ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Prof. Dr. Sandro Cardoso Santos – CEFET-MG Prof. Dr. Wisley Falco Sales – PUC Minas 2005 SUMÁRIO Pág. Capítulo I – Introdução ...................................................................................... 1 Capítulo II – Grandezas Físicas no Processo de Corte ..................................... 10 Capítulo III – Geometria das Ferramentas de Corte........................................... 18 Capítulo IV – Formação do Cavaco e Interface Cavaco-ferramenta.................. 30 Capítulo V – Força e Potência de Corte ............................................................ 56 Capítulo VI – Temperatura de Usinagem ........................................................... 70 Capítulo VII – Materiais para Ferramentas de Corte .......................................... 90 Capítulo VIII – Revestimentos para Ferramentas de Corte ................................ 129 Capítulo IX – Avarias, Desgaste e Mecanismos de Desgaste da Ferramenta 159 Capítulo X - Vida da Ferramenta e Quantificação do Desgaste ...................... 170 Capítulo XI - Fluidos de Corte: Fundamentos, Aplicações e Tendências ......... 177 Capítulo XII – Integridade Superficial ................................................................. 211 Capítulo XIII – Usinabilidade dos Materiais ........................................................ 234 Capítulo XIV – Referências Bibliográficas .......................................................... 261 CAPÍTULO I INTRODUÇÃO O desenvolvimento tecnológico está tão incorporado ao cotidiano da humanidade que é impossível imaginar a como seria o dia-a-dia sem eles. A Internet, que surgiu há pouco mais de uma década, transformou-se em um recurso indispensável e cada vez mais pessoas passam a utilizá-la como ferramenta de trabalho, entretenimento ou cultura. Diante de tantas facilidades, não é fácil compreender como as pessoas conseguiam viver sem eletricidade, automóveis e tantas outras facilidades que o mundo atual oferece. Os recursos disponíveis hoje fazem parte de uma linha evolutiva que teve origem em épocas remotas, com o início da organização em sociedades. A utilização de recursos naturais para tornar possível a sobrevivência não é exclusividade dos seres humanos. É impressionante a capacidade do joão-de-barro em construir sua casa e não há quem não se admire com o rigor geométrico com que são construídos os favos de mel pelas abelhas. A organização dos grupos de alguns animais também tem um nível de complexidade elevado, com indivíduos com atribuições bem definidas dentro dos grupos. Mas os seres humanos apresentam um fator de diferenciação entre os demais grupos do reino animal que é a capacidade de desenvolver novos recursos a partir dos já existentes. A história da tecnologia é caracterizada por descobertas e invenções que passam a fazer parte da vida das sociedades, modificam o modo de vida das pessoas. Como resultado dessa mudança surge a necessidade de novas descobertas e isso vem se repetindo desde que o homem começou a fabricar ferramentas de pedra, a se organizar em grupos, a ter o domínio sobre o fogo, a desenvolver as técnicas primitivas de fundição dos metais e assim por diante. Os dois primeiros parágrafos apresentados acima foram escritos para contextualizar o desenvolvimento dos estudos em usinagem, que seguem uma linha de evolução semelhante à dos demais recursos tecnológicos. Antes, porém, de detalhar o conceito de usinagem é feita uma apresentação dos processos de fabricação de modo geral. Fabricar consiste em transformar a matéria-prima em produto, conforme mostrado no desenho esquemático da Figura 1. As operações e transformações pelas quais passa a matéria-prima durante a sua transformação em produto caracterizam os processos de fabricação. Cada processo de fabricação apresenta características peculiares que o distingue dos demais. Assim, a fundição é caracterizada pela fusão de um metal que é vazado em um molde; a soldagem, pela junção de peças por meio da adição de metal fundido nas junções; a Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS conformação, pela deformação plástica como meio de obter a geometria do produto; a metalurgia do pó, pela prensagem e aquecimento de partículas misturadas a um aglomerante; a injeção, pela fusão de plásticos ou metais de baixo ponto de fusão que são conduzidos a alta pressão ao interior de um molde e assim por diante. MATÉRIA PRIMA PRODUTO ACABADO OU SEMI-ACABADO PROCESSO DE FABRICAÇÃO Figura 1.1 Representação esquemática de um processo de fabricação. O que caracteriza o processo de usinagem é que a transformação da matéria-prima em produto se dá pela remoção de material na forma de cavacos. A usinagem dividida em duas categorias de acordo com a energia empregada para remover o material. Na usinagem tradicional (ou convencional) o material é removido por cisalhamento devido à ação de uma ferramenta de corte. Como exemplos de processos tradicionais de usinagem têm-se o torneamento, fresamento, furação, alargamento, rosqueamento, retificação, brochamento, etc, Os processos não tradicionais (ou não convencionais) empregam outras modalidades de energia para remover o material como ultra-som, laser, plasma, fluxo abrasivo, reações químicas ou eletroquímicas, feixe de elétrons, etc. A usinagem convencional representa uma parcela significativa entre os processos de fabricação. Pode-se tomar como exemplo a fabricação de um automóvel. Se considerarmos os seus principais componentes, poderemos fazer uma longa lista de itens que são usinados em alguma etapa da fabricação. Produzir a forma desejada, partindo de outra forma inicial como matéria prima, pode ser realizado por diversas maneiras. Na Figura 1.2 são mostrados os diversos processos de fabricação atualmente desenvolvidos. O foco deste livro é o estudo dos processos de fabricação por usinagem, com ênfase nos fenômenos relacionados à remoção dos materiais por cisalhamento e nos processos de Sandro Cardoso Santos 2 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS usinagem propriamente ditos. A abordagem é apresentada do ponto de vista do estudo dos aspectos tribológicos da usinagem. A palavra Tribologia é oriunda do grego (tribos = atrito, logos = estudo). Tribologia é, portanto, a ciência trata do estudo do contato entre superfícies, com abordagem no atrito, desgaste e lubrificação. As superfícies em contato e o meio no qual estão inseridas são denominados Sistemas Tribológicos. Assim o par ferramenta-peça e o ambiente constituem um sistema tribológico e os fenômenos relacionados ao movimento relativo entre a ferramenta e a peça são avaliados considerando o atrito, desgaste e lubrificação. Sandro Cardoso Santos 3 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Convencional ComRemoção de Cavaco Usinagem Não Convencional Abrasivos Processos de Fabricação Torneamento Fresamento Furação Alargamento Mandrilamento Brochamento Roscamento Serramento Outros Eletroerosão Eletroquímica Jato Abrasivo Jato de Água Jato de Água Abrasivo Ultra-som Fluxo Abrasivo Laser Plasma Feixe de Elétrons Outros Retificação Brunimento Lapidação Lixamento Outros Fundição Soldagem SemRemoção de Cavaco Conformação PrototipagemRápida Molde de Areia Cera Perdida Fundução Sob Pressão Outros Eletrodo Revestido Resistência Arco Submerso Laser MIG/MAG TIG Laminação Extrusão Conformação Forjamento Trefilação Outros Estereolitografia Sinterização a Laser seletivo Modelagempor Deposição de Fundido Laminação de Objetos Impressão Tridimensional Figura 1.2 Principais processos de fabricação. Sandro Cardoso Santos 4 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS São considerados como processos de usinagem Usinagem, portanto, são todos os: PROCESSOS DE FABRICAÇÃO EM QUE UMA PORÇÃO DE MATERIAL É REMOVIDA DA PEÇA, POR CISALHAMENTO, NA FORMA DE CAVACO. Cavaco é a denominação dada à porção de material que é removida da peça. Outros processos de fabricação também retiram material da peça como a estampagem, a retificação, entre outros, mas o modo com que o material é retirado da peça apresenta algumas diferenças em relação à usinagem. Como exemplo, na usinagem tem-se ferramentas com geometria e quantidades definidas atuando sobre a peça, enquanto na retificação o número de ferramentas (grãos abrasivos) atuantes é muito grande e as ferramentas não possuem geometria definida. Além disso, eles estão aleatoriamente distribuídos sobre a superfície do rebolo e nesse caso, a retificação é enquadrada como um processo abrasivo, assim como o brunimento e a lapidação. A busca pelas origens dos processos de usinagem conduz a épocas remotas, pois as primeiras ferramentas fabricadas pelos seres humanos foram em pedra lascada. Se considerarmos que as lascas de pedra removidas sejam cavacos, pode-se identificar a Idade da Pedra Lascada como a época de origem dos processos de usinagem. O aprimoramento da técnica de fabricação de utensílios em pedra levou à Idade da Pedra Polida. Apesar de esses acontecimentos datarem de um passado longínquo, não se pode negar que foram marcos importantes no desenvolvimento humano, a ponto de a história os caracterizarem como períodos de desenvolvimento da pré-história. Um grande avanço nesse período foi a transformação do movimento de translação em movimento de rotação (com sentido de rotação invertido a cada ciclo). Este princípio foi aplicado em um dispositivo denominado furação de corda puxada, conforme mostrado na Figura 1.3. Figura 1.3 – Mecanismo de corda puxada. Sandro Cardoso Santos 5 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS O desenvolvimento da máquina de mandrilhar de John Wilkinson, no final do Século XVII pode ser considerado um marco no desenvolvimento dos processos de usinagem, pois com ela, James Watt pode fabricar cilindros com características geométricas e dimensionais adequadas para o emprego em sua máquina de vapor. As máquinas a vapor revolucionaram os meios de produção e transporte e foram a força motriz da Revolução Industrial do Século XVIII. A abordagem científica dos fenômenos que ocorrem nos processos de usinagem teve início a partir do final do Século XIX com os estudos de F. W. Taylor que tinham como objetivo o aumento da produtividade dos processos de fabricação. As pesquisas de Taylor revolucionaram os meios produtivos com o desenvolvimento do aço-rápido (em parceria com White), dos fluidos de corte e com a determinação da equação de vida para as ferramentas de corte, que ficou conhecida como equação de Taylor. No Século XX, como aconteceu nas diversas áreas do conhecimento, a usinagem teve desenvolvimento acentuado, com o desenvolvimento de materiais para ferramentas de corte, de fluidos de corte, revestimentos para ferramentas, máquinas-ferramenta e também no campo do desenvolvimento de materiais com usinabilidade melhorada. Destacam-se os trabalhos de E. M. Trent, que fez profundas investigações sobre a interface cavaco-ferramenta que permitiram o entendimento do processo de formação do cavaco e de mecanismos de desgaste das ferramentas de corte. O mundo passou por profundas transformações na segunda metade do Século XX, principalmente na sua última década, quando termos como globalização, abertura de mercado e competitividade passaram a ter uso corrente. O cenário do início do Século XXI é marcado pelo desenvolvimento tecnológico acelerado e pela competitividade. Nas condições atuais, a incorporação de recursos tecnológicos deixou de ser um fator de diferenciação entre produtos similares fabricados por empresas concorrentes, já que o acesso a novas tecnologias não é restrito a poucas empresas e assim que surgem novos recursos tecnológicos, eles são imediatamente incorporados aos produtos. Injeção eletrônica, freios ABS e air bag, por exemplo, não são exclusividades de uma ou outra montadora de veículos, pois são disponíveis em veículos de todas as marcas. Outro exemplo foi o lançamento dos automóveis equipados com motores bicombustível. Tão logo uma montadora anunciou um automóvel com funcionamento a álcool ou gasolina e várias outras lançaram seu modelos. Em um ambiente competitivo, o preço de venda do produto é fortemente influenciado pelo mercado e a semelhança entre produtos concorrentes no que diz respeito à incorporação de novidades tecnológicas impede que tais recursos sejam fatores de diferenciação. Como a Sandro Cardoso Santos 6 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS concorrência limita a liberdade de aumento de preço dos produtos e a incorporação de recursos tecnológicos não é privilégio desta ou daquela empresa, o melhor procedimento para o aumento da lucratividade é a busca pela melhoria contínua dos processos produtivos. Em se tratando de usinagem a busca pela otimização dos processos envolve um grande número de variáveis. O mercado ligado à usinagem é particularmente competitivo, mesmo para os padrões de competitividade atuais. Isso exige que os profissionais busquem sempre aprofundar seus conhecimentos na área, para que saibam lidar com a complexidade dos fenômenos que existem no corte dos materiais para otimizar os seus processos. O enriquecimento dos conhecimentos em usinagem se dá por meio da realização de pesquisas científicas na área e de experiências vivenciadas em chão-de-fábrica. Para transformar as experiências adquiridas em trabalhos de investigação ou no acompanhamento diário de processos produtivos sejam estruturados em forma de conhecimento, é necessário que os profissionais tenham conhecimentos básicos sobre os fenômenos relacionados à usinagem. O objetivo deste trabalho é apresentar os fundamentos da usinagem dos materiais, fundamentais para a compreensão deste processo de fabricação e para o melhor aproveitamento de experiências futuras. O histórico deste trabalho é um exemplo do dinamismo do tema. Sua primeira versão foi redigida em 2002 e desde então tem sido revisto e ampliado com exemplos de resultados de pesquisas, com o objetivo de torná-lo mais claro e completo. Os Capítulos 2 e 3 tratam basicamente da definição de nomenclaturas relativas às grandezas físicas nos processos de corte e geometria das ferramentas, respectivamente, fundamentais para a padronização dos termos adotados e, com isso, facilitar a compreensão do assunto. No Capítulo 4 é apresentado o estudo da formação do cavaco e da interface cavacoferramenta. A formação do cavaco caracteriza a usinagem, o que torna fundamental o conhecimento de como o cavaco se forma. Na interface cavaco-ferramenta ocorrem fenômenos cujos efeitos são determinantes para a compreensão do processo. O bom entendimento desse capítulo é fundamental para o aproveitamento dos conhecimentos apresentados nos capítulos posteriores, de modo que deve ser dada atenção especial ao conteúdo nele apresentado. Os conceitos relacionados ao estudo da força e da potência de corte são apresentados no Capítulo 5. O estudo da força de usinagem é fundamental, pois a remoção do material em forma de cavaco se dá por cisalhamento e o esforço aplicado pela ferramenta de corte é Sandro Cardoso Santos 7 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS responsável por gerar tensões que levam o material da peça a cisalhar. A potência de corte está relacionada à quantidade de energia necessária para a usinagem. Tanto a força como a potência de usinagem podem ser tomadas como parâmetro para monitoramento do desgaste das ferramentas de corte. O Capítulo 6 trata do estudo da temperatura em usinagem. A energia envolvida no processo de formação do cavaco é quase totalmente convertida em energia térmica. As elevadas temperaturas geradas em conseqüência têm efeitos importantes nos processos, principalmente no que na redução do desgaste das ferramentas. Tudo isso justifica o estudo da geração de calor em usinagem e também das técnicas empregadas na medição da temperatura da interface cavaco-ferramenta e da distribuição de temperatura nas ferramentas de corte. No Capítulo 7 são apresentados os materiais para ferramentas de corte e suas respectivas aplicações. O desenvolvimento de novos materiais para ferramentas de corte resultou em aumento significativo da produtividade dos processos de usinagem. O estudo das propriedades e da aplicabilidade dos materiais para ferramentas de corte é imprescindível no estudo dos fundamentos da usinagem. No Capítulo 8 é abordado o estudo dos revestimentos para ferramentas de corte. Estimase que atualmente mais de 90% das ferramentas de corte sejam revestidas. Observa-se, ainda, o crescimento da variedade de revestimentos, depositados sobre as ferramentas de corte com o objetivo de aumentar a resistência ao desgaste ou reduzir o coeficiente de atrito entre o cavaco e a ferramenta. A seleção do melhor revestimento para ferramentas de corte depende de conhecimentos específicos, apresentados neste Capítulo. O Capítulo 9 trata do estudo das avarias, desgaste e mecanismos de desgaste das ferramentas de corte. São apresentadas as classificações do desgaste quanto às formas e mecanismos, desenvolvidas para permitir a medição do desgaste e para identificação das causas predominantes do desgaste das ferramentas de corte. No Capítulo 10 é apresentado o estudo da vida das ferramentas de corte e da quantificação do desgaste. Uma vez que o desgaste das ferramentas de corte não pode ser evitado, é necessário que se busque entender a evolução do desgaste e estabelecer qual o valor máximo admissível para as ferramentas de corte O estudo dos fluidos de corte é apresentado no Capítulo 11. Os fluidos de corte são utilizados nos processos de usinagem com o objetivo principal de lubrificar ou refrigerar e com isso promover o aumento da vida da ferramenta de corte, Neste capítulo são apresentadas a Sandro Cardoso Santos 8 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS classificação, as técnicas de aplicação dos fluidos de corte e os efeitos dos fluidos de corte no meio ambiente e na saúde do trabalhador. No Capítulo 12 trata do estudo da integridade superficial em usinagem. Os Capítulos 7 a 11 é dada ênfase às ferramentas de corte. No Capítulo 12 é abordado o efeito das deformações e temperatura resultantes da usinagem na superfície e em camadas sub-superficiais próximas à superfície. O assunto é dividido no estudo da textura de superfícies usinadas e das alterações metalúrgicas que ocorrem nas regiões próximas à superfície. O Capítulo 13 aborda a usinabilidade dos materiais. São apresentados o conceito de usinabilidade, os critérios adotados para determinar a usinabilidade, exemplos de ensaios de usinabilidade e os aspectos marcantes da usinabilidade dos materiais. Sandro Cardoso Santos 9 Wisley Falco Sales CAPÍTULO II GRANDEZAS FÍSICAS NO PROCESSO DE CORTE No capítulo anterior foi apresentado o conceito de usinagem como o processo de fabricação em que a transformação da matéria-prima em produto se dá pela remoção de material em forma de cavacos. A remoção do cavaco só é possível devido a uma série de movimentos relativos entre a ferramenta e a peça. O estudo desses movimentos está inserido dentro do tópico denominado grandezas físicas no processo de corte que trata ainda das velocidades, percursos e das grandezas relacionadas ao cavaco. As definições aqui apresentadas são transcrições da Norma ABNT NBR 6162/1989, Movimentos e Relações Geométricas na Usinagem dos Metais – Terminologia, que foi criada com o objetivo de padronizar a nomenclatura dessas grandezas. 2.1 - Movimentos São movimentos relativos entre a peça, considerada estática e a aresta de corte da ferramenta. São distintos dois tipos de movimento: movimentos que fazem parte da retirada de cavaco e os movimentos que não tomam parte na retirada de cavaco. As definições referem-se a um ponto genérico da aresta de corte. Os movimentos que tomam parte direta na formação de cavaco são: • Movimento de corte: movimento entre a peça e a ferramenta que, sem o movimento de avanço, origina uma única retirada de cavaco; • Movimento de avanço: movimento que, associado ao movimento de corte, promove a retirada contínua de cavaco; • Movimento efetivo: movimento resultante dos movimentos de corte e avanço. Os movimentos que não tomam parte direta na formação do cavaco são: • Movimento de aproximação: movimento entre a peça e a ferramenta com o qual a ferramenta se aproxima da peça, antes do início da usinagem. • Movimento de ajuste: movimento entre a peça e a ferramenta com o qual é determinada a espessura de material da peça a ser retirada (ajuste da profundidade de corte). • Movimento de correção: movimento para compensar o desgaste da ferramenta. Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Movimento de recuo: movimento com o qual a ferramenta é afastada da peça após a usinagem. 2.2 - Direções dos Movimentos São as direções em que ocorrem os movimentos de corte, avanço e efetivo. Dessa forma: • Direção de corte: direção instantânea do movimento de corte. • Direção de avanço: direção instantânea do movimento de avanço. • Direção efetiva: direção instantânea do movimento efetivo de corte. As direções dos movimentos de corte no processo de torneamento são mostradas na Figura 2.1 . Movimento de corte Movimento de efetivo ve vc vf Movimento de avanço Figura 2.1 - Direções dos movimentos de corte, avanço e efetivo no torneamento. 2.3 - Percursos da Ferramenta na Peça Percurso de corte Lc: é o espaço percorrido pelo ponto de referência da aresta de corte da ferramenta sobre a peça, segundo a direção de corte. Percurso de avanço Lf: é o espaço percorrido pelo ponto de referência da aresta de corte da ferramenta sobre a peça, segundo a direção de avanço. Nos casos em que haja movimento Sandro Cardoso Santos 11 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS de avanço principal e avanço lateral, devem-se distinguir as componentes do percurso de avanço. Percurso efetivo Le: é o espaço percorrido pelo ponto de referência da aresta de corte da ferramenta sobre a peça, segundo a direção efetiva de corte. Definições análogas são válidas para os movimentos que não tomam parte diretamente na formação do cavaco. 2.4 - Velocidades Velocidade de corte vc: é a velocidade instantânea do ponto de referência da aresta de corte da ferramenta, segundo a direção e sentido de corte. Velocidade de avanço vf: é a velocidade instantânea do ponto de referência da aresta de corte da ferramenta, segundo a direção e sentido de avanço. Velocidade de efetiva de corte ve: é a velocidade instantânea do ponto de referência da aresta de corte da ferramenta, segundo a direção e sentido de corte. 2.5 - Conceitos Auxiliares Plano de trabalho Pfe: é o plano que contem as direções de corte e de avanço e passa pelo ponto de referência da aresta de corte. Nesse plano ocorrem os movimentos que tomam parte na retirada de cavaco. Ângulo da direção de avanço ϕ: é o ângulo entre as direções de corte e de avanço. Nem sempre a direção de avanço é perpendicular à direção de corte. No fresamento esse ângulo varia durante o corte. Ângulo da direção efetiva de corte η: é o ângulo entre a direção de corte e a direção efetiva de corte. Os ângulos ϕ e η, bem como o plano de trabalho encontram-se representados na Figura 2.2. Superfícies em usinagem: são as superfícies geradas na peça pela ferramenta. Devem-se distinguir a superfície em usinagem principal e a superfície em usinagem secundária, onde a primeira é gerada pela aresta principal de corte e a segunda pela aresta secundária de corte As superfícies em usinagem são representadas na Figura 2.3 Sandro Cardoso Santos 12 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS η ϕ ve Plano de trabalho vc Peça vf Ferramenta Figura 2.2 - Representação esquemática do plano de trabalho (Pfe) e dos ângulos da direção de avanço (ϕ) e da direção efetiva de corte (η). Superfície principal de usinagem Superfície secundária de usinagem Figura 2.3 - Superfícies em usinagem. Sandro Cardoso Santos 13 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 2.6 - Grandezas de Corte São grandezas que devem ser ajustadas na máquina, direta ou indiretamente. Avanço (f): é o percurso de avanço em cada volta, em mm/revolução ou em cada curso da ferramenta, em mm/golpe. No caso de ferramentas que possuam mais de um dente, como no caso do fresamento, distingue-se o avanço por dente (fz), medido na direção do avanço da ferramenta e corresponde à geração de duas superfícies consecutivas em usinagem. f=fz.z (2.1) Onde z é o número de dentes da ferramenta. O avanço por dente pode ser decomposto no avanço de corte e no avanço efetivo de corte, mostrados na Figura 2.4. η ϕ Direção de corte fc fe fz Direção efetiva de corte Figura 2.4 - Representação esquemática do avanço por dente fz, do avanço de corte fc e do avanço efetivo fe no fresamento discordante. Sandro Cardoso Santos 14 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Avanço de corte (fc): é a distância entre duas superfícies consecutivas em usinagem, medida na direção perpendicular à direção de corte, no plano de trabalho. fc = fz . senϕ (2.2) Avanço efetivo de corte (fc): é a distância entre duas superfícies consecutivas em usinagem, medida na direção perpendicular à direção de corte, no plano de trabalho. fc=fz.sen(ϕ-η) (2.3) Profundidade ou largura de usinagem ap: é a profundidade ou largura de penetração, medida na direção perpendicular ao plano de trabalho (Fig. 2.5). Penetração de trabalho ae: é a penetração da ferramenta em relação à peça, medida no plano de trabalho, numa direção perpendicular à direção de avanço. É de importância predominante no fresamento e na retificação (Fig. 2.5). Penetração de avanço af: é a penetração da ferramenta, medida no plano de trabalho e na direção de avanço (Fig. 2.5). Fig. 2.5. Representação esquemática das profundidades medidas em usinagem. Sandro Cardoso Santos 15 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 2.7 - Grandezas Relativas ao Cavaco São grandezas calculadas a partir das grandezas de corte. Largura de corte b: é a largura calculada da seção transversal de corte a ser retirada, medida na superfície em usinagem principal, na direção perpendicular à direção de corte (Fig. 2.6). Para ferramentas de corte com aresta retilínea e sem raio de ponta, tem-se: b= ap senχ r (2.4) Largura efetiva de corte be: é a largura calculada da seção transversal de corte a ser retirada, medida na superfície em usinagem principal, na direção perpendicular à direção efetuva de corte. Para ferramentas de corte com aresta retilínea e sem raio de ponta, temse: be=b.(1-sen2ηcosχr2)1/2 (2.5) Espessura de Corte h: é a espessura calculada da seção transversal de corte a ser retirada, medida normalmente à superfície em usinagem principal e segundo a direção perpendicular à direção de corte (Fig. 2.6). Para arestas de corte retilíneas: (2.6) h=f.senχr Sandro Cardoso Santos 16 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Fig. 2.6. Representação esquemática das grandezas relativas ao cavaco. Espessura efetiva de corte he: é a espessura calculada da seção transversal efetiva de corte a ser retirada, medida normalmente à superfície em usinagem principal e segundo à direção perpendicular à direção efetiva de corte. h he = (2.7) 1 + sen 2 χ .tan 2 η Seção transversal de corte A: é a área calculada da seção transversal de um cavaco a ser retirado, medida no plano normal à direção efetiva de corte. Na maioria dos casos: A=ap.fc (2.8) Ae=ap.fe (2.9) Em ferramentas sem arredondamento na ponta de corte: A=b.h (2.10) Ae=be.he (2.11) Sandro Cardoso Santos 17 Wisley Falco Sales CAPÍTULO III GEOMETRIA DAS FERRAMENTAS DE CORTE A geometria das ferramentas de corte tem influência marcante na usinagem dos materiais. Este capítulo apresenta as definições das arestas, superfícies, ângulos e planos que compõem a geometria das ferramentas. A padronização da nomenclatura utilizada consta na Norma ABNT NBR 6163/80 – “Geometria da Cunha de Corte” e são apresentadas a seguir. 3.1 - Definições Cunha de Corte: cunha formada pelas superfícies de saída e de folga da ferramenta. Os cavacos formam-se sobre a cunha cortante por meio do movimento relativo entre a peça e a ferramenta. Superfície de saída Aγ: superfície da cunha cortante sobra a qual o cavaco desliza. Superfície de folga: é a superfície da cunha cortante que define a folga entre a superfície em e a ferramenta. Distingue-se a superfície principal de folga Aα e a secundária de corte A’α. Arestas de corte: são formadas pelas superfícies de folga e de saída. São definidas a aresta principal de corte S e a aresta secundária de corte S’. • Aresta principal de corte S: aresta de corte cuja cunha de corte, observada no plano de trabalho e para m ângulo da direção de avanço ϕ = 90º indica a direção de avanço. • Aresta secundária de corte S’: aresta de corte cuja cunha de corte, observada no plano de trabalho, e para o ângulo da direção de avanço ϕ = 90o, indica a direção contrária à direção de avanço. Ponta de corte: região da cunha cortante formada pela intersecção das arestas principal e secundária de corte Ponto de corte escolhido: ponto tomado como referência para as definições dos ângulos da cunha cortante. As definições apresentadas são mostradas na Figura 3.1 Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Superfície de saída A γ Ponta de corte Aresta principal de corte S Aresta secundárial de corte S’ superfície principal de folga A α superfície secundária de folga A’ α Direção de avanço Figura 3.1 - Arestas e superfícies que formam a cunha cortante de uma ferramenta de barra para o torneamento. 3.2 - Sistemas de Referência Utilizados para a Definição dos Ângulos da Cunha Cortante As definições das arestas e superfícies que compõem a cunha cortante não são suficientes para a determinação da geometria da ferramenta. As variações de geometria de ferramenta apresentadas na Figura 3.2 permitem ilustrar essa afirmação. As ferramentas mostradas na Figura 3.2 apresentam entre si diferenças significativas de geometria. A diferenciação entre elas é feita por meio dos ângulos da cunha cortante. Esses ângulos são definidos a partir de planos definidos dos chamados sistemas de referência da cunha cortante, apresentados nesta seção. São definidos dois sistemas de referência: • Sistema de referência da ferramenta; • Sistema de referência efetivo; Sandro Cardoso Santos 19 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Os sistemas de referência são formados por um conjunto de planos definidos a partir das direções das velocidades de corte e efetiva de corte. O sistema de referência da ferramenta é definido a partir da direção da velocidade de corte e é utilizado na fase projeto, fabricação e controle da ferramenta de corte. O sistema de referência efetivo é definido a partir da direção efetiva de corte e é utilizado no estudo da geometria da cunha cortante durante o corte. Figura 3.2 - Ferramentas de barra com diferentes geometrias. 3.2.1 - Planos do Sistema de Referência da Ferramenta Plano de referência da ferramenta Pr: é o plano que passa pelo ponto de corte e é perpendicular à direção de corte. O plano de referência de uma ferramenta de barra é representado na Figura 3.3. Direção de corte Plano de Referên cia (P ) r Figura 3.3 - Representação esquemática do plano de referência da ferramenta. Sandro Cardoso Santos 20 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Plano de corte da ferramenta Ps: é o plano que passa pelo ponto de corte escolhido, é tangente á aresta de corte nesse ponto e é perpendicular ao plano de referência da ferramenta. O plano de corte da ferramenta é representado na Figura 3.4. e (P s) de Cort Plano Plano Plde anoRe de Ref ferê nceriaên (Pcir)a (Pr ) Figura 3.4 Representação esquemática do plano de corte da ferramenta. Plano ortogonal da ferramenta Po: é o plano que passa pelo ponto de corte escolhido e é perpendicular aos planos de referência Pr e de corte Ps. O plano de corte da ferramenta é representado na Figura 3.5. Plano de Ortogon al no Pla de ( cia rên e f Re de C Plano ) orte (P s (Po) P r) Figura 3.5 - Representação esquemática do plano ortogonal da ferramenta. Sandro Cardoso Santos 21 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Plano admitido de trabalho Pf: é o plano que passa pelo ponto de corte escolhido, é perpendicular ao plano de referência e paralelo à direção de avanço. O plano admitido de trabalho é representado na Figura 3.6. Direção de avanço Plano de referê ncia Plano admitido de trabalho (P ) f Figura 3.6 - Representação esquemática do plano admitido de trabalho. Plano de trabalho Pfe: é o plano que passa pelo ponto de corte escolhido e contem as direções de corte e avanço. Nesse plano são realizados os movimentos responsáveis pela retirada de cavaco, conforme apresentado no capítulo 2. O plano de trabalho é representado na Figura 3.7. Direção de corte Direção de avanço Plano de trabalho (P fe) Figura 3.7 - Representação esquemática do plano de trabalho. Sandro Cardoso Santos 22 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Plano dorsal da ferramenta Pp: plano que passa pelo ponto de corte escolhido e é perpendicular aos planos de referência e admitido de trabalho. São definidos ainda no sistema de referência da ferramenta: Plano normal à aresta de corte Pn: plano que passa pelo ponto de corte escolhido e é perpendicular à aresta de corte S. Plano ortogonal à superfície de saída Pg: plano que passa pelo ponto de corte escolhido e é perpendicular à superfície de saída e ao plano de referência da ferramenta. Plano ortogonal à superfície de folga Pb: plano que passa pelo ponto de corte escolhido e é perpendicular à superfície de folga e ao plano de referência da ferramenta. Ângulo de posição do plano ortogonal á superfície de folga θr: ângulo entre o plano admitido de trabalho e o plano ortogonal, medido no plano de referência da ferramenta. 3.2.2 - Planos do Sistema de Referência Efetivo Os planos do sistema de referência efetivo são definidos de forma análoga à utilizada para a definição dos planos do sistema de referência da ferramenta. Plano de referência efetivo Pre: é o plano que passa pelo ponto de corte e é perpendicular à direção efetiva de corte. Plano de corte efetivo Pse: é o plano que passa pelo ponto de corte escolhido, é tangente á aresta de corte nesse ponto e é perpendicular ao plano de referência efetivo. Plano ortogonal efetivo Poe: é o plano que passa pelo ponto de corte escolhido e é perpendicular aos planos de referência e de corte efetivos (Pre e Pse, respectivamente). Plano dorsal efetivo Ppe: plano que passa pelo ponto de corte escolhido e é perpendicular aos planos de referência efetivo e de trabalho. 3.3 - Principais Ângulos da Cunha Cortante A definição dos planos que servem de referência para a determinação dos ângulos da cunha cortante torna possível determinar os ângulos da cunha cortante. Nesta seção serão apresentados os sete principais ângulos, definidos nos planos de referência, de corte e ortogonal. Sandro Cardoso Santos 23 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 3.3.1 - Ângulos Medidos no Plano de Referência A vista do plano de referência de uma ferramenta de barra é apresentada na Figura 3.8. Plano admitido de trabalho Pf Sentido de observação χ’r χr Direção de corte εr Plano de R eferênci a (P ) Plano secundário de corte P’s Plano principal de corte Ps r Figura 3.8 - Ângulos medidos no plano de referência da ferramenta. No plano de referência são definidos três ângulos: Ângulo de posição da ferramenta (χr): ângulo entre o plano de corte da ferramenta Ps e o plano admitido de trabalho Pf, medido no plano de referência da ferramenta. É sempre positivo e situa-se sempre fora da cunha cortante, de forma que seu vértice indica a ponta de corte. Esse ângulo indica a posição da aresta de corte. Ângulo de ponta da ferramenta (εr): ângulo entre o plano principal de corte Ps e o secundário de corte P’s, medido no plano de referência da ferramenta. Ângulo de posição lateral da ferramenta (χ’r): ângulo entre o plano de plano de corte secundário da ferramenta P’s e o plano admitido de trabalho Pfe, medido no plano de referência. É importante destacar que a denominação dos três ângulos recebe é acompanhada do índice “r” que indica que tais ângulos são medidos no plano de referência da ferramenta. Percebe-se ainda a seguinte relação entre os valores dos ângulos medidos no plano de referência da ferramenta: χr + εr + χ’r = 180o (3.1) 3.3.2 - Ângulo medido no plano de corte Ps A vista do plano de corte da ferramenta é apresentada na Figura 3.9. Sandro Cardoso Santos 24 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS de C Plano λs Plano de referência ) orte (P s PlanoPla denoRe de ferRe ênfer ciaên (Pcia r ) (Pr ) Sentido de observação Figura 3.9 - Ângulo medido no plano de corte. No plano de corte é definido apenas o ângulo de inclinação. Ângulo de inclinação (λs): ângulo entre a aresta de corte Ps e o plano de referência da ferramenta Pr, medido no plano de corte da ferramenta Ps. O ângulo de inclinação pode ser positivo, nulo ou negativo. Diz-se que o ângulo de inclinação é negativo quando o plano de referência corta a cunha de corte da ferramenta. O desenho esquemático da Figura 3.10 permite a visualização das três situações. λs > 0 λs < 0 λs = 0 Figura 3.10 - Representação esquemática do ângulo de inclinação positivo, nulo ou negativo. O índice “s” indica que o ângulo é medido no plano de corte da ferramenta. 3.3.3 - Ângulos medidos no plano ortogonal Po No plano ortogonal da ferramenta são definidos três ângulos, que são: Sandro Cardoso Santos 25 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Ângulo de folga da ferramenta (αo): ângulo entre a superfície de folga Aα e o plano de corte da ferramenta Os, medido no plano ortogonal da ferramenta Po. Ângulo de cunha da ferramenta (βo): ângulo entre as superfícies de folga Aα e de saída Aγ da ferramenta, medido no plano ortogonal da ferramenta Po. Ângulo de saída da ferramenta (γo): ângulo entre a superfície de saída da ferramenta Aγ e o plano de referência da ferramenta Pr, medido no plano ortogonal da ferramenta. A representação esquemática dos ângulos medidos no plano ortogonal da ferramenta é apresentada na Figura 3.11. γo ) s Plano de Corte (P Plano de Ortogonal (P ) o Plano de Referência ) r Plano de Referência (P βo αo Sentido de observação Plano de corte Figura 3.11 Ângulos medidos no plano ortogonal O ângulo de saída pode assumir valores positivos, nulos ou negativos. Essas três situações podem ser visualizadas no desenho esquemático da Figura 3.12. Nota-se que o ângulo de saída é negativo quando o plano de referência corta a cunha cortante da ferramenta. Para os ângulos medidos no plano ortogonal vale a relação: αo+βo+γo=90o Sandro Cardoso Santos (3.2) 26 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS γo > 0 γo = 0 γo < 0 Figura 3.12 Representação esquemática do ângulo de saída positivo, nulo e negativo. 3.3.4 - Funções e Influência dos Principais Ângulos da Cunha Cortante Ângulo de folga (αo): • Evitar o atrito entre a peça e a superfície de folga da ferramenta; • Pequenos valores de αo implicam em dificuldade de penetração da cunha cortante, desgaste acelerado, grande geração de calor e acabamento superficial ruim da peça usinada; • Valores elevados de αo implicam em perda de resistência da cunha da ferramenta, que se torna susceptível a lascamento ou quebras; • A determinação dos valores de αo é feita em função da resistência do material da ferramenta e do material da peça. De modo geral os valores de αo variam de 2 a 14o; Ângulo de saída (γo): • Tem influência direta na força e na potência de usinagem, no acabamento da peça e na quantidade de calor gerado; • O aumento do valor de γo implica no decréscimo do trabalho de dobramento do cavaco; • A fixação do valor de γo é feita em função da resistência do material da peça e da ferramenta, da quantidade de calor gerado no corte e da velocidade de avanço adotada; Sandro Cardoso Santos 27 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Valores negativos de γo são empregados no corte de materiais de baixa usinabilidade e em cortes interrompidos, com o inconveniente de provocar elevação das forças de usinagem e da potência de corte; • De modo geral são utilizados valores de γo entre –10 e 30o; Ângulo de inclinação (λo): • Controle da direção de saída do cavaco; • Proteção da quina da ferramenta contra impactos; • Atenuação de vibrações; • Valores entre – 4 e 4o são normalmente utilizados; Ângulo de posição (χr): • Distribuição favorável de tensões no início e no final do corte; • Tem influência direta no valor do ângulo de ponta (εr), influenciando a resistência e a capacidade de dissipação de calor da ferramenta; • Tem influência na direção de saída do cavaco; • Responsável pela componente passiva da força de usinagem, que contribui para a redução das vibrações; • Valores normalmente adotados na faixa de 30 a 90o; 3.3.4 Considerações finais Neste capítulo foram definidos os principais ângulos da cunha cortante das ferramentas de corte. As demonstrações desses ângulos foram feitas apenas em ferramentas de barra com o objetivo de facilitar a visualização. Cabe ressaltar que as mesmas definições podem ser aplicadas na definição dos ângulos da cunha cortante de ferramentas de corte mais complexas, como brocas e fresas. O rigor das definições, apesar de parecer dispensável quando se trata de ferramentas de torneamento, tem como objetivo garantir a sua aplicabilidade para todas as ferramentas de corte. Sandro Cardoso Santos 28 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS As definições dos ângulos da cunha de corte são também realizadas no sistema de referência efetivo. Sandro Cardoso Santos 29 Wisley Falco Sales CAPÍTULO IV FORMAÇÃO DO CAVACO E INTERFACE CAVACO-FERRAMENTA Os assuntos abordados nos Capítulos II e III apresentaram os fundamentos para o estudo da usinagem. Os fenômenos decorrentes do contato da ferramenta com a peça serão apresentados a partir deste Capítulo, que trata do processo de formação do cavaco e do estudo da interface cavaco-ferramenta. Antes de dar início ao estudo da formação do cavaco propriamente dita, é apresentada a definição do corte ortogonal, que tem por objetivo permitir simplificações no estudo dos fenômenos relacionados ao contato cavacoferramenta, como a formação do cavaco, interface cavaco-ferramenta, forças e tensões de usinagem. 4.1 O Corte Ortogonal As direções de corte, avanço e do movimento de saída do cavaco para o torneamento cilíndrico são representadas na Figura 4.1. Nota-se que essas três direções não estão contidas um mesmo plano, de modo que o corte é denominado tridimensional. O corte ortogonal faz uma simplificação do corte na qual as direções dos movimentos de corte, avanço e de saída do cavaco passem a fazer parte de um mesmo plano. Exemplos de corte ortogonal são apresentados na Figura 4.2. Direção de corte Direção de avanço Direção do movimento de saída do cavaco Figura 4.1 – Exemplo de corte tridimensional. Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Direção de corte Direção de corte Direção de avanço Direção de avanço Direção do movimento de saída do cavaco Direção do movimento de saída do cavaco Figura 4.2 – Exemplos de corte ortogonal. Os desenhos esquemáticos mostrados na Figura 4.2 permitem a visualizar que as direções de corte, avanço e de saída dos cavacos pertencem a um mesmo plano. O desenho apresentado na Figura 4.3 representa uma vista do plano de trabalho de uma ferramenta no corte ortogonal. h h’ Figura 4.3 – Vista do plano de trabalho durante o corte ortogonal. Além das considerações relacionadas às direções, outras condições devem ser atendidas para que o corte seja considerado ortogonal: • A aresta de corte deve ser reta e perpendicular à direção de corte; • A aresta de corte deve ser maior que a largura de corte b; • A espessura de corte h, que é igual ao avanço, deve ser pequena em relação á largura de corte b; • A largura de corte b e a espessura do cavaco b’ devem ser idênticas; Sandro Cardoso Santos 31 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • O cavaco formado deve ser contínuo, sem formação de aresta postiça de corte; As simplificações obtidas por meio do corte ortogonal facilitam a visualização dos fenômenos que ocorrem durante o corte. 4.2 A Formação do Cavaco O desenho esquemático do ensaio de compressão é apresentado na Figura 4.4. O corpo de prova é submetido a esforços de compressão crescentes (F1 < F2 < F3) e inicialmente sofre deformações elásticas (I). O aumento dos esforços de compressão prossegue até que seja atingido o limite de resistência ao cisalhamento do material e a partir daí o corpo de prova sofre deformações plásticas (II). No instante em que o limite de resistência do material é atingido, o corpo de prova rompe por cisalhamento. De acordo com o diagrama de distribuição de tensões de cisalhamento, a máxima tensão ocorre em um plano a 45o de modo que o material sofre cisalhamento nessa região, caso seja isotrópico e não apresente defeitos. F1 F2 F3 F1 F2 F3 I II III Figura 4.4 Representação esquemática do ensaio de compressão. Para o estudo da formação do cavaco, o volume “klmn“, mostrado na Figura 4.4, pode ser considerado um corpo de provas submetido a um ensaio de compressão. As tensões de compressão a que o volume de material é submetido crescem à medida que o volume de Sandro Cardoso Santos 32 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS referência se aproxima da cunha de corte da ferramenta, de modo que o material é submetido à deformação elástica e plástica, até sofrer ruptura por cisalhamento no ponto “O”, localizado na ponta da ferramenta. A região onde o material é cisalhado é denominada zona de cisalhamento primária, representada na Figura 4.5. Para efeito de simplificação, a zona de cisalhamento primária é representada por um plano perpendicular ao plano de trabalho, denominado plano de cisalhamento primário, indicado pelo seguimento “OD” na Figura 4.4. Figura 4.4 Desenho representativo do processo de formação de cavaco (Trent, 1991). Após passar pela zona de cisalhamento primária o volume de referência é deformado e passa a assumir a configuração representada por “pqrs” no esquema da Figura 4.4. A partir de então tem início a quarta etapa, a formação do cavaco, que é o movimento do cavaco sobre a superfície de saída da ferramenta. Sandro Cardoso Santos 33 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Zona de cisalhamento secundária Zona de cisalhamento primária (a) (b) Figura 4.5 Representação esquemática das zonas de cisalhamento primária e secundária a -Trent (1991) b – Chern (2005). De modo resumido, a formação do cavaco consiste de quatro etapas que são: • Deformação elástica, ou recalque; • Deformação plástica; • Ruptura; • Movimento do cavaco sobre a superfície da ferramenta; A quarta etapa do ciclo distingue a formação do cavaco do processo de ruptura em ensaios de compressão. Ao entrar em contato com ferramenta, o material é submetido a esforços de compressão e de cisalhamento na direção paralela à superfície de saída da ferramenta, o que dá origem à chamada zona de cisalhamento secundária, também representada na Figura 4.5. O material na zona de cisalhamento secundária exerce esforços de compressão sobre a zona de cisalhamento primária, o que faz com que a região de máxima tensão de cisalhamento nesta região ocorra em uma posição não mais a 45o, como ocorre nos ensaios de compressão. A posição da região de máxima tensão de cisalhamento é indicada pelo chamado ângulo de cisalhamento (φ), como indicado nas Figuras 4.4 e 4.5. Sandro Cardoso Santos 34 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS A medida do ângulo de cisalhamento é sempre menor que 45o e é tanto menor quanto maior for a resistência ao cisalhamento do material na zona de cisalhamento secundária. Os fenômenos que ocorrem na interface da ferramenta e os seus efeitos sobre o ângulo de cisalhamento são detalhados nas seções a seguir. 