais São reflexos que permitem o suporte do peso do corpo e a manutenção da posição. • • Via Aferente – Sistema visual, vestibular e propriocetores Via Eferente – alfa-motoneuronios dos vários músculos esqueléticos Muitos dos reflexos de estiramento ajudam a manter a postura ereta. As atividades coordenadas de músculos antagonistas permitem manter o peso do corpo em pé. Exemplo: inclinação anterior do corpo estira os recetores sensitivos localizados nos gémeos que aumentam o tónus nestes músculos e o corpo retoma a sua posição inicial. Os músculos posturais geralmente têm um tónus muscular mantido e são extremamente sensíveis aos recetores sensitivos de estiramento e permitem ajustes subconscientes Força Muscular e Tónus, Coordenação e Cerebelo O Tónus Muscular (ou postural) consiste num reflexo propriocetivo que tem como objetivo manter a postura corporal através da contração moderada e permanente dos músculos esqueléticos. Este reflexo vai assim depender de estímulos tonígenos (originados em fusos neuromusculares) que são controlados por centros nervosos, sendo depois transmitidos os impulsos aos órgãos efetores (as fibras musculares). Os vários mecanismos reguladores deste reflexo agrupam-se em dois sistemas, com base na sua ação: um sistema ativador e outro moderador. Ainda que estes sistemas estejam normalmente em equilíbrio, a prevalência de um em relação ao outro está na origem das variações fisiopatológicas do tónus. 19 Este tónus pode e deve ser avaliado no exame neurológico. Para tal ser possível é necessário o relaxamento do músculo ou grupo muscular a avaliar, obtido somente pela suspensão completa dos estímulos voluntários. No entanto, nem todos os doentes conseguem atingir este grau de relaxamento. Aliás, muitos, como os mais emotivos, acabam por contrair ainda mais. Nestes casos, deve avançar-se no exame, passando a avaliar a força ou os movimentos ativos, regressando-se depois ao exame do tónus. Para o exame neurológico ao tónus podemos realizar dois processos distintos: • • Palpação: apesar de ser um processo muito grosseiro, permite-nos avaliar algumas das propriedades físicas do tónus (como a consistência, o relevo ou a facilidade de deformação) Mobilização Passiva: é mais precisa e fornece aspetos clínicos mais relevantes. Consiste em forçar o afastamento dos pontos de inserção do músculo, o que desenvolverá uma dada tensão contrátil moderada e uniforme. Esta resistência que encontramos consiste no tónus Assim, nunca estamos a avaliar o tónus de um único músculo, mas sim do conjunto de várias unidades musculares sinergéticas. Em algumas situações fisiopatológicas, o tónus muscular pode encontrar-se alterado. Assim, em casos em que ele está aumentado, dizemos que há hipertonia; à situação contrária chama-se hipotonia. Hipertonia Podemos encontrar dois tipos de hipertonia: a espasticidade e a rigidez. Espasticidade • • • • • • • • • É característico das lesões piramidais Manifesta-se pouco depois de iniciarmos o movimento, surgindo uma resistência aumentada que, pouco depois, cede (o que pode ocorrer de forma brusca) Devido a este movimento característico pode ser chamado de reflexo da navalha de mola É mais acentuado quando o movimento é rápido. Se for lento pode atenuar-se ou mesmo desaparecer A sua distribuição não é uniforme: manifesta-se maioritariamente nos músculos antigravíticos (no membro superior os músculos flexores do antebraço e os adutores do braço, e no membro inferior os músculos extensores da coxa, da perna e do pé) Os músculos axiais e do tronco praticamente não são atingidos (somente num grau moderado em casos de lesão piramidal bilateral) O doente tem tendência a fazer a extensão dos membros inferiores e a flexão e adução dos superiores A força muscular encontra-se diminuída ou abolida Os reflexos tendinosos encontram-se exagerados Rigidez • • É característico das lesões extra-piramidais Associa-se à Doença de Parkinson e Síndromes Parkinsónicos (daí usar-se também o termo 20 • • • • • • • Rigidez Parkinsónica) Oferece uma resistência uniforme que não varia durante o movimento Ao contrário da espasticidade, pode afetar todos os músculos esqueléticos do tronco e membros Torna-se mais nítida quando o movimento é executado com lentidão O doente tem tendência para