O véu NA TRADIÇÃO CRISTÃ Salus in Caritate Título Original: A Study of the Veil in the Christian Tradition Autor: Donald P. Goodman Tradução: Mariana Goulart Organização Editorial e Curadoria de Arte: Ana Paula Barros Apoiadores Mecenas: Eduardo Cela, Cláudio Avelino, Willian Araújo, Isabelle Lopes Produção Cultural Católica independente. Venda proibida. Proibida a reprodução parcial ou total em qualquer produto rentável ou para venda. Este conteúdo foi feito para entrega gratuita. Salus in Caritate São Paulo - Brasil Ano da graça de 2024 Amada filha, já é chegado o dia Em que a luz da razão, qual tocha acesa, Vem conduzir a simples natureza, É hoje que o teu mundo principia. A mão que te gerou, teus passos guia, Despreza ofertas de uma vã beleza, E sacrifica as honras e a riqueza Às santas leis do Filho de Maria. festina Lente Carta da Editora Após mais de nove meses de trabalho e orações foi possível concluir esta pequena obra. Este período foi necessário tanto para a realização do projeto em si, quanto para proporcionar um trabalho sereno às mulheres envolvidas na tradução e revisão, numa produção calma e tranquila. No trabalho quieto e alegre que é a marca visível do cristianismo vivenciado pelas mulheres. A execução final e a possibilidade de acesso facilitado devem-se à generosidade dos Mecenas, que sempre terão minhas orações e pronto agradecimento. Este projeto visa um aprofundamento do piedoso uso do véu. Como é de seu conhecimento, sempre adotamos uma abordagem reflexiva, alicerçada na oração; abordagem esta que sempre busca respostas nos doutores da Igreja e força nas graças do Espírito Santo, que fortalece abundantemente todos os que pedem. A abordagem reflexiva nos conduzirá, com a ajuda solícita do autor, a visitar os grandes doutores e seus ensinamentos, verificando o cerne da orientação católica sobre o tema. Isso nos proporcionará maior respaldo sobre a Santa Tradição e uma visão mais clara do caminho atual. De maneira muito agradável, o autor nos conduz a textos riquíssimos e orientações muito felizes. A curadoria, feita com cuidado, visa enriquecer ainda mais o conteúdo. O texto foi traduzido e revisado do inglês e, portanto, considerei oportuno, para as almas mais estudiosas, incluir algumas notas com o texto em latim traduzido diretamente para o português. Assim, você, leitor, terá acesso a mais nuances da tradução, uma vez que o inglês tende a ser menos formal que o português. Espero que isso o enriqueça ou, ao menos, não prejudique seus estudos. Realmente nos esforçamos para lhe entregar o melhor nesta temática, em um conteúdo inédito. Espero que possa ser útil e que, acima de tudo, lhe seja uma pequena comporta para as grandes graças que o Senhor deseja lhe conceder, em firmeza e docilidade. Ana Paula Barros Carta da tradutora Foi uma alegria participar deste lindo projeto. Este texto elucida brilhantemente a doutrina do véu e nos faz sair da superfície de tudo que já ouvimos falar sobre o assunto até hoje. Esta Santa Tradição é mais bela e profunda do que podíamos imaginar. Vocês poderão constatar isso a cada capítulo e a cada ensinamento dos Santos Padres da Igreja. Espero que esta reflexão desperte no coração do leitor um desejo ainda maior de colocar em prática este piedoso costume, tendo sempre em mente o seu real significado, para a maior glória de Nosso Senhor. Boa leitura! Deus os abençoe. Salve Maria Puríssima. Mariana Goulart La Dolorosa, Museu del Prado Introdução O véu tem sido objeto de crescente interesse nos últimos anos, em grande parte devido ao recente fascínio pelo Islã. Particularmente no que tange à recente legislação francesa que proíbe a exibição de qualquer símbolo religioso nas escolas públicas, muitos indagam sobre o significado religioso do véu. Trata-se meramente de um costume social ou é realmente uma exigência da religião islâmica? Será suficiente uma simples cobertura da cabeça ou a lei demanda o uso de burcas completas, como no Afeganistão? Estas questões têm suscitado considerável interesse recentemente, sempre em referência ao Islã. Mas, por acaso, existe alguma tradição católica do véu e, se sim, o que isso implica? É evidente que não é praticada há muito tempo, se é que alguma vez existiu. Qual é essa tradição? O que ela exige? Está vinculada a alguma forma de penalidade? Essas perguntas e muitas outras são o que este artigo pretende responder. Pois é claro que existe uma tradição católica do véu; persistiu até a década de 1960, na forma do costume de as mulheres usarem coberturas sobre a cabeça nas igrejas, e ainda existe até hoje em muitas comunidades católicas de rito oriental. Este artigo examinará a tradição do véu desde os tempos apostólicos até os dias atuais, com particular ênfase nos ensinamentos dos Padres da Igreja e do grande Doutor Angélico, São Tomás de Aquino. Analisará ainda as ramificações desta tradição nos dias de hoje e discutirá se ela deve ser revivida de alguma forma ou se deve permanecer no esquecimento. Minha metodologia, contudo, exige um certo grau de explicação; antes de iniciar, portanto, explicarei como me propus a realizar este estudo. Primeiramente, não desejava que minha discussão fosse limitada pelas opiniões de tradutores modernos que trouxeram as obras de grandes estudiosos católicos aos leitores de língua inglesa contemporâneos. Embora eu não tenha dúvidas de que a maioria dos tradutores aborda sua tarefa com a firme intenção de transmitir as obras de seu objeto de estudo com o maior grau de precisão possível, é impossível que uma tradução reflita com exatidão a passagem na língua original. Indiscutivelmente, podem aproximar-se muito, especialmente quando as línguas estão intimamente relacionadas entre si, como o inglês e o francês; com duas línguas como o latim e o inglês, contudo, não pode deixar de haver alguma perda de significado do original que não tenha sido incluída na tradução, bem como algum significado adicional na tradução que não pode ser encontrado no original. Nenhuma crítica aos tradutores é pretendida nesta observação; pretendo apenas estabelecer minha metodologia para lidar com textos em língua estrangeira. 1489-1492 - A segment of the Babenberg Family Tree. Por esta razão, optei por realizar o máximo possível de minhas próprias traduções. Algumas dessas obras nunca foram traduzidas e, por isso, fui auxiliado em minha determinação pela falta de alternativas viáveis. A maior parte trata-se dos textos de Santo Tomás e Santo Agostinho, que, entretanto, foram novamente traduzidos e, portanto, ignorei muitas traduções excelentes na produção deste artigo. Contudo, ao fazê-lo, recorri ao original, o que deverá apaziguar a consciência do leitor. Também traduzi certas passagens bíblicas do grego original, onde parecia relevante; entretanto, não tentei traduzir novamente as obras do padre grego São João Crisóstomo e, em vez disso, utilizei uma tradução pré-existente. Em parte, a culpa é do meu conhecimento insuficiente de grego; em parte, a culpa é da dificuldade de encontrar São João em grego. De qualquer forma, porém, espero que o leitor me perdoe, e se a tradução for tal que as próprias palavras de São João tornariam a análise do seu texto menos meritória, espero que o restante do meu trabalho se sustente por si só. Além disso, por não possuir uma reputação estabelecida como tradutor, optei por fornecer ao leitor o texto original sempre que minha tradução fosse utilizada. Embora isso comprometa um pouco a documentação, funciona como um gesto de boa fé ao disponibilizar o original de cada passagem traduzida. Para aqueles que não conseguem lê-lo, é pelo menos uma declaração de confiança de que não serei exposto ao ridículo por aqueles que conseguem; e para aqueles que podem, o original proporciona um poder muito mais expressivo do que qualquer coisa que minha tradução possa transmitir e enriquecerá enormemente minha discussão deste tópico. Espero que esta decisão não seja um fardo para ninguém e que seja uma bênção, pelo menos para alguns. No próximo capítulo, iniciarei minha discussão. Minha análise da tradição católica do véu será centrada no único texto infalível relacionado ao véu já promulgado ao longo da História, e seguirei a partir daí. Assim, embarco em minha busca e oro pela bênção de Deus Todo-Poderoso sobre meu projeto e sobre o leitor, a quem