4.3 Interface Cavaco-Ferramenta O estudo da interface cavaco-ferramenta se justifica não só por sua influência direta na formação do cavaco, mas também por estar relacionado às temperaturas, às forças de usinagem e à vida das ferramentas. Os fenômenos que ocorrem na interface cavaco-ferramenta não são totalmente esclarecidos. A teoria mais aceita foi proposta por Trent (1963), que assume a existência de uma zona de aderência e de uma zona de escorregamento na interface cavaco-ferramenta. O desenho esquemático da Figura 4.6 indica a localização dessas zonas. Ferramenta Figura 4.6 Representação das zonas de aderência e escorregamento Trent (1991). A região hachurada corresponde à zona de aderência que é seguida pela área delimitada pela linha tracejada. Apesar de não se ter conseguido provar a existência da zona de aderência, existem fortes evidências de que ela ocorra. Trent (1991) ao analisar a raiz do cavaco após o corte ter sido interrompido abruptamente em um dispositivo denominado “quick stop” encontrou fortes evidências de sua existência. Sandro Cardoso Santos 35 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Outra evidência da existência da zona de aderência está relacionada ao atrito em usinagem. São identificados três regimes de atrito entre sólidos, dependendo da área de contato efetiva entre as superfícies de contato. Shaw et al. (1960) apresentaram os três regimes de atrito sólido por meio do diagrama da Figura 4.7. Figura 4.7 – Representação dos três regimes de atrito sólido (Shaw,1960). O regime I ocorre quando a área de contato efetiva entre os sólidos é muito menor que a área aparente (Ar << A), pelo fato de o contato ocorrer apenas nas irregularidades das superfícies. Nesse regime é válida a Lei de Atrito de Coulomb (µ=σ/τ = constante, onde σ e τ são as tensões normal e cisalhante presentes no contanto). O regime III é aquele onde não existe superfície livre. A área de contato real equivale à área aparente (Ar = A). O regime II é o de transição entre I e III, onde o coeficiente de atrito diminui com o aumento da carga. Wallace e Boothroyd (1964), contestam a existência do regime II e afirmam que ocorre a transição brusca do regime I para III. De acordo com o modelo de atrito apresentado, quando existe o contato total entre as superfícies a tensão cisalhante é constante e corresponde á tensão de cisalhamento do material de menor resistência. O modelo de distribuição de tensões proposto por Zorev (1963), mostrado na Figura 4.8, indica que a tensão de cisalhamento é constante nas proximidades da ponta da ferramenta e passa a decrescer a partir de um certo ponto, até chegar a zero. Ainda de acordo com o modelo, a tensão normal é máxima na ponta da Sandro Cardoso Santos 36 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS ferramenta e decresce exponencialmente até chegar a zero. As elevadas tensões de compressão na ponta da ferramenta e o fato de a tensão de cisalhamento não variar com a tensão normal indica que nas proximidades da ponta da ferramenta ocorre o contato total entre a raiz do cavaco e a superfície de saída da ferramenta Escorregamento Ferramenta Figura 4.8 – Modelo de distribuição de tensões em usinagem proposto por Zorev (1963). Onde: τst - tensão cisalhante na região de aderência; lst - comprimento da região de aderência e, lf - comprimento total das regiões de aderência e de escorregamento. Na região de aderência, Ar = A e prevalece o regime III. Na região de escorregamento Ar << A vale o regime I. Dessa forma, a força total, tangente à superfície da ferramenta, é dada pela soma das forças tangenciais que atuam em cada uma das regiões. Em determinadas condições especiais a zona de aderência pode ser suprimida, prevalecendo apenas as condições de escorregamento. Devido à existência de diferentes condições na interface cavaco-ferramenta, impõe-se a necessidade de estudo criterioso de cada uma dessas condições. A presença da zona de aderência pode ser ainda evidenciada por meio da análise da Figura 4.9 (Hutchings, 1995), onde é mostrado um diagrama de regimes de desgaste, definidos pela velocidade normalizada e pela carga normalizada. A velocidade normalizada Sandro Cardoso Santos 37 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS é a razão entre a velocidade de deslizamento e a velocidade da condução do calor e a carga normalizada é definida pela divisão do valor da carga normal aplicada pela área de contato e pela menor dureza entre os materiais em contado. Velocidade normalizada = vd vtc (4.1) Onde: vd é a velocidade de deslizamento e vtc é a velocidade de transferência de calor. Carga normalizada = FN A.HV (4.2) Onde: FN é a carga normalizada, A é a área de contato e HV é o valor da menor dureza entre os materiais em contato. O diagrama foi obtido por meio de ensaios de desgaste pino sobre disco e define regiões de desgaste severo, suave, transição entre os dois regimes e uma região onde ocorre a adesão, definida predominantemente pelo valor da carga normalizada. 10 Carga normalizada I Adesão 10-1 IV Severo II Severo 10-3 V Suave III Suave 10-5 10-2 1 104 Velocidade normalizada Figura 4.9. Mapa de regimes de desgaste obtido no ensaio pino sobre disco em corpos de prova de aço (Hutchings, 1995). Sandro Cardoso Santos 38 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS De acordo com o diagrama de regimes de desgaste mostrado na Figura 4.9, a velocidade normalizada não apresenta influência significativa no regime I (adesão). Em outras palavras, pode-se afirmar que o valor da carga normalizada é a variável determinante do regime de adesão, que ocorre para valores dessa grandeza entre 10-1 e 100. Resultados de ensaios de medição da força de corte na usinagem do aço ABNT 4340 com dois valores de dureza são apresentados na Tabela 4.1. Na Figura 4.10 são mostrados os valores de carga normalizada em forma de gráfico. O limite entre os regimes de desgaste severo e por adesão é representado pela linha traçada no gráfico. Nota-se que na usinagem do material com maior dureza (ensaios 1 a 7), os valores de carga normalizada mantiveram-se abaixo de 1. Já os para os ensaios realizados com o material com maior dureza (ensaios 8 a 14), os valores de carga normalizada tenderam a variar em torno de um. Em todas as situações a localização dos pontos indica condições de adesão, o que é uma evidência a mais da existência da zona de aderência. Com base nos resultados apresentados na Tabela 4.1 e na Figura 4.10, constata-se que a força normalizada adquire valores mais elevados na usinagem do material mais macio. Comparando os ensaios realizados nas mesmas condições de corte, os valores de carga normalizada obtidos nos ensaios com o material mais macio foram sempre maiores, resultados que podem ser explicados pelo fato de os valores da força de corte não apresentarem diferenças significativas e o valor de dureza estar no denominador da expressão para o cálculo da carga normalizada (Eq. 4.2). Tabela 4.1 Força de corte e carga normalizada para o torneamento do aço ABNT 4340 com diferentes durezas. Ensaio vc(m/min) f (mm/rev) 1 240 0,20 2 160 0,20 3 200 0,16 4 200 0,20 5 200 0,24 6 200 0,20 7 200 0,20 8 200 0,20 9 240 0,20 10 160 0,20 11 200 0,24 12 200 0,16 13 200 0,20 Sandro Cardoso Santos ap (mm) 1,0 1,0 1,0 1,0 1,0 1,2 0,8 1,0 1,0 1,0 1,0 1,0 1,2 Fc (N) 522,83 559,62 394,03 462,03 535,54 597,18 379,71 539,25 484,61 511,19 569,63 450,38 574,63 39 A (mm2) 0,2 0,2 0,16 0,2 0,24 0,24 0,16 0,2 0,2 0,2 0,24 0,16 0,24 HV 345 250 FN 7,72.10-1 8,27.10-1 7,28.10-1 6,83.10-1 6,59.10-1 7,35.10-1 7,01.10-1 1,10.100 9,88.10-1 1,04.100 9,68.10-1 1,15.100 9,76.10-1 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Ensaio vc(m/min) f (mm/rev) 14 200 0,20 ap (mm) 0,8 Fc (N) 362,28 A (mm2) 0,16 HV FN 9,23.10-1 Carga normaslizada 1,00E+01 1,00E+00 ADESÃO DESGASTE SEVERO 1,00E-01 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Ensaio Figura 4.10 – Posição dos valores de força normalizada no diagrama de regimes de desgaste. 4.3.1 - Zona de aderência Como já mencionado, a existência de uma zona de aderência na interface cavacoferramenta foi evidenciada por meio da análise de micrografias da raiz do cavaco (obtidas pela interrupção brusca do corte com um dispositivo “quick-stop”) de diversos materiais usinados com aço rápido e metal duro (Trent. 1963). Verificou-se a existência de contato íntimo do cavaco com a ferramenta ao longo de uma grande porção da interface ferramentapeça. Essa região foi denominada de zona de aderência, que corresponde ao regime III do atrito sólido. Ainda com base nessas micrografias percebe-se que o fluxo de material não ocorre na interface e sim em uma zona de cisalhamento intenso na parte inferior do cavaco com espessura entre 0,01 a 0,08 mm, que foi denominada de zona de fluxo (Trent, 1963). A porção de material em contato com a superfície da ferramenta permanece estacionária e há um gradiente de velocidade ao longo da espessura, até que no limite da zona de fluxo a velocidade de cisalhamento se iguala à velocidade de saída do cavaco. Com base nesse conceito, a tensão requerida para cisalhar o material a altas temperaturas e altas taxas de deformação é um fator muito importante na usinagem. Nas micrografias apresentadas por Trent (1963) fica evidente que as condições de aderência podem também ocorrer na superfície de folga, desde que o desgaste de flanco elimine o ângulo efetivo de folga. Sandro Cardoso Santos 40 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS As altas tensões de compressão, grandes quantidades de calor gerado, altas taxas de deformação e afinidades químicas entre os materiais da ferramenta e das peças são apontados como principais fatores que favorecem o surgimento da zona de aderência, pelo fato de promovem ligações atômicas na interface. As elevadas temperaturas devido ao calor gerado pelas deformações plásticas não só governam os mecanismos e as condições de deformação da zona de aderência, mas também influenciam diretamente os mecanismos de desgaste da ferramenta. Trent (1988a, 1988b, 1988c) afirma que as condições de aderência devem ser assumidas como inevitáveis. Segundo Trent (1991), as deformações cisalhantes no plano de cisalhamento primário são da ordem de 2 a 5, podendo chegar a 8. Entretanto, nas bandas de cisalhamento adiabático na usinagem de titânio ("flow zone") as deformações são bem maiores, podendo atingir valores superiores a 100. Esse é um valor estimado já que é praticamente impossível de se medir tais níveis de deformações a taxas de deformações da ordem de 104 s-1, confinadas a uma zona de fluxo de espessura, normalmente compreendida entre 10 a 100 µm. Dessas observações Trent (1991) propõe um modelo, apresentado na Figura 4.11. Figura 4.11 - Modelo de Deformação na zona de fluxo proposto por Trent (1991). Segundo o modelo de Trent, a deformação cisalhante na zona de fluxo é inversamente proporcional à distância da superfície de saída. No ponto Y, a porção inicial do material OabX sofreu uma deformação Oa'b'X, enquanto que o material no centro da porção inicial de material considerada, OcdX (metade de OabX) se deformou para Oc"d"X, que é o dobro da deformação sofrida por ab. Da mesma forma, o material OefX, onde oe vale 1/4 de Oa, se deforma para Oe'''f'''X quando ele atinge o ponto Y, que é quatro vezes maior que a deformação sofrida por OabX quando este atinge o mesmo ponto, Oa'b'X. Sandro Cardoso Santos 41 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Teoricamente, a deformação cisalhante seria infinita na superfície de saída da ferramenta, mas o fluxo laminar é interrompido a poucos micrometros desta superfície, devido à rugosidade da superfície da ferramenta. A capacidade dos metais e ligas metálicas suportarem tais níveis de deformações cisalhantes sem se romperem é atribuída às altíssimas tensões de compressão presentes naquela região (Machado e Da Silva, 1993). 4.3.2 Zona de escorregamento A zona de escorregamento é localizada na periferia da zona de aderência e tem início na onde a tensão de cisalhamento, segundo o modelo de Zorev, passa a decrescer e se estende até a região onde esta se anula. Nessa região não ocorre a deformação observada na zona de fluxo e o regime de atrito observado encontra-se na região I do diagrama da Figura 4.7. Segundo Wright (1981), as condições de escorregamento ou aderência dependem de: - Afinidade química entre os materiais da ferramenta e da peça; - Condições atmosféricas; - Tempo de usinagem; - Velocidade de corte; 4.3.3 - Aresta postiça de corte A formação da Aresta Postiça de Corte, APC, ocorre durante a usinagem a baixas velocidades de corte, a partir de uma porção de material encruado que se posiciona entre a superfície de saída da ferramenta e o cavaco em formação. Trent (1988b) explica este fenômeno da seguinte maneira: “... a primeira camada de material que se une à ferramenta por meio de ligações atômicas e encrua-se. Aumenta-se assim o seu limite de escoamento e as tensões de cisalhamento são insuficientes para quebrar estas ligações. As deformações então continuam nas camadas adjacentes, mais afastadas da interface, até que elas também são suficientemente encruadas. Pela repetição deste processo, uma sucessão de camadas forma a APC”. O tamanho da APC não pode aumentar indefinidamente. Quando o seu tamanho atinge um valor no qual a tensão de cisalhamento é suficiente para mudar a zona de cisalhamento primária, que até então estava acima da APC, para dentro do corpo desta, parte de sua estrutura é cisalhada e arrastada entre a superfície da peça e a superfície de folga da ferramenta. Sandro Cardoso Santos 42 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Milovik e Wallbank (1983), analisando a microestrutura da aresta postiça de corte, utilizando microscopia eletrônica e ótica, encontraram várias microtrincas na zona de cisalhamento ao redor da APC, entre os pontos A e B da Figura 4.12. Figura 4.12 - Aresta Postiça de Corte (Trent 1963). Foi verificado que essas microtrincas eram responsáveis pela abertura das trincas nos pontos A e B e eram geradas pela presença de segunda fase no material que, durante o cisalhamento, se deforma diferentemente da matriz, criando um estado triaxial de tensão que promove o aparecimento das microtrincas. Isso explica a necessidade de segunda fase no material para se formar a APC, como observaram Williams e Rollanson (1970). Resumindo, as condições necessárias para o surgimento da APC são a existência de uma segunda fase no material, que dá origem a um estado triaxial de tensões e que o corte seja realizado em uma faixa de velocidades de corte relativamente baixa. A faixa de velocidades de corte propensa ao surgimento da APC na usinagem de aços-carbono é mostrada no esquema da Figura 4.13. Sandro Cardoso Santos 43 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS H, L H APCinstável estável APC APC APCinstável estável 60 vc a 70 m/min 2 a 4 m/min L L Figura 4.13 – Dimensões da APC em função da velocidade de corte para açoscarbono. A influência da velocidade de corte está relacionada à temperatura na região de cisalhamento. Com o aumento da temperatura, em conseqüência do aumento da velocidade de corte, a diferença de plasticidade entre as fases que compõem o material torna-se menor, o que diminui a tendência de formação de trincas devido ao estado triaxial de tensões. Na Figura 14 são mostradas fotografias de arestas postiças de corte, obtidas por meio de ensaios com “quick stop” (Chern, 2005). Figura 15 – Fotomicrografias da aresta postiça de corte (Chern, 2005). Sandro Cardoso Santos 44 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 4.4 - Ângulo de Cisalhamento e Grau de Recalque Na seção 4.2 foi citado que a diferença entre as deformações sofridas pelo material da peça durante a formação do cavado e as sofridas por um corpo de provas durante o ensaio de compressão é que na formação do cavaco existe uma quarta etapa que é o movimento do cavaco sobre a superfície de saída da ferramenta. A zona de aderência é responsável pelo surgimento de tensões de compressão na zona de cisalhamento primária e com isso a posição da máxima tensão de cisalhamento não fica posicionada a 45o em relação à vertical, como no ensaio de compressão, mas em uma posição que descreve um ângulo menor 45o. O ângulo entre o plano de corte e o plano de cisalhamento primário é denominado ângulo de cisalhamento e é representado pela letra φ. O valor de φ é tanto menor quanto maior for a restrição do material na interface cavaco-ferramenta. O fato de o ângulo de cisalhamento ser menor que 45o, faz com que a espessura do cavaco seja maior que a espessura de corte. A razão entre a espessura do cavaco e a espessura de corte é definida como grau de recalque. Rc = h' v c = h v cav (4.3) Onde: vc a velocidade de corte; vcav é a velocidade de saída do cavaco; A definição do grau de recalque facilita a determinação do ângulo de cisalhamento, que pode ser obtido por meio da expressão: tan φ = cos γ n Rc − sen γ n (4.4) onde: γn é o ângulo de saída normal. Os valores de φ e de Rc são indicadores da quantidade de deformação sofrida pelo material na zona de cisalhamento primária. Quanto maior o valor de Rc (ou menor o valor de Sandro Cardoso Santos 45 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS φ) maior a quantidade de deformação sofrida pelo material no plano de cisalhamento primário. 4.4 – Classificação dos Cavacos Em um produto obtido por processos de usinagem, o material é retirado em forma de cavacos. A configuração do cavaco pode ser problemática em algumas situações por oferecer riscos de danos à peça, à máquina-ferramenta e à integridade física do operador. Além disso, o cavaco pode ocupar um volume considerável. Nesse aspecto, a obtenção de cavacos curtos em forma de lascas é preferível aos cavacos longos em forma de fitas. A razão entre o volume ocupado pelo cavaco e o volume do material maciço com a mesma massa é denominado por fator de empacotamento. Os problemas relacionados à configuração dos cavacos podem atingir uma magnitude que venha a exigir a adoção de procedimentos específicos, apresentados na seção a seguir, denominada controle do cavaco. Antes, porém de estudar o controle do cavaco é faz-se necessário classificar os cavacos. A classificação dos cavacos pode ser feita levando-se em conta os tipos e as formas de cavacos. 4.4.1 – Classificação dos cavacos quanto ao tipo Quanto ao tipo, os cavacos podem ser classificados em: a. Cavacos contínuos; b. Cavacos parcialmente contínuos; c. Cavacos descontínuos; d. Cavacos segmentados; Os três primeiros tipos de cavaco dependem da ductilidade do material da peça e das condições de corte. Os cavacos segmentados são obtidos na usinagem de materiais de baixa condutividade térmica, ou em materiais com condutividade térmica relativamente elevada, desde sejam usinados em velocidades de corte elevadas comparadas à velocidade do fluxo de calor no material. Sandro Cardoso Santos 46 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS O tipo de cavaco (contínuo, parcialmente contínuo e descontínuo) depende da propagação da trinca que tem origem na ponta da ferramenta, na posição A, mostrada na Figura 4.15. B A Figura 4.15 – Desenho esquemático do plano de cisalhamento primário. a. Cavacos contínuos Os cavacos contínuos são obtidos na usinagem de materiais dúcteis. O material é tracionado e sofre ruptura no ponto A, na ponta da ferramenta. Um campo de tensões de compressão atua sobre o plano de cisalhamento primário e a propagação da trinca é interrompida, o que faz com que o cavaco seja contínuo. A intensidade da tensão de compressão sobre o plano de cisalhamento primário é influenciada pelo ângulo de cisalhamento φ, que por sua vez depende das condições da interface cavaco-ferramenta. b. Cavacos parcialmente contínuos Os cavacos parcialmente contínuos representam uma classe intermediária entre os cavacos contínuos e os descontínuos. A trinca originada no ponto A da Figura 4.12 se propaga até um ponto do plano de cisalhamento primário entre A e B. Dois fatores são apontados como possível causa da supressão da propagação da trinca. O primeiro está relacionado à energia elástica da ferramenta que pode não ser suficiente para garantir a propagação da trinca. A ferramenta perde então o contato com o cavaco e a propagação da trinca é suprimida. O outro fator é relacionado às tensões de compressão que atuam sobre o plano de cisalhamento primário. A presença de elevadas tensões de compressão à frente do ponto de abertura da trinca e pode suprimir a sua propagação. O resultado é um cavaco com aspecto serrilhado. Sandro Cardoso Santos 47 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS c. Cavacos descontínuos Os cavacos descontínuos são típicos da usinagem de materiais frágeis, que não suportam grandes deformações sem sofrerem fratura. Materiais com certa ductilidade podem apresentar cavacos descontínuos, desde que usinados a baixas velocidades de corte, ângulos de saída pequenos e grandes avanços. O aumento da velocidade de corte tende a tornar o cavaco contínuo, devido à maior geração de calor que torna o material mais dúctil e também por tornar mais difícil a penetração de contaminantes na interface e com isso reduzir a tensão de compressão no plano de cisalhamento primário. d. Cavaco segmentado As deformações no plano de cisalhamento primário provocam a elevação da temperatura naquela região. O calor gerado no plano de cisalhamento primário se propaga por condução para a peça e para o cavaco. Na usinagem de materiais com baixa condutividade térmica, o calor gerado no plano de cisalhamento primário tende a ficar concentrado naquela região, o que provoca a redução da resistência ao cisalhamento. A queda de resistência ao cisalhamento do material faz com que ele continue a ser deformado, mesmo depois de deslocar-se para uma região de menor tensão de cisalhamento, o que dá origem a um seguimento. O ciclo se repete dando origem a bandas de cisalhamento. O ciclo de formação do cavaco segmentado é mostrado na figura 4.16. A Sandro Cardoso Santos B 48 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS D C Figura 4.16 – Formação do cavaco segmentado. A formação do cavaco segmentado tem início com a deformação do material no plano de cisalhamento primário (A), a rotação e o deslocamento do plano de cisalhamento primário (B), movimento do segmento sobre a superfície de saída da ferramenta e a formação de uma nova banda de cisalhamento (C) e a repetição do ciclo (D). 4.4.2 Classificação dos cavacos quanto à forma Quanto à forma, os cavacos são geralmente classificados em: • Cavaco em fita; • Cavaco helicoidal; • Cavaco em espiral; • Cavaco em lascas ou pedaços; A Norma ISO define uma classificação mais detalhada dos cavacos quanto à forma, como mostrado na figura 4.17. Sandro Cardoso Santos 49 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS fragmentado Figura 4.17 – Classificação dos cavacos de acordo com a norma ISO 3685 (1987). Smith (1989) apresenta um diagrama que identifica a influência do avanço e da profundidade de corte na forma do cavaco, conforme mostrado na Figura 4.18. Figura 4.18 – influência do avanço e da profundidade de corte na forma dos cavacos. 4.5 – Controle de Cavacos A geometria e a disposição dos cavacos podem ser problemáticas e até crítica na usinagem de materiais dúcteis, principalmente em faixas elevadas de velocidade de corte. A Sandro Cardoso Santos 50 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS geração de cavacos longos pode gerar problemas no processo relacionados ao (Machado e Silva, 1999): • Cavacos longos ocupam muito espaço em relação ao espaço ocupado por sólidos com a mesma massa, o que causa problemas de armazenamento, manuseio e descarte; • Representam riscos para o operador caso venham se enrolarem em torno da peça, da ferramenta ou de componentes da máquina-ferramenta; • Podem comprometer o acabamento superficial da peça caso enrolem-se em torno dela; • Podem afetar a vida das ferramentas, as forças de usinagem e a temperatura de corte; • Podem impedir o acesso regular do fluido de corte; A razão entre o volume ocupado pelo cavaco e o volume de um sólido de massa equivalente é definida como fator de empacotamento (R). R= Volume do cavaco Volume de um sólido de massa equivalente (4.5) Cavacos contínuos e longos apresentam fator de empacotamento em torno de 50 ou superiores, enquanto em cavacos em lascas ou pedaços esse valor é reduzido a 3 (Boothroyd, 1981). O conjunto de problemas associados aos cavacos longos fez com que fossem desenvolvidas medidas para promover a sua quebra. O método tradicional de controle do cavaco é a utilização de quebra-cavacos. Os quebra-cavacos são obstáculos localizados sobre a superfície de saída das ferramentas com o objetivo de forçar a sua curvatura. Os quebra-cavacos são classificados em (Figura 4.19): • Quebra-cavacos postiços; • Quebra-cavaco integral tipo I – anteparo; • Quebra-cavaco integral tipo II – cratera; Sandro Cardoso Santos 51 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS A B C A - Quebra-cavacos postiços B - Quebra-cavaco integral tipo I – anteparo C - Quebra-cavaco integral tipo II – cratera Figura 4.19 – Tipos de quebra-cavacos. Outros métodos para promover a quebra dos cavacos foram desenvolvidos e aplicados levaram a resultados satisfatórios. Um dos métodos consiste em variar a velocidade de avanço por meio de comandos no programa de máquinas CNC. O desenho esquemático da Figura 4.20 representa o método da desaceleração do avanço. Figura 4.20 – Efeito da desaceleração do avanço na espessura do cavaco (Takatsuto, 1988) Outro método aplicado é conhecido como método hidráulico, que consiste na injeção de fluido de corte a alta pressão na superfície de saída da ferramenta, no sentido contrário ao da saída do cavaco, conforme seqüência mostrada na Figura 4.21. Esse método apresentou resultados satisfatórios na usinagem de ligas de Titânio e de Níquel, reduzindo o fator de empacotamento de 47, obtido na usinagem sem quebra-cavacos, para 4,7 quando foi utilizado o método. Sandro Cardoso Santos 52 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 4.21 – Aplicação de jato de fluido a alta pressão com a finalidade de promover a quebra do cavaco (Machado, 1990). A deformação sofrida pelo cavaco nos planos de cisalhamento primário e secundário é diretamente proporcional a h’/rc, onde h’ é a espessura do cavaco e rc é o raio de curvatura do cavaco, Shaw (1986). Se a deformação sofrida pelo cavaco nesse estágio não for suficiente para causar a sua ruptura, faz-se necessário aumentar a espessura do cavaco ou reduzir o raio de curvatura. Como h’ está diretamente relacionado ao avanço e este, por sua vez, ao acabamento superficial da peça o procedimento mais recomendável é procurar diminuir o raio de curvatura do cavaco. O método mais usual para reduzir o raio de curvatura do cavaco é o emprego dos quebra-cavacos, porém condições de corte e a geometria da ferramenta também o influenciam. Sales, 1995, estudou a influência desses parâmetros no raio de curvatura natural do cavaco e os resultados obtidos são apresentados na Figura 4.22. Com base em valores de sensibilidade adimensional, o autor verificou que a profundidade de corte foi o parâmetro mais influente no raio de curvatura do cavaco, seguida pelo avanço, o ângulo de saída e a velocidade de corte foram, nessa ordem. Observa-se que o raio de curvatura do cavaco aumenta com o aumento da profundidade de corte, do ângulo de saída e da velocidade de corte e diminui como o aumento do avanço. Sandro Cardoso Santos 53 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Vc=200 [m/min] ; ap=2,5 [mm] ; γ=6 [º] Vc=200 [m/min] ; f=0,182 [mm/rot] ; γ=6 [º] 2,5 4 3,5 2 3 2,5 1,5 2 1,5 1 1 1,5 2 2,5 3 0 3,5 0,1 0,2 0,3 f [mm/rot] ap [mm] a b Vc=200 [m/min] ; f=0,182 [mm/rot] ; ap=2,5 [mm] f=0,182 [mm/rot] ; ap=2,5 [mm] ; γ=6 [º] 3 2,5 2,5 2 2 1,5 1 1,5 0,5 0 1 2 4 6 8 10 12 14 16 50 100 150 200 γ [º] 250 300 Vc [m/min] d c Figura 4.22 – Influência da profundidade de corte, (b) do avanço, (c) do ângulo de saída da ferramenta e (d) da velocidade de corte no raio de curvatura do cavaco (Sales, 1995). Sandro Cardoso Santos 54 Wisley Falco Sales CAPÍTULO V FORÇA E POTÊNCIA DE CORTE 5.1 - Forças de Usinagem O conhecimento das forças que agem na cunha cortante e o estudo de seus comportamentos são de grande importância. De posse de suas grandezas, a potência requerida para executar o corte pode ser determinada. A força de usinagem pode ser responsável direta pelo colapso da ferramenta de corte por deformação plástica da aresta, além de influenciar diretamente no desenvolvimento de outros mecanismos e processos de desgaste. Pode também representar um índice de usinabilidade do material da peça, e também ser utilizada como parâmetro para controle adaptativo do processo. A Figura 5.1 mostra, com corte tridimensional, as componentes da força de usinagem nos processos de torneamento e fresamento. Figura 5.1 - Componentes da força de usinagem. a) torneamento e b) fresamento. Onde: Fap - força de apoio (projeção de Fu sobre o plano de trabalho); Ff - força de avanço; Ft - força ativa; Fp - força de passiva; Fc - força de corte; Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Fn - força normal; Fu - força de usinagem; ve - Velocidade efetiva de corte; vc - Velocidade de corte; vf - Velocidade de avanço. Segundo a notação vetorial, as componentes podem ser representadas pela Equação (4.2). r r r r Fu = Fc + F f + F p (5.1) 5.1.1 - Fatores que Influenciam a Força de Usinagem Pode se afirmar que todos os fatores que contribuem para a movimentação livre do cavaco por sobre a superfície de saída atuam no sentido de diminuir a força de usinagem. Se as condições da interface se apresentarem como uma restrição ao escoamento livre do cavaco, a ação da ferramenta sobre a superfície inferior da cunha do cavaco tem que ser maior para vencer esta restrição (Machado e Da Silva, 1993). Trent (1991) afirma que a força de usinagem é dependente de dois fatores principais: a) Áreas dos planos de cisalhamento primário e secundário; b) Resistência ao cisalhamento do material da peça nesses planos; Com isso, qualquer parâmetro pode ser analisado com base nos seus efeitos sobre estes fatores. Muitos deles vão atuar nos dois sentidos e o resultado vai depender da predominância de um sobre o outro. a. Material da peça De uma maneira geral, quanto maior a resistência do material da peça, maior é a resistência ao cisalhamento nos planos de cisalhamento e maiores serão as forças de usinagem. Entretanto, materiais extremamente dúcteis, como ferro e alumínio comercialmente puros, podem alterar a área da seção de corte, alterando a força de usinagem. Sandro Cardoso Santos 57 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS b. Material da ferramenta A afinidade química do material da ferramenta com o material da peça pode atuar, principalmente, na área da seção de corte. Se a tendência for produzir uma zona de aderência estável e forte, a força de usinagem poderá ser aumentada. Se a tendência for diminuir o atrito na interface, a área de contato poderá ser reduzida, diminuindo a força de usinagem. c. Velocidade de corte A velocidade de corte apresenta pouca influência, na faixa em que é utilizada em níveis industriais, sem a presença da aresta postiça de corte. Pela maior geração de calor e conseqüente redução da resistência ao cisalhamento do material e pela ligeira redução na área de contato cavaco-ferramenta, existe uma tendência de redução da força de usinagem com o aumento da velocidade de corte (Machado e Da Silva, 1993). d. Avanço e profundidade de corte O aumento destes dois fatores causa um aumento da força de usinagem, numa proporção direta, quase linear. A área da seção de corte, As, é definida pelo produto entre o avanço e a profundidade de corte. A Figura 5.2 ilustra a influência destes parâmetros juntamente com a resistência do material da peça. Isso ocorre porque as áreas dos planos de cisalhamentos primário e secundário são aumentadas com o aumento dessas grandezas Kg/mm 2 Ff s Figura 5.2 - Influência da seção de corte e da resistência do material da peça nas componentes da força de usinagem (Ferraresi, 1977). Sandro Cardoso Santos 58 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS e. Geometria da ferramenta O ângulo mais influente é o de saída, γ0. Uma redução deste tende a aumentar a área de contato e impor uma maior restrição ao escorregamento do cavaco por sobre a superfície de saída, aumentando a força de usinagem. O ângulo de posição, χr, também influencia a força de usinagem. O seu aumento, desde que o ângulo de posição lateral não se torne pequeno o suficiente para que a aresta lateral de corte entre em ação, promove uma ligeira redução nas forças de usinagem. A influência destes ângulos é mostrada na Figura 5.3. f. Estado de afiação da ferramenta O desgaste da ferramenta pode alterar a sua geometria. Porém, o efeito maior deve-se ao aumento da área de contato com o cavaco ou com a peça, com a evolução do desgaste de cratera e de flanco. Com isto, normalmente há um aumento da força de usinagem. Mas em situações em que o desgaste de cratera é predominante, a sua evolução aumenta o ângulo de saída, γ0, reduzindo a força de corte. r r r o Figura 5.3 - Influência dos ângulos de saída (γ0) e de posição (χr) nas forças de usinagem (Ferraresi, 1977). h. uso de fluido de corte Se na ação do fluido predominar a lubrificação, há uma redução da área de contato e diminuição da força de usinagem. Entretanto, se prevalecer a refrigeração, o fluido pode Sandro Cardoso Santos 59 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS aumentar a força de usinagem, por promover um aumento da resistência ao cisalhamento do material nas zonas de cisalhamento, devido a uma redução da temperatura. Os resultados mostrados nas Figuras 5.4 a 5.8 servem para exemplificar a influência do material da peça e das condições de corte na força de corte. 600 550 Fc (m/min) 500 450 400 350 300 150 345 HV 250 HV 170 190 210 Vc (m/min) 230 250 Figura 5.4 – Influência da velocidade de corte nos valores de força de corte para o aço ABNT 4340 temperado e revenido (durezas 250 HV e 345 HV). Na Figura 5.4 é mostrada a influência da velocidade de corte na força de corte. Como os ensaios foram realizados fora da faixa de velocidades de corte em que ocorre a aresta postiça de corte, os sinais de sua presença não foram observados. Nota-se que a força de corte sofre pouca influência da velocidade de corte, apesar de as linhas de tendência indicarem decréscimo da força com o aumento da velocidade de corte. Esses resultados concordam com os apresentados por Machado e da Silva (1993) que o atribuem à redução da tensão de cisalhamento resultante do aumento da temperatura nas zonas de cisalhamento primária e secundária que, por sua vez, são conseqüência do aumento da taxa de deformação do material da peça nessas regiões. Nas Figuras 5.5 e 5.6 são mostradas as influências do avanço e da profundidade de corte na força de corte, respectivamente. Sandro Cardoso Santos 60 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 650 600 250 HV 345 HV Fc (N) 550 500 450 400 350 300 0,14 0,16 0,18 0,2 0,22 f (mm/rev) 0,24 0,26 Figura 5.5 – Influência do avanço nos valores de força de corte para o aço ABNT 4340 temperado e revenido (durezas 250 HV e 345 HV). 650 345 HV 250 HV 600 Fc (N) 550 500 450 400 350 300 0,7 0,8 0,9 1 ap (mm) 1,1 1,2 1,3 Figura 5.6 – Influência da profundidade de corte nos valores de força de corte para o aço ABNT 4340 temperado e revenido (durezas 250 HV e 345 HV). O aumento do avanço e da profundidade de corte causa o aumento da área das zonas de cisalhamento primária e secundária. Nas Figuras 5.7 e 5.8 são mostrados os valores de força de corte em função da área de contato cavaco-ferramenta na usinagem do aço ABNT 4340 com durezas de 345 HV e 250HV, respectivamente. Sandro Cardoso Santos 61 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 650 345 HV 600 550 Fc (N) ap = 1,0 mm f = 0,24 mm/rot. ap = 1,2 mm f = 0,20 mm/rot. 500 450 400 ap = 0,8 mm f = 0,20 mm/rot. ap = 1,0 mm f = 0,16 mm/rot. 350 300 0,16 0,16 0,24 0,24 2 Área (mm ) Figura 5.7 – Força de corte em função da área de contato cavaco-ferramenta na usinagem do aço ABNT 4340 temperado e revenido à dureza de 345 HV. 650 250 HV 600 ap = 1,2 mm f = 0,20 mm/rot. ap = 1,0 mm f = 0,24 mm/rot. 0,24 0,24 Fc (N) 550 ap = 1,0 mm f = 0,16 mm/rot. 500 450 400 ap = 0,8 mm f = 0,20 mm/rot. 350 300 0,16 0,16 2 Área (mm ) Figura 5.8 – Força de corte em função da área de contato cavaco-ferramenta na usinagem do aço ABNT 4340 temperado e revenido à dureza de 250 HV. Na usinagem do material de maior dureza, nota-se que os valores de força de corte não apresentaram diferença significativa para valores de área cavaco-ferramenta de 0,16 mm2. Para a área de contato de 0,24 mm2 a profundidade de corte contribuiu mais para o aumento da força de corte que o avanço. Na usinagem do aço de menor dureza o comportamento foi inverso, pois a profundidade de corte foi mais influente no aumento da Sandro Cardoso Santos 62 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS força de corte para a menor área de contato cavaco-ferramenta e para os valores maiores de área os resultados foram estatisticamente iguais. 5.1.2 - Métodos de Medição da Força de Usinagem A medida da força de usinagem pode ser realizada de forma direta ou indireta. Na forma indireta, mede-se o deslocamento de molas, utilizando-se meios de medida mecânicos, elétricos, pneumáticos e hidráulicos. Por meio de correlações previamente estabelecidas, mede-se a força. Na forma direta, a força é medida baseado na piezoeletricidade, na magneto-estricção ou na magneto-elasticidade (Ferraresi, 1977). A evolução dos sistemas de medição de força de usinagem conduziu aos atuais dinamômetros piezelétricos, com resolução, sensibilidade e faixa de operação adequada às aplicações práticas e acadêmicas (Ballato, 1995). Um dinamômetro piezoelétrico é mostrado na Figura 5.9. Figura 5.9 – Dinamômetro Piezoelétrico. 5.1.3 - Forças de Usinagem no Corte Ortogonal A força de usinagem é definida como a resultante das forças que a ferramenta exerce sobre a peça (ou que a peça exerce sobre a ferramenta). A determinação da força de usinagem (intensidade, direção e sentido) é feita por meio da medição de suas componentes em direções conhecidas. No corte ortogonal, a força de usinagem é determinada pela soma vetorial das forças medidas nas direções de corte (força de corte) e Sandro Cardoso Santos 63 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS de avanço (força de avanço), que podem ser medidas com a utilização dos métodos apresentados na seção anterior. As forças de corte, de avanço e a força de usinagem resultante para o corte ortogonal são mostradas na Figura 5.10. Além das forças de corte e de avanço, a determinação de componentes da força de usinagem em outras direções também apresentam grande interesse prático. As forças FZ e FNZ são as componentes da força de usinagem que atuam respectivamente nas direções tangencial e normal ao plano de cisalhamento primário. A componente FZ é responsável por cisalhar o material e a componente FNZ comprime o plano de cisalhamento primário e contribui para suprimir a propagação da trinca ao longo de sua extensão e, com isso, contribuir para a formação do cavaco contínuo. Fu Fc Ff Figura 5.10 – Representação das forças de corte e de avanço. A representação esquemática das forças que atuam no plano de cisalhamento primário é mostrada na Figura 5.6. Sandro Cardoso Santos 64 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS φ FNZ Fu FZ Figura 5.11 – Representação das componentes FZ e FNZ da força de usinagem. As mesmas considerações podem ser feitas com relação ao plano de cisalhamento secundário. Nesse caso a componente FT é a força de atrito no plano de cisalhamento secundário e a componente FN a força normal ao plano de cisalhamento secundário. As componentes FT e FN são representadas na Figura 5.12. Fu FN FT γ Figura 5.12 – Representação esquemática das componentes FT e FN da força de usinagem. Sandro Cardoso Santos 65 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS As principais componentes da força de usinagem podem ser representadas por meio do CÍRCULO DE MERCHANT (Merchant, 1954) e apresentado na Figura 5.8. Para a construção do Círculo de Merchant, primeiro desloca-se a força de usinagem Fu para a ponta da ferramenta e depois constrói-se uma circunferência de modo que o vetor Fu corresponda ao seu diâmetro. De posse dos valores dos ângulos de cisalhamento (φ) posicionam-se as componentes FT, FN e a partir do ângulo de saída da ferramenta (γ), posiciona-se as componentes, FZ e FNZ. O Círculo de Merchant é mostrado na Figura 5.13. A partir das relações apresentadas pelo Círculo de Merchant pode-se decompor a força de usinagem nas principais direções e calcular o módulo dessas forças utilizando fundamentos de geometria ou de trigonometria. A determinação da força de usinagem é feita a partir da soma vetorial das forças de corte e de avanço. Uma vez determinada a força de corte e conhecidos os ângulos de saída da ferramenta e de cisalhamento (determinado por meio da relação 4.1) as demais componentes podem ser determinadas. φ Ff FNZ FN Fu Fc FT FZ γ Figura 5.13 – Círculo de Merchant. 5.2 - Potência de Usinagem As potências de usinagem resultam dos respectivos produtos das componentes de força e de velocidade: Sandro Cardoso Santos 66 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Potência de Corte (Nc), é dada pela Equação 2.1.3: Nc = Fc * vc 60 * 75 CV (2.1.3) Onde Fc Kgf e vc m/min. • Potência de Avanço (Nf), é dada pela equação 2.1.4: Nf = Ff * v f 1000 * 60 * 75 CV (2.1.4) Onde Ff kgf e vf mm/min. • Potência Efetiva de Corte (Ne), é dada pela equação 2.1.5: Ne = Nc + Nc (2.1.5) A potência consumida na operação de usinagem pode ser medida diretamente no motor elétrico da máquina operatriz. Um sensor de corrente elétrica, do tipo “Hall”, é instalado na fonte de alimentação do motor elétrico responsável pelo suprimento de potência no eixo principal da máquina ferramenta. De posse da corrente elétrica consumida pelo motor elétrico, calcula-se a potência efetiva. As máquinas equipadas com comando numérico computadorizado, normalmente apresentam motores individuais para os movimentos de corte (rotação do eixo árvore) e de avanços (eixos x, y e z). Isso permite a medição de diversas componentes da potência total. Na Figura 5.14 são apresentados valores de potência efetiva de corte ao longo da vida de brocas helicoidais de aço rápido com diferentes revestimentos na usinagem do ferro fundido cinzento GH 190. Observa-se que as curvas mostradas na Figura 5.14 apresentam comportamento semelhante. Os valores de potência efetiva de corte apresentam tendência de manterem-se estáveis até que, próximo ao final da vida das ferramentas, apresentam crescimento acentuado. O comportamento das curvas deixa claro que a potência efetiva de corte é um bom parâmetro para monitorar o desgaste de brocas. Sandro Cardoso Santos 67 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 1100 1100 SR1 SR2 900 900 800 800 700 600 700 600 500 500 400 400 300 0 5 TiN1 TiN2 TiN3 1000 POTÊNCIA (W) POTÊNCIA (W) 1000 10 15 20 25 30 300 35 0 20 40 60 80 o Brocas não revestidas 120 140 160 Brocas revestidas com TiN 1100 1100 TiCN1 TiCN2 TiCN3 1000 WC.C1 WC.C2 WC.C3 1000 900 900 800 POTÊNCIA (W) POTÊNCIA (W) 100 No DE FUROS N DE FUROS 700 600 800 700 600 500 500 400 400 300 0 20 40 60 80 100 0 20 40 60 80 100 120 140 160 No DE FUROS o N DE FUROS Brocas revestidas com WC/C sobre TiAlN Brocas revestidas com TiCN 1100 MC1 MC2 MC3 1000 POTÊNCIA (W) 900 800 700 600 500 400 300 0 20 40 60 80 100 120 140 No DE FUROS Brocas com revestimento multicamadas Figura 5.14 Curvas de potência efetiva de corte na furação de ferro fundido GH190 com brocas de aço rápido com diferentes revestimentos. Outro aspecto a ser observado é a diferença entre o comportamento das médias e dos desvios-padrões dos valores de potência, medidos também na fase na fase de comportamento estável, conforme mostrado na Figura 5.15. Sandro Cardoso Santos 68 Wisley Falco Sales MC3 MC2 MC1 WC/C3 WC/C2 WC/C1 TiCN3 TiCN2 TiCN1 TiN3 TiN2 TiN1 SR2 600 580 560 540 520 500 480 460 440 420 400 SR1 PO T ÊNCIA (W ) ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 5.15 Valores médios da potência efetiva de corte durante a fase em que ela apresenta pequena variação. Os resultados apresentados na Figura 5.15 permitem verificar que o revestimento multicamadas foi responsável por uma queda entre 9 e 25% da potência efetiva de corte, se comparado com os valores obtidos para as brocas não revestidas. Pode-se destacar, ainda, a repetibilidade dos resultados da potência efetiva de corte para as três ferramentas com revestimentos multicamadas. Sandro Cardoso Santos 69 Wisley Falco Sales CAPÍTULO VI TEMPERATURA DE USINAGEM Em usinagem, praticamente toda a energia consumida é convertida em energia térmica. Somente uma pequena porcentagem (1 a 3%) fica retida no sistema como energia elástica ou é associada à geração de novas superfícies (peça e cavaco). O calor é gerado nas zonas de cisalhamento e conduzido para a peça, para o cavaco e para a ferramenta. O aquecimento da peça durante a usinagem é, na maioria dos casos, considerado benéfico pois implica em redução da tensão de cisalhamento do material. Em algumas situações o aquecimento da peça pode causar problemas dimensionais ou promover transformações de fase nas regiões próximas à superfície e, com isso, modificar as suas propriedades. A porção de calor transmitida à ferramenta é mais problemática. A elevação da temperatura da ferramenta tem como conseqüência a redução da resistência à deformação plástica do material da ferramenta e a criação de condições favoráveis para os mecanismos de desgaste termicamente ativados. As conseqüências da elevação da temperatura sobre a ferramenta de corte resultam na redução de sua vida e na limitação das condições de corte a serem adotadas, principalmente a velocidade de corte e o avanço. Diante dos fatos apresentados, pode-se afirmar que a temperatura de corte é considerada uma das grandezas mais influentes nos processos de usinagem, o que justifica a realização de trabalhos que buscam medir e avaliar as influências da temperatura no desempenho das ferramentas de corte. Medir a temperatura de corte não é uma tarefa fácil, tendo em vista as condições dinâmicas do processo (Bickel, 1963). A interface cavaco-ferramenta é praticamente inacessível o que torna os processos de medição um tanto imprecisos. Na Figura 6.1 são representadas as três zonas distintas de geração de calor durante a usinagem. Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 6.1 - Zonas de geração de calor em usinagem. São elas: • zona de cisalhamento primário, zona A; • zona de cisalhamento secundário, zona B; • zona de interface entre a peça e a superfície de folga da ferramenta, zona C (também denominada por alguns autores como zona terciária). Grande parte do calor gerado é dissipada pelo cavaco, uma pequena porcentagem é dissipada pela peça e uma outra para o meio ambiente. O restante vai para a ferramenta de corte. Apesar de a parcela do calor que é transmitida à ferramenta representar apenas 8 a 10% do total, ela é responsável pela elevação da temperatura, que pode chegar a 1100 oC, o que compromete fortemente a resistência da ferramenta. A equação de balanço energético fica: Qz + Qa1 + Qa2 = Qc + Qp + Qma + Qf (6.1) onde, Qz = calor gerado na zona de cisalhamento primário. Qa1 = calor gerado na zona de cisalhamento secundário. Qa2 = calor gerado na zona de interface peça-superfície de folga da ferramenta. Sandro Cardoso Santos 71 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Qc = calor dissipado pelo cavaco. Qp = calor dissipado pela peça. Qma = calor dissipado pelo meio ambiente. Qf = calor dissipado pela ferramenta de corte. A seguir são apresentadas as principais zonas de geração de calor. 