fletir moderadamente o pescoço, o tronco e os membros Quando o doente mobiliza uma articulação, encontra uma resistência intermitente e regular – sinal em roda dentada A força muscular encontra-se conservada Os reflexos tendinosos encontram-se normais Hipotonia Existe quando a resistência aos deslocamentos passivos está diminuída e a amplitude dos movimentos articulares aumentada. Um método típico para pesquisar a hipotonia consiste em levantar passivamente uma extremidade (por exemplo, o braço) e largá-la depois. Num membro hipotónico, esta volta à sua posição inicial de forma quase inerte. Quando a lesão é unilateral este fenómeno é mais nítido. A hipotonia pode ser considerada fisiológica em crianças e indivíduos de constituição asténica. É um sintoma típico de lesões do 2º neurónio (poliomielite e polinevrites), lesões das raízes posteriores (tabes), dos cordões posteriores da medula (doença de Friedreich), da coreia aguda (Coreia de Sydenham) e das afeções agudas do cerebelo. Graus de Força Muscular (Parésia) Paralisia completa Contração muscular de que não resulta movimento Execução de movimentos a favor da gravidade Execução de movimentos contra a gravidade Normal - É feita a comparação entre os vários grupos musculares da pessoa assumindo que estão saudáveis. 21 Para a avaliação da função motora avalia-se: • Estado trófico muscular (simetria, volume das massas, pesquisar atrofia, estado doloroso ou defeito mecânico que impeça o movimento) • Tónus • Força • Marcha • Coordenação. Cerebelo O cerebelo está envolvido em processos de sequenciação de atividades motoras, sendo também responsável pela monitorização e ajustes das atividades motoras do corpo enquanto estão a ser executadas, de modo a que sejam adequadas à ação que o cérebro planeou. Assim sendo, o cerebelo vai estar continuamente a receber informação: • • Do cérebro, sobre a sequência de movimentos que pretende realizar; Da periferia do corpo recebe informação sensitiva sobre as alterações de posição, movimentos, força que está a atuar etc. Como tal, o cerebelo está apto para comparar as informações do cérebro com a periferia e, assim sendo, pode ajustar corretamente os movimentos. O sistema nervoso utiliza o cerebelo para controlar as funções motoras a três níveis: vestíbulocerebeloso, espino-cerebeloso e cérebro-cerebeloso. Uma lesão no cerebelo conduz a perturbações na coordenação de movimentos voluntários: ataxia. O doente apresenta movimentos desajeitados, irregulares, imprecisos. As provas mais comuns para testar ataxia são: • • Prova do dedo-nariz: o doente estende o braço e pede-se para que toque na ponta do nariz. A realização desta prova com os olhos fechados evidencia ainda mais a lesão. Prova do calcanhar-joelho: o doente está deitado e pede-se que coloque o calcanhar sobre o joelho oposto. Na ataxia central o doente erra mesmo com os olhos abertos. Na ataxia periférica (lesão do aparelho vestibular) acerta com os olhos abertos. A ataxia pode manifestar-se através de várias lesões semiológicas: disartria, dismetria, adiadococinésia, tremor intencional, nistagmo, etc. Vestíbulo-Cerebelo Envolve as funções do lóbulo flóculo-nodular do cerebelo. Está envolvido no controlo do equilíbrio e movimentos posturais. Através desta via o cerebelo vai antecipar qual será a posição de cada parte do corpo nos próximos milissegundos, sendo, portanto, fundamental para a progressão em movimentos sequenciais. Desta forma, uma pessoa com uma lesão vestíbulo-cerebelar vai apresentar alterações do equilíbrio, principalmente durante rápidas alterações na direção do movimento. 22 Uma lesão típica desta área é a adiadococinésia. Uma das formas de testar lesões nesta via é pedir ao doente para fazer força contra a mão do médico, com o antebraço em pronação fletido sobre o braço (ou seja, o doente faz força em direção ao seu tronco). Quando o médico tira a mão repentinamente, o doente com esta área lesada irá bater com a mão no seu corpo. Outra forma de testar é pedir ao doente para bater com a palma e costas da mão sucessivamente na outra mão, a velocidade rápida. Espino-cerebelo Relacionado com funções do lobo anterior do cerebelo. Permite a coordenação de movimentos mais distais nos membros, principalmente. A esta região do cerebelo chega