Nosso Senhor e Salvador possa derramar bênçãos e abrir ao conhecimento da Verdade. Basílica de Santo Apolinário O véu, indubitavelmente, integrou a tradição cristã promulgada pelos apóstolos. É evidente que não era de suma importância; em tempos de perseguição, o bom bispo encoraja seu rebanho a manter a fé e a praticar o bem, e sua concentração nas coisas externas deve necessariamente diminuir à medida que tenta preparar seu povo para o martírio. Contudo, mesmo nestas circunstâncias, os Apóstolos, nossos primeiros Bispos e os homens mais santos desde a dormição de Nossa Senhora encontraram tempo para pregar a prática do véu, embora brevemente e sem muitas especificações. É claro que, primeiramente, investigaremos as Escrituras, que são, como sempre, a fonte mais confiável à qual qualquer católico pode recorrer. As Escrituras, embora escritas por mãos humanas, são de autoria principalmente do Espírito Santo e, consequentemente, possuem autoridade divina. O que encontraremos aqui, portanto, será formativo para toda a discussão, desde os Padres da Igreja até os nossos dias. Toda a tradição cristã do véu encontra suas raízes nas Sagradas Escrituras, e delas deriva sua autoridade e razão de ser. Na verdade, a única fonte infalível de doutrina sobre o véu na história registrada está nas Escrituras; minha discussão será focada nisso. Qualquer católico familiarizado com as Escrituras já leu 1 Coríntios 11, o capítulo em que São Paulo discute cabelos, véus e chapéus. Este capítulo nos oferece uma série de pistas sobre a tradição cristã do véu e da cobertura da cabeça em geral, a partir de várias perspectivas. Primeiramente, examinaremos o texto na íntegra, tanto para refrescar a memória quanto para colocar o foco da discussão da forma mais explícita possível. Em seguida, iniciaremos uma exegese dos escritos relevantes à luz da era apostólica. Mausoleum of Galla Placidia, Ravenna O texto do véu A passagem bíblica, a que me referirei como “o Texto do Véu”, sobre a qual se fundamenta toda a teologia cristã do véu, é surpreendentemente extensa, especialmente quando comparada ao tratamento dado a outros temas em seu contexto. I Coríntios 11. 1-16 - Bíblia Matos Soares (1956): “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo. Eu vos louvo porque, em tudo, vos lembrais de mim e guardais os meus preceitos, como vo-los ensinei. Porém, quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo homem, e o homem é a cabeça da mulher, e Deus é a cabeça de Cristo (como homem). Todo homem que faz oração ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça. Pelo contrário, toda mulher que faz oração ou profetiza, não tendo a cabeça coberta, desonra a sua cabeça, porque é como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não cobre a cabeça, corte o cabelo. E, se é vergonhoso para a mulher cortar ou rapar o cabelo, cubra a sua cabeça. O homem, na verdade, não deve cobrir a sua cabeça, porque é a imagem e a glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem. De fato, o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem. E o homem não foi criado por causa da mulher, mas sim a mulher por causa do homem. Por isso, a mulher deve trazer sobre a cabeça um sinal de submissão, por causa dos anjos. Contudo, nem o homem existe sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor. Porque, se a mulher foi tirada do homem, também o homem é concebido pela mulher, e todas as coisas vêm de Deus. Julgai vós mesmos: é decente que uma mulher faça oração a Deus com a cabeça descoberta? E não vos ensina a própria natureza que é desonroso para o homem deixar crescer os cabelos? Pelo contrário, é glória para a mulher deixá-los crescer, porque os cabelos foram-lhe dados como véu (para se cobrir). Se alguém quiser contestar (o que digo), (fique sabendo que) nós não temos tal costume, nem as Igrejas de Deus.” Uma exegese simples Essencialmente, São Paulo afirma que o véu – do latim velare, cobrir – é indispensável ao relacionamento entre Deus, o homem e a mulher. Esta leitura é absolutamente clara. São Paulo começa explicando que “a cabeça de todo homem é Cristo; e a cabeça da mulher é o homem; e a cabeça de Cristo é Deus.” Aqui, ele traça uma analogia clássica que tem sido usada ao longo da História da Igreja, particularmente na explicação do Sacramento do Matrimônio: que o homem está para a mulher como Cristo está para a Igreja. A cabeça do homem, diz-nos São Paulo, é Cristo; a cabeça da mulher é o homem. Ele ainda nos diz que o homem “é imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem.” Além disso, ele observa que “o homem não é da mulher, mas a mulher do homem.” A analogia entre Deus e o homem, e entre o homem e a mulher, é clara e definitivamente não é estranha a São Paulo. Na verdade, São Paulo é frequentemente criticado por feministas devido às suas declarações na Epístola aos Efésios. Nessa carta, São Paulo faz uma analogia ainda mais explícita, que pode ser facilmente reconhecida como a mesma analogia mencionada anteriormente: Efésios 5, 22-24. “As mulheres sejam sujeitas a seus maridos, como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, assim como Cristo é a cabeça da Igreja, seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a Igreja está sujeita a Cristo, que as mulheres também estejam sujeitas a seus maridos em tudo (o que não é contra a lei de Deus).” As semelhanças entre as passagens são evidentes: o Texto do Véu e este trecho de Efésios expressam a mesma analogia. De fato, a versão DouayRheims (tradução da Vulgata para o inglês) faz uma referência cruzada entre Efésios 5 e I Coríntios 11, e vice-versa. A conclusão de que São Paulo está utilizando a mesma analogia em ambas as passagens é inevitável. Tabela 1: Homem e mulher em analogias divinas: Homem. Mulher Deus. Cristo Cristo. Igreja Cristo. Homem Imagem de Deus. Imagem do homem Contemplação. Razão prática São Paulo, então, utiliza essa analogia para justificar sua exigência de que as mulheres cubram a cabeça. Após nos lembrar que ‘o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem’, ele afirma que ‘portanto, a mulher deve ter poder sobre a sua cabeça, por causa dos anjos’. Pode-se concluir que este ‘poder’ mencionado refere-se à cobertura, o véu, citado anteriormente. São Paulo argumenta que, assim como o homem está para a mulher, Cristo está para a humanidade, e, portanto, a mulher deve ser velada. Essa é a interpretação inevitável do texto, se ele for lido isoladamente. São Jerônimo traduz esta passagem como ‘ideo debet mulier potestatem habere supra caput’ - ‘portanto, a mulher deve usar o (símbolo do poder do homem) sobre sua cabeça’. Observamos que São Jerônimo fez uma tradução literal, sem revelar mais sobre seu significado. O termo grego, conforme Liddell e Scott, traduz-se como ‘poder’ ou ‘autoridade’. Mosaico Santa Perpetua - Cappella Arcivescovile Ravenna (494-519) Este poder, contudo, não é simplesmente uma forma peculiar de dizer ‘cobertura’; significa, literalmente, poder ou autoridade. A mulher não necessita de uma cobertura na cabeça neste versículo; ela precisa de autoridade sobre sua cabeça, ‘supra caput’. São Paulo está se referindo à autoridade sobre a mulher, assim como Deus está em autoridade sobre a humanidade. A mulher, portanto, necessita de ‘autoridade’ sobre sua cabeça; o véu, a cobertura, representa essa autoridade. São Paulo coloca o véu como símbolo da sujeição da mulher ao homem. O fruto desta doutrina de submissão e do uso do véu é que, simplesmente ao aparecer com uma cobertura na cabeça, a mulher dá testemunho de muitas das maiores verdades do catolicismo. Com a cabeça coberta, ela proclama que Deus é maior que o homem; que o homem é o líder da humanidade; e que a mulher está sujeita ao homem. Ela também declara sua submissão pessoal a Jesus Cristo, ao seu marido, se for casada, e aos seus superiores, se não for. Uma simples vestimenta comunica todas essas verdades a um mundo cético; a mulher tem o privilégio de poder usá-la. Esta analogia entre Cristo e a humanidade, e entre o homem e a mulher, estende-se também à relação de Deus com a Igreja. Ou seja, o homem está para a mulher assim como Cristo está para a Igreja. O próprio São Paulo faz essa extensão ao afirmar que ‘o marido é a cabeça da esposa, assim como Cristo é a cabeça da Igreja’. Assim, uma mulher