6.1. Calor Gerado na Zona de Cisalhamento Primário A maior parte do calor gerado na zona de cisalhamento primário é dissipada pelo cavaco, mas uma pequena fração M, é transmitida para a peça por condução, e aumenta a sua temperatura, podendo às vezes causar problemas de precisão dimensional. Segundo Nakayama (1956), esse aumento de temperatura, ∆θp, depende da rotação (aumentando com o aumento da mesma), e do número de revoluções após o corte ter iniciado (a peça é aquecida pelos cortes precedentes e isto afeta o aumento da temperatura no corte subsequente). Quanto ao aumento da temperatura do cavaco devido ao calor Qz, existe um método que permite um cálculo aproximado (Boothroyd, 1981): ∆θc = (1 − M)[Fc − Ff tan( φ) ] (6.2) J. ρ. c. h. b onde: J = equivalente mecânico de calor. ρ = massa específica do material da peça. c = calor específico do material da peça. O aumento de temperatura no cavaco, ∆θc, não é muito influenciado pela velocidade de corte, embora M diminui com o aumento de vc. A altas velocidades, entretanto, ∆θc tende a ficar constante com vc (Trent e Wright, 1999). A temperatura no cavaco pode chegar a 650o C quando usinando ações endurecidos e algumas ligas de níquel, sob certas condições Sandro Cardoso Santos 72 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS de corte, mas a faixa normal de temperatura do cavaco, quando usinando aços e outros materiais comuns é de 200o C a 350o C (Trent e Wright, 1999). A temperatura do cavaco tem pouca influência na temperatura da ferramenta, pois o tempo com que uma pequena porção do cavaco (lamela) passa sobre a superfície de saída da ferramenta, é muito pequeno (poucos milisegundos) para conduzir calor (Trent e Wright, 1999). Além disso, na presença da zona de fluxo na zona de cisalhamento secundário, haverá ali o desenvolvimento de temperaturas bem maiores que as temperaturas do cavaco. Assim, o calor fluirá da zona de fluxo em direção ao cavaco, e não o contrário. 6.6. Calor Gerado na Zona de Cisalhamento Secundária Esta é a fonte de calor que mais influencia as temperaturas da ferramenta de corte. A temperatura da ferramenta pode não representar grande problema na usinagem de materiais macios e de baixo ponto de fusão, como o alumínio e o magnésio, mas se torna o fator controlador da taxa de remoção de material, quando na usinagem de materiais duros e de alto ponto de fusão, como ferros fundidos, aços, ligas de níquel e ligas de titânio. A temperatura da interface cavaco-ferramenta aumenta com a velocidade de corte. Haverá, portanto, um limite prático na velocidade de corte, para cada par ferramenta-peça. As altas temperaturas nas ferramentas de corte não só aceleram os mecanismos de desgaste termicamente ativados, mas também reduzem o limite de escoamento dessas ferramentas. Na presença da zona de fluxo, a quantidade de calor gerado e a taxa de deformação são tão altas e complexas, que Trent (1988) afirmou ser irrealista tentar calcular o aumento de temperatura naquela região, com o presente estado de conhecimento dos fenômenos envolvidos. Tais exuberantes quantidades de deformações sem promover encruamento do material na mesma proporção, só podem ocorrer com o amolecimento adiabático causado pelo aumento da temperatura. A temperatura na zona de fluxo, e portanto, a temperatura da ferramenta depende da quantidade de trabalho realizado para cisalhar o material e da quantidade de material que passa pela zona de fluxo, e isto varia com o material da peça (Trent e Wright, 1999). Temperaturas da ordem de 1000o C na interface cavaco-ferramenta podem ser encontrados e as ferramentas de corte têm que estar preparadas para suportarem estas temperaturas durante o corte. Na Figura 6.2 mostra-se a temperatura máxima da interface cavaco-ferramenta (e portanto a temperatura máxima na superfície de saída da ferramenta) na usinagem de vários materiais com ferramentas de aço rápido, em função da velocidade de corte. Sandro Cardoso Santos 73 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Podem-se observar temperaturas bastante elevadas em velocidades de corte bem baixas, para certos materiais. Segundo Trent (1991), as condições da interface cavaco-ferramenta (aderência, escorregamento ou aresta postiça de corte) devem ser assumidas como os fatores mais importantes a serem considerados na influência sobre a temperatura da ferramenta de corte. A zona de fluxo, portanto, constitui uma fonte efetiva de calor, e apesar de se conhecer muito pouco sobre a influência dos elementos de liga e mudanças microestruturais nas bandas de cisalhamento termoplásticos, Trent (1988) enumerou pelo menos três parâmetros metalúrgicos que influenciam a temperatura da ferramenta: • Ponto de fusão do principal elemento químico do material da peça. Quanto maior o ponto de fusão deste elemento, maior a temperatura da interface cavacoferramenta, para qualquer velocidade de corte. • Elementos de liga que aumentam a resistência do material da peça. Eles aumentam a temperatura da interface para qualquer taxa de remoção de material. • Presença de fases de baixa resistência ao cisalhamento na interface (tais como MnS e grafita). Elas podem reduzir a temperatura. Figura 6.2 - Temperaturas máximas da interface cavaco-ferramenta em função da velocidade de corte (Trent e Wright, 1999). Sandro Cardoso Santos 74 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 6.4. Calor Gerado na Zona de Interface entre a Peça e a Superfície de Folga da Ferramenta Se a usinagem ocorrer com ângulos de folga pequenos (αo < 1o) ou se o desgaste de flanco (VBB, medido na superfície de folga da ferramenta) atingir proporções consideráveis, a interface peça-superfície de folga da ferramenta se torna a terceira fonte importante de geração de calor. Neste caso, a análise é similar à zona de cisalhamento secundário, com a presença da zona de fluxo, o que promove altas temperaturas na superfície de folga, que pode levar a ferramenta de corte ao colapso (Trent e Wright, 1999 e Machado e Da Silva, 1999). 6.5. Medição da Temperatura de Usinagem Existem atualmente na literatura vários modelos físicos juntamente com métodos matemáticos e computacionais tem sido usados para calcular a temperatura de usinagem. Basicamente, o princípio de medição utilizado pelos vários métodos pode ser resumido em (Ferraresi, 1977 e Shaw, 1984): • Método calorimétrico; • Medição por técnicas metalográficas (Wright e Trent, 1973); • Medição da força termoelétrica entre a ferramenta e a peça (método termopar ferramenta-peça); • Medição direta por inserção de termopares na ferramenta de corte; • Medição da energia de radiação na faixa do espectro infravermelho; • Medição indireta por meio de vernizes térmicos; • Pós químicos; • Deposição de filmes PVD (Kato et al., 1996); • Técnicas de problemas inversos (Tay et al., 1974 e De Melo, 1998); Sandro Cardoso Santos 75 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Método Calorimétrico Este método é utilizado para medir a temperatura média do cavaco utilizando-se um calorímetro de água. Para isto mede-se a massa e temperatura inicial da água, usina-se a peça com rasgos axiais, para garantir a quebra do cavaco, e os cavacos caem no reservatório com temperatura conhecida. Mede-se a temperatura atingida pela água depois de determinado tempo, pesa-se o cavaco após secagem e através de equações calorimétricas determina-se a temperatura média do cavaco no instante em que atingiu a água. Medição por Técnicas Metalográficas O método consiste em submeter as ferramentas de aço-rápido a testes de usinagem e em seguida a uma análise metalográfica com o objetivo de relacionar alterações da microestrutura do material com a temperatura necessária para que ocorram as transformações observadas. Por meio do método de “medição por técnicas metalográficas”, desenvolvido por Trent (1991), a distribuição de temperatura foi determinada numa seção transversal à aresta principal de corte da ferramenta, após usinar uma peça de aço de baixo carbono sob diversas velocidade de corte. Os resultados são apresentados na Figura 6.3. Observa-se que a máxima temperatura ocorre à determinada distância da aresta principal de corte e que elas crescem com o aumento da velocidade de corte. O método de medição por técnicas metalográficas apresenta como vantagens o fato de os testes serem realizados com a ferramenta em condições normais de utilização e a confiabilidade dos resultados. Como limitações, pode-se citar que o método só é aplicável em ferramentas de aço-rápido e requer trabalho exaustivo para a revelação da microestrutura Sandro Cardoso Santos 76 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 6.3 - Distribuição de temperatura na ferramenta de corte, após usinar aço de baixo carbono por 30s, com avanço de 0,25 mm/rev e várias velocidades de corte (Trent e Wright, 1999). Método Termopar Ferramenta-Peça Atualmente o método mais difundido é o do termopar ferramenta-peça. O sistema de medição por este método baseia-se no efeito "Seebeck" ou “Peltier”, que descreve a lei dos termopares. Segundo essa lei, se dois materiais metálicos forem unidos por um terceiro e submetidos a uma temperatura diferente da extremidade não unida, há a geração de uma força eletro-motriz proporcional à diferença de temperatura entre as juntas quente e fria do par metálico (Shaw, 1984, Doebelin, 1990). Este método, embora aparentemente simples ainda é o mais utilizado, pelos baixos custos envolvidos e também pela sua sensibilidade que está em torno de ± 20 ºC que, comparada às temperaturas médias da interface cavaco-ferramenta, é considerada adequada. Para a melhor compreensão do método, o princípio de funcionamento dos termopares é apresentado a seguir. Deve-se a Seebek, em 1821, a descoberta do seguinte fenômeno: por dois metais, dispostos de modo a formarem um circuito, conforme mostrado na Figura 6.4, e com as junções mantidas a temperaturas diferentes, flui uma corrente entre essas junções. Sandro Cardoso Santos 77 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 6.4. Circuito termelétrico construído de fios de diferentes materiais. t>t0 O fenômeno do aparecimento de uma corrente de baixa intensidade, fluindo no circuito contínuo dos dois metais diferentes, é chamada de corrente termelétrica e a f.e.m. (força eletromotriz) causada pela diferença de temperatura entre as duas junções, é chamada de f.e.m. térmica. O dispositivo que produz esta f.e.m térmica é chamado termopar ou transdutor termelétrico. O fenômeno da f.e.m. pode ser explicado pela teoria dos elétrons livres nos metais, isto é, a densidade de elétrons livres é função da temperatura (t), como também a disponibilidade de elétrons livres é diferente em diferentes metais. Assim estes elétrons fluem através das junções (Figura 6.5), ou seja, pela junção 1 passam do material A para o material B e deste um maior número passa para o material A. O campo elétrico gerado na junção provoca uma limitação na passagem dos elétrons e com isso, o fluxo de elétrons tende a se estabilizar em uma determinada direção, no caso em que t>t0. A f.e.m. térmica gerada no circuito mostrado na Figura 6.5, é dada por: eAB = f(t) (6.3) A não homogeneidade dos metais A e B e a flutuação do campo térmico da junção de referência 2, introduzirão distorções no resultado da f.e.m. A extensão dos metais (fios) podem também se encontrar a temperaturas diferentes. Esses fatores levam a que se escreva a equação geral do termopar: EAB(t,t0) = eAB(t) + eBA(t0) (6.4) Embora a função f(t), da Equação 6.3, possa ser determinada teórica e experimentalmente, não se tem interesse por esse procedimento. Na prática são adquiridos fios de termopar e a partir deste material são fabricados os sensores e levantadas as curvas de calibração, experimentalmente. Sandro Cardoso Santos 78 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS O termopar é o sensor ideal para a medida de temperatura, porque pode ser instalado nos locais de difícil acesso onde, para uma leitura direta, seria impossível colocar um termômetro de bulbo de mercúrio como, no interior de um duto onde circula um fluido a alta pressão. O método utilizado Em usinagem a junta quente do par metálico é estabelecida na interface cavacoferramenta e a junta fria é estabelecida de forma que opere à temperatura ambiente. Um dos componentes do termopar é a peça e o outro a ferramenta. Neste caso os dois materiais devem conduzir eletricidade. Este método mede a temperatura média na interface cavacoferramenta e não a máxima temperatura na interface (Agapiou e Devries, 1990). Na Figura 6.5 é mostrado o esquema da montagem experimental utilizada. Isolamento Peça ABNT 4140 Ferramenta Metal Duro / Aço Rápido Sensor de Temperatura Mancal de infravermelho mercúrio Ligado ao microcomputador Amplificador de sinais Microcomputador com placa de aquisição de dados Figura 6.5 - Esquema da montagem feita para realização dos testes. O processamento dos dados nesta montagem se dá na seguinte seqüência: • A peça é presa ao torno de modo que se tenha um perfeito isolamento entre esta e o torno; Sandro Cardoso Santos 79 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • torno é ajustado às condições desejadas (velocidade de corte, profundidade, avanço, etc); • Inicia-se o processo de usinagem até que este entre em regime (cerca de milésimos de segundos); • Inicia-se a coleta de dados com tempo e taxa de amostragem pré- determinados; • Os dados são tratados e obtém-se a temperatura de acordo com a ddp gerada pelo termopar ferramenta-peça. Na Figuras 6.6 e 6.7 são mostrados resultados experimentais obtidos por meio deste método e no caso, o foco da avaliação era a avaliação do desempenho de fluidos de corte no torneamento. f = 0,079 mm/rev ap = 1 mm 1200 Sintético1 Temperatura [ºC] 1000 Sintético2 Água 800 600 400 Seco Integral Emulsionável 200 0 24 61 154 244 Velocidade de Corte [m/min] SECO INTEGRAL EMULSIONÁVEL - 5% SINTÉTICO 2 - 5% ÁGUA SINTÉTICO 1 - 5% Figura 6.6 - Temperatura de usinagem com os fluidos a 5%, medida pelo método do termopar ferramenta-peça (Sales, 1999). Sandro Cardoso Santos 80 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 1000 f = 0,079 mm/rev ap = 1 mm Sintético1 Temperatura [ºC] 800 Água 600 Emulsionável Sintético2 400 Seco Integral 200 0 24 61 SECO SINTÉTICO 2 - 10% 154 Velocidade de Corte [m/min] INTEGRAL ÁGUA 244 EMULSIONÁVEL - 10% SINTÉTIC0 1 - 10% Figura 6.7 - Temperatura de usinagem, com os fluidos a 10%, medida pelo método do termopar ferramenta-peça (Sales, 1999). Outros resultados de temperatura média de interface cavaco-ferramenta, no torneamento do aço ABNT 1020 com ferramentas de metal duro, medidos pelo método termopar ferramenta-peça são apresentados nas Figuras 6.8. 6.9 e 6.10. Nota-se que a temperatura média da interface cavaco-ferramenta aumenta com o aumento da velocidade de corte, avanço e profundidade de corte. A aplicação de fluido de corte fez com que os valores médios de temperatura da interface fossem mais baixos. Sandro Cardoso Santos 81 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS _______ operação realizada a seco _ _ _ _ _ operação realizada com fluido sintético 3%; f = 0.061 mm/volta e ap = 0,50 mm Figura 6.8 - Comportamento da temperatura média da interface cavacoferramenta em função da velocidade de corte. ______ operação a seco _ _ _ _ operação com uso de fluido sintético 3%; Vc = 118 m/min e ap = 0,50 mm Figura 6.9 - Comportamento da temperatura de corte em função do avanço Sandro Cardoso Santos 82 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS _______ operação a seco _ _ _ _ _operação aplicando fluido de corte sintético 3%; Vc = 114 m/min;f = 0,061 mm/volta Figura 6.10 - Comportamento da Curva de Temperatura em Função da Profundidade de Corte Método Termopar Inserido na Ferramenta Por meio deste método pode-se realizar a medição da temperatura em qualquer ponto da ferramenta. O procedimento consiste na realização de pequenos furos na ferramenta por eletro-erosão com diâmetros de dimensões mínimas, de modo a não comprometer a resistência da ferramenta, através dos quais são inseridos termopares (Figura 6.8). Figura 6.8 - Método termopar inserido na ferramenta. Uma variante do método termopar implantado consiste em fixar termopares na superfície inferior da ferramenta por meio de solda capacitiva, conforme mostrado nas Sandro Cardoso Santos 83 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figuras 6.9 e 6.10. Na Figura 6.11 são mostrados os valores de temperatura obtidos por meio desse método. pastilha abertura para passagem do termopares suporte furo para passagem dos termopares porta ferramenta Figura 6.9 - Desenho esquemático da montagem das pastilhas no porta-ferramentas. 6 mm 4 mm termopar 3 termopar 2 termopar 1 2 mm 4 mm 6 mm 2 mm termop. 1 termopar 2 termopar 3 A B Figura 6.10 - Posicionamento dos termopares na superfície inferior das pastilhas. (A) vista em perspectiva, (B) – detalhe da superfície inferior. Sandro Cardoso Santos 84 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 140 SR TiN TiAlN MC v c = 210 m/min 100 o ∆ T ( C) 120 80 60 1 2 3 TERMOPAR Figura 6.11 - Temperaturas máximas medidas nas posições 1, 2 e 3, nos ensaios de torneamento com velocidade de corte de 210 m/min. No exemplo mostrado na Figura 6.11, o método permitiu identificar a influência de diferentes revestimentos na temperatura medida na superfície inferior da ferramenta. observa-se, ainda, que a máxima temperatura medida na usinagem com pastilhas revestidas com TiAlN não ocorreu no ponto mais próximo da ponta da ferramenta, como ocorreu com as ferramentas revestidas com TiN, revestimentos multicamadas e com a ferramenta não revestida. Método Vernizes Térmicos A concepção deste método é possível devido à propriedade de alguns materiais variarem sua cor para uma tonalidade específica de acordo com a temperatura que atingiram. Este material é então aplicado como um revestimento na ferramenta de corte, podendo este ser realizado com um lápis térmico, e após o processo identifica-se a temperatura atingida pela ferramenta em determinados locais de acordo com a cor do verniz aplicado. Método da Irradiação Térmica Este método consiste em medir a irradiação térmica emitida por uma pequena área do cavaco ou da ponta da ferramenta. Fazendo-se com que esta radiação, através de um sistema de lentes, seja focada em um sensor que possa identificar a qual temperatura deveria estar o corpo com aquela composição para irradiar tal energia. O método pode ser Sandro Cardoso Santos 85 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS empregado também para a medição da temperatura da peça, como nos exemplos mostrados nas Figuras 6.12 a 6.14. Na situação descrita o foco do sensor de radiação infravermelha foi posicionado na superfície primária de usinagem, em posição diametralmente oposta à região de corte, conforme mostrado na Figura 6.5. Figura 6.12 – Temperatura da peça em função da velocidade de corte. Figura 6.13 – Temperatura da peça em função do avanço. Sandro Cardoso Santos 86 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 6.14 – Temperatura da peça em função da profundidade de corte. Na figura 6.12 nota-se que o aumento da velocidade de corte a temperatura média da superfície principal de usinagem decresce e tende a se estabilizar em velocidades de corte mais elevadas. Tal comportamento é explicado pelo fato de o calor gerado na zona de cisalhamento primária ser transmitido para a peça por condução. Como a transferência de calor por condução depende fundamentalmente das propriedades térmicas do material da peça, com o aumento da velocidade de corte a transmissão do calor é menor, pois o tempo para que ela ocorra diminui. De acordo com as figuras 6.13 e 6.14, a temperatura média da superfície primária de usinagem tende a aumentar com o aumento do avanço e da profundidade de corte. O aumento do avanço faz com que a quantidade de material deformada seja maior, o que implica em maior necessidade de energia e consequentemente, maior quantidade de calor gerado, o que promove o aumento da temperatura na peça. O mesmo raciocínio poderia ser adotado para explicar o aumento da temperatura com o aumento da profundidade de corte, só que nesse caso há um aumento da área do plano de cisalhamento primário, logo o calor também tende a se distribuir em uma superfície maior. Como há um aumento simultâneo da quantidade de calor gerado e da superfície em que o calor é distribuído, a relação entre o aumento da profundidade de corte e da temperatura média na superfície primária de usinagem não é direta. A principal explicação para o comportamento do gráfico da Figura 6.14 está relacionada ao aumento da superfície de medição da temperatura, pois o instrumento indica a temperatura média de uma região da peça contida em uma circunferência de diâmetro 2,1 mm. O aumento da profundidade de corte faz com que superfície primária de usinagem ocupe uma região proporcionalmente maior dentro do círculo em que são medidas as temperaturas. Sandro Cardoso Santos 87 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Medição Utilizando Pós Químicos Esta técnica permite visualizar a distribuição de temperaturas em uma seção da ferramenta de corte, por meio da deposição de sais com ponto de fusão conhecidos, como o NaCl, KCl, CdCl, PbCl2, AgCl e KNO3. A ferramenta de corte é dividida ao meio segundo um plano perpendicular ao plano de referência e à aresta principal de corte (Kato et al.). O desenho esquemático da montagem experimental é apresentado na Figura 6.9. Peça Superfície dividida Figura 6.9 – Representação esquemática do método de determinação da distribuição de temperaturas com utilização de sais. A ferramenta é dividida por meio de duas ferramentas semelhantes, que são usinadas por abrasão até atingirem metade de sua largura original. As superfícies obtidas são umedecidas com solução de silicato de sódio com o objetivo de facilitar a adesão do sal, que é distribuído sobre a superfície. As duas partes são unidas e tem início a etapa de usinagem, que tem duração suficiente para que o sistema entre em regime. As partes da ferramenta são separadas e observam-se duas regiões uma em que o sal passou pelo processo de fusão e outra em que ele permaneceu no estado sólido. O limite entre essas duas regiões descreve uma isoterma em que a temperatura corresponde ao ponto de fusão do sal. A repetição do procedimento com a utilização de sais de diferentes naturezas permite determinar uma série de isotermas que correspondem à distribuição da temperatura na superfície da ferramenta. Método Utilizando a Deposição de Filmes PVD Este método é possui muitas semelhanças com método que utiliza a deposição de sais, descrito na seção anterior. A diferença e que em vez de sais são depositados filmes de Sandro Cardoso Santos 88 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS materiais puros pelo processo de deposição física (PVD). Esse procedimento torna a medição mais complexa, porém os filmes possuem topografia mais suave que os sais, o que faz com que a área real de contato entre as metades da ferramenta seja maior e, com isso, exercer menor influência na distribuição de temperatura. A fronteira entre as regiões de filme fundido e não fundido é apresentada na Figura 7.10. Zona de filme fundido Zona de filme não fundido Figura 7.10 Identificação das zonas de filme fundido e não fundido em ferramenta utilizada no método dos filmes PVD para medição de temperatura (Kato et al., 1996). Medição da Temperatura por meio da Técnica de Métodos Inversos A técnica tem por objetivo estimar a temperatura em diferentes pontos da ferramenta, a partir da temperatura medida com a utilização de termopares dispostos em posições conhecidas da ferramenta (Melo, 1997). Sandro Cardoso Santos 89 Wisley Falco Sales CAPÍTULO VII MATERIAIS PARA FERRAMENTAS DE CORTE A seleção do material de ferramenta a ser empregado é feita com base em uma série de fatores. Abaixo são apresentados os critérios que Shaw (1984), Trent e Wright (1999), Diniz et al. (1999), Marcondes (1999) e Machado e Da Silva (1999) consideram mais relevantes: Dureza do material a ser usinado; Tipo de cavaco gerado pelo material a ser usinado; Processo de usinagem, ou seja, corte interrompido (fresamento), corte contínuo (torneamento), lubrificação do corte, tempo de ciclo, acabamento ou desbaste; Condições da máquina em termos de rigidez (sem folgas/vibrações) , potência, controles durante o processo (in process), sistema de refrigeração das ferramentas; Forma e dimensão da ferramenta; O custo do material da ferramenta é fundamental para a escolha do mesmo, ou seja, sempre se buscará um material alternativo de menor custo; Parâmetros de usinagens como velocidade e profundidade de corte e avanço; Características finais do produto, tais como: qualidade superficial e dimensional requerida. Abaixo, são listadas as principais propriedades que o material da ferramenta deve possuir, porém em função da aplicação uma ou mais propriedades devem se destacar em relação às outras. • Alta dureza (principalmente à quente); • Tenacidade (suficiente para evitar falha por ruptura); • Alta resistência ao desgaste; Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Alta resistência a compressão e ao cisalhamento; • Boas propriedades mecânicas e térmicas, isto é muito importante principalmente para a dureza a quente do material; • Boa condutividade térmica; • Baixo índice de expansão volumétrica; • Alta resistência ao choque térmico; • Alta resistência ao impacto; • Ser inerte quimicamente. Machado e Da Silva (1999), apresentam os materiais para ferramentas de corte existentes hoje no mercado mundial em ordem cronológica, conforme esquematizado na Figura 7.1. À medida que se desce na lista, ganha-se em dureza (ou resistência ao Aumento da tenacidade Aço CarbonoComum Com elementos de ligas (V,Cr) Aço Rápido Aço Semi-Rápido (Baixo W) Aço Rápido (com e sem revestimento) Aço Super -Rápido (elevado teor de V) Ligas Fundidas Metal Duro (com e sem revestimentos) Classes : P, M ,K, N, H, S Cermets (com ou sem revestimento) Cerâmicas (com ou sem revestimento) Aumento da tenacidade Aumento de dureza e resistência ao desgaste desgaste) e perde-se em tenacidade, e vice-versa. Ultraduros: CBN-PCBN Diamante Sintético (PCD) Diamante Natural Figura 7.1 – Quadro demonstrativo dos materiais para ferramentas. Sandro Cardoso Santos 91 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS O grande número de ferramentas existentes no mercado torna difícil a escolha e aumenta a complexidade do processo de seleção. O projetista de ferramentas deve considerar todas as propriedades já listadas, mas ele próprio deve destacar as propriedades mais importantes de acordo com o tipo de aplicação. O material perfeito seria aquele que tivesse a dureza do diamante natural, a tenacidade do aço-rápido e a inércia química da alumina (Al2O3). 7.1 - Aços Carbono e Aços Liga (Ferraresi, 1977 e Machado e Da Silva, 1999) Na primeira parte do século passado os aços comuns ao carbono e, mais tarde os aços de baixa e média liga (que foram introduzidas por Müshet em 1868), eram os únicos materiais de ferramentas disponíveis. Com o aparecimento de materiais mais resistentes, logo foram substituídos, embora ainda hoje sejam utilizados em aplicações de baixíssimas velocidade de corte, no ajuste de peças. O maior problema é que eles perdem a dureza quanto aquecidos a temperaturas superiores à de revestimento (de 300o a 600o C). 7.2 - Aços-Rápidos (Ferraresi, 1977 e Machado e Da Silva, 1999) O primeiro grande impulso causado nos materiais de ferramentas aconteceu na virada do último século, quando Taylor e White desenvolveram o primeiro aço-rápido, contendo 0,67% C, 18,91% W, 5,47% Cr, 0,11% Mn, 0,29% V e apropriado tratamento térmico. Seu surgimento revolucionou a prática de usinagem naquela época, dando um grande aumento na produtividade. Exatamente por isso, estes aços levaram este nome. Hoje, comparando com os materiais das ferramentas da chamada terceira geração, eles poderiam ser chamados de “aços-devagar” ou “aços-molengões”. Na época, os aços carbono eram aplicados na usinagem de aços mais “moles” e de outros não ferrosos, como o cobre e suas ligas, à velocidades de corte não superiores a 5 m/min, enquanto os novos materiais aumentaram essas velocidades para valores até 25 m/min. Os HSS são aços de teores de carbono entre ~0,7 a 1,2 %C e altamente ligados. Os principais elementos químicos, formadores de carbonetos são: W, Mo, V e Cr. Além destes, o Co também é adicionado frequentemente. Os carbonetos formados são extremamente duros o que confere ao aço elevadas resistências ao escoamento e à tração e além disso, a desejada dureza a quente. Comercialmente encontra-se aços classificados segundo a sua formulação básica: ao W, ao W-Co, ao Mo, ao Mo-Co e ao W-Mo-Co. Os aços comercialmente disponíveis com teores de Co entre 8 e 12% são, para efeito de marketing Sandro Cardoso Santos 92 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS denominados como aços de elevada dureza a quente, mas efeito similar pode ser obtido com a adição de W e/ou V. Com o passar dos anos, as propriedades destes materiais foram melhoradas, chegando-se à perfeita combinação dos elementos de liga ao domínio do processo de tratamento térmico. Normalmente esses materiais são especificados, pelas iniciais da literatura inglesa por HSS (High Speed Steel). A prática vem contrariando aqueles que acham que os aços-rápidos estão ultrapassados. As qualidades deste grupo de materiais são tão grandes que mesmo hoje, já há quase um século depois de descobertos, eles ainda sobrevivem no meio de vários outros grupos com fantásticas propriedades. As aplicações dos aço-rápidos são principalmente em brocas, fresas, cossinetes, brochas, matrizes e até ferramentas de barras para aplicações em torneamentos de peças de diâmetros reduzidos, cuja velocidade de corte conseguida é inferior à velocidade econômica de corte dos materiais de ferramentas mais resistentes. Encontra-se no mercado um variado grupo de aço-rápidos, com cada um tendo sua aplicação ótima. Dois grandes avanços foram conseguidos nos anos 70 e merecem destaque: Ferramentas de Aço-Rápido Revestidas São camadas de TiN, TiC, HfN ou Al2O3 aplicadas nas ferramentas pelos processos CVD - Chemical Vapour Deposition e PVD - Physical Vapour Deposition. O processo CVD exige que as ferramentas sejam aquecidas a temperaturas elevadas (próximas a 1000o C), o que provoca alterações metalúrgicas nos aços rápidos, apesar de que se tem obtido algum sucesso com TiN a temperaturas mais baixas. Por outro lado o processo PVD faz a deposição da camada a temperaturas mais baixas (500o a 600o C e recentemente até inferiores a 2000C), o que facilita a sua aplicação. Recentemente, surgiram os recobrimentos de TiNAl, que vem apresentando bons resultados em brocas e fresas caracóis. A grande vedete dos revestimentos surgiu comercialmente no início desta década, que é a aplicação de multicamadas, micro ou nanométricas, principalmente de TiC e TiN, intercaladas e sobrepostas. Esse novo conceito, em muitos casos mostrou se eficaz e noutros inúmeros, o desempenho da ferramenta deixou a desejar, ou seja, esse é um conceito que promete, mas acredita-se que a tecnologia de aplicação ainda carece de melhor desenvolvimento. Sandro Cardoso Santos 93 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Ferramentas de Aço-Rápido Fabricadas pela Metalurgia do Pó (“Sinterizadas”) São fabricadas pela metalurgia do pó, que tem a vantagem de possibilitar partículas de carbonetos menores e mais dispersas na matriz, além de facultar a incorporação de um número maior de elementos de liga (carbonetos) que o processo de fabricação convencional. Hoje são encontradas no mercado fresas, brocas e outras ferramentas fabricadas por este processo e são normalmente denominadas por HSS-PM (High Speed Steel – Powder Metallurgy). Os aços denominados como Semi-rápidos são os HSS com menores teores de tungstênio. Isto ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial em que temeu-se a escassez desse elemento químico e o aço resultante apresentava propriedades mecânicas inferiores. Já os aços Super Rápidos são os HSS com elevados teores de vanádio. Com isto, obteve-se produtos com propriedades superiores o que o habilitou a usinar em condições de corte maiores. 7.3 - Ligas Fundidas (Machado e Da Silva, 1999) Elas formam um outro grupo de materiais de ferramentas de corte e surgiram mais ou menos na mesma época dos aços-rápidos, mas tiveram grandes aplicações somente mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial. São ferramentas a base de Co, contendo W e Cr em solução sólida, e às vezes alguns carbonetos. Estas ligas são mais duras do que os aços-rápidos e mantém esta dureza a temperaturas mais elevadas, e em decorrência disso as velocidades de corte são maiores (em torno de 25%). Na realidade, a não ser em aplicações muito especiais, as ligas fundidas estão caindo em desuso, tanto pela escassez de matéria-prima (e aumento do preço) como também por haver no mercado materiais que se comparam a elas e até as superam a custos menores. 7.4 - Ferramentas de Metal Duro O Metal Duro apareceu na década de 20, na Alemanha, quando Schroter conseguiu produzir em laboratório o WC em pó pela primeira vez. A mistura deste pó principalmente com o cobalto, também em pó, trouxe ao mercado um dos mais fantásticos grupos de materiais de ferramentas de corte “os Metais Duros”. Quando os alemães perceberam as excelentes propriedades de dureza e resistência ao desgaste desse material, eles logo o batizaram como “Widia” de (Wie diamond do alemão = como o diamante) e esse foi o Sandro Cardoso Santos 94 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS segundo marco na evolução dos materiais para ferramentas de corte, após o surgimento do aço rápido. O grande sucesso do metal duro é o fato deles possuírem a combinação de resistência ao desgaste, resistência mecânica e tenacidade em altos níveis. Os metais duros são fabricados pela metalurgia do pó e utiliza partículas duras de carbonetos de metais refratários finamente divididas, então são sinterizado com um ou mais metais do grupo do ferro (ferro, níquel ou cobalto) formando assim, um corpo de alta dureza e resistência a compressão. O metal aglomerante é na maioria das vezes o Cobalto. Uma característica muito importante no metal duro é o tamanho de grão das partículas duras. Partículas grandes produzem maior tenacidade, enquanto partículas pequenas auxiliam na obtenção de um metal duro mais duro e resistente. A primeira ferramenta de metal duro, desenvolvida na Alemanha, continha apenas WC+Co e mostrou-se prodigioso na usinagem de Ferros Fundidos Cinzentos, mas demonstrou baixa resistência a craterização quando usinando aços (Machado e Da Silva, 1999). Para superar este problema adicionou-se Tic, TaC e/ou NbC aos WC + Co reduzindo conseqüentemente os problemas de craterização na usinagem de aços. As razões para isso foram: • O carboneto adicionado (titânio, tântalo e/ou nióbio) tem maiores durezas que o WC e portanto, apresentam maiores resistências ao desgaste • A solubilidade dos carbonetos adicionados no ferro é muito menor que o WC, isto inibe a difusão, que é um mecanismo de desgaste comum a altas temperaturas. • A estabilidade dos carbonetos adicionados é maior que os WC. Isto implica em maiores dificuldades de dissolução e difusão desses elementos. A fabricação do metal duro ocorre por meio da metalurgia do pó e pode ser resumida da seguinte forma: O tungstênio na sua forma original encontrada na natureza é transformado após uma série de reações químicas em tungstênio puro, este é então misturado em carbono puro e levado a um forno a altas temperaturas (1375 º C a 1650 ºC) para formar o WC (Marcondes, 1990). O tamanho de grão de carboneto de tungstênio obtido é da ordem de 0,4 a 7 µm (Jack, 1987). Os carbonetos são então moídos e secados com spray, esta moagem pode ocorrer depois da mistura com o cobalto, na proporção ideal de cada classe, ou opcionalmente pode-se misturar o cobalto (na forma de pó finos) após a moagem. A mistura é comprimida a frio em matrizes, geralmente usando uma adição de Sandro Cardoso Santos 95 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS cera lubrificante para facilitar esta etapa. Esta cera será extraída do produto durante o tratamento de sinterização. Após a prensagem, o produto já ganha formato final desejado, apresentando uma porosidade da ordem de 50 % em volume, e pode ser manipulado. A sinterização segue imediatamente esta etapa. É realizada a vácuo, em temperaturas da ordem de 1500 º C, com a porosidade sendo reduzida para menos de 0,01 % (Jack, 1987). Esta baixa porosidade é possível de ser obtida devido a fase líquida do metal ligante presente. Após a sinterização o produto sofre uma redução de tamanho, que pode chegar da ordem de 18 %. Antes de ser comercializado, normalmente, o produto é retificado, para formatar as arestas. Observa-se que quando se trata de produtos da classe P ou M , há também a adição de TiC TaC e/ou NbC. A fabricação do metal duro está evoluindo e no início desta década surgiram comercialmente os pós micrométricos, que proporcionaram a fabricação do metal duro com microgrãos. Essa ferramenta ganhou em dureza, mas sem o comprometimento da tenacidade, com ligeira queda na condutividade térmica e com isso, a resistência da ferramenta foi melhorada e sem dúvida, os parâmetros de corte utilizados no processo puderam ser aumentados. A norma ISO classificou os Metais Duros em classe P, M, K, N, H e S, de acordo com o material da peça a ser usinado: • Classe P: usinagem de aços; • Classe M: usinagem de aços inoxidáveis • Classe K: usinagem de ferro fundido; • Classe N: usinagem de alumínio; • Classe H: usinagem de aços endurecidos; • Classe S: usinagem de superligas; Dentro destas classes temos outra divisão por números (ver Tabela 7.1). Classe P Essa classe é mais conhecida como classe dos aços ou cavaco longos as ferramentas de Metal Duro desta classe possuem em sua matriz elevado teores de Carboneto de Titânio (TiC), Carboneto de Tântalo (TaC) e/ou Carboneto de Nióbio (NbC). Estes carbonetos Sandro Cardoso Santos 96 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS conferem ao Metal Duro elevada resistência ao desgaste e elevada dureza, isto permite a usinagem de materiais que produzem cavacos mais longos os quais formam uma área de contato (maior atrito)bem maior com a superfície de saída da ferramenta. Classe M É a classe intermediaria na matriz do metal duro existe o Carboneto de Titânio (TiC), Carboneto de Tântalo (TaC) e/ou Carboneto de Nióbio (NbC) porem em teores menores do que aqueles utilizados na classe P. normalmente é utilizada na usinagem de aços inoxidáveis. Tabela 7.1 - Classificação dos metais duros. Designação Dureza e Resistência Tenacidade P 01 P 10 P 20 P 30 P 40 P 50 M 10 M 20 M 30 M 40 K 01 K 05 K 10 K 20 K 30 K 40 Classe K É também conhecida por classe dos ferros fundidos mas também é utilizada na usinagem dos aços temperados ,não ferrosos,plásticos e madeiras. Nesta classe o Metal Duro é composto por WC+Co ,ou seja, carbonetos de tungstênio aglomerado pelo cobalto, Sandro Cardoso Santos 97 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS esta classe não é muito resistente ao desgaste de cratera, portanto são usadas na usinagem de materiais frágeis que geram cavacos curtos os quais provocam menor atrito entre o cavaco e a região de saída da ferramenta. As classes com maior teor de Cobalto como é a classe K, são mais empregadas nas condições de usinagem de acabamento ou cortes interrompidos, pois estas criam tensões mais elevadas na ferramenta exigindo assim maior tenacidade. Ferramenta de Metal Duro com Revestimento O revestimento de ferramentas de metal duro pode garantir uma performance bem superior à ferramenta sem revestimento na usinagem de materiais ferrosos. Atualmente 80% das ferramentas de metal duro (Figura 7.2) utilizadas na industria possuem revestimento. Normalmente o revestimento provoca uma coloração dourada na ferramenta (se o revestimento for à base de TiN) enquanto as ferramentas sem recobrimento normalmente se apresentam na cor cinza escuro. O revestimento pode ser uma única camada de TiC, ou, mais comum, ser de triplo revestimento de TiC, TiCN e TiN e TiC, AL2O3 e TiN, mas existe registro (Lindstron e Johannesson, 1976 e Reiter e Kolaska, 1986, citado por Quinto et alli, 1988) de ferramentas com até 12 camadas de diferentes revestimentos. Os fabricantes explicam que cada camada tem a sua função específica e a associação de camadas permite oferecer um produto com todas as vantagens possíveis de se obter com a técnica. Figura 7.2 - Ferramentas de Metal Duro Revestidas. O TiC é um revestimento que é muito utilizado como a primeira camada, pois este garante uma coesão muito boa com o substrato. Além disso, o TiC é um dos revestimentos mais duros atualmente utilizados, sua dureza é de HV3000, o que garante alta resistência ao desgaste. Já a alumina (Al2O3) tem várias vantagens, as principais são a inércia química, a dureza e portanto, resistência ao desgaste, e um fato ocorrente é a redução de sua Sandro Cardoso Santos 98 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS condutividade térmica com o aumento da temperatura. Isto garante uma barreira térmica interessante para a superfície da ferramenta. O TiN se apresenta, normalmente como a camada externa, por proporcionar baixos coeficientes de atrito entre a ferramenta e o cavaco, isto na usinagem dos metais ferrosos. Este material garante menores comprimentos de contato cavaco-ferramenta devido a menor tendência de adesão dos ferrosos neste material. No caso da usinagem dos não ferrosos, como o Al e Cu e suas ligas, fenômeno inverso ocorre, devido à elevada afinidade química do Ti com esses metais e neste caso, predomina-se a adesão e a difusão, o que reduz a vida das ferramentas. Um outro revestimento que vem sendo usado ultimamente é o TiNAl ou (TiAl)N que é um nitreto à base de Ti e Al. Este revestimento tem se mostrado excelente para a usinagem de ferros fundidos. A espessura total das camadas revestidas podem variar de 4 a 12 µm e camadas muito espessas podem fragilizar a aresta. Existem hoje no mercado ferramentas de metal duro revestidas com diamante policristalino (PCD) obtidas pelo processo CVD - Deposição Química de Vapor (Clark e Sem, 1998). Neste caso, com camada única, com espessuras maiores que as normais, mas inferiores a 30 µm, elas são aplicadas em ferramentas positivas para desbaste de materiais não ferrosos, como o alumínio, polímeros e compósitos. 7.4 – Ferramentas de Cermets O Cermet é um produto com duas fases: metálica e cerâmica e por esta razão ele situa-se, na classificação entre o Metal Duro e as Cerâmicas. A sua formulação básica é constituída por TiC, TiN e Ni como aglomerante. Devido a elevada quantidade de Ti na sua formulação, que apresenta grande afinidade química com a maioria dos metais não ferrosos, este material tem o seu campo de aplicação limitado à usinagem dos ferrosos. Outros fatores importantes são as suas propriedades térmicas, indesejadas na usinagem: baixa condutividade térmica e grande coeficiente de expansão volumétrica. Com isto, as elevadas temperaturas geradas na interface cavacoferramenta promovem grande expansão do material na região termicamente afetada. Os ciclos inerentes ao processo, mesmo no corte contínuo, em que a ferramenta inicia o corte e depois de determinado período ela sai, ocorre o fenômeno de “aquece-esfria” e conseqüentemente “expande-retrai”, promovendo a falha da ferramenta, normalmente por trincas originadas por fadiga de origem térmica. Isto faz com que ele seja utilizado em Sandro Cardoso Santos 99 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS operações de acabamento e superacabamento de ferrosos, principalmente dos ferros fundidos. Ou seja, nas condições em que a região aquecida da ferramenta é pequena, devido à pequena área de contato cavaco ferramenta (baixos “f” e “ap”). Recentemente estas ferramentas estão sendo recobertas com finas camadas de TiN e em testes preliminares tem apresentado bons desempenhos em relação às sem revestimentos. 