Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Andrei Steveen Moreno-Rodríguez Júlia Martins Figueiredo (Organizadores) EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa Editora CRV Curitiba – Brasil 2025 Copyright © da Editora CRV Ltda. Editor-chefe: Railson Moura Diagramação e Capa: Designers da Editora CRV Imagem de capa: Freepik (modificado) Revisão: Ana Paula de Amorim Ed24 Educação Química na América Latina: tendências de pesquisa / Andrei Steveen MorenoRodríguez, Júlia Martins Figueiredo – Curitiba : CRV, 2025. 216 p. Bibliografia ISBN Digital 978-65-251-7620-8 ISBN Físico 978-65-251-7623-9 DOI 10.24824/978652517623.9 1. Educação 2. Química 3. América Latina I. Moreno-Rodríguez, Andrei Steveen. org. II. Figueiredo, Júlia Martins. org. III. Título IV. Série. CDU 37 CDD 370 Índice para catálogo sistemático 1. Educação - 370 2025 Foi feito o depósito legal conf. Lei nº 10.994 de 14/12/2004 Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV Todos os direitos desta edição reservados pela Editora CRV Tel.: (41) 3029-6416 – E-mail: sac@editoracrv.com.br Conheça os nossos lançamentos: www.editoracrv.com.br Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) CATALOGAÇÃO NA FONTE Bibliotecária responsável: Luzenira Alves dos Santos CRB9/1506 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Conselho Editorial: Aldira Guimarães Duarte Domínguez (UNB) Andréia da Silva Quintanilha Sousa (UNIR/UFRN) Anselmo Alencar Colares (UFOPA) Antônio Pereira Gaio Júnior (UFRRJ) Carlos Alberto Vilar Estêvão (UMINHO – PT) Carlos Federico Dominguez Avila (Unieuro) Carmen Tereza Velanga (UNIR) Celso Conti (UFSCar) Cesar Gerónimo Tello (Univer. Nacional Três de Febrero – Argentina) Eduardo Fernandes Barbosa (UFMG) Eduardo Pazinato (UFRGS) Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL) Elizeu Clementino de Souza (UNEB) Élsio José Corá (UFFS) Fernando Antônio Gonçalves Alcoforado (IPB) Francisco Carlos Duarte (PUC-PR) Gloria Fariñas León (Universidade de La Havana – Cuba) Guillermo Arias Beatón (Universidade de La Havana – Cuba) Jailson Alves dos Santos (UFRJ) João Adalberto Campato Junior (UNESP) Josania Portela (UFPI) Leonel Severo Rocha (UNISINOS) Lídia de Oliveira Xavier (UNIEURO) Lourdes Helena da Silva (UFV) Luciano Rodrigues Costa (UFV) Marcelo Paixão (UFRJ e UTexas – US) Maria Cristina dos Santos Bezerra (UFSCar) Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNOESC) Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA) Mariah Brochado (UFMG) Paulo Romualdo Hernandes (UNIFAL-MG) Renato Francisco dos Santos Paula (UFG) Sérgio Nunes de Jesus (IFRO) Simone Rodrigues Pinto (UNB) Solange Helena Ximenes-Rocha (UFOPA) Sydione Santos (UEPG) Tadeu Oliver Gonçalves (UFPA) Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA) Comitê Científico: Adauto Lopes da Silva Filho (UFC) Altair Alberto Fávero (UPF) Ana Chrystina Venancio Mignot (UERJ) Andréia N. 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Veiga (UNICEUB) Inês Bragança (UERJ) José de Ribamar Sousa Pereira (UCB) Jussara Fraga Portugal (UNEB) Kilwangy Kya Kapitango-a-Samba (Unemat) Lourdes Helena da Silva (UFV) Lucia Marisy Souza Ribeiro de Oliveira (UNIVASF) Marcos Vinicius Francisco (UNOESTE) Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNOESC) Maria Eurácia Barreto de Andrade (UFRB) Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA) Míghian Danae Ferreira Nunes (UNILAB) Mohammed Elhajji (UFRJ) Mônica Pereira dos Santos (UFRJ) Najela Tavares Ujiie (UNESPAR) Nilson José Machado (USP) Sérgio Nunes de Jesus (IFRO) Silvia Regina Canan (URI) Sonia Maria Chaves Haracemiv (UFPR) Sonia Maria Ferreira Koehler (UNISAL) Suzana dos Santos Gomes (UFMG) Vânia Alves Martins Chaigar (FURG) Vera Lucia Gaspar (UDESC) Este livro passou por avaliação e aprovação às cegas de dois ou mais pareceristas ad hoc. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Agradecemos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Sociedade Brasileira de Ensino de Química (SBEnQ) pelo financiamento da obra. A todas as pessoas que fizeram ou fazem parte da iniciativa do Mapequim/AL. SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ......................................................................................... 11 PREFÁCIO .................................................................................................... 17 Leonardo Fabio Martínez Pérez Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização O PANORAMA DA COMUNIDADE DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO QUÍMICA DA AMÉRICA LATINA: DISCUTINDO RESULTADOS DO MAPEAMENTO QUAIS SÃO OS AUTORES MAIS CITADOS POR PESQUISADORES LATINO-AMERICANOS DA ÁREA DE ENSINO DE QUÍMICA? ............... 23 Jeíza Sousa Teles Aline Pires Barbosa Rebeca Cruz Sampaio Elisa Prestes Massena Andrei Steveen Moreno-Rodríguez CONTEÚDOS DE QUÍMICA NA PESQUISA E AS DEZ FACETAS DA EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA ............................................ 39 Maria do Carmo Galiazzi Robson Simplício de Sousa Ana Laura Salcedo de Medeiros Aline Pires Barbosa Jeíza Sousa Teles Andrei Steveen Moreno-Rodríguez O QUE É ISSO QUE SE MOSTRA DA/NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL A PARTIR DAS PRODUÇÕES DA COMUNIDADE DE EDUCADORES QUÍMICOS LATINO-AMERICANOS................................. 55 Vivian dos Santos Calixto CURRÍCULO E FORMAÇÃO DE PROFESSORES: um olhar decolonial .. 73 Aline Pires Barbosa Jeíza Sousa Teles Márcio Reis Barros Ana Laura Salcedo de Medeiros Andrei Steveen Moreno-Rodríguez AS PERSPECTIVAS DOS DOCENTES DA AMÉRICA LATINA QUANTO À EDUCAÇÃO QUÍMICA ............................................................. 83 Jeíza Sousa Teles Rebeca Cruz Sampaio Robson Simplício de Sousa Andrei Steveen Moreno-Rodríguez AS FACETAS DO CONHECIMENTO QUÍMICO EM PROPOSTAS PEDAGÓGICAS LATINO-AMERICANAS .................................................... 95 Andrei Steveen Moreno-Rodríguez Júlia Martins Figueiredo EXPERIÊNCIAS ACADÊMICAS DE PROFESSORES DE QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: uma perspectiva decolonial .................................... 117 TIC NO ENSINO DE QUÍMICA: transformando desafios em oportunidades de aprendizagem interativa ................................................... 129 Márcio Reis Barros Jeíza Sousa Teles Rebeca Cruz Sampaio Aline Pires Barbosa Andrei Steveen Moreno-Rodríguez EMERGÊNCIAS E REFLEXÕES O ENCONTRO COM VICENTE TALANQUER: implicações para a educação química em uma história de formação .......................................... 145 Maria do Carmo Galiazzi RELAÇÕES ENTRE A QUÍMICA E OS CONHECIMENTOS AFRICANOS: o que se tem produzido desde uma perspectiva decolonial? ................................................................................. 171 Márcio Reis Barros Paola Amaris Ruidíaz Andrei Steveen Moreno-Rodríguez IDENTIDADE AFRO-LATINO-AMERICANA: um caminho possível para a transformação das práticas de ensino?...................................................... 191 Beatriz da Silva Leite Andrei Steveen Moreno-Rodríguez ÍNDICE REMISSIVO ................................................................................... 209 AUTORAS E AUTORES ............................................................................. 213 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Rebeca Cruz Sampaio Vivian dos Santos Calixto Aline Pires Barbosa Elisa Prestes Massena Andrei Steveen Moreno-Rodríguez Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização APRESENTAÇÃO Esta publicação é fruto do projeto de pesquisa intitulado “Mapeamento da comunidade latino-americana de pesquisa em Educação Química: uma análise de suas produções” (Mapequim/AL), aprovado na Chamada Universal CNPq/MCTI/FNDCT nº 18/2021, do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). O projeto foi idealizado e desenvolvido a partir de um esforço coletivo de professoras e professores, pesquisadoras e pesquisadores, em exercício e aposentadas, das Instituições de Educação Superior, a saber: Universidad de Córdoba (Colômbia), Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD, Universidade Federal da Paraíba – UFPB, Universidade Federal do Paraná – UFPR e Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Com base em nossa experiência como professoras e professores de Química, com histórias acadêmico-profissionais e de vida distintas, mas que convergiram em tempos e espaços formativos, interessamo-nos por conhecer e compreender melhor nosso contexto de atuação: a comunidade latino-americana de pesquisa em Educação Química. Assim, o principal objetivo do projeto foi mapear essa comunidade e compreender suas produções. Nosso interesse surgiu de reflexões compartilhadas, nas quais nos questionamos: por que as relações acadêmicas e as parcerias de trabalho entre os(as) pesquisadores(as) da área no Brasil e de outros países latino-americanos se mostram tão frágeis? Por que nossos referenciais, na maioria das vezes, são compostos por autores europeus e/ou estadunidenses, cujas ideias foram desenvolvidas em contextos muito diferentes dos nossos? Nessa perspectiva, objetivamos igualmente dar visibilidade a conhecimentos produzidos por pesquisadoras e pesquisadores latino-americanos da nossa área de atuação, além de promover o estabelecimento de parcerias e colaborações futuras. Partimos da hipótese de que as pesquisas brasileiras produzidas, nos últimos anos, dialogam pouco com autoras e autores dos países vizinhos, desconsiderando a importância da construção de uma identidade coletiva na América Latina e a necessidade de construir parcerias, redes e equipes de trabalho que viabilizem a geração e a disseminação de novos conhecimentos, a partir de uma perspectiva contextual. Essa ideia se consolida ao olharmos para a América Latina, uma região que tem sido historicamente palco de lutas e conflitos, marcada pela exploração de sua vasta biodiversidade e pelo apagamento de costumes e crenças de suas populações originárias. Essas dinâmicas resultaram em desigualdades sociais, refletidas na pobreza, na precariedade da saúde e na falta de oportunidades educacionais. Ainda hoje, a colonialidade do pensamento permeia estruturas sociais e educativas, desvalorizando saberes ancestrais de povos indígenas, africanos e afrodescendentes, em favor de uma visão eurocêntrica e hegemônica. Assim, as instituições educativas têm, historicamente, reforçado a colonização epistemológica e cultural. Embora existam diferenças histórico-cronológicas na criação das universidades nos países da região, seus modelos formativos foram exclusivamente inspirados em padrões europeus, perpetuando a visão dos colonizadores. Esse processo continua sendo reafirmado pela globalização e pelas políticas neoliberais, consolidando a desqualificação de conhecimentos que não se enquadram nas normas hegemônicas ocidentais. Além disso, a reprodução das características mais destrutivas do capitalismo e do patriarcado agrava as crises sociais e ambientais na região. Nesse cenário, a cooperação entre os países da América Latina é essencial para a construção de estratégias que promovam um progresso mais equitativo, integrando dimensões políticas, ambientais, educacionais e científicas. Somente por meio de um esforço coletivo será possível ampliar o impacto da Educação científica de modo geral, reconhecendo e valorizando outros tipos de conhecimentos, assim como outras cosmovisões que nos ajudem a resolver as demandas sociais, culturais e ambientais da América Latina. Para dar forma a nossa pesquisa, decidimos realizar um levantamento bibliográfico de artigos científicos da área. Como temos conhecimento, a partir de nossas experiências acadêmico-profissionais, assim como por meio de diferentes trabalhos encontrados na literatura, acerca do panorama geral da pesquisa em Educação Química no Brasil e como partimos do pressuposto de que a produção científica de autores latino-americanos hispanofalantes é pouco difundida e reconhecida neste país, optamos por direcionar nosso olhar para trabalhos produzidos por pesquisadores que atuam em países de língua espanhola. No entanto, posteriormente, incluiremos alguns trabalhos publicados no Brasil, quer seja por contarem com (co)autores de origem hispano-americana, quer seja por abordarem temas numa perspectiva latino-americana. Dessa maneira, o mapeamento foi estruturado com base nas etapas a seguir: 1 – seleção de veículos de divulgação para o mapeamento (bases de dados e revistas científicas na América Latina); 2 – mapeamento de produções científicas e de pesquisadores em Educação Química com: a) busca em bases de dados (Scielo, Latindex, Google Acadêmico, Periódicos Capes) e revistas científicas; 3 – análise das produções por intermédio da Análise Textual Discursiva; 4 – comunicação dos resultados. Inicialmente, para o mapeamento, foi realizado o levantamento de trabalhos científicos publicados em revistas latino-americanas no período de 2018 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 12 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 13 a 2022. A busca por artigos científicos foi feita nas bases de dados: Latindex, Scielo, Google Acadêmico e Periódicos Capes, com as palavras-chave “educación” AND “química”. Como resultado inicial, foram identificados 200 trabalhos. Após o refinamento, que consistiu na exclusão de produções fora do período delimitado ou duplicadas, obteve-se um total de 160 trabalhos, dos quais 139 foram atribuídos a autoras e autores não brasileiros. Com base na nacionalidade dos primeiros autores, as publicações identificadas abrangem países como, por exemplo, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e Venezuela, conforme apresentado na Tabela A. Como é possível observar, os países de destaque no levantamento foram Argentina, Brasil, Colômbia e México. Isso indica um fortalecimento da área de pesquisa em Educação Química nessas nações, com destaque para autoras e autores dessas nacionalidades, como será apresentado e discutido nos capítulos que compõem este livro. Tabela A – País de atuação dos primeiros autores dos artigos localizados no período de 2018 a 2022 País Quantidade de Artigos País Quantidade de Artigos Argentina 32 Honduras 1 Brasil 21 México 28 Chile 15 Panamá 1 Colômbia 33 Paraguai 2 Costa Rica 4 Perú 1 Cuba 9 Venezuela 7 Equador Total 6 160 Fonte: Elaborada pelos autores (2023). Nossa organização como equipe de pesquisa envolveu a estruturação de grupos de trabalho para analisar e elaborar as produções resultantes. Nesse contexto, optamos por classificar os trabalhos localizados em eixos temáticos, definidos com base na leitura dos títulos e resumos das publicações. Os eixos estabelecidos foram: • • • • • • • • Conteúdo Geral: investigações focadas em conceitos ou conteúdos específicos da Química. Educação Ambiental: abordagens que relacionam questões ambientais à Educação Química. Formação de Professores: trabalhos que exploram os processos formativos e a constituição dos saberes docentes, abrangendo tanto a formação inicial quanto a continuada. Relatos de Experiências Acadêmicas: textos que descrevem experiências de professores ou instituições de ensino. Pandemia: estudos que abordam os impactos e as mudanças decorrentes do contexto pandêmico. Perspectiva Docente: reflexões e percepções fundamentadas em vivências ou experiências docentes. Propostas Pedagógicas: publicações voltadas para a análise de atividades de ensino e aprendizagem em Química. Tecnologias da Informação e Comunicação – TIC: estudos sobre o uso de ferramentas e recursos tecnológicos no ensino e aprendizagem de Química. Assim sendo, parte dos trabalhos resultantes do levantamento e, consequentemente, da análise desses eixos temáticos foram selecionados para compor a primeira seção deste livro. É importante destacar que alguns desses textos são completamente inéditos, enquanto outros, foram anteriormente apresentados em eventos científicos, mas revisados e ampliados para esta publicação. Além disso, outros textos, relacionados a alguns dos eixos temáticos, foram submetidos para publicação como artigos científicos, motivo pelo qual não estão incluídos nesta obra. Na segunda seção do livro, apresentaremos produções que surgiram no contexto dos nossos grupos de pesquisa, mas que não estão ligadas, especificamente, ao levantamento bibliográfico do Mapequim/AL. Trata-se de trabalhos que abordam discussões próximas e relevantes e que, de algum modo, emergiram a partir das ideias construídas no projeto. Esperamos que a leitura deste livro contribua para ampliar os diálogos latino-americanos sobre Educação Química e que sirva de inspiração para fortalecer as identidades das educadoras e dos educadores que entrarem em contato com a obra, bem como profissionais que pensam, vivenciam e transformam as realidades das instituições e comunidades das quais fazem parte. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 14 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 15 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Grupos de pesquisa participantes O Comunidades Aprendentes em Educação Ambiental, Ciências e Matemática – CEAMECIM, criado em 1982, é um grupo de pesquisa com ampla atuação no Ensino de Ciências e Matemática, destacando-se em linhas como Educação Profissional; Experimentação na Educação em Ciências; Fenomenologia e Hermenêutica na Educação em Ciências; Formação de Professores de Ciências e Desenvolvimento Curricular; Formação de Professores Educadores Ambientais. Vinculado aos Programas de Pós-Graduação em Educação Ambiental e em Educação em Ciências da Furg, o grupo desenvolve ações baseadas em reflexão crítica, cooperação e pesquisa-ação, com impacto significativo no sistema educacional do Rio Grande do Sul. O Grupo de Pesquisa em Currículo e Formação de Professores em Ensino de Ciências – GPeCFEC – concentra seus esforços em estudos sobre reconfiguração curricular na Educação Básica, com ênfase na abordagem temática e na interdisciplinaridade. Além disso, o grupo investiga a formação inicial e continuada de professores de Ciências, analisando o desenvolvimento profissional docente, especialmente no contexto de propostas de inovação curricular. O TRAMAS Científicas, Tecnológicas e Interculturais é um grupo de pesquisa que investiga as intersecções entre o ensino de Química/Ciências, cultura e tecnologia, promovendo uma perspectiva crítica e transformadora sobre a produção e divulgação do conhecimento. Com linhas de pesquisa que incluem temas como decolonialidade, formação de professores, novas tecnologias e sustentabilidade socioambiental, o grupo busca integrar saberes diversos para atender às necessidades educativas e culturais contemporâneas. O Grupo de Estudos e Pesquisa Horizontes Compreensivos na Educação em Ciências e Química – GEPHCECQ – reúne acadêmicos e pesquisadores dedicados à formação inicial e continuada de professores, bem como ao desenvolvimento de estratégias de ensino e aprendizagem em Ciências e Química. Fundamentado em teorias como as de Paulo Freire, com destaque para as categorias de dialogicidade, problematização e conscientização, o grupo busca ampliar horizontes abrangentes no campo educacional. Por meio de trabalhos acadêmicos, dissertações, teses e artigos científicos, o GEPHCECQ tem levantado reflexões críticas e práticas significativas. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização PREFÁCIO A Educação Química constitui um campo de formação docente e de pesquisa sobre os problemas focados no ensino de conceitos, modelos, teorias e práticas experimentais que se constituíram historicamente, a partir de grandes controvérsias e tensões entre os protagonistas que contribuíram em cada época para a constituição desta ciência. A Química enquanto campo científico foi constituindo-se ao longo dos séculos XVIII y XIX em meio de importantes disputas pela autoridade e legitimidade de um pensamento moderno sobre o comportamento físico-químico dos gases, a calcinação e combustão de sustâncias, entre outros fenômenos, que eram explicados a partir da clássica concepção grega dos elementos fundamentais ou a concepção mística e mágica das diversas tradições da alquimia. Ou, no melhor dos casos, teve a tentativa de sua compreensão com a visão ingênua da teoria do flogisto. Em Martínez (2025) apresento uma proposta crítica para a compreensão da origem da química como campo científico embasado numa perspectiva epistemológica e sociológica transversal, que procura superar os dualismos instalados entre concepções internas o externas da ciência, para oferecer uma visão dialética e, portanto, dinâmica do progresso científico, que dá conta de complexas controvérsias sociocientíficas estabelecidas entre os protagonistas que constituíram o campo e que disputaram a autoridade e legitimidade científica de acordo com o capital simbólico e social que foi construindo-se em um determinado contexto histórico. A Educação Química também constitui um campo acadêmico que abrange diferentes protagonistas, neste caso, alguns com capitais simbólicos e sociais de origem principalmente disciplinar -entanto a formação desses autores é da Química-, mas também há outros protagonistas que têm uma formação pedagógica ou didática que privilegia seus trabalhos de docência e pesquisa sobre o ensino. Esse campo é diverso e multidimensional e, diante a crise socioambiental que encaramos como humanidade, demanda um trabalho interdisciplinar e dialógico como outras áreas científicas, humanísticas e artísticas, bem como com os saberes culturais e populares. O mapeamento do campo acadêmico da Educação em Química em Latinoamérica é uma questão de pesquisa relevante porque abrange características particulares de conhecimentos construídos numa região do planeta que carga marcas coloniais que ainda deixam suas pegadas nas grandes desigualdades sociais ainda presentes, os inumeráveis conflitos socioambientais e a exploração da ampla biodiversidade. Esse é o grande desafio que apresenta este livro organizado pelos professores Andrei Steveen Moreno-Rodríguez e Júlia Martins Figueiredo; um professor colombiano e uma professora brasileira que juntaram suas tradições formativas do ensino de química para organizar uma obra relevante para entender a constituição da comunidade de pesquisa em Educação Química na América Latina. O livro nos convida a repensar a concepção colonial dominante na pesquisa desenvolvida na Educação Química na América Latina, porque embora exista uma importante produção acadêmica desenvolvida por autores da região, tal como é descrito e analisado no primeiro capítulo do livro, a formação desses autores e sua produção segue uma linha acadêmica eurocentrista, tirando algumas exceções. É claro que na academia é importante estudar o desenvolvimento das áreas do conhecimento em termos globais, incluso o que é produzido historicamente na Europa, mas o problema fundamental é construir uma concepção própria e pertinente à nossa cultura e ao nosso contexto sociocultural e histórico, ou seja, é fundamental reconhecer e resgatar a nossa identidade porque os nossos problemas educacionais estão relacionados com os problemas sociais que vivem nossos povos. Analisar criticamente a tradição europeia que herdamos no processo de colonização é importante porque é necessário reconhecer que nessa tradição surgiu o projeto moderno da ciência e da química como um processo emancipatório, que contribuiu com a superação do obscurantismo e deu passo à construção de sociedades democráticas, que mesmo instrumentalizando-se como a ciência, pela racionalidade técnica e antropocêntrica do capitalismo, constituem um marco de referência e um momento histórico importante da humanidade para conseguir sociedades justas e livres, não só para o ser humano, mas para a natureza, que pode considerar-se como um sujeito de direitos conforme uma racionalidade de justiça ambiental. Nesse sentido, concordo com a concepção decolonial que defendem os autores do livro ao longo dos capítulos, que não desconsidera o conhecimento ocidental, mas dialoga como ele a partir de nossa própria história, identidade e contexto sociocultural, para dessa forma contribuir com a humanidade na busca de novas alternativas para gerar práticas sociais e principalmente educacionais que reconheçam os grandes problemas que enfrentam os estudantes e cidadãos nos processos de exploração e alienação econômica, política e cultural que impulsa a sociedade capitalista em sua versão mas extrativista na América Latina, representada no modelo neoliberal instalado em nossa região com estratégia de dominação desde a década de 1980. Resgato o trabalho acadêmico decolonial de Dussel (1994), que não desconhece a importância do racionalismo crítico, mas questiona o irracionalismo promovido pela razão ocidental eurocentrista que pretendeu estabelecer um conhecimento universal, desconhecendo outros saberes como Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 18 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 19 aqueles existentes na América Latina e África em nossos povos ancestrais. É necessário questionar a irracionalidade da própria razão, que a partir da instrumentalização da ciência e particularmente da química como disciplina responsável pela produção de grande parte de mercancias contaminantes, justifica promessas ingênuas e erradas de ecologizar o capitalismo. Isso é abrangido na ideia de capitalismo verde que não dá conta da necessária transformação do modelo econômico atual para gerar outras práticas sociais baseadas na sustentabilidade ambiental e nos equilíbrios ecológicos da Mãe Terra. Da mesma forma que Enrique Dussel (1934-2023), não desconhecemos a importância da razão crítica e emancipatória da ciência e, particularmente, da Química, que também questiona a irracionalidade da pós-modernidade que pode justificar pretensões conservadoras, elitistas, niilistas e até fascistas que baseiam seus argumentos em visões negacionistas. No entanto, é necessário construir uma visão decolonial que vai além da visão crítica ocidental para dar passo a um projeto trans moderno, que potencializa a liberação humana, reconhecendo a importância de todos os saberes culturais que foram eliminados violentamente no processo de colonização. A Trans modernidade surge como um novo projeto decolonial para a liberação econômica, política, ecológica, pedagógica, científica e espiritual para nossos povos latino-americanos, o qual não deixa fora a emancipação moderna europeia, a inclui, mas a posiciona em igualdade de condições que os saberes próprios de nossa cultura, resgata com aprofundamento o pensamento ancestral apagado de nossas consciências e constitui uma das melhores alternativas para encarar a crise ambiental expressada especialmente na crise climática. Esta perspectiva decolonial é posicionada neste livro na análise feita sobre a pesquisa desenvolvida na Educação Química entre os anos 2018 e 2022, bem como nas discussões e reflexões apresentadas sobre o currículo de química e da formação de professores, as perspectivas docentes e acadêmicas na região, e o questionamento que tem o uso da tecnologia no ensino de química. É interessante que a visão decolonial proposta no livro vai além da Latinoamérica para ligar as contribuições decoloniais da África, o que é articulado na segunda parte da obra, e nesse sentido é proposto o estabelecimento de relações entre química e conhecimentos africanos, bem como a construção de uma nova identidade de dois continentes que compartilham raízes comuns e realidades de exploração que é preciso superar. Por fim o livro nos provoca a gerar novas propostas para a Educação Química que transformem os conteúdos sacralizados da disciplina para que entrem em diálogo, por exemplo, como os saberes ancestrais sobre o poder curativo das substâncias das plantas; reconfigurar ideias dominantes de química e 20 Leonardo Fabio Martínez Pérez Professor Titular Departamento de Química Universidad Pedagógica Nacional Colômbia REFERÊNCIAS DUSSEL, E. 1492 El encubrimiento del Otro. Hacia el origen del “mito de la Modernidad”. La Paz: Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación Universidad Mayor de San Andrés. 1994. MARTÍNEZ, L. Cuestiones sociocientíficas y ambientales en la práctica docente: desafíos y acciones frente a la crisis climática. (Libro producto de año sabático, inédito sin publicación). Bogotá: Universidad Pedagógica Nacional. 2025. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização ambiente para articular práticas sustentáveis baseadas em educação ambiental crítica; potencializar a formação crítica de professores e repensar o uso de tecnologias da informação e comunicação, que também têm se instrumentalizado e colocado ao serviço da indústria cultural do capitalismo, por exemplo, com a nova moda da inteligência artificial, a qual traz grandes problemas ambientais e educacionais. Boa leitura! Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização O PANORAMA DA COMUNIDADE DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO QUÍMICA DA AMÉRICA LATINA: DISCUTINDO RESULTADOS DO MAPEAMENTO Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização QUAIS SÃO OS AUTORES MAIS CITADOS POR PESQUISADORES LATINO-AMERICANOS DA ÁREA DE ENSINO DE QUÍMICA?1 Jeíza Sousa Teles Aline Pires Barbosa Rebeca Cruz Sampaio Elisa Prestes Massena Andrei Steveen Moreno-Rodríguez Introdução A compreensão do Ensino de Química na América Latina (AL), a partir da contextualização do conhecimento científico, é necessária, pois um maior entendimento das diferentes perspectivas históricas e culturais da região pode contribuir para melhorar os processos formativos. Nesse sentido, cabe lembrar que a origem e o desenvolvimento da área de ensino de Química, na América Latina, têm sido significativamente influenciados por eventos sócio-históricos variados. De acordo com Chamizo (2004), podemos analisar a aparição e a evolução da Química em território latino-americano a partir de três períodos: o pré-colonial, o colonial e o pós-colonial. Notoriamente, podemos perceber que a invasão dos europeus ao território americano foi um evento determinante. Nessa perspectiva, apoiados em Severino e Romão (2019), autores que afirmam que o pensamento filosófico-educacional nos espaços acadêmicos brasileiros adveio da colonização e de nossa recorrente vinculação cultural com o mundo europeu, partimos do pressuposto que a visão tradicional da Educação Química se pautou na mesma colonização, sem diálogo com conhecimentos das culturas latino-americanas. Vale ressaltar que mesmo que as culturas originárias tivessem produzido conhecimentos empíricos relacionados com o comportamento da matéria e com o domínio de suas transformações (Chamizo, 2004), similar a outras culturas na Ásia e na África (Silva; Pinheiro, 2018; Amauro; Silva, 2021), os primeiros registros acadêmicos da Química são de origem europeia. Essa situação, que é extensível a outras disciplinas científicas como a Física e a Biologia, foi suficiente para que os europeus atribuíssem a si mesmos a criação da Ciência. 