que aparece com a cabeça coberta também proclama a submissão da Igreja a Cristo; a cobertura de sua cabeça simboliza a submissão universal da Igreja. Além disso, ao proclamar um dos extremos da analogia, ela também está proclamando o outro. A mulher coberta dá testemunho de que ‘Cristo amou a Igreja e se entregou por ela’. Ela declara que seu marido deve amá-la tal como Cristo ama Sua Igreja, e que Deus cuida amorosamente da humanidade, assim como - e de maneira ainda mais perfeita do que - seu marido cuida amorosamente dela. Esta simples vestimenta, assim compreendida, é um poderoso testemunho da fé católica; feliz é o sexo que, com um gesto tão simples, consegue proclamar tão nobres verdades! São Paulo ilustra esta verdade referindo-se aos costumes relacionados ao cabelo. Ele argumenta que homens com cabelo curto são equivalentes a manter a cabeça descoberta; isso simboliza a autoridade deles sobre a mulher e a autoridade de Cristo sobre a Igreja. Da mesma forma, mulheres com cabelos compridos são equivalentes a manter a cabeça coberta; isso simboliza a submissão delas ao homem e a submissão da Igreja a Cristo. Embora isso possa parecer um costume local, São Paulo parece defender o contrário, perguntando aos Coríntios se a ‘própria natureza’ não ensina ‘que, se um homem nutre seu cabelo, será uma vergonha para ele, mas, se uma mulher nutre seu cabelo, isso é uma glória para ela; pois seu cabelo lhe foi dado como cobertura’. O costume do véu, então, reflete-se na natureza; as mulheres deixam os cabelos compridos porque é natural que sua aparência externa reflita sua submissão, e os homens mantêm os cabelos curtos porque é natural que sua aparência externa reflita sua autoridade. O véu é a maneira pela qual aperfeiçoamos o simbolismo da natureza. Mas São Paulo não diz que ‘seu cabelo lhe foi dado como cobertura’? Por que, então, ela precisa usar véu, quando já está coberta? Pela mesma razão que usamos alianças de casamento, embora o sacramento perdure sem elas. Os homens exigem sinais artificiais de realidades naturais. Poder-se-ia também perguntar por que o sacerdote usa paramentos, quando o próprio ato de oferecer a Missa é um sinal de sua autoridade. São Paulo exige que as mulheres cubram a cabeça, além dos longos cabelos, enquanto ‘rezam e profetizam’, afirmando que fazer o contrário é como estar raspada. Se ele estivesse se referindo apenas aos longos cabelos da mulher, então orar e profetizar descoberta seria, na verdade, orar e profetizar careca, e a analogia de descoberta com cabeça raspada seria supérflua. Portanto, São Paulo estava definitivamente falando de uma cobertura real sobre a cabeça da mulher, além de sua cobertura natural, pelo menos enquanto orava e profetizava. Em outras ocasiões, ao que parece, o cabelo por si só é um símbolo suficiente de sua submissão ao marido. Esta, pelo menos, parece ser a única interpretação coerente do texto antes de ouvir as palavras da Igreja sobre o assunto. O que a Igreja ensinou a respeito dessas passagens? A Igreja não ensinou nada infalível a respeito de sua interpretação. No entanto, muitos grandes pensadores abordaram esses versículos, incluindo Padres e Doutores da Igreja. Examinarei suas opiniões sobre o significado e só então formarei minha própria opinião final. Muito do que os Apóstolos escreveram perdeu-se, infelizmente, nas profundezas da História; a violenta perseguição que acompanhou o Cristianismo em todos os tempos e em todos os lugares destruiu para sempre grande parte das obras apostólicas. No entanto, os Apóstolos formaram seus sucessores, que continuam a governar a Igreja até os nossos dias. As primeiras gerações desses sucessores, até o grande São João Damasceno, são conhecidas como os Padres da Igreja. A Igreja estima tanto a sua opinião que ensina que, quando todos os Padres estão unidos sobre um determinado assunto, a sua palavra é infalível e todos os católicos são obrigados a acreditar nela para a sua salvação. Recorro, portanto, a esses homens eminentes e santos: o que pensaram eles sobre o véu e em que circunstâncias exigiram que as mulheres católicas o usassem? Em grande parte, até onde sei, eles escreveram apenas algumas coisas sobre o assunto. Os Padres combatiam constantemente as grandes heresias teológicas e cristológicas. No entanto, mesmo nessas circunstâncias, alguns encontraram tempo para discorrer sobre o véu. Isso é uma prova tanto do seu zelo incansável pelos seus rebanhos quanto da importância que atribuíam ao uso do véu. Abordarei os escritos de vários Padres eminentes sobre o assunto e examinarei seu raciocínio e sua força. O instinto do homem moderno rejeita seus argumentos como totalmente desprovidos de verdade, considerando-os divagações radicais de homens conhecidos por seu extremismo. O sensus catholicus, no entanto, exige uma abordagem mais equitativa. Embora os escritos de um único Padre, ou mesmo de vários Padres, certamente não sejam infalíveis, a Igreja apresenta, e sempre apresentou, as opiniões desses homens como guias para todos os homens e todas as épocas através deste vale de lágrimas. Às vezes, os escritos de vários Padres são condenados à medida que a Igreja esclarece ainda mais a doutrina católica; por exemplo, os ensinamentos de São Gregório de Nissa em relação à salvação universal, ou os escritos de Tertuliano defendendo o montanismo. E já que a Igreja não invalidou os ensinamentos dos Padres, deve-se, no entanto, conceder-lhes um respeito superior àquele dado às nossas próprias opiniões, ou mesmo às opiniões dos intérpretes mais modernos das Escrituras. A sua proximidade com os Apóstolos, a quem Nosso Senhor transmitiu diretamente o Seu ensinamento para todos os tempos, bem como a sua santidade evidente e universalmente reconhecida, não permitem que nenhum estudioso moderno, pela força dos seus próprios argumentos, prevaleça sobre as suas posições. Devemos, então, respeitar e reconhecer as conclusões dos Padres sobre este assunto como uma parte legítima da tradição católica, se não necessariamente a única interpretação correta, e só podemos rejeitá-las como incorretas se a Igreja ou os Doutores, com opinião de peso, se opuserem a elas. Como, então, podemos chegar à verdade a esse respeito? Examinaremos as opiniões de cada Padre que escreveu sobre este tópico e tentaremos encontrar alguma concordância, pois, quando os Padres estão universalmente de acordo sobre qualquer assunto, a verdade disso dificilmente pode ser debatida. Analisaremos Padres e teólogos eminentes como São João Crisóstomo, o “boca de ouro”, e o mestre indiscutível de todos os Padres, o ápice da era patrística, Santo Agostinho, e examinaremos suas opiniões sobre I Coríntios 11 e seus escritos sobre seu significado. Desta forma, alcançaremos uma compreensão mais completa da tradição cristã do véu ou, pelo menos, nos aproximaremos mais da verdade sobre o assunto, que é relevante para todas as épocas e todos os homens. Spoleto, Cattedrale di Santa Maria Assunta por Filippo Lippi, 1469 São João Crisóstomo Dentre os Padres da Igreja, São João Crisóstomo falou de maneira mais fecunda e vigorosa sobre o assunto do véu. Tanto no que diz respeito à importância que lhe atribuiu quanto ao rigor de suas prescrições, São João foi de longe o mais inflexível em insistir no uso do véu. Ele afirma inequivocamente que “estar descoberta é sempre uma vergonha” para as mulheres, assumindo assim uma posição ainda mais rígida do que 1 Coríntios e a interpretação a respeito dessa passagem. São João Crisóstomo argumenta que uma mulher deve “ser cuidadosamente envolvida por todos os lados” em todos os momentos, baseando seu argumento diretamente no texto da Epístola de São Paulo. Para São João Crisóstomo, São Paulo legislou o uso contínuo do véu, mesmo quando não estava em oração. Em vez de interpretar este versículo – “pois é como se ela estivesse raspada” – como uma analogia, ele afirma que é uma identificação dos dois estados, dizendo que “ter a cabeça raspada é sempre desonroso, bem como estar descoberta é sempre uma reprovação.” São João Crisóstomo argumenta que São Paulo elucidou ainda mais sua intenção no versículo 10, o que, segundo ele, indica inequivocamente que o uso do véu, para São Paulo, “significa algo a ser observado não apenas durante a oração, mas continuamente”. São João Crisóstomo apresenta