7.5 - Ferramentas de Cerâmica Os materiais de ferramentas de cerâmicas convencionais podem ser divididos entre óxidos e nonóxidos. O primeiro grupo compreende a alumina (inclusive alumina reforçada com zircônio), alumina mista e alumina reforçada com SiC (Whisker). A principal cerâmica monóxida para ferramenta de corte é baseada em nitreto de silício, e suas propriedades variam de acordo com o processo de manufatura do mercado. Composição, Propriedades e Fabricação A comparação entre metal duro e alguns materiais cerâmicos em relação ao resistência mecânica tenacidade (ao corte interrompido), choque térmico (comportamento no corte com refrigerante), afinidade química e dureza a quente (indicada por resistência ao desgaste), pode-se dizer que enquanto os metais duros se mostram superior em relação aos choques térmicos e mecânicos, as cerâmicas se mostram superiores quanto a afinidade química e resistência ao desgaste (Abrão, 1995). As cerâmicas de um modo geral, possuem algumas propriedades melhores e outras piores que os cermets e os metais duros. Na Figura 7.3 mostra-se esquematicamente a comparação das principais propriedades destas ferramentas de corte. O cermet sempre ocupa uma posição intermediária entre o metal duro e a cerâmica, considerando qualquer uma destas propriedades (Machado e da Silva, 1999). Sandro Cardoso Santos 100 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 7.3 – Algumas Propriedades do Metal Duro, Cermet e Cerâmica (Smith,1989). Cerâmica à Base de Al2O3 Podem ser puras ou com adições. As cerâmicas puras são ferramentas constituídas basicamente de finos grãos de Al2O3 sinterizados. É comum adicionar MgO para inibir o crescimento do grão. Outros constituintes, tais como oxido de cromo, titânio e níquel são as vezes adicionados para aumentar a resistência mecânica. Estas ferramentas possuem um alto grau de dureza, resistência ao desgaste e excelente estabilidade química, mas deixam a desejar na tenacidade. As primeiras ferramentas com adições apareceram nos anos 70, com altos percentuais (podendo chegar a 30%) de ZrO2 e ou TiC principalmente, podendo ainda conter TiN, TiO2 e WC. Estas adições conferem a matriz de Al2O3 um maior grau de tenacidade para suportar maiores impacto e choques térmicos, inerente a certos processos de corte. A adição de TiC (cerâmica mista ou preta), além de melhorar ligeiramente a tenacidade e a condutividade térmica, aumenta consideravelmente a dureza e a resistência da ferramenta (Machado e Da Silva, 1999) Outra introdução no mercado nos anos 80, que teve grande receptividade, é a ferramenta de cerâmica, também a base de Al2O3, reforçada com SiC (Whiskers). Estes carbonetos são adicionados em até 20% na alumina, na forma de longos cilindros, de 0,5 a Sandro Cardoso Santos 101 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 6 µm de diâmetro e 10 a 80 µm de comprimento. A ferramenta resultante apresenta exelente tenacidade, inclusive superior às demais cerâmicos (Smith, 1986). Cerâmicas a Base de Si3N4 Hepworth (1991), relatou que existem duas características principais para distinguir nitretos (e carbonetos) dos óxidos cerâmicos : primeiro os materiais crus requerem extensos processos termoquímicos, assim, são mais caros : segundo eles são materiais covalentes (não são como óxidos, ao qual são iônicos), seus comportamentos se caracterizam pela orientação, ao qual confere alta dureza, resistência e tenacidade a temperaturas elevadas. Cerâmicas a base de nitretos de silício, são usadas como ferramentas de corte devido ao baixo coeficiente de expansão térmica, elas tem excelentes resistência ao choque térmico, no entanto não e tão fácil sinterizar devido sua alta densidade. Este grupo apareceu no mercado nos anos 80. Tratam-se de cristais de Si3N4 com uma fase intergranular de SiO2 (cristais de vidro) que são sinterizados na presença de Al2O3, Y2O3, MgO e outros. Com esses materiais tem-se conseguido excelentes resultados nas usinagens das ligas de alumínio e ferro fundidos, entretanto devida a grande interações químicas com o ferro e elevadas temperaturas, este grupo de material não tem tido sucesso na usinagem de aços (Buljan e Sarin,1985). A condição de Al e O a aresta da ferramenta reduziu as interações quimicas com o Fe, o que possibilitou as suas aplicações aos ferrosos. A nova ferramenta gerada é comercializada com o nome de SIALON, originada das letras originais dos principais elementos químicos presentes na liga (Si, Al, O e N). As cerâmicas à base de nitreto de silício, possuem boa resistência ao desgaste, com tenacidade superior as cerâmicas de base de Al2O3. Isto faz com que a aplicação destes materiais chegue ao fresamento, o que há pouco tempo atrás (10 anos) era inadmissível para as cerâmicas. Aplicações e Dados Técnicos Uma boa faixa de materiais e componentes podem ser usinados com ferramentas de cerâmica. A Tabela 7.2 sintetiza as aplicações típicas seguindo da descrição das aplicações para cada tipo particular de cerâmica. As aplicações típicas de ferramentas de alumina/zircônio, inclui o torneamento de ferros fundidos cinzento, nodulares e maleáveis (discos e tambores de freios, e cilindros) com velocidades de corte acima de 900 m/min, onde a grande solução e a resistência ao Sandro Cardoso Santos 102 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS desgaste da dupla Al2O3 e ZrO2. Ligas de carbono e aços ferramentas com dureza acima de 300HB (eixos e mandris para aplicação automotivas), podem também ser usinadas com velocidades acima de 1080 m/min e faixa de avanços em torno de 0.25mm/rev. Desgastes das ferramentas com base de alumina foi estudado por Tönshoff e Bartsch, (1987), quando usinando aço Ck45N (equivalente AISI 1040), e por Kim e Durham (1991) quando usinado aço AISI 1045 e AISI 4340. Os resultados indicaram que a natureza do desgaste de flanco mudava consideravelmente com a composição química do aço, ao qual em muitos casos apresentaram a formação de uma camada de óxido na ferramenta. Estudos indicam que a cerâmica mista, com adição de TiN e TiC, são empregadas para melhorar a resistência ao choque térmico com o aumento da condutibilidade térmica, que dissipa melhor o calor gerado na interface, reduzindo os gradientes térmicos e consequentemente a tensão termicamente induzida. Isto a habilita para o uso em altas velocidades de corte, comparados com as ferramentas de cerâmica branca, com menor risco de fraturas. A dureza a quente (em 100° C) é superior a da cerâmica pura, 800 contra 650 HV, conforme Grearson e Jack (1984). Aplicações típicas, incluem torneamento de ferro fundido abaixo de 35 HRC e acabamento de aços endurecidos de 35 a 65 HRC, e o fresamento de ferro fundido cinzento em componentes de máquinas e pequenas peças automotivas. Sandro Cardoso Santos 103 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Tabela 7.2 – Aplicações típicas de ferramentas de cerâmica convencional (Kennametal, 1985) Material da Dureza Operação Material Peça Velocidade Avanço Profundi- (mm/rev) dade de de Corte (HBN) da ferramenta (m/min) Corte (mm) Aço 125-225 Acabamento CC620 550 750 0.4 0.1-1.0 Torneamento CC650 Desbaste K090 65-145 0.08-0.35 0.08-1.5 Acabamento CC620 800 0.1 0.1-1.0 Torneamento CC650 460 0.4 Fresamento SH1 200-700 0.008-0.15 Carbono 0.1 (0.20.5%C) Aço 560-740 Ferramenta Ferro Torneamento 110-145 Fundido Maleável Ferro 250-280 0.1-0.5 Fundido Faceamento mm/z Cinzento Ligas a 200-450 Base de Desbaste Kyon Torneamento 2000 90-215 0.1-0.24 1.5-6.3 Níquel A aplicação de ferramentas de nitreto de silício, foi demostrada por Tonshoff e Bartsch (1987) e Buljan e Wayne (1985). Eles mostraram que as ferramentas de nitreto de silício podem ser empregadas com sucesso para usinagem com corte interrompido de aços AISI 1045 (167HB). Isto porque estas ferramentas não obtém a mesma faixa de temperatura do que no corte continuo, minimizando no entanto o comportamento do desgaste, principalmente provocado por difusão. Assim como no caso do metal duro, as cerâmicas estão passando por uma grande evolução tecnológica na sua fabricação. Desde 2002, estão em testes ferramentas Sandro Cardoso Santos 104 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS fabricadas a partir de grãos da ordem de nanômetros, e essas ferramentas foram então denominadas por “cerâmicas com nanogrãos”. Acredita-se que em pouco tempo esses materiais já estarão totalmente difundidos em utilização pelo mundo afora. 7.6 - Materiais de Ferramentas Ultra-Duros São denominados materiais ultra-duros ou super duros os materiais com dureza superior a 3000 HV. Nesta categoria estão enquadrados o PCBN (Nitreto Cúbico de Boro Policristalino) e o PCD (Diamante Sintético Policristalino). O surgimento destes materiais para aplicações na usinagem é considerado o terceiro marco evolutivo no desenvolvimento das ferramentas de corte. O Nitreto Cúbico de Boro Policristalino – PCBN O Nitreto Cubico de Boro é o próximo material mais duro depois do diamante. Ele foi sintetizado pela primeira fez com sucesso em 1957 pela General Eletric Co. USA, seguindo o desenvolvimento do diamante sintetizado. A fabricação do PCBN na combinação do boro e nitrogênio formando a seguinte reação. BCl3 + NH3 BN + 3HCl Como o carbono, o nitreto de boro existe em três formas: hexagonal na forma de grafite e na forma cúbica (CBN) também chamada hexagonal duro (wurtzite). Na Figura 7.4, mostra-se as três possibilidades de arranjo dos átomos do nitreto de boro. Nitrogênio Boro Figura 7.4 – Arranjo dos átomos do nitreto de boro (Heath,1986). O pó de CBN é fabricado submetendo o Nitreto de Boro Hexagonal (HBN) à extremas pressões e temperaturas. O pó obtido neste método e geralmente muito fino. A estrutura hexagonal pode ser transformada em Wurtzite (WBN). Sandro Cardoso Santos 105 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Portanto, como no diamante sinterizado, a adição de solventes catalisadores reduz a faixa de temperatura e pressões necessárias para a transformação de HBN para PCBN Valores típicos estão em torno de 6000 MPa e 1500 °C. Tabuchi (1983), descreveu a tecnologia usada para obtenção de altas pressões e temperaturas para a fabricação do CBN mostrado na Figura 7.5. Figura 7.5 – Dispositivo para obtenção de altas pressões e temperatura para transformação de HBN para CBN (De Vries, 1972) Um segundo dispositivo que também é usado, chamado de presurizador cúbico é mostrado na Figura 7.6. O pressurizador cúbico emprega seis punções para aplicar a pressão simultaneamente, em todas as seis faces no cubo, do qual tem um tubo aquecido e encapsula o HBN para a sinterização. O PCBN que é comercializado no mercado pela GE, leva a marca registrada de Borazon e é principalmente usado para produzir rebolos de Borazon. O PCBN produzido pela De Beers, é chamado de Amber Boron Nitride (Amborite). Pontas únicas de Policristalinos de Nitreto de Boro Cúbico (PCBN), são produzidos em blanks da mesma forma dos PCBN, de modo a formar uma massa densa de policristalino Sandro Cardoso Santos 106 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 7.6 – Presurizador cúbico (Abrão,1995). O Amborite é formado por uma única camada solida de nitreto de boro cubico policristalino. É um inserto intercambiável, pronto para utilização, ao contrário do PCD que requer processos de brasagem e lapidação. O Amborite possui uma alta condutibilidade térmica, transferindo rápida e intensamente, o calor gerado na usinagem para o porta-ferramenta. O Amborite é capaz de usinar materiais de alta dureza, a altas velocidades de corte e com grande economia. Constituição A constituição clássica da ferramenta de CBN ou PCBN é: 1) Partículas de CBN; 2) Partículas de material de segunda fase ou aglomerante; 3) Substrato. Podem ser utilizadas partículas de CBN de diversos tamanhos variando para cada fornecedor, combinado, através da sinterização, a uma segunda gama de materiais denominados aglomerantes ou materiais de segunda fase que também podem ser encontrados em diversos tamanhos de grãos. Estas ferramentas podem ser encontradas apenas com uma camada de 0,5 a 1,0 mm, que são brasadas geralmente num substrato de Metal Duro (WC + Co), ou então, muito raramente como ferramentas totalmente sólidas. Os materiais da segunda fase ou aglomerantes podem ser: Metal ou Cerâmico Sandro Cardoso Santos 107 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS A percentagem de CBN e o tamanho do grão é que irão caracterizar os tipos de ferramentas de CBN, conforme apresentados nas Figuras 7.7 a 7.9. Figura 7.7 – Ferramenta de PCBN integral (De Beers, 1999). Figura 7.8 – Plaqueta de PCBN brasada sobre substrado de Metal Duro (De Beers, 1999). Sandro Cardoso Santos 108 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 7.9 – Plaqueta de PCBN brasada sobre substrado de Metal Duro (De Beers, 1999). Propriedades Dentre as propriedades do CBN, algumas são muito vantajosas no que diz respeito à sua utilização em ferramentas de usinagem, são elas: Dureza: Possui altíssima dureza, somente superada pelo diamante, sendo quase duas vezes a dureza da alumina. Tenacidade: Sua tenacidade é similar ao material cerâmico baseado em nitretos e cerca de duas vezes a da alumina. Estabilidade Termoquímica: O CBN é quimicamente mais estável que o diamante, podendo, portanto, usinar ligas ferrosas sem o problema de grande desgaste por difusão. O CBN é estável até temperaturas da ordem de 1200°C. Sandro Cardoso Santos 109 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS TIPOS Quanto à Fixação e às Formas Nas Figuras 7.10 e 7.11 mostram-se, respectivamente, os principais tipos de fixação disponíveis e formas comercialmente disponíveis. Figura 7.10 – Tipos de fixação. Figura 7.11 – Formas de ferramentas disponíveis (De Beers, 1999). Quanto à Aplicação Existem diversos tipos de PCBN no mercado, cada fabricante usa diferentes materiais e quantidades de aglomerantes e diferentes tamanhos e distribuição de partículas. Mas, de Sandro Cardoso Santos 110 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS uma maneira geral, pode-se dividir os PCBN’s em duas categorias, segundo suas aplicações: 1) PCBN para usinagem em desbaste (ap entre 0,5 e 8,0mm) 2) PCBN para usinagem em acabamento (ap menor que 0,5mm) PCBN para Usinagem em Desbaste Os PCBN’s para desbaste possuem maior concentração de Nitreto Cúbico de Boro (90% em volume) o que aumenta a ligação cristal com cristal e faz sua tenacidade aumentar. Além disto, devido ao alto teor de CBN, estes materiais são os que apresentam maior dureza dentre os PCBN. Dada estas propriedades, estes PCBNs são muito eficientes quando o mecanismo predominante de desgaste é a abrasão e/ou onde estão presentes forças de corte muito altas ou corte interrompido. PCBN para Usinagem em Acabamento Os tipos de PCBN’s anteriores não se comportam tão bem quando se necessita de algumas características químicas e térmicas. Por outro lado, ferramentas cerâmicas não possuem tamanha tenacidade e dureza, mas tem resistências química e térmica excelentes. Os PCBN’s próprios para acabamento são aqueles onde uma fase cerâmica é adicionada, de tal maneira que as ferramentas resultantes possuem menor tenacidade e dureza, mas melhor estabilidade química e térmica que os PCBN’s para desbaste, combinando as propriedades das duas fases presentes (CBN e cerâmica). Em operações de acabamento os cavacos produzidos são pequenos, devido aos pequenos avanços e profundidades de usinagem. A pequena massa de cavaco gerada não é suficiente para levar embora todo o calor gerado pelo corte e, por isso, a ferramenta atinge altas temperaturas, o que faz com que propriedades como estabilidade térmica e química (para impedir a difusão que é incentivada pela alta temperatura) sejam imprescindíveis. Embora menores, a tenacidade e dureza ainda são suficientes para manter a integridade da aresta de corte, tornando possível a obtenção de tolerâncias apertadas e bom acabamento superficial ao longo da vida da ferramenta. Aplicações Aços Temperados; Sandro Cardoso Santos 111 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Ferro fundido cinzento; Ferro fundido branco; Sinterizados; Ligas para recobrimento de alta resistência; Superligas. Advertência Em aços moles, que formam cavacos longos, o PCBN não se comporta bem devido à excessiva craterização, mesmo em condições difíceis (corte interrompido, por exemplo). Em geral, as aplicações onde o PCBN é utilizado são aquelas onde o diamante Policristalino não pode ser usado e o metal duro não possui dureza suficiente para poder realizar a tarefa, ou quando possui, a velocidade de corte que deve ser usada é muito menor que a que pode ser usada com PCBN. O PCBN compete então com o processo de retificação (substituição da retificação por torneamento, por exemplo) e, nos processos de fresamento, torneamento e mandrilamento, com as ferramentas de material cerâmico. A totalidade do mercado mundial para operações de acabamento com ferramentas de PCBN, foi estimado em £60 milhões Esterlinas em 1994, ao qual 50% envolve a usinagem de aços duros, (Kohno, 1994). O primeiro blanck de ferramenta de PCBN foi produzido pela GE, nos meados de 1970, com a marca de BZN Compact™ e este produto é ainda disponível no mercado com o nome de BZN-6000 ™, produzida sobre uma placa de metal duro para dar maior tenacidade, com uma camada de 0,6 mm. Em 1977 a Sumitomo Eletric desenvolveu o Sumiboron BN200™, sendo a primeira ferramenta de PCBN produzida no Japão e em 1980 a De Beers lançou o Amborite™. Portanto, a faixas de PCBN, produzidas e fabricadas, são limitadas a um pequeno número de companhias no mundo e existe um grupo restrito de empresas que formam a rede mundial de fornecedores de PCBN. O PCBN é fornecido principalmente pela De Beers Industrial Diamond Division, General Electric Superabrasive e Sumitomo Electric Industries. Na Tabela 2.5 pode-se verificar as principais classes de PCBN comercializadas no mundo (Abrão, 1995). Sandro Cardoso Santos 112 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Quadro Comparativo entre os Fabricantes de PCBN Os principais fabricantes de PCBN no mundo são: 1) General Eletric Co.; 2) De Beers Industrial Diamond Division; Na Tabela 7.3 mostra-se a comparação entre esses fabricantes e as respectivas composições químicas dos seus produtos. Sandro Cardoso Santos 113 Wisley Falco Sales 80 50 DBC50 90 AMBORITE DBC80 82 BZN-7000S 65 BZN-8100 65 93 BZN-6000 BZN-8200 QUANT. (%) CLASSE 2,0 6,0 9,0 15,0 2,0 2,0 2,0 (µm) TAM. GRÃO 114 Wisley Falco Sales As Informações sobre o fabricante SUMITOMO não estão disponíveis. Sandro Cardoso Santos • DE BEERS GE FABRICANTE CBN Cerâmica Ti/Al Cerâmica Ti/Al Cerâmica Al Cerâmica TiN TiN METAL TE AGLOMERAN 2750 - - 3200 2600 2500 2800 (kg/mm2) KNOOP DUREZA QUADRO COMPARATIVO: CARACTERÍSTICAS DE CADA CBN DE ACORDO COM SEU FABRICANTE Tabela 7.3 – Tabela de comparação dos fabricantes de PCBN. ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Cuidados a Serem Tomados Quando se Utiliza Ferramentas de PCBN 1) Materiais fáceis de serem cortados por outros materiais de ferramenta como aços não endurecidos, não devem ser usinados com CBN; 2) O sistema máquina-ferramenta-dispositivo de fixação-peça deve ser o mais rígido possível; 3) A geometria da ferramenta deve ser negativa (normalmente γ = -5°) para garantir a resistência aos choques, com ângulo de folga α = 5 - 9° e o maior possível ângulo lateral de posição (no mínimo 15°) para minimizar trincas na aresta; 4) A aresta de corte deve ser chanfrada (chanfro de 0,1a 0,3mm x 15 a 25°) o que direciona os esforços de corte para o centro da ferramenta e, assim, diminui a possibilidade de quebra da aresta, conforme esquematizado na Figura 7.12. Figura 7.12 – Detalhe do chanfro da aresta da ferramenta. 5) Sempre que possível fluido de corte deve ser utilizado. Na usinagem do ferro fundido cinzento, onde a utilização de óleo de corte não é recomendada, pode-se tentar a utilização de ar comprimido. 6) Ao especificar a compra de uma determinada classe de ferramenta, observar que, não existe uma equivalência perfeita entre as classes dos diversos fabricantes, portanto os parâmetros de corte e a expectativa de vida da ferramenta devem ser reavaliados. Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales 7) O custo do inserto de PCBN é mais alto que o de material cerâmico, mas devido à maior vida da ferramenta de PCBN, o custo do ferramental muitas vezes é compensado não somente pelo maior número de peças usinadas por aresta de corte, como também pela consequente diminuição do tempo em que a máquina permanece parada para retirada da ferramenta gasta e a ajustam da nova. b. Diamante Sintético Policristalino (Polycrystaline Compact Diamond - PCD). O diamante é conhecido como o material mais duro que existe na natureza (Abrão, 1995 e Machado e Da Silva, 1999). Os diamantes são uma forma cristalina de Carbono. Por muitos séculos e até hoje é apreciado como a mais perfeita das pedras preciosas. Os diamantes são encontrados em quase todos os grandes continentes. É um mineral relativamente pesado, com uma densidade de 3.52 g/cm3 e portanto, tende a se acumular em cacimbas, em leitos e margens de rios, principalmente em suas curvas. Os depósitos desta natureza são chamados depósitos de aluvião e na realidade, foram os primeiros a ser minerados e explorados. Como ferramentas de corte temos: • Diamantes naturais (dureza acima de 8000 HV); • Diamantes sintéticos monocristalinos (dureza acima de 6000 HV); • Diamantes sintéticos policristalinos (Polycrystaline Compact Diamond - PCD); Obtenção O diamante sintético é obtido sujeitando o carbono, na forma de grafite a temperaturas e pressões extremamente altas. Como o grafite, os átomos de carbono estão arranjados na forma hexagonal. Após o tratamento térmico ele se transforma em diamante, possuindo uma estrutura cristalina cúbica de face centrada (CFC). Sandro Cardoso Santos 116 Wisley Falco Sales A transformação é muito difícil, envolvendo temperaturas da ordem de 2000°C a pressões de 7GPa. Para tornar o processo mais econômico, o processo é realizado na presença de um metal solvente (normalmente o Cobalto). Síntese do Policristalino Quando uma massa de partículas metálicas é aquecida ocorre a sinterização nas pontas de contato entre partículas e superfícies adjacentes. O processo consiste em obter uma uniforme distribuição dos constituintes em toda a massa. Numa prática similar, é possível fazer cristais de Diamante sinterizem juntos de tal modo a gerar uma massa policristalina. Obtenção da Pastilha de PCD As pastilhas e insertos de PCD são fabricados por processo de alta pressão e alta temperatura e consiste em uma capa de PCD ligado integralmente a um substrato de carbeto de tungstênio por meio de brasagem, conforme esquematizado na Figura 7.13. Sandro Cardoso Santos 117 Wisley Falco Sales Alta Pressão Partículas de Diamante Carbeto de Tungstênio Alta Temperatura Figura 7.13 – Esquema do processo físico de obtenção do diamante sintético. Constituição A composição química dos diversos PCD’s encontrados no mercado praticamente não varia, mas suas propriedades variam com o tamanho das partículas de diamante do material, que variam de 2 a 25 µm de diâmetro. Na Figura 7.14 mostra-se algumas granulometrias comercialmente disponíveis. Sandro Cardoso Santos 118 Wisley Falco Sales a) Grão Grosso (25 µm de diâmetro), b) Grão Médio (10 µm de diâmetro) e, c) Grão Fino (2 µm de diâmetro). Figura 7.14 - Tamanhos de grãos do diamante encontrados comercialmente. Uma camada de PCD de aproximadamente 0,5 mm de espessura ou é aplicada diretamente sobre uma pastilha de metal duro ou então é ligada ao metal duro por meio de brasagem. A este conjunto de PCD e metal duro dá-se o nome de plaqueta. Normalmente o comprimento da camada de diamante é de alguns milímetros, pouco maior que a profundidade de usinagem que será utilizada, a fim de se economizar material. Sandro Cardoso Santos 119 Wisley Falco Sales Tipos - Quanto às Formas Nas Figuras 7.15 a 7.17 mostram-se diversas formas comercialmente disponíveis do PCD. Figura 7.15 – Esquema de modos de utilização do PCD. Figura 7.16 – Formas comercialmente disponíveis (De Beers, 1999). Sandro Cardoso Santos 120 Wisley Falco Sales Figura 7.17 – Produtos comercialmente disponíveis. Propriedades Dentre as propriedades do PCD, algumas são muito vantajosas na que diz respeito à sua utilização em ferramentas de usinagem e outras limitam esta utilização. Dentre as propriedades positivas, tem-se: Condutividade: Alto valor de condutividade térmica (de 1 a 5 vezes o valor do metal duro classe K) o que dificulta a formação de pontos quentes na ferramenta. Dureza: Altíssima dureza (cerca de 4 vezes a do metal duro classe K e 3 vezes a da alumina). Resistência ao Desgaste por Abrasão: Altíssima resistência ao desgaste por abrasão. Sandro Cardoso Santos 121 Wisley Falco Sales Tenacidade: Sua tenacidade pode ser considerada alta se considerar-se sua alta dureza (maior que a dos cerâmicos baseados em nitretos e menor que a do metal duro). Seleção do Grão de Diamante Em geral, quanto maior for o tamanho do grão de diamante sinterizado maior será a resistência ao desgaste. Por outro lado, quanto menor for o tamanho do grão, melhor será qualidade da aresta de corte, conforme mostrado na Figura 7.18. a) Grão Grosso (25 µm de diâmetro), b) Grão Médio (10 µm de diâmetro) e, c) Grão Fino (2 µm de diâmetro). Figura 7.18 - Aspectos da superfície de saída para diversas granulometrias. Outro ponto a ser observado é que não só o tamanho do grão influenciará no comportamento de desgaste da ferramenta, mas também a configuração da união desses grãos, conforme esquematizado na Figura 7.19. Sandro Cardoso Santos 122 Wisley Falco Sales Figura 7.19 – Possíveis tipos de ligações granulares. Aplicações Metais não Ferrosos Alumínio e ligas de Al/Si; Cobre e suas ligas; Carbeto de Tungstênio; Sinterizados não ferrosos. Não Metálicos Madeira natural e compostos de madeira; Plásticos reforçados com fibras; Cerâmicos; Compostos de Grafite-epoxy; Pedras Naturais; Concreto. Sandro Cardoso Santos 123 Wisley Falco Sales Fabricantes Na Tabela 7.4 são mostrados os principais fabricantes mundiais de PCD, as suas classes e respectivos tamanhos de grãos. Tabela 7.4 – Principais fabricantes, respectivas classes e tamanho de grão. FABRICANTES CLASSES TAMANHO DO GRÃO (µm) Série 1500 25 Série 1300 5 Série 1600 4 Syndite 002 2 Syndite 010 10 Syndite 025 25 DA150 5 DA200 0,5 General Eletric Co. De Beers Industrial Diamond Division Sumitomo Electric Carbide, Inc Cuidados a Serem Tomados Quando se Utiliza Ferramentas de PCD • sistema máquina-ferramenta-dispositivo de fixação da peça deve ser o mais rígido possível; • A máquina deve ter potência e velocidades compatíveis às exigências impostas; • Pode ser usada com ou sem refrigerante; Sandro Cardoso Santos 124 Wisley Falco Sales • Usar pequeno ângulo da ponta sempre que possível e o ângulo de saída deve ser positivo; • Nas aplicações de desbastes interrompidos afiar a ferramenta com um “honeamento” suave (0,03mm); • Ao especificar a compra de uma determinada classe de ferramenta, observar se existe uma equivalência perfeita entre as classes dos diversos fabricantes, caso contrário, os parâmetros de corte e a expectativa de vida da ferramenta devem ser reavaliados. • Um grande problema para uma mais larga utilização do PCD na indústria é o seu custo. Uma ferramenta de PCD simples custa cerca de 20 a 30 vezes mais que o metal duro, enquanto que uma ferramenta de forma mais complexa custa de 50 a 150 vezes mais que uma ferramenta equivalente de metal duro. Porém, deve-se levar em conta outros fatores quando se pensa em custos, principalmente se tem-se uma produção com lotes grandes. O primeiro fator é a qualidade da peça usinada que é muito boa, devido ao fato do pequeno desgaste da ferramenta, o que gera boas tolerâncias e baixa rugosidade superficial. Além disto, porque a vida da ferramenta é muito maior, economiza-se o tempo de parada da máquina para retirada da ferramenta gasta e ajustagem da nova, fazendo com que, muitas vezes, o custo por peça usinada seja menor quando e utiliza o PCD como ferramenta. Considerações sobre a Usinagem da Liga de Alumínio-Silício A mais larga utilização do PCD na indústria manufatureira é na usinagem de ligas de alumínio-silício, quando se deseja tolerâncias apertadas e ótimo acabamento superficial da peça. Este tipo de liga tem substituído outros materiais (em especial o ferro fundido) em muitas aplicações da indústria automobilística, com o fim de redução de peso do veículo. O alumínio puro é um material de fácil usinagem, quando se pensa em termos de desgaste da ferramenta e esforços de corte e seu corte tem sido realizado de maneira satisfatória pelo aço rápido e pelo metal duro. Quando se pensa em termos de ligas alumínio silício, deve-se notar que o silício, que se encontra dissolvido na matriz de alumínio da liga e também disperso no material formando pontos de silício puro, é cerca de 6 a 7 vezes mais duro que o alumínio. Assim, devido a estes pontos duros do material, sua usinagem se torna difícil com as ferramentas tradicionais, fazendo com que a velocidade de corte tenha que cair bastante. Pontos duros na Sandro Cardoso Santos 125 Wisley Falco Sales peça não são problemas para o diamante dada a sua alta dureza. Outro fator que dificulta a usinagem de qualquer liga de alumínio é sua tendência à geração da aresta postiça de corte. Isto não acontece com o diamante, dado ao fato de que o alumínio não se solda facilmente no PCD. Sandro Cardoso Santos 126 Wisley Falco Sales 14,5 1600 400 13 85 580 5,5 0,34 850 n.a 17 37 250 12 40,3 Sandro Cardoso Santos Densidade (g/cm3) Dureza a RT (HV) Dureza a 1.000°C(HV) Tenacidade (Mpa m1/2) Cond. Térmica (W/m °C) Mod. Young’s 2 (kN/mm ) Coef. Expansão Térmica -6 (x 10 / K) Custo Aprox. por Aresta (£) 0,85wt% C 4wt%Cr 5wt%Mo 6,5wt% W 2wt%V 7,85 Composição 89,5wt%WC 10wt%Co 0,5wt% Aço Rápido M2 Propriedades Metal Duro M20 0,46 8,5 380 8 – 10 1.9 650 1700 3,8 - 4,0 90-95% Al2O3 5-10% ZrO2 Cerâmica Branca 0,6 8 420 12 – 18 2 800 1900 4,3 1,25 3,2 300 23 6 900 1600 3,2 77% Si3N4 13% Al2O3 10% Y2O3 Nitreto de Silício Wisley Falco Sales 2,5 6,4 390 32 8 900 200 3,7 75% Al2O3 25% SiC Whisker Reforçada 127 Al2O3 30%Tic 5-10% ZrO2 Cerâmica Mista 40 – 60 4,9 680 100 10 1800 4000 3,1 98% PCBN 2% AlB2/ AlN PCBN 125 – 140 1,5 - 4,8 964 900 3.4 Na 10000 3,5 Diamante Natural Tabela 7.5 - Comparativo dos materiais como características mecânicas, propriedades físicas e custos (Abrão,1995). 30 - 50 3,8 841 560 7.9 Na 9000 3,4 PCD 2-8% Co PCD Após a leitura deste capítulo observa-se a grande variedade de materiais para ferramentas disponíveis no mercado. À primeira vista pode-se imaginar que à medida que se desce na lista de materiais isto se torna vantajoso. Mas deve-se lembrar que cada material tem o seu nicho de mercado e a seleção do material “ideal” para a situação específica depende de inúmeros fatores, como: material da peça, condições de corte, tamanho do lote, processo de usinagem, rigidez da máquina-ferramenta, entre outros. De nada vai adiantar se o PCBN ou o PCD for selecionado para operar numa máquina cheia de folgas e consequentemente grandes vibrações. Concluindo, o caso específico da operação deve ser incessantemente ponderado e a discutida relação custo/benefício jamais poderá ser esquecida. Sandro Cardoso Santos 128 Wisley Falco Sales CAPÍTULO VIII REVESTIMENTOS PARA FERRAMENTAS DE CORTE A deposição de revestimentos é um procedimento adotado com o objetivo de alterar as propriedades de uma superfície. Entre as características modificadas por meio de revestimentos pode-se destacar as propriedades óticas, magnéticas, eletrônicas, químicas, resistência mecânica e de resistência ao desgaste (Hogmark et. al., 2000). O principal campo de aplicação de revestimentos, com o objetivo de melhorar a resistência ao desgaste, são as ferramentas (de usinagem, estampagem e moldes para injeção de plásticos) e componentes de precisão (engrenagens, componentes de motores e compressores) (fonte Balzers Balinit do Brasil Ltda). Esse capítulo destaca os revestimentos utilizados com o objetivo de melhorar a resistência ao desgaste de ferramentas de corte, mais especificamente de brocas helicoidais. A deposição de revestimentos em ferramentas de corte tem como principal finalidade o aumento da vida das ferramentas. Outros efeitos positivos, tais como o aumento da velocidade de corte (e em conseqüência da produtividade), redução das forças de corte (potência consumida) e redução da tendência à adesão podem ser obtidos (Hogmark et. al., 2000). A abordagem do assunto tem início com a apresentação de um breve histórico, que aborda os principais aspectos evolutivos dos revestimentos, como o desenvolvimento de diferentes tipos de revestimento e de técnicas de aplicação. É apresentada uma seção que destaca o estudo das propriedades dos revestimentos responsáveis pelo seu desempenho. São apresentados também alguns ensaios de laboratório desenvolvidos com o objetivo de estudar o desempenho de revestimentos. São apresentados resultados importantes de trabalhos que estudaram o desempenho de revestimentos. O capítulo é finalizado com algumas tendências para os revestimentos do futuro. 8.1 Breve histórico As primeiras referências sobre a aplicação de revestimentos em peças e componentes, com o objetivo de melhorar sua resistência ao desgaste datam da década de 1930, resultado dos esforços de fabricantes suíços que tinham como objetivo aumentar a vida dos componentes de seus relógios (Suh, 1976). Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS A deposição de revestimentos com o objetivo de melhorar o desempenho de ferramentas de corte pode ser abordada no contexto da evolução dos materiais para ferramentas de corte, a partir do desenvolvimento do metal duro, patenteado na década de 1930. As primeiras ferramentas de metal duro (WC e Co) apresentavam acentuada tendência à formação do desgaste de cratera, problema que foi resolvido com a adição de TiC, TaC e NbC ao metal duro. A adição de carbonetos, por outro lado, provocou redução da tenacidade das ferramentas, o que tornou-as mais propensas a sofrer falha por quebra ou lascamento. A busca por ferramentas de corte que reunissem boa tenacidade no núcleo e elevada resistência ao desgaste na superfície resultou no desenvolvimento dos revestimentos. As primeiras referências sobre o estudo dos revestimentos para ferramentas de corte datam da segunda metade da década de 1960. Segundo Suh (1976) em 1966 foi realizado um estudo sobre a possibilidade de se alterar as características da superfície do metal duro por meio de reações de oxidação, o que resultou em um método de deposição de metais como, o Hf, que participava da formação de carbonetos estáveis. Os materiais para revestimentos investigados na época foram: • Óxido de Alumínio; • Nitreto de Titânio; • Carbonetos do grupo IV-B e V-B da tabela periódica; • Camada dupla de TiC e TiN; • Oxicarboneto de Titânio; Trabalhos publicados na época mostraram que as ferramentas revestidas com HfC tinham melhor desempenho quando comparadas a ferramentas revestidas com TiC, ZrC, TaC e NbC (Suh, 1976). Em 1969 foram colocadas no mercado as primeiras ferramentas revestidas com TiC, desenvolvidas pela Sandvik (Suh, 1976 e Hatschek, 1983). Essas ferramentas apresentaram excelentes resultados no que se refere à resistência ao desgaste abrasivo, adesivo, oxidação e deformação plástica (Lee et al., 1974). O comportamento de ferramentas revestidas com TiC mostrou-se dependente do processo de usinagem em que eram empregadas. Segundo Hunt et. al. (1990) a produtividade chegou a atingir níveis de duas a três vezes maiores, quando comparadas a ferramentas não revestidas, no processo Sandro Cardoso Santos 130 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS de torneamento. No processo de fresamento, entretanto, as ferramentas revestidas com TiC apresentava desempenho insatisfatório. Esse comportamento foi, a princípio, atribuído à diferença de coeficiente de dilatação térmica em relação ao substrato, embora não houvesse evidências suficientes para garantir que as propriedades térmicas seriam responsáveis pela falha catastrófica das ferramentas. Foi constatado posteriormente (Leverents, 1977) que, durante o processo de deposição do revestimento de TiC, ocorria a formação da chamada camada “eta” (Co3W3C), na interface revestimento/substrato com aproximadamente a mesma espessura da camada de revestimento. A elevada fragilidade dessa camada seria responsável pela quebra da ferramenta. Os problemas apresentados pelos revestimentos foram resolvidos por meio de inovações nos materiais e nos processos de obtenção. O desenvolvimento dos revestimentos nas décadas de 1970 e 1980 foi considerável, fato justificado pelo aumento da produtividade, a melhoria da qualidade das superfícies das peças usinadas e o aumento da vida das ferramentas obtido com a utilização de ferramentas revestidas. Os processos de aplicação dos revestimentos são um importante aspecto na evolução dos revestimentos para ferramentas de corte. A princípio as ferramentas eram revestidas pelo processo de deposição química, conhecido como CVD (“chemical vapour deposition”). No processo CVD, como a própria nomenclatura indica, a deposição dos revestimentos ocorre por meio de reações químicas, que ocorrem em uma faixa de temperaturas entre 900 e 1100 ºC. O processo CVD apresenta duas variantes: o CVD a médias temperaturas (MTCVD) e a deposição CVD assistida por plasma (PA-CVD). No processo MT-CVD a deposição é feita a partir da acetonitrila (CH3CN) em temperaturas entre 750 e 900 ºC. O processo PA-CVD ocorre na faixa de temperaturas entre 600 e 900 º C e utiliza uma descarga pulsada com o objetivo de catalisar a reação. A elevada faixa de temperaturas utilizada no processo CVD original era responsável pelo surgimento da camada “eta” e tornava-o não indicado para o revestimento de ferramentas de aço rápido, embora haja referência de sua utilização (Sadahiro et. al., 1977). Ao longo dos anos foram surgindo modificações no processo solucionando alguns problemas apresentados pelo processo CVD. Hunt et. al. (1990) apresenta uma síntese dos principais aspectos da evolução dos revestimentos para ferramentas de corte na década de 1980. • Revestimentos multicamadas: formados por combinações de TiC, TiCN, TiN, Al2O3 e ocasionalmente HfN que resultam em um revestimento de espessura total Sandro Cardoso Santos 131 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS próxima a 10 µm. O desenvolvimento dos revestimentos multicamadas possibilitou o aumento da vida e do campo de aplicação das ferramentas; • Revestimentos multicamadas alternadas: esse processo surgido em meados da década de 1980 consistiu na redução da espessura de cada camada sem alterar a espessura final do revestimento, tendo como resultado a elevação da dureza devida à redução do tamanho de grão dos revestimentos; O processo de deposição física PVD (“physical vapour deposition”) surgiu na década de 1970 com a deposição de TiN sobre ferramentas de aço-rápido. Na década de 1980 o processo foi adaptado para revestir ferramentas de metal duro. A principal característica do processo PVD é a faixa de temperatura, em torno de 500 ºC que traz benefícios como a possibilidade de revestir substratos de aço-rápido, a prevenção da formação da fase “eta”, a obtenção de revestimentos com granulometria mais fina e a possibilidade de revestir cantos vivos. No processo PVD, a deposição ocorre por meio de vapores gerados no interior de fornos a baixa pressão. A baixa pressão permite que, por meio de aquecimento, os materiais sólidos que irão participar da formação dos revestimentos passem para o estado gasoso sem passar pelo estado líquido. Os vapores, que formam o material do revestimento, são obtidos a partir de gases reativos ou de materiais sólidos sublimados no interior do forno por meio de descarga elétrica. O processo PVD apresenta algumas variáveis, apresentadas a seguir: “Sputtering” Por esse processo o metal é sublimado no interior do forno. O processo permite a sublimação de materiais com diferentes pontos de fusão. O princípio de funcionamento da deposição PVD por “sputtering”. é mostrado de forma esquemática na Figura 8.1 mostra. Sandro Cardoso Santos 132 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Gás inerte Ar Filamento para aquecimento Gás reativo substratos Material do revestimento Bomba de vácuo 150 – 250 ºC Figura 8.1 - Representação esquemática do processo de deposição PVD. As peças ou componentes a serem revestidos são inspecionados e limpos antes de serem conduzidos ao forno. O processo de deposição propriamente dito tem início com o acionamento da bomba de vácuo, com o objetivo de eliminar contaminantes presentes na atmosfera e baixar a pressão no interior do forno. A seguir o forno é aquecido e é injetado o gás inerte que será ionizado, permitindo a “evaporação” do material sólido que irá compor o revestimento. É formado o arco elétrico entre o filamento e a porção sólida do revestimento. Em seguida o gás reativo é injetado no interior do forno, reage com os vapores presentes na atmosfera do forno e é depositado sobre o substrato. O substrato é carregado eletricamente com o objetivo de facilitar a deposição. Evaporação por arco Esse processo distinge-se por aplicar uma quantidade maior de energia. Uma pequena região é “evaporada” por meio de aplicação de uma quantidade elevada de energia. O plasma é gerado pelo material ionizado. Feixe de elétrons de alta energia Essa variante do processo tem a característica de oferecer a ionização do plasma mais bem balanceada, o que possibilita um melhor controle do processo. O resultado do processo de evolução descrito nessa seção foi desenvolvimento de uma variedade de revestimentos disponíveis hoje. Na seção a seguir é feita a apresentação dos revestimentos e suas principais características. Sandro Cardoso Santos 133 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 8.2 Composição química dos revestimentos Os principais tipos de revestimento disponíveis na atualidade são apresentados a seguir: A) Revestimentos depositados pelo processo PVD: • TiN; • TiAlN; • TiCN; • WC/C; • CrN; • MoS2; • DLC; B) Revestimentos depositados pelo processo CVD: • Diamante; • SiC; • Al2O3; • TiC; • TiN. As principais características dos revestimentos são apresentadas na Tabela 8.1. O TiN apresenta a boa relação custo-benefício como principal aspecto positivo. É indicado em casos em que peças de diferentes materiais são usinadas pela mesma ferramenta. Sandro Cardoso Santos 134 Wisley Falco Sales 1,5 – 3 3300 0,3 0,05 800 Aço-rápido e metal duro Sim 5X Ferro fundido e Al-Si Torneamento e furação 1,5 – 3 2200 0,4 0,07 600 Somente açorápido Sim 5X Universal Universal Custo/benefício Espessura (µm) Dureza (HV0,05) Coeficiente de atrito contra o aço Condutividade térmica (kW/mK) Máxima temperatura de trabalho (ºC) Remoção do revestimento Novo revestimento Aplicação de novo revestimento sem remoção do antigo Ideal para a usinagem dos materiais Processo de usinagem Especialidades Resistência ao impacto Fresamento, furação e rosqueamento Aço Somente TiN 2X 4–8 3000 0,25 0,1 450 Não *** Multi Mínimo 7 Cinza-violeta TiCN PVD 450-500 Aço–rápido e metal duro Custo/benefício resistência ao impacto e corte a seco Universal Universal 1 –5 3500 0,3 0,05 800 Aço-rápido e metal duro Sim 5X Multi Mínimo 42 Violeta-vermelho Multicamadas PVD 450-500 Aço–rápido e metal duro Torneamento e furação Grafite Al-Si Não - 3 - 10 10.000 2 600 Não Mono 1 cinza DLC CVD 1000 Metal duro com <6% Co Furação, rosqueamento, alargamento e fresamento Prevenção da aresta postiça de corte e resistência à água e óleo A, Al-Si e aço Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales Sim 5X MoS2 PVD 100-150 Aço–rápido e metal duro cermet Mono 1 Verde oliva escuro 0,2 – 0,5 20 – 50 0,05 – 0,15 <0,1 800 Sim * baixa adesividade da camada a baixas temperaturas de deposição; ** Al2O3 devido à oxidação; *** possível em laboratório. Usinagem a seco Mono 1 (2**) Preto-violeta Mono 1 Dourado Estrutura Número de camadas Cor TiAlN PVD 350-(270*) Aço –rápido e metal duro TiN PVD 450-500 Aço –rápido e metal duro Revestimento Processo de deposição Temperatura de deposição (ºC) Substrato Tabela 8.1 – Principais características dos revestimentos (Cselle, 1998) ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS O TiAlN é indicado para usinagem de materiais abrasivos, como o ferro fundido e as ligas Al-Si. Sua elevada resistência ao calor torna-o adequado para a usinagem a seco. O desempenho de brocas de metal duro com diferentes revestimentos na furação de ferro Vida da Fe rrame nta Lf (m) fundido cinzento é mostrado na Figura 8.2. 120 100 80 60 40 diâm etro = 8 m m f = 0,25 m m / ver GG25 l/d = 3 TiN TiCN TiAlN 20 0 Aço-rápido Vc = 40 m /m in Metal duro Vc = 130 m /m in Figura 8.2 - Comparação entre o desempenho de brocas de aço-rápido e metal duro (K10) revestidas na furação do ferro fundido cinzento GG25 (Cselle, 1998). A resistência ao desgaste do TiAlN deve-se ao fato de que, durante a usinagem, ocorre uma reação de oxidação na superfície do revestimento, dando origem à alumina. O resultado de um estudo comparativo de desempenho entre brocas de metal duro não Com prim e nto usina do (m ) revestida e revestida com TiAlN é apresentado na Figura 8.3. 30 25 20 15 10 5 0 S em revestim ento TiA lN Figura 8.3 - Comparação de desempenho entre brocas de metal duro não revestida e revestida com TiAlN na furação do ferro fundido GH 190 Vc = 110 m/min; f = 0,25 mm/volta; l/d = 4,5; furo passante (Santos, 1999). Sandro Cardoso Santos 136 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS O TiCN apresenta bons resultados na usinagem de aços. Apresenta desempenho satisfatório em substratos de aço-rápido e metal duro. Uma característica importante é a sua estrutura multicamadas que evita que uma trinca formada na superfície se propague até o substrato, situação ilustrada na Figura 8.4. SUBSTRATO TiCN ATÉ 7 µm TiAlN MAX. 3 µm FISSURAS SUBSTRATO Figura 8.4 - Esquema da propagação de trincas em revestimentos de TiCN e TiAlN (Cselle, 1998). A Figura 8.5 apresenta uma comparação de desempenho de brocas de metal duro e aço-rápido com diferentes revestimentos na furação do aço 43CrMo4 (1000N/mm2). O revestimento TiCN apresenta melhor desempenho tanto no substrato de aço-rápido quanto no de metal duro, fato que pode ser justificado pela sua característica de não permitir a propagação de trincas até o substrato. O TiN tem melhor desempenho que o TiAlN em brocas de aço-rápido, comportamento que aparece invertido no caso das brocas de metal duro. Esses resultados são explicados pela estrutura e pela fragilidade do TiAlN. O açorápido deforma-se com maior intensidade, o que faz com que surjam trincas no revestimento, que se propagam rapidamente para o substrato. Como a deformação das brocas de metal duro é menor, o TiAlN tem desempenho superior ao verificado para o TiN. Um fator negativo do revestimento de TiCN é o fato de que a aplicação de um novo revestimento após a reafiação ainda não é possível em escala comercial. Normalmente deposita-se o TiN após a reafiação. A evolução do desgaste na furação do aço 42CrMo4V com brocas de metal duro revestidas com TiN, TiAlN e TiCN é mostrada na Figura 8.6. Nota-se que, no início da vida, o TiAlN apresenta menor desgaste em relação ao TiCN, o que é explicado pelo fato de o TiAlN não apresentar sinais de desgaste antes do surgimento de trincas. A partir do surgimento das trincas, o desgaste do TiAlN tem o mesmo comportamento apresentado pelo TiN. Sandro Cardoso Santos 137 Wisley Falco Sales Vida da ferramenta Lf (m) ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 30 25 20 15 10 5 0 TiCN TiN TiAlN 15 20 25 30 35 Velocidade de Corte (m/min) Brocas de aço-rápido 60 50 40 30 20 10 0 TiCN TiN 150 140 130 120 110 100 90 80 TiAlN 70 Vida da ferramenta Lf (m) f = 0,09 mm/volta Velocidade de corte (m/min) Brocas de metal duro f = 0,15 mm/volta Figura 8.5 - Comparação de desempenho de brocas de aço-rápido e metal duro na furação do aço 42CrMo4, diâmetro dos furos = 8 mm, l/d = 3 (Cselle, 1998). Sandro Cardoso Santos 138 Wisley Falco Sales VB (micrometros) ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 500 400 TiCN 300 TiN 200 TiAlN 100 0 0 10 20 30 40 50 60 Vida da ferramenta Lf (m) Figura 8.6 - Comparação entre a resistência ao desgaste de brocas de metal duro com diferentes revestimentos. vc = 70 m/min, f = 0,15 mm/volta, l/d = 3, d = 8 mm, material aço 42CrMo4 (Cselle, 1998). O CrN apresenta bons resultados na usinagem de cobre nas operações de torneamento, fresamento, furação, rosqueamento e alargamento. O WC/C é um revestimento com características lubrificantes, especialmente indicado para a furação e o rosqueamento de materiais que formam cavacos longos. É aplicado sobre uma camada de TiAlN. Segundo informações obtidas junto a um fabricante, uma broca revestida com WC/C aplicado sobre o TiAlN permite quase triplicar o número de furos em relação ao obtido com uma ferramenta revestida com uma camada simples de TiAlN. O WC/C permite, ainda a redução do torque na furação Os chamados revestimentos multicamadas foram desenvolvidos com a finalidade de reunir os aspectos positivos do TiN, TiCN e do TiAlN. São constituídos de até 25 camadas que formam uma cobertura com espessura entre 1 e 4 µm (Balzers, 2000). A Figura 8.7 mostra a vida obtida na furação com brocas de metal duro revestidas com TiN, TiAlN e revestimento multicamadas na furação de ferro fundido. O MoS2 é aplicado sobre revestimentos com boa resistência ao desgaste. As propriedades lubrificantes do MoS2 facilitam a remoção dos cavacos e contribuem para evitar a formação da aresta postiça de corte, fatores que podem resultar em aumento da produtividade. Segundo Cselle (1998), a aplicação de apenas MoS2 sobre brocas canhão aumenta sua vida para 180 minutos, comparados à 60 minutos para a broca sem revestimento. Sandro Cardoso Santos 139 Wisley Falco Sales V ida da fe rra m e nta Lf (m ) ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 120 100 80 60 40 20 0 TiN TiA lN m ultic am adas Figura 8.7 - Desempenho comparativo entre brocas revestidas com TiN, TiAlN e revestimento multicamadas na furação do GG25; diâmetro 11,8 mm; l/d = 3 furo cego; critério de fim de vida VB = 0,8 mm; Vc = 110m/min; f = 0,4 mm/volta (Cselle, 1998). Um fator importante que deve ser levado em consideração antes de se optar por uma ferramenta revestida é a necessidade da aplicação de um novo revestimento após a reafiação. A aplicação de um novo revestimento aumenta o período de tempo entre o final de vida da ferramenta até o momento em que ela retorna à linha de produção, o que implica na necessidade de se manter em estoque um número maior de ferramentas. Resultados de investigações mostram que ferramentas revestidas, que foram reafiadas e que não receberam um novo revestimento apresentam desempenho próximo ao das ferramentas novas e consideralvelmente superior ao das ferramentas não revestidas, como ilustram os gráficos das Figuras 8.8 e 8.9. Sandro Cardoso Santos 140 Wisley Falco Sales Vida da ferramenta Lf(m) ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Diâmetro = 8,5 mm Fluido de corte: 80 bar Óleo integral 1400 1200 1000 800 Nova 600 Reafiada GGG40 Vc = 130 m/min f = 0,15 mm/volta l = 60 mm AlSi Vc = 177 m/min f = 0,28 mm/volta 400 200 0 GGG40 AlSi12 Figura 8.8 - Comparação de vida entre ferramentas novas e reafiadas que não V ida da fe rra m e nta Lf(m ) receberam novo revestimento na usinagem de materiais abrasivos (Cselle, 1998). 