1 Este texto foi apresentado como comunicação oral no XXII Encontro Nacional de Ensino de Química, realizado na Universidade Federal do Pará, em Belém, Pará, Brasil, no ano de 2024, posteriormente revisado, adaptado e aprimorado para publicação neste livro. Com a colonização europeia, também veio a implementação de um sistema escolar e educacional que foi imposto sob o comando de ordens religiosas de franciscanos, dominicanos, agostinianos e jesuítas (Chamizo, 2004; Lima, 2013). Por consequência, tanto o desenvolvimento da Química como do seu ensino dessa disciplina tem estado fortemente influenciado pelo pensamento ocidental eurocêntrico. Assim sendo, investigar o contexto atual da área de Educação Química, na América Latina e seus fundamentos. Dessa maneira, o estudo buscou identificar e interpretar a natureza de referências bibliográficas empregadas por pesquisadores latino-americanos em Educação Química. Este recorte teve origem a partir do contexto de um projeto de pesquisa mais abrangente que procura compreender o que está sendo produzido pela referida comunidade de pesquisadores. A área de química na América Latina De acordo com Chamizo (2004), há cerca de 5.000 anos (período pré-hispânico), na Mesoamérica e na região Andina, culturas originárias já demonstravam conhecimentos empíricos ligados ao que hoje conhecemos como Química, por exemplo: a) tinham domesticado o milho e o feijão; b) desenvolveram métodos avançados de agricultura que forneciam uma base nutricional considerável, mesmo sem a domesticação de animais de grande porte; c) conheciam diversidade de plantas medicinais; d) desenvolveram técnicas para embalsamar; e) dominaram técnicas de redução mineral, assim como de liga e fusão de metais; f) fabricavam corantes; g) produziam materiais como papel e borracha (látex). Logo, a compreensão das perspectivas e práticas das sociedades pré-coloniais pode fornecer informações relevantes acerca das contribuições de civilizações ancestrais para o que atualmente conhecemos como Ciência. No período colonial, um dos aspectos importantes foi a busca por metais preciosos na América, fato que se tornou o elemento central da narrativa da Química no continente e no qual os conhecimentos das culturas nativas desenvolveram um papel fundamental. De acordo com Chamizo (2004), a exploração dos recursos naturais pelos colonizadores europeus gerou uma necessidade premente de estudar mais a fundo esses materiais, dada sua relevância econômica. Assim, considera-se que a exploração de metais preciosos no período colonial foi o fio condutor da história da Química no continente. A exploração de metais preciosos no período colonial na América é o fio condutor da história da química no continente. A partir do século XVI e especialmente nos séculos XVII e XVIII, a química inclui tudo o que se relaciona com a metalurgia e a mineralogia em todos os seus processos; até às guerras Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 24 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 25 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização de independência no início do século XIX, a história da química na Espanha era a mesma das suas colônias (Chamizo, 2004, p. 166, tradução nossa). Na época, outro acontecimento marcou um ponto crucial na história do continente; o regime autoritário da igreja católica. A partir do final do século XV e ao longo do século XVI, diversas ordens religiosas europeias, como os franciscanos, agostinianos, dominicanos, jesuítas, entre outras, embarcaram em expedições para o “novo mundo”. Seu objetivo principal era difundir o cristianismo entre as populações originárias, além de estabelecer missões, conventos e escolas. Com a doutrinação europeia, conhecimentos ancestrais foram furtados e os pensamentos e as crenças das culturas nativas foram ofuscados quase na sua totalidade. O processo colonizador também se manifestou na fundação das primeiras universidades latino-americanas no século XVI, ligadas à igreja católica. A primeira delas foi a Universidad Nacional Mayor de San Marcos, estabelecida no Peru, em 1551 (Chamizo, 2004). No entanto, o primeiro curso de Química no continente foi ministrado em 1797, por Fausto Delhuyar, pois, até então, os membros da elite costumavam se formar em universidades europeias. A partir de 1804, iniciaram-se os movimentos de independência. Conforme Chamizo (2004), esse momento histórico coincidiu com o agitado século XIX, no qual diversos químicos latino-americanos, após completarem sua formação na Europa, retornaram às suas terras natais e contribuíram para o desenvolvimento de conhecimentos químicos por meio de trabalhos científicos especializados. Alguns exemplos são citados por Chamizo, tais como: O brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva no início do século XIX descobriu e caracterizou novos minerais, entre os quais o elemento lítio seria, posteriormente, identificado. Ele construiu o primeiro alto-forno do país no Brasil, em sua terra natal, Minas Gerais. O mexicano Vicente de Ortigosa, certamente o primeiro doutorando do continente americano e que obteve seu diploma pela Universidade de Giessen, na Alemanha, em 1842. Seu trabalho de pesquisa, sob a tutela de J.von Liebig, permitiu-lhe estabelecer pela primeira vez a fórmula de nicotina. O venezuelano Vicente Marcano entre 1870 e 1890 contribuiu significativamente para a compreensão do processo de fermentação (Chamizo, 2004, p. 168, tradução nossa). No Brasil, a Química é marcada por uma jornada que reflete não apenas a evolução da área, mas também aspectos sociais do seu entorno. As atividades relacionadas às Ciências começaram a se estruturar no Brasil graças à invasão de Portugal por Napoleão, obrigando D. João VI e toda a corte real portuguesa a fugir para as terras brasileiras e a instaurar aqui 26 Nesse prisma, percebe-se que o estudo da Química começou a ser implementado pelos europeus no Brasil Colonial para suprir a necessidade de profissionais com conhecimentos técnicos na área. Logo, infere-se que os conhecimentos químicos, inicialmente, eram de domínio de uma elite enraizada em uma cultura eurocêntrica e brancocêntrica. Desse modo, o ensino de Química no Brasil refletiu os interesses coloniais e imperialistas. Além disso, Lima (2013) afirma que a inclusão dos estudos da Química no Brasil se deu a partir de eventos, tais como: a criação da Academia Científica; a inclusão da Química no currículo do curso de Engenharia da Academia Real Militar; a chegada da corte real portuguesa, a qual impulsionou a criação de instituições de pesquisa, eventos científicos e universidades dedicadas à formação de profissionais qualificados em Química. Nesse contexto, O ensino da Química, inicialmente no curso de Medicina e depois nos cursos de Farmácia e Engenharia, passa por um longo processo até a criação do curso de Química. Inicialmente, a educação científica era apenas uma necessidade econômica em nosso país, o ensino da Ciência Química era utilizado visando atender às necessidades de exploração das riquezas naturais do Brasil (Fadigas, 2019, p. 341). Destacando a trajetória da Química no país, seu ensino, inicialmente, estava vinculado a outras áreas, como, por exemplo, Medicina, Farmácia e Engenharia, refletindo uma visão tecnicista da ciência, em que seu propósito era principalmente econômico (Lima, 2013). Com o passar do tempo, surgiu a necessidade de aprofundar os estudos sobre os fenômenos químicos e, com isso, houve uma evolução no panorama curricular no qual, a Química foi reconhecida como uma disciplina autônoma (Fadigas, 2019). Assim, em 1977, a Sociedade Brasileira de Química (SBQ) foi fundada por profissionais que trabalhavam em instituições de Educação Superior, tanto no ensino como na pesquisa (SBQ, 2024). Especificamente, a subárea de Ensino de Química começou a ser constituída na década de 1980 com a criação de uma divisão de Ensino dentro da SBQ (Schnetzler, 2002; Mól, 2017). Nesse contexto, Schnetzler (2002, p.15) afirma que “nos seus primórdios, o crescente interesse em pesquisa sobre ensino de ciências/química foi resultado do movimento de reforma curricular que ocorreu principalmente nos Estados Unidos e Inglaterra no início da década de 60”. Logo, admite-se que a constituição do Ensino de Química no Brasil foi influenciada pelo pensamento europeu e estadunidense. Além disso, é importante considerar que os primeiros pesquisadores em Ensino de Ciências/Química do Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Isso levou à realização de vários eventos importantes para as Ciências no Brasil (Lima, 2013, p. 74). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 27 Brasil se doutoraram na Europa, principalmente, na Inglaterra e, no seu retorno ao país, fizeram contribuições para a constituição da subárea (Nardi, 2014). Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização É na década de 1980 que o Ensino de Química se constitui como um campo científico de estudo e investigação, com proposição e utilização de teorias/modelos e de mecanismos de publicação e divulgação próprios e, principalmente, pela formação de um novo tipo de profissional acadêmico pesquisador em Ensino de Ciências/Química (Schnetzler, 2002, p. 14). Considerando que a área de Ensino de Química não se dedica a estudar, especificamente, o conhecimento químico, mas aspectos relacionados com sua apropriação no ambiente escolar, assim como o crescimento exponencial da área ao longo dos anos, em 2016, no XVIII Encontro Nacional de Ensino de Química (ENEQ), foi proposta a constituição de uma sociedade científica específica. Desse modo, a Sociedade Brasileira de Ensino de Química – SBEnQ foi criada e sua primeira diretoria foi eleita para o biênio 2018-2020 (SBEnQ, 2024). A decolonialidade e o ensino de química Compreendemos o colonialismo como um sistema político, social e econômico de dominação estrutural, no qual um regime exerce controle e autoridade sobre territórios além de suas próprias fronteiras, impondo suas normas, valores e práticas sobre as populações locais. Nesse cenário, a busca pelo desenvolvimento econômico do colonizador acontece através do domínio forçado, da exploração e apropriação de bens naturais, intelectuais e da mão de obra dos colonizados. Tal prática foi estabelecida na América com a invasão dos europeus. Nessa perspectiva, o colonialismo, além da usurpação de bens, envolve a imposição da cultura do colonizador sobre os povos subalternizados. De acordo com Pinheiro (2019), além de uma perda significativa de cultura e identidade para os povos locais, isso resulta na perpetuação de uma visão hierárquica que considera os colonizadores como “superiores”, assim como seus conhecimentos. Justamente o que aconteceu na América Latina. Assim, Quijano (2005) aponta que as relações de poder se mostram como uma forma de controle a partir das esferas/estruturas de raça e de trabalho, assim como são empregadas para desvalorizar as produções e conhecimentos não-europeus. Essas práticas de marginalização racial têm persistido como um meio de sustentar a hegemonia econômica e científica, reduzindo os conhecimentos e as contribuições de outros grupos culturais e étnicos. Assim sendo, promover um pensamento decolonial é importante e necessário para a superação dos padrões hegemônicos impostos a partir de uma perspectiva eurocêntrica. De acordo com Pinheiro e Rosa (2018), infere-se que o pensamento decolonial visa destacar a formação de conhecimento em sociedades cujas culturas foram marginalizadas. No contexto da educação, observa-se essa mentalidade colonial, especificamente no ensino de disciplinas como a Química. Assim, as instituições de ensino ainda tendem a privilegiar narrativas e formas de pensar europeias (Pinheiro, 2019). Logo, a ideia de decolonialidade surge como uma resposta a essa realidade, uma vez que busca desafiar a suposta universalidade do conhecimento, a qual é pautada em padrões hegemônicos, em outras palavras, busca promover a valorização dos conhecimentos e das produções científicas marginalizadas. Para Mignolo (2014), a ideia de decolonização não é simplesmente um conjunto de passos ou procedimentos a serem seguidos, mas sim uma postura fundamental em relação ao mundo, ou seja, a decolonização envolve uma maneira de ser e interagir com o mundo, tanto em termos de ações quanto de pensamentos. Não se trata apenas de realizar uma série de tarefas específicas, mas de adotar uma abordagem mais ampla e crítica em relação às estruturas de poder e aos legados coloniais que moldam a compreensão de mundo. A importância de uma abordagem decolonial no ensino de Química permite uma desconstrução dos padrões impostos aos sujeitos e uma reflexão sobre diferentes perspectivas de mundo. Portanto, a decolonialidade no ensino de Química se mostra como uma abordagem necessária/importante/fundamental para enfrentar as imposições hegemônicas e eurocêntricas que, historicamente, roubaram espaço no campo científico. Destaca-se, então, a importância de dar visibilidade aos conhecimentos produzidos na América Latina e de estabelecer parcerias com instituições educativas que compartilham dessa visão decolonial. Percurso metodológico Este estudo ancora-se na pesquisa descritiva e emprega elementos quantitativos e qualitativos. Os aspectos quantitativos são tratados por meio da adaptação de critérios da bibliometria (Andrade; Jung, 2013), enquanto os qualitativos seguem uma abordagem hermenêutica, caracterizada por atitudes fundamentais como a abertura, a flexibilidade e a capacidade de observação (Minayo, 2014). Assim, este estudo buscou proporcionar maior familiaridade com o fenômeno, a partir de sua descrição (Gerhardt; Silveira, 2009). Realizamos o levantamento das referências de 200 trabalhos científicos, publicados entre 2018 e 2022, identificados no levantamento bibliográfico prévio2 do Projeto Mapequim/AL. Com ajuda do software atlas.ti, constatamos a 2 Essa pesquisa parte do pressuposto de que, no Brasil, a produção científica de autores latino-americanos de língua espanhola é pouco difundida e reconhecida. Por essa razão, objetivamos mapear autores latino-americanos que publicaram em periódicos de língua espanhola ou autores latino-americanos, excluindo brasileiros que publicaram em periódicos brasileiros. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 28 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 29 frequência de citação dos diferentes autores referenciados no corpus de análise estabelecido, foram analisados aspectos, tais como: a) autores mais citados; b) país de atuação; c) produções mais relevantes; d) perspectivas teóricas dos autores latino-americanos mais referenciados. Vale esclarecer que, para a análise, foram inclusos apenas os autores com frequência de citação superior a dez. Esse procedimento permitiu evidenciar padrões de citação que se destacam nas referências, fornecendo informações sobre as tendências das contribuições de pesquisadores na área. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Resultados e discussão A partir do levantamento realizado, foi possível estabelecer a frequência de citação dos diferentes autores referenciados em publicações científicas ligadas à área de ensino de Química, no total, nos 161 trabalhos, foram identificados 68 autores referenciados dez ou mais vezes. Esses 68 autores atuam em diferentes continentes. No entanto, observa-se uma concentração de autores no continente europeu, conforme pode ser observado na Figura 1. Figura 1 – Quantidade de autores por país Fonte: Dados da pesquisa, 2024. Os dados obtidos são semelhantes às informações apresentadas por Chamizo (2004) em relação à produção do conhecimento na área da Química. Segundo o autor, ao comparar a produção da América Latina com a da Espanha, o país europeu gera o mesmo número de investigações que toda a 30 América Latina. Nessa mesma direção, nosso estudo possibilitou identificar que o número de autores referenciados que atuam na Espanha é igual ao de autores citados de toda a América Latina (Figura 2). Além disso, foi possível constatar que o total de autores citados que atuam na Europa foi superior aos que trabalham em outros continentes. Fonte: Dados da pesquisa, 2024. A partir desses dados, podemos afirmar que na área de ensino de Química há uma marcada tendência dos pesquisadores latino-americanos em procurar referenciais europeus para desenvolver seus trabalhos de pesquisa. Isto é, depois de mais de 200 anos de independência da maioria dos países da América Latina, a hegemonia do conhecimento europeu, em especial espanhol, é marcante. Esse fato relaciona-se com a própria história do continente americano e, por conseguinte, com a constituição da Química e da área de Educação Química, conforme relatado anteriormente (Chamizo, 2004; Lima, 2013). Considerando as ideias de Quijano (2005) em relação à colonialidade do poder e do saber, é evidente que por estarmos falando de Química, uma área de conhecimento imposta durante o período colonial, cuja origem foi autodesignada ao continente europeu, é previsível que procuremos autores latino-americanos conhecimento em referenciais europeus. No entanto, o inquietante é que essa mesma tendência esteja presente na área de ensino de Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Figura 2 – Lugar de atuação Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 31 Química, levando em conta que seu objeto de estudo principal não é o conhecimento químico, mas questões relacionadas à sua apropriação no ambiente escolar (Mól, 2017), o qual tem lugar no contexto latino-americano. Cabe considerar que os primeiros educadores químicos brasileiros obtiveram seus doutorados na Europa, pois era, unicamente, nesse continente que já existia doutorado na área de ensino de Ciências. Com o retorno desses doutores ao país, que surgiram os primeiros mestrados e doutorados brasileiros em Ensino de Ciências. Assim, surge a necessidade de aprofundar abordagens que possam incorporar uma proposta decolonial ao Ensino de Química, para, dessa forma, questionar práticas tradicionais e introduzir perspectivas que desafiem as estruturas existentes de perpetuação e reprodução do pensamento eurocêntrico. Nesse sentido, Carvalho, Monteiro e Costa (2019) defendem que o Ensino da Química, desde uma perspectiva decolonial, pode potencializar abordagens que rejeitem atitudes autoritárias que foram estabelecidas ao longo dos séculos. Então, é preciso refletir sobre a condição hegemônica que prevalece e entender as epistemologias que estão envolvidas nas escolhas teóricas que refletem a influência colonial (Ferreira; Silva, 2014). Apesar de verificarmos que a maioria dos autores referenciados atuam na Europa, ao focarmos nos autores mais citados (com mais de 40 citações), identificamos a presença de quatro autores de origem latino-americana (Tabela 1). Considerando que, no Projeto de pesquisa Mapequim/AL, que originou este estudo, objetivamos identificar, dar visibilidade e valorizar as produções de pesquisadores da América Latina, a seguir, num movimento hermenêutico, iremos descrever aspectos fundamentais da produção desses quatro autores de origem latino-americana mais referenciados. Tabela 1 – Um recorte dos autores mais referenciados Autor Frequência País de atuação Caamaño, Aureli 66 Espanha Garritz, Andoni 65 México Chamizo, José Antonio 64 México Izquierdo Aymerich, Mercé 46 Espanha Talanquer, Vicente 45 Estados Unidos/México Adúriz-Bravo, Agustín 41 Argentina Fonte: Dados da pesquisa, 2024. Andoni Garritz, formado em Engenharia Química, com doutorado em Ciências Químicas, atuou como professor na Universidad Nacional Autónoma de México, chegando a ocupar o cargo de diretor da Facultad de Química. Seu trabalho foi principalmente destacado por promover a atividade de divulgação científica por meio da direção da Revista Educación Química durante 27 anos (Educación Química, 2015; Unam, 2024). Ao longo de sua carreira, recebeu vários reconhecimentos e distinções outorgados por instituições e sociedades ligadas à Química e às Ciências Naturais (Unam, 2024). Dentro de sua ampla produção acadêmica, de mais de 150 artigos (Unam, 2024), é possível identificar trabalhos que abordam assuntos como, por exemplo, concepções alternativas na Química, conhecimento pedagógico do conteúdo, natureza da Ciência, abordagem Ciência, Tecnologia e Sociedade, crenças epistemológicas, entre outros. Neste estudo, identificamos ampla variabilidade nos trabalhos desse autor que foram citados, com destaque para o artigo “PCK for dummies” (Garritz, 2013). No texto, o autor busca explicar, de forma simples, o conceito de Conhecimento Pedagógico do Conteúdo (CPC): “Se puede pensar en el CPC como un atributo personal del profesor, considerando dos aspectos: el conocimiento básico de un tema y cómo lo enseña en acción” (Garritz, 2013, p. 462). José Antonio Chamizo Guerrero é professor da Facultad de Química da Universidad Nacional Autónoma de México. Formou-se em Química e obteve doutorado em Ciências pela University of Sussex, Inglaterra. Tem publicado mais de 100 artigos científicos sobre Química, Educação, Filosofia, História e Divulgação Científica (Chamizo, 2024). Tem trabalhado nos diferentes níveis de ensino, ministrando disciplinas relacionadas com Ciências Naturais, Química Geral e Inorgânica, Metodologia Científica, História e Filosofia da Química, conceitos e problemas fundamentais da química. Dentro do amplo e variado conjunto de trabalhos desse autor que foram identificados nos resultados deste estudo, chamou nossa atenção um texto recente: “La no neutralidad de la química vista desde la historia” (Chamizo, 2020). Nesse trabalho, o autor resenha e discute as ideias do livro “the politics of chemistry” de Agustí Nieto-Galan, obra na qual são relatados aspectos históricos e políticos da Espanha e da América Latina ligados à Química, no século XX. No artigo, A Química é também política. Isso porque ao longo da sua história esteve intimamente ligada ao poder industrial e militar. Porque, entre todas as opções de seu ensino, pesquisa acadêmica e produção industrial, sempre são escolhidas umas em detrimento de outras (Chamizo, 2020, p. 158, tradução nossa). Com base nessa ideia e no relato histórico que resenha, Chamizo apresenta vários argumentos para chegar à conclusão de que a Química não é “pura” nem “imparcial”. O professor Vicente Talanquer, de origem mexicana, atua na University of Arizona e obteve sua formação em Química (graduação, mestrado e doutorado) na Universidad Nacional Autónoma de México, conforme informado no seu currículo, seu trabalho se concentra na Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 32 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 33 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização […] Caracterização do raciocínio intuitivo utilizado por estudantes de Química para responder perguntas e resolver problemas que requerem raciocínio qualitativo (por exemplo, classificação, previsão, inferência, classificação, comparação). Exploramos como as ideias e estratégias de raciocínio dos alunos evoluem à medida que eles se desenvolvem mais expertise na disciplina. O meu grupo de investigação também investiga o pensamento dos professores de ciências, prestando particular atenção à natureza dos diferentes fatores que influenciam as suas decisões e ações de avaliação (University Of Arizona, 2024, p. 2, tradução nossa). Durante a identificação das referências desse autor, despertou-nos especial interesse no trabalho: “Lessons from a Pandemic: Educating for Complexity, Change, Uncertainty, Vulnerability, and Resilience” (Talanquer, et al., 2020). Nesse artigo, o professor Vicente Talanquer e coautores tecem reflexões em torno das consequências da pandemia da covid-19 (especialmente, para o ensino de Química) e da decorrente necessidade de mudanças curriculares e educacionais. Ao longo do texto são discutidas questões, tais como: Que mudanças experimentaram os nossos alunos, nas suas vidas, durante o caos introduzido na vida humana e planetária tanto pelo vírus covid-19 como pelas medidas de mitigação tomadas pelas sociedades e instituições educativas? Como é que essas mudanças forçarão os estudantes a romper com o passado e a imaginar o mundo de novo? (Talanquer et al., 2020, p. 2696, tradução nossa). Que currículo de Química equiparia melhor os alunos como cidadãos e profissionais capazes de compreender e gerir a complexidade, a mudança, a incerteza, a resiliência e a vulnerabilidade? (Talanquer et al., 2020, p. 2698, tradução nossa). Os autores chegam à conclusão de que é necessário promover o pensamento sistêmico, como forma subjacente de raciocínio, para que os estudantes possam analisar e compreender sistemas e fenômenos globais complexos (Talanquer et al., 2020). O professor Agustín Adúriz-Bravo é doutor em Didática das Ciências Experimentais pela Universitat Autònoma de Barcelona. Formou-se como professor de Física para a Educação Básica e Superior na Facultad de Ciencias Exactas y Naturales da Universidad de Buenos Aires, Argentina, instituição na qual atua como professor e pesquisador no Centro de Formação e Investigação em Ensino de Ciências – CeFIEC (Sociedade Brasileira de Química, 2024), coordena o Grupo de Epistemología, Historia y Didáctica de las Ciencias Naturales – GEHyD, o qual se dedica a pesquisar assuntos relacionados com o ensino de epistemologia na formação inicial e continuada de professores de Ciências (DIE, 2024). Ao longo de sua carreira, ele tem constituído uma ampla produção acadêmica pela qual tem recebido várias distinções em diferentes países. 34 No caso do professor Adúriz-Bravo, chamou nossa atenção o texto intitulado “Concepciones Emergentes de Naturaleza de la Ciencia (NOS) para la didáctica de las Ciencias” (Amador-Rodríguez; Adúriz-Bravo, 2017). Nesse trabalho, junto com Rafael Amador-Rodríguez, o professor discute algumas concepções emergentes sobre Natureza da Ciência, como alternativa crítica às ideias de Norman Lederman. Para os autores, a visão tradicional sobre Natureza da Ciência é fixa e atemporal, pois não considera as diferenças entre as distintas disciplinas científicas e sua evolução. O presente estudo nos possibilitou identificar e interpretar a natureza de referências bibliográficas empregadas por pesquisadores latino-americanos, em Educação Química (hispanofalantes). De modo geral, observamos a predominância de referenciais europeus, principalmente espanhóis. Esse fato corresponde a uma marca colonial, que, por sua vez, está relacionada com a própria história da Ciência (e da Química). Assim sendo, entendemos que o caminho da decolonialidade na área de Educação Química ainda se observa amplo e distante, pois, mesmo que a lista de autores mais citados esteja conformada por quatro professores/pesquisadores de origem latino-americana, identificamos alguma relação formativa deles em instituições europeias, com exceção do professor Vicente Talanquer, isto é, os latino-americanos mais citados realizaram cursos de pós-graduação em instituições europeias. Portanto, foram formados dentro dos padrões coloniais. Cabe salientar que decolonizar não significa desconsiderar ou desvalorizar os conhecimentos produzidos na Europa ou em outras regiões do planeta, mas entender que existem outras cosmovisões e lógicas para entender e interpretar o mundo. Com isso, estudar as origens e os desdobramentos da área de ensino de Química, na América Latina, pode contribuir para a superação de concepções epistemológicas superficiais, mas, sobretudo, para reconhecer a necessidade de construção de uma identidade sociocultural e sociocientífica latino-americana. Agradecimentos Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, à Universidade de Santa Cruz – UESC, à Universidade Federal da Paraíba – UFPB, à equipe do projeto de pesquisa Mapequim/AL. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Considerações finais EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 35 REFERÊNCIAS AMADOR-RODRÍGUEZ, R.; ADÚRIZ-BRAVO, A. Concepciones emergentes de naturaleza de la ciencia (NOS) para la didáctica de las ciencias. Enseñanza de las Ciencias, n. extraordinário, p. 3499-3504, 2017. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização AMAURO, N. Q.; SILVA, G. H. C. da. Química ancestral africana. 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Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização CONTEÚDOS DE QUÍMICA NA PESQUISA E AS DEZ FACETAS DA EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA Maria do Carmo Galiazzi Robson Simplício de Sousa Ana Laura Salcedo de Medeiros Aline Pires Barbosa Jeíza Sousa Teles Andrei Steveen Moreno-Rodríguez Introdução Os conteúdos de Química que conhecemos são conceitos estudados, postulados e desenvolvidos em sociedade, no decorrer dos anos. É importante admitir também que eles perpassam por contextos sócio-históricos que os influenciam significativamente e promovem, de certa forma, a marca de uma identidade sociocientífica. Nesse sentido, faz-se pertinente conhecer os produtores desses conhecimentos, bem como a forma como os professores/ pesquisadores mediam o ensino dos conteúdos. Para além disso, é válido analisar o contexto em que eles estão inseridos a fim de que seja possível compreender o processo de construção de conhecimento, buscando superar obstáculos epistemológicos do ponto de vista histórico e valorizar o trabalho dos pesquisadores, bem como da sua região e cultura. Nesse sentido, no presente artigo, apresentaremos os resultados do projeto de pesquisa intitulado “Mapeamento da comunidade latino-americana de pesquisa em Educação Química: uma análise de suas produções” (Mapequim/ AL), no que se refere a pesquisas sobre um dos eixos temáticos resultantes desse mapeamento: “Conteúdos de Química”. Este texto está organizado em três dimensões: i) o contexto e a justificativa do projeto; ii) o mapeamento bibliográfico realizado e iii) a categorização dos artigos do eixo temático “os conteúdos de Química na pesquisa na Educação Química da América Latina”, à luz das dez facetas da Educação Química apresentadas por Talanquer (2013). O projeto em desenvolvimento pretende mapear a comunidade de pesquisadores latino-americanos em Educação Química e compreender suas produções. Objetiva também intensificar a visibilidade da produção científica produzida por esses pesquisadores, no contexto brasileiro de divulgação acadêmica. Especificamente, no campo da Educação em Ciências, segundo Moreno-Rodríguez (2018, 2020), ainda é frágil a interação entre estudos brasileiros da área da Educação Química e a produção de autores dos países vizinhos. Inspirando-nos em Severino e Romão (2019) que afirmam que a visão tradicional da Filosofia em uma perspectiva universal, nos meios acadêmicos brasileiros, decorreu dos processos de colonização e da consequente vinculação cultural com o mundo europeu, partimos do pressuposto que a visão tradicional da Educação Química refletida no ensino de Química se pautou na mesma organização (Talanquer, 2024, 2013; Marzábal; Merino, 2024). Em consonância com esta perspectiva de colonização, estamos, professores de Química, bastante acostumados com a sequência tradicional de conteúdos ensinados em cursos introdutórios de Química, seguindo padrões nos EUA, no Canadá e na Europa Ocidental (Talanquer, 2013, 2017, 2024). O autor argumenta que: As disparidades de desempenho são maiores para estudantes de estatuto socioeconómico mais baixo e com acesso limitado a recursos. Estes dados sugerem que os desafios educacionais na América Latina estão enredados com questões sociais, políticas e econômicas complexas. As desigualdades sociais e econômicas, as desigualdades sistêmicas e estruturais, o apoio insuficiente para preparar adequadamente os professores e equipar as escolas, e a falta de continuidade nas políticas educativas, nas estratégias de implementação e nos programas de avaliação estão entre os principais fatores responsáveis pelos resultados de aprendizagem insatisfatórios (Talanquer, 2024, p. 12). O futuro da educação científica e o seu papel central na preparação de cidadãos alfabetizados, social e ambientalmente responsáveis depende fortemente da nossa capacidade de escapar deste ensino monolítico. Assim, os professores de Química precisam estar preparados, o que requer organizações curriculares menos prescritivas situadas em contextos de relevância para os estudantes, isso exige formação de professores. Talanquer (2024) afirma que a pesquisa na Educação em Ciências, na AL, aborda mais questões relacionadas com a justiça social, a participação democrática e a marginalização do que a pesquisa nos EUA, Canadá e Europa Ocidental. Levando em conta essa situação, há mais de uma década, Talanquer (2013) apresenta, sem intenção de esgotar as possibilidades de discussão sobre organizações curriculares no ensino de Química, dez facetas da Educação Química que podem configurar um currículo de Química ampliado e que venha a contribuir para produzir outros modos de ensiná-la. São elas: grandes ideias; Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 40 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 41 questões essenciais; conceitos unificadores; dimensões conceituais; tipos de conhecimento; escalas dimensionais; modos de raciocínio; perspectivas contextuais; considerações filosóficas; visões históricas. Talanquer (2013) afirma que imaginar um currículo que abarque essas dez facetas é praticamente impossível. Não obstante, sugere, para cursos introdutórios de Química, abrir espaço no planejamento para explorar, analisar e refletir em pelo menos uma delas e ousar fazer mudanças no ensino que reflitam a compreensão múltipla e complexa do conteúdo químico. Isso já se delineia como um caminho válido. Estendemos esse argumento à formação de professores de Química de todos os níveis de atuação no ensino. Talanquer (2024) afirma que as reformas no ensino de Ciências, na AL, nos últimos 60 anos, seguiram orientações globais, embora fatores históricos, políticos, sociais e econômicos tenham influenciado o desenvolvimento das políticas públicas para a Educação em Ciências, nos diferentes países da AL. Ainda prevalece, entretanto, um ensino de conhecimento descontextualizado sobre um conjunto expressivo de teorias científicas e uma avaliação centrada na memorização de conhecimentos. O desafio de superar o domínio dessa organização curricular é urgente em razão da importância do papel da Educação em Ciências para alfabetizar cidadãos ambientalmente e socialmente responsáveis. A pesquisa na Educação em Ciências, na História, Filosofia e Sociologia de disciplinas científicas têm produzido conhecimentos importantes que podem indicar direções dessas mudanças necessárias. Nesse sentido, apresentaremos os resultados do mapeamento organizados de modo a sugerir processos de formação que analisem – em grupos de professores – diferentes modos de organização curricular oriundos de resultados de pesquisa, atendendo a alguma faceta. Com isso, acreditamos contemplar nosso objetivo de mapear e divulgar a pesquisa na área de Educação Química de pesquisadores hispano-falantes, na AL, no eixo sobre os conteúdos. Ao mesmo tempo, exemplificaremos nosso argumento para a formação de professores em que textos de pesquisa sejam lidos em processos de formação, abarcando as facetas da Química. Reforçamos que atentar para a produção de conhecimentos na área de Educação Química, na América Latina, por autores hispano-falantes não significa negligenciar a produção de conhecimento de outros autores, mas atende a nosso objetivo de intensificar o intercâmbio entre pesquisadores latino-americanos. A seguir, apresentaremos a metodologia do mapeamento bibliográfico que reuniu 140 artigos organizados por semelhança de sentidos, em oito eixos temáticos, seguida da metodologia de análise dos textos e dos resultados desta análise. 