informação do córtex motor do cérebro e do núcleo rubro, indicando qual é o plano de movimentos a realizar para os próximos milissegundos bem como informação propriocetiva da periferia (especialmente partes distais dos membros) informando qual é de facto o movimento que está a acontecer. Ao comparar estas informações o cerebelo terá a capacidade de enviar sinais de correção tanto para o córtex cerebral como para o núcleo rubro. Esta região do cerebelo permite que ocorram movimentos coordenados e suaves dos músculos agonistas e antagonistas das porções distais dos membros. A lesão nesta região resulta num tremor intencional ou tremor de ação. Este tremor só surge com movimentos voluntários. Quando se pede ao doente para tocar com o dedo na ponta do nariz, o dedo começa a fazer movimentos oscilatórios com a aproximação ao nariz. Isto acontece porque a correção que o cerebelo faz de reconhecimento do movimento e correção rápida do mesmo não ocorre. Não ocorre, portanto, em repouso. Um tipo de tremor intencional é o nistagmo cerebelar e surge quando se pede ao doente que fixe um ponto. O nistagmo caracteriza-se por oscilação rítmica e involuntária de um ou ambos os olhos. Cérebro-cerebelar Envolve o lobo posterior do cerebelo (corresponde à maioria dos hemisférios cerebelares). Vai apresentar ligações às áreas pré-motora e de associação somatossensorial. Está envolvida no planeamento sequencial de movimentos e no timing desses movimentos. Permite a coordenação de movimentos voluntários fazendo com que a sequência e momento em que são realizados sejam adequados. Lesões nesta região do cerebelo podem provocar várias manifestações clínicas: • Dismetria: corresponde a uma alteração da amplitude de movimentos. Quando se realiza a prova do dedo-nariz, o dedo fica aquém do nariz (hipometria) ou ultrapassa-o (hipermetria). • Disartria: o doente apresenta uma fala entrecortada e os sons saem explosivamente, com sílabas separadas. Verifica-se nitidamente que não há capacidade de adequar a intensidade e duração da contração dos músculos da laringe para que a fala seja fluente. Testa-se pedindo ao doente para dizer o nome ou repetir uma frase. • Hipotonia: diminuição do tónus muscular. Marcha É um elemento muito importante a analisar durante o exame neurológico, já que diferentes patologias do foro neurológico causam diferentes tipos de marcha. Marcha Atáxica Cerebelosa Típica marcha do ébrio – insegura, oscilante, com muitas hesitações, paragens e desvios para 23 os lados O doente caminha com as pernas afastadas – dobra exageradamente o joelho e levanta muito o pé. Apesar de se desequilibrar muito, raramente chega a cair. Para avaliar o equilíbrio pesquisa-se o Sinal de Romberg. O doente fica em pé com pés juntos e perde o equilíbrio quando fecha os olhos. Sensibilidade Nociceptiva, Tátil e Profunda De uma forma geral, podemos dividir a sensibilidade em duas modalidades: • Sensibilidade Superficial: percetível ao nível da pele e mucosas. Compreende a sensibilidade táctil, térmica e dolorosa • Sensibilidade Profunda: é a sensibilidade dos vários órgãos subjacentes à pele (não confundir com sensibilidade visceral). Compreende a sensibilidade postural (ou das atitudes segmentares) e vibratória. Estes vários tipos de sensibilidade permitem-nos, por exemplo, ter noção da posição de um segmento de um membro estando de olhos fechados. Esta capacidade é conseguida através da integração da sensibilidade das superfícies com a das cápsulas articulares, tendões, ligamentos, músculos e tecido celular. Os estímulos sensoriais são recolhidos por aparelhos recetores especiais distribuídos por todo o corpo, de onde partem fibras nervosas que se reúnem para formar os nervos sensitivos ou as porções sensitivas dos nervos mistos. Antes de entrarem nos centros nervosos, as fibras são interrompidas ao nível dos gânglios espinhais ou dos nervos cranianos. Estes são constituídos por um conjunto de células (neurónios de 1ª ordem) com um único prolongamento que se divide em T, dando um ramo periférico (o nervo sensitivo) e um ramo central (as raízes posteriores). Chegado à medula, as fibras nervosas que conduzem cada tipo de modalidade (e que até aí tinham um trajeto comum nos nervos sensitivos) dividem-se e agrupam-se por funções, sendo