50 S em revestim ento 40 30 TiN 20 Reafiada sem novo reves tim ento 10 0 K 40 P 40 P 25 Figura 8.9 - Efeito do revestimento na usinagem de aço 38MnV35; diâmetro = 12,6 mm; Vc = 78 m/min; f = 0,25 mm/volta; l = 13,5 mm. (Cselle, 1998). O desempenho de ferramentas de aço-rápido revestidas com TiN novas e reafiadas na furação do aço ABNT 1045 é mostrado na Figura 8.10. Sandro Cardoso Santos 141 Wisley Falco Sales V ida (núm e ro de furos) ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 500 400 300 Nova 200 Reafiada 100 0 Lote A Lote A Lote A Lote B Lote C Figura 8.10 - Desempenho de brocas de aço-rápido revestidas com TiN novas e reafiadas sem novo revestimento. Diâmetro = 6 mm; Vc = 30 m/min; f = 0,15 mm/volta; l = 15 mm; furos passantes (Santos et al., 2002). Os resultados apresentados na Figura 8.10 mostram que das cinco ferramentas testadas, três apresentaram maior vida após reafiadas. Segundo Kanai et al. (1979), a grande dispersão dos resultados de ensaios de vida em brocas é atribuída à falta de acuracidade na afiação. Esse mesmo argumento pode justificar os resultados apresentados na Figura 8.9. 8.3 Propriedades dos Revestimentos A seção anterior apresentou resultados que mostram o desempenho dos revestimentos existentes no mercado. O melhor desempenho de um revestimento em relação aos demais é atribuído a um conjunto de propriedades. O estudo dessas propriedades envolve conhecimentos multidisciplinares e variáveis de comportamento sistêmico, o que dificulta a sua compreensão. Essa seção reúne resultados de pesquisas de diferentes áreas do conhecimento que tratam do estudo das propriedades dos revestimentos. Segundo Prengel et. al. (1998) e Sjöstrand et. al. (2001) as principais propriedades dos revestimentos são: • Propriedades essenciais: • Estabilidade química; Sandro Cardoso Santos 142 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Dureza a quente; • Boa adesividade com o substrato; • Propriedades desejáveis: • Espessura ótima; • Tensões residuais de compressão; • Baixa condutividade térmica; • Baixa adesividade com o material da peça; Estabilidade Química A inércia química é uma propriedade importante pois indica a propensão de haver difusão entre o material da peça e do revestimento na faixa de temperatura atingida na usinagem. A grandeza que indica a estabilidade química é a energia livre de formação. Os valores de energia livre de formação em função da temperatura de alguns revestimentos depositados pelo processo CVD são mostrados na Figura 8.11. 0 Energia livre de formação (kW/g) -10 WC -20 -30 -40 TiC -50 -60 -70 TiN -80 -90 -100 -110 Al2O3 -120 0 500 1000 1500 2000 o Temperatura ( C) Figura 8.11 - Energia livre de formação de revestimentos depositados pelo processo CVD (Hunt et al., 1990). Sandro Cardoso Santos 143 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS De acordo com a Figura 8.11 os revestimentos de Al2O3, por apresentarem a menor energia livre de formação, apresentam a maior estabilidade química. Dos revestimentos depositados pelo processo PVD, o TiAlN apresenta maior estabilidade em relação ao TiN e ao TiCN, fato que justifica o melhor desempenho do TiAlN no corte em altas velocidades (Prengel et al., 1998). A elevada estabilidade química dos revestimentos a base de diamante faz com que estes sejam uma boa indicação para a usinagem de metais não ferrosos que possuem segunda fase com características abrasivas (ligas AlSi) e não metais que não reagem com o Carbono (compósitos e plásticos reforçados). Dureza Os revestimentos de dureza elevada e que a mantêm a altas temperaturas contribuem para o aumento da resistência ao desgaste, o que reduz a tendência de surgimento do desgaste abrasivo. A tendência de formação do desgaste de cratera, apesar de ocorrer devido à reação triboquímica (difusão) é também reduzida quando se utiliza revestimentos de elevada dureza. Microestrutura e morfologia O tipo e os parâmetros do processo de deposição do revestimento são determinantes para a formação da microestrutura dos revestimentos (tamanho, estrutura e contorno do grão). O revestimento TiN de granulometria fina, depositado pelo processo PVD, tem desempenho comparado ao TiN depositado pelo processo CVD, que possui maior dureza. Os revestimentos PVD apresentam maior densidade de discordâncias em sua estrutura cristalina, fato que, associado às tensões residuais de compressão, podem contribuir para a elevação da dureza do revestimento. Adesividade No processo de deposição CVD a nucleação do revestimento se dá pelo processo de interdifusão. O bombardeio de elétrons da deposição assistida por plasma gera defeitos na estrutura cristalina do substrato, o que favorece a difusão do material do revestimento. Para a aplicação de revestimentos de diamante, a remoção do cobalto da superfície é Sandro Cardoso Santos 144 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS fundamental para a boa adesividade. Para isso faz-se um ataque e um tratamento térmico da superfície antes da deposição do revestimento. Condutividade térmica Sjöstrand et. al. (2001) considera a baixa condutividade térmica do revestimento como uma propriedade determinante para o bom desempenho dos revestimentos. Cselle (1998) afirma que as propriedades termoisolantes dos revestimentos são determinantes para o sucesso da usingem a seco e a usinagem a altas velocidades. As elevadas temperaturas que surgem na interface cavaco-ferramenta são o fator limitante da velocidade de corte adotada para um par ferramenta-peça. Ferramentas com menor condutividade térmica tendem a receber uma quantidade menor do calor gerado na zona de cisalhamento secundária, fazendo com que uma maior porção do calor gerado seja transferido ao cavaco. Werthein et al. (1982), ao avaliar a relação entre as propriedades térmicas e a resistência ao desgaste dos revestimentos TiN, TiC e Al2O3, depositados pelo processo CVD, concluiu que a maior resistência do Al2O3 a todos os mecanismos de desgaste está relacionada com a sua inércia química e a menor condutividade térmica entre os três revestimentos estudados. Tanaka (1980), ao investigar o desempenho de ferramentas de cermet (TiC e TiN) revestidas com TiN, obteve uma boa co-relação entre o desgaste de flanco e a condutividade térmica das ferramentas. 8.4 Ensaios de Laboratório para Caracterização de Revestimentos Este tópico apresenta alguns ensaios de laboratório desenvolvidos com o objetivo de caracterizar os revestimentos, com base na resistência ao desgaste, coeficiente de atrito, carga normal crítica e espessura da camada. Ensaio de Deslizamento Cilindros em Cruz O ensaio de cilindros em cruz é constituído de dois cilindros, um deles revestidos, com eixos dispostos em direções perpendiculares. Sobre eles é aplicada uma carga normal, um deles realiza o movimento de rotação o outro movimenta-se na direção paralela ao eixo do cilindro em movimento. O desenho esquemático da montagem do ensaio é mostrado na Figura 8.13. Sandro Cardoso Santos 145 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS CILINDRO NÃO REVESTIDO MOVIMENTO DE ROTAÇÃO CARGA NORMAL CILINDRO REVESTIDO MOVIMENTO DE TRANSLAÇÃO Figura 8.13 - Montagem esquemática do ensaio de deslizamento cilindros em cruz. Células de carga posicionadas nas direções dos eixos dos cilindros permitem o controle da força normal e a determinação da força de atrito. O ensaio permite determinar o coeficiente de atrito entre as superfícies, a taxa de desgaste ou a profundidade máxima do desgaste e a carga normal crítica. As variáveis do ensaio são a velocidade de deslizamento, a carga normal, as condições de lubrificação, os materiais do corpo e contra-corpo e os revestimentos. O revestimento é sempre colocado em contato com uma região nova do contra-corpo. A potencialidade do ensaio pode ser exemplificada pelo trabalho de Larson et al. (1991) que utilizou cilindros de aço rápido com 6 mm de diâmetro revestidos com TiN, TiAlN e sem revestimento e um contra-corpo de aço liga. A força normal foi mantida constante. A taxa de desgaste e o coeficiente de atrito foram determinados em função da velocidade e da distância de deslizamento. Os resultados mostraram que a taxa de desgaste dos cilindros revestidos foi praticamente nula nas duas situações, ao passo que o cilindro não revestido apresentou aumento exponencial com a velocidade de deslizamento e queda exponencial com a distância de deslizamento até estabilizar-se em um valor próximo a 1.10-15 m2/N. As Figuras 8.14 e 8.15 mostram a variação do coeficiente de atrito em função da velocidade e da distância de deslizamento, respectivamente. Os gráficos mostram que os coeficientes de atrito obtidos para os cilindros revestidos foram menores que os obtidos para o cilindro não revestido. O coeficiente de atrito dos cilindros revestidos com TiN e TiAlN apresentaram valores próximos, exceto no ensaios realizados a altas velocidades, onde o TiAlN apresenta desempenho ligeiramente superior, fato que é atribuído à formação de uma camada fina de Al2O3 que retarda o início do desgaste e pode ter ação lubrificante. O comportamento dos revestimentos em relação ao Sandro Cardoso Santos 146 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS desgaste também não apresentou diferença significativa, o que pode ser explicado pelo fato de os revestimentos de TiN e TiAlN não apresentarem diferenças significativas nos valores de dureza a quente, uma vez que no caso dos revestimentos, a dureza e a resistência ao Coe ficie nte de a trito desgaste apresentam uma boa relação. 0,8 0,6 SR 0,4 TiN 0,2 TiA lN 0 30 60 90 V e locida de de de sliz a m e nto (m /m in) SR = cilindros sem revestimento TiN = cilindros revestidos com TiN TiAlN = cilindros revestidos com TiAlN Figura 8.14 - Coeficiente de atrito em função da velocidade de deslizamento - distância de deslizamento de 150m (Larson et al., 1991). Sandro Cardoso Santos 147 Wisley Falco Sales Coe ficie nte de a trito ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 0,8 0,6 SR 0,4 TiN 0,2 TiA lN 0 5 25 75 150 Distâ ncia de de sliz a m e nto (m ) SR = cilindros sem revestimento TiN = cilindros revestidos com TiN TiAlN = cilindros revestidos com TiAlN Figura 8.15 - Coeficiente de atrito em função da distância de deslizamento - velocidade de deslizamento de 60 m/min (Larson et. al., 1991). Sato et. al. (1994) verificaram a influência da carga normal, da velocidade de deslizamento e da natureza do contra-corpo nos resultados do ensaio. Foi determinada uma carga normal crítica, a partir da qual ocorre adesão entre o corpo e o contra-corpo. A carga normal crítica decresce com o aumento da velocidade de deslizamento, de modo diferente para cada tipo de revestimento. Como de um modo geral o ensaio é utilizado para comparar a resistência ao desgaste de diferentes revestimentos, é necessário definir um parâmetro específico de comparação, uma vez que tanto a carga normal crítica quanto a máxima distância de deslizamento dependem da espessura do revestimento. Um parâmetro que leva em conta a espessura do revestimento foi definido como taxa de desgaste específica (λ), definido com λ = δ / PL δ<B (8.1) onde: δ é a profundidade do desgaste; Sandro Cardoso Santos 148 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS P é a carga normal; L é a distância de deslizamento; B é a espessura do revestimento; Os parâmetros para a determinação de λ são mostrados na Figura 8.16 B δ revestimento substrato Figura 8.16 - Representação esquemática da forma normal do desgaste no ensaio dos cilindros em cruz (Sato et al., 1994). Quando o valor de δ se iguala a B diz-se que λ representa o desgaste médio efetivo, representado por λm. λm = B / L0 (8.2) λm representa a taxa média de desgaste do revestimento em todo o percurso efetivo de deslizamento, ou seja, durante toda a distância de deslizamento percorrida até atingir o substrato. O valor de λm depende do valor da força normal aplicada e da velocidade de deslizamento (Sato et al., 1994). Sandro Cardoso Santos 149 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Ensaio de Microabrasão por Impressão de Calota Esférica O ensaio de microabrasão por impressão de calota esférica, também conhecido por “calowear” é o resultado da evolução de uma série de ensaios de abrasão desenvolvidos a partir da década de 1920 (Rutherford et. al., 1997). O ensaio consiste em imprimir uma calota esférica sobre a superfície da amostra, por meio de partículas abrasivas, dispersas em água e aplicadas entre a amostra e uma esfera em rotação. O esquema da montagem do ensaio é mostrado na Figura 8.17. O ensaio permite a determinação simultânea dos coeficientes de desgaste do revestimento e do substrato, além de fornecer o valor da espessura do revestimento. O equipamento permite o controle da carga normal aplicada e do número de rotações da esfera. Suporte para a amostra Esfera Motor elétrico Vista frontal Amostra Célula de carga Vista lateral Figura 8.17 - Esquema do ensaio de microabrasão. Os coeficientes de desgaste do revestimento e do substrato são calculados em função da carga normal aplicada, da distância de deslisamento e dos diâmetros “a” e “b” das impressões, mostrados na Figura 8.18. A espessura do revesimento é calculada em função dos valores de a e b. Sandro Cardoso Santos 150 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS O desenvolvimento matemático resulta na expressão (Rutherford et. al., 1997), para superfícies planas. L.F b4 = ks – kc πt - πRt2 ks.kc ks b4 + 1 π ks 64.R (8.3) Onde: L = distância total de deslizamento (m); F = carga normal (N); b = diâmetro total da impressão (m); t = espessura do revestimento (m); R = raio da esfera rotativa (m); ks = coeficiente de desgaste do substrato (m2/N); kc = coeficiente de desgaste do revestimento (m2/N); Substrato a b Revestimento Figura 8.18 - Desenho esquemático da vista superior das impressões na superície da amostra. Sandro Cardoso Santos 151 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Os resultados obtidos por Rutherford et al. (1996) em ensaios de caracterização de revestimentos utilizados em insertos de metal duro no processo de fresamento são mostrados na tabela 8.2. Tabela 8.2 - Resultados dos ensaios de dureza, microabrasão e fresamento de revestimentos depositados sobre o aço-rápido M2 (Rutherford et. al. 1996). Coeficientes de desgaste Revestimento Deposição Espessura Dureza (µm) HV0,1 (x10-12 m2/N) VB (µm/passe) Kc Ks 1. TiCN Evap. Térm. 2,1 1950 0,23 0,97 4,3 2. TiN Evap. Térm. 2,0 1470 1,78 0,85 36,4 3. TiCN “Sputtering” 3,2 1800 0,73 0,94 16,8 4. CrN “Sputtering” 3,1 1200 1,14 0,84 15,6 5. TiAlN “Sputtering” 2,6 1670 0,52 0,99 15,6 - 970 - 0,97 125 HSS - M2 A relação entre o coeficiente de desgaste dos revestimentos e suas respectivas taxas de desgaste é mostrada na Figura 8.19, de acordo com a Tabela 8.2. Sandro Cardoso Santos 152 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS VB (µm/passe) 2 1,5 1 0,5 0 1. TiCN 2. TiN 3. TiCN 4. CrN 5. TiAlN 1. TiCN 2. TiN 3. TiCN 4. CrN 5. TiAlN Kc (x 10-12 m2/N) 40 30 20 10 0 Figura 8.19 - Gráficos comparativos do coeficiente de desgaste e da taxa de desgaste dos revestimentos (Rutherford et al., 1996). Com base nos gráficos da Figura 8.19 pode-se concluir que, para o fresamento, existe uma boa co-relação entre os coeficientes de desgaste medidos pelo ensaio de microabrasão e as taxas de desgaste das ferramentas. As variáveis do ensaio de microabrasão são a carga aplicada sobre a amostra, a fração volumétrica de abrasivo em mistura com a água, tipo e tamanho de grão do abrasivo e a rotação da esfera. A variação dessas grandezas, principalmente a fração de abrasivo, e a carga sobre a amostra, permitem a alteração do mecanismo de desgaste predominante. Trezona et al. (1999) observou a mudança do mecanismo de desgaste abrasivo a três corpos para desgaste abrasivo a dois corpos por meio da elevação da carga aplicada e da redução da fração volumétrica de abrasivo. Sandro Cardoso Santos 153 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Ensaios para verificar a adesividade dos revestimentos O procedimento adotado para a determinação da adesividade do revestimento ao substrato é a identação com penetrador Rockwell. Esse procedimento permite apenas uma análise qualitativa, baseada em critérios subjetivos. A Figura 8.20 mostra exemplos de avaliação da adesividade de revestimentos. BOA Cone de diamante Revestimento PVD Substrato Identação HRC RUIM Figura 8.20 - Identação com penetrador HRC para determinação da adesividade dos revestimentos. A avaliação da adesividade de revestimentos necessita do desenvolvimento de uma metodologia que permita quantificar os resultados. A forma como ela é feita não estabelece o critério de transição entre uma adesividade considerada boa para uma adesividade ruim. 8.5 Perspectivas para o Futuro Segundo Hogmark et al. (2000) a evolução dos revestimentos deve se dar no campo de desenvolvimento de novos materiais e novas estruturas de camadas. Novos materiais Deve ocorrer aumento do campo de aplicação dos revestimentos diamantados, que hoje apresentam bons resultados na usinagem de alumínio. As características que tornam esse material promissor são: Sandro Cardoso Santos 154 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Elevada dureza e resistência ao desgaste; • Baixo coeficiente de atrito; • Elevada condutividade térmica; • Não é agressivo ao meio ambiente; O Al2O3 atualmente não pode ser depositado pelo processo PVD. O desenvolvimento da técnica de deposição física para esse tipo de revestimento aumentará o seu campo de aplicação, uma vez que o Al2O3 possui propriedades (inércia química, condutividade térmica, resistência ao desgaste, etc.) que o qualificam como um dos melhores materiais para revestimentos. O CBN, material que possui a segunda maior dureza entre os materiais conhecidos (em torno de 5200 HV) possui futuro promissor na aplicação como revestimento. Os compostos CxNy têm a característica de apresentar dureza relativamente elevada associada à elevada elasticidade. Tais compostos possuem estrutura semelhante à do diamante e são estáveis a temperaturas inferiores a 600 ºC. Acima dessa temperatura ocorre perda do Nitrogênio. Os chamados revestimentos “duplex” podem também ter seu campo de aplicação ampliado pelo fato de que a deposição de uma camada intermediária pode garantir o suporte mecânico, no caso de o substrato for um material relativamente macio. Os revestimentos multicamadas, que apresentam estruturas periodicamente repetidas, formadas por dois ou mais materiais, apresentam dureza superior à dos seus componentes isolados. Sua estrutura lamelar obstrui a propagação de trincas. Apresentam grande potencial de evolução, seja por meio da aplicação de diferentes materiais ou por meio de alteração da espessura de cada camada individual. Os revestimentos multicamadas com estrutura cristalinas similares tendem a formar cristais colunares que se estendem através de toda a espessura do revestimento, desde que as camadas sejam suficientemente finas, normalmente entre 5 e 25 nm. Esses são os chamados revestimentos “supermulticamadas”. Um dos primeiros exemplos desses revestimentos é o TiN-VN e o TiN-NbN que, segundo vários autores apresentam elevados valores de dureza e tenacidade. Estruturas com TiN e TaN apresentam bons resultados na usinagem de aços inoxidáveis. Acredita-se que isso ocorra devido à excelente tenacidade associada a uma baixa afinidade do TaN com o material da peça. Sandro Cardoso Santos 155 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS O campo de tensões, a dureza e a tenacidade de materiais policristalinos são, de modo geral, melhorados com o decréscimo do tamanho de grão (relação de Hall-Pectch). Fenômeno similar parece ocorrer para revestimentos finos, com tamanho de grão inferior a 1 nm, os chamados revestimentos nanocristalinos. Além de melhores propriedades mecânicas os revestimentos nanocristalinos podem apresentar maior expansão térmica, menor condutividade térmica e melhores propriedades óticas, magnéticas e eletrônicas. Os chamados revestimentos multicomponentes são formados por dois ou mais constituintes em forma de grãos, partículas ou fibras. Apesar de muitos revestimentos de camada única apresentarem estruturas multicomponentes a sua influência ainda é pouco conhecida. 8.6 Avaliação do desempenho de ferramentas revestidas A composição química do revestimento não é o único fator determinante do desempenho de ferramentas de corte revestidas. A espessura da camada e a estrutura do revestimento (monocamada, multicamadas, espessura de cada subcamada, etc.) também têm grande influência na vida das ferramentas revestidas. A seguir são apresentados exemplos práticos de investigações que demonstram essas afirmações. Como exemplos da influência da espessura da camada de revestimento sobre o desempenho de ferramentas revestidas são apresentados nas Figuras 8.21 e 8.22 resultados de ensaios de vida de brocas helicoidais de aço-rápido e metal duro. Na figura 8.21 são mostrados resultados de ensaios de vida, expressos em número de furos usinados antes de as ferramentas chegarem ao final de vida. 200 NÚMERO DE FUROS NÚMERO DE FUROS 200 150 100 50 0 SR T iN T iC N W C /C 150 100 50 0 SR MC REV ESTIMENTO T iN T iAlN MoS2 MC REV ESTIMENTO Brocas de aço-rápido Brocas de metal duro Figura 8.21 – Vida de brocas de aço rápido e metal duro na usinagem de ferro fundido cinzento. Observa-se que as brocas de aço rápido revestidas com TiN, WC/C e com revestimento multicamadas (MC) apresentaram desempenhos semelhante. O mesmo foi Sandro Cardoso Santos 156 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS verificado na comparação dos resultados obtidos para as ferramentas de metal duro revestidas com TiN, TiAlN e revestimento multicamadas. Esses resultados permitem determinar quais ferramentas de corte apresentam melhor desempenho, porém não possibilitam afirmar qual dos revestimentos apresenta maior resistência ao desgaste. Para avaliar a resistência ao desgaste dos revestimentos é necessário estabelecer uma relação entre a vida da ferramenta e a espessura da camada de revestimento. Na figura 8.22 são mostrados resultados que expressam o desempenho dos revestimentos com base no número de furos usinados por micrometro de espessura do revestimento. A espessura dos revestimentos foi obtida por meio do ensaio de microabrasão por impressão de calota esférica, apresentado na seção 8.4. µm de revestimento 350 80 60 40 20 0 TiN TiCN WC/C MC N.º de furos / N.º de furos / µm de revestimento 100 Brocas de aço-rápido 300 250 200 150 100 50 0 TiN TiCN WC/C MC Brocas de metal duro Figura 8.22 – Relação entre número de furos usinados/µm de espessura de revestimento de brocas de aço rápido e metal duro na usinagem de ferro fundido cinzento. Os valores apresentados na Figura 8.22 permitem constatar que o revestimento multicamadas, representado pela sigla MC, foi o que possibilitou a maior relação ente vida de ferramenta e a espessura do revestimento, tanto na furação com brocas de aço-rápido quanto com brocas de metal duro. Esses resultados demonstram que o revestimento multicamadas apresentou melhor resistência ao desgaste em relação aos demais. A estrutura dos revestimentos é outro fator que influencia o desempenho das ferramentas revestidas. Os resultados apresentados na Figura 8.23, obtidos em ensaios de vida de fresas-caracol na fabricação de engrenagens de aço, permitem ilustrar essa afirmação. As fresas-caracol utilizadas nos ensaios são fabricadas em aço-rápido e, segundo as propriedades dos revestimentos apresentadas na Seção 8.2, o TiAlN não apresentaria bom desempenho se depositado sobre ferramentas de aço-rápido, devido à sua pequena capacidade de resistir a deformações. Porém, de acordo com os resultados apresentados na Figura 8.23, o TiAlN foi o revestimento que apresentou melhor desempenho. Sandro Cardoso Santos 157 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 0,80 0,35 0,30 0,60 Desgaste de flanco VB Bmáx (mm) Comprimento da cratera (mm) 0,70 0,50 0,40 0,30 0,20 TiAlN TiAlN afiado TiN 0,10 TiCN + TiN 0,00 0 100 200 300 400 500 0,25 0,20 0,15 0,10 TiAlN TiAlN afiado TiN TiCN + TiN 0,05 0,00 600 0 100 200 300 400 500 600 Número de peça produzidas Número de peças produzidas Figura 8.23. Curvas de evolução do desgaste de fresas-caracol na usinagem de engrenagens de aço (Ornellas, 2004). O melhor desempenho do TiAlN na operação é creditado à estrutura em camadas múltiplas do revestimento, cujo efeito é a maior resistência ao desgaste. Com base nos resultados apresentados, pode-se concluir que as principais características que influenciam o desempenho de ferramentas revestidas são: • Composição química do revestimento; • Espessura total da cobertura; • Estrutura do revestimento. Não se pode deixar de levar em conta, ainda, o custo do revestimento, principalmente quando se trata de ferramentas que são reafiadas e novamente revestidas, como as fresas-caracol do exemplo anterior, pois o trabalho com essas ferramentas é caracterizado pelo ciclo de afiação e deposição do revestimento. Como a deposição do revestimento, via de regra, não é realizada nas instalações da fábrica, o intervalo de tempo entre o envio da ferramenta e o seu retorno deve ser considerado nos cálculos dos custos de fabricação. Sandro Cardoso Santos 158 Wisley Falco Sales CAPÍTULO IX AVARIAS, DESGASTE E MECANISMOS DE DESGASTE DA FERRAMENTA 9.1 Avarias nas Ferramentas de Corte As ferramentas de corte usadas no corte interrompido (fresamento) são freqüentemente rejeitadas por lascamento, trincamento ou quebras. Neste tipo de operação o desenvolvimento do desgaste uniforme, na superfície de folga ou saída, será dominante apenas se a ferramenta de corte possuir tenacidade suficiente para resistir aos choques mecânicos e térmicos inerentes a tais processos. No corte interrompido, uma aresta de corte pode sofrer avarias na entrada, no meio ou na saída do corte, durante um ciclo ou revolução da ferramenta. A influência da temperatura de corte no tipo de falha da ferramenta de corte é bem conhecido. As temperaturas num corte interrompido flutuam ciclicamente, aumentando durante o tempo ativo, diminuindo durante o tempo inativo. As condições térmicas das ferramentas de corte utilizadas em cortes interrompidos têm sido investigadas por vários pesquisadores (Bathia et alli, 1986 e Palmai, 1987). A variação cíclica desta temperatura é ilustrada na Figura 9.1. Nesta Figura a curva (a) representa o corte contínuo, em que a temperatura sobe rapidamente entrando em regime, a curva (b) mostra como o resfriamento ocorre cessado o corte, enquanto que a curva (c) é a resultante no corte interrompido, onde durante o ciclo ativo, há geração de calor, aumentando a temperatura da ferramenta, seguido do ciclo inativo, resfriando-a. Com isto a temperatura flutua ciclicamente. Figura 9.1 - Variação cíclica da temperatura de corte no processo de corte interrompido (Palmai, 1987). Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Resultados destas investigações mostraram que a distribuição de temperatura depende das condições de corte (principalmente velocidade de corte, avanço e relação entre o tempo ativo e inativo de um ciclo), do material da ferramenta de corte e do material da peça. A flutuação cíclica da temperatura na interface cavaco-ferramenta leva a uma modificação, também cíclica, da distribuição da tensão na região de corte da ferramenta, o que pode provocar a formação de trincas térmicas, conforme apresentado na Figura 9.2. Figura 9.2 - Distribuição da temperatura e de tensões em pastilhas de metal duro, no corte interrompido (Ferraresi, 1977). Ferraresi (1977) explica isto da seguinte maneira: “... a Figura 9.2“a” mostra a curva de distribuição de temperatura em relação à profundidade “X”, a partir do ponto de contato cavaco-ferramenta. A camada superficial, a uma temperatura bastante alta se dilata. Porém as camadas subsequentes a temperaturas inferiores, terão uma dilatação bem menor. Como consequência, tais camadas impedirão o processamento de uma dilatação muito maior na camada superficial (camada de contato cavaco-ferramenta) gerando tensões de compressão (Figura 9.2“b”). Em conseqüência disto, haverá tensões de tração a uma certa distância da superfície de contato. Num instante de tempo seguinte, com a variação da temperatura de corte, isto é, com o resfriamento da camada de contato (devido ao tempo inativo), essa camada estará submetida à tração, enquanto que as camadas subsequentes passarão a ser solicitadas à compressão (Figura 9.2 “c” e “d”). Recentemente, Wang et alli (1996) apresentaram um estudo teórico e experimental sobre a temperatura da ferramenta e o desenvolvimento de trincas no fresamento e, concluíram que a queda de temperatura na superfície da ferramenta durante o ciclo inativo pode ser desconsiderada. Segundo eles as tensões diminuem gradualmente dentro da ferramenta após ela sair do movimento de corte e perder contato com a peça. As trincas Sandro Cardoso Santos 160 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS térmicas não ocorrem nesse período. O ciclo de entrada e saída de calor é o responsável pelas trincas e fadigas de origem térmicas. Além da ação cíclica do corte interrompido, este fenômeno pode ser provocado por variação da temperatura causado por acesso irregular do refrigerante de corte (Ferraresi, 1977). Essa flutuação cíclica de tensão promoverá o aparecimento de trincas por fadiga nas ferramentas de metal duro (as ferramentas de aço rápido têm tenacidade suficiente para suportarem as variações de tensões sem nucleação de trincas). Essas trincas, que são de origem térmica, levarão ao desenvolvimento do que se conhece por “sulcos desenvolvidos em forma de pente”, ilustrado na Figura 9.3. Pesquisadores como Kakino et alli (1984) e Chandraserkaram (1985), têm se dedicado ao estudo da origem destas trincas. Eles concluíram que elas se tornam a maior causa de falhas na ferramenta, em velocidades de corte elevadas. Já a velocidades de corte baixas, as trincas de origem mecânica são as principais responsáveis pelas falhas das ferramentas de corte. Figura 9.3 - Sulcos desenvolvidos em forma de pente. 9.2 Desgaste nas Ferramentas de Corte Durante a usinagem dos metais a ação de cortar muda a forma e, portanto, a geometria original da ferramenta de corte. Verifica-se um desgaste progressivo tanto na superfície de folga como na superfície de saída da ferramenta. A Figura 9.4 apresenta as principais áreas de desgaste. Sandro Cardoso Santos 161 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 9.4 - Principais áreas de desgaste de uma ferramenta de corte (Dearnley e Trent e Wright, 1982). Com base na Figura 9.4 pode-se distinguir pelo menos três formas de desgaste: i) Desgaste de cratera (área A); ii) Desgaste de flanco (área B); iii) Desgaste de entalhe (áreas C e D). As fotografias apresentadas na Figura 9.5 foram obtidas por meio de microscopia eletrônica de varredura e permitem identificar o desgaste de cratera nas ferramentas de corte. Sandro Cardoso Santos 162 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 9.5 Desgaste de cratera em ferramentas de corte. Antes que um desses desgastes atinja grandes proporções, de maneira a colocar o processo de corte em risco, a ferramenta deverá ser reafiada ou substituída. Mecanismos de Desgaste Em condições normais de corte, uma das formas de desgaste apresentadas na Figura 9.4 irá prevalecer, e se desenvolver por vários mecanismos. A literatura apresenta variações na classificação dos mecanismos de desgaste, porém, grande parte dos trabalhos existentes consideram pelo menos seis mecanismos diferentes (Ferraresi, 1977, e Palmai, 1987), sumarizados na Figura 9.6. Sandro Cardoso Santos 163 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS "Attrition" Figura 9.6 - Mecanismos e processos de desgaste que podem acontecer nas ferramentas de corte (Trent e Wright, 1991). Os mecanismos de desgaste como difusão, abrasão ou "attrition" atuam isoladamente ou em conjunto, promovendo desgastes nas formas de deformação plástica por cisalhamento, por altas tensões de compressão ou por entalhe. No quadro apresentado na Figura 9.6 podem ser considerados mecanismos de desgaste os de numerais: 3, 4 e 5, enquanto são formas de desgaste os de numerais: 1, 2 e 6. A seguir serão definidos cada um destes mecanismos ou formas: Deformação Plástica Superficial por Cisalhamento a Altas Temperaturas Este não é propriamente um mecanismo mas sim um processo de desgaste e ocorre mais provavelmente na usinagem de metais com alto ponto de fusão em ferramentas de aço rápido. As tensões cisalhantes na interface cavaco-ferramenta são suficientes para causar deformação plástica superficial. Devido às altas temperaturas ali desenvolvidas, a resistência ao escoamento do material da ferramenta, próximo à interface, é reduzida. Como conseqüência, material é arrancado da superfície da ferramenta, formando-se assim uma cratera como visto na Figura 9.6 ”1”. Sandro Cardoso Santos 164 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Deformação Plástica da Aresta de Corte sob Altas Tensões de Compressão Este também é mais um processo do que um mecanismo de desgaste, que ocorre na usinagem dos materiais de alta dureza. A combinação de altas tensões de compressão com altas temperaturas na superfície de saída, pode provocar deformação plástica da aresta de corte das ferramentas de aço rápido e metal duro. Geralmente ocorre a altas velocidades de corte e avanço e leva a uma falha catastrófica (Figura 9.6 ”2”). A deformação plástica da aresta de corte pode ser observada na Figura 9.7. A B Figura 9.7 Aspecto da aresta de corte de uma broca de metal duro deformada plasticamente. A – ferramenta nova; B – ferramenta após chegar ao final de vida (Santos, 2002) Desgaste Difusivo Este mecanismo envolve a transferência de átomos de um material para outro e é fortemente dependente da temperatura e solubilidade dos elementos envolvidos na zona de fluxo. A área desgastada, quando observada no microscópio, é "lisa". Em usinagem, as velocidades relativas entre ferramenta e peça ou entre cavaco e ferramenta são altas e o Sandro Cardoso Santos 165 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS tempo de contato entre estes materiais é muito pequeno. Isto praticamente levaria o mecanismo de difusão a ser desprezível, se não fosse a existência de uma zona de aderência (zona morta ou zona de fluxo) na interface cavaco-ferramenta (Trent e Wright, 1991). A saturação desta zona de aderência poderá funcionar como uma barreira à difusão. Entretanto esta zona não é estável e se renova periodicamente, garantindo assim o fluxo difusivo. Este mecanismo de desgaste poderá atuar tanto na superfície de saída como na superfície de folga, e a taxa de desgaste irá aumentar com aumento da velocidade de corte e avanço (Figura 9.6 ”3”). Desgaste por Aderência e Arrastamento - "attrition" Este mecanismo ocorre, geralmente, a baixas velocidades de corte, onde o fluxo de material sobre a superfície de saída torna-se irregular. A aresta postiça de corte pode aparecer e o contato com a ferramenta torna-se menos contínuo. Sob estas condições, fragmentos microscópicos são arrancados da superfície da ferramenta e arrastados junto com o fluxo de material. Este fenômeno geralmente ocorre na zona de escorregamento ao invés da zona de aderência, durante o fresamento, com uso de profundidade de corte irregular ou falta de rigidez do equipamento, ilustrado na Figura 9.6 ”4”). No microscópio, as áreas desgastadas por "attrition" tem uma aparência áspera. Desgaste Abrasivo O desgaste abrasivo envolve a perda de material por micro-sulcamento, micro-corte ou micro-lascamento causado por partículas de elevada dureza relativa. Estas partículas podem estar contidas no material da peça (óxidos, carbonetos e carbonitretos), ou podem principalmente ser partículas da própria ferramenta que são arrancadas por attrition, por exemplo. Este mecanismo de desgaste é muito importante na usinagem usando pastilhas revestidas, cerâmicas puras e cerâmicas mistas (Figura 9.6 ”5”). Marcas de desgaste abrasivo podem ser identificadas na Figura 9.8. Sandro Cardoso Santos 166 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 9.8 Identificação de marcas de desgaste abrasivo (Campos, 2004). Desgaste de Entalhe O desgaste de entalhe não é propriamente um mecanismo, mas sim uma forma de desgaste. Porém, ainda não existe um consenso na literatura que explique exatamente o mecanismo que provoca o desgaste de entalhe. Ele ocorre, principalmente, na usinagem de materiais resistentes a altas temperaturas e com alto grau de encruamento (tais como: ligas de níquel, titânio, cobalto e aço inoxidável). Geralmente, nas regiões onde acontece este tipo de desgaste, as condições de escorregamento prevalecem e o mecanismo de desgaste, provavelmente, envolve abrasão e transferência de material (difusão e "attrition") e eles são bastante influenciados por interações com a atmosfera. Existem evidências para sugerir que óxidos se formam continuamente e se aderem na ferramenta naquelas regiões. A quebra das junções de aderência entre os óxidos e a ferramenta pode ocasionalmente, remover material da superfície desta última (Wright e Biaggi, 1981). Shaw et alli (1966) afirmam que o entalhe na forma de V é formado pelas rebarbas produzidas nas arestas laterais do cavaco, envolvendo um mecanismo de aderência e arrancamento (Figura 9.6 ”6”). Richards e Aspinwall (1989) também concordam com esta teoria. König e Schemmel (1975) classificam o desgaste por oxidação como um mecanismo de desgaste. Segundo ele, a formação de óxidos é dependente da liga do material da ferramenta e da temperatura de aquecimento. Para materiais de aço ferramenta e de aço rápido, a oxidação praticamente não tem importância, já que a sua resistência a quente é ultrapassada antes que a superfície apresente uma oxidação mais acentuada, embora Trent Sandro Cardoso Santos 167 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS e Wright e Wright (1999) mostre evidências de formação de óxidos nestas ferramentas. Para as ferramentas de metal duro, compostos a base de carbonetos de tungstênio e de cobalto, a oxidação inicia-se na faixa de temperatura entre 700 a 800 ºC. A adição de óxido de titânio e outros carbonetos dificultam a oxidação. A região de oxidação normalmente se processa na zona de escorregamento da superfície de saída da ferramenta e na parte inferior da superfície de folga (nos limites do desgaste de flanco). São formados óxidos complexos de tungstênio, cobalto e ferro, que em decorrência da sua expansão volumétrica, em relação ao carboneto de tungstênio, forma elevações na superfície da ferramenta, facilitando o lascamento e a quebra da aresta de corte. Todos estes mecanismos ou processos de desgaste são observados na prática. Mas, certamente, um prevalecerá sobre os demais, dependendo principalmente do material da peça e da ferramenta, da operação de usinagem, das condições de corte, da geometria da ferramenta de corte e do emprego do fluido de corte. Em geral, os três primeiros mecanismos, somados ao desgaste por oxidação, são mais importantes a altas taxas de remoção de material, onde há o desenvolvimento de elevadas temperaturas. Os três últimos são mais importantes a baixas velocidades, onde as temperaturas de corte são baixas o suficiente para prevenir a ocorrência dos três primeiros (Machado e Da Silva, 1993). Na ferramenta mostrada na Figura 9.9 pode-se identificar a presença do desgaste de entalhe. Figura 9.9 – Desgaste de entalhe em ferramenta de corte. Na Figura 9.10 mostra-se uma curva de desgaste de flanco em função do número de peças produzidas. Neste caso as peças são blocos motores de ferro fundido cinzento GH 190 (Souza Jr., 2001). Sandro Cardoso Santos 168 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 0,60 ap=0,3 mm e fz=0,06 mm/z ap=0,5 mm e fz=0,06 mm/z VBB max[mm] 0,50 0,40 0,30 0,20 0,10 3000 2800 2600 2400 2200 2000 1800 1600 1400 1200 1000 800 600 400 50 1 0,00 Número de Peças Figura 9.10 – Desgaste dos insertos de PCBN com o número de blocos motores (Souza Jr., 2001). Sandro Cardoso Santos 169 Wisley Falco Sales CAPÍTULO X VIDA DA FERRAMENTA E QUANTIFICAÇÃO DO DESGASTE 10.1 – Introdução No Capítulo 8 são mostradas as formas de desgaste predominantes na ferramenta de corte e os possíveis mecanismos atuantes que podem promover estas formas. Neste capítulo serão abordados tópicos relativos à quantificação do desgaste da ferramenta. Antes, é preciso definir vida da ferramenta (Ferraresi, 1976): “Vida da ferramenta é o tempo em que a mesma trabalha efetivamente, sem perder o corte ou até que se atinja um critério de fim de vida previamente estabelecido” O fim de vida de uma ferramenta de corte será definido pelo grau de desgaste previamente estabelecido. O tamanho deste desgaste irá depender de inúmeros fatores. Entre outros, pode-se citar os seguintes: • Receio de quebra da cunha cortante; • Elevadas temperaturas atingidas na interface cavaco-ferramenta; • As tolerâncias dimensionais estabelecidas no projeto já estão comprometidas; • O acabamento da superfície usinada já não é mais satisfatório; • Aumento nas dimensões das rebarbas; • Aumento da força de usinagem; • Aumento do nível de ruído; • Aumento do nível de vibrações; • Outros. Como expressar a vida da ferramenta Fixado um critério para fim de vida, como exemplo o estabelecido na Norma ISO 3685, ou em experiências acumuladas anteriormente, a vida da ferramenta pode ser expressada de diversas maneiras: • Número de peças produzidas; Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Percurso de avanço (mm); • Percurso efetivo de corte (Km); • Velocidade de corte para determinado tempo de vida (ex. vc60 = 150 m/min); • Volume de material removido; • Outros. 10.2 - Estudo das formas de desgaste Neste tópico serão abordados os aspectos característicos da formas dominantes de desgaste, como flanco, cratera e entalhe. Durante o processo de usinagem, ocorre o contato físico da ferramenta com a peça e o contato do cavaco com a ferramenta, em um determinado meio e condições dinâmicas de corte. Isto conseqüentemente acarretará mudanças na geometria e na forma original da aresta da ferramenta, devido a ocorrência de desgaste progressivo. Na Figura 8.4 mostrou-se as principais áreas de desgaste e identifica três formas de desgastes: flanco, cratera e entalhe. A seguir serão apresentados os principais mecanismos associados a cada uma dessas formas. 10.2.1 - Desgaste de Cratera Segundo Aspinwail e Chen (1978), este tipo de desgaste geralmente está associado às elevadas temperaturas geradas na interface cavaco ferramenta, ocorrendo devido a combinação dos mecanismos de desgaste denominados difusão e adesão, e ocorrem na superfície de saída da ferramenta durante o deslizamento do cavaco pela mesma. A máxima profundidade de cratera geralmente ocorre próxima ao ponto médio do comprimento de contato entre o cavaco e a superfície de saída, onde, acredita-se, a temperatura atinja seu maior valor. A posição da cratera relativa a aresta de corte varia de acordo com o material usinado, ocorrendo em geral atrás da aresta de corte. A profundidade e a largura da cratera formada na superfície de saida da ferramenta, estão relacionadas à velocidade e ao avanço empregados durante o processo de corte (Ferraresi, 1977). Pode não ocorrer em alguns processos de usinagem, principalmente quando se utiliza ferramentas de metal duro recobertas (a cobertura de Al2 O3 é a mais eficiente contra a craterização), ferramentas cerâmicas e quando o material da peça é frágil (gera cavacos curtos). O crescimento do desgaste de cratera gera a quebra da ferramenta, quando tal desgaste se encontra com o desgaste frontal.(Diniz et al,1999) Sandro Cardoso Santos 171 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 10.2.2 - Desgaste de Entalhe Conforme comentado no item 3.10.6 o mecanismo de formação do entalhe não está bem explicado. Portanto consideraremos que sob certas circunstâncias e condições de operação, um grande entalhe é formado na aresta principal de corte (detalhe ‘O’ da Figura 2.20) , na extremidade livre do cavaco, levando ao enfraquecimento da aresta de corte. Entalhes menores também são formados na aresta secundária de corte (detalhe ‘D’ da Figura 3.13), influenciando principalmente o acabamento superficial produzido. 10.2.3 - Desgaste Flanco Em geral, é o principal fator a limitar a vida das ferramentas de corte. Decorre da perda do ângulo de folga da ferramenta, ocasionando um aumento da área de contato entre a superfície de folga e o material da peça, aumentando consequentemente o atrito naquela área.Todo processo de usinagem causa desgaste de flanco, este tipo de desgaste provoca a deteriorização do acabamento superficial e a perda das características dimensionais da peça. Este desgaste é incentivado pelo aumento da velocidade de corte. Beloni (2001) descreve em sua tese o modelo gráfico que Smith (1989), apresentou para representar a evolução do desgaste de flanco VBBmáx com o tempo de usinagem (curva da Figura 10.1). Nesta curva tem-se destacada a evolução do desgaste por regiões, denominadas de região primária ou inicial, região secundária ou progressiva e região terciária ou catastrófica. Figura 10.1 - Curva representativa da evolução do desgaste de flanco de uma ferramenta (Smith,1989). Smith (1989) apresentou como justificativa para a ocorrência dessas regiões a própria evolução do desgaste durante o corte. A região inicial, no inicio do processo de corte, é caracterizada pela fase de acerto das arestas cortantes ainda novas sobre a peça. Nesta etapa, tem-se um crescimento bem acelerado do desgaste de flanco. Com o decorrer da Sandro Cardoso Santos 172 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS usinagem, já na região secundária da Figura 10.1, verifica-se uma evolução menos acentuada do desgaste, justificada pela uniformidade que o contato das arestas da ferramenta passam a ter com o material da peça. Mas com o crescimento do tempo de trabalho, a medida que a ferramenta vai se desgastando, a evolução do desgaste VBBmax passa outra vez a crescer rapidamente. Essa nova etapa, denominada região terciária ou catastrófica, e que normalmente se inicia quando a ferramenta atinge valores de desgaste de flanco máximo da ordem de 0.8 mm, caracteriza a necessidade de se proceder a substituição das ferramentas por outras novas 10.3 - Critérios para medição de desgaste de uma ferramenta A norma ISO 3685 utiliza os parâmetros KT, VBB, VBBmáx e VBN para quantificar o desgaste nas ferramentas de corte (Figura 10.3). O critério recomendado para avaliar ferramentas de aço-rápido , metal duro e cerâmica é: a) Desgaste de flanco médio, VBB= 0.3 mm; b) Desgaste de flanco máximo, VBBmáx = 0.6 mm; c) Profundidade de cratera, KT = 0,06 + 0,3 f, onde f é avanço em mm/rev; d) Falha catastrófica. Mede-se ainda o valor dos desgastes gerados na superfície de folga pelos entalhes (VBN e VBC). Na superfície de saída tem-se os desgastes: profundidade de cratera (Kt), largura da cratera (KB) e distância do centro da cratera à aresta de corte (KM), conforme esquematizado na Figura 10.3. Sandro Cardoso Santos 173 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 10.2 – Parâmetros utilizados para medir os desgastes das ferramentas de corte (Trent e Wright,1999). 