42 Percursos metodológicos do mapeamento Como se mostra a pesquisa em educação química, na AL, sobre os conteúdos de química? O eixo temático “Conteúdos de Química” reúne os trabalhos mostrados no Quadro 1, em que apresentaremos um panorama das produções, detalhando: autoria; país de origem dos autores; os títulos dos artigos; a revista; o ano de publicação; e, dentro do eixo temático em análise, a subtemática focada no artigo, ao mesmo tempo, que indicaremos a faceta da Educação Química a qual vinculamos os trabalhos. Na sequência, descreveremos esses artigos brevemente como parte importante da metodologia de análise, em uma abordagem fenomenológica (Galiazzi; Sousa, 2021). Quadro 1 – Relação de autores, título do artigo, revista, ano, subtemática de análise, faceta da Química Código e autoria A1 – Marzábal Ainoa Marzábal; Virgínia Delgado; Patrícia Moreira; Cristian Merino; Valeria M. Cabello; Franklin M. Macarena Soto; Luigi Cuelar; Daniel Izquierdo Chile Título/revista, ano Los modelos materia, reacción química y termodinámica como núcleos estructurantes de una química escolar orientada a la formación ciudadana, Educación Química Temática, conteúdos, propósito do texto Faceta da Química identifi-cada Matéria, reação química 1 – Grandes ideias 3 – Temas e termodinâmica unificadores Propósito: mudança curricular Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Esta pesquisa se pauta nos princípios da abordagem qualitativa que permite ao pesquisador alcançar níveis de compreensão ampliados sobre os fenômenos pesquisados a partir de uma análise rigorosa e cuidadosa de informações discursivas e textuais (Bicudo, 2011). Assim sendo, a partir de Gerhardt e Silveira (2009), foi realizado o mapeamento da pesquisa na Educação Química, para seguir com o movimento exploratório e descritivo a favorecer que o fenômeno se mostre. No eixo temático “Conteúdos de Química”, foram classificados 17 trabalhos que serão o foco de análise neste texto. EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 43 continuação A2 – Pineda Caro Diana Y. Pineda-Caro; Edgar E. VargasAguilara; Oswaldo Eliécer Cárdenas-González Molecular representations of stereoisomers with chiral centers using molecular models in origami, Revista Logos, Ciencia & Tecnologia Estereoquímica Aplicación del concepto de hormesis en la enseñanza de la química de los metales de transición, Educación en la Química Metais de transição Propósito: artefato (moléculas em origamis) 1 – Grandes ideias 3 – Temas unificadores Colômbia Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização A3 – Lairion Fabiana Lairion; Christian Saporito Magriñá; Alejandra Cimato; Margarita Martinez Sarrasague; Marisa Repetto 2 – Questões essenciais Propósito: pesquisa em sala de aula Argentina A4 – Alfaro Marco Alfaro; Ignácio Alfaro; Rodrigo Guerra Chile A5 – Lamourex Guy Lamoureux; Katherine Chaves-Carballo; Carlos Arias-Álvarez 3 – Conceitos Uso de un potenciostato de fuente Corrosão unificadores abierta de bajo costo para estudios de inhibición de corrosión de acero: Propósito: uso de artefato em sala de aula determinación de la velocidad de corrosión, Educación Química Cuadrículas III: Puentes de Hidrógeno en Química General, Educación Química Pontes de hidrogênio Extracto del maíz morado como indicador químico, Revista Chakiñan de Ciencias Sociales y Humanidades Indicadores químicos El algebra de la estequiometría, Educación Química Estequiometria 4 – Dimensões conceituais Propósito: ênfase na linguagem e em um artefato para o ensino Costa Rica A6 – Urquizo Cruz Elena P. Urquizo Cruz; Narcisa de J. Sánchez Salcán 5 – Tipos de conheci-mento Propósito: atividade na comunidade Venezuela A7 – García Garcia José L. García García Propósito: método analítico para o estudo da estequimetria Colombia A8 – García Garcia José L. García García Colômbia 5 – Tipos de conheci-mento Deduciendo las relaciones entre las unidades de concentración en disoluciones líquidas, Educación Química Unidades de concentração 5 – Tipos de conheci-mento Propósito: método de conversão das unidades de concentração continua 44 continuação Hacia un equilibrio químico verdaderamente analítico, Educación Química Equilíbrio químico Nanoquímica, un campo de conocimientos de alto valor educativo y disciplinar, Mundo Nano Nanoquímica 6 – Escalas dimensio-nais Propósito: apresentação 10 – História da da importância da Química nanoquímica ¿Todos interactuamos?: una secuencia de enseñanza aprendizaje acerca de las interacciones intermoleculares en química orgánica a través de la indagación científica y modelización, Revista de Innovación en Enseñanza de las Ciencias Interações intermoleculares Colômbia A10 – Meinguer Jorge Meinguer Ledesma México A11 – Plaza Tapia César Plaza Tapia Chile A12 – Meinguer Jorge Meinguer Ledesma México A13 – Cutrera Guillermo E. Cutrera; Marta Beatriz Massa; Silvia Stipcich Argentina A14 – Chamizo José Antonio Chamizo México 5 – Tipos de conheci-mento Propósito: modelagem matemática do conceito de rapidez de reação 7 – Modos de raciocínio Propósito: pesquisa em sala de aula La comunicación de la Nanoquímica nanotecnología del carbono a través del análisis crítico de textos Propósito: metodologia informales en la educación química de ensino preuniversitaria, Mundo Nano Nominalización en procesos de condensación de significados en la enseñanza de solución saturada: un estudio de caso en una escuela secundaria, Ciência & Educação Solubilidade Las substancias químicas antes y después de la construcción de la Tabla Periódica, Educación Química Tabela Periódica 8 –Questões contextuais 9 – Questões filosóficas Propósito: reflexão sobre a linguagem do professor 10 –Visões históricas Química atmosférica Propósito: apresentação de aspectos históricos A15 – Meinguer Jorge Meinguer Ledesma México A16 – Chamizo José Antonio Chamizo México La Caracterización Estructural del Benceno de Kekulé: un ejemplo de creatividad y heurística en la construcción del conocimiento químico, Ciência & Educação Estrutura do Benzeno Del ‘aire filosófico’ a los ‘aires químicos’, Educación Química Química atmosférica 10 –Visões históricas Química atmosférica Propósito: apresentação de aspectos históricos 10 –Visões históricas Propósito: apresentação 9 –Questões filosóficas de aspectos históricos continua Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização A9 – García Garcia José L. García García EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 45 continuação A17 – Lorenzo María Gabriela Lorenzo Argentina Tabela Periódica Número Especial: homenaje a la tabla periódica de los elementos químicos, Educación en la Química Propósito: editorial de um número temático 10 –Visões históricas Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Fonte: Elaborado pelos autores, 2024. Considerando os 34 autores dos textos, chama a atenção que, do conjunto de 17 trabalhos, dez foram produzidos por cinco autores individuais e os demais em coautoria. Algumas dessas produções de professores de Química e de Educação Química reconhecidos internacionalmente. Os autores desse eixo temático são da Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, México e Venezuela. Com relação aos conteúdos, há uma diversidade de temas com maior aderência aos conceitos básicos de Química. O texto de Lorenzo (2019), entretanto, não é um texto de pesquisa, mas o editorial de um número especial dedicado a celebrar os 150 anos da Tabela Periódica. Como já afirmamos, este projeto parte da hipótese de que há pouca interação entre pesquisadores latino-americanos hispano-falantes com pesquisadores brasileiros, o que ratificamos aqui com base em dois aspectos: primeiro, apenas dois dos 17 artigos foram publicados em uma revista brasileira; segundo, há pouca referência a trabalhos de autores brasileiros nos artigos selecionados para análise. As referências de cada um dos artigos foram analisadas para identificar autores brasileiros e/ou revistas de pesquisa brasileiras. Dessa análise, apesar da extensa bibliografia referenciada, identificamos apenas a referência a: Rosária Justi, no artigo da revista Enseñanza de las Ciências (Marzábal et al., 2021); Maria de Fátima Rosa de Lima, a partir do repositório da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Gláucia A. A. Rezende, Nicea Q. Amauro e Guimes Rodrigues Filho, na Revista Química Nova na Escola (Pineda; Vargas; Cárdenas, 2019); Boaz G. Oliveira, a partir de artigo publicado na Revista Química Nova (Lamourex; Chaves-Carballo; Arias-Álvarez, 2021); Álvaro da Rocha Figueira (García, 2020) e o mesmo autor brasileiro com os co-autores, Juan Coch e Marilene Zepka, na Revista Journal of Chemical Education (García, 2021). Allan Victor Ribeiro, Neto Godoy e Moacir Pereira de Souza, na Revista Momento Revista Física da Colômbia e Rosemar Ayres dos Santos e Décio Auler na Revista Ciência & Educação (Meinguer, 2022); Eduardo Fleury Mortimer, em livro publicado com Philip Scott (Cutrera; Massa; Stipcich, 2021), ou seja, a produção brasileira é pouco referenciada, o que reforça nossa hipótese da pouca interação entre esses pesquisadores. 46 No mapeamento de pesquisadores latino-americanos hispano-falantes, no eixo temático de conteúdos de Química, encontramos 34 autores de seis países da AL: México com cinco artigos; Colômbia com quatro; Argentina e Chile com três artigos de cada país e Equador e Costa Rica com um artigo cada. Identificamos autores que conhecíamos e outros até então desconhecidos. Não podemos generalizar em razão do número reduzido de artigos, mas de toda forma, esse resultado sugere o quanto é necessário intensificar a pesquisa na área. Também percebemos a pouca interação entre pesquisadores hispano-falantes e brasileiros, como nossa experiência indica, o que merece atenção por parte de pesquisadores, para uma maior integração, na Educação Química, na AL. Outro aspecto que queremos ressaltar é o pertencimento à área da Educação Química em todos os trabalhos com a nítida preocupação de melhorar o ensino e a aprendizagem da disciplina em diferentes níveis da educação. A leitura desses permitiu nos aproximarmos do pensamento de pesquisadores latino-americanos hispano-falantes, como é o objetivo do projeto. Os artigos contemplaram as dez facetas da Educação Química e espelhando-nos na proposição de processos de formação inicial de professores que discutam em grupos diferentes proposições de cada uma das facetas (Talanquer, 2013), sugerimos esta mesma proposição para todos os níveis de ensino de professores de Química: da Educação Básica ao nível Superior nas várias áreas de conhecimento da Química, o que sabemos por experiência que nem sempre é aceito o fato de professores universitários precisarem de formação continuada em Educação, embora todos eles sejam docentes. Salientamos também que os textos abordaram pesquisas sugerindo proposições curriculares, pesquisas sobre aplicações em sala de aula realizadas, em sua maioria, pelos pesquisadores com foco na linguagem, análise de um instrumento de baixo custo a ser utilizado em sala de aula, estudos teóricos sobre conceitos envolvendo a linguagem matemática em relação a alguns conceitos, estudos sobre a História da Química e a Nanoquímica, dando robustez à proposição de Talanquer (2013). Aqui, queremos destacar os textos referentes a História da Química como imprescindíveis de leitura por todo professor de Química, sem, com isso, desmerecer qualquer outro. Alguns textos com densa dedução matemática com fundamentos em conceitos químicos se aproximam mais de discussões desenvolvidas no ensino de Química, em disciplinas de maior adensamento conceitual. Assim, embora tenham um fundamento químico relevante buscando dar sentido às fórmulas, na nossa compreensão, estão mais adequados para níveis mais avançados nos cursos de graduação. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Considerações Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 47 A leitura desses textos também nos levou a questionar aproximações e distanciamentos deles com as facetas propostas para cursos introdutórios de Química; no entanto, foi este mesmo questionamento que mostrou a potencialidade da proposta que, aqui, apresentamos para aplicar em um processo de formação de professores de todos os níveis de ensino. É preciso apontar um limite de nossa busca. Mais pesquisadores da área poderiam ter sido encontrados, selecionando a partir das revistas especializadas e que se mostraram preponderantes na nossa busca, contudo, nossa intenção foi também de encontrar autores com textos em contextos mais locais e publicados em revistas mais regionais. Consideramos, apesar de percebermos o limite, que o número expressivo que foi analisado permitiu compreender mais sobre a pesquisa em contextos latino-americanos. Como atentamos no início deste texto, a AL seguiu modelos de ensino espelhados nos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental, mantendo a colonização no ensino de Química. A pesquisa na área da Educação Química, na AL, tem buscado produzir conhecimento para produzir a mudança, como indicam os artigos do mapeamento. Marzábal e Merino (2024) organizaram um livro com argumentos sobre a imperativa necessidade de repensar a Educação em Ciências para produzir uma AL com maior diversidade e equidade. Algumas das temáticas organizadas por Marzábal e Merino (2024) se articulam com as facetas da Educação Química e essas representam desafios para repensar os currículos de Química. Outras temáticas ainda são acrescentadas. Temas referentes à sustentabilidade, educação ambiental, saúde, gênero, interculturalidade, modelagem, educação digital, ensino por investigação, educação química em espaços não-formais dão ideia do enorme compromisso que nós, professores de Química, temos com esta transformação curricular. Pensamos que este trabalho se insere neste contexto de mudança curricular na medida em que propõe intensificar a relação entre autores da Educação Química da AL e, com isso, contribuir para a constituição de uma identidade latino-americana, por meio da formação de professores. Enxergamos a descrição das facetas propostas por Talanquer (2013) e, aqui, articuladas com as produções de pesquisadores da AL, conforme Quadro 1, como um caminho de entendermos a complexidade do processo de educar quimicamente. Entendemos que as facetas estão, contextualmente, sobrepostas em distintos momentos de aulas de Química. Queremos, contudo, chamar a atenção para as duas últimas facetas – Considerações Filosóficas e Visões Históricas –, entendendo-as como centrais no que molda, utilizando o termo do próprio autor, a Educação Química. Isso porque as facetas conceituais da proposição do Talanquer (2013) não podem fugir à orientação filosófica que as compõem e carregam, em si, uma elaboração histórica exigida pelos fenômenos químicos que se busca explicar/compreender. Ou seja, o exercício filosófico de elaboração conceitual de químicos é também refletido e interpretado historicamente pelos professores de Química (Sousa; Galiazzi, 2018). Colocamos, com isso, que a valorização conceitual mostrada nas produções da AL é influenciada, historicamente, pelos contextos em que foram produzidas e são provenientes de exaustiva reflexão filosófica, levando-nos a perceber a História da Química e a Filosofia da Química em um lugar de possibilitadoras de Educação Química, a partir dos fenômenos que nos exigem conceitos químicos para que os entendamos. Por último, apontamos para a importância de intensificar estudos em cursos de formação de professores que incluam proposições, partindo das experiências dos estudantes, bem como possam trazer conhecimentos locais. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 48 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 49 REFERÊNCIAS Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização ALFARO, M; ALFARO, I.; GUERRA, R. Uso de un potenciostato de fuente abierta de bajo costo para estudios de inhibición de corrosión de acero: determinación de la velocidad de corrosión. 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Burke (1969), ao propor elementos que estruturam uma narrativa, desenvolve o que ficou reconhecido como quinteto dramatístico, constituído por cinco elementos, dentre eles: i) cena; ii) instrumento; iii) propósito; iv) ato, e; v) agente. No seu primeiro elemento, a cena, alocam-se as dimensões da temporalidade – quando – e da territorialidade – onde, o espaço em que ocorreu a história; o segundo, o instrumento, refere-se às estratégias utilizadas para contar a história, como ela foi narrada; no terceiro, o propósito, investe-se esforços para justificar o motivo pelo qual a história foi contada; o quarto, o ato, vincula-se ao fenômeno narrado; e no quinto, o agente, são contempladas as personagens. Diante desse contexto, por meio deste capítulo intenciona-se apresentar uma narrativa em torno de uma cena, um pano de fundo que se centrou na investigação das produções, com foco na Educação Ambiental, a partir do prisma das publicações de pesquisadores da Educação Química latino-americanos. O instrumento utilizado para narrar essa história se refere a um texto atrelado aos moldes de textos científicos, sob a forma de capítulo de livro. O propósito centra em publicizar as compreensões e argumentos desenvolvidos por pesquisadores na intencionalidade de potencializar as relações daqueles que se vinculam ao território da América Latina. O ato, que neste texto se apresenta em um quantitativo de quatro, esboça dimensões que potencializam a compreensão de um fenômeno em específico, centrado nas produções mapeadas. O agente, ou os agentes, refere-se aqueles que produziram os textos analisados e os pesquisadores do projeto Mapequim/AL, que de maneira direta ou indireta, potencializaram a escrita deste capítulo. Diante dessa conjectura, na sequência, apresentam-se quatro atos que oportunizam o desvelar de alguns dos caminhos e percepções do/no fenômeno investigado. Dentre eles, no primeiro, serão explicitados alguns marcadores que potencializam o entendimento das opções e contexto de investigação. No segundo ato, os elementos metodológicos serão expostos de maneira breve, apenas na intencionalidade de retomar o percurso percorrido. O terceiro ato constituirá a essência deste capítulo, explicitando as percepções e as interpretações emergentes da análise dos artigos mapeados. Como ato final, culminando as discussões, o quarto ato, no qual serão descritas algumas das pistas emergentes do movimento investigativo transcorrido. 1 ATO – Os marcadores de um diálogo preambular: pesquisar como narrar, um exercício de contar histórias Na pesquisa qualitativa, ainda que o movimento seja cíclico, ele não é linear, no sentido de seguir uma única sequência. Cada ciclo começa com um estado de ser e culmina com outro estado de ser. O movimento de um ser inicial para um novo ser constitui um esforço de intervenção que pretende atingir sempre uma complexidade maior (Moraes, 2021, p. 102-103). Aventurar-se no fazer pesquisa envolve um exercício que encontra na intencionalidade o combustível catalisador para a excursão rumo a percepção, interpretação e compreensão de um fenômeno. Nas pesquisas de natureza qualitativa, em especial, naquelas que assumem uma postura Fenomenológica e Hermenêutica, há uma preocupação com dois movimentos: a descrição e a interpretação. Por meio desse processo de investigação nem sempre desenvolvemos um arcabouço de contribuições que impactam nos saberes e fazeres de um coletivo e/ou potencializam a alteração do status quo ou do paradigma predominante. Entretanto, quando compreendemos que a transformação do pesquisador, a dimensão ontológica, é essencial no percurso, as metas e intencionalidades do fazer pesquisa se (re)configuram. Na medida em que Ciência e Tecnologia avançam, e as influências da ação do ser humano nesses dois polos se explicitam, nosso modo de ser e estar na sociedade tem se reordenado. Os desastres ambientais, somados a nossa incapacidade de mobilização mediante o cenário em que estamos imersos, incorporam elementos na argumentação em torno da relevância das questões correlatas à Educação Ambiental. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 56 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 57 No contexto educacional, o debate acerca dessa dimensão assumiu o foco na área denominada como Ciência, Tecnologia e Sociedade – CTS, que foi catalisada mediante a problematização de fenômenos ambientais e das influências sociais nos mesmos. O Movimento CTS promoveu o desenvolvimento do denominado Campo de Estudos CTS que por decorrência possibilitou a emergência do Enfoque CTS. Diante desse contexto, compreende-se que o Movimento CTS emerge como possibilidade de atuação frente ao desenvolvimento da Ciência, da Tecnologia e do papel da Sociedade nessa relação. Por meio do progresso científico-tecnológico, oportunizou-se a sociedade um conjunto de ferramentas que foram/são utilizadas para finalidades entendidas como mais ou menos potentes, desde armamentos até tratamento e cura de doenças. Nesse ínterim, conscientizar-se acerca da não neutralidade da Ciência emerge como demanda. Em sua gênese, vinculam-se ativistas ambientais que constituíram o núcleo central em torno do enfrentamento a questões como a utilização de pesticidas. Como expoente destaca-se a bióloga naturalista norte-americana Rachel Carson que, por meio da publicação de seu livro “Primavera silenciosa”, em 1962, provoca um debate relevante em torno da utilização indiscriminada de inseticidas da classe dos hidrocarbonetos clorados. Com o avançar do Movimento CTS, e seu adensamento na comunidade acadêmica, emerge o denominado campo de Estudos CTS que, segundo Moreno-Rodríguez (2018, p. 15), “[...] almeja assegurar o estudo dos aspectos sociais da ciência e da tecnologia enfatizando o poder que elas possuem para a transformação dos contextos sociopolíticos, culturais e ambientais”. Segundo o autor supramencionado, a aproximação desse campo de estudos oportuniza o surgimento da área denominada de Enfoque CTS que direciona sua atenção ao campo educacional. No que tange a tradição do campo de Estudos CTS, destacam-se duas grandes zonas de influência: i) Norte-americana ou social e; ii) Europeia ou acadêmica (Auler, 2002). A primeira, alocada no final dos anos 60, nos Estados Unidos, assume como intencionalidade de debate as questões correlatas ao desenvolvimento científico a partir do prisma ambiental e social. A segunda, com início nos anos 70, se preocupou em problematizar os antecedentes sociais que sustentam o “[...] desenvolvimento em ciência e tecnologia, passando a entendê-las como produtos sociais que eram desenvolvidas respondendo a contextos socioculturais locais, e não somente aos fatores e valores intrínsecos dos laboratórios e da academia” (Silva, 2015, p. 18). No cenário latino-americano emerge a tradição denominada por Dagnino, Thomas e Davyt (1996) de Pensamento Latino-Americano de Ciência Tecnologia e Sociedade – PLACTS. Esta terceira tradição tem sua gênese vinculada aos anos 60 e 70 e assume como alicerce central o desenvolvimento, provocando uma outra forma de compreender as traduções estabelecidas nos Estudos CTS, fortemente influenciada pelo contexto histórico-cultural dos países intitulados como periféricos (Auler, 2002). Essa proposição se configura como relevante, em especial, quando consideramos que as demandas dos contextos são diversas e singulares. É perceptível a influência da dimensão ambiental desde a gênese do movimento CTS, entretanto, como em todo campo de estudos em desenvolvimento, ocorreram embates teóricos em torno das ênfases que precisariam ser assumidas e incorporadas pelos pesquisadores. Nesse ínterim, houve, e ainda persiste, intenso debate em torno da incorporação da letra A na sigla, culminando em outra variação, CTSA, Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente: [...] aqueles que promovem a expressão CTSA não estão dizendo que a “A” não esteja contida em CTS, mas antes pretendem que se lhe dê uma maior ênfase na educação científica para evitar um tratamento particularmente insuficiente das questões ambientais quando se incorporam as relações CTS. Faz-se notar que o argumento de que a letra “A” já está incluída no CTS e, portanto, não se torna necessário explicitar, valia para também questionar a sigla CTS, uma vez que tais relações entre ciência, tecnologia e sociedade são inerentes à atividade científica e, portanto, bastaria falar de educação científica. Se se insiste em chamar a atenção para essas relações CTS é porque, infelizmente, a educação científica havia incorrido em reducionismos que as deixavam de lado. E essa mesma razão justifica a inclusão da “A” (Vilches; Gil-Pérez; Praia 2011, p. 180). Entretanto, pesquisadores como Santos e Auler (2002) argumentam ser desnecessário, visto que a dimensão ambiental já é contemplada na essência do CTS. Para além de debater acerca da incorporação ou não de outras nuances à sigla, pretende-se argumentar, por meio deste texto, no que tange a demanda da anexação de outras paisagens interpretativas para nossas ações e investigações. Em especial, quando consideramos a importância da valorização do contexto social e histórico em que estamos imersos, somos afetados e afetamos a valorização e permanência de uma realidade e/ou representação em específico. Não cabe categorizar ou realizar uma inferência na intencionalidade de atribuir juízo de valor a uma tradição em detrimento da outra. Mas compreender e buscar interpretar quais são as possibilidades que apresentam zonas de convergência mais potentes para nosso fenômeno em específico. Mobilizados por essa intencionalidade investimos esforços coletivos por meio do Projeto denominado de “Mapeamento da comunidade latino-americana de pesquisa em Educação Química: uma análise de suas produções” (Mapequim/AL), no qual intencionamos Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 58 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 59 mapear a comunidade latino-americana de educadores químicos e analisar suas produções científicas, para que possamos compreender o que essa comunidade tem publicado e investigado mediante a realidade em que está imersa. De maneira recorrente, ancoramo-nos em termos teóricos e de inspiração em pesquisadores que se vinculam a realidades díspares das nossas e se quer conhecemos e/ou (re)conhecemos aqueles que estão próximos a nós. Nosso país apresenta, em sua história, inúmeros episódios de exploração e movimentos de colonização que perduram, em proporções distintas, até a contemporaneidade. A diversidade cultural que estrutura a América Latina foi apagada e/ou levada ao apagamento por meio de um constante e incessante exercício de colonização dos nossos modos de ser e estar em comunidade. Sua influência perpassa diferentes aspectos e não se faz ausente nos espaços escolares e acadêmicos que, no decorrer de anos, se tornaram contextos para disseminação de uma forma singular de pensar. A colonialidade do nosso pensamento nos condicionou a posturas que de maneira progressiva precisam ser problematizadas e ressignificadas. Diante deste cenário, complexo e plurifacetado, delineia-se como preponderante assumir outras lentes para interpretar e ancorar nossos saberes e fazeres. A ausência ou insuficiência de diálogo entre pesquisadores latino-americanos potencializa a propagação de um pensamento colonizado. Segundo Moreno-Rodríguez (2018), há pouca interação entre pesquisadores brasileiros para com aqueles vinculados a países vizinhos, aspecto que dificulta o desenvolvimento de uma identidade coletiva na América Latina. Influenciados por esse cenário, desafiamo-nos a estabelecer um exercício de identificação e interpretação das pesquisas desenvolvidas no contexto latino-americano, especialmente no que tange a comunidade de educadores químicos. Do exercício do mapeamento, emergiram para além de autores, pesquisadores, temáticas e propostas teóricas, assim como desvelou-se a demanda por ampliarmos nossos horizontes de compreensão dessa comunidade de pesquisadores da/na Educação Química. Neste capítulo, assume-se como foco o debate e interpretação de artigos que contemplam uma das temáticas emergentes, a Educação Ambiental. 2 ATO – Nuances teórico/metodológicas: o mapa construído ao caminhar, sempre incompleto e inacabado A produção escrita, no sentido aqui apresentado, é uma viagem sem mapa. Aos poucos vão-se produzindo esboços do mapa e esse vai sendo aperfeiçoado ao longo do tempo. Exige uma pesquisa cuidadosa do terreno, 60 Mapear, em nosso contexto investigativo, transcende a significação de identificar sem interpretar. Ao consultar o dicionário atribui-se a essa palavra o significado de “expor através de um mapa. Construir ou confeccionar um mapa de algo ou de algum lugar”. Mobilizados pela intencionalidade de “Mapear a comunidade de pesquisadores latino-americanos em Educação Química e analisar suas produções” almejamos ampliar nosso espectro de compreensão da realidade atribuída ao fazer pesquisa na Educação Química. Para tanto, entedemos como relevante identificar produções, autores, zonas de interesse, construtos teóricos e potencializar o estabelecimento de parcerias. Ao assumir uma postura qualitativa em nossa excursão investigativa nos inspiramos em Moraes (2021, p. 102, grifos do autor), em especial quando argumenta que: A pesquisa qualitativa pode ser compreendida como conjunto de ciclos dialéticos e hermenêuticos. Nestes ciclos trabalha-se no sentido de superação gradativa de ‘teses e teorias existentes’ e de sua substituição por ‘novas teses e teorias’. Estes movimentos de reconstrução e mudança podem ter amplitudes variadas. Podem representar pequenas mudanças teóricas ou práticas, ou serem grandes saltos paradigmáticos. Podem ir desde reconstruções até construções ou criações originais. Também podem ser entendidas como modos de intervenção num discurso em que o pesquisador está inserido. Nesse ínterim, nosso mapa foi sendo construído no caminhar, a quantidade de produções, a qualidade, a diversidade de fenômenos investigados e a insuficiente articulação entre os pesquisadores, inclusive em termos de citação, foram se delineando como pistas potentes na interpretação do fenômeno em estudo. No decorrer deste capítulo, centra-se a discussão, interpretação e compreensão em torno de uma das temáticas emergentes, a Educação Ambiental. Diante do exercício de mapeamento, mediante descritores selecionados, “educación” AND “química”, foram localizados 166 artigos vinculados ao interstício temporal de 2018 a 2022, dentre os quais seis trabalhos, no formato de artigos, assumiram como foco a temática Educação Ambiental. Os artigos que se delineiam como material empírico desse capítulo, fenômeno a ser investigado, descrito e interpretado mediante os pressupostos da Análise Textual Discursiva (ATD) (Moraes; Galiazzi, 2016), podem ser observados na sequência. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização aperfeiçoando-se e se validando a partir disso. Como mapa, entretanto, estará sempre incompleto e inacabado (Moraes; Galiazzi, 2016, p. 130). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 61 Quadro 1 – Material empírico constituído no eixo Educação Ambiental Código Fonte/País Educación Química A1 México A2 Tecné, Episteme y Didaxis: TED Colômbia Educación Química Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização A3 México A4 Título da obra Autores Sustitución de una práctica de Laboratorio con enfoque a “Química Verde” como herramienta para la reducción de residuos peligrosos Adriana Veja Boto; Ligia Dina Solís Torres 2018 Diana Lineth PargaA pesquisa sobre ambientalização curricular Lozano; Washington Luiz Pacheco de Carvalho 2019 Educación ambiental y cambio climático en el bachillerato tecnológico de México Laura Odila Bello Benavides 2019 Herlinda Gervacio Jiménez; Benjamín Castillo Elías 2020 Ricardo Andres Franco Moren; Leydi Ordoñez Carlosama 2020 Johana Estrada Contenidos micro-curriculares en educación Estrada; Raúl Benavides ambiental, para promover la responsabilidad Lara; Irene Caguano Romancela; Vítor Usca social en educación media Pinduisaca 2021 RIDE. Revista Iberoamericana Dimensión socioambiental en los para la Investigación contenidos del currículo del nivel medio y el Desarrollo superior de la Universidad Autónoma de Educativo Guerrero Período México Educación Química A5 México A6 Horizontes Revista de Investigación en Ciencias de la Educación Bolívia El enfoque de química verde en la investigación en didáctica de las ciencias experimentales. Su abordaje en revistas iberoamericanas: 2002-2018 Fonte: Acervo da pesquisa, 2024. Como metodologia para análise do material empírico deste capítulo e do projeto como um todo, adotamos a ATD desenvolvida por Moraes e Galiazzi (2016). Inspirados e provocados por meio dessa, catalisados por movimentos fenomenológicos e hermenêuticos, intencionamos compreender o que é isso que se mostra do fenômeno investigado. Nesse ínterim, na sequência, o texto de análise, proveniente das dimensões que alicerçam a ATD, unitarização, categorização e elaboração do metatexto, será apresentado no terceiro ato. 62 [...] metatexto [...]delineia-se como momento de culminância, retratando o horizonte interpretativo, do pesquisador, para como o fenômeno investigado. [...] Na amálgama dessas vivências e experiências potencializam-se as condições de possibilidade para sua transformação, em diferentes níveis, dimensões e configurações. A metamorfose da lagarta encontra ambiente fértil para ocorrer, porém precisamos nos permitir viver o processo e aceitar a constante certeza da incompletude e vislumbrar na possibilidade constante de alargamento de horizontes o catalisador de nossas ações (Calixto; Galiazzi; Kiouranis, 2024, p. 33). Neste metatexto, retrata-se a culminância de um percurso, que não se encerra aqui. Entretanto, nessa parada, constituída pela certeza de que há muito a investigar, aprender, escrever, ler e argumentar, publicizam-se algumas das paisagens que alicerçam a compreensão e argumentação estabelecida por meio desse exercício de investigação. Quando analisamos o mapeamento das produções em sua globalidade, 166 artigos, e os eixos emergentes, oito, o vinculado à Educação Ambiental, apresenta um quantitativo baixo de trabalhos. Respectivamente, os artigos mapeados, organizam-se mediante o seguinte ranqueamento de produções: i) Proposta pedagógica, com 74 trabalhos; ii) Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), com 23; iii) Conteúdo de Química, com 20; iv) Perspectiva docente, com 14; v) Formação de Professores, com 11; vi) Relatos de experiências acadêmicas, com 10; vii) Pandemia, com 8, e; viii) Educação Ambiental, com 6. Ante o exposto, como demarcações preliminares, desvela-se a interpretação de que essa não tem sido uma temática amplamente investigada, considerando o cenário contemplado em nossa pesquisa. No que tange ao interstício temporal coberto no mapeamento, 2018-2022, podemos identificar que dos seis artigos, vinculados a Educação Ambiental, um localiza-se no período de 2018 (A1); dois a 2019 (A2 e A3); dois a 2020 (A4 e A5) e um a 2021 (A6). Acerca da regionalidade, predominam as publicações em periódicos mexicanos, com um total de quatro artigos (A1, A3, A4 e A5), seguidos por Bolívia (A6) e Colômbia (A2), com um artigo. Porém, quando analisamos o contexto em que as investigações foram desenvolvidas, destacam-se aquelas atreladas a Colômbia, com três artigos (A2, A3 e A5), na sequência Costa Rica (A1), México (A4) e Equador (A6) apresentam um artigo. Diante desse contexto, depreenderam-se esforços no intento de compreender as dimensões que estruturavam os estudos retratados nesses artigos. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 3 ATO – O que é isso que se mostra da/na educação ambiental nos artigos analisados Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 63 Assumiu-se como itinerário compreensivo a elaboração de um argumento para cada artigo, objetivando descrever a investigação publicizada. Por meio da análise, do que se mostrava dos artigos analisados, emergiram 12 unidades de significado, de alta amplitude, seis categorias iniciais, que aproximadas geraram três categorias intermediárias, as quais versam, respectivamente, sobre: i) investigações de mapeamento de produções acerca da Educação ambiental (A2 e A5); ii) investigações centradas na incorporação da Educação Ambiental no currículo prescrito (A4), e; iii) investigações concernentes à operacionalização da Educação Ambiental no currículo real (A1, A3 e A6). Diante dessa conjectura, na sequência será apresentada cada uma das categorias supramencionadas. i) Investigações de mapeamento de produções acerca da Educação Ambiental Essa categoria intermediária se estrutura por meio de dois artigos, respectivamente A2 e A5, ambos retratam investigações que se centraram no desenvolvimento de um mapeamento de produções com foco na temática da Educação Ambiental. Apesar de comportarem exercícios de investigação com amplitudes e focos distintos, os artigos apresentam convergência na proposição de desenhos teórico-metodológicos, temáticas e regionalidade das produções analisadas. O artigo A2, intitulado de “A pesquisa sobre ambientalização curricular”, retrata parte de uma pesquisa de doutorado que intenciona compreender como tem sido efetivada a ambientalização curricular nos cursos de formação de professores de Química, na Colômbia. Como parte do desenho metodológico investigaram-se os documentos publicizados, nos últimos dez anos, tais como: teses, dissertações, trabalhos de evento, livros e trabalhos de caráter geral, para identificar tendências de ambientalização do conteúdo disciplinar no contexto internacional. Por meio da análise, mediante os pressupostos da Análise de Conteúdo, emergiram sete categorias que versam sobre questões correlatas as expressões utilizadas, temáticas das pesquisas, definição de ambientalização curricular, sustentabilidade ambiental, metodologias de pesquisa e dificuldades diagnosticadas na implementação da ambientalização curricular. Do estudo, identificamos como tendências a Educação Ambiental, o Desenvolvimento Sustentável e a Química Verde. Neste estudo, emergem reflexões e problematizações muito potentes, em termos de ancoragem teórica, das produções com o foco da ambientalização curricular e das estratégias de operacionalização nas matrizes curriculares dos cursos de formação de professores de Química. Nesse ínterim, os autores argumentam: No caso dos programas de formação inicial de professores de química (fip-q), esta ambientalização está sendo promovida por meio da educação 64 O artigo A5, “El enfoque de química verde en la investigación en didáctica de las ciencias experimentales. Su abordaje en revistas iberoamericanas: 2002-2018”, apresenta os resultados de uma investigação documental, com ancoragem em princípios cienciométricos. Investigou as produções de revistas, com escopo na didática das ciências experimentais correlatas a Química Verde, publicadas no contexto iberoamericano entre 2002-2018, com atenção especial à área da Educação Química. Na análise, foram consideradas as seguintes dimensões: temáticas, metodologias, projetos de inovação e outros aspectos de interesse. Do processo de análise, percebemos maior quantia de publicações, com esse foco, nos últimos cinco anos. A classificação dos artigos ocorreu mediante dois critérios: i) tipo de contribuição (revisão ou investigação), e; ii) tendências temáticas. Dos 39 artigos selecionados, vinculados a seis revistas, nove são centradas em revisões e reflexões e 30 em investigações com diferentes ênfases. Como país de procedência dos autores, destacam-se: México (46), Brasil (24) e Espanha (15). As tendências temáticas se centraram em: i) desenhos experimentais e aplicação de protótipos em Química Verde; ii) Química Verde, Ambiente e Sociedade; iii) Química Verde na Educação Científica. Como reflexão emergente do processo de investigação destacam: Asimismo, se identificaron los aportes de las publicaciones que ayudan a formar un campo más amplio como el de la química verde, estas contribuciones se categorizaron de acuerdo al tipo de artículo presentado y a las tendencias temáticas que fueron: contexto educativo, experimental y aplicación de las relaciones CTSA. De acuerdo a estas delimitaciones se logró evidenciar diversos proyectos de innovación que favorecen los impactos ambientales que nuestro planeta enfrenta a diario; entre estos podemos encontrar síntesis de fármacos, experiencias a microescala, abordaje de los principios de la química verde y procesos sustentables. Por tanto, la química verde ofrece un espacio extenso que permite a la investigación en didáctica de la química tener un mejor desarrollo puesto que desde este campo se ha vinculado la educación como un área esencial Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização ambiental, da química verde e dos princípios da educação para o desenvolvimento sustentável, principalmente. A ambientalização do conteúdo para a sustentabilidade ambiental é um tema importante na pesquisa geral, mas para a fip-q pode-se dizer que está apenas começando. A principal dificuldade reportada é a falta de preparo nos professores (tanto universitários quanto nos demais níveis educacionais) para abordar um currículo e os conteúdos ambientalizados, assim como a falta de políticas nas instituições de educação superior (IES) para ter uma ambientalização que seja um princípio central nas IES, nos currículos e no conteúdo, e não simplesmente uma tática ou um discurso nas suas políticas (Parga-Lozano; Carvalho, 2019, p. 52). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 65 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização para el progreso de los fundamentos, aplicaciones, alternativas verdes y acciones encaminadas a minimizar los impactos negativos que se generan en el ambiente (Franco-Moreno; Carlosama, 2020, p. 102). As reflexões e problematizações tecidas nos artigos nos provocam a pensar acerca do campo da Educação Ambiental e sua correlação para com a área denominada de Química Verde. Historicamente, o debate em torno da Educação Ambiental é inaugurado antes do vinculado ao Química Verde, seu foco estava centrado nas questões correlatas ao esgotamento dos recursos naturais e das estratégias para minimização desse processo. A Química Verde emerge como demanda de um contexto inerente à Revolução Industrial que se delineou como uma pauta no intento de repensar a Química nesse cenário. No entanto, apesar de vincularem sua gênese a partir de lacunas distintas, na contemporaneidade, argumentos em torno da relevância da aproximação de ambas têm se tornado frequentes, em especial, quando consideramos a potencialidade que a Química Verde apresenta na operacionalização da Educação Ambiental nas matrizes curriculares, por meio de um estatuto epistemológico com consistência e coerente com a vertente crítica da Educação Ambiental (Pitanga, 2016). ii) Investigações centradas na incorporação da Educação Ambiental no currículo prescrito Um artigo constitui essa categoria intermediária, respectivamente o A4, intitulado de “Dimensión socioambiental en los contenidos del currículo del nivel medio superior de la Universidad Autónoma de Guerrero”. O fenômeno investigado no mesmo vincula-se a análise do currículo prescrito de nível médio superior da Universidade Autônoma de Guerreiro – UAGro, no México, em que se intenciona avaliar a inserção de questões ambientais. Da análise, foram identificadas quatro unidades com esse foco, respectivamente: Química I, II, III; Biologia I, II; Geografia e Ecologia. Dentre elas, a hierarquia, referente a maior densidade de conteúdos correlatos a Educação Ambiental, se estrutura da seguinte forma: Ecologia 62,5%, Geografia 40,62%, Biologia 12,5% e Química com 3,12%. A análise foi desenvolvida por meio dos pressupostos da Análise do Conteúdo e avaliou a aproximação das proposições dessas unidades às estabelecidas nas competências definidas nos documentos normativos. Considerando os resultados, podemos inferir que a maior densidade das questões ambientais, na unidade de Ecologia, se justifica mediante sua aproximação a perspectivas conservacionistas da Educação Ambiental. Quando desenvolvem um exercício de reflexão e problematização das informações produzidas destacam: Otro aspecto que se observó fue la carencia de un enfoque integrador que considere los aspectos sociales, económicos e históricos del estado, la 66 Por meio da investigação, identificamos a incorporação da Educação Ambiental em zonas do currículo que apresentam maior facilidade para sua inserção, tais como Ecologia, Geografia, Biologia e Química. No entanto, a aderência desse campo nas áreas supracitadas se vincula a uma corrente conservacionista da Educação Ambiental, sem considerar nuances com extrema relevância como as dimensões sociais, políticas e curriculares, como defendido na perspectiva crítica da Educação Ambiental (Loureiro, 2012). iii) Investigações concernentes à operacionalização da Educação Ambiental no currículo real Essa categoria intermediária alicerça as compreensões desenvolvidas por meio da interpretação de três artigos A1, A3 e A6. No A1, intitulado de “Sustitución de una práctica de Laboratorio con enfoque a ‘Química Verde’ como herramienta para la reducción de residuos peligrosos”, retrata uma investigação desenvolvida na Escola de Ciências Ambientais da Universidade Nacional da Costa Rica, no laboratório de Química Ambiental e Tecnologias Ambientais, acerca de práticas experimentais e possibilidade de torná-las mais articuladas aos princípios da Química Verde. As quatorze práticas desenvolvidas, nos componentes curriculares com foco na Química Analítica com aplicação ambiental, foram analisadas por meio de duas grandes variáveis: uso de energia e geração de resíduos perigosos. Dentre elas, foi identificada uma com maior risco, avaliação de amostras sólidas e retrotitulação. Alguns ajustes foram realizados e a influência desses na aprendizagem dos conceitos foi investigada. No que tange a aquisição dos conceitos centrais, definição de retrotitulação, cálculos e como trabalhar com uma amostra sólida, não se detectou prejuízo quando se considerou a alteração da prática. Nesse ínterim, por meio da adoção de experimentos que apresentam maior respeito a princípios da Química Verde, em especial, no que tange a utilização de fontes de energia, reagentes e geração de resíduos, avaliou-se que a substituição de uma prática experimental, com valoração verde de três por outra com valoração oito, não influenciou nas questões de aprendizagem e minimizou a periculosidade dos resíduos que na primeira gerava 3,3 mol e na segunda 0,2. Nas suas palavras: Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização localidad y la región y sean abordados de manera transversal. Al respecto, González (2003) considera que si únicamente se busca la conservación de la naturaleza se está dejando en segundo plano la preocupación respecto a los seres humanos. De ahí que se considere que hablar de educación ambiental implica la conformación de un proyecto educativo en donde se incorporen factores no solo físicos y ecológicos, sino también aspectos sociales, políticos y culturales (Jiménez; Elías, 2019, p. 17). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 67 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Es posible cambiar las prácticas de laboratorio logrando el mismo resultado en la población estudiantil, pero con reactivos que tengan menor toxicidad logrando com ello tanto el aprendizaje de la técnica como una gestión adecuada de residuos, ya que la evidencia demuestra que tanto en la retrovaloración de dicromato con sal de Mohr como en la de hidróxido de sodio con ácido clorhídrico se logra la misma adquisición de conocimientos (Botto; Torres, 2018, p. 119). No tocante a abordagem assumida no artigo, identificamos uma preocupação com a incorporação de práticas com maior aderência aos princípios da Química Verde, e nisto está um explícito cenário de imersão nas questões da Educação Ambiental. Entretanto, não há maiores delineamentos em torno das definições e/ou princípios da própria área da Química Verde, tornando implícito o debate em torno da Educação Ambiental. No decorrer do A3, “Educación ambiental y cambio climático en el bachillerato tecnológico de México”, apresenta-se um relato de experiência com foco na Educação Ambiental, no qual se abordam as mudanças climáticas, sua gestão, ações de minimização e adaptação, por meio das ações desenvolvidas em projetos em um curso de Química II, Bacharelado Tecnológico, no México. Cabe ressaltar que a abordagem CTSA se faz presente como intencionalidade do currículo em que o estudo foi desenvolvido. Por meio desse projeto, participaram aproximadamente 450 estudantes, entre 15 e 16 anos, distribuídos em nove grupos e acompanhados por três professores, coordenados pela autora do artigo. No decorrer das atividades, os estudantes desenvolveram projetos e abordaram temáticas como, por exemplo: horta familiar, redução do consumo de carne vermelha, atenuação da produção de resíduos sólidos oriundos de alimentos, entre outros. Como estratégias para acompanhar as ações foram utilizados diários de campo, elaborados pelos alunos, e listas de avaliação. Como resultados emergentes constatou-se, para além do desafio de incorporar práticas que intencionem trabalhar as questões supramencionadas, o desenvolvimento de maior interesse por parte dos alunos no que tange a aprendizagem dos conceitos químicos, quando articuladas às questões socioambientais. Como reflexões inerentes a relevância da temática e dos desafios do trabalho mencionam: En lo relacionado con la actividad docente, esta metodología de trabajo resultó ser um desafío pedagógico y didáctico para los profesores, a pesar de contar con formación docente en estos enfoques centrados en el desarrollo de competencias. Poner en el centro de la tarea docente lo ambiental y a partir de ello abordar los contenidos de la asignatura significó el 68 Como último artigo desta categoria intermediária temos A6 intitulado de “Contenidos micro-curriculares en educación ambiental, para promover la responsabilidad social en educación media”, o qual investigou a percepção dos alunos e professores acerca da sua formação e a Educação Ambiental, em uma região do Equador. Para tanto, foram aplicados questionários e realização de uma análise quantitativa. Participaram da pesquisa 120 estudantes, dentre eles: setenta vinculados ao primeiro ano, quarenta e três ao segundo e sete ao terceiro. No que se refere aos professores, participaram 40 docentes. Da análise, constata-se a insuficiência na formação, no que tange a questão da Educação Ambiental. Os autores advogam em defesa da incorporação dessa temática como conteúdo microcurricular em disciplinas como Química e Biologia. E inferem que apesar das reformas curriculares, a temática em foco ainda é pouco presente no desenho curricular. Da análise global das respostas ao questionário e dos documentos normativos argumentam: Se concluye que existe insuficiencia de contenido de educación ambiental y responsabilidad social con el ambiente en educación media, evidente tanto a nivel curricular formal como en la realidad empírica manifestada por estudiantes y docentes, por lo tanto, se requiere la introducción de contenidos micro-curriculares o subtemas en los textos de estudio del bloque de Ciencias Naturales y las asignaturas de Biología y Química, ya que en estas asignaturas no existe contenido micro-curricular en Educación Ambiental y esto se logra a partir de la toma de conciencia tanto de docentes, como de las instituciones educativas y las autoridades del Ministerio de Educación en cuanto al cuidado con el medio ambiente dado en base a una modificación curricular, se recomienda por lo tanto, a los docentes de estas asignaturas emprender una labor de toma de consciencia de la comunidad educativa para impulsar los cambios requeridos ante las instancias del Ministerio de Educación (Estrada; Romancela; Lara; Pinduisaca, 2021, p. 176). Apesar de apresentarem particularidades, os estudos retratados nos artigos, que constituem essa categoria intermediária, retratam as possibilidades, as limitações e as justificativas para a incorporação da Educação Ambiental nas matrizes curriculares dos distintos espaços de formação. Nesse sentido, Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização mayor desafío docente. Resultó ser una tarea difícil de desplegar por parte de uno de los tres profesores participantes, lo que desembocó en que los proyectos se relegaran a un segundo plano y que las prácticas educativas se centraran en contenidos de química haciendo a un lado el enfoque de CTSA. Dos profesores desarrollaron las tareas docentes basadas en los planteamientos formulados (Benavides, 2019, p. 10). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 69 reforçam o argumento em torno de que na formação inicial de professores essas temáticas possam se fazer presentes de maneira explícita e intencional, oportunizando, assim, a compreensão da relevância de sua adesão como tema transversal da/na Educação (Pitanga, 2016). Não basta delegar a eles a responsabilidade por incorporar mais uma temática a suas ações, a ênfase desta precisa assumir a centralidade dos processos de formação e dos documentos normativos que regem o contexto educacional. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 4 ATO – Conclusões, sempre inconclusas A hegemonia da perspectiva universal da Filosofia vem sendo problematizada, sobretudo, por aqueles que não se vinculam ao prisma europeu (Severino; Romão, 2019). Essas influências se enraizaram nos nossos modos de saber e fazer Ciência, interferindo, em especial, naqueles que sofreram/sofrem com a colonização de seus bens materiais e imateriais. Diante dessa conjectura, vale reforçar o fato de que a colonização não se restringiu a genocídios de natureza física e/ou econômica, mas apagou um conjunto de conhecimentos, o que catalisou um verdadeiro epistemicídio (Santos, 2004). Quando buscamos inspirações em figuras que não, necessariamente, representam nossa identidade e realidade cultural, desvelam-se algumas das influências dos processos de colonização de outrora. Diante desse cenário, complexo e plurifacetado, problematizar e compreender os processos e engendramentos que instituem as formas de colonização se configuram como movimentos de investigação relevantes. Mobilizados por essa intencionalidade nos desafiamos a mapear as produções publicizadas pela comunidade de Educadores Química em periódicos vinculados a América-Latina, especialmente lusófonos e hispanófonos. Por meio da análise desenvolvida, compreende-se que das produções latino-americanas mapeadas, aquelas que assumem como foco a Educação Ambiental, têm centrado seus esforços em investigar as publicações por meio de revisões da literatura, avaliação de níveis de incorporação/adoção no currículo e estratégias para sua operacionalização. Nesse cenário, desdobramentos da Educação Ambiental, na Educação Química, têm assumido tonalidades sob a forma de Química Verde, Ambientalização curricular e desenvolvimento sustentável, por exemplo. Para além do exposto, foi identificada maior presença de autores de origem colombiana, seguidos por costa-riquenhos, mexicanos e equatorianos. No que se refere à articulação entre os pesquisadores, em termos de citações, percebe-se baixa adesão de autores brasileiros, na ampla maioria dos artigos, exceto em um dos artigos, no qual um dos autores tem nacionalidade brasileira. Nesse ínterim, reforça-se o argumento em prol de maior articulação da comunidade latino-americana de Educadores Químicos, na intencionalidade de que nossas identidades possam ser valorizadas e contempladas. 70 REFERÊNCIAS AULER, D. “Interações entre Ciência-Tecnologia-Sociedade no contexto da formação de professores de Ciências”. 2002. 98f. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina para obtenção do grau de Doutor em Educação. Florianopólis, SC, 2002. BOTTO, A. V.; TORRES, L. D. S. Sustitución de una práctica de Laboratorio con enfoque a “Química Verde” como herramienta para la reducción de residuos peligrosos. Educación química, v. 29, n. 1, p. 110-120, 2018. BURKE, K. A grammar of motives. A grammar of motives Berkeley: University California Press, 1969. CALIXTO, V. S.; GALIAZZI, M. C.; KIOURANIS, N. M. 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Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização CURRÍCULO E FORMAÇÃO DE PROFESSORES: um olhar decolonial1 Aline Pires Barbosa Jeíza Sousa Teles Márcio Reis Barros Ana Laura Salcedo de Medeiros Andrei Steveen Moreno-Rodríguez Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Introdução Na América Latina, historicamente, foi reproduzida a ideia de que o conhecimento científico fundamentado na perspectiva europeia é superior e universal. Devido ao eurocentrismo, os conhecimentos e práticas intelectuais indígenas e africanas foram inferiorizados e considerados irrelevantes (Walsh, 2007). Como consequência desses processos históricos, políticos, econômicos e sociais, a educação foi marcada por uma concepção eurocêntrica, ou seja, por uma perspectiva hegemônica de pensamento. Nesse contexto, os processos educativos passaram a integrar um sistema estruturado por heranças coloniais. Isso significa que tanto a formação quanto a prática docente foram e continuam sendo influenciadas pelo que entendemos como Colonialidade – manutenção de poder associadas a questões ideológicas (Quijano, 2005). Para Quijano (2005), as relações de poder, ou seja, o acúmulo de capital que resulta do domínio das esferas/estruturas de raça e de trabalho, tem sido usado para inferiorizar conhecimentos não europeus. Essas práticas de marginalização racial persistiram como uma maneira de manter a dominação econômica e científica, desvalorizando os saberes e as contribuições de outros grupos culturais e étnicos. Considerando que o campo científico da AL foi construído com base na colonização europeia deste território, é essencial que as concepções das práticas educacionais sejam repensadas e desenvolvidas dentro do contexto latino-americano. Nesse sentido, torna-se importante questionar, refletir, debater e agir em relação a essas estruturas de dominação, abordando-as a partir de uma perspectiva decolonial no processo formativo de professores. 1 Este trabalho foi apresentado no XV EDUQUI – Encontro de Educação Química da Bahia, realizado na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Centro de Formação de Professores (CFP), em Amargosa, Bahia, Brasil, no ano de 2023, e foi posteriormente revisado, adaptado e aprimorado para publicação neste livro. Essa abordagem discute como as relações desiguais de poder, que resultam na subjugação e exclusão de grupos diversos, desconsideram como determinados sujeitos são capazes de contribuir para o conhecimento. A decolonialidade busca demonstrar como a ideologia predominante e as dinâmicas de poder são moldadas pelo pensamento hegemônico, e até que ponto a superação dessas práticas pode ser alcançada através do pensamento decolonial (Lander, 2005). Assim, a abordagem decolonial pode ser concebida a partir da perspectiva da Formação de Professores e a importância de sua relação com os conhecimentos sociais. Cano-Quintero e Javier-Ordoñez (2021) discutem esse processo no contexto latino-americano, identificando problemáticas como o distanciamento entre teoria e prática e o ensino repetitivo/reproducionista, baseado na memorização. Considerando o contexto formativo de educadores, Jimenez-Pérez (2003) destaca que esse processo tem sido desenvolvido sob uma perspectiva “ocidentalizada”. Para o autor, a formação de professores tem sido influenciada pelo domínio de perspectivas europeias e pela subalternização de conhecimentos outros. Como consequência desse processo (Ciência positivista), formam-se educadores que desconhecem (ou não buscam se atentar a) questões fundamentais do contexto latino-americano. Diante disso, este estudo analisa produções científicas sobre a Formação de Professores de Química na América Latina, a fim de compreender as discussões apresentadas nessas publicações. Marco teórico Considerando o contexto social em que vivemos na América Latina, vivenciamos e compreendemos as problemáticas relacionadas aos processos educativos, que ainda apresentam traços coloniais devido aos processos de colonialidade em vigor (Quijano, 2005). Nesse sentido, entendemos que ao estabelecer relações entre os problemas locais e a busca por novas formas enfrentá-los significa formalizar um pensamento crítico, questionamentos e ações diante da nossa realidade. Partindo dessa crítica às estruturas coloniais, apoiamo-nos nos pressupostos da decolonialidade, um processo de luta contínua e construção alternativa (Walsh, 2013). O pensamento decolonial é desenvolvido a partir do movimento Modernidad/Colonialidad (M/C) e expandido por diversos autores e autoras, como Aníbal Quijano, Enrique Dussel, Grosfoguel, Maldonado-Torres, María Lugones, entre outros, que continuamente desenvolveram e desenvolvem estudos relacionados com processos históricos, políticos, econômicos e, claro, educacionais. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 74 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 75 Emergido dos estudos nas áreas das Ciências Humanas e Sociais, ao longo dos anos, o pensamento decolonial possibilitou novas perspectivas e fomentou a produção de estudos no campo do Ensino de Ciências. Autoras como Pinheiro (2019; 2023) e Suzani Cassiani (Cassiani, Escovedo e Ostermann, 2022) discutem a relação entre a Decolonialidade e o Ensino de Química, abordando temas como questões étnico-raciais, conhecimentos ancestrais, saberes populares, construção do conhecimento, entre outros. Ainda nesse mesmo contexto, publicações recentes (Carvalho; Monteiro; Costa, 2019; Pinheiro, 2019; Nogueira et al., 2021; Silva; Pinheiro, 2018) têm abordado discussões sobre a decolonialidade e como a mesma tem sido discutida no campo da Educação. Os trabalhos de Nogueira et al. (2021) e Silva e Pinheiro (2018) abordam reflexões acerca de conhecimentos científicos produzidos por povos indígenas e africanos e como podem ser integrados ao Ensino de Ciências sob a perspectiva da Decolonialidade do Saber. Já as investigações de Carvalho, Monteiro e Costa (2019) e a de Pinheiro (2019) apresentam, respectivamente, discussões voltadas para o currículo no Ensino de Química e suas relações com a Lei nº 10.639/03 (garante a obrigatoriedade da abordagem da cultura afro-brasileira na Educação Básica), assim como sobre a inserção das questões étnico-raciais como eixos norteadores para a Educação em Ciências. Apesar dos diversos avanços, Camargo e Benite (2019) observam que temas relacionados às questões étnico-raciais ainda ocupam um espaço de figuração nos cursos de formação de professores de Química, sendo pouco debatidos devido à percepção da Química como uma Ciência positivista e cartesiana. Essa abordagem, característica da Química Ocidental, tem influenciado significativamente o campo da Licenciatura em Química, incluindo o processo formativo docente. Diante disso, compreendemos que a formação de professores na América Latina, mesmo com os avanços mencionados nos parágrafos anteriores, ainda apresenta as marcas da colonização, refletidas na concepção de Ciência que considera o padrão eurocêntrico como modelo de excelência. Portanto, é importante entender a influência das práticas coloniais dentro do sistema educacional para desconstruir ações que perpetuam o colonialismo. Um aspecto fundamental que influencia a Formação de Professores de Química é a configuração curricular dos cursos de licenciatura. É necessário que os currículos para a formação de professores demonstrem o compromisso de formar profissionais que não apenas compreendam os conceitos científicos, mas também saibam utilizar os recursos didáticos e pedagógicos para promover uma aprendizagem que considere o contexto cultural e ofereça experiências alternativas a partir de uma perspectiva decolonial. 76 Para decolonizar a formação de professores, é necessário estabelecer uma abordagem que colabore na construção de uma visão crítica, desconstruindo e reconstruindo ideias e pensamentos, na busca de uma educação libertadora, a qual: Nesse sentido, a formação do professor pode permitir o desenvolvimento de um olhar crítico para compreender como as relações de poder foram estabelecidas e de que maneira influenciam na construção do conhecimento científico. Isso é essencial para questionar e resistir aos padrões coloniais, buscando uma educação que valorize a interação multicultural para a reflexão sobre o próprio contexto rompendo, assim, com a ideia de monoculturalidade, que impõe o modelo eurocêntrico como uma ciência universal. Pensar na decolonialidade no processo formativo docente de Química na América Latina envolve também um processo de reflexão acerca dos currículos, dando maior visibilidade aos conhecimentos que podem ser relacionados aos conteúdos de Química por meio de um currículo flexível, em relação aos tradicionais. Procedimentos metodológicos O presente trabalho foi fundamentado nos princípios da abordagem qualitativa, conforme delineados por Bogdan e Biklen (1994). Essa abordagem considera que a exploração do mundo a partir de uma perspectiva subjetiva tem o potencial de contribuir para o desenvolvimento de novas compreensões. Portanto, viabiliza uma análise minuciosa e criteriosa de informações discursivas e textuais, ampliando a compreensão dos fenômenos em estudo (Moraes; Galiazzi, 2016). Além disso, este estudo é de caráter descritivo, cujo objetivo é detalhar o fenômeno, tornando-o mais compreensível a partir do mapeamento e a indagação (Gerhardt; Silveira, 2009). As unidades de significados são representadas por um código como este: FP.23.01, em que as letras representam as iniciais do nome do eixo temático, seguidas pelo número do resumo e pelo número da unidade de significado. No Quadro 1, observam-se os códigos e os títulos dos 18 artigos que compõem o eixo analisado neste trabalho, além dos países de origem. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização [...] envolve a formação do educando em um ser crítico, que pensante, agente e interveniente no mundo, sente-se capaz de transformá-lo. Para isto, precisa ter conhecimento do mundo e analisá-lo criticamente. Configura-se como o crescimento da consciência crítica; é poder de domínio na construção de uma sociedade mais igualitária, onde as pessoas realizem plenamente seu potencial humano (Vasconcelos; Brito, 2009, p. 88). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 77 Quadro 1 – Títulos dos trabalhos encontrados no eixo formação de professores Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Código Título País F.P.23 La epistemología en la formación de los profesores en el área de ciencias naturales en Argentina la provincia de Santa Fe desde la recuperación de la democracia F.P.24 Formar profesores de Química en épocas de Aislamiento Social Preventivo Obligatorio: Argentina una experiencia del desarrollo de la residencia F.P.32 Um estudo sobre licenciaturas em Ciências da Natureza no Brasil Brasil F.P.38 Análise das contribuições da disciplina de Didática Geral para a formação de professores de Química Brasil F.P.46 Realismo científico versus constructivismo en la formación inicial de profesores de Química Chile F.P.64 50 años de institucionalización de la licenciatura en Química en Colombia: hacia un estudio histórico necesario en la UPN Colômbia F.P.71 Competencia argumentativa: un factor clave en la formación de docentes Colômbia F.P.74 La caracterización de concepciones de ciencia desde la perspectiva de diversidad cultural en programas de formación inicial de profesores de ciencias naturales en Colombia Colômbia F.P.111 Despertar de las vocaciones científicas, desafíos y oportunidades Paraguai F.P.148 Caracterización del enfoque de enseñanza en docentes que orientan la asignatura de química en el municipio de Soacha Colômbia F.P.170 La argumentación en la formación de profesores de Química: relaciones con la comprensión de la historia de la Química Colômbia F.P.206 O processo de reflexão orientada na formação inicial de um licenciando de Química visando o ensino por investigação e a promoção de alfabetização científica Brasil F.P.208 Enseñar Química en contexto: un recorrido por los proyectos de química en contexto desde la década de los 80 hasta la actualidad México F.P.50 Reflexiones de la Enseñanza de la Química en experiencias educativas compartidas entre docentes Chile F.P.51 El desempeño de los profesores noveles de ciencias: Las competencias profesionales que desarrollan durante los primeros años de ejercicio profesional Chile F.P.56 Desafíos del profesor de ciencias frente a estudiantes Millennials y Post-Millennials Chile F.P.77 El trabajo práctico de laboratorio en la enseñanza de las ciencias naturales: una experiencia con docentes en formación inicial Colômbia F.P.131 Conocimiento didáctico del contenido en Química Orgánica: estudio de caso de un profesor universitario Colômbia Fonte: Elaborado pelos autores, 2024. Os resumos destes artigos foram, então, analisados por meio de Análise Textual Discursiva (Moraes; Galiazzi, 2016) a fim de estabelecer as unidades de significado e captar os significados intrínsecos de cada trabalho. Após essa 78 etapa, foi realizado o processo de categorização, no qual se buscou agrupar as unidades de significado de acordo com a similaridade de sentidos, resultando em cinco categorias iniciais. Para cada uma delas, foi escrito um parágrafo interpretativo que contemplava as ideias presentes. Em um segundo momento de categorização, as categorias iniciais foram analisadas segundo a similaridade e reagrupadas em duas categorias finais, conforme mostra no Quadro 2. Quadro 2 – Reagrupamento das categorias Perspectiva decolonial na Formação de Professores Metodologia de Ensino Categorias Intermediárias Perspectiva decolonial na Formação de Professores Aspectos epistemológicos Categoria Final Perspectiva decolonial e currículo na formação de professores de Química: ressignificando saberes e práticas pedagógicas Formação e Concepções docentes O currículo e a formação de professores O currículo e as dimensões do processo de formação docente Fonte: Elaborado pelos autores, 2024. Perspectiva decolonial e currículo na formação de professores de Química: ressignificando saberes e práticas pedagógicas Considerando o histórico de colonização na América Latina, é essencial refletir sobre estratégias para superar e desconstruir o padrão colonial da Ciência, promovendo a reconstrução de uma identidade própria. Nesse contexto, o processo de construção do conhecimento científico deve ser visto como um elemento crucial para fomentar discussões que influenciam o desenvolvimento do saber, em diálogo com as especificidades históricas e culturais da sociedade. Tais aspectos podem ser integrados aos programas de formação docente, contribuindo para tornar processos educacionais mais humanizados, como evidencia a unidade de significado (FP.74.01): [...] As concepções de ciências desde uma perspectiva de diversidade cultural em programas de formação inicial de professores de ciências naturais na Colômbia. No entanto, apesar do crescente espaço das discussões sobre Colonialidade e Decolonialidade, ainda é incomum encontrar esse tipo de abordagem explicitamente no Ensino de Química, uma vez que a Colonialidade do Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Categorias Iniciais EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 79 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Poder, conforme Quijano (2005), ainda permeia as estruturas sociais. Por essa razão, os trabalhos agrupados nesta categoria não apresentam uma perspectiva decolonial de forma explícita, mas indicam a presença de características que podem ser vistas como um ponto de partida para uma perspectiva decolonial. Nesse contexto, deve-se refletir sobre os currículos que adotam uma visão eurocêntrica na formação de professores, com o objetivo de discutir diferentes perspectivas e contribuir para a construção da identidade profissional docente. O foco não deve ser apenas ensinar sobre os traços da colonização presentes no sistema educacional, mas também promover diálogos que valorizem os conhecimentos das diversas comunidades que compõem a América Latina, como sinaliza a unidade de significado FP.23.01. [...] as relações entre a formação docente e a incorporação de aspectos epistemológicos nos cursos de formação docente. Tal perspectiva trata da inserção de saberes outros no Ensino de Química, ou seja, da reflexão acerca de novas formas de compreender a realidade em que vivemos. Nesse sentido, pode-se dizer que a limitação referente a um processo formativo baseado na Ciência positivista e eurocentrada não contribui para a compreensão, indagações e a prática docente, visto que os educadores devem considerar também os aspectos que fazem parte da construção social dos estudantes. Assim, torna-se necessário desenvolver um pensamento crítico que contraponha visões simplistas e conteudistas do ensino e da aprendizagem de Química. Seguindo esse caminho, é importante considerar o documento curricular como uma potencialidade, ou seja, uma forma de trazer contribuições significativas para a sociedade. Nesse sentido, sua construção está vinculada às estruturas políticas e sociais que orientam e delimitam o conhecimento trabalhado nas escolas, definindo o que e como deve ser ensinado, além dos objetivos por trás do ensino dos conceitos. A abordagem dos docentes em relação ao currículo e à formação de professores levanta discussões relevantes, como a necessidade de trabalhar os desafios para uma formação crítica, que discuta como são selecionados os conteúdos e quem está por trás da escolha desses conteúdos (Ferreira; Silva, 2013). Isso requer uma revisão dos documentos curriculares, de modo que sejam flexíveis e adaptáveis às diferentes realidades e contextos educacionais, conforme proposto pela unidade de significado (FP.50.03): Como a reflexão em comunidade nos ajuda a melhorar e fortalecer nossas práticas pedagógicas? Pensando que a reflexão e a mudança são inseparáveis, que a comunidade é uma oportunidade aberta para melhorar a 80 prática profissional docente e que refletir nos dá a oportunidade de analisar nossas aulas e buscar novas estratégias para implementar em nossos próprios contextos. A superação das inquietações e angústias produzidas nas nações colonizadas não serão possíveis, senão, a partir da reformulação dos conceitos e conteúdos presentes no currículo. Isto não significa a total abolição dos currículos ou conhecimentos científicos. O que aqui se pretende reformular é a forma que estes são elencados, e a que narrativas se dão prioridade (Carvalho; Monteiro; Costa, 2019 p. 55). O profissional deve possuir um conhecimento amplo o suficiente para que, em condições adequadas, possa trabalhar os conceitos científicos de maneira contextualizada, considerando as diferentes formas de conhecimento e sua implementação no currículo escolar. Dessa maneira, é importante que os tópicos curriculares incluam tanto os aspectos teóricos quanto práticos da formação docente, garantindo que os futuros profissionais da educação possam atuar de modo significativo em seus ambientes de trabalho. Considerações finais O mapeamento realizado permitiu observar que a decolonialidade tem ganhado maior visibilidade nas discussões acadêmicas. No entanto, a identidade acadêmico-científica na América Latina ainda está fortemente vinculada ao modelo europeu de produção de conhecimento. Isso é evidente no campo da pesquisa em Ensino de Química na região, onde são poucas as pesquisas que adotam explicitamente uma perspectiva decolonial. A pesquisa identificou duas categorias finais que relacionam a decolonialidade com o processo de Formação de Professores e refletem sobre as dimensões curriculares a partir de uma perspectiva decolonial. Com este trabalho, espera-se divulgar os primeiros resultados do mapeamento, visando futuramente apontar as características das produções analisadas e traçar o perfil da área de Educação Química na região. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Nesse sentido, entende-se que o currículo da Licenciatura de Química deve contemplar não apenas os conhecimentos específicos da área, mas também os fatores intrínsecos. Assim, é importante considerar que: EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 81 REFERÊNCIAS BOGDAN, R. C.; BIKLEN, S. K. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Portugal: Porto Editora, 1994. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização CARVALHO, I. V; MONTEIRO, B. A. P; COSTA, F. A. G. A Lei 10.639/03 no Ensino de Ciências: uma proposta decolonial para o currículo de Química. Revista Exitus, v. 9, n. 5, p. 47-76, 2019. DOI: https://doi. org/10.24065/2237-9460.2019v9n5ID1100. CAMARGO, M. J. R; BENITE, A. M. C. Educação para as relações étnico-raciais na formação de professores de química: sobre a lei n. 10.639/2003 no ensino superior. Química Nova, v. 42, p. 691-701, 2019. CANO-QUINTERO, M. C; JAVIER-ORDOÑEZ, E. Formación del profesorado del latinoamerica. Revista del Ciencias Sociales, v. 27, n. 2, p. 284-295, 2021. Disponível em: https://produccioncientificaluz.org/index.php/rcs/article/ view/35915. Acesso em: 20 dez. 2024 CASSIANI, Suzani; SELLES, Sandra Lucia Escovedo; OSTERMANN, Fernanda. Negacionismo científico e crítica à Ciência: interrogações decoloniais. Ciência & Educação (Bauru), v. 28, p. e22000, 2022. GERHARDT, T. E.; SILVEIRA, D. T. (org.); Métodos de pesquisa. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2009. JIMÉNEZ-PÉREZ, C. 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Esse fenômeno tem provocado o ofuscamento de identidades culturais nativas na medida em que substitui os costumes locais por uma cultura hegemônica. Nesse sentido, Quijano aponta que as ações colonizadoras: Reprimiram tanto como puderam, ou seja, em variáveis medidas de acordo com os casos, as formas de produção de conhecimento dos colonizados, seus padrões de produção de sentidos, seu universo simbólico, seus padrões de expressão e de objetivação da subjetividade (Quijano, 2005, p. 121). Assim, o autor destaca a repressão sistemática das práticas culturais e formas de conhecimento dos povos colonizados. Através de diferentes níveis de controle, os colonizadores buscaram suprimir e deslegitimar os modos de saber e de ser dos povos, interferindo diretamente na expressão dos seus conhecimentos. Essa repressão visava desconstruir os padrões de significado, símbolos e formas de subjetivação próprios dos colonizados, impondo, em seu lugar, os valores e as normas culturais da colonização. No campo científico e tecnológico, também estão presentes os reflexos dos impactos causados pelo enraizamento do pensamento eurocêntrico e, portanto, há uma influência direta na maneira com que a ciência é produzida e disseminada na AL. Desse modo, na pesquisa em Educação em Ciências e, especialmente em Educação Química, é possível perceber pouco reconhecimento dos trabalhos 1 Este estudo foi apresentado no XV Encontro de Educação Química da Bahia – Eduqui –, realizado na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB, Centro de Formação de Professores – CFP, em Amargosa, Bahia, Brasil, no ano de 2023, e foi posteriormente revisado, adaptado e aprimorado para publicação neste livro. científicos produzidos pelos pesquisadores da região. Em razão disso, é fundamental adotar uma perspectiva decolonial para romper este modelo espelhado nos padrões europeus e buscar reaver pilares identitários desta parte do continente. De acordo com Pinheiro e Rosa (2018, p. 222), “pensar a decolonização de saberes é um processo contínuo de recontar, rever e (des)(re)construir uma história de apagamentos, silenciamentos e subalternizações”. Ou seja, é preciso admitir a decolonização como um conceito que busca promover uma reflexão acerca das estruturas sociais que se estabeleceram na América Latina, a partir da ação colonizadora. A área de pesquisa em Educação Química, na AL, conta com uma produção de publicações considerável. Em vista disso, estruturou-se um projeto de pesquisa que visa mapear e analisar as produções científicas de pesquisadores em Educação Química, produzidas na AL, estabelecendo, desse modo, as características dessas produções e traçando o perfil da área de Educação Química na região. Nesse sentido, o objetivo deste estudo é apresentar os resultados de um “recorte” do projeto Mapequim/AL, o qual considera um eixo temático intitulado “Perspectivas dos docentes quanto à Educação Química”. Compreende-se que a perspectiva dos docentes é a maneira como os professores de Química analisam e compreendem as esferas educacionais. Assim, busca-se apresentar, com base em análises dos resumos de trabalhos científicos, estratégias e recursos que a comunidade de pesquisadores latino-americanos da Educação Química assume como relevante para este campo da Ciência. Metodologia Este trabalho se configura como um estudo qualitativo que, de acordo com Gerhardt e Silveira (2009), trabalha com aspectos não quantificáveis da realidade e busca entender e explicar a dinâmica social. Para a construção do presente estudo, foram analisados os resumos dos artigos referentes ao eixo de Perspectivas docentes, à luz da Análise Textual Discursiva (ATD), proposta por Moraes e Galiazzi (2016). Trata-se de uma metodologia que permite compreender os sentidos e os significados intrínsecos nos textos. Para realizar a ATD, de acordo com os autores, é necessário seguir algumas etapas que podem proporcionar aos pesquisadores uma melhor interpretação dos fenômenos presentes nos textos. Assume-se como corpus todo o conjunto de textos a serem analisados. Desse corpus, foram retiradas unidades de significado que expressavam ideias relevantes para a pesquisa. Posteriormente, foi realizada a categorização, buscando examinar as aproximações de sentido entre todas as unidades de significado. Esse processo foi realizado em três fases, obtendo categorias iniciais, intermediárias e finais. O terceiro momento consistiu na construção do Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 84 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 85 metatexto, produção textual na qual buscou relacionar e discutir com clareza os aspectos da pesquisa que se mostram nos textos. Para fins de organização e identificação, as unidades de significado foram codificadas, conforme a Figura 1. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Figura 1 – Demonstração da codificação Fonte: Elaborada pelos autores, 2023. Resultados e discussão O eixo temático intitulado “Perspectivas docentes quanto ao Ensino de Química” possui um total de 11 trabalhos relacionados. Dessa forma, os títulos dos trabalhos considerados para compor o conjunto do eixo deste estudo podem ser observados no Quadro 1. Quadro 1 – Trabalhos de perspectivas docentes quanto à Educação Química Títulos dos trabalhos Código País Análisis del discurso de un profesor universitario de química en el curso de ingreso PD.7 Argentina Os percursos de transformação da ação mediada por recursos educacionais: o ponto de vista de uma professora de Química PD.33 Brasil A percepção da Matemática em livros didáticos de Química PD.36 Brasil As concepções de professores colombianos sobre o currículo de Química nas escolas de educação média de Bogotá PD.37 Brasil Concepções dos professores de Química sobre o livro didático e a abordagem CTS PD.41 Brasil Enfoques de enseñanza y enfoques de aprendizaje: perspectivas teóricas promisorias para el desarrollo de investigaciones en educación en ciencias PD.68 Colômbia Estrategia Didáctica sobre la Enseñanza Contextualizada de la Isomería: un cambio PD.75 de perspectiva docentes de Química Colômbia Cuanto más aprendo de cómo se debe enseñar, peor maestra me siento PD.86 México continua... 86 continuação Las creencias de profesores de Química de bachillerato sobre la enseñanza PD.147 México Percepción del profesorado de Química de la transición al modelo de enseñanza en PD.163 línea, durante la emergencia mundial debida al covid-19 en 2020-2021 Costa Rica Concepciones de docentes de Química sobre formación por competencias científicas en educación secundaria PD.211 Colômbia As trilhas ecológicas para o ensino de Ciências na Educação Básica: olhares da perspectiva docente PD.34 Brasil Como pode ser observado nos títulos, os trabalhos que compõem o eixo abordam percepções, concepções, crenças e visões dos docentes em relação a um determinado aspecto educacional, ou seja, evidenciam perspectivas relacionadas à Educação ou Ensino de Química que estão presentes na visão dos professores. Desse modo, para melhor compreensão de tais características foi feita uma Análise Textual Discursiva dos resumos de cada trabalho. Dessa forma, seguindo a ATD, com a etapa da unitarização foi possível analisar fragmentos dos textos que auxiliaram na compreensão dos fenômenos que se mostravam nos corpus. Com isso, essas unidades foram organizadas em três categorias iniciais emergentes que, após um segundo processo de categorização, foram reagrupadas, resultando em uma categoria final (Quadro 2). Quadro 2 – Processo de categorização Categorias Iniciais Categorias Intermediárias Categoria Final Estratégias e recursos para o Ensino Construção de concepções docentes de Química Dimensões do processo de sobre o ensino de Química a construção das concepções partir de estratégias e recursos Concepções docentes sobre o docentes da Educação Química pedagógicos ensino de Química diante de perspectivas (De)coloniais Perspectiva (De)colonial Perspectiva (De)colonial Fonte: Dados da pesquisa, 2022. Assim sendo, é possível refletir acerca de alguns dos focos de pesquisas abordados pelos professores pesquisadores da Educação Química, como, por exemplo, as discussões em relação a recursos educacionais que podem auxiliar o desenvolvimento da prática pedagógica, assunto que será contemplado na categoria final, a seguir. Processo de construção das concepções docentes no ensino de química a partir de estratégias e recursos pedagógicos: perspectivas para uma abordagem decolonial Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Fonte: Dados da pesquisa, 2022. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 87 De acordo com Pereira (2010, p. 321), a palavra “estratégia” é a “arte de aplicar os meios disponíveis ou explorar condições favoráveis com vista a objetivos específicos”. Nesse sentido, quando nos referimos a esse termo em relação ao ensino, infere-se que o mesmo indique uma forma de organização e planejamento utilizada pelos professores como forma de promover a aprendizagem dos conceitos científicos, podendo seguir diferentes caminhos. Nesse sentido, de acordo com Anastasiou e Alves (2015, p. 21), a estratégia no cenário educacional se configura como “uma ferramenta de trabalho definida pelo docente e/ou pelo contrato didático estabelecido no início do ano ou semestre”. Ou seja, é um meio de organização que auxilia o professor na mediação dos conteúdos com base em sua intencionalidade pedagógica. Assim, a utilização de recursos pedagógicos para o Ensino de Química proporciona a construção de inúmeras estratégias. Em vista disso, considera-se que o uso de mais instrumentos didáticos pode viabilizar o ensino e a aprendizagem de forma mais efetiva em sala de aula, logo eles se tornam possibilidades para compor, principalmente, a prática docente em Química. Isso se deve ao fato de que os conceitos ligados a esta disciplina, por possuírem um grau considerável de abstração, requerem um planejamento metodológico que permita a compreensão conceitual, além de captar a atenção e interesse dos estudantes. Nesse viés, para Neto, Almeida e Feitosa (2018, p. 129), devido ao caráter empírico da Ciência, os conteúdos químicos aplicados sem o cuidado de provocar a imaginação dos estudantes através de metodologias adequadas, resulta na resistência estudantil para compreender os conceitos abstratos. Com isso, vale considerar os instrumentos que podem ser utilizados como facilitadores da mediação didática. Assim, algumas unidades de significado que compõem esta categoria apontam: Recomenda-se notar a oportunidade de melhoria futura representada pela implementação de tecnologias novedosas na educação e na mudança tecnológica para o ensino, a qual tem se iniciado graças a estas (PD.163.4, Tradução nossa). Por meio de uma análise qualitativa e de cunho interpretativo dos signos produzidos por quatro grupos de professores com relação à presença da Matemática no conteúdo Propriedades Coligativas nos livros, evidenciamos que estes percebem possibilidades para abordagens interdisciplinares entre Matemática e Química (PD.36.2). As trilhas ecológicas materializam espaços educativos potenciais ao processo de ensino-aprendizagem. Assim, este estudo teve por objetivo investigar as contribuições didático-pedagógicas das trilhas ecológicas por meio da compreensão de 22 professores de Ciências, Biologia, Física e Química da educação básica (PD.34.1). Ou seja, esses fragmentos apresentam alguns recursos que vêm sendo utilizados como composição de uma estratégia de ensino como as tecnologias digitais, espaços não formais de ensino e o livro didático. O primeiro se deve ao fato de que o uso de instrumentos tecnológicos – como simuladores moleculares e de práticas de laboratório – possibilitam uma melhor compreensão de conceitos abstratos presentes na Química, tornando a disciplina mais “visualizável”. Uma das unidades de significado traz o uso de espaços não formais como meio de promoção do ensino e aprendizagem de Química e também outras áreas do conhecimento, possibilitando, dessa forma, um modelo de ensino interdisciplinar. A abordagem de uma estratégia como esta altera consideravelmente o cenário tradicional em que uma aula é ministrada. Essa modificação, por sua vez, é capaz de instigar a interação do estudante com o objeto de estudo. Além de proporcionar a contextualização dos conteúdos se o docente contemplar, em sua intencionalidade pedagógica, reflexões críticas em relação ao assunto estudado. É importante que o docente tenha clareza sobre sua intencionalidade pedagógica para que utilize os recursos que possibilitem a construção adequada dos conhecimentos. Em suma, pode-se observar que há uma ênfase na importância do uso dos recursos e instrumentos para a compor as estratégias. Entretanto, é preciso identificar quais são as bases metodológicas que os professores comumente utilizam para fundamentar seus métodos e estratégias e em que paradigma essas estão sendo planejadas. Isso pode permitir compreender se estão sendo estabelecidas relações entre a produção dos conhecimentos e a perspectiva decolonial, ou, pelo contrário, se as estratégias continuam emolduradas em padrões positivistas da Ciência ocidental (Quijano, 2005; Pinheiro; Rosa, 2018). Nesse sentido, ao observarmos os referenciais teóricos abordados em alguns trabalhos, percebe-se que muitos se apoiam em autores não latino-americanos. Isso reforça a ideia proposta por Severino e Tavares (2020), autores que destacam que até hoje o pensamento eurocêntrico persiste, sendo disseminado nas universidades latino-americanas. Esta prática acontece com tanta frequência que contribui para a perpetuação do estigma de que os conhecimentos desenvolvidos em outras regiões possuem mais relevância do que as produções científicas construídas na própria América Latina. Por isso, torna-se válida uma abordagem de ensino pautada na história já que possibilita, por exemplo, a superação de obstáculos epistemológicos. Alguns fragmentos que explicitam tal abordagem são apresentados a seguir: O desenvolvimento teórico dos enfoques de ensino e aprendizagem surgiram dos trabalhos pioneiros de Marton e Säaljö em Gotemburgo, Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 88 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 89 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Entwistle, Hounsell e Ramsden em Edimburgo e Biggs e Trigwell na Austrália (PD.68.1, tradução nossa). O objetivo do presente artigo evidencia o desenvolvimento da estratégia didática planejada para o ensino [...] por meio de um enfoque histórico-epistêmico (PD.75.2, tradução nossa). De acordo com Pinheiro e Rosa (2018), pensamentos decoloniais visam ressaltar o processo de construção de um dado conhecimento produzido em sociedades cujas heranças culturais tenham sido desvalorizadas por outra cultura considerada como superior. Desse modo, considerar a epistemologia das ciências como uma maneira de estudar e de compreender a essência dos conhecimentos produzidos pelo ser humano é fundamental. Assim, a compreensão epistemológica possibilita levar em consideração a origem dos conhecimentos, contornando o contexto em que está inserido o processo do desenvolvimento científico. Neste prisma, A reflexão sobre a argumentação dos processos do conhecimento científico, argumentação essa que se desenvolve sobre um pano de fundo em que se entrelaçam diferentes concepções de ciência e outras posições de natureza ética, estética, filosófica, religiosa, política, ideológica etc (Saito, 2013, p. 185). Assim, a relevância de impulsionar um ensino pautado na construção de um saber científico decolonizado se torna evidente à medida em que se busca compreender a história e epistemologia das ciências. Isso ocorre, principalmente, quando se dá protagonismo a uma abordagem histórica holística, já que, dessa forma, proporciona uma melhor compreensão dos fatos, gerando uma interpretação mais adequada sobre a construção de determinados conhecimentos. Nesse processo, também são compreendidas as influências sociopolíticas e que provocam a consolidação de um dado saber. Entendemos que ao contemplar a história do Ensino de Química de modo contextualizado com o meio social em que se desenvolveu e se disseminaram os conceitos científicos, é possível notar o estabelecimento da visão colonial se sobrepondo aos saberes produzidos numa sociedade subalternizada. A detecção dessas estruturas é, portanto, o primeiro passo para assimilar a necessidade de promover a decolonialidade do saber. Isso sugere que a decolonialidade do saber surge como uma tentativa de libertar e valorizar os modos de conhecimento marginalizados, permitindo uma educação que busque superar a padronização do pensamento eurocêntrico. Assim, foi possível observar nos trabalhos analisados a presença de elementos que indicam, mesmo que de forma implícita, um pensamento 90 A história e a epistemologia das ciências contextualizam e humanizam a Ciência, diversificando o processo de ensino e aprendizagem, mas a sua pouca utilização em sala de aula aponta para a necessidade de gerar espaços reflexivos onde os professores transformem o seu trabalho através destas metaciências (PD.75.1, tradução nossa). Assim, admite-se que existem discussões sobre história e epistemologias ligadas à Educação Química e às influências que elas exercem em um contexto educacional, principalmente quando se trata da formulação de estratégias pedagógicas. Entretanto, é válido levar em consideração a abordagem histórica a qual está sendo contada, uma vez que, comumente, nos espaços educacionais se mostram os aspectos históricos voltados para a visão do colonizador. Assim, a decolonialidade tende a se desprender do ponto de vista hegemônico da história para compreender as diferentes formas de construção do conhecimento, recuperando a visão histórica dos povos subalternizados e suas contribuições sociocientíficas. Uma vez que a decolonialidade busca reconhecer e validar os conhecimentos conectados a uma identidade cultural, é válido considerar que uma abordagem como a da unidade de significado PD.75.1 pode ser potencialmente decolonial, já que que se preocupa com a humanização da ciência com base na sua história e, portanto, em sua contextualização sócio-histórica e regional. Dessa forma, trazer recursos tanto tradicionais, como o livro didático, quanto inovadores, como as tecnologias digitais, a fim de promover o ensino e aprendizagem de Química pode enriquecer a prática docente. Entretanto, utilizar diferentes recursos não expressa, necessariamente, uma mudança na concepção dos professores em relação à abordagem dos conceitos científicos, a qual ainda reflete uma visão colonial do saber. Conforme apontam Wartha, Silva e Bejarano (2013, p. 86), “conhecer o contexto significa ter melhores condições de se apropriar de um dado conhecimento e de uma informação”, o que torna a contextualização uma potencial ferramenta para o desenvolvimento de um pensamento crítico sobre as dinâmicas de classe, gênero e raça que perpassam a história e as organizações sociais. Essa abordagem crítica pode ajudar docentes a reconhecerem a Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização decolonizador, pois apresentam a importância em relacionar a construção do conhecimento com uma contextualização histórica, a fim de compreender o contexto e o processo de desenvolvimento do saber e poder proporcionar reflexões e superação de obstáculos epistemológicos. Percebe-se que essas aparições ocorrem de modo implícito no corpo do texto, cabendo a visibilidade das características decoloniais à interpretação do leitor. Desse modo, foi encontrada uma unidade afirmando que: EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 91 influência social e política que mantém a supervalorização dos conhecimentos científicos eurocêntricos, muitas vezes, em detrimento dos saberes produzidos por grupos marginalizados. Compreendendo essas influências, os professores podem integrar a contextualização dos conteúdos em suas práticas pedagógicas, desde a construção das estratégias didáticas até a seleção de recursos, de modo a fomentar uma aprendizagem mais significativa e decolonizada. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Considerações finais A comunidade latino-americana de pesquisa em Educação Química coloca em pauta temáticas importantes que influenciam na promoção de um ensino de qualidade. Assim, a utilização de instrumentos e recursos de ensino, com base em estratégias pedagógicas, é ponto de discussão. De acordo com essas estratégias, foi possível observar perspectivas (de)coloniais nos trabalhos analisados, sendo manifestações que demonstram a imposição do pensamento eurocêntrico e a necessidade de superação dessa realidade. Assim, infere-se que as concepções dos professores de Química da América Latina são relevantes para este campo. Não obstante, foi possível perceber, a partir dos trabalhos analisados, que ainda há traços que remetem à colonialidade do saber nas concepções dos docentes. Nesse sentido, propomos levar em consideração aspectos que provoquem o desenvolvimento de um conhecimento decolonial, como a contextualização dos conteúdos e a abordagem histórica da construção de saberes científicos. 92 REFERÊNCIAS ANASTASIOU, L, G. C.; ALVES, L. P. Estratégias de ensinagem. Processos de ensinagem na universidade. Pressupostos para as estratégias de trabalho em aula. Joinville: Univille, 2015. FERREIRA, A. B. de H. O dicionário da língua portuguesa. 8. ed. Curitiba: Editora Positivo, 2010. LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativa. São Paulo: EPU, 1986. MORAES, R.; GALIAZZI, M. C. Análise textual discursiva. 