que cada modalidade constitui um feixe distinto que se dirige para os centros supra-medulares. Assim, verificamos que ao nível dos nervos e das raízes temos um agrupamento anatómico, enquanto que ao nível da medula e centros nervosos temos um agrupamento fisiológico. Esta independência das vias de condução leva a que possam existir perturbações da sensibilidade térmica e dolorosa com conservação da sensibilidade táctil – dissociação siringomiélica (somente ao nível da medula – ao nível do bulbo deixamos de ter esta dissociação). Já quando ocorre uma abolição/diminuição da sensibilidade táctil, profunda e dolorosa, com conservação da térmica, estamos perante uma dissociação tabética. Para a realização do exame neurológico à sensibilidade, o doente deve estar de olhos tapados e deve dar respostas imediatas e precisas (de preferência de uma só palavra). Devem explorar-se os vários tipos de sensibilidade. Sensibilidade Tátil • • Testa-se excitando levemente a pele com um objeto que desperte exclusivamente sensações tácteis (Exemplo: um bocado de algodão ou um pedaço de papel). Não devemos usar os nossos dedos pois, além de despertarmos sensações térmicas, 24 • • • podemos exercer pressão e provocar outros tipos de sensibilidade Caso esta se encontre diminuída, diz-se que há hipostesia tátil; caso esteja abolida, há anestesia Um exagero da mesma denomina-se hiperestesia tátil São ativados mecanorrecetores, seguindo o estímulo pela via cordonal posterior (toque superficial) e pela via espino-talâmica (anterior) (toque grosseiro e profundo) Sensibilidade Dolorosa • • • • Testa-se picando a pele com um alfinete Caso esta se encontre diminuída, diz-se que há hipo-algesia; caso esteja abolida, há analgesia Um exagero da mesma denomina-se hiperestesia dolorosa São ativados nociceptores, seguindo o estímulo pela via espino-talâmica (lateral) Sensibilidade Térmica • • • • • Testa-se com o auxílio de tubos de água quente e de água fria (a temperatura deve ser sempre constante – água quente entre os 45 e os 52ºC e água fria entre os 4 e os 10ºC) Devem procurar-se isoladamente as sensações frio e quente, já que podem estar perturbados isoladamente ou um deles mais do que o outro Caso esta se encontre diminuída, diz-se que há termo-hipostesia; caso esteja abolida, há termo-anestesia Um exagero da mesma denomina-se hiperestesia térmica São ativados termorecetores, seguindo o estímulo pela via espino-talâmica (lateral) Sensibilidade Vibratória • • Testa-se com o auxílio de um diapasão, o qual se faz vibrar em pontos ósseos salientes (como o olecrânio ou os maléolos) São ativados mecanorecetores, seguindo o estímulo pela via cordonal posterior Sensibilidade Postural • • • • • • Não se consegue examinar isoladamente as sensibilidades muscular, tendinosa, ligamentar e articular, estudando-se deste modo a noção da posição dos segmentos do membro Deve segurar-se o segmento que se pretende explorar com o indicador e o polegar. Colocase esse segmento em diferentes posições (como flexão ou extensão), variando a amplitude do movimento, e pergunta-se ao doente em que posição está – caso haja lesão, o doente perde a noção da posição desse segmento Em primeiro lugar, devem testar-se os segmentos mais distais, já que estes são geralmente os mais atingidos Só pode ser válido quando o membro está completamente relaxado Perturbações deste tipo de sensibilidade designam-se de ataxia espinhal (tabética ou sensorial) e só aparecem quando o doente está de olhos fechados São ativados mecanorecetores, seguindo o estímulo pela via cordonal posterior Estereognosia • • • Permite o reconhecimento de objetos pelo tato Testa-se dando ao doente a palpar, de olhos fechados, um objeto de uso corrente, o qual o doente deve identificar Quando sofre perturbações designa-se por astereognosia 25 Sensibilidade Discriminativa • • Permite reconhecer figuras e distinguir a estimulação simultânea de dois pontos cutâneos próximos Testa-se através da prova do compasso de Weber Fibras sensoriais: • Mielinizadas - Aα e β - toque, vibração, posição, perceção • Pouco Mielinizadas - Aγ - frio, dor, perceção • Não mielinizadas - C - calor, dor, perceção A capacidade de inibição lateral das fibras melhora a acuidade sensitiva. Reflexos pupilares, campos visuais, visão