outro argumento em defesa de sua posição, referindo-se ao estilo retórico de São Paulo. Ele afirma que São Paulo, ao reduzir o argumento ao absurdo, apela à vergonha dos seus ouvintes. São Paulo, portanto, utiliza um argumento de reductio ad absurdum, um tipo de argumento raramente bem-sucedido e certamente não convincente neste caso, mas ainda assim uma leitura válida do texto paulino. No entanto, São João Crisóstomo afirma que o versículo 6 – “se a mulher não estiver coberta, seja raspada” – é uma “severa repreensão”, equivalente a “se você rejeitar a cobertura designada pela lei de Deus, jogue fora aquela designada pela natureza”. Esta interpretação pressupõe, é claro, a validade e a verdade do silogismo mencionado anteriormente, mas dá sentido ao versículo com base nessa suposição. Finalmente, São João Crisóstomo adota uma abordagem incomum ao versículo 16 do Texto do Véu. Leitores modernos frequentemente veem este versículo como uma espécie de “cláusula de escape”, sugerindo que o argumento apresentado por São Paulo não é de grande importância e que seria melhor deixá-lo de lado para evitar discórdia. São João Crisóstomo, por outro lado, oferece uma interpretação diferente. Ele afirma que São Paulo está dizendo o seguinte: “É então controverso opor-se a estas coisas. Não obstante, é uma espécie de repreensão comedida que ele adota para enchê-los ainda mais de autocensura, o que, na verdade, tornou suas palavras ainda mais severas. ‘Pois nós’, diz ele, ‘não temos esse costume’ de discutir, lutar e nos opor [contra o ensino da Igreja, como fazem os que não são cristãos]. E ele não parou por aqui, mas também acrescentou: ‘nem as Igrejas de Deus’, querendo dizer que elas resistem e se opõem ao mundo inteiro por não ceder [ao ensino do mundo e permanecer no ensino da Igreja].” São João Crisóstomo assevera que aqueles que se opõem ao ensino do Apóstolo estão, na verdade, lutando contra a Igreja. Ele sustenta que “esse costume” mencionado por São Paulo se refere mais aos hábitos dos não cristãos, e não ao costume que ele está ensinando. Este argumento é retomado posteriormente por São Tomás de Aquino, mas não me alongarei sobre isso aqui. Basta dizer que São João Crisóstomo certamente não interpretava o versículo 16 como uma dispensa da obediência à tradição do véu. Pelo contrário, ele via isso como uma repreensão de São Paulo pela não adesão ao uso do véu. A conclusão de São João Crisóstomo foi corroborada pelos outros Padres, tanto na interpretação do texto do véu quanto na sua constituição em relação ao seu uso? No próximo capítulo, analisaremos a opinião de Santo Ambrósio, bispo de Milão, e de Santo Agostinho sobre essa questão. Santo Ambrósio de Milão Santo Ambrósio de Milão abordou indiretamente a importância do véu. Ele discorreu suficientemente sobre a modéstia para estabelecer sua opinião sobre a relevância do véu. Em seu “Tratado das Virgens”, onde discutiu diversos aspectos da virgindade perpétua na Igreja primitiva, ele condenou muitos atos de imodéstia, incluindo a questão do véu. Utilizando uma linguagem contundente, Santo Ambrósio deixou claro que remover o véu é um ato de luxúria e imodéstia: “Há algo mais propício à luxúria do que os movimentos impróprios, expondo na nudez aquelas partes do corpo que a natureza escondeu ou o costume velou, para exibir a aparência, facilitar o movimento do pescoço e soltar os cabelos? Isso certamente foi o próximo passo de ofensa contra Deus. Pois que modéstia pode haver ali?” Há uma série de pontos a serem observados nas palavras de Santo Ambrósio, sendo o mais relevante para nossa discussão a ideia de que “soltar os cabelos” equivale a “expor na nudez” partes que deveriam ser ocultadas. O que ele quer dizer, entretanto, com “soltar os cabelos”? Estaria ele simplesmente sugerindo que o cabelo deveria estar amarrado? A descrição de Santo Ambrósio apresenta uma forte semelhança com o preceito de São João Crisóstomo de que o cabelo deve “ser cuidadosamente velado (preso) de todos os lados”. Se o cabelo estiver, conforme ordena São João, cuidadosamente preso, então revelá-lo seria, de fato, soltá-lo. Santo Ambrósio está indiretamente se referindo ao véu nesta declaração, condenando sua remoção como um pecado de imodéstia e, provavelmente, também de luxúria. Ele também utiliza uma linguagem muito enfática ao descrever o ato de revelar, referindo-se a isso como “expor na nudez”. Como veremos, Santo Agostinho, o grande discípulo de Santo Ambrósio, descreve a remoção do véu de maneira semelhante, como um despojamento ou desnudamento do que deveria estar adequadamente coberto. As palavras de Santo Ambrósio são realmente contundentes e deveriam nos levar, enquanto cristãos modernos, a reconsiderar a condenação dessas práticas como meramente um excesso de zelo. Agora, dirijo-me ao ilustre discípulo de Santo Ambrósio, Santo Agostinho de Hipona, o príncipe da época patrística, tão admirado por São Tomás de Aquino, o Doutor Angélico. Quais foram as palavras e pensamentos de Santo Agostinho sobre o véu? O que era considerado importante no cristianismo de sua época? Santo Agostinho de Hipona Na vasta produção literária de Santo Agostinho, este estudo identificou duas menções ao véu, em ambas o santo destacou sua importância. Em uma ocasião, ele escreveu brevemente a Possidius, um colega sacerdote; e novamente em seu tratado “Sobre a Santa Virgindade”. Em ambos os casos, o grande santo não mediu palavras de forma alguma. Em seu tratado “Sobre a Santa Virgindade”, Santo Agostinho discorre principalmente sobre a virgindade e os deveres que a acompanham. Em determinado momento, ele faz uma conclusão geral sobre um certo comportamento em relação ao uso do véu, que parece aplicar-se universalmente a todas as mulheres, e não apenas às virgens. O santo discutiu o orgulho de algumas virgens que quebram as regras da modéstia cristã em prol de “um certo objetivo de agradar, seja por roupas mais elegantes do que a necessidade de tão grande profissão exige, seja por uma maneira notável de cobrir a cabeça, seja por cabelos armados, ou por coberturas tão maleáveis e finas que a fina rede abaixo chega a aparecer: a estes devemos dar preceitos, não ainda relativos à humildade, mas relativos à própria castidade, ou à modéstia da virgem.” É importante lembrar, ao avaliar o papel do véu na sociedade católica primitiva, que Santo Agostinho não está condenando as mulheres que abandonaram o véu; ele está condenando as mulheres que usam véus de maneira que o cabelo fique visível. Parece claro que Santo Agostinho tinha uma opinião muito firme sobre a importância do véu e não permitia concessões a esse respeito. Além disso, a condenação de Santo Agostinho fornece uma indicação sobre a prevalência do véu na sociedade católica primitiva. Em qualquer sociedade onde uma prática específica seja minoritária, mas essa minoria se empenhe em mantê-la, é provável que a prática permaneça pura e inalterada, pelo menos durante o período de sua extensão à universalidade dentro daquela cultura. O costume do véu, entretanto, não foi mantido puro; diversos abusos surgiram na prática, e esses abusos eram suficientemente predominantes para que Santo Agostinho sentisse a necessidade de condená-los. Isso indica que o véu era um costume já estabelecido e que Santo Agostinho buscava restaurar sua pureza original, e não implantar um novo costume em sua Diocese. Se o véu foi estabelecido tão cedo na era cristã — ou, ainda, podemos dizer mantido, dado seu uso já existente nas culturas judaica, romana e grega — deve ser porque foi considerado importante pelos primeiros cristãos. Santo Agostinho também mencionou o véu em uma carta que escreveu ao seu irmão sacerdote, Possídio. Ele estava discutindo o papel geral da vaidade na escolha do vestuário feminino e, como era de se esperar, condenando-o. No entanto, ele mencionou que algumas pessoas têm bons motivos para se vestir de maneira mais elaborada do que outras; neste contexto, o véu entra em discussão. O Doutor da Graça nos disse: “Aqueles que são do mundo pensam em como devem agradar suas esposas, se forem homens, ou seus maridos, se forem mulheres, e escolhem suas roupas de acordo; exceto as mulheres, a quem o Apóstolo ordena que cubram [velare = velar] a cabeça, não devem descobrir os cabelos, mesmo que sejam casadas”. Nota 