10.3.1 - Quantificação da Vida da Ferramenta Uma metodologia simplificada para expressar a vida da ferramenta, T, em função da velocidade de corte, vc, mantendo os demais parâmetros (f, ap, geometria, materiais da ferramenta e da peça, processo, máquina e fluido) constantes, consiste, incialmente em levantar pelo menos três curvas de desgaste, para três distintas vc, conforme esquematizado na Figura 10.3. a) Curvas de desgaste b) T x vc. Figura 10.3 – Gráficos auxiliares para expressar a vida da ferramenta em função da velocidade de corte. Sandro Cardoso Santos 174 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Obtida a parte “a” da Figura 10.3, deve-se estabelecer o critério de fim de vida da ferramenta e neste caso foi VBBmáx = 0,8 mm, obtendo-se três pontos “m”, “n” e “o”. Cada ponto tem as suas coordenadas relativas ao eixo “x”, correspondentes à vida, T em min e em relação ao eixo “y”, correspondentes à vc em m/min. De posse destes pontos constrói-se o gráfico apresentado na Figura 10.3 “b”. Para linearizar a curva, no próximo passo, aplicase logaritmo nos dois eixos e obtém-se o gráfico mostrado na Figura 10.4. Figura 10.4 – Gráfico logT x logvc. A partir deste gráfico, demonstra-se matematicamente que a vida da ferramenta, T, pode ser expressa em função da velocidade de corte, vc, pela Equação Simplificada de Taylor (Equação 10.1). T = K .vc −x (10.1) As Análises da Equação (10.1) e da Figura 10.4, conduzem a observações que K é a vida da ferramenta para vc = 1 m/min e x é corresponde à inclinação da reta. Esta equação é bastante simplificada, pois na sua obtenção diversos parâmetros foram assumidos constantes. Portanto, ela só tem aplicação dentro da faixa de vc avaliada e para vc menores do que o limite inferior ensaiado, não é recomendado a sua utilização, já que ela por regra geral, somente se aplica à região fora da APC (aresta postiça de corte). Uma análise mais realista pode ser realizada para o estabelecimento da relação da vida da ferramenta com os diversos parâmetros que influenciam na usinagem. Isso pode ser Sandro Cardoso Santos 175 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS estabelecido por meio da Equação Expandida de Taylor, segundo a Equação (10.2). −a −c T = K .vc . f −b .a p .V d BBmáx . fluidoe . processog .vibraçãoh (10.2) Nesta equação podem ser incorporados os diversos parâmetros de influência, mas o seu grande inconveniente é o enorme tempo de obtenção. São necessários inúmeros ensaios experimentais, consumindo horas de máquina, mão-de-obra e materiais, o que faz com que os custos associados sejam muito elevados. Em ambientes industriais essa forma expandida praticamente não tem nenhuma aplicação. Mas, a forma simplificada é freqüentemente obtida, principalmente devido aos coeficientes K e x serem utilizados para a determinação das condições econômicas de corte: velocidade de corte de máxima produção (vcmxp) e de mínimo custo (vcmincus), que definem o Intervalo de Máxima Eficiência (IME). Sandro Cardoso Santos 176 Wisley Falco Sales CAPÍTULO XI FLUIDOS DE CORTE: FUNDAMENTOS, APLICAÇÕES E TENDÊNCIAS 11.1 - Introdução Inúmeros trabalhos científicos estão direcionados ao estudo dos fluidos de corte nos processos de usinagem. Neste capítulo é feita uma revisão desse assunto e apresentada de forma sintetizada para melhor entendimento. 11.2 - Funções dos Fluidos e Aditivos Utilizados As principais funções dos fluidos de corte são de refrigerar em altas velocidades e de lubrificar em baixas velocidades de corte. Apresentam, ainda outras funções classificadas como auxiliares. Como Agem os Fluidos de Corte Ainda não está completamente claro como o fluido de corte ganha acesso a interface, nem até que ponto ele pode chegar. Rebinder e Shreiner (1949) apud Smith et alli (1988) apresentaram uma teoria que defende a ação físico-química entre o fluido, a ferramenta e a peça. Merchant (1950 e 1957) e Postinikov (1967) sugerem que o lubrificante penetra contra o fluxo de metal, chegando à ponta da ferramenta por ação capilar, assumindo que o contato com a interface não é completo, ou seja, há falhas de contato. Isto caracteriza a ocorrência das condições de escorregamento e que há a formação de um filme lubrificante de baixa tensão de cisalhamento, na interface cavaco-ferramenta. Williams e Tabor (1977), por meio de experimentos onde usou oxigênio e argônio puros e suas misturas com CCl4 como lubrificantes na usinagem do aço, verificaram que a penetração do fluido depende da pressão de vapor e do tamanho molecular. Eles ainda propuseram um modelo para estimar as dimensões das capilaridades interfaciais, que seriam de alguns milhares de Angstrons (Å). Trent (1967, 1988 “a”, “b”, “c” e 1991) em seus estudos sobre a interface cavacoferramenta, mostra evidências, por meio de técnicas de interrupção repentina do corte seguida de análises metalográficas da raiz do cavaco, da existência de uma zona de aderência e que o lubrificante não tem acesso a esta zona. Childs e Rowe (1973) também Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS sustentam esta teoria e comentam que atenção deve ser voltada, então, para a zona de escorregamento. Em velocidades de corte mais elevadas, os fluidos de corte passam a atuar mais como refrigerantes e menos como lubrificantes, Trent (1991) diz que, nestas condições, o fluido atua na zona de escorregamento, alterando o gradiente térmico na ferramenta e reduzindo o volume da mesma afetado pelo superaquecimento. Williams (1977) explica que o fluido perde o efeito lubrificante a altas velocidades de corte, quando o fluxo de fluido que tende a fluir em direção à ponta da ferramenta por ação capilar, é direcionado para fora da interface por uma ação hidrodinâmica induzida. Este efeito seria mais pronunciado com o aumento da velocidade de saída do cavaco. Assim o fluido utilizado em altas velocidades de corte teria apenas características refrigerantes, recomendando-se um óleo à base de água. De Chiffre (1977) apresentou modelos que fornecem descrições analíticas para diferentes relações envolvidas na utilização de fluidos de corte nos processos de usinagem. Segundo ele, há uma redução no comprimento de contato, implicando em: 1) - Redução do grau de recalque, isto é, um cavaco mais fino é obtido; 2) - O grau de deformação do cavaco é reduzido; 3) - A velocidade de saída do cavaco é aumentada; 4) - Forças e potências de corte são reduzidas; 5) - Vibrações são reduzidas; 6) - A formação da aresta postiça de corte é reduzida (também reportado por Trent,1991); 7) - Redução na geração de calor, com conseqüente redução da temperatura na interface. Este pesquisador reforça esta teoria em outros trabalhos (De Chiffre 1978, 1981, 1984 e 1988). Vários mecanismos de desgaste tais como adesivo, abrasivo e difusivo estão operando simultaneamente sobre a ferramenta e a intensidade de cada um não depende exclusivamente das propriedades dos materiais da peça e da ferramenta, mas também de Sandro Cardoso Santos 178 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS fatores tais como temperatura e tensão normal, que são dependentes das condições de corte (Kurimoto e Barrow, 1981). Os fluidos de corte podem agir em tais fatores e influenciar estes mecanismos, seja reduzindo a taxa de desgaste, daqueles termicamente ativados, quando o fluido age como refrigerante, ou agindo como lubrificante, prevenindo os mecanismos de desgaste por adesão ou "attrition". Por outro lado, Trent (1991) apresenta algumas situações onde o fluido pode aumentar a taxa de desgaste, quando acessa a regiões desgastadas e promove uma aceleração do mecanismo de desgaste corrosivo, que se sobrepõe aos demais mecanismos. Motta (1994), utilizando fluidos emulsionáveis, semi-sintéticos, sintéticos e integrais, em aço NB 8640, no processo de torneamento com ferramentas de metal duro triplo revestidas, mostrou que a utilização de fluidos melhorou em todos os casos a vida da ferramenta. Já no processo de fresamento, Vieira (1997), também usinando o aço NB 8640, com fluidos emulsionáveis, semi-sintéticos, sintéticos e integrais e ferramentas de metal duro, encontrou que a utilização de fluidos piora a vida da ferramenta e, para este processo, nas condições utilizadas, o fluido não é recomendado. Recentemente, Dewes et alli (1998), também no fresamento do aço para matrizes AISI H13, com fresas de metal duro revestidas com TiCN, usinando nas seguintes condições: a seco; com uma mistura pulverizada; com o método convencional de baixa pressão e à alta pressão, encontraram que a condição a seco apresentou maior vida, enquanto que a alta pressão a menor. Com isto, concluíram que a vida da fresa é governada predominantemente pela flutuação térmica e não pela máxima temperatura de operação, o que concorda com os resultados apresentados por Vieira (1997). Maekawa et alli (1998) fizeram um estudo, no processo de torneamento, questionando a eficiência dos fluidos de corte. Eles concluíram que os fluidos à base de água podem ser substituídos pela condição a seco, em vc = 350 m/min, f = 0,25 mm e ap = 0,5 mm, sem nenhuma perda nas características da peça. Concluíram também que a usinagem sem fluido reduz levemente a vida das ferramentas, e o aumento do custo de produção é relativamente pequeno. Recentemente Da Silva et alli (1998) mostraram evidências que na ausência de fluidos, há o contato perfeito na interface, mesmo sob baixos níveis de tensão. Na presença do fluido de corte (ar, água, óleo, etc.) ele irá preferencialmente atuar na periferia da zona de aderência, evitando o contato cavaco-ferramenta nesta zona, denominada de zona de escorregamento (Trent, 1991). Isto resulta na redução da oscilação do comprimento de contato cavaco-ferramenta e das forças de usinagem. Ele mostrou também, usinando no vácuo, que o ar atmosférico apresenta igual ou superior performance na redução destas Sandro Cardoso Santos 179 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS oscilações que o fluido de corte. Já em altas velocidades de corte, a elevada temperatura gerada na interface pode promover a formação de gases oriundos do fluido e gerando uma barreira e comprometendo ainda mais o seu acesso. Exatamente neste ponto entra todas as justificativas e defesas da utilização de vazões de fluidos cada vez mais reduzidas e direcionadas exatamente onde o fluido pode acessar, que é na zona de escorregamento (Machado e Wallbank, 1997 "a" e "b", Da Silva e Wallbank, 1998 e Da Silva, 1998). Quanto à capacidade do fluido de corte em limpar os cavacos da zona de corte, depende da viscosidade e vazão do mesmo, além é claro da operação de usinagem e do tipo de cavaco sendo formado (Machado e Da Silva, 1993). Em processos como a furação e o serramento, a ação mecânica do fluido é de suma importância, pois ele atuando como meio transportador pode evitar a obstrução do cavaco na zona de corte e, consequentemente, a quebra da ferramenta. Os fluidos de corte, além de refrigerar e de lubrificar, devem ainda possuir outras propriedades que produzirão, em níveis operacionais, melhores resultados. Estas propriedades podem ser enumeradas, como segue: Anti-espumantes, anticorrosivas e antioxidantes; antidesgaste e antisolda (EP); boa umectação; capacidade de absorção de calor; transparência, inodor, não formar névoa, nem provocar irritações na pele; compatibilidade com o meio ambiente; baixa variação da viscosidade quando em trabalho (índice de viscosidade compatível com a sua aplicação). Para conferir aos fluidos de corte estas propriedades ou para reforçá-las, alguns produtos químicos, chamados de aditivos, são utilizados: • Antiespumantes - Evitam a formação de espumas que podem impedir uma boa visão da região de corte e comprometer o efeito de refrigeração do fluido. Estes aditivos reduzem a tensão interfacial do óleo de tal maneira que bolhas menores passam a se agrupar formando bolhas maiores e instáveis. No controle das espumas geralmente usase cêras especiais ou óleos de silicone. • Anticorrosivos - Protegem peça, ferramenta e máquina-ferramenta da corrosão. São produtos à base de nitrito de sódio ou que com ele reagem, óleos sulfurados ou sulfonados. É recomendável usar o nitrito de sódio com precaução, pois são suspeitos de serem cancerígenos. Deve-se usar baixos teores de nitrito de sódio. • Detergentes - Reduzem a deposição de lodo, lamas e borras. São compostos organometálicos contendo magnésio, bário, e cálcio entre outros. Sandro Cardoso Santos 180 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Emulgadores - São responsáveis pela formação de emulsões de óleo na água e vice-versa. Reduzem a tensão superficial e formam uma película monomolecular semiestável na interface óleo-água. Os tipos principais são os sabões de ácidos graxos, as gorduras sulfatadas, sulfonatos de petróleo e emulgadores não-iônicos. • Biocidas - Substâncias ou misturas químicas que inibem o desenvolvimento de microorganismos. • Aditivos Extrema Pressão (EP) Em operações mais severas onde uma lubricidade adicional é necessária, pode-se utilizar de aditivos extrema pressão. Eles conferem aos fluidos de corte uma lubricidade melhorada para suportarem as elevadas temperaturas e pressões do corte, reduzindo o contato metal-metal. São compostos que variam na estrutura e composição. São suficientemente reativos com a superfície usinada, formando compostos relativamente fracos na interface, geralmente sais (fosfeto de ferro, cloreto de ferro, sulfeto de ferro, etc.) que se fundem a altas temperaturas e são facilmente cisalháveis. Podem ser relacionados em ordem crescente de eficiência como: matérias graxas e derivados, fósforo e zinco, clorados, sulfurizados inativos, sulfurizados ativos, sulfurados e os sulfuclorados. Os mais empregados são aditivos sulfurizados, sulfurados e fosforosos. Lubrificantes Sólidos Os sólidos podem ser utilizados com objetivos de lubrificação de duas maneiras distintas (Ferraresi, 1977): a) Lubrificantes Sólidos - pó aplicado diretamente na superfície de saída da ferramenta, antes da operação de usinagem. Geralmente é utilizado como veículo uma graxa ou um óleo viscoso. As minúsculas partículas, de dissulfeto de molibdênio (MoS2) ou grafite, que apresentam tensões limites de cisalhamento baixas, se aderem às asperidades da superfície, reduzindo o atrito entre as superfícies metálicas; b) Aditivos Metalúrgicos - são elementos adicionados ao material da peça durante a sua fabricação. Normalmente são adicionados enxofre, bismuto, chumbo, manganês, telúrio ou selênio. Estes elementos combinados normalmente formam compostos de menores resistências ao cisalhamento que a própria matriz. Nos processos de fabricação destes materiais, como no caso dos aços, a desoxidação feita com o cálcio tem apresentado melhores resultados que quando feita com o silício, e influenciam nas características finais dos metais. São então produzidos os materiais chamados de livre corte, por apresentarem Sandro Cardoso Santos 181 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS melhor usinabilidade que o mesmo, sem a adição destes elementos, podendo ser usinados a velocidades de corte maiores e proporcionando maiores vida das ferramentas de corte (Pizzi et al., 1997). 11.3 - Benefícios Proporcionados pelos Fluidos de Corte Modernamente tem-se obtido grandes avanços quanto à qualidade dos fluidos de corte, e estes avanços tem sido conseguido devido à alta competitividade dos fornecedores e a pressão exercida por agências de proteção ambiental e de saúde. As principais funções do fluido de corte são: • Lubrificar a baixas velocidades de corte; • Refrigerar a altas velocidades de corte. Como funções secundárias, tem-se: A - Melhoria no acabamento superficial da peça usinada; B - Ajudar a retirar o cavaco da zona de corte; C - Proteger a máquina-ferramenta e peça da corrosão atmosférica; D - Evitar o aquecimento excessivo da peça; E - Contribuir na quebra do cavaco; F - Refrigerar a máquina-ferramenta. A - O acabamento superficial dos componentes usinados está relacionado com a força de usinagem que depende dentre outros fatores, da qualidade da lubrificação usada. Pequenas partículas da aresta postiça de corte é outro fator que deteriora imensamente o acabamento superficial da peça usinada. O uso de fluidos lubrificantes torna-se benéfico a baixas velocidades de corte, tendendo a eliminar a APC, resultando em melhoria do acabamento superficial (Trent, 1991). Em elevadas velocidades de corte, o fluido atua mais como refrigerante, abaixando a temperatura média nas zonas de cisalhamento, principalmente na primária, já que praticamente não tem acesso à secundária. Com isto o efeito de amolecimento do material, Sandro Cardoso Santos 182 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS devido ao aumento da temperatura fica reduzido, o que faz com que as forças de corte se elevem, e que poderá promover piora na rugosidade da superfície da peça. B - O cavaco formado deve ser retirado da região de corte, pois o mesmo pode eventualmente riscar ou comprometer o acabamento superficial do material usinado ou promover avarias nas pastilhas de corte. Em processos como furação e brochamento, por exemplo, o fluido tem grande importância na condução e na retirada do cavaco da região de corte. C - São adicionados aditivos anti-oxidantes e anti-corrosivos aos fluidos com objetivos de proteger as partes metálicas da máquina-ferramenta e a superfície da peça, contra oxidações e corrosões. Estes aditivos permanecem atuantes mesmo cessadas as operações de corte. D - O calor é naturalmente gerado em decorrência do processo de corte dos materiais. O aumento da temperatura na peça promove a sua dilatação. Em materiais com grandes coeficientes de expansão térmica, os problemas de controle dimensional são maiores. Em operações onde a alimentação e a retirada da peça é feita de forma manual, deve haver a precaução quanto a queimaduras na pessoa responsável pela execução desta etapa. O uso do refrigerante controla a elevação excessiva da temperatura reduzindo os efeitos de superaquecimento da peça fabricada. E - Utilizando-se de quebra-cavacos hidráulicos, injetando fluido sob alta pressão, Machado (1990) mostrou uma melhora na quebra do cavaco, usinando ligas de titânio e de níquel. O fluido de corte atua na interface diminuindo a área de contato cavaco-ferramenta, provocando uma maior curvatura (Childs, 1972). Com isto há diminuição do raio de curvatura natural do cavaco, rc, promovendo uma elevação do nível de tensões, podendo levar o material até a valores de deformações críticas de ruptura, facilitando a quebra, e atuando como um parâmetro ativador do controle do cavaco (Sales, 1995 e Sales et alli, 1997). Paulino et alli (1997), quando usinando aço NB 5140, utilizando-se de ferramentas de metal duro, triplo revestidas, com superfície de saída lisa, verificaram uma melhora na quebra do cavaco, quando adicionando fluido de corte emulsionável, concentração de 3%. Trent (1991) afirma que em baixas velocidades de corte não é necessário que o fluido de corte apresente propriedades refrigerantes mas sim lubrificantes. Com a predominância Sandro Cardoso Santos 183 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS da lubrificação há redução do atrito, reduzindo a região de aderência, e consequentemente prevalecendo a de escorregamento. Com isto evita-se a formação da aresta postiça de corte (APC), que é prejudicial ao acabamento da superfície da peça. A Figura 11.1 mostra esquematicamente a influência do fluido atuando como lubrificante, na formação da APC. (a) (a) - APC, usinando a seco; (b) (b) - APC, usinando com óleo lubrificante emulsionável. Figura 11.1 - Interface cavaco-ferramenta, na presença de APC É sabido que a eficiência do fluido em reduzir a temperatura da ferramenta diminui com aumento da velocidade de corte e da profundidade de corte (Williams, 1977). Smart e Trent (1974), por meio do método metalográfico aplicado a ferramentas de aço rápido, usinando níquel e aço com fluido emulsionável 3%, obtiveram as isotermas e como resultados encontraram que a atuação do fluido como refrigerante reduz levemente a máxima temperatura na interface, mas faz que haja um grande aumento no gradiente de temperatura entre as regiões interna da ferramenta e imediatamente vizinha do lado de fora, que sofreu resfriamento. 11.4 - Classificação dos Fluidos de Corte Existem diversas formas de se classificar os fluidos de corte e não há uma pradronização que estabeleça uma única classificação entre as empresas fabricantes. Uma primeira classificação agrupa os fluidos da seguinte forma: - Ar; Sandro Cardoso Santos 184 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS - Aquosos: a) - água; b) - soluções químicas; c) - emulsões. - Óleos: a) - óleos minerais; b) - óleos graxos; c) - óleos compostos; d) - óleos de extrema pressão; e) - óleos de usos múltiplos Uma segunda classificação traz os fluidos divididos em dois grupos: I - Fluidos formados apenas por óleo integral Ii - Fluidos formados a partir da adição de óleo concentrado à água. Ii.1. Emulsões Ii.2. Soluções Os dois grupos podem ser melhor explicados como segue: Óleos Integrais Óleos vegetais e animais foram os primeiros lubrificantes empregados como óleos integrais na usinagem dos metais. A utilização destes como fluidos de corte tornou-se inviável, devido ao alto custo e rápida deterioração. Porém, são empregados como aditivos nos fluidos minerais, objetivando melhorar as propriedades lubrificantes destes. Óleos integrais são, basicamente, óleos minerais puros ou com aditivos, normalmente de alta pressão. O emprego destes óleos nos últimos anos como fluido de corte tem perdido espaço para os óleos solúveis em água, devido ao alto custo em relação aos demais, aos riscos de fogo, ineficiência a altas velocidades de corte, baixo poder refrigerante e formação Sandro Cardoso Santos 185 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS de fumos, além de oferecerem riscos à saúde do operador. Os aditivos podem ser a base de cloro ou enxofre ou mistura destes dois, dando características de extrema pressão (EP) ao fluido. Fósforos e matérias graxas são também utilizadas e atuam como elementos antidesgaste. Os óleos minerais são hidrocarbonetos obtidos a partir do refinamento do petróleo cru. Suas propriedades dependem do comprimento da cadeia, estrutura e grau de refinamento. Óleos minerais básicos empregados na fabricação de fluidos de corte podem ser (Shell, 1991): Base parafínica: Derivam do refinamento do petróleo cru parafínico de alto teor de parafinas (ceras), que resultam em excelentes fluidos lubrificantes. Estes óleos são encontrados em maior abundância e, portanto, apresentam um custo menor, possuem alto índice de viscosidade (IV), maior resistência à oxidação, são menos prejudiciais à pele e ainda menos agressivos à borracha e plástico. Base naftênica: Derivam do refinamento do petróleo cru naftênico. O uso destes óleos como básicos para fluido de corte, tem diminuído em função de problemas causados à saúde humana. Os fluidos lubrificantes são de baixa qualidade e são escassos. Óleos minerais de base aromática: Não são empregados na fabricação de fluidos de corte. São excessivamente oxidantes, porém podem melhorar a resistência ao desgaste e apresentar boas propriedades EP, quando presentes em grandes quantidades, em óleos parafínicos. Emulsões São compostos de duas fases, uma fase contínua consistindo de pequenas partículas de óleo mineral (derivado do petróleo) ou sintéticos suspensos na água (segunda fase). As emulsões de óleo de petróleo geralmente têm capacidades lubrificantes maiores, porém, capacidade refrigerante inferior. Em geral, as emulsões apresentam propriedades lubrificantes e refrigerantes moderadas. Fluidos Emulsionáveis Convencionais São compostos de óleos minerais adicionados à água nas proporções de 1:10 a 1:100, mais agentes emulgadores que garantem a miscibilidade destes com a água. Esses emulgadores são tensoativos polares que reduzem a tensão superficial formando uma película monomolecular relativamente estável na interface óleo-água. Assim os emulgadores Sandro Cardoso Santos 186 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS promovem a formação de glóbulos de óleo menores, o que resulta em emulsões translúcidas. A estabilidade destas emulsões se deve ao desenvolvimento de uma camada elétrica na interface óleo-água. Forças repulsivas entre glóbulos de mesma carga evitam a coalescência destes. Para evitar os efeitos nocivos da água presente na emulsão empregam-se aditivos anticorrosivos tais como nitrito de sódio, que ainda é utilizado na fabricação de óleos de corte emulsionáveis. São usados ainda biocidas, que inibem o crescimento de bactérias e fungos, porém devem ser compatíveis com a pele humana e não serem tóxicos. Os elementos EP e antidesgaste usados que aumentam as propriedades de lubrificação, são os mesmos empregados para óleos puros. No entanto, o uso de cloro como aditivo para fluidos de corte vem encontrando restrições em todo o mundo, devido aos danos que este causa ao meio ambiente e à saúde humana. Por esta razão procura-se substituir o cloro por aditivos à base de enxofre e cálcio. Usa-se ainda gordura e óleos (animal e vegetal) para melhorar as propriedades de lubrificação. Fluidos Semi-Sintéticos (Microemulsões) Os fluidos semi-sintéticos são também formadores de emulsões. Eles se caracterizam por apresentarem de 5% a 50% de óleo mineral no fluido concentrado e aditivos e compostos químicos que verdadeiramente dissolvem-se na água formando moléculas individuais. A presença de uma grande quantidade de emulsificadores propicia ao fluido uma coloração menos leitosa e mais transparente. A menor quantidade de óleo mineral e a presença de biocidas aumentam a vida do fluido de corte e reduzem os riscos à saúde. Aditivos EP, anticorrosivos, agentes umectantes, são utilizados como nos fluidos anteriores. Adicionam-se também corantes que proporcionam uma cor mais viva e aceitável pelo operador da máquina. Soluções Consistem de um fluido base (óleo de petróleo, solvente de petróleo, fluido sintético ou água), que pode ser formulado com vários aditivos que são solúveis neste fluido base. Estas soluções são os óleos minerais, os fluidos lubrificantes sintéticos e soluções químicas a base de água (chamadas de sintéticos na indústria). Pertencendo à classe das soluções, encontram-se os fluidos sintéticos, que se caracterizam por serem livres de óleo mineral em suas composições. Fluidos Sintéticos Sandro Cardoso Santos 187 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Esses óleos caracterizam-se por não conterem óleo mineral em sua composição. Baseiam-se em substâncias químicas que formam uma solução com a água. Consistem de sais orgânicos e inorgânicos, aditivos de lubricidade, biocidas e inibidores de corrosão entre outros, adicionados à água. Apresentam uma vida maior uma vez que são menos atacáveis por bactérias e reduzem o número de trocas da máquina. Formam soluções transparentes, resultando em boa visibilidade do processo de corte. Possuem agentes umectantes que melhoram bastante as propriedades refrigerantes da solução. As soluções são estáveis mesmo em água dura. Os óleos sintéticos mais comuns oferecem boa proteção anticorrosiva e refrigeração. Os mais complexos são de uso geral, com boas propriedades lubrificantes e refrigerantes. Faz-se uma distinção quando os fluidos sintéticos contêm apenas inibidores de corrosão, e as propriedades de EP não são necessárias. São chamados de refrigerantes químicos ou soluções verdadeiras, apresentam boas propriedades refrigerantes. 11.5 - Método de Aplicação dos Fluidos de Corte O fluido de corte pode ser aplicado sob diversas direções e/ou vazões, posicionado na interface cavaco-ferramenta ou na peça. Enfim, são inúmeras as combinações possíveis para a sua aplicação, mas atualmente os métodos mais utilizados são: Jorro do Fluido a Baixa Pressão, ou por Gravidade Este sistema é o mais usado devido à sua simplicidade. O fluido é jorrado sobrecabeça contra a superfície do cavaco, ou ainda na superfície de saída da ferramenta. Neste caso o fluido vai de encontro à superfície fraturada do cavaco, sendo arrastado para fora da interface cavaco-ferramenta. Este método dispensa dispositivos especiais. A Figura 11.2 ilustra este sistema, onde as setas A, B e C mostram a direção de aplicação do fluido. Sandro Cardoso Santos 188 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS A Plano de cisalhamento primário cavaco peça B ferramenta C Figura 11.2 - Direções de aplicação do fluido (Machado, 1990). MQF – Mínima Quantidade de Fluido Recentemente, fatores como custo, efeitos sobre o meio ambiente e à saúde do operador são relevantes quando da seleção do lubrificante e do sistema de aplicação, dentro do contexto moderno dos processos de usinagem. A área de contato cavacoferramenta é muito pequena e sugere-se que a vazão de fluido necessária para promover a ação lubrificante seja pequena. Machado e Wallbank (1997 “a” e “b”) fizeram estudos e cálculos teóricos da vazão necessária de fluido e chegaram a 0,1 ml/h. Em seus trabalhos experimentais, utilizaram baixas vazões de fluidos, entre 200 e 300 ml/h, usinando aço (080M40), no torneamento, enquanto em um sistema convencional a vazão está em torno de 5,2 l/min. Um venturi foi utilizado para fazer a mistura do fluido com o ar comprimido (~ 34 Psi, 2,4 kgf/cm2). O jato pulverizado é direcionado sobre a superfície de saída da ferramenta. Da Silva et alli (1998) e Da Silva e Wallbank (1998) continuaram nesta linha de pesquisa, fazendo testes com vazão de 108 ml/h e monitorando o efeito da lubrificação por meio do acabamento da superfície, das forças de usinagem e pela temperatura da peça. Os resultados experimentais encontrados foram bastante encorajadores. Eles acreditam que, para um futuro recente, a vazão de fluido utilizada tenderá cada vez mais a ser reduzida. A Figura 11.3 mostra esquematicamente o sistema de mistura do fluido com o ar comprimido. Este dispositivo foi instalado na posição "B" da Figura 11.2, entre o cavaco e a superfície de saída da ferramenta. Sandro Cardoso Santos 189 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS mistura ar + fluido ar fluido de corte Figura 11.3 - Venturi utilizado para fazer a mistura ar- fluido (Machado e Wallbank, 1997 "a" e "b"). No processo de furação das ligas de Al-Si, a chamada lubrificação pseudo-seca ou por micro-jato está sendo utilizada. Por meio de um venturi, ar e óleo são misturados e, a ferramenta é pulverizada com um jato, direcionado à superfície de saída da broca. Neste caso elimina-se a aresta postiça de corte, devido a ação lubrificante do fluido e o cavaco permanece praticamente seco (Cselle, 1997). Santos (2002) realizou ensaios avaliando o desempenho de brocas de aço rápido, a seco e em mínima quantidade de fluido de corte (MQF) e encontrou bons resultados, conforme apresentado na Figura 11.4. Sandro Cardoso Santos 190 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS VIDA (NÚMERO DE FUROS) 600 500 400 SECO 300 MQF 200 100 0 SR TiN TiCN WC/C MC Figura 11.4 – Desempenho das brocas de aço-rápido no corte a seco com aplicação de mínima quantidade de fluido (Santos, 2002). Sistema a Alta Pressão Neste método o objetivo principal é melhorar a quebra do cavaco. Um jato de fluido, a alta pressão (48,1 kgf/cm2 à vazão de 15,1 l/min), é jogado em duas direções: na primeira, sobre o cavaco, na direção sobre-cabeça (A da Figura 11.2). Na outra, contra o cavaco na superfície de saída da ferramenta, conforme direção B da Figura 11.2. Machado (1990), utilizando este método no torneamento e aplicando o jato nas direções A e B, obteve bons resultados usinando ligas aero-espaciais, como de titânio e de níquel, que possuem difícil controle do cavaco pelos métodos convencionais. Este método também foi utilizado no processo de fresamento por Kovacevic et alli (1995). Com o principal objetivo de incrementar a lubrificação na interface cavaco-ferramenta, foi desenvolvido um sistema em que o conjunto suporte e ferramenta de corte é vazado, permitindo o fluido passar pelo seu interior, chegando até a superfície de saída da ferramenta (Iscar, 1991). Com isto, o fluido chega à interface com alta pressão (variável entre 1,03 kgf/cm2, para uma vazão de 0,3 l/min, e 25,83 kgf/cm2, para uma vazão de 2,3 l/min), reduzindo o contato cavaco-ferramenta. A camada de fluido na interface reduz em muito a fonte geradora de calor, na zona de cisalhamento secundária, que está na zona de aderência. O calor então é principalmente gerado nas zonas de cisalhamento primária, no plano primário e entre a superfície de folga da ferramenta e a peça. Neste sistema a ferramenta de corte mantém seu interior e a superfície de saída constantemente sob resfriamento, mantendo-se fria. O cavaco é resfriado depois de ser deformado no plano primário, o que no caso do método de aplicação sobre-cabeça o resfriamento é simultâneo à Sandro Cardoso Santos 191 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS deformação. Isto tende a reduzir a temperatura nesta região e aumentar a resistência ao cisalhamento do material da peça, aumentando as forças de usinagem. Este sistema foi aplicado com sucesso na usinagem dos aços SAE 4140, inoxidável SAE 316 e do Inconel 718 (Iscar, 1991). Na Figura 11.5 mostra-se, esquematicamente, a proposta deste método, chamado de “jet-cut”. peça cavaco fluido de corte ferramenta porta ferramenta fluido rotação avanço Figura 11.5 - Princípio de operação do “jet-cut” (Iscar, 1991). 11.6 - Problemas Causados ao Meio Ambiente e à Saúde Humana Os fluidos de corte podem produzir alguns efeitos prejudiciais, como: • Contaminação do meio ambiente, como dos córregos, lagos e rios; • A procriação de fungos e bactérias; • A produção de vapores tóxicos, com fortes odores desagradáveis, inclusive podendo provocar doenças respiratórias; • Doenças de pele, entre elas pequenas alergias e dermatites; • Doenças pulmonares, como bronquite e asma; • Câncer de vários tipos como, de cólon, bexiga, pulmão, pâncreas, sinunasal, laringe, entre outros. Sandro Cardoso Santos 192 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Riscos de combustão, e até de explosão. Em geral, os fluidos de corte, desde que corretamente usados, apresentam pouco ou nenhum risco ao operador. Deve-se fazer freqüentemente um controle adequado da quantidade de fungos e de bactérias e do pH. Entretanto, o contato freqüente e prolongado com óleos minerais, pode originar diversas formas de irritações de pele (dermatites) e em casos excepcionais até o câncer de pele entre outros (Samitz, 1974, Runge e Duarte, 1987, Törok et alli, 1991, Batzer e Sutherland, 1998). Os óleos de corte emulsionáveis normalmente são alcalinos, e com o tempo de contato, reduzem a gordura da pele, ressecando-a e causando erupções. Se não se fizer um tratamento apropriado, a pele poderá tornar-se dolorida e vermelha com erupções. Esta doença é chamada de dermatite, que se diferencia da alergia, já que esta última é bem menos comum e, geralmente, reaparecem com um novo contato com o alergênio, o que pode provocar a transferência do operador para outro serviço. A dermatite pode ser eficientemente controlada, quando os operadores são convencidos à prática de uma boa higiene pessoal, aplicando cremes protetores apropriados antes do início do serviço e após o trabalho (Barker, 1974). 11.7 - Fluidos de Corte e Suas Relações com o Meio Ambiente Fluidos Biodegradáveis e Bioestáveis O conceito de biodegradabilidade não pode ser aplicado aos fluidos de corte solúveis (emulsões e soluções) da mesma maneira como é aplicada aos produtos de consumo doméstico. Estes são descartados quase que imediatamente após o uso: o detergente usado para lavar louças somente precisa estar estável por poucos minutos. O tempo de exposição para o ataque por microorganismos é muito pequeno para resultar em qualquer efeito negativo a ser notado pelo usuário desses produtos. Nos sistemas de esgotos e de tratamento de água, entretanto, estes produtos devem ser facilmente degradados. Numa máquina operatriz, a emulsão ou solução deve durar o maior tempo possível. Portanto, um fluido de corte não pode ser biodegradável; ao contrário, o fluido de corte solúvel deve ser bioestável e compatível com o ambiente. É desejável que a água resultante do descarte da emulsão não contenha produtos agressivos à fauna e à flora aquáticas. Para isso, é necessário que a formulação de fluidos de corte contenha componentes que facilitem Sandro Cardoso Santos 193 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS e reduzam o custo do descarte. Fenóis e nitritos, usados na formulação dos fluidos emulsionáveis, passam para a fase aquosa do fluido e, no descarte, encontram-se na água resultante da quebra das emulsões. É desejável a sua ausência ou a presença apenas em quantidades mínimas. Isto pode ser conseguido através da formulação de fluidos com materiais “duros” ao ataque por microorganismos para que biocidas não sejam necessários, ou sejam apenas em quantidades mínimas, e fazer com que as emulsões durem o maior tempo possível, para reduzir ao mínimo a quantidade de fluido a ser descartada (Runge e Duarte, 1987). Técnicas Usadas na Análise de Contaminação Industrial Verificação da Existência de Fungos Fungos são organismos pluricelulares pertencentes à divisão do reino vegetal conhecido como tallophyta. Cada fungo é constituído de (Runge e Duarte, 1987): - Micélio, que é o talo; - Esporângio, que é um organismo aeróbico de reprodução. Na indústria, a verificação da existência de fungos é feita normalmente usando-se o Teste com Lâminas de Imersão BCB (Roche) pela sua facilidade de manuseio. Estas possuem três divisões com três meios de cultura diferentes, uma das quais é agar Saboroud, meio apropriado para o crescimento de fungos. Este teste normalmente é escolhido, entre vários outros, por ser simples e poder ser executado pelos operadores. Ele permite que se determine seletivamente a quantidade de fungos e bactérias com precisão suficiente. Em laboratórios usam-se placas com agar saboroud pois, até o momento, fornecem os resultados mais seguros por ter uma área de exposição maior e inibidores de crescimento de bactérias para favorecer o desenvolvimento dos fungos. Verificação da Existência de Bactérias As bactérias necessitam de água para sua proliferação. Portanto, os óleos de corte deverão ser estéreis quando secos. Bactérias estão sempre presentes em emulsões durante o seu uso. Porém, mais importante que o total das bactérias presentes é o seu tipo. Sandro Cardoso Santos 194 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Nos fluidos encontram-se usualmente todos os três tipos de bactérias existentes (Runge e Duarte, 1987): • Aeróbicas; • Anaeróbicas e, • Anaeróbicas facultativas. O crescimento das bactérias na natureza e no laboratório está limitado pela diminuição dos nutrientes ou pelo acúmulo de substâncias tóxicas provenientes da própria nutrição das bactérias. Quando se inocula um meio para o cultivo de bactérias, estas podem se desenvolver rapidamente, mas o usual é que as bactérias precisem de um tempo até atingir uma velocidade de crescimento constante. Algumas bactérias têm a capacidade de formar endosporo, espécie de célula muito resistente que se mantém em estado de repouso enquanto as condições do meio são adversas e que formarão uma nova célula vegetativa assim que as condições se tornarem favoráveis. Tem como principal característica sua elevada resistência térmica. As bactérias aeróbicas proliferam somente na presença do oxigênio. Os tipos mais comuns são as pseudomonas, que proliferam usualmente entre 10 e 400C e são freqüentemente encontradas em emulsões e as nocardias, que existem numa faixa de temperatura entre 40 e 600C e são encontradas usualmente em emulsões para a laminação de metais, onde esta faixa é bastante comum. As bactérias aeróbicas consomem o oxigênio das emulsões. Se na superfície da emulsão estiver presente uma camada de óleo que impeça a sua oxigenação, prevalecem então as condições para o crescimento das bactérias anaeróbicas, que são as principais responsáveis pelos maus odores. As bactérias anaeróbicas facultativas (incluindo os coliformes), estão presentes no solo e nas sujeiras. Numa indústria existem constantes fontes de contaminação, tornando-se impossível eliminar totalmente os microorganismos dos fluido, mas pode-se mantê-los em níveis toleráveis, através de meios de controle, como: • biocidas; • raios ultravioleta (pouco efetivos, devido à sua pouca penetração no líquido); Sandro Cardoso Santos 195 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • campos magnéticos (pouco eficientes); • raios gama (existem equipamentos eficientes, mas seu uso exige cuidados especiais); • calor (pasteurizaçao - aquecimento até temperatura específica e resfriamento rápido, usualmente muito dispendiosa); • ultra-som; • microondas (bastante efetivas). Para a análise de bactérias redutoras de sulfato (desulphovibrio desulphuricans) que produzem o cheiro de H2S, recomenda-se usar agar sulfito de ferro em tubos de ensaio. O meio possui os nutrientes básicos para o crescimento microbiano (fonte de carbono, nitrogênio, enxofre e outros). O sulfito de sódio age como antioxidante, retirando o oxigênio do meio e criando uma atmosfera anaeróbica. O sulfato de ferro é a fonte de sulfato que será reduzido pelas bactérias em sulfeto que, em presença de ferro, forma precipitado preto de sulfeto de ferro. O escurecimento do meio é uma indicação da presença de bactérias redutoras de sulfato. A colocação de uma camada de óleo por cima do meio da cultura no tubo favorece o desenvolvimento das bactérias, pois impede a entrada do oxigênio. Ocasionalmente podem ser encontradas nas emulsões as seguintes bactérias patogênicas (Runge e Duarte, 1987 e Törok et alli, 1991): • Staphylococus aureus (produz infecções na pele); • Streptococus pyogenes (produz irritação na garganta); • Pseudomas pyanocea (resulta em cortes inflamados na pele do operador); • Salmonella (causa envenenamento alimentar); • Shigella (causa disenteria). A primeira linha de defesa contra o ataque bacteriano é a educação dos operadores para que não tratem os reservatórios de fluidos como depósito de lixo. Não devem ser jogados no sistema materiais orgânicos, tais como pontas de cigarro ou restos de comida. Sandro Cardoso Santos 196 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Também devem ser evitados mistura com outros lubrificantes (óleo hidráulico, lubrificante de guias ou engrenagens e outros). Normalmente estes óleos não são compatíveis com as emulsões ou são emulgados apenas de maneira difícil e lenta, formando uma barreira à oxigenação e favorecendo a proliferação de bactérias anaeróbicas. A insuflação de ar no fundo dos reservatórios mantém as emulsões agitadas e aeradas. Proliferação das Bactérias As bactérias proliferam preferivelmente num ambiente de pH entre 6 e 8. Recomendase manter o pH acima de 8, através da adição de materiais alcalinos. O ataque bacteriano resulta nas seguintes conseqüências: • Redução do pH. Em geral, as bactérias produzem materiais ácidos em conseqüência do seu metabolismo, reduzindo o pH. • Maus odores; • Instabilidade da emulsão. Como conseqüência do consumo de emulgadores da emulsão, inicialmente forma-se uma emulsão mais “grossa”, devido ao aumento do tamanho dos glóbulos de óleo. À medida que avança o consumo de emulgadores, resulta na quebra da emulsão. A presença de bactérias redutoras de sulfato reduz a vida da emulsão devido ao consumo do enxofre dos emulgadores. A redução do pH, tem efeito negativo sobre a estabilidade da emulsão; • Corrosão nas peças e nos componentes metálicos da máquina operatriz, devido a: - consumo dos inibidores de corrosão, particularmente o nitrito de sódio (NaNO2); - produção de ácidos (H2S), entre outros, reduzindo o pH da emulsão; - consumo de películas protetoras deixadas sobre as peças; - oxidação do ferro, por ação indireta, produzindo ferrugem. A corrosão pode ser provocada pelo crescimento de colônias de bactérias aeróbicas ou anaeróbicas, sendo observado inicialmente por certos pontos de coloração diferente sobre a superfície (TÖrÖk et alli, 1991). Sandro Cardoso Santos 197 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Partículas de Fluido de Corte Suspensas no Ar Um outro fator importante nos fluidos de corte está no fato de partículas líquidas e de gases, de diâmetros muito pequenos (da ordem de 2,5 µm), se desprenderem do volume e ficarem suspensas no ar. Isto é aumentado principalmente em máquinas que jogam o fluido, praticamente pulverizado na região de corte. Organizações internacionais de controle ambiental e de saúde ocupacional, como as americanas “Ocupational Health and Safety Administration” e “United Auto Workers” estão reduzindo cada vez mais os limites toleráveis, de 5,0 para 0,5 mg de partículas suspensas por m3 de ar ambiente. Partículas menores que 10 µm têm grande probabilidade de serem depositadas nas vias aéreas da traquéia e nas regiões pulmonares. Com isto, apresentam grande potencial de provocarem doenças respiratórias nas pessoas que convivem diretamente sob esta atmosfera (Batzer e Sutherland, 1998). Foram desenvolvidos instrumentos de medição, com o objetivo de verificar a distribuição de partículas menores ou iguais a 10 µm. Mas para o futuro bem próximo, os novos instrumentos farão o monitoramento de partículas com diâmetros menores que 2,5 µm. Processos de Descarte dos Fluidos de Corte Descarte de Emulsões Podem ser divididos em processos químicos e físicos. A combinação dos dois também pode ser utilizada. A seleção dos processos depende do estado de contaminação das emulsões, da sua composição, das condições locais, da legislação do meio ambiente na região e do custo de cada processo. De qualquer maneira os três estágios seguintes são comuns: • quebra da emulsão; • separação do óleo, e • tratamento da água separada. Nos processos químicos, adicionam-se ácidos para quebrar as emulsões pela degradação dos emulgadores. Nos físico-químicos, a reação química é reforçada pelo aquecimento da emulsão. No processo físico, como a ultrafiltração, a emulsão com Sandro Cardoso Santos 198 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS diferentes tamanhos moleculares do óleo e da água, é forçada a passar através de permeadores, com poros de diferentes diâmetros. Deste modo, a cada passagem da emulsão, somente a água prossegue o fluxo. Os demais resíduos ficam retidos e a água pode ser então descartada. Um outro processo físico é a quebra térmica. Por meio de evaporação, a fase aquosa é retirada da emulsão. O óleo permanece presente, por apresentar ponto de ebulição mais elevado. O óleo separado nos processos de quebra térmica contém quantidades de resíduos que permitem a sua utilização em processos de rerefino. Descarte de Soluções O tratamento de fluidos de corte sintéticos através de sistemas convencionais de descarte, envolve a compreensão da química coloidal e tensoativa de cada fluido a ser descartado. Os óleos não se diluem nos fluidos sintéticos. Portanto, a etapa de separação do óleo, no caso das emulsões, aqui é dispensada. Através da escolha do tipo e da dosagem de coagulante polimérico e tomando-se por base as faixas de pH encontrados, a taxa desejada das reações de precipitação pode ser controlada e a água efluente posteriormente com o seu pH controlado para posterior descarte (Runge e Duarte, 1987). 