Na avaliação da visão estamos a avaliar a função dos II, III, IV e VI pares cranianos. Optometrista – profissional na área da saúde especializado no estudo da visão, especificamente nos cuidados primários da saúde visual. Está habilitado a examinar e avaliar o sentido da visão, sendo especialista em diagnosticar e compensar através de artefactos óticos, alterações visuais. Oftalmologista – especialidade da medicina que trata as doenças relacionadas com a visão, a refração, olhos e seus anexos. Avaliação do Nervo Ótico Como sabemos a visão vai depender da receção de estímulos visuais nas células da retina. A luz vai ter de atravessar os vários constituintes do olho. 26 É fundamental referir a importância de alguns constituintes aqui enumerados: • • • • • Córnea – A sua lesão pode ser provocada por ventos de areia, por exemplo. O único sintoma do paciente será um lacrimejar abundante e contínuo, que corresponde à saída de humor aquoso. Esta lesão, se não tratada, pode levar à cegueira e à necessidade de transplante de córnea. Humor aquoso – é produzido pelos processos ciliares. Um aumento excessivo da sua produção ou um défice na drenagem do mesmo conduz a um aumento da pressão intraocular que corresponde ao glaucoma. Pupila – é responsável por deixar ou não passar a luz. Cristalino – vai ser fundamental para a acomodação da visão, ou seja, permite focar objetos tanto ao longe como ao perto dependendo do seu grau de estiramento. Está relacionado com vários problemas de erros de refração (ver à frente). A opacidade do cristalino corresponde às cataratas. Humor vítreo – é fundamental para manter a estrutura do globo ocular conferindo-lhe mobilidade. Vai ainda amortecer impactos traumáticos. Erros de Refração O olho vai ser composto por um sistema de lentes composto por quatro interfaces refratárias: entre o ar e a superfície da córnea, entre a superfície posterior da córnea e o humor aquoso, entre o humor aquoso e a face anterior do cristalino e finalmente entre a face posterior do cristalino e o humor vítreo. O cristalino vai permitir a acomodação da visão. Este é composto por uma cápsula elástica resistente preenchida por um fluido viscoso e proteico, mas transparente. Em torno do cristalino insere-se radialmente os ligamentos suspensores em direção às extremidades anteriores da retina, corpo ciliar e bordo anterior do coróide. No local de inserção ao corpo ciliar encontra-se o músculo ciliar o qual vai permitir controlar o estiramento do ligamento suspensor. Quando o músculo ciliar contrai o ligamento suspensor fica mais estirado e assim o cristalino assume uma forma mais esférica. O fenómeno da acomodação é controlado essencialmente pelo SN parassimpático, já que o músculo ciliar é inervado quase exclusivamente pelas fibras dos SNA que existem no nervo motor ocular comum. O efeito desta inervação permite um aumento da contração do músculo ciliar com consequente aumento do poder de refração e assim permite focar objetos mais próximos. Assim sendo, à medida que um objeto se aproxima progressivamente do indivíduo, há aumento do número de estímulos parassimpáticos para o músculo ciliar levando à aquisição de uma forma mais esférica pelo cristalino - Reflexo de Acomodação: constrição como resposta à convergência dos olhos sobre um objeto muito próximo. Acuidade Visual - Sensibilidade e clareza da visão A acuidade visual refere-se à capacidade de distinguir dois pontos próximos. Para uma acuidade visual normal é possível distinguir dois pontos se estes estiverem com 1mm de distância entre eles. E porque é que não conseguimos distinguir quando eles estão mais próximos? Quando os raios luminosos atravessam as lentes projetam-se na retina e são detetados pelos cones. O tamanho mínimo dos cones é de 1,5 micrómetros e, assim sendo, quando dois pontos estão mais próximos que 1mm vão acabar por estimular o mesmo cone na retina. 