1: "[i]lli autem cogitant quae sunt mundi, quo modo placeant vel viri uxoribus vel mulieres maritis, nisi quod capillos nudare feminas, quas etiam caput velare Apostolus iubet, nec maritatas decet." Vulgata, p. 478. “[Eles] pensam nas coisas do mundo, em como os homens podem agradar suas esposas, ou as mulheres, seus maridos, exceto que as mulheres devem descobrir os cabelos, para quem o apóstolo também ordena que cubram a cabeça, o que não convém às casadas " Santo Agostinho não fez nenhuma exceção, assim como São João Crisóstomo; ele prescreveu o uso do véu para todas as mulheres em todos os momentos, sejam elas casadas ou não. O leitor que lê latim notará a palavra que o Santo usa para “descobrir” (nudare), uma palavra pejorativa que significa “tirar”, “desnudar”, “estragar” ou “roubar”. Santo Agostinho claramente tem uma opinião muito forte sobre as mulheres “desnudarem” suas cabeças e “desnudarem” seus cabelos e, consequentemente, deve ter uma opinião firme sobre a importância de manter o sinal de autoridade sobre a cabeça da mulher: o véu, a cobertura que esconde a nudez da mulher. Conclusão I Parece claro que os Padres da Igreja consideravam a remoção do véu das mulheres como algo que, em grande medida, as deixava “desnudas”, privando-as de algo vital para seu próprio bem-estar. Pois era, de fato, com o bem-estar da mulher que os Padres da Igreja se preocupavam; é para o bem dela que ela deve usar o véu, assim como é para o bem do homem que ele não o use. Não se trata de escravidão ou libertação, mas de lugar próprio e impróprio. TABELA: O véu e os Padres da Igreja - Resumo da Doutrina são joão crisostomo Santo ambrósio santo agostinho Âmbito de aplicação Todo cabelo Todo cabelo Todo cabelo Hora Em todos os momentos Em todos os momentos Em todos os momentos Razões Analogia Divina, Luxúria Luxúria Analogia Divina, Luxúria Os Padres mencionados – São João Crisóstomo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho – acreditavam firmemente que Deus projetou o mundo de uma maneira particular, e que cada pessoa ou coisa tem seu lugar designado, sem exceção das mulheres. O véu era um lembrete visível do lugar da mulher no mundo, como representante da Igreja na analogia divina da qual todos os homens participam. Retirar o véu era retirar simbolicamente a mulher do seu devido lugar, o lugar para o qual Deus a criou e o único onde ela pode realmente ser feliz e alcançar seu fim último. Assim, remover o véu não é libertador, mas escravizador, da mesma forma que a rebelião de Satanás foi escravizadora: não se pode tentar ganhar um lugar diferente daquele que está designado. Somente permanecendo sendo o que ela é, a coisa verdadeiramente gloriosa que ela é, a mulher poderá se tornar o que Deus a criou para ser. Talvez São João Crisóstomo, um defensor tão ardente do véu, expresse isso da melhor maneira: “Mas se alguém disser: ‘Não, como pode isso ser uma vergonha para a mulher, se (removendo o véu) ela irá se elevar à mesma glória do homem?’ poderíamos dar esta resposta: ‘Ela não se eleva, mas perde a sua própria honra.’ Visto que não permanece dentro dos próprios limites e da lei ordenada por Deus, mas vai além, não é um acréscimo, mas uma perda. Pois assim como aquele que deseja os bens de outros homens e se apodera do que não é seu, não ganhou nada, mas perdeu, tendo perdido até mesmo o que tinha (o que também aconteceu no Paraíso, com Satanás); da mesma forma, a mulher não adquire a dignidade do homem, mas perde até a decência que tinha. E não é daí que vem apenas a sua vergonha e reprovação, mas também por causa da sua cobiça.” Não é que os Padres da Igreja quisessem degradar a mulher; eles desejavam elevá-la da lama da queda e colocá-la no trono glorioso que Deus preparou para ela. O véu não é o jugo da mulher, mas sim a sua coroa. A Colheita, pintura de arte de Pieter Bruegel, o Jovem Santo Tomás de Aquino e seus ensinamentos O véu até a Era da Fé Será que os ensinamentos dos Padres sobre o uso do véu enraizaram-se profundamente na cristandade, disseminando-se por todos os lugares onde a Igreja se estabeleceu? Ou, pelo contrário, caíram à beira do caminho, em solo pedregoso ou entre espinhos, e não frutificaram? Analisaremos os ensinamentos dos grandes Doutores da Igreja sobre este tema, a fim de verificar como a doutrina dos Padres foi transmitida além da era Patrística até a Era da Fé. O véu na Summa Theologiae A grande obra de Santo Tomás, a Summa Theologiae, é tão volumosa e universalmente respeitada entre os teólogos ortodoxos que seria de se esperar que tivesse algum tipo de informação sobre todas as questões morais concebíveis, sem exceção do véu. A doutrina do véu, rastreada por este estudo, aparece em apenas uma passagem, e sua menção é breve. No entanto, essa brevidade não deve ser interpretada como um comentário sobre a importância do assunto. A concisão de Santo Tomás pode ser uma prova do respeito e aceitação universal do véu, em vez de uma declaração sobre sua insignificância. É importante lembrar que a Summa Theologiae foi concebida, por mais difícil que seja hoje em dia, como um texto teológico para iniciantes; não podemos, portanto, esperar que todas as questões sejam respondidas. Mesmo neste texto para iniciantes, porém, Santo Tomás considerou o tema do véu importante o suficiente para ser mencionado, ainda que brevemente. Em grande parte, sua discussão é uma citação de Santo Agostinho em sua carta a Possídio, já citada. Ele então acrescenta aos comentários de Santo Agostinho: “Neste caso (do véu), porém, podem ser desculpados (por não usá-lo) do pecado, se não o fizerem por certa vaidade, mas por causa de algum costume contrário. Tal costume, porém, não é louvável.” Proponho algumas conclusões que podem ser tiradas destas palavras de Santo Tomás, que confirmam as conclusões dos Padres da Igreja sobre o véu. A primeira é que ele concorda implicitamente com Santo Agostinho sobre o assunto. Santo Tomás simplesmente cita a passagem da carta de Santo Agostinho sem comentários; ele não tenta qualificá-la ou alterá-la. Ele, portanto, a endossa. Santo Tomás não apenas aprova indiretamente Santo Agostinho, mas, ao fazer isso, pode-se dizer que ele também concorda indiretamente com os Padres – São João Crisóstomo e Santo Ambrósio – que influenciaram Santo Agostinho. Assim, conclui-se que o véu mantém a sua importância no mundo cristão nos escritos de Santo Tomás. A próxima observação é que o texto de Santo Tomás permite entender que o véu continuou a ser uma prática difundida em toda a Europa em seu tempo. Embora a arte contemporânea indique que uma amarração completa dos cabelos não era mais considerada necessária do ponto de vista prático, as mulheres continuaram a aparecer em público com coberturas sobre a cabeça devido ao seu significado religioso. Deste modo, pode-se facilmente deduzir que as palavras de São Paulo em sua primeira Epístola aos Coríntios não foram esquecidas; teólogos e pensadores católicos continuaram a atribuir importância ao símbolo e a ensinar a prática às pessoas, que a seguiam. Santo Tomás passou a lidar indiretamente com o véu em um artigo, demonstrando que a vestimenta externa pode ser uma fonte de virtude ou vício. “Como se diz, a vestimenta externa deve estar de acordo com a condição da pessoa, de acordo com o costume comum.” Nota 2: "In quo tamen casu possent aliquae a peccato excusari, quando hoc non fieret ex aliqua vanitate, sed propter contrariam consuetudinem; quamvis talis consuetudo non sit laudabilis." São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, IIaIIae, Q. 169, Art. 2. "[S]icut dictum est, cultus exterior debet competere conditioni personae secundum communem consuetudinem." São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, IIa-IIae, Q. 169, Art. 2 e 3. "Em que caso, porém, alguns poderiam ser desculpados do pecado, quando isso não foi feito por vaidade, mas por causa de um costume contrário; embora tal costume não seja louvável." São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, IIa-IIae, Q. 169, Art. 2. “[Como] foi dito, o culto externo deve corresponder à condição da pessoa de acordo com a prática comum”. São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, IIaIIae, Q. 169, Art. 2 de 3 Jan van Eyck Festa de Pesca Considerando que a mulher está sob autoridade, sua vestimenta exterior deve refletir essa condição, devendo, portanto, portar um símbolo do poder de seu marido ou pai sobre sua cabeça. Ademais, despir-se dessa vestimenta só pode ser interpretado como ‘aliqua vanitas’, uma certa forma de vaidade, pois simboliza o despojamento da própria autoridade. Assim, conclui-se que os ensinamentos dos Padres estavam vivos em Santo Tomás e até receberam uma expressão mais explícita. O véu era uma tradição que havia sido continuamente defendida por algumas das maiores mentes católicas durante doze séculos. Não foi ele quem a descartou. Finalmente, podemos discutir se o fato de não usar o véu é uma questão de pecado. Quando Santo Tomás disse que uma mulher pode descobrir a cabeça, ele ensinou que ela poderia ser desculpada do pecado, ‘a peccato excusari’. A resposta para sabermos de qual pecado também está contida no texto de Santo Tomás: ‘Porque a mulher estaria agindo por vaidade. Portanto, há um pecado objetivo em evitar o uso do véu.’ Ou seja, quando a mulher rejeita o véu por vaidade. Contudo, deixar de usar o véu não por vaidade, mas por causa de algum costume contrário, ‘propter contrariam consuetudinem’, isentará a mulher do pecado. No entanto, tal costume, no estilo lindamente discreto de Santo Tomás, ‘non sit laudabilis’, não é louvável. Parece, então, que é um dever trabalhar pela eliminação de qualquer costume contrário, visto que se deve eliminar o que não é louvável. Embora Santo Tomás não considerasse pecaminoso seguir tal costume de deixar de lado o véu, ele não o aprovou; além disso, considerou um pecado deixar de usar o véu onde os costumes eram receptivos. Ele aprovou a observância do uso do véu. O Véu no Comentário de Santo Tomás de Aquino sobre Coríntios Comentário de Santo Tomás sobre a Epístola aos Coríntios Santo Tomás examina o assunto do véu de maneira muito mais extensa em seu grande comentário sobre a carta de São Paulo, a Supra I Epistolam B. Pauli ad Corinthios lectura, que será citada como Supra doravante. A Supra é o comentário de Santo Tomás sobre I Coríntios. O terceiro versículo do capítulo 11 desta epístola é este: “Gostaria que você soubesse que a cabeça de todo homem é Cristo; e a cabeça da mulher é o homem; e a cabeça de Cristo é Deus.” Santo Tomás examina este texto primordialmente como uma manifestação dos mistérios sublimes, abordando, em primeiro lugar, a pertinência do versículo para a Cristologia. Anunciação aos Pastores (detalhe) Horas de Henrique VIII Iluminadas por Jean Poyer França, Tours , cerca de 1500 Ele, contudo, aborda de forma sucinta a relevância da analogia para o homem e a mulher, interpretando-a de maneira semelhante às já mencionadas, embora com um elemento adicional que confere à analogia uma beleza ainda maior. Santo Tomás assevera que o homem e a mulher também representam os dois aspectos da razão humana, afirmando: “Podemos expor misticamente o que se diz: a cabeça da mulher é o homem, e a cabeça do homem é Cristo. (Diz-se que) através da mulher a sensibilidade pode ser compreendida; isto é, para que possamos compreender a menor parte da razão que está ocupada com cuidados temporais; mas através do homem compreendemos a parte superior da razão que se eleva à contemplação divina e espiritual.” Santo Tomás acrescenta que “Cristo é a cabeça de todos, na medida em que O amamos e trabalhamos virtuosamente, e somos elevados e auxiliados à contemplação de Deus”. Esta interpretação está em plena consonância com a analogia divina delineada nas seções anteriores, exposta por razões análogas. Santo Tomás não se detém em explicar a razão da legislação do véu de São Paulo, afirmando com naturalidade que “cobrir a cabeça é como ocultar o poder do homem”. Ele justifica a necessidade desse “ocultar” com base em sua interpretação particular da analogia frequentemente encontrada ao longo da História da Igreja, na qual o homem e a mulher são comparados a diversos aspectos da Verdade Divina. Ele explica que o “ocultar” para o homem não é adequado porque “a cabeça é a glória do homem”. Se um homem cobre a cabeça enquanto ora ou profetiza, ele “mostra uma sujeição que é contrária à liberdade”. Não é próprio que um homem, que representa a parte superior da razão, de acordo com a exegese de Santo Tomás no versículo 3, esteja sujeito à mulher, que representa a sua parte inferior; antes, é próprio que a mulher esteja sujeita ao homem, assim como a parte inferior da razão está sujeita à superior. “Cobrir a cabeça”, ensina Santo Tomás, “é esconder poder”. Portanto, cobrir a cabeça é um gesto inadequado para o homem, mas adequado para a mulher. Nota 3: "Possumus autem mystice exponere hoc quod dicitur: caput mulieris vir et caput viri Christus, ut per mulierem intelligatur sensualitas seu inferiorem intelligamus (partis) partem rationis quae occupatur temporalibus ministrandis; per virum autem superiorem partem rationis quae elevatur divinis et spiritualibus contemplandis." Supra, Versículo 3. "Et sic Christus est caput omnium in quantum per eum dirigimur ad virtuose operandum, et elevamur et adiuvamur ad Deum contemplandum." Ibidem, Versículo 3. "[V]elatio capitis est quasi obumbratio potestatis viri." São Tomás de Aquino, Supra, versículo 4. "[Q]uia in capite est gloria viri." Ibidem. "[O]stendit subiectionem quae est contra libertatem." Ibidem. "[V]elare autem caput est... obumbrare potestatem." Ibidem. “Mas podemos explicar misticamente o que se diz: a cabeça da mulher é o homem e a cabeça do homem é Cristo, de modo que por mulher se entende a sensualidade, ou pela parte inferior da razão que se ocupa em servir as coisas temporais ; mas pelo homem a parte superior da razão que é elevada para contemplar as coisas divinas e espirituais.” Supra, versículo 3. "E assim Cristo é a cabeça de todos, na medida em que através dele somos orientados a trabalhar virtuosamente e somos elevados e ajudados a contemplar Deus." Ibidem, versículo 3. "O véu na cabeça é como a sombra do poder de um homem." São Tomás de Aquino, acima, versículo 4. "[Pois] na cabeça está a glória de um homem." Ibidem. "[O] nde põe sujeição que é contrária à liberdade." Ibidem. "[Mas] velar a cabeça é ofuscar o poder." Ibidem. Curiosamente, São Tomás aqui aborda se um bispo orando com uma mitra viola a ordenança de São Paulo. Sem muito alarde, ele decide que não é: "Dicendum quod non, quia mitrum est indicia potestatis, velare autem caput est, sicut hic intendit apostolus, obumbrare potestatem". Ibidem “É preciso dizer que não, porque a mitra é uma indicação de poder, mas cobrir a cabeça é, como o Apóstolo pretende aqui, ofuscar o poder”. Ibidem Santo Tomás então retorna ao versículo 5, no qual São Paulo se dirige à mulher e afirma que sua cabeça deve ser coberta. Seu raciocínio é breve e preciso: “E a causa disso é que a mulher é naturalmente sujeita, mas o homem preside. Portanto, assim como o homem não deve cobrir a cabeça, assim também a mulher não deve orar nem profetizar com a cabeça descoberta… pois é como se ela estivesse raspada.” Nota 4: "[P]rosequitur de muliere et dicit contrarium." São Tomás de Aquino, Supra, versículo 5. "Et huius causa est quia mulier naturaliter est subiecta, vir autem praesidens. Unde sicut vir non debet velare caput, ita nec mulier non debet orare aut prophetare capite non velato... Unum est enim ac si decalvetur." Ibidem. "[Ele] fala sobre a mulher e diz o contrário." São Tomás de Aquino, Supra, versículo 5. “E a razão para isso é que a mulher é naturalmente submissa, mas o homem preside. Portanto, assim como o homem não deve cobrir a cabeça, também a mulher não deve orar ou profetizar com a cabeça descoberta... Pois é como se ela fosse careca." Ibidem. O véu é o sinal da autoridade do homem sobre a mulher e, consequentemente, da autoridade de Cristo sobre a Igreja, entre outras coisas. Por isso, o Apóstolo ordena às mulheres que cubram a cabeça. Santo Tomás também explica que, embora o cabelo comprido das mulheres e o cabelo curto dos homens sejam lembretes naturais das Verdades Divinas mencionadas, o véu ainda é necessário. Para as mulheres, o véu natural – ou seja, o cabelo – não é suficiente para cobrir a cabeça. Ele explica: “Existem de fato véus naturais na cabeça, como o cabelo.” E ele dá uma boa razão pela qual deveria ser coberto: para evitar uma exibição de moda e vaidade. Na verdade, ele