11.7 - Seleção do Fluido de Corte A seleção de um fluido de corte ideal é difícil, devido à grande variedade de produtos disponíveis no mercado. O custo é alto e a utilização de um fluido de corte tem que compensar economicamente, isto é, os benefícios devem superar os custos do produto. Existem várias operações em que o corte é realizado a seco (no ar), onde economicamente não se justifica o emprego do fluido de corte. Torneamento e fresamento de ferro fundido cinzento, alumínio e magnésio são exemplos de operação a seco. Em contrapartida, existem muitas operações onde o emprego do fluido de corte é vital. Em termos de consumo industrial, os óleos emulsionáveis estão bem à frente dos demais. Porém, os novos produtos, principalmente os sintéticos, estão cada vez mais conquistando os consumidores. Os ensaios de laboratório devem ser usados como critério de seleção correta do fluido de corte e de aditivos, apesar da maioria dos fabricantes fornecerem tabelas e diagramas que ajudam o consumidor a selecionar o produto. É comum encontrar na literatura tabelas completas, com a indicação do nome do produto, descrição do produto, concentração recomendada, material a usinar, para vários fornecedores, com telefone e endereço das Sandro Cardoso Santos 199 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS companhias. Estas tabelas são úteis e devem ser usadas como ponto de partida (Machining Data Handbook, 1990). Pelo menos três informações relevantes devem ser consideradas, antes de se decidir por um determinado fluido de corte: os materiais da peça e da ferramenta e o processo de usinagem, entre outros. Material da Peça A) Materiais Ferrosos Ferro Fundido - Os ferros fundidos cinzentos produzem cavacos de ruptura e são normalmente usinados a seco. Os cavacos são muito pequenos e abrasivos, quimicamente bastante reativos ao ponto de exercerem um efeito físico sobre as emulsões no sentido de empobrecê-las (reduzindo a concentração e, em conseqüência, produzindo corrosão). O efeito químico sobre as emulsões reside na formação de sabões de ferro, resultando em emulsões instáveis e de coloração que pode variar entre o vermelho, rosa e marrom. Entretanto, um óleo emulsionável pode ser útil para remover o cavaco. Na usinagem do ferro fundido maleável, se for usado fluido de corte, este deve ser óleo puro. Porém, os cavacos decantam-se com dificuldade, requerendo sistemas de purificação mais complexos ou algum tipo especial de emulsão. A usinagem do ferro fundido branco é difícil e geralmente requer aditivos EP nas emulsões. Aços - Este grupo concentra o maior volume de material usado industrialmente e existe uma variedade muito grande de composições disponíveis. Assim, todos os tipos de fluidos podem ser usados. A escolha depende da severidade da operação e da resistência do aço. Aço inoxidável austenítico e aços resistentes ao calor tendem a encruar de maneira idêntica às ligas de níquel e a escolha do fluido tende a ser similar. B) Materiais não-Ferrosos Alumínio e suas Ligas - Podem muitas vezes ser usinados a seco. Porém, as ligas de alumínio conformadas com alto teor de carbono, requerem um fluido de corte com alta Sandro Cardoso Santos 200 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS capacidade refrigerante. Quando cavacos longos são formados, a área de contato é grande e requer lubrificação adequada. As ligas de alumínio e silício também requerem boa lubrificação. Se a precisão dimensional for importante, deve-se usar um bom refrigerante, devido ao alto valor do coeficiente de expansão térmica. Uma escolha correta seria emulsão com uma mistura de óleo mineral e gordura e a maioria das emulsões solúveis. Alumínio não exige aditivos EP e o enxofre livre ataca o metal instantaneamente. Magnésio e suas Ligas - São normalmente usinados a seco. A altíssimas velocidades de corte, entretanto, um refrigerante pode ser utilizado. Emulsões são proibidas porque a água pode reagir com o cavaco e liberar hidrogênio, apresentando assim risco de ignição. Geralmente, usa-se óleo mineral ou mistura de óleo mineral com gorduras e, como no caso do alumínio, o enxofre ataca o metal. Cobre e suas Ligas - Podem ser divididos em três grandes grupos: Ligas de fácil usinagem - Incluem a maioria dos latões e alguns bronzes ao fósforo fundidos. Eles possuem alta resistência à tração, baixa ductilidade e geralmente adição de elementos de liga de corte fácil (chumbo, selênio e telúrio). Isto significa que eles são usinados mais facilmente que as ligas de outros grupos. Uma emulsão de óleo solúvel é suficiente para praticamente todas as situações. Ligas de usinabilidade moderada - São os latões sem chumbo, alguns bronzes ao fósforo e bronzes ao silício. Eles tem alta ductilidade, o que acarreta um alto consumo de potência e dificulta a obtenção de bom acabamento superficial. Geralmente, emulsão de óleo solúvel ou mistura leve de óleo mineral com gordura satisfaz as exigências. Ligas de difícil usinagem - Tais como ligas sem chumbo, as ligas de níquel-prata e os bronzes ao fósforo. Eles tem baixa resistência e grande tendência ao arrancamento e geralmente produzem cavacos longos. Neste caso uma forte mistura de óleo mineral com gordura deve ser usada para preenchimento dos requisitos. Todos os metais amarelos são manchados por qualquer óleo contendo enxofre livre. Ligas de Níquel, Titânio e Cobalto - São ligas resistentes ao calor chamadas de super-ligas. São difíceis de usinar e apresentam grande tendência a encruarem, principalmente as ligas de níquel. A escolha do fluido de corte dependerá da operação de corte. Em condições severas, aditivos são freqüentemente usados. Enxofre livre, entretanto, pode causar deterioração da peça. Sandro Cardoso Santos 201 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Material da Ferramenta A escolha de um material para ferramenta para uma dada aplicação indicará o potencial de taxa de remoção de material. Esta taxa de remoção de material, por sua vez, indicará as temperaturas de corte e as tensões na ferramenta que provavelmente serão encontradas. Como as ferramentas de aço-carbono e aço-liga só podem ser usadas a baixas velocidades, ou seja, não suportam altas temperaturas, é essencial que se use uma refrigeração adequada. Os aços-rápidos também requerem uma refrigeração suficiente. Na usinagem de materiais tenazes, aditivos anti-aderentes devem ser usados. As ligas fundidas, metais duros e cermets (WC/TiC) possuem dureza mais elevada que as ferramentas de aço e, portanto, suportam trabalhar em temperaturas mais elevadas. Como a taxa de remoção de material é alta quando se utiliza estas ferramentas, a aplicação de um fluido refrigerante torna-se necessário para aumento da vida da ferramenta. Os óleos emulsionáveis são usados com freqüência, mas a escolha correta deve variar de acordo com a severidade da operação. O uso das cerâmicas tem aumentado consideravelmente nos últimos tempos. Devido à alta fragilidade destes materiais, deve-se tomar cuidado ao se aplicar um refrigerante, pois os choques térmicos podem acarretar trincas superficiais. As cerâmicas à base de nitreto de silício são menos susceptíveis a este tipo de problema, por serem mais tenazes que as cerâmicas à base de Al2O3 (alumina) . Se o fluido de corte vai reduzir a temperatura sem causar trincas, ele será sempre recomendado para aumentar a vida da ferramenta. Em algumas aplicações, principalmente na usinagem das super-ligas, o desgaste de entalhe irá predominar e, neste caso, o fluido de corte deverá ser usado com certa reserva, pois a atmosfera pode alterar o mecanismo de desgaste. Os materiais ultraduros, tais como o PCD (diamante policristalino) e CBN (nitreto cúbico de boro), são resistentes o suficiente para suportarem os choques térmicos e não existem contra indicações quanto ao uso do fluido de corte. Processo de Usinagem A severidade dos processos de usinagem varia desde os mais pesados cortes de brochamento até os mais leves de retífica. A escolha do fluido de corte, portanto, irá variar desde os mais ativos tipos de óleo de corte até os óleos emulsionáveis de baixa concentração. É comum encontrar literaturas que orientam a escolha do fluido, de acordo com a operação de corte (Ferraresi, 1977, Runge e Duarte, 1987 e Shell, 1991). Sandro Cardoso Santos 202 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Outros Fatores Fatores que inicialmente são desconsiderados, podem influenciar bastante a seleção de um fluido e são enumerados a seguir: Aceitação pelo Operador da Máquina Os fluidos de corte solúveis, quando corretamente mantidos, são mais agradáveis ao contato humano, principalmente em se considerando que o operador de uma máquina operatriz pode estar em contato direto com o fluido durante muitas horas por dia. Para reforçar sua aceitação, os fabricantes de fluidos freqüentemente incluem em sua formulação corantes e/ou odorizantes. Fluidos levemente transparentes também facilitam a visualização do corte, permitindo acompanhamento visual do processo. Facilidade de Descarte A preocupação de assegurar a manutenção apropriada dos fluidos deve sempre ser considerada, para que a quantidade a ser descartada e a freqüência sejam as menores possíveis. Porém, todos os fluidos chegarão ao fim de sua vida útil e deverão ser descartados. As legislações ambientais são a cada dia mais rigorosas e jogar emulsões usadas diretamente no esgoto ou num córrego no fundo da propriedade não é mais aceitável. Existem processos físicos, químicos e combinados para o correto descarte. O descarte, seja ele feito pelo próprio usuário ou por outra empresa especializada, sempre representa um custo, que deve ser levado em consideração ao se selecionar o fluido de corte. Saúde Humana e a Contaminação do Fluido Óleos solúveis, quando não corretamente mantidos, rapidamente degradam-se pela ação bacteriana que age tanto sobre os componentes do próprio fluido como em seus contaminantes (cavacos, sujeiras, etc.) e por maus hábitos dos operadores (cuspir na emulsão, jogar pontas de cigarro, etc.). Em pequenas e até em grandes oficinas e fábricas, fatores relacionados à limpeza deixam em muito a desejar. A manutenção destes fluidos é essencial e deve ser levada a sério, pois poderão causar inclusive danos à saúde do operador. Isto conduz aos fluidos integrais, que são mais resistentes, o que pode justificar sua seleção. Além deste, fatores Sandro Cardoso Santos 203 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS como a capacidade de ser reciclado a menores custos, entre outros, devem ser considerados. Fatores Econômicos Além dos fatores importantes citados acima, o custo do fluido é fundamental para uma tomada de decisão. Os óleos emulsionáveis tem um bom preço no mercado e muitas vezes é um fator chave na escolha. Ela não deve ser feita com base no seu custo por litro. Devese fazer um estudo de custo/benefício que viabilize a escolha. Deve-se considerar neste estudo, além de outros fatores, o número de afiações da ferramenta, vida da ferramenta entre as afiações, tempo de máquina parada, tempo ocioso do operador, facilidade de descarte, durabilidade do fluido e custo de reciclagem. Para algumas situações, a seleção do fluido de corte é realmente complicada, como no caso das células flexíveis de manufatura. Nestas células, várias operações de usinagem podem ser feitas e uma variedade enorme de materiais podem ser usinados. É difícil, portanto, satisfazer a todas as situações simultaneamente. 11.8 - Alguns Trabalhos Visando Avaliar o Desempenho dos Fluidos A literatura mostra vários testes visando avaliar o desempenho de fluidos de corte. Estes testes podem ser divididos em duas categorias: os que não envolvem usinagem (são realizados em laboratório) e os que envolvem usinagem. Neste item serão mostrados alguns trabalhos disponíveis na literatura. Testes que não Envolvem Usinagem Entre os que não envolvem usinagem está o teste a quatro esferas ("four balls") que consiste em um reservatório fechado, quatro esferas de aço e um volume apropriado de fluido em teste (ASTM D3233). Uma das esferas é colocada em rotação sobre as demais sob ação de um carregamento conhecido. Uma forma de realizar o ensaio é deixar o conjunto em teste até haver a fusão das esferas. Caso não ocorra a fusão, o ensaio é interrompido e a superfície das esferas é avaliada, principalmente quanto a lascamentos. O tempo necessário para isso ocorrer é controlado e o fluido de melhor desempenho é aquele que apresentar maior tempo. O ensaio apresenta outras variantes, como a aplicação da carga se efetuar de forma progressiva e controlada. Este método objetiva avaliar o desempenho dos aditivos de extrema pressão, principalmente nos óleos integrais. O ensaio não mostra boa correlação com a performance do fluido na usinagem (Skells e Cohen, Sandro Cardoso Santos 204 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 1976). Na realidade o método foi desenvolvido especificamente para classificar o óleo lubrificante de máquinas. Uma outra metodologia experimental, sem envolvimento de usinagem, foi proposta por Shaw et alli (1960). O objetivo era de verificar o comportamento do tetra-cloreto de carbono, CCl4, na usinagem. O método consiste em aplicar uma esfera dura, com carregamento conhecido, contra uma superfície de um material mole. A superfície é montada sobre uma base com movimento de rotação e possui um furo de diâmetro menor que o da esfera. O teste se processa até que a superfície se deforme plasticamente. O toque necessário para promover a deformação é monitorado. Sob certas condições o CCl4 atua como um mau lubrificante aumentando o coeficiente de atrito comparado com o ar. Entretanto, em baixas velocidades de corte ele é um dos fluidos mais eficazes que se tem conhecimento, do ponto de vista de redução de forças de usinagem e melhoria no acabamento da superfície. Shirakashi et alli (1978) também fizeram um estudo utilizando esta metodologia para simular o comportamento do CCl4 na usinagem de aços em baixas velocidades de corte. Sales (1999) utilizou a técnica de esclerometria pendular para avaliar a performance de diversos fluidos de corte. O instrumento desenvolvido por Franco (1989) é mostrado na Figura 11.6 e consiste de um pêndulo, com uma ferramenta de metal duro na extremidade, liberado a uma altura e energia conhecida. O corpo de prova é fixado na parte inferior do instrumento. O metal duro passa riscando o corpo de prova e eleva até outra altura e a diferença delas é a energia consumida no risco. A superfície fica imersa em cada fluido em avaliação. O corpo de provas é pesado antes e após o risco e com isso tem-se a perda de massa. A relação entre a perda de massa e a energia consumida, fornece um importante parâmetro para análises qualitativas dos fluidos, denominada por energia específica. Escala de Energia [J] Penetrador Porta penetrador Porta amostra Sandro Cardoso Santos 205 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 11.6 - Diagrama do esclerômetro pendular, mostrando os diversos componentes do instrumento (Franco, 1989). Na Figura 11.7 mostram-se os resultados experimentais obtidos nos ensaios. 3,5 Seco 3,0 Energia Específica [J/mg] Integral 2,5 Emulsionável 5% 2,0 Sintético 1 - 5% 1,5 Sintético1 Água Seco 1,0 0,5 Integral Sintético2 Sintético 2 - 5% Emulsionável Água 0,0 0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 18,0 Perda de Massa [mg] Figura 11.7 - Energia específica consumida em amostras aço ABNT NB 8640 submersas em fluidos de corte. Pontos experimentais (Sales, 1999). Testes que Envolvem Usinagem Existem na literatura vários testes de usinagem que normalmente são realizados a baixas velocidades de corte, com objetivo principal de caracterizar as qualidades lubrificantes do fluido. Ladov (1974) propôs uma metodologia de avaliação de fluidos de corte. Consiste em usinar uma superfície chanfrada ("tapping test") e fazer o monitoramento do torque de usinagem. Lorenz (1985) utilizou uma metodologia similar. Utilizou o processo de roscamento em superfícies previamente chanfradas. Ele apresentou toda uma metodologia experimental e estatística no tratamento dos dados objetivando normalizar o procedimento de classificação dos fluidos. Sandro Cardoso Santos 206 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Wakabayashi e Ogura (1989) propuseram um método, derivado do "tapping test", realizado no torneamento. A principal grandeza monitorada é o consumo de energia durante a usinagem da superfície no ensaio. Também é medido o máximo torque. Segundo eles, o "tapping test" é aceitável por apresentar uma boa correlação com os resultados práticos, apresentar um alta reprodutibilidade e sensibilidade, ser simples e rápido e finalmente, por utilizar corpos de prova também simples e em pequena quantidade. Eles mostraram o desempenho de fluidos com diferentes quantidades de aditivos EP por meio das curvas de energia consumida durante a usinagem do chanfro. De Chiffre et alli (1990) propuseram a utilização do processo de alargamento para usinar o chanfro interno numa superfície. A superfície de teste foi previamente usinada com um ângulo estabelecido. Foram monitorados os momentos torçores nas direções de corte e de recuo. Este método é mais uma variante do "tapping test" e objetiva avaliar a eficiência lubrificante dos fluidos. Eles avaliaram os fluidos mineral integral, emulsionável, semisintético e sintético. Os melhores resultados foram encontrados para o óleo mineral integral. Este método é realizado em velocidades de corte baixas, em torno de 6,5 m/min. Isto limita a extrapolação de seus resultados para aplicações práticas. Em operações envolvendo usinagem existem diversos trabalhos. Principalmente na furação, que é um processo em que a geração de calor e os mecanismos de formação do cavaco se processam em regiões de difícil acesso ao fluido. Normalmente são ensaios de longa duração, o que os torna onerosos. Como exemplo, De Chiffre (1978) avaliou a performance de fluidos mineral integral, emulsionável e sintético aditivado com enxôfre e cloro. Ele utilizou os processos de furação e alargamento e monitorou os momentos torçores nas direções de corte e de recuo. Utilizou outras duas variantes da furação e do alargamento, executando furos sobre pré-furos e alargando superfícies cônicas. Ele mostrou que o desempenho dos fluidos de corte é fortemente sensível ao processo, às condições de corte, bem como ao critério de performance estabelecido. Kurimoto e Barrow (1981) estudaram a influência dos fluidos emulsionável e mineral integral no desgaste de ferramentas de aço rápido. Os fluidos foram testados com e sem a presença de aditivos EP. Eles realizaram ensaios no torneamento, monitorando as forças de usinagem, a temperatura na interface cavaco-ferramenta pelo método do termopar ferramenta-peça, a vida da ferramenta, a espessura do cavaco e a área de contato cavacoferramenta. Segundo eles, os resultados encontrados mostraram que dos fluidos testados em condições reais de usinagem, os minerais integrais não penetraram na interface e consequentemente não atuaram como lubrificantes, enquanto os fluidos emulsionáveis apresentaram uma considerável penetração. Sandro Cardoso Santos 207 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Em um novo trabalho Kurimoto e Barrow (1982) persistiram no estudo de acessibilidade dos fluidos na interface. Neste trabalho eles avaliaram a influência dos fluidos emulsionáveis no desgaste de ferramentas de metal duro. Segundo eles, os resultados encontrados mostraram que nenhum dos fluidos testados apresentaram resultados representativos sobre os parâmetros avaliados, indicando que eles não penetram na interface cavaco-ferramenta para exercer a ação lubrificante e a ação refrigerante não é suficientemente grande para afetar os mecanismos de formação do cavaco. Analisando estes dois trabalhos de Kurimoto e Barrow nota-se que a alteração de qualquer componente do sistema tribológico, como material da ferramenta e/ou da peça, composição do fluido e parâmetros de corte, os resultados podem mudar completamente. Isto confirma a natureza sistêmica da usinagem dos metais. Säynätjoki e Routio (1992) realizaram ensaios experimentais de usinagem, na furação, seguindo a norma ISO 3685 (1977), que padronizou ensaios de vida de ferramentas. Eles avaliaram fluidos emulsionáveis com dois tipos de óleos básicos: mineral e vegetal. Eles não encontraram diferenças significativas entre os fluidos testados. Machado e Wallbank (1997a) propuseram uma nova técnica para testar os efeitos lubrificantes dos fluidos. O método consiste na aplicação de pequenas quantidades de fluidos (25 ml/h) juntamente com ar comprimido. A mistura ar-óleo é feita por meio de um venturi e direcionada na superfície de saída da ferramenta, contra o fluxo de cavaco. Eles realizaram testes no torneamento e monitoraram as forças de corte e de avanço, a espessura do cavaco e a rugosidade da superfície. Os resultados encontrados, principalmente para a força de avanço, foram encorajadores. Motta (1994) e Vieira (1997) realizaram estudos sobre a performance de fluidos emulsionáveis, semi-sintéticos, sintéticos e a condição a seco para efeitos comparativos, nos processos de torneamento e fresamento, respectivamente. Motta (1995) encontrou melhora substancial na vida das ferramentas, com a utilização de fluidos. Entretanto, Vieira (1997) encontrou resultados desfavoráveis. Isto confirmou a conclusão encontrada por De Chiffre (1978), sobre a sensibilidade do fluido ao processo. Sales (1999), avaliou o desempenho de diversos fluidos de corte, por meio da medição de forças de corte, utilizando-se de uma plataforma piezelétrica Kistler, no processo de torneamento. O fluido foi aplicado na posição sobre-cabeça à vazão de 4,5 l/min. Na Figura 7.8 mostra-se os resultados experimentais obtidos. Os ensaios que envolvem usinagem, normalmente são de longa duração e dispendiosos. Por isso, existe a tendência de testar os fluidos em laboratório em condições Sandro Cardoso Santos 208 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS que possam garantir a transferibilidade dos resultados obtidos para as situações reais de trabalho. Mas isso não irá dispensar os ensaios reais que poderão comprovar os de laboratório e realmente determinar o desempenho do fluido sob avaliação. Outros tipos de testes são utilizados, mas com outros objetivos como: controle da concentração, testes biológicos controlando a quantidade de fungos e de bactérias, estabilidade das emulsões, viscosidade, concentração de íons H+, pH, entre outros (Metals Handbook, 1989). f = 0,138 mm/rev ap = 1 mm 550 Seco Emulsionável 5% Integral 500 Sintético1 5% Emulsionável 5% 450 Emulsionável 10% Integral 400 Emulsionável 10% Sintético 1 5% 350 Seco Sintético1 10% Sintético 1 10% 300 9 28 86 172 219 277 vc [m/min] Figura 11.8 - Variação da força de corte com a velocidade para os diversos fluidos. Sandro Cardoso Santos 209 Wisley Falco Sales CAPÍTULO XII INTEGRIDADE SUPERFICIAL EM USINAGEM Introdução A fabricação de componentes por usinagem, devido ao modo de retirada de material da peça envolvendo cisalhamento, apresentam as superfícies usinadas com danos provocados pelo processo. As peças para aplicação nas indústrias automobilística e aeronáutica apresentam particularidades que tornam complexos o seu dimensionamento e fabricação. Principalmente na aeronáutica, as peças devem apresentar alta confiabilidade, pois uma falha pode resultar em conseqüências catastróficas. Por outro lado, o peso excessivo deve ser evitado por implicar em redução da capacidade de carga e aumentar o consumo de combustível da aeronave. Como grande parte desses componentes são submetidos a cargas cíclicas, para que os critérios de segurança sejam atingidos sem aumento excessivo de peso, é comum que os eles sejam projetados para suportar um determinado número de ciclos ao longo de sua vida, ao fim do qual a peça é substituída. No início da década de 1960, a falha prematura de algumas dessas peças foi motivo de profundas investigações. Como não foram encontrados erros de projeto, fabricação nem na matéria-prima utilizada, foi investigada a possibilidade de as falhas terem sido provocadas por alterações nas características do material da peça durante o processo de usinagem. Na época, os pesquisadores constataram que durante o processo de fabricação podem ocorrer alterações na superfície ou em uma camada subsuperficial da ordem de grandeza de micrometros, que podem reduzir a resistência à fadiga da peça. A partir daí surgiu a linha de pesquisas conhecida como “integridade superficial”. O termo “integridade superficial” foi citado pela primeira vez em 1964 por Field e Kahles, como definição para o conjunto de alterações na superfície das peças devido à ação de ferramentas de corte ou de outros processos de fabricação. As alterações superficiais podem ser de natureza mecânica, metalúrgica, química ou outros tipos de transformação. A integridade superficial tornou-se oficialmente um campo de estudos, durante a 21a. Assembléia Geral do CIRP (Setembro de 1971). A natureza de uma superfície é caracterizada pela textura superficial e pelas transformações metalúrgicas ocorridas na região subsuperficial da peça. O estudo da integridade superficial pode ser dividido em três níveis, como mostrado na Fig. 12.1. O conjunto mínimo de informações que permitem a caracterização da natureza da camada Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS superficial da peça, feita por meio da textura, da macro e microestruturas e microdureza. O conjunto padrão inclui informações a respeito do comportamento da peça usinada, como a resistência à fadiga, à corrosão sob tensão e as tensões residuais. O conjunto completo contém os dois primeiros e ainda informações complementares sobre a resistência à fadiga além de resultados de ensaios mecânicos. CONJUNTO COMPLETO DE INFORMAÇÕES CONJUNTO PADRÃO DE INFORMAÇÕES CONJUNTO MÍNIMO DE INFORMAÇÕES 1. ACABAMENTO SUPERFICIAL 2. MACROESTRUTURA (AUMENTO DE 10 X OU MENOR) A). MACROTRINCAS B). MACROATAQUES 3. MICROESTRUTURA A). MICROTRINCAS B). DEFORMAÇÃO PLÁSTICA C). TRANSFORMAÇÃO DE FASE D). ATAQUE INTERGRANULAR E). FORMÇÃO DE “PITS”, ETC. F). RESÍDUOS DE APC G). CAMADAS FUNDIDAS H). ATAQUE SELETIVO 1. ENSAIOS DE FADIGA 1. ENSAIOS DE FADIGA (COM O OBJETIVO DE SE OBTER DADOS PARA PROJETO) 2. CORROSÃO SOB TENSÃO 3. TENSÕES RESIDUAIS E DISTORÇÕES 2. ENSAIOS MECÂNICOS A TRAÇÃO B TENSÃO DE RUPTURA C. FLUÊNCIA D. OUTROS 4. MICRODUREZA Figura 12.1. – Níveis de informação para a determinação da integridade superficial de uma superfície e os seus efeitos. O nível de conhecimento da integridade superficial das peças depende do quão crítica é a sua aplicação, pois cada item avaliado contribui para a elevação do custo final da peça. Em geral, as situações em que a análise da integridade superficial é necessária são as que envolvem peças de elevado custo de fabricação, com vida pré-determinada ou quando sua a falha representa riscos à integridade física de usuários. Textura Superficial Introdução Uma superfície, por mais lisa que pareça, apresenta irregularidades inerentes do próprio processo de geração. Um desenho esquemático de uma superfície real é mostrado na Fig. 12.2. As características de uma superfície são definidas em três níveis: erros de forma, ondulação e rugosidade, de acordo com a distância entre as irregularidades. Sandro Cardoso Santos 212 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 12.2. Aspecto geral de uma superfície. A textura da peça mostrada no desenho esquemático da Fig. 12.2 é caracterizada por dois níveis de irregularidades: um perfil de rugosidade (linha cheia) e outro de ondulação (linha pontilhada), conforme mostrado na Fig. 12.3. Figura 12.3 - Perfis de rugosidade e de ondulação de uma superfície. A rugosidade é caracterizada por irregularidades de menor espaçamento, enquanto a ondulação corresponde a irregularidades mais espaçadas. Medição da Textura Superficial Uma série de fatores justifica o ato de medir a textura superficial de uma peça: a qualidade da superfície obtida está relacionada com as características do processo de fabricação. Assim qualquer alteração no processo como uma eventual mudança na dureza ou na composição química da matéria prima, desgaste excessivo da ferramenta de corte, o adoção de parâmetros de corte inadequados, instabilidade da máquina apresentam reflexos na textura da peça produzida. Em outras palavras, pode-se dizer que “a textura superficial é a impressão digital do processo de manufatura”. A textura superficial pode estar relacionada ao desempenho do componente fabricado, no que diz respeito à sua capacidade de operação dentro dos padrões de qualidade e à sua Sandro Cardoso Santos 213 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS aparência. Nesse aspecto é importante ressaltar que o acabamento da superfície deve manter o custo de produção dentro de valores aceitáveis. A função a que o componente é destinado também pode estar intimamente relacionada à textura da superfície. Um bom exemplo é o caso de duas superfícies em movimento relativo. Pode-se imaginar que quanto mais lisas forem as superfícies melhor, mas essa afirmação nem sempre é verdadeira. Em casos em que as superfícies são lubrificadas, o óleo deve ser mantido nas superfícies e para isso elas devem apresentar vales para retenção do lubrificante. Uma superfície é mais lisa que o necessário pode representar custos adicionais sem corresponder a melhora do desempenho. Peças destinadas a pintura são um exemplo da relação da textura superficial com a aparência do produto final. A resistência térmica de contato é fortemente dependente da área real de contato entre duas superfícies e em aplicações que se requer dissipação de calor pode ser um fator determinante do desempenho. A determinação de parâmetros que definam a textura de uma superfície é uma tarefa difícil, devido à sua complexidade. A seguir são apresentadas as definições de alguns parâmetros que fornecem informações a respeito do perfil de rugosidade. Quantificação da Textura Superficial Uma vez mostrada a importância de se controlar a textura superficial de uma peça, é preciso definir quais grandezas permitam caracterizá-la, bem como as técnicas empregadas com essa finalidade. A medição da textura de uma superfície pode ser feita por meio de instrumentos de contato ou óticos. No primeiro caso utiliza-se um apalpador que percorre a superfície deslocando-se de acordo com a topografia da região. Os deslocamentos são ampliados e registrados e então é determinado o perfil da superfície. Na Figura 12.4 mostra-se o princípio de funcionamento do método de medição da textura superficial por contato. A amostra e o papel se movimentam em sentidos opostos. O apalpador se desloca na direção vertical acompanhando a topografia da superfície. O perfil da superfície é ampliado e registrado no papel. Em termos práticos, a construção de um equipamento (Fig. 12.4) apresenta uma série de problemas como o comprimento da haste, que deve ser grande o suficiente para permitir uma ampliação perceptível, dificuldades de se determinar parâmetros para descrever a topografia da amostra com base no perfil ampliado impresso. Sandro Cardoso Santos 214 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Ampliação da topografia da superfície Perfil de rugosidade da superfície amostra Ponto de pivotamento da barra Sentido do movimento da amostra Papel Sentido de movimento do papel Figura 12.4 - Princípio de funcionamento do método de medição da textura superficial por contato. Os instrumentos utilizados para a medição da rugosidade de superfícies por contato seguem o mesmo princípio mostrado na Fig. 12.4, com a diferença que o deslocamento do apalpador é convertido em sinais elétricos que são amplificados, armazenados e utilizados para a determinação dos parâmetros. A topografia de uma superfície influencia o comportamento de um feixe luminoso que incide sobre ela. Os instrumentos que utilizam o princípio ótico funcionam com base nesse princípio. Existe um grande número de parâmetros que definem a rugosidade de uma superfície, que podem ser divididos em três grupos de acordo com o perfil de rugosidade quantificado: • Parâmetros de amplitude: são determinados em função da altura dos picos e/ou profundidade dos vales a partir um referencial na horizontal; • Parâmetros de espaçamento: são determinados em função da distância entre as irregularidades ao longo da superfície; • Parâmetros híbridos: são determinados pela combinação dos parâmetros de amplitude e de espaçamento. Sandro Cardoso Santos 215 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Para que seja feita a medida da rugosidade é preciso antes apresentar algumas definições fundamentais. Comprimento de avaliação Os comprimentos avaliados na quantificação da textura de uma superfície são divididos em três comprimentos característicos, mostrados na Fig. 12.5. O comprimento de amostragem corresponde a cada trecho utilizado para o cálculo dos parâmetros. Ele deve ser suficiente para assegurar a significância estatística sem ser longa a ponto de incluir detalhes insignificantes. O comprimento de análise corresponde à soma de todos os comprimentos de amostragem. O comprimento total é o comprimento de amostragem acrescido de dois trechos nas extremidades que não são considerados no cálculo dos parâmetros de rugosidade e ondulação. Os comprimentos inicial (“run up”) e final (“overtravel”) são desprezados porque a agulha do instrumento percorre esses trechos com velocidade variável. Transiente de saída Transiente de entrada Comprimento de avaliação Comprimentos de amostragem Comprimento total Figura 12.5 - Comprimentos de análise para cálculo da rugosidade. Sandro Cardoso Santos 216 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Linha de Centro A medida dos parâmetros de rugosidade é feita com base em uma linha imaginária, chamada linha de centros, que corta a superfície na posição em que a área dos picos, acima da linha equivale à área dos vales, abaixo da linha. Na Figura 12.6 mostra-se o posicionamento da linha de centros. A E C B D G F H Linha de centro área A + C + E + G = área B + D + F + H Figura 12.6. Posicionamento da linha de centro Cut-off O perfil de rugosidade de uma superfície é complexo e pode ser comparado a um sinal de ruído branco, ou seja, formado por várias ondas de diferentes freqüências. Antes de se determinar a rugosidade da superfície é preciso definir quais desses perfis serão considerados no cálculo da rugosidade. Essa seleção é feita por meio do “cut-off” que representa o máximo espaçamento entre as irregularidades que farão parte do cálculo da rugosidade. Irregularidades maiores que o comprimento de cut-off são consideradas ondulações. O cut-off atua, então, como um filtro utilizado para separar a rugosidade da ondulação. O comprimento de cutt-off é selecionado no próprio instrumento de medição e recomenda-se que ele seja pelo menos 2,5 vezes superior à distância entre picos do perfil de rugosidade. Parâmetros de Rugosidade Rugosidade Média Ra A medida da rugosidade média de uma superfície é o parâmetro mais difundido. É determinada a partir da média das distâncias entre os pontos da superfície e a linha de centro, ao longo do comprimento de amostragem, como mostrado na Fig. 12.7. Sandro Cardoso Santos 217 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS y1 y2 y3 y4 y5 y 6 y7 y8 ............................ yn Figura 12.7. Derivação matemática de Ra e Rq O valor da rugosidade média de uma superfície é calculado da seguinte forma (Eq. 12.1): Ra = y 1 + y 2 + ... + y n (1) n Superfícies com diferentes aspectos podem apresentar o mesmo valor de Ra. Na Figura 12.8 mostra-se, de forma esquemática, superfícies com características distintas e que apresentam o mesmo valor de Ra. Ra Rmáx Ra Rmáx Ra Rmáx Ra Rmáx Figura 12.8 - Perfis que apresentam o mesmo valor de Ra e diferentes geometrias. Sandro Cardoso Santos 218 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Como o parâmetro Ra não permite caracterizar a geometria das irregularidades da superfície, outros parâmetros foram definidos. Rugosidade Média Quadrática Rq (RMS) O parâmetro Rq é calculado segundo a Eq.12.2: 2 Rq = 2 y 1 + y 2 + ... + y n n 2 (2) Com o exemplo a seguir, verifica-se que o parâmetro Rq pode representar melhor a natureza de uma superfície. Na Tabela 12.1 são apresentadas cinco seqüências de valores cuja média aritmética é 5, com diferentes médias quadráticas, dependendo da dispersão dos valores. Tabela 12.1 – Seqüências de valores com a mesma média aritmética e diferentes médias quadráticas. MÉDIA MÉDIA (Ra) SEQÜÊNCIAS QUADRÁTICA (Rq) 5 5 5 5 4 5 6 5 3 5 7 5 2 5 8 5 1 5 9 5 5 5,07 5,26 5,57 5,97 DESVIO PADRÃO 0 1 2 3 4 A dificuldade de se estabelecer um parâmetro que represente o aspecto geral da topografia de uma superfície fez com que surgissem vários outros parâmetros, definidos de modo a destacar uma característica específica da superfície que é importante para uma aplicação. A seguir são apresentados alguns desses parâmetros. Sandro Cardoso Santos 219 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Parâmetros que especificam a altura entre picos e vales Em alguns casos é desejável que se especifique a máxima altura dos picos e/ou dos vales de um perfil de rugosidade. Como mostra o exemplo da Tabela 12.1, o parâmetro Ra é pouco sensível à variação dessa característica e com isso surgiram parâmetros que representam melhor o perfil de picos e vales da superfície, como os parâmetros Rmáx, Rp e Rt, mostrados na Fig. 12.9. O parâmetro Rt expressa a distância entre o pico mais alto e o vale mais profundo, medida na direção perpendicular à linha de centro em todo o comprimento de análise. A determinação do Rmáx é semelhante á do Rt, só que dentro do comprimento de amostragem. R m áx2 R m áx1 R m áx3 R m áx1 R m áx4 R m áx5 L L Rt L L L C om prim ento de análise Figura 12.9 – Representação dos parâmetros Rmáx, o Rp e Rt Razão de Material – Curva de Abbott-Firestone O parâmetro Razão de Material (fração de contato), simula o desgaste que ocorre em um componente que fornece uma superfície de contato para outro componente que se move relativamente a ele. Um exemplo desse parâmetro é visto na Fig. 12.10a onde uma superfície plana (por exemplo, uma placa de polimento) repousando sobre o pico mais alto de um perfil. À medida que o pico se desgasta, a linha de topo de perfil remanescente (a linha de contato) move para baixo o perfil e o comprimento da superfície em contato com a placa de polimento (a superfície de contato) aumenta. A Razão de Material é a razão do Sandro Cardoso Santos 220 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS comprimento da superfície de contato, em qualquer profundidade especificada no perfil, em relação ao comprimento de avaliação e, é expressa com uma porcentagem, (Fig. 12.10b). a b c d e MR(%) 0 100 ln a) Superfície real de engenharia b) Razão de material Figura 12.10. Razão de Material / Fração de contato / Tp. Mostrando na forma gráfica o valor da razão de material (rm) contra a profundidade abaixo do pico mais alto (ou a distância a partir da linha média) entre os limites 0% e 100%, então a curva de razão de material (ou Abbott-Firestone) é obtida. Esta curva representa a razão de material da superfície do perfil em função da profundidade. A taxa de apoio é definida pela razão (Eq. 12.3): Taxa de apoio = a+b+c+d +e ln (3) À medida que a linha horizontal avança, os valores da taxa de apoio aumentam até atingir 100%. Parâmetros da Curva de Abbott-Firestone São definidos cinco parâmetros principais na curva de Abbot-Firestone, conforme mostrado na Fig. 12.11. Na Tabela 12.2 mostram-se as definições destes parâmetros obtidos diretamente da curva de Abbott-Firestone e outros dela derivados. Sandro Cardoso Santos 221 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Rpk Rk Rvk Mr2 Mr1 Figura 12.11. Parâmetros da curva de Abbott-Firestone. Tabela 12.2 - Descrição dos parâmetros da curva de Abbott-Firestone. Parâmetro Descrição / Equação Corte dos picos mais altos, parte superior da superfície, que Rpk rapidamente se desgasta na primeira rodagem. Obs.: Parâmetro para cálculo de Vsf Rk Parte intermediária da rugosidade. Obs.: Parâmetro para cálculo de Vsf Remanescente dos sulcos principais. Obs.: Parâmetro para cálculo de Rvk retenção de fluidos de lubrificação Vr Valor em percentual de fração de corte da superfície quando se Mr1 desgasta o material de primeira rodagem (Rpk). Obs.: Parâmetro para cálculo de Vsr Valor em percentual de fração de corte da superfície quando se Mr2 desgasta o material intermediário (Rk). Obs.: Parâmetro de cálculo de retenção de fluido lubrificante (Vr) Volume de retenção de fluido de lubrificação por unidade de superfície Vr Vr = (100 - Mr2) * Rvk / 2000 Volume de sobremetal de (primeira) rodagem por volume de superfície Vsr Vsr = Mr1 * Rpk / 2000 Sandro Cardoso Santos 222 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Parâmetro Descrição / Equação Volume de sobremetal de funcionamento por unidade de superfície Vsf Vsf = 100 * Rk / 2000 A textura da superficial e a razão de contato são parâmetros importantes para o desempenho de peças usinadas ou dos equipamentos em que elas forem montadas. Um bom exemplo é a textura gerada na superfície interna de cilindros de motores de combustão interna, mostrados na Fig. 12.12. Na Figura 12.12a mostra-se o bloco do motor, evidenciando os cilindros após a operação de brunimento a platô enquanto na Fig. 12.12b mostra-se uma das ferramentas abrasivas, utilizadas no processo. a) bloco de motor. b) ferramenta para brunimento a platô. Figura 12.12 – Cilindro de motor de combustão interna. A superfície das paredes do cilindro deve favorecer a fixação de óleo lubrificante, de modo a impedir o contato direto com os anéis dos pistões, mas ao mesmo tempo o par anelcilindro deve garantir a vedação para impedir a passagem dos gases provenientes do ciclo de combustão. A geração de uma topografia adequada, conferindo simultaneamente características de lubrificação e de vedação, é obtida por meio da operação de brunimento a platô. Sandro Cardoso Santos 223 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS A textura superficial de cilindros de motores de combustão interna tem influência nos parâmetros relacionados ao funcionamento do motor, consumo de lubrificante, potência e torque, como mostram os gráficos da Fig. 12.13. 82 POTÊNCIA (cv) TORQUE (kgm) MOTOR1 MOTOR2 MOTOR3 80 78 76 74 72 70 0 50 100 150 13,0 12,9 12,8 12,7 12,6 12,5 12,4 12,3 12,2 12,1 12,0 11,9 11,8 11,7 11,6 11,5 11,4 11,3 11,2 11,1 11,0 200 MOTOR1 MOTOR2 MOTOR3 18 16 MOTOR1 MOTOR2 MOTOR3 14 CONSUMO (g/h) 84 12 10 8 6 4 2 0 0 50 100 150 200 -50 TEMPO DE FUNCIONAMENTO (h) TEMPO DE FUNCIONAMENTO (h) 1 0HORA50 100 150 200200 250 HORAS Nº DE HORAS Motor 1 – Topografia intermediária; Motor 2 – Limite inferior de rugosidade; Motor 3 – Limite superior de rugosidade. Figura 12.13. Influência da textura superficial das paredes de cilindros de motores de combustão interna na potência, torque e consumo de lubrificante do motor (Machado, 2002). De acordo como os resultados apresentados na Fig. 12.13, superfícies de cilindros de com rugosidade próxima do limite superior de rugosidade, estabelecidos em projeto, tendem a dar origem a motores com maior potência, maior torque e maior consumo de lubrificante. Efeitos de Alguns Parâmetros de Usinagem no Acabamento Superficial O acabamento superficial sofre influência de vários parâmetros de usinagem, incluindo: a geometria da ferramenta de corte, geometria da peça, rigidez da máquina ferramenta, material da peça, condições de corte e material da ferramenta. Em geral a rugosidade é menor (ou o acabamento é melhor) quando: • Deflexões geradas por esforços de usinagem ou vibrações são pequenas. • A ponta da ferramenta não é aguda. • A ferramenta e a peça estão corretamente posicionadas e centradas (evitar desvios). Sandro Cardoso Santos 224 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • O material da peça é inerentemente puro, livre de defeitos (trincas, bolhas e inclusões). • O eixo principal da máquina ferramenta está corretamente alinhado e as guias sem desgastes. • A aresta de corte sem quebras. • Corte sem aresta postiça de corte (APC). Geometria da Ferramenta γ - quanto maior o ângulo de saída, menores as forças de usinagem e portanto, as alturas das ondulações e deflexões são menores. α - o ângulo de folga deve ser suficiente para prevenir o atrito entre a ferramenta e superfície usinada. O atrito gera forças adicionais que causam as deflexões. O contato com atrito tende a imprimir na superfície usinada, o perfil do desgaste da ferramenta. Devem possuir valores adequados para ajudar na saída de fragmentos de APC, evitando que esses fragmentos fiquem grudados nas superfícies usinadas. rn - o raio de ponta da ferramenta deve ser suficientemente grande para diminuir o efeito dos dentes de serra das marcas de avanço, com apreciável melhora no acabamento. Entretanto um raio de ponta excessivo pode gerar vibrações. χr e χ’r (ângulo de posição)- o efeito destes ângulos é pequeno, mas uma redução no ângulo de posição diminui as marcas de avanço e melhora o escoamento do cavaco e acabamento. χ muito pequeno, pode causar vibrações. Aumento do ângulo de posição lateral aumenta a altura das marcas de avanço e prejudica o acabamento. É comum usar χr=0o por um comprimento de 1,5 x “ƒ” para remover parcialmente ou totalmente as marcas de avanço. Este método, porém, pode causar vibrações. Porta Ferramenta O porta-ferramentas deve apresentar seção transversal suficiente para minimizar deflexões. Sandro Cardoso Santos 225 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Geometria da Ferramenta Peças longas e finas são mais sensíveis a forças elásticas e dinâmicas. Como resultado, as ondulações são mais pronunciadas. Por outro lado, peças grandes (grandes seções transversais), são rígidas e as alturas das ondulações são pequenas. Rigidez e Precisão da Máquina-Ferramenta A máquina operatriz rígida, sem erros de alinhamento e com movimentos precisos, não irá interferir no acabamento superficial. Características são desejáveis: • Potência suficiente para manter a velocidade e o avanço requerido, sem problemas; • Adequada resiliência para evitar deflexões; • Rigidez e amortecimento contra vibrações; • Ter uma base (fundação) adequada para minimizar vibrações e transmissão para outras máquinas; • Precisão na fabricação para reduzir ao mínimo o desalinhamento; • Meios adequados para suportar rigidamente a peça e a ferramenta. Material da Peça Composição química, dureza, microestrutura e a consistência metalúrgica são fatores que podem afetar o acabamento superficial. Em geral, o acabamento superficial é melhorado com: • Uma composição química que desfavorece o aparecimento da APC; • Alta dureza e baixa ductilidade; • Granulação fina e alta dureza dos microconstituintes; • Alta consistência nas propriedades (ao longo de toda seção transversal). Sandro Cardoso Santos 226 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Condições de Corte A velocidade de corte, em geral, tende a melhorar o acabamento superficial. Em baixas velocidades as forças são maiores e pode acontecer APC. À velocidades de corte mais elevadas, o acabamento superficial torna-se insensível à velocidade de corte. O avanço e a profundidade de corte são muito mais influentes no acabamento superficial. Dos dois, o avanço é mais influente. A altura dos picos e a profundidade dos vales das marcas de avanço são proporcionais ao quadrado do avanço. A profundidade de corte aumenta as forças e, portanto as deflexões. A altura das ondulações também é aumentada com a profundidade de corte. Material da Ferramenta de Corte Materiais mais resistentes suportam maiores velocidades, permitindo a eliminação da APC. Assim, metais duros e cerâmicos são melhores que HSS (aço rápido) e aço carbono. Em aplicações onde a tenacidade é primordial para manter a aresta de corte livre de falhas, o HSS torna-se mais adequado. Quanto menor o atrito entre a peça e a ferramenta, melhor o acabamento superficial. Neste ponto, os metais duros e as cerâmicas são superiores ao HSS. Entre os dois primeiros as diferenças são pequenas. Fluido de Corte Como refrigerante, ele diminui o desgaste. Como lubrificante, ele diminui o atrito entre a ferramenta e a peça ou cavaco. Tudo isto, melhora o acabamento superficial. A eficácia dos fluidos de corte aplicados em abundância muitas vezes pode ser comprovada, mas noutras inúmeras situações isso não é evidente e dessa forma, a usinagem com fluido aplicado em mínima quantidade de lubrificante (MQL), em alta pressão (acima de 50 bar) e mesmo o corte a seco, tem sido amplamente pesquisados e testados em inúmeras universidades e empresas ao redor do mundo. Em usinagem, é grande o número de fatores que podem influenciar nos resultados. A simples alteração do processo, do material da ferramenta ou da peça pode alterar totalmente os resultados encontrados, caracterizando-o como altamente sistêmico não linear e de alta sensibilidade. O entendimento do processo permite que para cada nova situação se possa refletir e tomar a decisão mais sensata para o problema. Sandro Cardoso Santos 227 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Existem na literatura inúmeros trabalhos referentes a desgaste da ferramenta, temperatura na interface e temperatura e rugosidade da peça. A análise de cada um deles realizada de forma isolada já é relativamente difundida, mas faltam trabalhos que os correlacione simultaneamente. Integridade Superficial Além da textura superficial, outro aspecto importante da integridade superficial de peças usinadas é relacionado a possíveis transformações metalúrgicas que podem ocorrer nas proximidades da superfície devido à ação de esforços mecânicos e das elevadas temperaturas em conseqüência da ação da ferramenta de corte. Essas alterações podem ser relacionadas a: • Deformações plásticas resultantes de deformações a quente ou a frio; • Microtrincas e macrotrincas; • Transformações de fase; • Fragmentos de aresta postiça de corte; • Tensões residuais; • Ataque intergranular. Essas alterações podem provocar distorções, reduzir a resistência à fadiga e a resistência à corrosão sob tensão. Os materiais mais propensos a sofrerem alterações nas camadas subsuperficiais são os aços endurecidos, aços inoxidáveis e ligas de titânio e níquel. Uma alteração comum na usinagem de aços endurecidos é a formação da chamada camada branca. A camada branca recebe essa denominação pelo fato de não reagir com as substâncias utilizadas em ataques para revelação de micorestrutura. Na Figura 12.14 são mostradas fotografias de camadas brancas em superfícies do aço AISI 52100 geradas pelos processos de torneamento e retificação. Sandro Cardoso Santos 228 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Camada branca Camada branca Transição Camada preta Transição Camada preta Retificação Torneamento Figura 12.14. Camadas brancas originadas no torneamento e retificação do aço AISI 52100. Modificações nas Superfícies As condições reais da superfície não podem ser expressas pelos parâmetros de medição da topografia da superfície. Nesta seção são apresentados dois fenômenos que alteram o aspecto das superfícies e que não necessariamente são detectados pela medição da topografia ou que podem modificar os seus valores, dando uma falsa impressão do real estado da superfície. Neste tópico são abordados o fluxo lateral de material (side flow) e abertura de cavidades (open grain). Cada um desses fenômenos são detalhados a seguir. Fluxo lateral de material (side flow) O fluxo lateral de material, conhecido como side flow, consiste na movimentação de material da peça no sentido contrário ao do avanço. Fotografias obtidas em microscópio eletrônico de varredura, como a apresentada na Fig. 12.15, podem evidenciar a ocorrência de fluxo lateral de material. A superfície mostrada nessa figura é a de um disco de freio de ferro fundido cinzento e a região em destaque evidencia a movimentação de material no sentido contrário ao do avanço. O avanço é o parâmetro de corte que mais influencia o fluxo lateral de material. Outros parâmetros relacionados à geometria da ferramenta, como o raio de ponta, e as condições de corte, como a profundidade e a velocidade, também são relevantes no fluxo lateral de material. Sandro Cardoso Santos 229 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Fluxo lateral de cavaco Sentido do avanço vc = 240 m/min ; f = 0,30 mm/rot ; ap = 1,5 mm Figura 12.15. Superfície de um torneada de um disco de freio de ferro fundido cinzento, mostrando o fluxo lateral de material. A ocorrência do fluxo lateral de cavaco pode ser evidenciada, ainda, pela comparação entre os valores teóricos e experimentais dos parâmetros de rugosidade. Tomando como base o parâmetro Ra, pode-se comparar valores teóricos com resultados experimentais conforme mostrado na Fig. 12.16. O valor teórico de Ra é determinado pela Eq. 12.4. Ra = f2 18. 