27 Mesmo para o restante olho, a acuidade visual não é igual em toda a superfície da retina, registando-se uma maior acuidade visual ao nível da mácula (maior densidade de cones) diminuindo a acuidade para a periferia. A acuidade visual vai depender da precisão da focagem da retina, da sensibilidade dos elementos nervosos e das capacidades de interpretação do cérebro. A avaliação da acuidade visual é feita através de tabelas com letras: tabela de Jaeger/Rosembaum para visão ao perto (35cm) e tabela de Snellen para visão ao longe (6m/20pés). A tabela de Snellen apresenta 10 linhas que apresenta tamanhos de letras que deveriam ser vistos a distâncias cada vez superiores. Se uma pessoa lê a última linha diz-se que tem uma acuidade 20/20 (normal) Se uma pessoa só consegue ler a primeira linha (corresponde a letras visíveis a 200 pés) diz-se que a acuidade é 20/200 (vê a 20 passos o que deveria ver a 200) o que corresponde a cegueira. A avaliação deve ser realizada individualmente para cada olho. Campimetria O campo visual corresponde à área vista por um olho para um dado instante. A área vista do lado interno ou medial designa-se campo visual nasal e a área lateral ou externa é chamada de campo visual temporal. Este teste é feito com um olho de cada vez. O olho que está aberto deverá estar a olhar em frente. Uma luz ou objeto é movimentado e o indivíduo deverá dizer quando consegue ou não vê-lo. Pode ainda ser avaliado através de um teste de confrontação, para o qual o médico se senta em frente ao doente, olhando em frente e fechando o olho contralateral ao que se quer avaliar no doente. O médico deverá movimentar um objeto pelo campo visual questionando o doente sobre quando o vê e comparando com a sua própria capacidade de o visualizar. Para todos os campos visuais existe um ponto cego que corresponde à projeção de raios luminosos sobre o disco ótico onde não existem cones para deteção do objeto. Assim sendo nesse local o sujeito não vê. O campo visual temporal é superior ao campo visual nasal para um indivíduo saudável. Alterações do campo visual Perda da visão para um olho - Há lesão do nervo ótico. Hemianópsia bitemporal - Corresponde a uma lesão ao nível do quiasma óptico. Não são processadas as informações da região nasal da retina, ou seja, os campos visuais temporais. Hemianópsia homónima esquerda - Corresponde a uma lesão na fita óptica direita. São afetadas fibras provenientes da região temporal direita da retina e da região nasal esquerda da retina, logo ficam afetados ambos os campos visuais esquerdos. Quadrantópsia superior esquerda - Corresponde a uma lesão em parte da fita ótica nas fibras inferiores da radiação óptica direita. Hemianópsia homónima esquerda com preservação da mácula - Há lesão do córtex cerebral direito com preservação da visão central devido à grande representação cortical da mácula. 28 anteriores da fita ótica (já próximo d Reflexos Pupilares A abertura da pupila vai controlar a quantidade de luz que entra no olho. O músculo constritor da pupila é inervado por fibras parassimpáticas que quando contraem diminuem a apertura pupilar – miose – e por fibras simpáticas que excitam fibras radiais da íris que causam a dilatação pupilar – midríase. O Reflexo Fotomotor é muito importante para a adaptação rápida do olho à variação de luminosidade. Para o testar faz-se incidir um foco luminoso no olho o que causa a miose. O estímulo luminoso vai ativar aferências do nervo ótico que vai transmitir a informação para núcleos da área pré-tetal. Daqui saem fibras para o núcleo de Edinger-Westphal (par III) de onde partem fibras préganglionares que sinapsam com fibras pós-ganglionares no gânglio ciliar e se dirigem para o músculo esfíncter da pupila. Este trajeto refere-se ao reflexo fotomotor direto. Existe também um reflexo fotomotor consensual, ou seja, a incidência de luz numa pupila vai provocar a contração de ambas as pupilas. Este reflexo consensual é possível porque ao nível da área pré-tetal os interneurónios que fazem a comunicação com o núcleo de Edinger-Westphal vão dirigir-se para os núcleos de ambos os lados e assim são estimuladas as fibras parassimpáticas de ambos os olhos. 