ensina: “A mulher nutre naturalmente o cabelo, por isso naturalmente deve cobrir completamente a cabeça.” Nota 5: "Sunt quaedam velamina naturalia circa caput, sicut capilli, ... em Supplementum naturalium." Ibidem. "[N]aturaliter autem mulier comam nutrit, ergo naturaliter debet cooperire caput." Ibidem. "Existem algumas coberturas naturais ao redor da cabeça, como o cabelo,... um suplemento natural." Ibidem. “naturalmente uma mulher nutre o cabelo, portanto, naturalmente, ela deve cobrir a cabeça." Ibidem. Rogier van der Weyden "Retrato de uma senhora" Além disso, Santo Tomás declara explicitamente que São Paulo argumenta que a cabeça deve ser protegida da tendência da natureza humana, e não de qualquer lei ou costume humano. Em referência às mulheres que usam cabelos longos e aos homens que usam cabelos curtos, Santo Tomás argumenta que “isso não é argumentado a partir da lei, mas da natureza”, afirmando que, embora esses costumes não derivem da lei natural, são os costumes para os quais a natureza humana tende. Ele observa que, em alguns países, não é costume as mulheres deixarem o cabelo crescer tanto quanto na Europa, mas também nota que, mesmo nesses países, as mulheres têm cabelos mais longos que os homens. Nota 6: "[H]ic non arguitur ex lege, sed a natura." São Tomás de Aquino, Supra, Versículo 14. "[Isso] não é argumentado por lei, mas por natureza." Esta tendência, portanto, é natural, mesmo que não seja uma lei natural. Santo Tomás aplica então este argumento ao véu, ensinando que o “argumento de São Paulo é o seguinte: aquilo que é naturalmente louvável e glorioso para ela, ela deve aderir. Mas é louvável e glorioso para uma mulher nutrir os cabelos; e este (cabelo) significa um véu na cabeça; portanto, uma mulher naturalmente deveria cobrir a cabeça.” Seu argumento assemelha-se muito ao de São João Crisóstomo e certamente parece implicar, embora ele não o diga explicitamente em nenhum lugar, que as mulheres deveriam manter a cabeça coberta o tempo todo. Ele é, pelo menos, inflexível ao afirmar que as mulheres devem cobrir a cabeça, pelo menos nas igrejas e enquanto oram. Pelo menos nesse ponto, todos os grandes pensadores da cristandade estiveram explicitamente unidos. Nota 7: "[N]on est dubitatio quod in loco orationis ubi sunt sancti Angeli, mulier debet velare caput in ostensionem suae conditionis: ipsi enim Angeli assunt nobis cum oramus" Ibid., Versículo 10. “Não há dúvida de que no lugar de oração onde estão os santos Anjos, a mulher deve cobrir a cabeça em sinal de sua condição: pois os Anjos estão presentes conosco quando oramos” Ibidem, versículo 10. Finalmente, Santo Tomás interpreta o versículo 16: “Mas, se alguém parece ser contencioso, não temos tal costume, nem a Igreja de Deus”. Ele observa: “Portanto, ele [São Paulo] diz: Você conhece as razões pelas quais uma mulher deve cobrir a cabeça. Mas se alguém é contencioso, isto é, um desafiador (pois a discórdia é uma negação da verdade com uma arrogância perturbadora que deve ser evitada), deveria ser suficiente refutá-lo ao dizer que nós, judeus, crentes em Cristo, não temos o costume de que as mulheres rezem sem cobrir as suas cabeças, nem a Igreja de Deus. Pois se o raciocínio for inútil para convencê-lo, este costume deveria ser suficiente, caso contrário ele agiria contra o costume da Igreja”. Nota 8: "Dicit ergo: habetis, o Corinthii, per rationes quod mulier debet velare caput, sed si quis videtur contentiosus esse, idest clamosus impugnator: nam contentio est impugnatio veritatis cum confidentia clamoris et ideo fugienda est... si quis, dico, resistat rationibus contentiose, non poterit resistere consuetudini, quia nos, scilicet apostoli et Iudaei (quia ex Iudaeis sumus), talem consuetudinem, idest quod mulieres non velentur, non habemus, neque etiam Ecclesia Dei, quia neque secundum legem Moysi et secundum Christum est ut vir velet caput et non mulier. Et sciendum ex hoc quod, sicut dicit Augustinus, mos populi Dei pro auctoritate habetur, et propter hoc quilibet debet in his quae non sunt per se mala neque prohibita conformare se moribus gentis. Et ideo Ambrosius dixit Augustino: serva consuetudines Ecclesiarum ad quas ibis, in his tamen quae non sunt contra Deum." (São Tomás de Aquino, Supra, versículo 16) "Diz então: vocês têm, ó coríntios, razões pelas quais a mulher deve cobrir a cabeça, mas se alguém parece ser contencioso, isto é, um impugnador barulhento: pois a contenda é a impugnação da verdade com a confiança do clamor e, portanto, deve ser evitada… se alguém, digo, resistir às razões contenciosamente, não poderá resistir ao costume, porque nós, a saber, os apóstolos e os judeus (porque somos dos judeus), não temos tal costume, isto é, que as mulheres não se cubram, nem mesmo a Igreja de Deus, porque segundo a lei de Moisés e segundo Cristo a mulher deve cobrir a cabeça. E deve-se saber a partir disso que, como diz Agostinho, o costume do povo de Deus é considerado como autoridade, e por isso cada um deve, naquilo que não é por si mesmo mau nem proibido, conformar-se aos costumes do povo. E por isso Ambrósio disse a Agostinho: guarda os costumes das Igrejas para as quais irás, naquilo que não é contra Deus." (São Tomás de Aquino, Supra, versículo 16) Portanto, vê-se que Santo Tomás também defende que as mulheres cubram a cabeça enquanto rezam, e que isso está de acordo com o costume da Igreja. Observação: Santo Tomás considera primeiro como “ costume do povo”, os costumes da “Igreja de Deus”, segundo Moisés e Cristo. Tal costume é a autoridade. Portanto, parece não falar diretamente dos costumes dos povos, ou seja, de cultura local (que seria um uso moderno do trecho). O uso do véu era um costume da Igreja de Deus, do povo cristão, por isso ele ressalta o aspecto do “conformar-se a isso”. O casamento de Catarina de Valois e Henrique V da Inglaterra em 1420 Conclusão As opiniões de Santo Tomás sobre o véu estão inteiramente em consonância com as dos Padres da Igreja que já examinei. Na verdade, na Summa, seu argumento é composto quase inteiramente por uma citação de Santo Agostinho, que claramente considerava o véu um elemento importante da autêntica vida católica feminina. Ele exige explicitamente que as mulheres o usem em locais de oração, quer queiram ou não, afirmando apenas que poderão ser desculpadas do pecado se seguirem algum costume contrário. Tal costume regional, contudo, não deve ser enaltecido e, consequentemente, deve ser desencorajado. Além disso, resulta logicamente dos argumentos de Santo Tomás que as mulheres deveriam (isto é, seria benéfico para elas) usar o véu em todos os momentos. Embora ele não o mencione explicitamente, posso derivar este princípio de seu argumento de duas maneiras. Primeiro, seu raciocínio reflete quase exatamente o de São João Crisóstomo, que afirmou em termos inequívocos que seu argumento exigia que as mulheres usassem o véu em todos os momentos. Em segundo lugar, sua referência respeitosa a Santo Agostinho na Summa indica um acordo completo com o Doutor da Graça sobre o assunto. É minha opinião que, como mostrado acima, Santo Agostinho acreditava que a mulher deveria usar o véu em todos os momentos. Visto que a afirmação de São João Crisóstomo me parece correta, Santo Tomás certamente sustentava que o véu deveria ser usado pelas mulheres em todos os momentos. O que dizer, porém, da própria Igreja? A Igreja promulgou alguma regra relativa ao véu? Em caso afirmativo, quais são essas regras e ainda estão em vigor? No meu próximo artigo, examinarei a história do véu na legislação eclesiástica, a fim de discernir a posição da Igreja sobre este assunto que os citados Padres e Doutores da Igreja consideravam tão importante. “La reina Isabel I de Castilla”, obra do artista espanhol Luis de Madrazo, pintada em 1848 e atualmente em exposição no Museo del Prado (Madrid). Como e quando usar o véu hoje Quais são, então, as implicações práticas desse estudo histórico do véu na tradição cristã? Será que esta antiga e admirável tradição, tão insistentemente defendida pelos Padres e Doutores da Igreja, pode ter alguma relevância nesta era completamente pagã? A implicação ideal dessa doutrina, evidentemente, é a restauração completa do véu entre todas as famílias católicas. A importância que as grandes mentes da Igreja atribuíram ao véu ao longo