3.rξ Sandro Cardoso Santos (4) 230 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS 7,00 6,00 5,00 µ 4,00 3,00 2,00 Ra medido 1,00 Ra calculado 0,00 0 0,05 0,1 0,15 0,2 0,25 0,3 0,35 0,4 0,45 f (mm/rot) Figura 12.16. Gráfico comparativo entre valores de Ra teórico e experimental (Souto, 2003). Com base na Figura 12.16, pode-se verificar que para baixos valores de avanço o valor de Ra calculado foram menores que os determinado em ensaios experimentais, fato que pode se justificado pela influência de fatores como instabilidade da máquina- ferramenta, vibrações, folgas, presença fragmentos da aresta postiça de corte, etc. Com o aumento do avanço, os valores reais e teóricos de Ra tendem a convergir e a para valores acima de 0,3 mm/rev. os valores de Ra teóricos passaram a ser maiores que os experimentais. Para que a situação ocorra, é necessário que as marcas de avanço sejam parcialmente cobertas pelo material da peça que, conforme mostra-se na Fig. 12.17, é deslocado no sentido contrário ao do avanço durante a passagem da ferramenta. Abertura de cavidades (open grain) O fenômeno conhecido como open grain que ocorre na usinagem de materiais frágeis e é caracterizado pela formação de cavidades distribuídas ao longo da superfície. Na imagem de microscópio eletrônico de varredura, mostrada na Fig. 12.17, pode-se identificar a presença de cavidades cobertas por material da peça. Sandro Cardoso Santos 231 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Cavidade (“open grain”) vc = 240 m/min ; f = 0,15 mm/rev ; ap = 1,5 mm Figura 12.17. Superfície de um disco de freio de ferro fundido cinzento. A presença das cavidades na superfície pode ser visualizada por meio de imagens de microscópio ótico, como a mostrada na Fig. 12.18, que corresponde a uma superfície gerada com as mesmas condições de corte adotadas para a superfície mostrada na Fig. 12.17. vc = 240 m/min ; f = 0,15 mm/rev ; ap = 1,5 mm Figura 12.18. Imagem de microscópio ótico da superfície de um disco de freio de ferro fundido cinzento com cavidades identificadas pelas setas. Sandro Cardoso Santos 232 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Dependendo de suas dimensões de sua distribuição, a presença das cavidades pode não ser evidenciada apenas pela interpretação de medidas de rugosidade, principalmente pelos parâmetros de amplitude média (Ra e Rq). A presença dessas cavidades pode ser determinante no desempenho da peça usinada de várias maneiras, como no valor do coeficiente de atrito, na geração de pontos de concentração de tensão. As cavidades geradas durante o desbaste podem impossibilitar a obtenção de superfícies com topografias suaves em operações de acabamento. No que diz respeito ao fenômeno open grain, o avanço é o parâmetro que mais influencia a quantidade, quanto a área média das cavidades geradas em superfícies torneadas de ferro fundido cinzento. Tanto a textura superficial quanto a integridade superficial podem ser fatores decisivos para a vida e para o desempenho de peças usinadas, principalmente no que diz respeito à resistência à fadiga. As características da peça quanto às propriedades requeridas, em termos de vida útil, dimensões, tolerâncias, vedação e retenção de fluido, são informações fundamentais para a seleção do processo de fabricação, da geometria da ferramenta, do uso de fluido e por fim, dos parâmetros de corte que serão utilizados. Portanto, o conhecimento e entendimento do processo de usinagem tornam-se essenciais para se fabricar componentes dentro dos parâmetros estabelecidos no projeto. Sandro Cardoso Santos 233 Wisley Falco Sales CAPÍTULO XIII USINABILIDADE DOS METAIS 13.1 Introdução O significado do termo usinabilidade é diretamente associado à facilidade ou a dificuldade de se usinar um determinado material. Assim, pode-se afirmar que um material possui usinabilidade melhor que a de um outro se apresentar maior facilidade de ser usinado. Do ponto de vista conceitual, portanto, o termo usinabilidade não apresenta nenhuma dificuldade em ser compreendido. Em termos práticos, não basta saber que um determinado material apresenta usinabilidade melhor que o outro, mas é preciso conhecer o “quanto” essa usinabilidade é melhor e quando se trata de atribuir valores, o termo usinabilidade apresenta um significado mais complexo. Partindo do conceito de usinabilidade como a facilidade de se usinar um material, em primeiro lugar, devem ser tomados os parâmetros que fazem com que a usinagem seja mais ou menos favorecida. Entre esses parâmetros podem ser citados: • Tipo e forma do cavaco formado; • Máxima taxa de remoção de material (condições de corte admissíveis); • Força e potência de usinagem; • Temperatura de corte; • Vida da ferramenta; • Integridade superficial da peça usinada; • Propriedades físicas ou mecânicas dos materiais (relação com a força e potência de usinagem); • Formação de rebarbas; • Estabilidade química e metalúrgica do material da peça. Os parâmetros citados acima são conhecidos como parâmetros de usinabilidade. Diante do grande número de parâmetros de usinabilidade, um material pode apresentar usinabilidade melhor que outro segundo um determinado critério e pior em relação a outro. Nesse caso o estudo da usinabilidade depende de quais parâmetros são os mais influentes, o que, por sua vez, depende de outros fatores como o processo de usinagem, material e geometria da ferramenta, aplicação de fluido de corte, entre outros. Sandro Cardoso Santos e Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Com base nos fatos relatados até aqui, pode-se dizer que a usinabilidade não é uma propriedade intrínseca do material, mas sim expressa o comportamento do material durante a usinagem. A comparação de usinabilidade entre dois materiais diferentes é difícil de ser estabelecida, pois ela está vinculada a uma série de condições. Para exemplificar essa afirmação, pode-se tomar como exemplo o torneamento de um aço-carbono e de uma liga de alumínio. Como se trata de uma análise comparativa, devem ser utilizadas as mesmas condições de corte e a mesma ferramenta na usinagem dos dois materiais. Se for utilizada uma ferramenta com ângulo de saída positivo e de valor elevado, é grande a possibilidade de a liga de alumínio apresentar melhor usinabilidade em relação ao aço-carbono, pois a cunha cortante da ferramenta será mais solicitada na usinagem do aço-carbono e, com isso, é mais propensa a sofrer desgaste. Por outro lado, se a ferramenta apresentar ângulo de saída pequeno, há a possibilidade de a liga de alumínio apresentar pior usinabilidade, haja vista que, por se tratar de um material de elevada ductilidade, o cavaco formado será contínuo e encontrará dificuldades de se mover sobre a superfície de saída da ferramenta. O estudo da usinabilidade dos metais é um assunto complexo e tem sido tema de pesquisas desde a primeira metade do século XX. Alguns tópicos relevantes do assunto são abordados neste capítulo. Na seção 13.2 são apresentados alguns ensaios de usinabilidade, desenvolvidos tanto para a medição da usinabilidade de materiais quanto para avaliar o desempenho de diferentes ferramentas de corte na usinagem de um material. A seção 13.3 trata da usinabilidade dos metais, com ênfase nos principais materiais utilizados nos processos de fabricação por usinagem que são as ligas de alumínio, os ferros fundidos e os aços. 13.2 Ensaios de Usinabilidade Os procedimentos experimentais utilizados para a determinação da usinabilidade constituem os ensaios de usinabilidade. Mills e Redford classificam os ensaios de usinabilidade em duas categorias básicas em: • Ensaios que requerem usinagem; • Ensaios que não requerem usinagem. Nos ensaios que não requerem usinagem a usinabilidade é obtida a com base na composição química, propriedades físicas ou na microestrutura do material da peça usinada. Quanto à natureza dos resultados obtidos, os ensaios de usinabilidade são classificados em: • Testes de ranqueamento (“ranking tests”); Sandro Cardoso Santos 235 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Testes absolutos. Nos testes de ranqueamento é determinada a usinabilidade relativa entre duas ou mais combinações peça-ferramenta, em condições de corte estabelecidas. Os testes absolutos fornecem a usinabilidade relativa em faixas de condições de corte. Os ensaios de usinabilidade podem também ser classificados quanto ao tempo de duração em: • Testes de longa duração; • Testes de curta duração. Apesar dos diferentes critérios de classificação, os ensaios de usinagem apresentam certa relação entre si. Os testes que não requerem usinagem são sempre classificados como testes de ranqueamento e de curta duração. Os testes absolutos são sempre de longa duração. A seguir são apresentados alguns exemplos de ensaios de usinabilidade. 13.2.1 – Ensaio com aplicação de pressão constante O ensaio de furação com força de avanço constante foi desenvolvido por Bouguer et al. na década de 1950 e é considerado um dos testes de ranqueamento mais conhecidos (Mills e Redford, 1983). O teste consiste em aplicar uma força constante na direção de avanço e na medição do intervalo de tempo para a ferramenta realizar um determinado deslocamento ou no percurso descrito pela ferramenta em um intervalo de tempo pré-fixado. O ensaio pode ser aplicado nos processos de torneamento e furação. O desenho esquemático do ensaio de pressão constante no processo de torneamento é apresentado na Figura 13.1. Os pesos fixados ao carro porta-ferramenta por meio de um cabo garantem que a pressão aplicada pela ferramenta sobre a peça seja constante. PEÇA CARRO ROLDANA PESOS TORNO MECÂNICO Figura 13.1. Representação esquemática do ensaio de usinabilidade com aplicação de pressão constante no processo de torneamento. Sandro Cardoso Santos 236 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS O ensaio de usinabilidade por meio da aplicação de pressão constante no processo de furação é apresenta construção mais simples. Sua representação esquemática é apresentada na Figura 13.2. POLIA BROCA PEÇA PESOS Figura 13.2. Representação esquemática do ensaio de furação com aplicação de pressão constante no processo de furação. A preparação do equipamento, no caso uma furadeira de coluna, consiste na retirada da mola de retorno da furadeira e adaptação de uma polia, cabo, e pesos que têm por objetivo aplicar a pressão constante na furação. 13.2.2 Faceamento rápido No ensaio de faceamento rápido, cuja montagem experimental é mostrada na Figura 13.3, um disco com diâmetro aproximado de 500 mm é fixado à placa de um torno e colocado para girar em rotação constante. Uma ferramenta de corte (normalmente de açorápido) é posicionada próximo ao centro do disco e se desloca na direção radial. O aumento do diâmetro torneado provoca o aumento contínuo da velocidade de corte até a ferramenta perca a capacidade de corte, devido ao desgaste acentuado. A posição da ferramenta no instante em que ocorreu a perda de sua capacidade de corte é identificada na peça pela modificação brusca da topografia da superfície. Sandro Cardoso Santos 237 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 13.3. Montagem experimental do ensaio de faceamento rápido. 13.2.3 – Torneamento Cônico O ensaio de usinabiidade por torneamento cônico é baseado no mesmo princípio do ensaio de faceamento rápido, só que o aumento da velocidade de corte ocorre com o aumento da seção transversal de uma peça cônica. A posição em que ocorre a falha da ferramenta é determinada ao longo da face do cone. 13.2.4 – Ensaio de vida – determinação da equação de Taylor O ensaio de vida de ferramentas de corte é um ensaio de longa duração e tem como objetivo obter a vida da ferramenta em função da velocidade de corte. Para isso são levantadas as curvas de evolução do desgaste como as mostradas na Figura 13.4 (a). Com base no comportamento dessas curvas é estabelecido o critério de fim de vida, que corresponde ao valor máximo do desgaste admissível (0,8 mm na Figura 13.4) e determinados os valores de vida das ferramentas. A seguir é plotado um gráfico da vida da ferramenta em função da velocidade de corte, conforme mostrado na Figura 13.4 (b). É sabido que a equação de vida da ferramenta, denominada equação de Taylor, apresenta a forma: T = K .v c −x (1) Onde: T é a vida da ferramenta em minutos; vc é a velocidade de corte em m/min; K e x são constantes para cada para par ferramenta, denominados coeficientes da equação de Taylor. Por meio da linearização da curva de vida mostrada na Figura 13.4 (b) obtêm-se os valores dos coeficientes da equação de Taylor. Sandro Cardoso Santos 238 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS A b Figura 13.4. – Curvas típicas de evolução de desgaste ao longo do tempo e de vida de ferramentas em função da velocidade de corte. Os procedimentos para o levantamento da equação de Taylor dependem de disponibilidade de tempo e de recursos materiais, pois a ferramenta deve ser levada ao final de vida para cada velocidade de corte adotada. 13.3 Usinabilidade dos materiais Conforme citado na seção 13.1, a usinabilidade dos materiais depende fundamentalmente do parâmetro considerado e das condições de realização dos testes. Apesar disso, alguns aspectos gerais podem ser tomados como base de comparação da usinabilidade de diferentes materiais, como a energia necessária para se usinar um determinado volume fixo de material, cujos valores relativos são mostrados na Tabela 13.1, que têm como base o magnésio. Sandro Cardoso Santos 239 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Tabela 13.1 Potência relativa de corte com base na usinagem de ligas de magnésio (Metals handbook). Metal Potência relativa Ligas de magnésio 1,0 Ligas de alumínio 1,8 Bronze 2,3 Ferro fundido 3,5 Aços de baixo carbono 6,3 Ligas de níquel 10,0 A partir dos valores mostrados na Tabela 13.1, pode-se verificar que, segundo o critério potência de corte, o magnésio é considerado o material de melhor usinabilidade entre os materiais apresentados e que as ligas de níquel apresentam a pior usinabilidade. Por se tratar de materiais de maior utilização na indústria, são apresentadas a seguir características específicas da usinabilidade do alumínio e suas ligas, dos ferros fundidos e dos aços. 13.3.1 Usinabilidade do Alumínio e suas Ligas O alumínio e suas ligas apresentam como principais propriedades a baixa densidade (2700 kgf/m3), elevada condutividade térmica, elevado coeficiente de expansão térmica, alta ductilidade e elevada redução da dureza com o aumento da temperatura. Cabe ressaltar que essa última característica pode ser associada à temperatura de fusão do Al puro, 660 ºC que é considerada baixa. Quanto à usinabilidade, o alumínio comercialmente puro apresenta alguns aspectos característicos relacionados à sua elevada ductilidade, que resulta em um cavaco contínuo e em elevadas áreas de contato cavaco-ferramenta o que acarreta elevação da força de corte. Outra característica que merece atenção é a sua baixa dureza, em torno de 60 kgf/cm2) As ligas Al-Si têm um campo de aplicação abrangente por reunirem boas propriedades de resistência mecânica, baixa densidade e boa resistência à corrosão. No que diz respeito à usinabilidade, a presença do silício é determinante. Para ligas com teor de Si acima do Sandro Cardoso Santos 240 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS eutético (Si entre 11 e 14%), a dureza pode ultrapassar 400 kgf/cm2 e a temperatura de fusão pode chegar a 1420 ºC, o que resulta em maiores valores de força e potência de usinagem. A presença do Si faz com que essas ligas apresentem características abrasivas, o que pode abreviar a vida das ferramentas de corte devido ao mecanismo de desgaste por abrasão. Outro aspecto importante causado pela presença do Si é a considerável diferença de ductilidade entre as fases, que fazem com que a aresta postiça de corte mantenha-se estável em amplas faixas de velocidade de corte. No gráfico da Figura 13.5 é mostrada a influência do teor de Si da liga na vida de ferramentas no processo de furação. 400 Ferramenta 1 Ferramenta 2 350 350 Vida da ferramenta (m) 300 240 250 210 200 150 123 100 40 50 23 0 AlSi8 AlSi9 AlSi17 Figura 13.5 Influência do teor de Si na usinabilidade de ligas de alumínio (furação com brocas de metal duro, vc = 90 m/min; f = 0,25 mm/revolução; diâmetro 8,5 mm; relação comprimento/diâmetro = 3; lubrificação por MQF) (Cselle, 1998). De acordo com os resultados apresentados na Figura 13.5, o aumento da porcentagem de Si na liga tem como resultado a redução da vida das ferramentas de corte. Como resultado da presença da aresta postiça de corte em amplas faixas de velocidade de corte pode-se citar a dificuldade de se realizar furação a seco das ligas Al-Si, onde o fluido de corte tem como principal finalidade impedir a adesão do material da peça na superfície de saída das brocas. A usinagem de ligas de alumínio é o maior campo de aplicação das ferramentas de diamante policristalino (PCD), principalmente as ligas eutéticas e hipereutéticas que Sandro Cardoso Santos 241 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS apresentam natureza abrasiva. O bom desempenho das ferramentas de PCD na usinagem de ligas de Al-Si está fortemente relacionado com o controle de obtenção de matéria prima, seja por fundição ou por forjamento. A presença de vazios pode fazer com que a ferramenta seja submetida a choques mecânicos e como conseqüência apresente falha devido à sua baixa tenacidade. Outra grande vantagem do PCD na usinagem de ligas de Al-Si é a possibilidade de se trabalhar fora da faixa velocidades de corte em que ocorre a aresta postiça de corte, pois o material da ferramenta permite que se trabalhe em altas velocidades de corte, normalmente limitada à capacidade da máquina-ferramenta. 13.3.2 Usinabilidade dos Ferros Fundidos Os ferros fundidos cinzentos são considerados materiais de usinabilidade relativamente fácil. O silício, adicionado aos ferros fundidos com o objetivo de favorecer a precipitação do carbono em forma de grafita, pode ter ação abrasiva sobre as ferramentas de corte. No caso do ferro fundido cinzento as lamelas de grafita fazem com que o cavaco gerado seja do tipo descontínuo, o que elimina problemas relacionados ao controle de cavaco e possibilita que a cunha cortante da ferramenta tenha maior resistência pela adoção de ângulos de saída negativos. A usinabilidade dos ferros fundidos é relacionada à sua microestrutura e aos elementos de liga. A dureza somente é um indicador de usinabilidade quando se trata de materiais com a mesma estrutura. A grafita presente nos ferros fundidos cinzentos cria descontinuidades no material, o que facilita a sua ruptura e provoca menor solicitação na ferramenta de corte. A grafita atua, ainda, como lubrificante sólido, o que reduz a tendência de adesão do material na ferramenta. A forma da grafita tem mais influência na usinabilidade do que a sua proporção. A grafita grosseira é mais benéfica que a grafita interdendrítica (Tipo D). O aumento da quantidade relativa de grafita resulta em redução da potência de corte, principalmente nos ferros fundidos de matriz ferrítica. A presença de ferrita nos ferros fundidos cinzentos, de modo geral, implica em melhor usinabilidade em relação a outras estruturas. A presença de silício faz com que a perlita nos ferros fundidos apresente dureza maior que a dos aços. Quantidades excessivas de silício podem fazer com que a ferrita apresente comportamento abrasivo. A perlita é o microconstituinte dos ferros fundidos que apresenta a melhor relação entre usinabilidade e resistência ao desgaste. Sua influência se dá tanto pela quantidade quanto pela espessura das camadas de ferrita e cementita. Sandro Cardoso Santos 242 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS A martensita, resultado do tratamento térmico de têmpera, apresenta dureza elevada e difícil usinabilidade. A melhora da usinabilidade pode ser obtida por meio de tratamento de revenimento, cujo resultado é uma matriz ferrítica contendo carbonetos esferoidizados. A bainita apresenta dureza intermediária e apresenta difícil usinabilidade. A austenita apresenta baixa dureza e possui usinabilidade comparável à da ferrita. A presença de carbonetos duros na matriz prejudica a usinabilidade devido à sua ação abrasiva sobre a ferramenta de corte. Na forma de camadas em uma estrutura perlítica, os carbonetos contribuem para a usinabilidade pois facilitam o cisalhamento do material. A esteadita ocorre em ferros fundidos com teores de fósforo acima de 0,2% e sua presença é prejudicial á usinabilidade. Além dos microconstituintes, alguns elementos presentes na matriz podem ter grande influência na usinabilidade dos ferros fundidos. A presença do fósforo nos ferros fundidos de matriz perlítica, resulta no surgimento da esteadita, que por sua vez, favorece a transformação de parte da perlita em ferrita. A presença de estanho em quantidades entre 0,05 e 0,15% promove uma maior uniformidade da dureza ao longo da seção do material, o que melhora sua usinabilidade. Os carbonetos são prejudiciais à vida das ferramentas, mesmo em pequenas quantidades. A presença de carbonetos provoca aumento nas forças de usinagem. Os ferros fundidos podem apresentar inclusões de óxidos de elevada dureza como o MgO e Al2O3, que além de acelerar o desgaste das ferramentas, causam ainda o aumento das forças de usinagem. A presença de sulfetos, como por exemplo o sulfeto de manganês, é benéfica para a usinabilidade tanto pela sua ação lubrificante quanto pela redução da resistência ao cisalhamento. Os silicatos e os nitretos são compostos de alta dureza e exercem ação abrasiva sobre as ferramentas de corte. O cobre é um elemento que apresenta leve ação grafitizante e de inibição à formação de ferrita, o que resulta em uma estrutura mais homogênea e de melhor usinabilidade. Além da estrutura e dos elementos de liga, outros fatores podem afetar a usinabilidade dos ferros fundidos. Peças com seções finas ou regiões próximas às paredes dos moldes podem acelerar o resfriamento do ferro fundido, o que pode resultar na formação localizada de ferro fundido branco. Este problema pode ser controlado pela adição de inoculantes que retardam o resfriamento do metal. Sandro Cardoso Santos 243 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS A presença de areia oriunda dos moldes, aderida na superfície das peças tem ação abrasiva sobre as ferramentas de corte. Uma maneira de amenizar esse problema é reduzir a velocidade de corte e aumentar o avanço. Outros fenômenos associados à usinabilidade dos ferros fundidos ocorrem na superfície das peças usinadas. Um desses fenômenos é o fluxo lateral de material (“side flow”). O fluxo lateral de material é observado nas proximidades das marcas de avanço, onde o material sofre deformação plástica no sentido oposto ao do avanço. O fenômeno ocorre quando a espessura do cavaco é inferior à um valor mínimo, determinado em função do material da peça, da geometria da ferramenta e das condições de corte. O fluxo lateral de material pode ser identificado na Figura 3.6, onde é apresentada uma fotografia de microscópio eletrônico de varredura da superfície de um disco de freio de ferro fundido cinzento. Figura 13.6 Superfície usinada de ferro fundido cinzento que identifica a presença do fenômeno no fluxo lateral de cavaco (Souto, 2003). Outro fenômeno que pode ocorrer em superfícies usinadas de ferro fundido cinzento é denominado “open grain”. O open grain é caracterizado pela presença de cavidades na superfície usinada, ocasionadas pela remoção da grafita e do próprio material durante a usinagem. A probabilidade de ocorrência do open grain está relacionada diretamente com o teor de carbono do ferro fundido. Sua presença pode ser provocada pela adoção de condições de corte inadequadas, principalmente elevados valores de profundidade de corte. A fotografia de microscópio eletrônico de varredura da superfície de um disco de freio mostrada na Figura 13.7 permite a visualização de uma cavidade que caracteriza o “open grain”. Sandro Cardoso Santos 244 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 13.6 Superfície usinada de ferro fundido cinzento com presença de uma cavidade que caracteriza o fenômeno do “open grain” (Souto, 2003). 13.3.3 Usinabilidade dos Aços Usinabilidade dos aços-carbono e aços-liga A usinabilidade dos aços é um assunto difícil de ser tratado de forma generalizada, devido à grande variedade desse grupo de materiais, que contem desde os aços de livre corte, de fácil usinabilidade, até os aços ferramenta, de difícil usinagem. Os aços são divididos em dois grandes grupos: os aços comuns ao carbono e os aços liga. Os aços carbono são classificados em: • Aços e baixo carbono: < 0,3% C; • Aços de médio carbono: 0,3 ≤ %C ≤ 0,6; • Aços de alto carbono: > 0,6% C; Os aços de baixo carbono apresentam como constituinte básico a ferrita, com durezas entre 135 a 185 HV (Metals Handbook, 1989) e cuja micorestrutura é mostrada na Figura 13.7. Sandro Cardoso Santos 245 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 13.7. Fotomicrografia da ferrita - aumento 90X (Callister, 1994) O aumento do teor de carbono faz com que aumente a porcentagem de perlita da microestrutura. A dureza da perlita depende da espessura das lamelas de ferrita e cementita (235 HV – perlita grosseira, 350 HV perlita fina). A microestrutura dos aços de médio carbono apresenta perlita e cementita. Os aços de alto carbono com mais de 0,77% de C apresentam em sua microestrutura perlita e cementita. Todas as microestruturas listadas anteriormente ocorrem quando o aço passa por um processo de resfriamento lento. Por meio de tratamentos térmicos pode-se obter as estruturas bainíticas e martensíticas. A bainita é uma estrutura acicular com dureza variando de 450 a 700 HV, dependendo do teor de carbono e da morfologia. A martensita apresenta dureza superior a 840 HV, que pode ser reduzida pelo tratamento de revenimento. Na figura 13.8 são apresentadas fotomicrografias das microestruturas Austenítica, Ferrítica, Bainítica e Martensítica. Sandro Cardoso Santos 246 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Austenita Perlita Martensita Bainita Figura 13.8. Microestruturas obteníveis em aços de médio e alto carbono. Os tratamentos térmicos para obtenção das microestruturas apresentadas na Figura 13.8 podem ser representados pelas curvas “TTT” (Transformação, Tempo, Temperatura), como a mostrada na Figura 3. As curvas “TTT” representam a relação entre a temperatura, tempo de resfriamento e a microestrutura resultante. Sandro Cardoso Santos 247 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 13.9. Curva de transformação, tempo e temperatura típica. page: info.lu.farmingdale.edu/depts/ met/met205/tttdiagram.html Na figura 13.10 são apresentadas as curvas de resfriamento características dos tratamentos térmicos para obtenção das diferentes microestruturas. Caso o resfriamento seja rápido, como mostrado na Figura 13.10 A, a microestrutura obtida é a Martensita. A Figura 13.10 B representa o tratamento térmico para obtenção da Bainita, no qual a temperatura sofre queda brusca até abaixo do “cotovelo” da curva TTT, seguido de resfriamento lento. A figura 4C apresenta a curva de resfriamento típica para a obtenção da Perlita. Finalmente, a Figura 13.10 D representa uma curva de resfriamento cuja microestrutura final é 50% Perlita e 50% Martensita. Sandro Cardoso Santos 248 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS A B C D Figura 13.10. Curvas de resfriamento típicas dos diferentes tipos de tratamento térmico. As microestruturas apresentadas até então são possíveis de se obter em aços de médio e alto carbono. Quanto mais elevado é o teor de carbono do aço, mais deslocadas para a direita são as curvas “TTT” características, o que significa que o material maior facilidade de ter sua microestrutura transformada. Além dos tratamentos térmicos, as propriedades dos aços podem também ser modificadas por meio de adição de elementos de liga. A maioria dos elementos de liga dissolve-se na ferrita e/ou combina-se com o Carbono, formando carbonetos, o que implica no aumento da dureza e da resistência dos aços. Elementos como o Si, P, N, Ni e Cu dissolvem-se na ferrita. O Mn, Cr, W, Mo, V e o Ti além de dissolverem-se na ferrita combinam com o Carbono, dando origem a carbonetos Sandro Cardoso Santos 249 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS simples e complexos, o que resulta em aumento da dureza e da resistência ao desgaste dos aços. A presença de elementos de liga favorece também a temperabilidade dos aços (aumento da espessura da camada temperada). Além da diversidade de composições químicas e de microestruturas, as diferentes formas (Figura 13.11) e mecanismos de desgaste (Figura 13.12) apresentados pelas ferramentas de corte contribuem para aumentar ainda mais a complexidade do estudo da usinabilidade dos aços. . Figura 13.11. Formas de desgaste apresentadas pelas ferramentas de corte. "Attrition" Figura 13.12. Mecanismos de desgaste das ferramentas de corte. Sandro Cardoso Santos 250 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS As características de usinabilidade estão muito relacionadas ao processo de fabricação dos aços, o que implica na possibilidade de ocorrer variações de desempenho na usinagem de lotes diferentes de um mesmo material. Com base no cenário apresentado até aqui, pode-se concluir que a usinabilidade dos aços-carbono e aços-liga é influenciado por uma grande quantidade de variáveis, o que caracteriza o seu comportamento sistêmico. Toda a complexidade relacionada à usinabilidade dos aços não impede que sejam feitas considerações sobre os principais fatores que influenciam a sua usinabilidade. As principais propriedades que afetam a usinabilidade dos aços são: • Dureza; • Limite de resistência; • Ductilidade; Essas propriedades são controladas pela: • Composição química; • Microestrutura; A seguir é apresentada uma tentativa de se avaliar a influência isolada de cada fator na usinabilidade desses materiais. Via de regra, a vida das ferramentas de corte na usinagem dos aços liga são inferiores quando comparadas à usinagem de aços-carbono com porcentagem de carbono equivalentes. O aumento da porcentagem dos elementos de liga promove o aumento da diferença de usinabilidade em relação aos aços carbono com o mesmo teor de carbono. Essa influência pode ser explicada pelo fato de a maioria dos elementos de liga formar carbonetos e promovem o aumento da dureza e da resistência mecânica. Mesmo os elementos que permanecem dissolvidos na ferrita, promovem o aumento da temperabilidade dos aços. Usinabilidade dos aços inoxidáveis Os aços inoxidáveis apresentam como característica comum a presença de no mínimo 11% de Cr, com o objetivo de promover o aumento da resistência à oxidação. Esse grupo de materiais é dividido em várias famílias, definidas em função da: Sandro Cardoso Santos 251 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Microestrutura; • Elementos de liga; • Faixa de propriedades; As características de usinabilidade dos aços inoxidáveis refletem a grande variedade de ligas classificadas como aços inoxidáveis. Em outras palavras, a usinabilidade dos aços inoxidáveis varia de muito alta até muito baixa. Apesar disso algumas características comuns são consideradas no estudo da usinabilidade desses materiais, quais sejam: • Elevado limite de resistência; • Elevada diferença entre os limites de escoamento e de resistência; • Elevada ductilidade e tenacidade; • Baixa condutividade térmica; A diferença entre os limites de escoamento e de resistência entre três tipos de aço é apresentada na Figura 13.13. Os valores de condutividade térmica de dois aços inoxidáveis e de um aço carbono Tensão MPa são apresentados na Figura 13.14. 160 140 120 100 800 600 400 200 0 Aço inoxidável austenítico Aço -carbono 0 20 Aço inoxidável austenítico 40 % de redução da área Figura 133,.12. Comparação entre os limites de escoamento e de resistência de diferentes tipos de aço. Sandro Cardoso Santos 252 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS aço inoxidável austenítico aço inoxidável ferrítico aço carbono 0 10 20 30 40 50 Condutividade Térmica (W/m.K) Figura 13.14. Condutividade térmica de diferentes tipos de aços. Em relação aos aços-carbono, os aços inoxidáveis apresentam as seguintes diferenças: • Maior potência específica de corte; • Velocidades de corte mais baixas; • Ângulos de saída maiores; • Necessidade de quebra-cavacos ou de geometrias de ferramenta que permitam obter cavacos mais enrolados; • Cuidados especiais com refrigeração e lubrificação; Classificação dos Aços Inoxidáveis Os aços inoxidáveis são divididos em cinco famílias: 4 delas baseadas na microestrutura: • Aços inoxidáveis ferríticos: limite de resistência entre 275 e 350 MPa; • Aços inoxidáveis martensíticos: limite de resistência acima de 1900 MPa; • Aços inoxidáveis austeníticos: limite de resistência em torno de 500MPa; 5a. família baseada no tratamento térmico, conhecidas como ligas endurecíveis por precipitação. As imagens de precipitados na estrutura dos aços são apresentadas na Figura 13.15. Sandro Cardoso Santos 253 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Nb (C,N) precipitates from a high strength low alloy steel. At a diameter of 12nm these precipitates are only resolvable in the TEM. Nb (C,N) precipitation is important in thin slab casting since it strongly affects crack susceptibility during straightening. Figura 13.15. Imagem de microscópio eletrônico de transmissão na qual são identificados precipitados de carbonitreto de Nióbio. Além das cinco famílias apresentadas, podem ainda ser distintos os aços inoxidáveis de livre corte. Os aços inoxidáveis ferríticos são utilizados na fabricação desde utensílios domésticos até componentes de motores a jato. Essa família de aços apresenta de 15 a 20% de Cr em sua composição e baixa porcentagem de Carbono. Os aços inoxidáveis marteníticos apresentam em torno de 18% de Cr e porcentagem de carbono mais elevada, que garante a sua temperabilidade. São utilizados em aplicações em que, além da resistência à oxidação, exige-se elevada resistência mecânica, resistência ao desgaste e resistência à fadiga, como por exemplo facas e instrumentos cirúrgicos. São os aços inoxidáveis que apresentam menor resistência à corrosão. Os aços inoxidáveis austeníticos apresentam teor de Cromo entre 16 e 26% e de níquel entre 6 e 22%. A porcentagem máxima de Carbono admitida é de 0,25% pois em quantidades maiores ocorre a formação de carbonetos de Cromo, o que reduz a resistência à oxidação do material. O Ni, que é adicionado com o objetivo de aumentar a resistência à oxidação da liga, é responsável pela estabilização da fase γ do Ferro. Os aços inoxidáveis austeníticos são utilizados em aplicações que requerem elevada resistência à oxidação, como por exemplo equipamentos de processos químicos. Sandro Cardoso Santos 254 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS As dificuldades específicas de usinagem dos aços inoxidáveis são relacionadas aos aços austeníticos. Comparados aos aços ferríticos e martensíticos os aços austeníticos apresentam: • Taxa de endurecimento mais elevada; • Grande diferença entre o limite de escoamento e o limite de resistência; Os problemas específicos dos aços inoxidáveis austeníticos usinabilidade como: • Aderência na ferramenta: o cavaco aderido ao quebrar-se pode levar consigo fragmentos da ferramenta (principalmente as de metal duro); • As forças de usinagem não apresentam grandes diferenças em relação às verificadas na usinagem de aços carbono ou aços liga, desde que as ferramentas tenham ângulos de saída relativamente grandes; • Os aços inoxidáveis austeníticos possuem tendência de endurecimento a temperaturas elevadas, devido ao Ni e ao Cr. Como ocorrem temperaturas elevadas na zona de fluxo, há forte tendência de formação de desgaste de cratera, ativados pelos mecanismos de difusão e cisalhamento superficial; • Grande tendência de endurecimento por precipitação, o que provoca endurecimento da camada previamente usinada; Vários fatores podem ser mais pronunciados na usinagem de aços austeníticos, principalmente os sem elementos de livre corte. • Ferramentas mais aquecidas, com maior tendência de formação de arestas postiças de corte grandes; • Cavacos com tendência de assumir a configuração em forma de emaranhado, o que dificulta a remoção; • Ocorrência de “chatter” (marcas de vibração na peça), devido ao uso de ferramentas ou suportes inadequados; • As superfícies geradas apresentam tendência de endurecimento por deformação, o que é particularmente prejudicial aos cortes interrompidos ou com pequenos avanços; Sandro Cardoso Santos 255 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS A adição de elementos de livre corte contribui para melhorar o acabamento da superfície usinada. A adição de Mn e Cu melhora a usinabilidade pela redução da capacidade de endurecimento a frio. O aumento da quantidade desses elementos promove a redução da capacidade de endurecimento a frio sem contudo melhorar a usinabilidade. O aumento das porcentagens de Carbono e de Níquel promove aumento da dureza do material deformado. Usinabilidade de aços endurecidos O estudo da usinabilidade dos aços endurecidos teve início com o surgimento das cerâmicas e do PCBN, associado ao desenvolvimento de máquinas-ferramenta rígidas e com elevada capacidade de rotação. Um dos resultados mais expressivos obtidos no estudo na investigação da usinabilidade dos aços endurecidos é o torneamento duro, que em muitas aplicações substitui o processo de retificação com várias vantagens, entre as quais (Tönshoff, 1995 e Klocke, 19995): • Possibilidade de se eliminar etapas de fabricação; • Maior produtividade; • Máquinas-ferramenta mais simples e de menor custo; • Possibilidade de se executar operações múltiplas em uma só fixação da peça; • Flexibilização do processo; • Redução dos custos das ferramentas; • Geração de uma superfície da peça menos afetada pelo calor. As ferramentas de corte para a usinagem dos aços endurecidos devem apresentar os seguintes requisitos: • Dureza a temperatura ambiente e a quente; • Elevada resistência à ruptura; • Elevada tenacidade à fratura; • Elevada resistência à compressão; • Elevada resistência ao choque térmico; Sandro Cardoso Santos 256 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Elevada inércia química; As ferramentas de PCBN apresentam grande parte desses requisitos, sendo observada inclusive a tendência de aumento da vida da ferramenta com o aumento da velocidade de corte. Um dos problemas típicos da usinabilidade dos aços endurecidos está relacionado à integridade superficial das peças usinadas. Observa-se a modificação da superfície devido à ação termomecânica intensa, concentrada e rápida da ferramenta de corte. As alterações das superfícies ocorrem devido a transformações metalúrgicas e, eventualmente, interações químicas. Nos aços endurecidos, a alteração microestrutural mais freqüente é a formação da camada branca (Figura 13.16), que recebe essa denominação devido ao fato de não ser atacada quimicamente pelos reagentes tradicionais. A camada branca apresenta elevada dureza (freqüentemente mais elevada que a do substrato). O aumento do desgaste das ferramentas tende a aumentar a espessura da camada branca. Figura 13.16. Exemplo de alteração da micorestrutura da superfície torneada do aço AISI 52100 (a), comparada à microestrutura do material base (b). Sandro Cardoso Santos 257 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS Figura 13.17. Influência da velocidade de corte e corte e do desgaste de flanco. Segundo Tönshoff et al., a camada branca é composta predominantemente por austenita retida. Resultados de análise química indicaram que não houve variação de composição química ao longo de sua espessura, não caracterizando a ocorrência de reações químicas durante a formação da camada branca. Usinabilidade de aços obtidos pela metalurgia do pó A metalurgia do pó é um processo de obtenção de materiais com geometria próxima da geometria final da peça (processo “near net shape”), com o objetivo de reduzir ou até dispensar operações subseqüentes. O processo, porém, não é capaz de gerar furos transversais, roscas e outras configurações mais complexas, de modo que operações posteriores de usinagem são frequentemente necessárias, o que justifica o estudo da usinabilidade de materiais obtidos pela metalurgia do pó. A usinabilidade dos materiais sinterizados é, via de regra, pior que a dos materiais obtidos por outros processos. As características que dificultam a usinabilidade desses materiais são influenciadas pela porosidade, propriedades do material da peça e da ferramenta, processo de usinagem e condições de corte utilizadas. A usinabilidade dos materiais sinterizados pode ser melhorada se forem observados os seguintes aspectos: • Utilização de processos de sinterização que permitam a redução da quantidade de vazios e, com isso, elevam a densidade das peças produzidas, de modo ela chegue a valores superiores a 92% da densidade teórica do material; • Usinagem na condição de pré-sinterização, o que favorece a usinabilidade mas é maléfica no que diz respeito à tolerâncias dimensionais e acabamento superficial; Sandro Cardoso Santos 258 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS • Adição de elementos de livre corte ao material sinterizado; • Realização de testes de usinabilidade. A porosidade dos materiais sinterizados tem como efeitos a descontinuidade no contato entre a ferramenta e a peça e redução da condutividade térmica do material da peça, características que dificultam a usinabilidade pela variação da força entre peça e a ferramenta e pela concentração de calor na interface cavaco-ferramenta. Na Figura 13.18 é mostrada uma peça de um mancal de motor de combustão interna, obtida pela sinterização de uma liga Fe-C-Cu e submetida ao processo de mandrilamento. A usinagem desse material apresenta peculiaridades como a mostrada nas Figuras 13.19 e 13.20, onde pode-se observar que o aumento do avanço foi resultou em retardo na evolução do desgaste de flanco das ferramentas. Entalhe Figura 13.18 Parte de um mancal fabricado pelo processo de sinterização de uma liga Fe-C-Cu. (f=0,33 m m /rev) (f=0,27 m m /rev) (f=0,2 1 m m /rev) 0,60 0,50 V B B m áx (m m ) 0,50 0,40 0,30 0,30 0,20 0,10 0,00 0,17 0,13 0,00 30 0,05 60 0,20 0,20 0,10 0,15 100 150 0,20 0,20 200 250 n º d e p e ça s p ro d uz id a s Figura 13.19 Evolução do desgaste das primeiras ferramentas utilizadas em uma barra de mandrilar Sandro Cardoso Santos 259 Wisley Falco Sales ASPECTOS TRIBOLÓGICOS DA USINAGEM DOS MATERIAIS (f=0,26 m m /rev) (f=0,22 m m /rev) (f=0,1 8 m m /rev) 0,80 0,70 0,70 0,60 0,40 V BBmáx (mm) 0,50 0,40 0,30 0,15 0,20 0,20 0,10 0,10 0,03 0,15 0,05 0,00 0,15 0,07 0,03 -0,10 0,20 0,10 0,05 0,07 100 150 0,10 0,15 -0,20 30 60 200 250 n º d e p e ças p r o d u z id as Figura 13.20 Evolução do desgaste das segundas ferramentas utilizadas em uma barra de mandrilar O posicionamento das primeiras e segundas ferramentas citadas nas Figuras 13.19 e 13.20 é mostrado na Figura 13.21. Primeiras Ferramentas Segundas Ferramentas Figura 13.21 Posicionamento das ferramentas na barra de mandrilar. O comportamento mostrado nas Figuras 13.19 e 13.20 foi descrito por Conceição António e Davim (2002), em que o aumento do avanço melhorou a vida das ferramentas. Segundo eles, o aumento do avanço e consequente da temperatura na interface cavacoferramenta, facilitam a usinagem destes materiais obtidos pela metalurgia do pó, com elevado percentual de vazios e alcança-se o denominado por eles, tear-point da liga. Sandro Cardoso Santos 260 Wisley Falco Sales CAPÍTULO XIV REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS • AGAPIOU, J. S. and DEVRIES, M. F., 1990a, “On the Determination of Thermal Phenomena During Drilling - Part I. Analytical models of Twist Drill Temperature Distributions”, Int. J. Mach. Tools Manufact. Vol. 30, 2, pp. 203-215. • AGAPIOU, J. S. and DEVRIES, M. F., 1990b, “On the Determination of Thermal Phenomena During Drilling - Part II. 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