29 Lesão no nervo motor ocular motor direito Quando se incide luz no olho direito -Não há reflexo directo do olho direito -Há reflexo consensual do olho esquerdo Quando se incide a luz no olho esquerdo -Há reflexo directo do olho esquerdo -Não há reflexo consensual do olho direito Quando se incide a luz no olho direito: -Não há reflexo directo do olho direito -Não há reflexo consensual do olho esquerdo Quando se incide a luz no olho esquerdo: -Há reflexo directo do olho esquerdo -Há refleco consensual do olho direito Fundoscopia Permite a observação do fundo ocular. É uma forma não invasiva de avaliar alterações vasculares, alterações de pressão intracraniana, retinopatia, degenerescência, etc. Avaliação do Motor Ocular Comum, Motor Ocular Externo e Patético O controlo dos movimentos oculares está a cargo dos III, IV e VI pares cranianos que vão inervar os músculos extra-oculares. Os músculos responsáveis pelos movimentos oculares são: • • • • • • Reto medial – movimento na horizontal para dentro – inervado pelo III par Reto lateral – movimento na horizontal para fora – inervado pelo VI par Reto superior – movimento para cima e para dentro– inervado pelo III par Reto inferior – movimento para baixo e para dentro – inervado pelo III par Oblíquo superior– movimento para baixo e para fora – inervado pelo IV par Oblíquo inferior – movimento para cima e para fora – inervado pelo III par Estrabismo Os doentes apresentam diploidia (visão dupla) Divergente com ação de movimento para dentro; há ptose palpebral) Convergente Há rotação interna do globo ocular esão do VI par. 30 Blink Reflex Este teste é utilizado para avaliação de parestesias faciais unilaterais e outras alterações nos nervos cranianos. Neste teste é estimulado o nervo supra-orbitário ou poderá ser estimulada a córnea. • Via aferente: fibras sensoriais do ramo supraorbitário da divisão oftálmica do nervo trigémio (V par), fazem sinapse com o núcleo sensorial ipsilateral do nervo trigémio na protuberância e com o núcleo espinhal ipsilateral do trigémio na medula. • Via eferente: fibras motoras do nervo facial (VII par) que se originam no núcleo motor ipsilateral do nervo facial, na protuberância. Neste teste são registados vários potenciais: • • R1 – é mediada por uma via disináptica entre o núcleo sensorial principal do V par e o núcleo motor ipsilateral do VII par. R2 – mediada por vias polisinápticas entre o núcleo espinhal do V par e os núcleos motores ipsilateral e contralateral do VII par. Na análise dos registos efetuados tem-se em atenção: amplitude, latência de R1, R2 e R2’ e duração do estímulo. Se ocorrer uma lesão (desmielinização, por exemplo): • • Lesão do V par - atraso ou diminuição de todos os potenciais (R1 e R2) bilateralmente quando o lado afetado da face é estimulado (atraso da via aferente). A estimulação do lado não afetado produz resposta normal. Lesão do VII par - R1 e R2 está alterada no lado afetado (atraso da via eferente). Respostas não alteradas no lado não afetado, independentemente do lado em que é aplicado o estímulo. Valores de referência: • • • • A latência máxima de R1 é de 13ms, sendo que comparando os dois olhos a diferença não deverá ser superior a 1,2ms. A latência máxima de R2 é de 40ms. A latência máxima de R2 contralateral é de 41ms. A diferença entre os dois R2 não deverá ser superior a 5ms 31 Sistema Motor - Modelo Computacional O desempenho de ações vai assentar nos princípios de mapeamento topográfico (através do homúnculo) e do processamento hierárquico. O processamento hierárquico é um pouco complexo. Se constatarmos, quando nos mexemos não pensamos no grupo de músculos que temos de contrair, mas sim na ação que pretendemos realizar. Ao planear a ação, a área pré-motora tem uma representação de movimentos complexos. Quando se estimula esta área do córtex pré-motor desencadeia-se um movimento que envolve vários grupos musculares de forma coordenada. Depois a área motora primária tem a representação de um músculo/grupo de músculos de acordo com o homúnculo motor desencadeando a ação. Vamos então tentar perceber os mecanismos envolvidos no controlo dos outputs motores. Por um lado, os gânglios da base vão selecionar uma das muitas ações possíveis de realizar e o cerebelo está encarregue de assegurar que a ação selecionada é realizada corretamente. Ambos estão fortemente interligados com o córtex frontal, pré-frontal e parietal. Aqui vamos referir-nos apenas ao papel dos gânglios da base. Ação dos Gânglios da Base O córtex recebe aferências sensitivas ininterruptamente e consequentemente planeia várias ações que respondem a essas aferências. No entanto, uma ação só é realizada depois de passar pelo tálamo (especificamente núcleos dorso-medial, ventral anterior e