3. ed. Ijuí: Unijuí, 2016. MUÑOZ, A. A. G.; ILALUQUE, O. B. O.; ARCE, M. C. H.; RÍOS, M. E. S. VELÁSQUEZ, A. M. S.; UBIERA, F. C. V. 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Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização AS FACETAS DO CONHECIMENTO QUÍMICO EM PROPOSTAS PEDAGÓGICAS LATINO-AMERICANAS Andrei Steveen Moreno-Rodríguez Júlia Martins Figueiredo Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Ideias iniciais Este eixo temático, conformado por 89 produções, aborda uma série de textos que discutem o planejamento, a elaboração e/ou a execução de intervenções em sala de aula. Nesse sentido, o conjunto de propostas aqui contemplado é amplo e heterogêneo. Nessa perspectiva, mesmo que o intuito deste estudo não seja o de generalizar os resultados obtidos – pois não teríamos sustento empírico suficiente para tal empreitada – as reflexões que serão apresentadas, a seguir, trazem indícios de como pesquisas em Ensino de Química, dentro de sala de aula, vêm sendo produzidas e, ainda, sobre quais propostas de Ensino de Química estão sendo implementadas nas escolas latino-americanas. Assim, ao olharmos para essas propostas, pode nos apresentar evidências dos fundamentos, objetivos e compreensões de professores e pesquisadores latino-americanos sobre a disciplina Química, seu status atual e suas perspectivas futuras. Para realizarmos essa análise, focamos em examinar os objetivos e os tipos de proposta planejada/desenvolvida. Ademais, para examinarmos os assuntos e as estratégias abordados nas propostas pedagógicas que fizeram parte desta análise, buscamos suporte teórico nas facetas do conhecimento químico propostas por Talanquer (2013), por considerá-las um ponto de partida para a elaboração de quaisquer propostas didáticas relacionadas à Química. Dessarte, neste capítulo, por meio da Análise Textual Discursiva (Moraes; Galiazzi, 2016), examinamos os resumos de artigos científicos que apresentam propostas pedagógicas identificadas no levantamento bibliográfico do projeto Mapequim/AL, relacionando-as com as facetas do conhecimento químico, propostas por Talanquer (2013). Utilizamos códigos numéricos para identificar os trechos teóricos apresentados neste capítulo. Contudo, devido à ampla quantidade de trabalhos relacionados a este eixo temático e às limitações de espaço neste livro, disponibilizamos ao leitor a base de dados contendo todas as informações referentes aos trabalhos por meio do link a seguir: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1MXtFgeCcwS6dpLMg8fZ0ehY7ZQK2vAM/edit?usp=drive_link&ouid=116818909874740356508&rtpof=true&sd=true. 96 O que se mostra sobre os objetivos de propostas pedagógicas se presenta una estrategia didáctica utilizada con el objetivo de hacer del laboratorio químico un espacio de enseñanza-aprendizaje promoviendo la ‘participación activa’ del estudiante en el diseño experimental (4: 8, grifo nosso). analizar los presupuestos teóricos acerca del aprendizaje basado en problemas como ‘metodología’ activa para la enseñanza de las ciencias naturales en la Educación Superior cubana (2: 6, grifo nosso). utilizar ‘otras metodologías’ de aprendizaje para que los estudiantes observaran la relación entre la teoría y la práctica, y de estas con las moléculas que hacen parte de los sistemas biológicos y utilizaran las TICs para fomentar las competencias genéricas y específicas del curso (2: 22, grifo nosso). El estudio tuvo como objetivo la creación de estrategias didácticas alternativas que propiciaran la enseñanza de los conceptos de medición, materia y energía para textos escolares venezolanos de Química (3: 46). O uso deste tipo de abordagens, como apresentado na literatura, corresponde a: uma tentativa de superar problemas cotidianos na sala de aula – como a falta de interesse e engajamento dos estudantes; a adoção do modelo construtivista a partir da promoção de aulas mais dinâmicas; uma iniciativa para se contrapor ao modelo “tradicional” de transmissão recepção; um paradigma que busca uma educação de qualidade, colaborativa, envolvente e motivadora, utilizando uma variedade de ferramentas que promovem a autonomia (Misseyanni et al., 2018, Nova; Coelho, 2021; Caetano; Leão, 2022; Santos; Mendes, 2024). No entanto, apesar de diversos trabalhos apontarem benefícios decorrentes do uso deste tipo de estratégias, cabe destacar que na literatura também se fazem presentes estudos que levantam críticas às chamadas “metodologias ativas”, principalmente por associá-las a políticas neoliberais de mercantilização da educação, ao pragmatismo, ao imediatismo e ao distanciamento entre teoria e prática, assim como à proletarização da profissão docente na forma de sobrecarga de trabalho para os professores (Silva, 2019; Jardim; Welter, 2024). Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Ao olharmos para os objetivos propostos nas produções analisadas, foi possível perceber alguns focos de pesquisa. Em primeiro lugar, por se tratar de estudos que abordam atividades planejadas e/ou aplicadas na sala de aula, identificamos a disposição dos autores por analisar e avaliar o uso de “Metodologias Ativas”, assim como de “estratégias didáticas alternativas”, conforme indicado nos exemplos, a seguir: Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 97 Nessa perspectiva, entendemos que o uso dessas metodologias, que buscam promover mudanças no ambiente escolar, precisa ser implementado a partir de uma abordagem crítica que permita erradicar visões ingênuas sobre os temas e as atividades abordados em sala de aula, especialmente, no campo da Química, disciplina que tem desempenhado um papel preponderante na constituição das sociedades contemporâneas e na atual crise ambiental planetária, e que continuará a desempenhar esse papel de destaque na superação dos problemas ambientais e sociais. Dentro do conjunto de estudos analisados, encontramos propostas de investigação organizadas, principalmente, ao redor da elaboração, aplicação e análise de Sequências Didáticas e observação de práticas pedagógicas. Nessas propostas, são decorrentes: proposições que envolvem a Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP); jogos didáticos e o uso de ferramentas tecnológicas como formas de promover a interação e engajamento dos estudantes; análises em relação ao uso de laboratórios e atividades experimentais uma como forma de aproximar a teoria da prática e estimular o envolvimento dos estudantes. Alguns exemplos podem ser observados nas unidades de significado: El objetivo de la investigación que presentamos fue determinar si el Aprendizaje Basado en Problemas en la asignatura de Química, de nivel secundaria, favorece el desarrollo del pensamiento crítico (2: 27). El objetivo del estudio consistió en analizar e implementar estrategias didácticas coherentes al enfoque de competencias y aprendizaje efectivo/ significativo para la comprensión y resolución de problemas relacionados a las ciencias químicas (3: 4). La presente investigación tiene como propósito fundamental determinar la efectividad que tiene la aplicación de un juego didáctico como estrategia pedagógica en el proceso de enseñanza y aprendizaje de la estequiometría (relacionado a los aspectos teóricos y prácticos – resolución de ejercicios – de este tema), en estudiantes del tercer año de educación media general (4: 7). Outros trabalhos destacam a importância de conectar o ensino e aprendizagem da Química com o cotidiano e com questões sociais relevantes, a exemplo da Educação Ambiental e da compreensão de fenômenos químicos na vida diária. Também é evidente a preocupação com a Educação Inclusiva em pesquisas que buscam compreender como adaptar o ensino para diferentes perfis de estudantes, incluindo pessoas com deficiências intelectuais leves e moderadas. A presente pesquisa procura responder uma questão complexa: Como favorecer uma educação inclusiva e, ao mesmo tempo, promover a aprendizagem da química em jovens no Ensino Médio? (1:51). 98 El objetivo principal fue identificar las características del proceso de evaluación de los aprendizajes. Como objetivos específicos poseyó: caracterizar el proceso didáctico que ponen en práctica los docentes universitarios de la Sección, caracterizar las estrategias, procedimientos, técnicas o instrumentos que utilizan los profesores en el proceso evaluativo de sus estudiantes, relacionar la evaluación de los aprendizajes con el enfoque pedagógico y proponer algunas recomendaciones para el cambio en los procesos didácticos y evaluativos encontrado (3: 8). En este trabajo se propone un constructo de actitud sostenido en marcos teóricos complementarios que permiten diseñar y validar un instrumento preliminar para la evaluación de las actitudes en la clase de química para secundaria (4: 17). Essa abordagem permite relacionar a avaliação de aprendizagem com o contexto pedagógico e oferece recomendações para aprimorar práticas avaliativas, buscando um caminho fora do modelo meramente quantitativo que predomina em muitos ambientes de ensino. Além desse movimento por mudanças, Siminoski, Deimling e Deimling (2023) destacam que as práticas avaliativas continuam, em muitos casos, limitadas à aplicação de provas e atribuição de notas, sem dar a devida importância aos processos reflexivos que incentivam os estudantes a pensar sobre seus conhecimentos e progresso. As provas de forma restritiva não oferecem a oportunidade de uma avaliação crítica e construtiva para um aprendizado significativo. O que se mostra sobre os tipos de propostas pedagógicas Nos trabalhos analisados, pudemos perceber a predominância de propostas pedagógicas interventivas. Isto é, o desenho e a implementação de cursos, sequências didáticas e/ou atividades para serem desenvolvidas em sala de aula. Como nos exemplos, a seguir: Nos propusimos diseñar un Curso con Estrategias Alternativas para la Enseñanza de la Química (CEAEQ) que, por sus características y su contexto institucional, se trata de una innovación. La propuesta se estructura en el abordaje de la enseñanza y el aprendizaje desde una perspectiva constructivista que pone al estudiante como protagonista y último Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Outros trabalhos objetivam discutir de forma crítica às práticas avaliativas tradicionais, propondo formas alternativas de avaliação, com foco no desenvolvimento de habilidades e na avaliação contínua dos processos de aprendizagem. Nesses estudos, é proposta a análise de diversos recursos avaliativos, contemplando, inclusive, diários ou registros de laboratório. Por exemplo: EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 99 responsable de su aprendizaje, adoptando los docentes un rol de guías y colaboradores en este proceso (1; 10). Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Foi realizada uma sequência didática em que os estudantes produziram reações de precipitação sobre pano branco, para que os fenômenos envolvidos nas ‘obras de arte’ que daí resultaram fossem interpretados e registrados com o uso da teoria química e de linguagem científica (1; 15, grifo nosso). Presentamos un conjunto de estrategias para la enseñanza de conceptos ayudados con el desarrollo de competencias, especificamente el pensamiento crítico y la gestión de la información por medio de una secuencia didáctica específica que integró las estrategias diseñadas (3; 47). A tendência é realizar propostas que envolvem uma intervenção didática, reunindo informações de pesquisa a partir dela, o que está relacionado com os objetivos de investigação apresentados anteriormente. Esses objetivos indicam, sobretudo, a busca por metodologias e estratégias de ensino e aprendizagem diversificadas ou “inovadoras”, com a intenção de superar problemas associados ao modelo de ensino por transmissão-recepção, assim como aos próprios elementos estruturais do sistema educacional, como o currículo, a organização, os tempos e os espaços da educação. Isto é refletido em algumas unidades de significado que, dentro da descrição de aspectos metodológicos, atribuem o caráter “inovador” às propostas interventivas realizadas: Se desarrolló una ‘innovación educativa’ para la formación por competencias del químico, denominada encadenamiento hacia la química verde. El encadenamiento fue diseñado en términos de unidad de competencia, basado en estrategias metacognitivas de aprendizaje […] […] evaluar el proceso de formación por competencias bajo el criterio de evaluación auténtica y sus resultados, referentes de la pertinencia y eficacia de la ‘innovación educativa’, formulada y ejecutada alrededor del autoconocimiento, autorreflexión y autorregulación. Em relação aos tipos de intervenções implementadas, destacam-se a realização de jogos didáticos, a abordagem de situações problema e estratégias de ensino e aprendizagem relacionadas com as tecnologias de informação e comunicação: En el presente artículo se proponen varias estrategias didácticas para la presentación de contenidos de química general en el aula en forma de juego, 100 con objeto de incentivar la motivación y el aprendizaje entre estudiantes tanto de secundaria como de nivel inicial universitario (3: 12, grifo nosso). Se diseñaron ‘juegos’ didácticos para la enseñanza de la Química en el nivel de Secundaria Básica en la escuela cubana: seis de mesa y siete en computadora, usando el programa JClic. Fue establecida la estrategia de implementación de los juegos y los escenarios para su aplicación, considerando las preguntas asociadas a los juegos, la dosificación de los contenidos del programa y el lugar para desarrollar los mismos (2: 43, grifo nosso). Poner a consideración de la Comunidad Educativa de la FCQ, una innovadora herramienta de trabajo, en la búsqueda de mejores estrategias y métodos más apropiados a la realidad social del estudiante en vertiginoso y constante cambio. La mencionada herramienta la constituye un ‘software informático’ de simulación de prácticas de laboratorio (2: 26, grifo nosso). Inclusive, algumas das intervenções apresentadas combinam elementos dos jogos com o uso de tecnologias e/ou com a aprendizagem baseada em problemas, como no caso das unidades: Presentamos uma estratégia didática com dois componentes: ‘um jogo social on-line’ junto a uma narrativa baseada em uma série de televisão popular (1: 53, grifo nosso). El presente trabajo muestra la integración de tecnologías de la información y la comunicación (TICs) con la metodología de aprendizaje basado en problemas (ABP) para estudiantes de Licenciatura en Biología (2: 20). Observamos assim, a intencionalidade dos autores por promover intervenções pedagógicas que envolvem estratégias diversificadas e que procuram a atualização das atividades em sala de aula, por exemplo, através do uso de novas tecnologias. Essas propostas, como observado nos objetivos de pesquisa, procuram despertar o interesse dos discentes pelo conhecimento científico, assim como melhorar as aprendizagens dos conceitos, leis e teorias da Química. O que se mostra sobre os tipos de pesquisa desenvolvidos Neste quesito, chamou nossa atenção o posicionamento epistemológico adotado pelos diferentes autores, pois observamos predominância da perspectiva positivista cartesiana, que se alinha aos modos de fazer ciência (método científico), tradicionalmente utilizados nas ciências “exatas”, como a Química. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Este artículo plantea el desarrollo de un ‘entorno virtual’ de la tabla periódica con el propósito de adquirir una herramienta que apoye el aprendizaje de la química, usando técnicas de realidad virtual (1: 26, grifo nosso). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 101 Essa tendência se reflete na ampla gama de unidades de significado que apresentam estratégias de pesquisa do tipo “experimental” ou “quase-experimental” para a análise e avaliação das propostas pedagógicas implementadas: Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização El experimento se realizó con dos grupos de estudiantes universitarios, separados en aulas con diferente ambiente de aprendizaje, que cursaban la asignatura química general […] Para evaluar la capacidad de atención, se empleó el test d2 elaborado por Brickenkamp – Zillmer y para el análisis de la influencia de los ambientes de aprendizaje, se diseñó un test tipo Likert. El primer grupo, se le realizó el ejercicio docente en un ambiente convencional, el segundo grupo trabajó en ambientes no convencionales, con docentes formados para la aplicación de los conceptos de neurociencia (1: 55). Aplicación de un pretest, una Secuencia de Enseñanza y Aprendizaje (SEA) y la aplicación de un pos-test (1: 40). La metodología de la investigación es cualitativa con un diseño cuasi experimental y la observación como técnica de recolección de datos. La investigación se enfoca como un caso de aprendizaje situado, se seleccionaron dos grupos de estudiantes uno experimental y otro de control (2:25). Se utilizó un método mixto con diseño cuasi experimental, aplicado a un grupo experimental y otro control. Los instrumentos empleados fueron la sección de pensamiento crítico del Cuestionario de Competencias Genéricas Individuales y una entrevista semiestructurada y focalizada sobre el pensamiento crítico (2: 28). Se diagnosticó el aprendizaje efectivo /– significativo mediante un pretest, considerando sus actitudes positivas y negativas hacia el conocimiento de la química, así como su comprensión del temario antes y después de la aplicación de las estrategias didácticas implementadas, asimismo como de una guía didáctica validada. Se efectuó un post test para indagar el logro de competencias básicas (3: 6). Los resultados fueron expresados en términos numéricos y porcentuales mostrado una actitud positiva muy favorable en los grupos control y experimental, ambos con conocimientos y competencias previas similares. El grupo experimental mostró mayor fijación de conocimiento y un aumento en el desarrollo de competencias básicas (3: 7). Se aplicó un diseño cuasiexperimental a dos aulas (una experimental y otra de control), con un pre y un post test a cada estudiante. Los resultados mostraron que la introducción del LP en el proceso de enseñanza mejoró el rendimiento académico del grupo experimental (tc=-5.805, valor p<0.001) (3: 14). 102 Se planteó con 111 estudiantes del grupo experimental y 79 del grupo control (3: 22). La validez se estableció por expertos e indicadores académicos de efectividad. El efecto sobre el aprendizaje se evaluó con un pretest/post test con alfa de 0,85. La homogeneidad poblacional y las diferencias entre grupos se establecieron con contraste de hipótesis Wilcoxon y U de Mann-Whitney, el promedio del grupo experimental incrementó sus resultados en 2,6 puntos respecto al grupo control (3: 24). Se acude al paradigma cuantitativo de investigación y a un diseño cuasi-experimental de tipo transversal con pre y postest (3: 37). Metodológicamente presenta un carácter exploratorio descriptivo de diseño no experimental transversal. Mediante la prueba estadística Chi Cuadrado se determinó que el aula invertida y el aprendizaje en química no poseen relación entre ellas (3: 51). Esta investigación presenta un diseño cuasi-experimental, en donde la enseñanza de la química en un grupo denominado experimental, se implementó las actividades lúdicas y en otro grupo control se desarrolló a través del método de enseñanza tradicional. Se utilizó instrumentos como la guía de observación, encuestas y cuestionarios para compilar, categorizar y triangular la información recolectada (1: 12). La evaluación se ha realizado al comparar grupos de estudiantes que han seguido esta secuencia didáctica con grupos de estudiantes que han mantenido una enseñanza tradicional (1: 24). Conforme observado nas unidades apresentadas, as pesquisas desenvolvidas desde essa perspectiva buscam validez na estatística e na objetividade, critérios característicos do paradigma positivista, o qual se origina a partir do método científico empirista. Para Cavalcanti (2014), o positivismo representa Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Se elabora una actividad integradora para el contenido temático de ‘grupos funcionales’ de química orgánica que incluyan dicha estrategia didáctica. Posteriormente se aplica la evaluación de los contenidos temáticos que corresponden, mediante la resolución de un examen semejante a los 2 ciclos escolares anteriores (2013-B y 2014-A). Por último, se lleva a cabo un análisis de varianza al 95% de confianza para comparar los promedios obtenidos por los estudiantes de los ciclos escolares mencionados y el 2014B. Los resultados obtenidos señalan que se logra aumentar en 12.08 puntos el promedio respecto al ciclo escolar 2013-B y 22.03 respecto al 2014-A. Esto sugiere que la lúdica como herramienta didáctica puede facilitar el proceso de enseñanza-aprendizaje en esta ciencia (3: 16, grifo nosso). Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 103 um olhar externo aos fenômenos; nele, o pesquisador se distancia do objeto de estudos para quantificá-lo e mensurá-lo, buscando retirar sua subjetividade. Esta forma de fazer pesquisa é predominante nas disciplinas científicas denominadas de “exatas” e, durante décadas, foi implementada para a análise de fenômenos socioeducacionais, por meio de pesquisas quantitativas. Esse modo de entender a pesquisa científica em Ensino/Educação está associado às bases epistemológicas que sustentam o trabalho científico e o trabalho pedagógico, uma vez que não se realiza pesquisa sem fundamentação epistemológica (Cavalcanti, 2014), mesmo que esta seja aplicada de forma inconsciente. Nessa perspectiva, faz-se necessário lembrar que a Educação, de modo geral, tem sido caracterizada por estar imersa no paradigma conservador cartesiano, que estabelece práticas fragmentadas, descontextualizadas e de mensuração, nas quais se observa o distanciamento entre sujeitos e objetos de estudo (Costa et al., 2020). Assim, uma parcela considerável das pesquisas em Ensino de Química desenvolvidas em países latino-americanos de língua espanhola parece estar presa ao paradigma positivista e cartesiano, o qual já foi superado nesta área de pesquisa no Brasil. Cabe destacar que o Ensino de Química no país começa a se constituir como campo científico por volta da década de 1980 “com a proposição e utilização de teorias/modelos e de mecanismos de publicação e divulgação próprios e, principalmente, pela formação de um novo tipo de profissional acadêmico pesquisador em Ensino de Ciências/Química” (Schnetzler, 2002, p. 14). No entanto, o panorama da pesquisa em Ensino de Química não tem tido um desenvolvimento similar em todos os países da América Latina. Em relação a essa área de estudos, [...] enquanto as quatro primeiras áreas da Química se estabelecem com Ciência por meio de pesquisas que visam conhecer e sintetizar substâncias, suas propriedades e suas transformações, a área de Ensino de Química não tem como objeto de pesquisa o conhecimento químico, mas sim as questões relacionadas à sua apropriação no ambiente escolar (Mól, 2017, p. 496-497). Apesar disso, os trabalhos que inauguraram a área adotaram metodologias predominantemente quantitativas, devido à compreensão derivada da própria Química e da forma em que os químicos aprendem a pesquisar (Mól, 2017). Nesse contexto, professores pesquisadores em ensino de Química se deparam com uma dualidade: o objetivismo das “exatas” e o subjetivismo do campo educacional. Com o passar dos anos, no Brasil, os trabalhos da área foram migrando de metodologias quantitativas para as qualitativas. 104 Nesse sentido, defendemos que o paradigma epistemológico menos coerente com o objeto de estudos da área é o empírico-positivista. Da mesma forma, ressaltamos a necessidade de aproximação a outras perspectivas epistemológicas mais congruentes com diversos temas, objetos e fenômenos investigados no ensino de Química, como: a) a Fenomenologia, que representa um olhar interno dos fenômenos, a partir da percepção e experiência dos sujeitos em contextos determinados; b) o Estruturalismo, que busca identificar as bases que dão sustentação aos fenômenos sociais; c) a Teoria da Complexidade (ao igual que outras abordagens pós-estruturalistas), que adota um olhar multidimensional para analisar a realidade no tecido complexus, levando em conta a incerteza, a instabilidade, a dinâmica dos fenômenos e sua incompletude (Cavalcanti, 2014). As facetas do conhecimento químico Talanquer (2013) faz uma descrição teórica que busca explicitar a natureza rica e multifacetada dos conhecimentos de Química Geral, organizando-a em dez facetas. Para uma melhor compreensão, apresentaremos, a seguir, um quadro-síntese da proposição do autor (Quadro 1). Essas facetas consideram diferentes enfoques, perspectivas e formas de abordar o conhecimento químico em sala de aula. Quadro 1 – Facetas do conhecimento químico Faceta Descrição Especificidades/Exemplos Grandes ideias Conhecimentos centrais que gostaríamos que os alunos entendessem Exemplos: *Toda matéria é particulada na natureza. *Átomos e moléculas estão em constante movimento. *A energia é cega ao seu modo de armazenamento. *O equilíbrio químico é um estado dinâmico e reversível no qual as taxas de processos opostos são iguais. Questões essenciais Quatro questões principais, relacionadas com o conhecimento da matéria e suas transformações caracterizam a Química como uma disciplina. O reconhecimento dessas questões pode ajudar os/as professores/as a reconceitualizar as maneiras pelas quais conceitos e ideias são introduzidos e discutidos na sala de aula. 1> O que é? (Análise) 2> Como obtenho isso? (Síntese) 3> Como pode ser alterado? (Transformação) 4> Como o explico? (Modelagem) continua Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Isso porque não lida com substâncias, mas sim com pessoas, exigindo melhor descrição do contexto de estudo e compreensão de que em diferentes momentos os resultados podem ser muito diferentes, apesar de se trabalhar com um mesmo grupo de pessoas, sejam professores, alunos ou mesmo contextos de ensino (Mól, 2017, p. 501). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 105 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização continuação Conceitos transversais Estes conceitos podem permitir a reformulação do currículo de Química para enfatizar temas principais ao invés de tópicos isolados. A ênfase nesses conceitos transversais pode facilitar o foco da atenção dos alunos nos elementos fundamentais dos modelos químicos usados para entender e transformar a matéria. Dimensões conceituais O conteúdo de Química também pode ser analisado em termos das principais propriedades físicas em torno das quais modelos químicos e explicações são construídos. Essas propriedades físicas definem dimensões conceituais comumente usadas em Química para analisar e descrever o comportamento de sistemas químicos. *Entender, explicar e prever relações estruturapropriedade em diferentes tipos de substâncias. *Explorar como a análise de padrões em propriedades físicas e químicas pode ser usada para construir modelos para explicar e prever o comportamento de diferentes tipos de substâncias. *Destacar os diferentes modelos de causalidade tipicamente usados para explicar vários tipos de fenômenos físicos e químicos. *Composição e Estrutura *Energia e Tempo *Matéria, Energia e Mudança Tipos de conhecimento Os educadores químicos, frequentemente, distinguem três tipos de conhecimento relevantes. No entanto, muitos alunos são incapazes de construir conexões significativas ou traduzir informações entre esses tipos de conhecimento para um determinado sistema químico. 1> Experiências (empírico) 2> Modelos (teóricos) 3> Visualizações (diferentes sinais visuais) Escalas dimensionais Os químicos exploram, modelam e constroem visualizações das propriedades da matéria em diferentes escalas de comprimento, tempo e energia. Assim, o conteúdo de Química também pode ser analisado considerando as diversas escalas nas quais descrições, explicações ou previsões são construídas na sala de aula. *Em termos de escalas de comprimento: macroscópico, multipartícula, mesoscópico, supramolecular, molecular e subatômico. *Em termos de composição-estrutura, conceitos e ideias podem ser apresentados a partir de níveis crescentes de complexidade, de átomos a moléculas, de macromoléculas a ambientes celulares. Modos de raciocínio *Os químicos constroem, avaliam e revisam modelos sobre os sistemas de interesse. O raciocínio baseado em modelos envolve usar ou construir modelos consistentes com o conhecimento e as evidências anteriores existentes, comparar e avaliar a capacidade de diferentes modelos de explicar propriedades observadas e prever novos fenômenos. Assim, a modelagem e o desing devem ser vistos como práticas centrais na disciplina. *Os químicos também contam com a aplicação ponderada de uma variedade de generalizações empíricas usadas como heurísticas ou regras práticas para tomar decisões rápidas. 1> Raciocínio baseado em modelos 2> Raciocínio baseado em casos 3> Raciocínio baseado em regras continua 106 Perspectivas contextuais Considerações filosóficas Visões históricas Contextos relevantes fornecem cenários produtivos para a aprendizagem quando os alunos participam de comunidades de prática engajadas em abordar problemas bem definidos que exigem o uso significativo de conceitos e ideias de Química. 1> Explicativo-preditivo: os alunos geram modelos de entidades e processos que podem explicar e prever fenômenos relevantes como o efeito dos gases de efeito estufa na atmosfera. 2> Transformativo: os alunos projetam substâncias ou processos para abordar problemas relevantes, como purificar água de esgoto em sua comunidade. 3> Sócio-Químico: os alunos analisam, sintetizam e avaliam os custos e benefícios sociais, econômicos e ambientais de atividades químicas ou do uso de produtos químicos como o consumo de embalagens plásticas. Características críticas do empreendimento químico, bem como do conhecimento que ele gera, o tornam distinto de outras disciplinas científicas. 1> Leis Químicas: uma análise mais cuidadosa da natureza das leis, princípios e regras práticas que orientam o pensamento químico é necessária para que os alunos possam julgar e usar melhor seus recursos explicativos e preditivos. 2> Modelos Químicos: A multiplicidade na modelagem pode ser bastante confusa para os alunos e, portanto, deve ser reconhecida e refletida pelos professores. 3> Linguagem Química: O pensamento químico depende amplamente de um sistema bastante complexo de símbolos e ícones que não são usados apenas para comunicar informações, mas são essenciais na construção de explicações e no design de novos produtos. A maneira como os químicos usam essa linguagem simbólica para conectar o mundo das experiências de laboratório e o mundo dos modelos moleculares é objeto de análises filosóficas. Olhar para a Química desde uma perspectiva histórica ajuda a reconhecer lutas na compreensão de conceitos centrais e grandes ideias na disciplina, muitas delas semelhantes aos desafios que se apresentam nas salas de aula. 1> Estágios históricos críticos no desenvolvimento da Química como uma disciplina científica e mudanças na escala de análise de sistemas químicos dentro da dimensão conceitual composição-estrutura, do molar (macroscópico), ao molecular, ao elétrico (subatômico). 2> Evolução das ideias em química para revelar os diferentes papéis que a disciplina desempenhou ao longo do tempo, de uma ciência oculta para uma ciência mecânica, de uma ciência indutiva para uma ciência dedutiva, de uma ciência descritiva para uma ciência reduzida, de uma ciência útil para uma ciência de serviço. 