da História convida-nos fortemente a restaurar tais costumes. Todas as mulheres devem cobrir a cabeça na missa e em outras cerimônias religiosas no edifício sagrado; caso contrário, estaremos sendo infiéis à tradição cristã e ao Apóstolo, que primeiro a ordenou. Seria necessário que uma mulher cobrisse a cabeça o tempo todo? Com base nos estudos apresentados anteriormente, isso pareceria normal em uma civilização cristã, mas, infelizmente, esses tempos passaram. O progressismo ganhou o controle da Igreja e convenceu os católicos a se adaptarem ao mundo moderno. Foi, de fato, o que fizeram. Então, o que parece apropriado para as mulheres católicas fazerem? Vou distinguir entre o ideal e o viável. Idealmente, para as mulheres, não parece ser necessário seguir o costume do véu em seu rigor patrístico. Embora alguns Padres que falaram sobre o tema pareçam aconselhar sempre manter os cabelos cobertos quando em público, sua justificativa para isso pode ser diferenciada das justificativas tanto do Apóstolo quanto dos pensadores medievais. Enquanto o fato de uma mulher ter algo sobre seus cabelos é sempre justificado pela analogia divina de Cristo com a Igreja e de Deus com o homem, o fato de uma mulher ter seus cabelos bem amarrados era justificado como uma prevenção de comportamento lascivo. Essas lógicas são claramente diferentes e, por conseguinte, exigem uma abordagem distinta. No campo dos princípios, a analogia divina permanece válida: o simbolismo que a representa deve ser mantido. Este é o mandamento explícito de São Paulo nas Escrituras e, portanto, do próprio Deus, bem como a intenção primária dos Padres e Doutores da Igreja. Portanto, a exigência de que as mulheres tenham algo na cabeça, pelo menos no mundo ideal de uma cristandade reconstruída e unida, não deve ser revogada. A justificativa para a prevenção da luxúria pode, no entanto, não ser tão rigorosa. Essas proscrições dos Padres podem muito bem ter sido devidas às restrições de tempo e lugar, e não às verdades universais de Deus e do homem, como é a lei do Apóstolo. Talvez essa frouxidão dos cabelos tenha sido adotada como sinal da resistência pagã à lei moral cristã; ou talvez houvesse simplesmente uma grande sensibilidade cultural para o cabelo das mulheres na era patrística. Se esta regra estrita deve ou não ser aplicada, então, depende do exame das condições de nosso próprio tempo, tomando sempre a sabedoria da Igreja como nosso guia. Não vivemos em uma cristandade reconstruída e unida. Na verdade, habitamos uma cristandade degradada e moribunda, ou quase extinta, que não demonstra sinais imediatos de renascimento. À medida que o mundo regride ao caos pagão, como pode a doutrina cristã do véu ser implementada na vida cotidiana dos remanescentes fiéis? Para começar, não pode haver nenhuma razão real para a falha na implementação desse costume, pelo menos dentro dos limites de uma igreja. Na igreja, ao menos, as grandes verdades da Fé ainda são reconhecidas por alguns, e o simbolismo do véu não será perdido nem mal interpretado como uma tentativa de ser mais santo do que os outros – exceto, talvez, por aqueles de má vontade, que se ressentem de qualquer um que busque uma maior conformidade com a tradição católica do que eles próprios. Além disso, o uso do véu dentro de uma igreja está em conformidade até mesmo com uma leitura clara e desinformada do Texto do Véu, como vimos em um artigo anterior (Seção 2.2). O uso do véu em tais contextos é, portanto, mesmo de acordo com aqueles que possam discordar da tradição delineada nesta série, simplesmente um exercício de obediência à Sagrada Escritura, e não pode ser combatido por ninguém de boa vontade. A extensão do uso do véu católico deve, a partir desta fase, ocorrer de maneira natural e orgânica. À medida que a familiaridade com o costume se torna mais difundida, os católicos podem conhecer toda a tradição. Deste modo, a plena beleza da tradição cristã do véu será restaurada entre os fiéis, contribuindo assim para a evangelização do mundo. Podemos realmente esperar convertidos se demonstrarmos que fazemos parte do mundo? Quem se tornaria católico se os católicos fossem mundanos? Quem se tornaria católico se ser católico não implicasse nenhuma mudança real em relação ao que já se é? Esses costumes nos exporão ao ridículo e ao ódio? Certamente, mas a nossa própria Fé também. Os convertidos são mais atraídos por uma Fé que exige algo de seus adeptos. Caso contrário, a conversão não é verdadeiramente conversão; é apenas uma mudança de nome. O véu é uma parte autêntica e bela da tradição católica, proclamando numerosos e elevados aspectos de nossa santa religião e fornecendo um sinal nobre e evidente de contradição ao mundo que tanto odeia a mensagem que nosso Deus nos trouxe. A própria existência da hierarquia natural, o reconhecimento de que Deus está acima do homem, desapareceu de nossa cultura; em toda parte triunfa a afirmação de que todos os homens são iguais. O véu demonstra nossa oposição ao mundo e ao ethos libertino que a modernidade tornou triunfante. As forças dominantes do feminismo, do panteísmo, do hedonismo e do igualitarismo recebem uma repreensão permanente pelo simples fato de uma mulher católica colocar uma cobertura em sua abençoada e nobre cabeça. O véu é um costume belo e digno; deve ser preservado onde existe, restaurado onde não existe, e então estendido à sua plena e adequada prática em todo o mundo católico. Referências Bibliográficas Coríntios 11, 1–16. Retirado da edição Douay-Rheims, Challoner. Rockford, IL: TAN Books and Publishers, Inc., 1971. Salvo indicação em contrário, todas as outras citações das escrituras em inglês são desta fonte. Coríntios 11,10. Bíblia Sacra iuxta Vulgatam Versionem. Alemanha: Deutsche Bibelgesellschaft, 1994. Salvo indicação em contrário, todas as outras citações bíblicas em latim serão dessa fonte. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilias sobre 1 Coríntios, Homilia XXVI. Disponível em: https://archive.org/details/CRISOSTOMOHomiliasI/CRIS%C3%93STO MO%20Homil%C3%ADas%20II/. Acesso em: 22 abr. 2004. SANTO AMBRÓSIO. Sobre as Virgens, Livro III. Disponível em: http://www.newadvent.org/fathers/34073.htm. SANTO AGOSTINHO. Sobre a Santa Virgindade, n. 34. Disponível em: http://www.newadvent.org/fathers/number.htm. SANTO AGOSTINHO. Epistula CCXLV Possidio. In: Agostinho: Cartas Selecionadas. Tradução de James Houston Baxtor. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1998. p. 479. S. TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae, IIa-IIae, Q. 169, Art. 1. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Supra I Epistolam B. Pauli ad Corinthios lectura. Disponível em: http://www.unav.es/filosofia/alarcon/amicis/c1r.html. In: Corpus Thomisticum, ed. Enrique Alarcón. Acesso em: 27 abr. 2004. KIRSCH, J. P.. Linus, Papa Santo. In: A Enciclopédia Católica. Disponível em: https://www.institutojacksondefigueiredo.org/enciclopedia-catolica. Acesso em: 29 abr. 2004. CODEX IURIS CANONICI (1917). Cânon 1262, § 2. Disponível em: http://www.geocities.com/catholic_profide/codex.htm. Acesso em: 29 abr. 2004. História do uso do véu na arte Catacumbas Anos 200 - 300 Idade Média: Anos 800 a 1450 Época da “reforma” (e do descobrimento do Brasil): 1500 a 1580 Época da “reforma” (e do descobrimento do Brasil): 1500 a 1580 Época da “reforma” (e do descobrimento do Brasil): 1500 a 1580 O Rainha Beatriz de Portugal, que era senhora de Ciudad Real. Mãe de Dom Manuel I Anos 1600 e 1700 Anos 1600 e 1700 Anexo 1: O símbolo do véu Gertrud von Le Fort Filósofa, Teóloga e Romancista - texto retirado do livro A Mulher Eterna de 1953 Anexo 1: O símbolo do véu Gertrud von Le Fort Filósofa, Teóloga e Romancista - texto retirado do livro A Mulher Eterna de 1953 La Asunción de la Virgen ALONSO LÓPEZ DE HERRERA (1585 - 1675) Salus in Caritate Os Mecenas Mais sobre aqui Ana Paula Barros Editoria e Curadoria de Arte - Mais sobre aqui Mariana Goulart Tradução Jarbas Revisão Produção Cultural Católica Acervo Digital: Biblioteca Salus in Caritate (basta clicar na imagem para acessar) Acessar acervo completo aqui Cursos Educa-te Aqui Seja um Mecenas Apoie este trabalho de produção cultural católica independente Aqui Salus in Caritate Ano da graça de 2024
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