ventral lateral) e este a “aprovar”. O tálamo e o córtex comunicam de forma recíproca e para que uma ação se realize ambos têm de ter a informação para que ela se realize. No entanto, as informações passam também pelos núcleos da base que vão selecionar a ação a realizar. Destes, o Striatum será o principal núcleo de entrada da informação e o Globus Palidum interno e a Substância Nigra pars reticulada serão os principais núcleos de saída para o tálamo. Com base no esquema que se segue é explicado como é que os núcleos da base vão influenciar a escolha da ação a realizar. As setas representam vias excitatórias cujo neurotransmissor é o glutamato e as linhas com a extremidade redonda representam vias inibitórias cujo envolvido é o GABA. Já que uma ação só é realizada se o tálamo aprovar, se queremos inibir todas as ações que o córtex está a pensar realizar, é necessário bloquear o tálamo. O tálamo vai ser tonicamente bloqueado pelo Globus Palidum Interno (GPi). Nos circuitos ganglionares fronto-basais o papel desempenhado pelo GPi é desempenhado pela Substância Nigra pars reticulada (SNr). Se agora quisermos realizar uma atividade específica o que é que precisamos fazer? Inibir uma via específica do GPi (se inibirmos o travão a ação ocorre)! O córtex transmite as suas informações ao Striatum que por sua vez vai inibir o GPi deixando o tálamo aprovar uma ação. Esta via corresponde à via direta ou “Go”. 32 Córtex Núcleos Striatum Tálamo GPi SNr SNc Se o nosso objetivo for bloquear uma atividade específica que fazemos? Estimulamos uma via específica do GPi! O GPi é constantemente inibido pelo Globus Palidum Externo (GPe) (que também tem atividade basal, mas menor que o GPi) que por sua vez é inibido pelo Striatum (há inibição da inibição). Esta via corresponde à via indireta ou “No Go”. E agora se de repente pretendermos parar todas as ações que estão a acontecer? O mais fácil será estimular o GPi (ao estimularmos o travão bloqueamos ainda mais)! Os núcleos Subtalâmicos são estimulados pelo córtex e vão potenciar a ação do GPi. A esta via chamamos via hiperdireta ou “Global No Go”. Como é que agora podemos utilizar tudo isto na aprendizagem de ações, por exemplo? Sabemos que a Substância Nigra pars compacta (SNc) está envolvida na aprendizagem por reforço. Ou seja, está concentrada na SNc as ações que são “boas” e que devemos fazer e as ações “más” e que devemos reprimir. Ela vai libertar a dopamina nas situações de reforço positivo que vai atuar no striatum, na via direta, que apresenta recetores D1, bem como na via indireta, que apresenta recetores D2. Nas situações de reforço negativo não vai haver libertação de dopamina. Assim, para uma ação A, boa, é libertada dopamina que atua nos recetores D1 e estimula neurónios da via direta. A via direta para a ação A é reforçada. Atua ainda nos recetores D2 inibindo a via indireta. Os níveis elevados de dopamina relacionam-se com vias de reforço positivo. Quando o córtex planear realizar a ação A é mais provável que ocorra já que está mais desenvolvida a via direta. Para uma ação B, má, há uma diminuição da libertação da dopamina. Os neurónios da via “Go” são menos excitados enquanto os da via “No Go” para a ação B são libertados da inibição. Esta última pode receber impulsos excitatórios provenientes do córtex e assim ocorrer o bloqueio da ação B. A via indireta para a ação B é reforçada. Os níveis reduzidos de dopamina relacionam-se com vias de reforço negativo. Quando o córtex planear realizar a ação B é menos provável que ocorra porque está a via No Go mais desenvolvida. 33 Parkinson Na doença de Parkinson há perda de neurónios dopaminérgicos e assim existem níveis reduzidos de dopamina. Assim sendo, o que se verifica é que a via direta é pouco estimulada enquanto a via indireta está excitada. Por esta razão os doentes apresentam dificuldades em iniciar a marcha. Uma das opções terapêuticas que se pretende aplicar é a Deep Brain Stimulation. Nesta técnica pretende-se provocar uma pequena lesão no núcleo subtalâmico. Ao provocar esta lesão inibe-se a via hiperdireta e consequentemente o GPi não se encontra tão estimulado nem o tálamo tão inibido. Possibilita uma maior facilidade em iniciar movimentos. 34
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