3> Na fronteira entre História e Filosofia, aparecem as dimensões éticas da Química. Fonte: Adaptado de Talanquer, 2013. O que se mostra sobre as facetas do conhecimento químico nos textos analisados Segundo Talanquer (2013), as dez facetas do conhecimento químico revelam a natureza multidimensional da disciplina e seu ensino. Essas evocam sua complexidade, mas, ao mesmo tempo sua riqueza e beleza, assim como explicitam muitas razões para questionar abordagens rígidas, lineares Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização continuação Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 107 e positivistas presentes no currículo de Química, as quais ainda se fazem presentes nas salas de aula. O autor admite que prestar atenção a todas as diferentes facetas ao planejar uma aula de Química seria impossível, devido à complexidade que tal trabalho demandaria. No entanto, sugere que professores de Química, e, em nosso entendimento, pesquisadores da área, possam pelo menos reconhecer a existência dessas facetas, de modo a abrir espaço em seus planejamentos para explorar algumas delas nos tempos e espaços de ensino. Assim, as mudanças na Educação Química podem vir a ocorrer de forma multifacetada. No conjunto de textos examinados, foi possível perceber a presença de várias das facetas propostas por Talanquer (2013), mesmo que de forma implícita, superficial e/ou combinada. Em relação à primeira faceta, identificamos apenas um trabalho que apresenta o que poderia ser considerado uma “grande ideia”, ou seja, um conhecimento central apontado como relevante para os estudantes. Apresentamos essa ideia na unidade de significado, a seguir: Los sentidos acústico y táctil pueden captar y diferenciar tipos de ondas mecánicas, ya sea que sea trate de las generadas por un susurro o por una caricia. Igualmente, […] el sentido de la vista convierte las ondas electromagnéticas de la luz visible en señales electroquímicas en la retina para informarnos sobre la belleza del mundo, […] el sentido del olfato, en combinación con el del gusto, puede diferenciar de forma eficaz sales, iones, metales, y la mayoría de los grupos funcionales que se presentan en los compuestos orgánicos (1: 36). No entanto, não localizamos nenhuma “questão essencial” como base para o conjunto de trabalhos analisados. Isso sugere que as pesquisas em Ensino de Química analisadas não têm por foco a especificação das atividades características da química (modelagem, análise, síntese e transformação). Ou seja, não há uma preocupação evidente em delimitar quais dessas atividades estão sendo estudadas nem quando são abordadas. De forma semelhante, conceitos transversais que podem contribuir para a reformulação do currículo de Química a partir de temas integradores – em vez de tópicos isolados – não foram identificados nos textos analisados. Relações estrutura-propriedade, padrões presentes em propriedades físicas e químicas, e modelos de causalidade não foram considerados nesses estudos. Esse fato sugere um Ensino de Química fragmentado e linear, característico dos modelos cartesiano e positivista. O conteúdo de Química também pode ser analisado com base nas principais propriedades físicas que fundamentam os modelos e explicações químicas. Essas dimensões conceituais (composição e estrutura; energia e tempo; 108 Trabajar la diferencia entre cambio físico y cambio químico y, la segunda, para consolidar la parte experimental que también se ha llevado a cabo en el laboratório (02: 31). Los estudiantes de los grupos experimentales respecto a los grupos control: 1) presentan un mejor manejo en la definición procedimental de sustancia en el nivel macroscópico; 2) definen mejor el concepto de elemento químico en el marco de la teoría daltoniana; 3) distinguen mejor los conceptos de sustancia simple y elemento químico; y 4) presentan una mejor distinción del concepto microscópico de mezcla-de sustancias simples o de sustancias compuestas […] (1: 25). Em relação à faceta “tipos de conhecimento”, que Talanquer (2013) sintetiza em experiências, modelos e visualizações, os trabalhos analisados a retratam claramente. A seguir, alguns exemplos: Se busca sentar las ‘bases teóricas’ de la Química, estimulando a los alumnos a generar un vínculo con el saber (1: 12). Se superaron diversas concepciones alternativas sobre catálisis, sus conceptos fundamentales y aplicaciones relevantes, persistiendo dificultades relacionadas con habilidades de ‘modelización y estudio de gráficos’ (1: 32, grifo nosso). Trabajar la diferencia entre cambio físico y cambio químico y, la segunda, para consolidar la parte ‘experimental’ que también se ha llevado a cabo en el laboratorio (2: 31, grifo nosso). El juego incluyó ‘elementos visuales y textuales’ que facilitaron la comprensión (3: 23, grifo nosso). Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização matéria, energia e mudança) permitem que os professores identifiquem, destaquem e comparem de maneira mais eficaz o alcance e as limitações dos modelos e explicações discutidos em sala de aula (Talanquer, 2013). Ou seja, determinados sistemas químicos podem ser analisados a partir de diferentes perspectivas conceituais, como ocorre, por exemplo, no estudo de ácidos e bases, considerando as diferentes teorias de Arrhenius, Brønsted-Lowry e Lewis (Souza; Silva, 2017). No entanto, nos trabalhos examinados, essa abordagem se apresenta de maneira incipiente, com apenas duas unidades de significado, demonstrando alguma aproximação às dimensões conceituais propostas por Talanquer (2013): Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 109 Este é um indicativo de que professores de Química hispano-falantes procuram produzir aprendizagens a partir de modelagens, do uso de diferentes elementos visuais e de generalizações, tanto teóricas quanto empíricas, o que pode favorecer uma formação mais completa e significativa para os estudantes. Outra das facetas propostas por Talanquer (2013) está relacionada com as escalas de tempo, comprimento e energia que podem ser usadas para produzir diferentes modelos e teorias na Química. O autor classifica essas escalas em dois tipos: a) comprimento; b) composição e estrutura. A primeira relaciona-se com os diferentes níveis dimensionais: macroscópico, multipartícula, mesoscópico, supramolecular, molecular e subatômico. A segunda tem a ver com os níveis de complexidade: de átomos a moléculas, de macromoléculas a ambientes celulares, de estruturas celulares a organismos complexos, por exemplo. Nos trabalhos analisados, foi possível identificar apenas uma das escalas descritas por Talanquer, a relacionada com os níveis dimensionais de comprimento, conforme apresentada nas unidades de significado, a seguir: El aprendizaje de la Química durante el primer año de la universidad presenta dificultades propias de la disciplina asociadas a lo ‘abstracto’ de algunos contenidos y a los ‘diferentes niveles de representación’ necesarios para su abordaje (1: 25, grifos nossos). La formación de habilidades en la asignatura Química para la Educación Media demuestra la importancia que tienen éstas en el contexto del tratamiento de las representaciones o niveles del pensamiento ‘macroscópico, submicroscópico y simbólico’ (1: 45, grifo nosso). Na primeira unidade, a relação apresentada entre o “abstrato” e os “diferentes níveis de representação” indica que os autores estão se referindo aos níveis submicroscópico, macroscópico e representacional. Já na segunda unidade, essa ideia se apresenta de forma explícita. Atribuímos esse entendimento à popularização da proposta teórica conhecida como o triângulo de Johnstone (1993), na qual o autor representa as diferentes dimensões e níveis de compreensão do conhecimento químico: a observação dos fenômenos naturais (macroscópico), sua representação na linguagem científica (simbólico) e a compreensão dos fenômenos a nível de partículas, como átomos, íons e moléculas (microscópico). Além das facetas mencionadas até o momento, os químicos constroem, avaliam e revisam os conhecimentos da área a partir de diferentes “modos de raciocínio”, os quais constituem a sétima faceta descrita por Talanquer (2013). O autor sintetiza esses modos em três tipos: modelos, casos e regras. No entanto, nos trabalhos analisados, identificamos três tipos de raciocínio 110 relacionados com processos e habilidades do pensamento e da comunicação: entendimento e argumentação; representação gráfica; e resolução de situações-problema. No primeiro modo de raciocínio, observamos unidades de significado que revelam a intencionalidade dos autores em trabalhar habilidades de comunicação e argumentação, relacionadas ao desenvolvimento do pensamento crítico: […] elaboró una SEA para fortalecer los ‘procesos argumentativos’ de los estudiantes de grado décimo en el aprendizaje de los compuestos inorgánicos y su impacto en el ambiente a través del desarrollo de competencias de ‘pensamiento crítico’ (1: 41, grifos nossos). Como segundo modo de raciocínio, os trabalhos apresentam as representações gráficas como eixo central para a descrição de fenômenos químicos: Se propone al ‘Mapa Híbrido’ como una técnica que permite describir de ‘forma gráfica’ la actividad químico-matemática implicada en la resolución de problemas que se abordan en la clase de química (2: 12, grifos nossos). En este artículo se discute el rol de las ‘imágenes’ en el aprendizaje y en la enseñanza de la Química. Luego de exponer los principales fundamentos de la Teoría cognitiva del aprendizaje ‘multimedia’, y de los 12 principios que se desprenden de ella, se desarrollan sus implicaciones para la enseñanza de la química (1: 9, grifos nossos). También se aborda la problemática del uso de ‘diagramas y dibujos esquemáticos’ para el caso de la química. Finalmente, se insta a reformular la relación que los profesores tienen con respecto al uso de las ‘imágenes’ y a integrar sistemáticamente palabra e imagen en la enseñanza (1:10, grifos nossos). Em terceiro lugar, aparece o raciocínio químico através de resolução de problemas, associado com diferentes habilidades do pensamento: Se propone al alumno la ‘resolución de una situación problemática’, generalmente de la vida cotidiana y de respuesta abierta, con el objetivo de fomentar la integración de saberes previos y habilidades propias con los contenidos ofrecidos en otros espacios de enseñanza-aprendizaje dentro Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Los resultados apoyan la idea de incorporar aspectos de NOS en actividades explícitas de ‘reflexión, discusión y argumentación’ estrechamente ligadas al contenido científico, como promoción de una alfabetización científica y tecnológica desde la química (1: 33, grifo nosso). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 111 de la asignatura (seminarios, apuntes, clases de problemas, discusiones grupales) (1: 19, grifo nosso). Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Desde la didáctica del ‘Aprendizaje Basado en Problemas’, propongo enseñar la Tabla Periódica con una función heurística simbólica, de modo que el alumno desarrolle Habilidades de Pensamiento de Orden Superior (HOTS) y ejercite la ‘argumentación’ científica (1:21, grifos nossos). Consideramos que ao abordarmos a resolução de problemas ou o raciocínio químico com base em estudos de caso, aproximamo-nos das “perspectivas contextuais” dos conhecimentos em Química. Essa é a oitava faceta apresentada por Talanquer (2013). Nos trabalhos analisados, identificamos unidades de significado que estão relacionadas a ela. A seguir, apresentaremos alguns exemplos: Una educación, concebida para promover la autonomía en el aprendizaje y la metacognición, obliga al profesorado de química a ‘enseñar’ una ciencia más contextualizada, desde un pensamiento multinivel y con criticismo. Lo anterior, podría contribuir a un mejor entendimiento del conocimiento químico y coadyuvar en los procesos formativos (1: 6, grifo nosso). La enseñanza de la química debe contemplar su ejercicio desde la complejidad, centrándose en que el estudiante aprenda a resolver problemas químicos en contextos relevantes y complejos (3: 3). El uso responsable del conocimiento científico nos involucra en la búsqueda de nuevas formas de enseñanza de la química que supere la enseñanza meramente propedéutica y se oriente a la formación para un ejercicio responsable de la ciudadanía en lo que respecta a ciencia y tecnología (3: 28). Se encontraron evidencias de la importancia que se dio en un primer momento al tema de la desaparición de la capa de ozono en países donde la enseñanza tipo CTS (Ciencia, Tecnología y Sociedad) y la enseñanza en contexto empezaban a cobrar relevancia para incluir la dimensión ambiental en los planes y programas de estudio (2: 10). Percebe-se a preocupação dos pesquisadores latino-americanos no Ensino de Química em desenvolver e implementar propostas pedagógicas que ultrapassem o conhecimento conceitual da Química, integrando contextos relevantes em que esses saberes são aplicados, como na busca por soluções para questões de justiça social e ambiental, fortemente presentes no território americano (Moreno-Rodríguez; Del Pino, 2017). 112 ‘La naturaleza de las ciencias’ entendida como contenidos metacientíficos y como área de investigación didáctica […] constituye para el campo de conocimiento de la didáctica de las ciencias experimentales un valor agregado relevante para problematizar y comprender nuevas finalidades de la educación a través de las ciencias […] (3: 19, grifo nosso). Se presenta una investigación descriptiva con enfoque cualitativo de las explicaciones en clase de dos profesores de química empleando elementos del análisis del discurso, considerando los recursos utilizados, ‘el lenguaje científico’ y los niveles representacionales de la química (3: 2, grifo nosso). Se señala que las bitácoras de laboratorio pueden favorecer una interlocución con los conocimientos de los estudiantes, así como ‘discusiones de carácter epistemológico’ sobre la experimentación (3:34, grifo nosso). Esta investigación presenta los principales hallazgos referentes a ‘¿cómo se construyen las explicaciones científicas’ acerca de la Teoría Electroquí-mica en las clases de Educación Media? (3: 40, grifo nosso). As unidades de significado apresentadas exploram diferentes aspectos relacionados à natureza da Ciência e da Química, assim como a forma pela qual esses conhecimentos são construídos e transmitidos em contextos educacionais. Essa problematização e as reflexões decorrentes indicam uma preocupação dos pesquisadores/professores com os fundamentos filosóficos da Química e sua função social. Nessas unidades, evidenciam-se abordagens que vão além do mero tratamento de conceitos químicos, questionando e refletindo sobre a própria construção do conhecimento da área, seus modelos, sua linguagem e a maneira como são trabalhados em sala de aula. Além das considerações filosóficas, Talanquer (2013) destaca que adotar uma perspectiva histórica da Química é benéfico para os educadores, pois permite reconhecer as dificuldades encontradas na construção de conceitos centrais e grandes ideias da disciplina, muitas das quais se refletem nos desafios de aprendizagem presentes nas salas de aula. No entanto, não encontramos Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Por outro lado, na faceta denominada “Considerações Filosóficas”, Talanquer (2013) faz referência a reflexões específicas sobre os conhecimentos químicos, ou seja, análises acerca da natureza da Química, assim como de suas leis, princípios, regras e práticas, que estão intimamente relacionados com os modelos químicos e com a linguagem científica. Dessa maneira, evidenciamos alguns trabalhos que levantam tais questionamentos e reflexões: EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 113 unidades de significado representativas dessa faceta diretamente associadas às propostas pedagógicas analisadas. Esse cenário revela a necessidade de explorar abordagens históricas de forma mais consistente no ensino de Química, especialmente no contexto latino-americano, em que os conhecimentos científicos foram impostos como resultado dos movimentos da colonização europeia, retratando uma ciência pura, linear, racista, patriarcal e excludente, que não condiz com a história real da produção do conhecimento humano. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Algumas considerações Por meio da análise aqui apresentada, percebemos alguns indícios de como propostas pedagógicas em Química vêm sendo implementadas no contexto da América latina, de língua espanhola. Destacamos trabalhos que buscam promover a contextualização do conhecimento químico, assim como a participação efetiva e engajamentos dos estudantes. Essas propostas incluem o planejamento e execução de sequências didáticas e outras atividades que incluem a aplicação de jogos, o uso de novas tecnologias e a aplicação de diferentes formas de avaliação. Por outro lado, podemos assinalar que pesquisas que têm como base uma intervenção pedagógica específica são interessantes, sempre que as análises sejam realizadas desde perspectivas epistemológicas coerentes com os objetos de estudos, ou seja, quando o objeto de estudos é um fenômeno sociocultural, a perspectiva de análise não pode ser experimental ou quase-experimental (positivista), pois as variáveis que influenciam os resultados em sala de aula são diversas, subjetivas e incontroláveis. Nesse caso, análises de cunho fenomenológico, hermenêutico, estruturalista e pós-estruturalista são mais congruentes. Em relação às facetas do conhecimento químico, embora sua presença não tenha sido claramente perceptível, foi possível identificar a maioria delas em vários dos trabalhos analisados. No entanto, as facetas “Questões Essenciais” e “Considerações Filosóficas” não foram observadas no conjunto de textos analisados, o que indica uma deficiência ou ausência dessas abordagens nas propostas pedagógicas latino-americanas. Nesse sentido, futuros trabalhos de pesquisa poderiam se concentrar em análises relacionadas a essas facetas, principalmente, na elaboração de propostas pedagógicas para a sala de aula. 114 REFERÊNCIAS CAETANO, V.; LEÃO, M. Metodologias Ativas na QNESC (2011-2020): um olhar para as aulas de Química no Ensino Médio. Revista Reamec, v. 10, n. 2, 29 ago. 2022. COSTA, N. C.; MENDONÇA, Carla A. S.; NETO, A. C. A.; DA COSTA, M. G. A ruptura do paradigma cartesiano no ensino de Matemática. REAMEC – Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemática, Cuiabá, Brasil, v. 8, n. 1, p. 373-390, 2020. JARDIM, D.; WELTER, C. Análise crítica acerca do uso de metodologias ativas no ensino de Física em curso superior. Revista Vozes dos Vales, n. 25, p. 1-20, 2024. 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Dessa forma, a violência da colonização aniquilou tradições e invisibiliza saberes enquanto outros costumes foram adaptados, misturados e, em alguns casos, reinventados. Esse processo consolidou uma estrutura social desigual que persiste até na atualidade, refletida na falta de saúde, na pobreza, na aniquilação de oportunidades educacionais e na colonialidade do pensamento que impede a valorização plena dos saberes e modos de vida originários. No Brasil, o processo de colonização começou a partir da invasão dos portugueses, compreendendo três séculos, de 1550 a 1888. Desde então, construiu-se uma noção de que a História do Brasil se iniciou a partir da escravidão e exploração. Dessa forma, os europeus consideravam-se superiores, atribuindo inferioridade cultural e intelectual a todos os povos não brancos e não europeus, empregando esse discurso para justificar sua dominação. Na atualidade, quando consideramos como prisma de análise o cenário educacional, é possível afirmar que as próprias instituições educativas têm sido utilizadas para disseminação e subalternização de práticas e saberes de outros povos, potencializando ainda mais a colonização do pensamento e da cultura em uma perspectiva eurocêntrica, fazendo com que este fenômeno desqualifique qualquer tipo de construção do conhecimento 1 Este texto foi apresentado no XV Encontro de Educação Química da Bahia – Eduqui, realizado na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB, Centro de Formação de Professores – CFP, em Amargosa, Bahia, Brasil, no ano de 2023 e foi, posteriormente, revisado, adaptado e aprimorado para publicação neste livro. que não se encaixe nos padrões europeus, como: conhecimentos nativos, pensamentos indígenas, africanos, entre outros. Diante disso, tratando-se do Ensino de Química, Carvalho, Monteiro e Costa (2019) destacam que a estrutura curricular é ainda marcada pela identidade colonial da educação brasileira, refletida, por exemplo, em livros didáticos de Química que privilegiam narrativas europeias. Nesse sentido, a hegemonia do eurocentrismo, do cientificismo demarcou limites na produção de conhecimentos. Dessa maneira, é necessário pensar nos modos como esses sujeitos vivenciaram a colonização e nas ferramentas que podem contribuir para a libertação da desumanização. Nessa perspectiva, a noção da decolonialidade inicia-se a partir da negação da colonialidade, portanto, nega o fato do processo de colonização a partir do momento em que determinado espaço geográfico deixou de ser colônia de determinada nação (Pinheiro, 2019). A decolonialidade tem como propósito problematizar a perpetuação das condições colonizadas no âmbito epistemológico, buscando promover a libertação de toda forma de dominação, exploração e opressão. Valoriza o que é local, reconhecendo a autenticidade cultural, política, econômica e ideológica de povos marginalizados, com o objetivo de alcançar a decolonialidade do ser, do saber e do poder (Reis; Andrade, 2018). Logo, a decolonialidade na área de Ensino de Química se mostra relevante para que possamos contestar a universalidade das bases epistemológicas, que alienaram nossa perspectiva de mundo a um paradigma dicotômico, hierarquizante, racista e sexista que se estendeu do colonialismo e perpetua-se na colonialidade (Pinheiro, 2019). Nesse aspecto, a Educação pode ser entendida como um campo que foi utilizado para a propagação da colonialidade, mas que hoje pode ser um espaço para a decolonialidade. Sendo assim, um ensino decolonial, nos dias de hoje, é de suma importância, pois permite que possamos desconstruir os aspectos que foram impostos aos sujeitos, possibilitando a reflexão sobre diferentes visões de mundo e sobre a construção dos saberes dos povos que foram menosprezados e subjugados. Em vista disso, é crucial que haja uma reconfiguração curricular que promova a melhoria do ensino a partir de diversas concepções epistemológicas e por diferentes estratégias metodológicas, pois, nesses espaços “[..] a colonialidade opera, entre outros mecanismos, por meio dos currículos” (Gomes, 2018, p. 227). Falar em decolonizar o currículo não é uma tarefa fácil, já que questiona a suposta universalidade de qualquer conhecimento, modo de viver e ser. Entretanto, Gomes (2018, p. 235) ressalta que “[...] só é possível descolonizar os currículos e o conhecimento se descolonizarmos o olhar sobre os sujeitos, Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 118 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 119 suas experiências, seus conhecimentos e a forma como os produzem”. Ou seja, é primordial valorizar conhecimentos, histórias e saberes a partir de outras epistemologias. Desse modo, este estudo tem como objetivo analisar o que está sendo discutido por pesquisadores latino-americanos acerca do Ensino de Química. Trata-se de uma parte dos resultados de um projeto mais abrangente que busca mapear a comunidade latino-americana de pesquisa em Educação Química, com o intuito de dar visibilidade aos conhecimentos produzidos na América Latina e servir de inspiração para novas linhas de pesquisa, assim como para a criação de parcerias com diferentes instituições educativas. Neste capítulo, especificamente, abordaremos o eixo temático intitulado “Experiências acadêmicas”. Metodologia Este trabalho enquadra-se na abordagem de pesquisa qualitativa que, segundo Gerhardt e Silveira (2009), se preocupa com aspectos da realidade que não podem ser quantificados e, dessa forma, busca compreender e explicar as dinâmicas sociais. Assim, ao analisar o que está sendo discutido por pesquisadores latinos-americanos sobre o Ensino de Química, evidenciam se os parâmetros que essa comunidade assume como relevantes para este campo da Ciência, caracterizando-se como descritivo, pois procura retratar e detalhar o fenômeno para torná-lo mais compreensível, a partir do mapeamento e da indagação (Gerhardt; Silveira, 2009). Posteriormente, os resumos dos artigos pertencentes ao eixo foram analisados à luz da Análise Textual Discursiva – ATD, metodologia de análise qualitativa de informações textuais, a qual [...] pode ser entendida como um processo auto-organizado de construção de compreensão em que novos entendimentos emergem a partir de uma sequência recursiva de três componentes: a desconstrução dos textos ‘corpus’, a unitarização; o estabelecimento de relações entre elementos unitários, a categorização; o captar o emergente em que a nova compreensão é comunicada e validada (Moraes; Galiazzi, 2016, p. 6). No primeiro momento da análise do eixo, foi realizada a leitura dos resumos. No segundo, foram selecionadas as unidades de significado. Esse processo, denominado unitarização, acontece por meio da desmontagem do texto, o que implica “examinar os textos em seus detalhes, fragmentados no sentido de produzir unidades constituintes, enunciados referentes aos 120 fenômenos estudados” (Moraes; Galiazzi, 2016, p. 33). Cabe destacar que as unidades de significados estão codificadas, por exemplo, como “R.E.A.35.1” em que R.E.A é referente ao nome do eixo temático relatos de experiência acadêmica, quarenta e cinco números do índice em que está o resumo no banco de dados e um número da unidade de significado, conforme ilustrado, a seguir, na Figura 1. Fonte: Elaborada pelos autores, 2023. Posteriormente, emergiram categorias iniciais para as quais foram redigidos parágrafos interpretativos. Estes auxiliaram em uma segunda etapa de categorização que permitiu a obtenção de categorias intermediárias. Para cada uma delas, foram redigidos parágrafos finais que facilitaram a compreensão do fenômeno e ajudaram na construção das categorias finais. Como resultado da análise emergiu uma categoria final intitulada: “Ensino de Química com Metodologias Ativas em uma Perspectiva Decolonial”. Em seguida, apresentaremos o metatexto construído a partir da análise. Resultados e discussão O eixo temático Relatos de Experiência Acadêmica foi constituído por sete trabalhos, como pode ser observado no Quadro 1. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Figura 1– Exemplo da codificação EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 121 Quadro 1 – Eixo temático Relatos de Experiência Acadêmica Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Código Títulos País R.E.A.35 Jogo de cartas UNO sobre unidades de medidas: relato de experiência na formação inicial e continuada de professores Chile R.E.A.167 História e Filosofia da Ciência como um guia para entender a natureza da ciência Colômbia R.A.E. 9 La revista EDENLAQ en los portales del Mundo Argentina R.E.A.31 O estágio de docência como instrumento formativo do pós-graduando: um relato de experiência Brasil R.E.A.192 Rendimiento académico de estudiantes de la licenciatura de Química en Venezuela Venezuela: un estudio de género R.E.A.51 Explicaciones escolares respecto al concepto reactivo limitante México R.E.A.39 Sociobiodiversidade e alimentação escolar: uma experiência no Litoral Norte do Rio grande do Sul Brasil Fonte: Dados da pesquisa, 2022. Os respectivos resumos dos artigos foram analisados à luz da Análise Textual Discursiva, resultando na constituição de uma categoria final. Ensino de química com metodologias ativas/participativas em uma perspectiva decolonial Durante o período de colonização, a Europa, como referência de poder, ocupou e hierarquizou o conhecimento, a história e a cultura. À vista disso, o Ensino de Química acabou sendo reproduzido nas instituições desde uma perspectiva hegemônica. Nesse sentido, entendemos que Educação decolonial é primordial para o ensino, uma vez que possibilita o reconhecimento dos saberes dos povos subalternizados, numa relação mais igualitária nas salas de aulas. Entretanto, o Ensino de Química, na América Latina, continua sendo colonial, visto que conhecimentos populares, ancestrais e provenientes de outras culturas não europeias são negligenciados. Um exemplo disso é apresentado na unidade, a seguir, 122 Sob essa ótica, para que haja uma ruptura do pensamento colonial no Ensino de Química, deve-se realizar a desfragmentação dos conteúdos curriculares de modo que o ensino assuma uma perspectiva decolonial efetiva. Uma das possibilidades mencionadas nos trabalhos analisados para o movimento de desfragmentar pode acontecer por intermédio de abordagens da História da Química. Rudge et al. (2014) indicam que, ao utilizar episódios da História da Ciência para o ensino, os estudantes podem ser levados a apresentarem suas próprias ideias a respeito das causas de um determinado fenômeno. Em concordância, A História da Ciência deve ser tomada como ponto de partida para ressignificar os conteúdos e levantar discussões sobre diferentes modelos de conhecimento, preparando assim o discente para as questões epistemológicas mais relevantes. Em outros termos, a História da Ciência pode contribuir na preparação de alunos para que eles possam formular questões epistemológicas importantes para se compreender a natureza da ciência (Saito, 2013, p. 192). Outro aspecto importante para o processo de decolonização é reconhecer contribuições de comunidades negras, povos originários e outros grupos que construíram conhecimento ou contribuíram exponencialmente para a construção da ciência moderna, pois suas ideias foram branqueadas e apagadas da história durante a instauração das colônias. Alguns exemplos de conhecimentos desse tipo são apresentados nas unidades, a seguir: Conforme os relatos dos participantes, o feijão-sopinha veio da África, sendo trazido escondido no cabelo das mulheres escravizadas, durante o tráfico negreiro, como forma de patuá (amuleto) e para garantir o sustento (alimento) nas terras desconhecidas (R.E.A.39.3). O reconhecimento do valor imaterial desses alimentos que se ligam à ancestralidade quilombola e indígena é destacado logo no início da conversa com os atores locais (R.E.A.39.5). Podemos inferir que trazer a abordagem da História da Química/Ciência contribui para o fortalecimento do pensamento decolonial, uma vez que os discentes podem estudar as contribuições das diferentes culturas e civilizações Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Alguns educadores de ciências consideram a ‘virada histórica’ como ‘antiquado’ e, portanto, ‘negligenciar’ a abordagem histórica e em vez disso ‘enfatizar o modelo’ baseado na visão ‘naturalista da ciência’ (R.E.A.167.02, grifos nossos). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 123 para além do contexto europeu, analisar criticamente as narrativas que destacam apenas as contribuições europeias para o desenvolvimento da Química, assim como reconhecer o papel de outras culturas nesta área e valorizar os sistemas de conhecimentos de comunidades originárias e afrodescendentes, relacionados com a manipulação de substâncias. Sendo assim, de acordo com a unidade de significado, Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Necessidade de pensar em novos modelos de ensino que possam recuperar as aprendizagens construídas (R.E.A.9.3). Considerando especificamente o ensino de Química, é possível ressaltar que a estrutura curricular ainda reflete uma identidade proveniente da dominação colonial. Assim, entendemos que, além de novos modelos e estratégias de Ensino, é indispensável entender a Educação a partir de outras perspectivas. Porém, pensar em metodologias participativas que facilitem essa desconstrução é crucial para promover uma educação mais justa, inclusiva e culturalmente sensível. Para facilitar essa desconstrução, é fundamental adotar abordagens e práticas novas. No decorrer das décadas, a Química vem sendo considerada como uma disciplina cansativa e de difícil compreensão. Isso se deve, em parte, aos modos como o ensino desta tem sido propagado, principalmente desde uma abordagem conteudista, acrítica e descontextualizada. Nesse contexto, a inserção das metodologias ativas na elaboração e desenvolvimento de práticas pedagógicas tem sido relevante para os processos educacionais, pois visam uma didática que proporciona aos estudantes novas formas de compreender a disciplina. Para Berbel (2011), as metodologias ativas são estratégias para trabalhar os conhecimentos, buscando desenvolver o poder crítico dos discentes através da apresentação de casos que mostram situações reais ou simuladas. Lovato (2018) indica que as metodologias ativas suprem as defasagens provenientes de um modelo de educação ultrapassado e surgem como uma proposta de possibilitar ao professor assumir seu papel de mediador, enquanto o estudante assume o papel principal, construindo o conteúdo a partir do seu conhecimento prévio. Dentre as metodologias ativas existentes, destacam-se: jogos didáticos, estudos de casos, sala de aula invertida, seminários e discussões. Além dessas estratégias, encontra-se o uso de recursos didático-pedagógicos como a modelagem (Ferreira; Queiroz; Mendonça, 2007) e atividades de confecção (Zóboli, 1990), que também auxiliam nas habilidades inerentes ao modelo de metodologias ativas. 124 Nesse sentido, é possível notar na unidade a seguir: Nessas experiências, os professores buscaram introduzir o jogo UNO como uma ferramenta didática para explorar as unidades de medida inerentes a esse jogo. A intenção dos docentes é estimular a curiosidade dos alunos, com o propósito de promover a assimilação de conceitos e o aprimoramento de diversas habilidades. Dessa forma, trazer o jogo como forma de ensinar, de acordo com Zanon (2008), pode proporcionar ao estudante uma forma prazerosa e divertida de estudar, além de oferecer uma maneira diferenciada de avaliar a aprendizagem do aluno sobre um determinado assunto. Nesse sentido, destaca-se também a unidade de significado. O jogo pode ser aplicado para alunos que estão estudando o tema de unidades de medidas no ensino fundamental ou médio, bem como para professores em formação inicial ou continuada (R.E.A.35.2). Sob essa ótica, o jogo pode ser empregado na formação inicial e continuada, uma vez que, como recurso didático, pode auxiliar na formação. Nessa perspectiva, deve-se pensar formas de como melhorar a formação inicial e continuada de professores, considerando o contexto em que os estudantes estão inseridos (Carvalho; Pérez, 2009) pois, em concordância com Lima e Medeiros (2012, p. 5), “compreender a formação como um processo educativo desenvolver atitudes, habilidades e valores, que permitam aos professores atuarem no futuro como verdadeiros educadores e formadores de cidadãos”. Portanto, o uso de metodologias ativas está diretamente relacionado à concepção de formação como um processo educativo mais amplo, que visa preparar futuros docentes para desempenhar um papel ativo na construção do conhecimento e na formação integral dos estudantes. Ao adotar essas metodologias, os professores se tornam facilitadores do aprendizado, capazes de promover uma educação mais significativa e alinhada com as demandas da sociedade atual. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização A partir do conhecido jogo de cartas UNO, propõe-se um jogo didático como recurso para trabalhar o conteúdo de unidades de medidas, bem como reconhecer os prefixos comuns das unidades utilizadas no jogo (R.E.A. 35.1). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 125 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Conclusão Retomando a questão que norteou este estudo, concluímos que os trabalhos analisados indicam que o Ensino de Química na América Latina ainda está pautado em ideias hegemônicas do pensamento europeu, pois não obtivemos trabalhos que indicassem explicitamente ou ressaltaram a importância do ensino decolonial. Outro aspecto importante é que muitos resumos trazem propostas pedagógicas que abordam conceitos e conhecimentos da ciência Europeia, ou seja, poucos trabalhos abordam aspectos próprios do contexto latino-americano, desde outras cosmovisões ou, até mesmo, relacionando culturas ancestrais. Vale ressaltar que a abordagem decolonial é um campo ainda incipiente na área de Ensino de Química. Por isso, embora o termo “decolonialidade” não tenha sido encontrado nos trabalhos analisados, é perceptível que algumas das ideias apresentadas orbitam em torno dessa perspectiva. Diante desse panorama, por meio da análise realizada, esperamos contribuir para o fomento de um ensino decolonial, reconhecendo as significativas contribuições que esse pode oferecer à nossa sociedade, promovendo, assim, a decolonização do ser e do saber. 126 REFERÊNCIAS BERBEL, N. As Metodologias Ativas e a Promoção da Autonomia dos Estudantes Semina: Ciências Sociais e Humanas. Londrina, p. 25-40, 2011. CARVALHO, I.; MONTEIRO, B.; COSTA, F. A lei 10.639/ 03 no ensino de ciências: uma proposta decolonial para o currículo de Química. Revista Exitus, v. 9, n.5 p.47-76, 2019. FERREIRA, P. F. M.; QUEIROZ, A. S.; MENDONÇA, P. C. C. Modelagem e representações no ensino de ligações iônicas: análise em uma estratégia de ensino. Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Ciências, 6., 2017, Florianópolis-SC, 2007. GERHARDT, T. E.; SILVEIRA, D. T. (org.) Métodos de pesquisa. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009. GOMES, N. L. O movimento negro educador. Petrópolis: Vozes, 2018. KOMATSU, R. S.; ZANOLLI, M. B.; LIMA, V. V. Aprendizagem baseada em problemas. Educação médica. São Paulo: Sarvier, 1998. LIMA, N. R.; MEDEIROS, A. E.; SARMENTO, M. A. Formação inicial e continuada de professores: tecendo reflexões, p. 1-10, 2012. LOVATO, F. L. Metodologias Ativas de Aprendizagem: uma breve revisão. Acta Scientiae, v. 20, n. 2, 2018. MORAES, R.; GALIAZZI, M. C. Análise Textual Discursiva. 3. ed. Ijuí: Ed. 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Nesse contexto, consideramos importante utilizar essas tecnologias para enriquecer os processos de aprendizagem, promovendo uma educação que esteja em sintonia com as mudanças e as exigências contemporâneas. Dourado et al. (2014) discutem que as tecnologias vêm sendo amplamente utilizadas pela sociedade, e, consequentemente, a escola enfrenta grandes desafios para se adequar ao desenvolvimento do mundo digital. Os autores acrescentam que o rápido acesso à comunicação e à informação por meio de diferentes ferramentas tecnológicas pode ser explorado pelos professores, contribuindo para uma aprendizagem mais significativa. O Ensino de Ciências, cada vez mais, enfrenta o desafio de que metodologias e ferramentas tradicionais já não produzem as contribuições esperadas para o processo formativo dos estudantes, tornando as aulas, muitas vezes, entediantes e desconectadas da realidade e cotidiano dos alunos. Diante disso, deve-se refletir sobre novas alternativas pedagógicas. Nesse sentido, Santos (2022, p. 66) afirma que “aos docentes, que antes buscavam alternativas para melhorar o aprendizado, hoje as tecnologias de informação e comunicação (TIC) promoveram um amparo, que, além dos métodos tradicionais, facilitam e norteiam a relação do professor com o aluno”. Assim, o uso dessas tecnologias pode contribuir na superação de métodos tradicionais de ensino e aprendizagem, além de promover diálogos entre todos os participantes do processo educativo (docentes e discentes). Diante desse contexto, o uso das TIC pode facilitar o compartilhamento de informações, e também pode promover sua integração, permitindo interações colaborativas (Almeida et al., 2020; Dourado et al., 2014). O uso de tecnologias na educação torna-se fundamental à medida que a sociedade se transforma constantemente, o que sugere também a necessidade de repensar os processos educativos. Posto isso, compreende-se que a criação de novas possibilidades é um marco para a comunicação e interação no processo de construção do conhecimento. Considerando o anterior, destaca-se a importância de uma crítica sobre as implicações éticas das demandas geradas pelo desenvolvimento tecnológico. Em muitos casos, a geração de novos produtos tem a finalidade exclusiva de gerar lucro, o que nem sempre corresponde às necessidades sociais e ambientais. Um exemplo claro é a obsolescência programada, ou seja, a criação de produtos com baixa vida útil. Embora este estudo não se aprofunde nesses aspectos, é fundamental reconhecer a relevância dessas questões ao discutir o desenvolvimento tecnológico. Em relação ao uso de tecnologias nos tempos atuais, é possível citar o caso das inteligências artificiais – IAs. Rodrigues e Rodrigues (2023) apontam que o século XXI marca o seu auge das produções acadêmicas relacionadas a esse tema, sendo que ferramentas como o Chat GPT oferecem versões tanto gratuitas como pagas, além de produção de respostas, textos e linguagens. Essas tecnologias estão cada vez mais presentes nos ambientes educativos, em que os estudantes têm contato direto com elas. Esse cenário torna urgente a reflexão sobre o uso adequado dessas ferramentas. Nesse sentido, a utilização desses recursos integra a construção do conhecimento pelos estudantes, uma vez que as tecnologias derivam de orientações pedagógicas estratégicas, inseridas em contexto educacional específico. Soares-Leite e Nascimento-Ribeiro (2012, p. 175) discutem o uso das tecnologias e ressaltam a importância de sua aplicação baseada em determinados pressupostos. Os autores afirmam que: Para a inclusão dessas tecnologias na educação, de forma positiva, é necessária a união de multifatores, dentre os quais, pode-se destacar como mais importantes: o domínio do professor sobre as tecnologias existentes e sua utilização na prática, e isso passa, necessariamente, por uma boa formação acadêmica; que a escola seja dotada de uma boa estrutura física e material, que possibilite a utilização dessas tecnologias durante as aulas; que os governos invistam em capacitação, para que o professor possa atualizar-se frente às mudanças e aos avanços tecnológicos; que o professor se mantenha motivado para aprender e inovar em sua prática pedagógica; que os currículos escolares possam integrar a utilização das novas tecnologias aos blocos de conteúdos das diversas disciplinas; dentre outros. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 130 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 131 Diante disso, percebe-se que a utilização das tecnologias nos ambientes educativos exige uma reflexão aprofundada que aborda questões pedagógicas, políticas e econômicas. A inserção de novas tecnologias, nesse contexto, deve ser considerada como parte de políticas públicas voltadas para o aprimoramento do processo de ensino e aprendizagem, potencializando de forma significativa a formação dos estudantes. Essa inserção exige uma abordagem que justifique sua aplicação em sala de aula. As TIC são uma dessas alternativas, considerando que a relação entre tecnologia, informação e comunicação já faz parte da realidade dos estudantes. Mas, afinal, o que são as TIC? Dourado et al. (2014) discutem que as TIC podem ser compreendidas como tecnologias e ferramentas destinadas a compartilhar, distribuir e reunir informações, formando um conjunto de recursos tecnológicos que as pessoas utilizam para se comunicar. Para os autores, as TIC representam valiosos recursos pedagógicos que podem auxiliar no processo de construção do conhecimento, graças à diversidade de funcionalidades que oferecem. Com o uso delas, o estudante assume uma postura mais investigativa, demonstrando maior interesse em aprender o conteúdo e aprimorar sua própria construção do conhecimento. Locatelli, Zoch e Trentin (2015) reforçam essa concepção das TIC, destacando que elas contribuem para o acesso a materiais educativos de qualidade, além de promover práticas didáticas mais atraentes, resultando em uma aprendizagem mais significativa e duradoura. As tecnologias tornam a escola mais envolvente para os estudantes, já que eles fazem parte da “geração digital”, com experiências como leituras por meio de softwares e o desenvolvimento do pensamento computacional. Assim, entendemos que o uso das tecnologias, quando cuidadosamente planejado pelo professor, é uma alternativa viável para superar uma visão mecânica e desconectada dos processos de ensino e aprendizagem. Estudos recentes (Pereira et al., 2020; Yamaguchi, 2021; Fiori, Goi, 2020; Bento; Paula; Sangiogo, 2024) têm debatido diversos aspectos relacionados ao uso das TIC no Ensino de Química, abordando desde questões sobre a formação de professores, como práticas em estágios supervisionados, até aprendizagens em contextos remotos, especialmente durante o período de pandemia. Vejamos a seguir. Pereira et al. (2020) realizaram um estudo sobre o tema “caloria dos alimentos”, associando-o aos conceitos científicos da termoquímica na perspectiva Ciência – Tecnologia –Sociedade – Ambiente – CTSA, por meio do uso das TIC. Foram realizados três momentos didáticos para explorar a perspectiva CTSA de modo investigativo, utilizando diferentes ferramentas, como WhatsApp, App Desrotulando, e-mail, Google Forms e Jiti Meet. Como resultado, observou-se que o uso de diversas plataformas e aplicativos contribuiu para uma maior interação, socialização e diálogo entre o professor e os estudantes. Além disso, constatou-se que os educandos tiveram momentos de reflexão, criticidades e sensibilização num período pandêmico, processo facilitado pela utilização das TIC. Assim como na pesquisa realizada por Pereira et al. (2020), Yamaguchi (2021) também investigou o uso das TIC durante o período remoto, relatando uma experiência no Ensino de Química Inorgânica na pandemia. Caracterizado como um estudo de caso, o estudo utilizou a plataforma Mentimeter, que auxiliou na avaliação da aula de Química pelos estudantes. Os participantes demonstraram entusiasmo e apresentaram um bom aproveitamento nas atividades desenvolvidas, além de produzirem vídeos e utilizarem materiais de seu cotidiano. Fiori e Goi (2020) avaliaram a aprendizagem dos estudantes no Ensino de Química em um colégio privado por meio do Google Classroom. As autoras enfatizam que os métodos de ensino devem acompanhar as TIC, uma vez que essas ferramentas podem contribuir para o processo de ensino e aprendizagem em diferentes contextos. Neste trabalho, utilizaram-se questionários para averiguar as concordâncias e discordâncias sobre o Ensino de Química, a fim de compreender possíveis contribuições das TIC. Como resultado, observou-se que os discentes afirmaram ter dificuldades com os conceitos científicos de Química; ainda assim, obtiveram resultados favoráveis em relação ao ensino remoto. Bento, Paula e Sangiogo (2024) discutem as TIC no contexto dos estágios supervisionados, investigando seu uso no ensino remoto, em uma disciplina de Química. Para isso, foram utilizadas diferentes plataformas como o Google (Classroom, Meet, Forms, Gmail), Mentimeter, Phet Colorado e Kahoot. A partir desse estudo, conclui-se que o uso das TIC contribui para a interação, visualização e simulação de experimentos, facilitando os processos de ensino e aprendizagem. Destaca-se o uso do Kahoot que tornou a aula mais lúdica e dinâmica. Essas pesquisas apontam que as TIC podem ser ferramentas significativas no processo de ensino e aprendizagem, desde que sejam utilizadas de forma consciente e estratégica pelos professores. Além disso, as TIC também desempenham um papel importante nos processos avaliativos, comunicacionais e metodológicos dentro do contexto educacional. Diante disso, objetivou-se investigar o que tem sido publicado por pesquisadores no Ensino de Química latino-americano, acerca do uso de TIC. Resultados Os trabalhos analisados estão expostos no Quadro 1. Já o processo de categorização apresentado no Quadro 2, no qual se evidencia a formação das categorias, a partir das unidades de significado. Nesse quadro, é possível identificar as categorias finais emergentes, que serão debatidas ao longo deste estudo. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 132 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 133 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Quadro 1 – Material empírico constituído no eixo “TIC” Fonte TIC5 Educación en la Química Juan Ariel Pullao; Experiencia teórica-práctica Argentina virtual sobre tensión superficial Mauricio Arce; Adriana Serquis y capilaridad TIC11 Educación en la Química Realidad Aumentada como Argentina recurso disruptivo para explorar la Química Orgánica Mario Fernando Bustillo López; Liliana Ferrer; Silvana Videla; Gabriela Ohanian; Sergio Vardaro; 2022 TIC13 Educación en la Química Simulaciones para complementar el estudio de Argentina la cinética Química a nivel básicos Sergio Baggio 2021 TIC14 Educación en la Química El desafío de los prácticos de laboratorio en la formación Argentina docente en tiempos de pandemia Nora Raquel Nappa; Susana Pandiella 2022 TUC18 Educación en la Química Uso de Herramientas Tecnológicas en la Enseñanza Fernando Gabriel Olivares Argentina de “La Estructura de la Materia y su Constitución” 2022 TIC19 Educación en la Química El desafío de pensar, proponer, Miriam Gladys Acuña; planificar, y ejecutar en forma Gladis Edith Medina; Argentina remota la XIX Reunión de Griselda Marilú Marchak; Educadores en Química Alicia Jeannette Baumann 2021 TIC21 Educación en la Química Incorporación de realidad aumentada como propuesta Argentina didáctica para la enseñanza y el aprendizaje de ciencias María Alejandra Carrizo; Marta Estefanía Barutti; Sofía Belén Soto 2022 TIC27 Educación Química México Introducción a la nanotecnología mediada por videojuegos: una propuesta teórica Octavio Federico Garate; Lionel Sebastian Veiga 2022 México Ignacio Julio Idoyaga; Laura Vargas-Badilla; Conocimientos del profesorado Cesar Nahuel Moya universitario sobre la Eric Montero-Miranda; enseñanza de la química con Jorge Esteban Maeyoshimoto; laboratorios remotos Fernando Gabriel Capuya; Carlos Arguedas-Matarrita México Aplicación de Realidad Aumentada para Laboratorios de Química TIC28 Educación Química TIC137 Educación Química País Título Autores Ano ID Diógenes Hernández; Elizabeth Bottner; Fernando Cataldo; Eduardo Zaragoza 2021 2021 2021 continua 134 México Implementación de Taller de Aprendizaje Activo en Aulas masivas para potenciar el rendimiento académico en Química, en estudiantes de Medicina Veterinaria de primer año Marco Galleguillos Caamañoa; Mónica Osorio Vargasb; Natalia Álvarez Lobosb; Carlos Caamaño Silvab; Paola González Valderramab; María Jesús Barbagelata Ravanalb; Gabriel Manríquezb; Héctor Adarmes Ahumadaa 2019 Celia Torres Quezada 2018 TIC155 Educación Química TIC194 Educación Química México Relaciones de la química con matemática y lenguaje: propuesta de aprendizaje en un entorno virtual TIC158 Educación Química México Herramientas digitales para la Francisco Brovelli Sepúlveda; Francisco Cañas Urrutia; enseñanza y aprendizaje de Química en escolares Chilenos Carla Bobadilla Gómez 2018 TIC101 Pensamiento Educativo Chile Incorporación de realidad aumentada en el desarrollo Cristian Merino; de la visualización. Un estudio Álvaro García García con estudiantes de secundaria en torno al modelo atómico 2019 Revista Educación Costa Rica Relación entre el uso del aula virtual y el rendimiento académico en estudiantes del curso de Bioquímica para Enfermería de la Universidad de Costa Rica Jorge Granados-Zúñiga 2019 TIC129 Conrado Cuba El aprendizaje de la química con apoyo de las TIC: necesidad u oportunidad Margarita Suárez Navarro; Reinier Lemos García; Roberto de Armas Urquiza 2021 TIC164 Revista Chakiñan de Ciencias Sociales y Humanidades Actividades experimentales utilizando simuladores Equador virtuales para el aprendizaje de Química en tiempos de pandemia por COVID-19 Elena Patricia Urquizo Cruz; Narcisa de Jesús Sánchez Salcán; Monserrat Catalina Orrego Riofrío 2022 TIC191 Ciencias de la Educación Mercedes Viviana La efectividad de la educación Cedeño Solorzano; Lourdes Del Consuelo Pico Franco; Equador virtual frente a la pandemia Leidy Esther Palacios Saltos; en Ecuador Pedro Mauricio Niemes Muñoz 2021 TIC88 Educación Química México TIC186 El sistema CRISPR/Cas, crónica de un premio Nobel anunciado Mario Zurita 2022 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização continua EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 135 continuação TIC89 TIC159 Educación Química Educación Química México Apps como herramientas digitales en la enseñanza de nomenclatura inorgánica Ricardo Adolfo Manivel Chávez; Mireya Ramos Rendón; Rosalynda Sánchez Vázquez 2021 México Uso de un simulador para María del Mar López Guerrero; facilitar el aprendizaje de las reacciones de óxido-reducción. Gema López Guerrero; Santiago Rojano Ramos Estudio de caso Universidad de Málaga 2018 México Las TIC y las estrategias de enseñanza aplicadas en el desarrollo de las clases virtuales en las Luisa Concepción Escurra Álvarez materias de química y física en el nivel medio del colegio nacional San Javier en el año 2020-2021 2021 México Avaliação da aplicação da metodologia aprendizagem baseada em problemas na disciplina de tecnologia da informação e comunicação no ensino de química Ciencia Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização TIC117 Latina Revista Multidisciplinar TIC209 Educación Química Ivoneide Mendes da Silva; Walquíria Castelo Branco 2019 Lins; Marcelo Brito Carneiro Leão Fonte: Elaborado pelos autores, 2024. Quadro 2 – Categorização a partir da ATD Categorias iniciais As TIC como TIC como ferramenta facilitadora da no Ensino de Química aprendizagem O uso das TIC em uma perspectiva interdisciplinar Atividade Experimental para o desenvolvimento O uso das TIC no período cognitivo e a de pandemia apropriação crítica do conhecimento por meio das TIC O uso das TIC em uma perspectiva interdisciplinar Atividade Experimental para o desenvolvimento O uso das TIC no período cognitivo e a de pandemia apropriação crítica do conhecimento por meio das TIC Categorias intermediárias O papel das TIC como impulsionadoras da aprendizagem e seu uso direcionado ao Ensino de Química Categorias finais TIC: aulas inovadoras ou algo mais que isso? TIC e atividades experimentais: relação professor e aluno Fonte: Elaborado pelos autores, 2024. a) TIC: aulas inovadoras ou algo mais que isso? Como apresentado anteriormente neste estudo, o uso das TIC, quando utilizado de forma estratégica e consciente pelos professores, pode vir a ser um agente facilitador nos processos de ensino e aprendizagem, auxiliando tanto o docente quanto o discente. É importante destacar que o contexto em que as aulas ocorrem influencia diretamente na aplicação dessas tecnologias. Por exemplo, durante o ensino remoto amplamente adotado no período da pandemia, houve uma demanda urgente por parte das escolas para desenvolver mecanismos didático-pedagógicos virtuais. Esse contexto exigiu a criação de novas abordagens para garantir o engajamento e a aprendizagem dos alunos. Nesse sentido, as TIC se tornaram fundamentais. Exemplos disso são as unidades de significado: A incorporação da realidade aumentada no contexto de sala de aula virtual ou presencial constitui um desafio e uma oportunidade de apresentar aos estudantes conteúdos interativos (TIC21.1, tradução nossa). Analisar as TIC utilizadas e as estratégias de ensino aplicadas para o desenvolvimento das aulas virtuais na disciplina de Química e Física no nível médio do Colégio Nacional San Javier (TIC117.1, tradução nossa). Os dois trabalhos discutem o uso das TIC em ambientes virtuais. Segundo os autores, a adoção de tecnologias no ensino é importante nos dias de hoje, especialmente diante dos espaços formativos que estão adequando-se aos avanços tecnológicos. Nesse sentido, essas perspectivas dialogam com o que Dourado et al. (2014) abordam ao tratar da relação entre tecnologia e sociedade, destacando a emergência do mundo digital como parte integrante da construção dos processos educativos. Existem diversos tipos de tecnologias que podem ser incorporadas ao ensino, oferecendo ao professor uma ampla gama de alternativas para suas aulas. A grande quantidade de mídias digitais e redes sociais presentes no cotidiano dos estudantes representa oportunidades que podem ser exploradas pedagogicamente. A unidade de significado, a seguir, exemplifica essa realidade: Entre as descobertas relevantes está o fato de que os aplicativos de TIC mais usados nas salas de aula virtuais são atualmente os mais manipulados, como WhatsApp, Telegram, Meet, Zoom, e-mail e a plataforma do MEC (TIC117.2, tradução nossa). É evidente que, além de serem amplamente usados pelos estudantes em seu dia a dia, essas plataformas apresentam vantagens como a rapidez na disseminação de informações, maior atratividade e a formação de redes de Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 136 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 137 comunicação que podem potencializar o processo de ensino de aprendizagem. No entanto, é necessário que os professores façam uma seleção cuidadosa dessas ferramentas, segurando que o uso esteja alinhado a objetivos didático-pedagógicos bem definidos. Essas ferramentas podem ser utilizadas de forma estratégica para garantir que seu uso vá além da simples utilização de plataformas e softwares para tornar a aula mais “interessante e inovadora”, objetivando o aprofundamento teórico e a aprendizagem dos estudantes. As TIC vêm sendo amplamente utilizadas por sua capacidade de contribuir em diferentes esferas da aprendizagem, desde a criação de aulas mais atrativas até a articulação entre teoria e prática, o que favorece a compreensão dos conceitos científicos. As unidades de significado, a seguir, ilustram essas contribuições: [...] o desenvolvimento de um Sistema de Visualização Molecular (MDS) de estruturas químicas usando TICs, para melhorar a apresentação de modelos estruturais em cursos de Química Geral (TIC127.1, tradução nossa). Uma ferramenta que permite compensar a falta de experimentação em nível escolar é o laboratório virtual, embora no Chile haja poucos relatos sobre o uso desse tipo de ferramenta (TIC158.1, tradução nossa). A TIC será usada para melhorar a compreensão de um dos conceitos químicos considerados mais difíceis de serem entendidos pelos alunos, ou seja, as reações de oxidação-redução (conhecidas como reações redox) (TIC179.2, tradução nossa). Percebe-se que o uso das TIC, além de tornar as aulas mais dinâmicas e envolventes, contribui para uma melhor aprendizagem. Isso ocorre porque os estudantes podem visualizar e compreender de maneira mais detalhada conceitos químicos, frequentemente, considerados de alta complexidade. Uma das principais dificuldades no Ensino de Química reside na compreensão dos fenômenos submicroscópico, nos quais os alunos, muitas vezes, têm dificuldade em conectar o nível atômico e molecular ao mundo macroscópico, tornando-a muito abstrata (Alves; Sangiogo; Pastoriza, 2021). Nesse sentido, as TIC desempenham um papel relevante ao permitir que esses níveis de representação se tornem mais tangíveis e compreensíveis para os estudantes, como, por exemplo, a criação de laboratórios virtuais como será apresentado na unidade de significado TIC158.1. b) TIC e atividades experimentais: relação professor e aluno Ao refletir sobre o processo de ensino, ou seja, sobre a prática do professor, é fundamental considerar também o aprendizado dos estudantes. Isso implica pensar em como o conhecimento ensinado pode ser assimilado de forma significativa pelos alunos, proporcionando um sentido real para eles. A utilização de práticas experimentais no Ensino de Química possui grande valor, pois, frequentemente, desperta maior interesse nos estudantes (Alves Filho, 2000). A relação entre teoria e prática é essencial para a construção do conhecimento e da aprendizagem, uma vez que permite ao aluno conectar o mundo macroscópico, acessível em seu cotidiano, com o mundo submicroscópico que ele estuda. Andrade e Viana (2017) destacam que, na experimentação, o professor atua como um guia. Sua prática é essencial para propor intervenções que promovam mais interatividade, dinamismo e reflexão, possibilitando que o aluno tenha um papel ativo na construção de seu conhecimento. Assim, as práticas experimentais devem ser planejadas de forma a considerar tanto o papel do professor quanto o envolvimento dos alunos, para que a aprendizagem reflita melhores compreensões. As unidades de significados, a seguir, destacam que: No campo educacional, foi usado para complementar materiais didáticos com modelos virtuais que estimulam a percepção e a compreensão de conceitos químicos (TIC11.2, tradução nossa). [...] de uma perspectiva teórica, os videogames do tipo Souls podem funcionar como uma porta de entrada e um meio de representar conceitos com vários graus de dinamismo para introduzir noções básicas de nanotecnologia (TIC24.1, tradução nossa). O uso de recursos virtuais tem se mostrado um grande facilitador na compreensão do submicroscópico pelos alunos, permitindo que conceitos químicos sejam representados de forma dinâmica e interativa. Ademais, ao integrar o uso das TIC com atividades experimentais, possibilita-se o desenvolvimento de novas habilidades nos estudantes, significativas para o seu crescimento acadêmico e pessoal. A unidade de significado, a seguir, destaca essa importância: [...] identificar ligações químicas por meio de uma atividade experimental problematizadora, aumentando o potencial de desenvolvimento cognitivo e a apropriação do conhecimento científico pelos alunos de forma crítica e reflexiva (TIC1.2, tradução nossa). Formar estudantes críticos e atuantes na sociedade, por meio de práticas experimentais, aliadas à tecnologia, permite compreender como as TIC contribuem para o desenvolvimento dos participantes no contexto escolar. Assim, as práticas experimentais podem favorecer a realização de práticas colaborativas, nas quais os estudantes desenvolvem determinado conceito Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 138 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 139 científico em grupo, com o apoio das TIC. Nesse sentido, essa formação promove o aprimoramento do ambiente em que os alunos estão inseridos, articulando o conhecimento científico através de atividades colaborativas. A unidade de significado, a seguir, esclarece que: Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização O projeto foi concebido para desenvolver habilidades e competências científicas e incentivar o trabalho colaborativo, ao mesmo tempo em que constitui uma comunidade de aprendizado virtual para alunos e professores (TIC14.2, tradução nossa). Estudos na área do Ensino de Química vêm evidenciando essas articulações, reforçando a ideia de que atividades experimentais não se restringem a uma Química meramente instrumentalizada. Pelo contrário, elas podem ser aliadas a práticas mediadas pelo professor, conferindo um significado na aprendizagem dos alunos (Andrade; Viana, 2017). Considerações finais A utilização de práticas tradicionais no Ensino de Química ainda prevalece e tem orientado muitas aulas. Diante desse cenário, torna-se fundamental reconhecer a necessidade de buscar novas alternativas que despertem maior interesse nos estudantes. Esse engajamento pode ser estimulado através do uso de tecnologias pelos professores em sala de aula. O objetivo deste estudo foi investigar como o uso das TIC pode potencializar o processo de ensino de aprendizagem no Ensino de Química. A partir dessa investigação, identificou-se que a integração das TIC depende de uma série de fatores políticos, econômicos e pedagógicos. Portanto, a inserção dessas tecnologias, como plataformas digitais, aplicativos e ambientes virtuais, deve ser cuidadosamente planejada, levando em consideração a influência no processo de ensino e aprendizagem. É válido ressaltar que as dimensões políticas e econômicas são pouco abordadas nos trabalhos. Entende-se que esses aspectos são fundamentais para estabelecer relações entre o uso das TIC no Ensino de Química, no contexto latino-americano de educação, uma vez que a criação de demandas tecnológicas está atrelada a uma série de fatores, como: a implementação e acesso de tecnologias que dependem de recursos financeiros. Então, como pensar nas instituições que dispõem de poucos recursos? Quem define e promove essas tecnologias? Quais são os objetivos ao implementar determinadas plataformas na aprendizagem? Esse debate é importante para compreender de onde, para quê e como o uso das TIC no Ensino de Química, na América Latina, pode ser aplicado e de que forma contribui para o desenvolvimento real do processo de ensino e aprendizagem. Portanto, evidencia-se a falta de discussões políticas mais aprofundadas acerca desses questionamentos expostos no parágrafo anterior. 140 REFERÊNCIAS ALVES FILHO, J. P. Atividades experimentais: do método à prática construtivista. 2000. 448f. Tese (Doutorado em Educação) – Centro de Ciências da Educação, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2000. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/79015. Acesso em: 20 dez. 2024. ALVES, N. B.; SANGIOGO, F. A.; PASTORIZA, B. S. Dificuldades no ensino e na aprendizagem de Química Orgânica do Ensino Superior: estudo de caso em duas universidades federais. Química Nova, v. 44, n. 6, p. 773-782, 2021. DOI: http://dx.doi.org/10.21577/0100-4042.20170708. ANDRADE, R. S.; VIANA, K. S. L. Atividades experimentais no Ensino de Química: distanciamentos e aproximações da avaliação de quarta geração. Ciência e Educação, Bauru, v. 23, n. 2, p. 507-522, 2017. DOI: https://doi. org/10.1590/1516-731320170020014. BENTO, A.; PAULA, C.; SANGIOGO, F. TICs no Ensino de Química: propostas e análises no contexto do estágio. Revista Insignare Scientia – RIS, v. 7, n. 3, p. 3-22, 2024. DOI: https://doi.org/10.36661/2595-4520.2024v7n3.14629. DOURADO, I. F.; SOUZA, K. 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Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EMERGÊNCIAS E REFLEXÕES Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização O ENCONTRO COM VICENTE TALANQUER: implicações para a educação química em uma história de formação Maria do Carmo Galiazzi Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Introdução Fui desafiada pelo coordenador do projeto de pesquisa Mapequim/AL a escrever sobre alguma emergência de estudo, a partir do desenvolvimento da pesquisa. Pensei muito sobre o que escrever, algum conceito, algum tema dos tantos que surgiram nas leituras dos textos, procurar aprofundar o conhecimento de um dos autores hispano-falantes trazidos nas discussões dos eixos, nos diferentes textos que escrevemos. Decidi escrever sobre o encontro com textos do mexicano Vicente Talanquer, professor com intensa atuação na área de Química Geral e pesquisador na área da Educação Química. Este encontro ocorreu a partir da intenção de compreender a atuação de professores de Química, durante a pandemia de covid-19. Analisar textos de pesquisadores sobre a pandemia resultou de um dos eixos temáticos do mapeamento de professores e pesquisadores da América Latina hispano-falantes. Em um dos textos daquele eixo temático, foi descrita uma ação de formação de professores universitários promovida pela Universidade de Buenos Aires – UBA – aberta a outros professores interessados em refletir sobre a atuação em sala de aula, em decorrência da decisão de desenvolver um ensino remoto não só na Argentina, mas também em muitos países no mundo. Nesta ação, foi chamado para conversar com os professores universitários, o professor Vicente Talanquer que se tornou uma de nossas referências para compreender naquele eixo temático os desafios apresentados para minimizar as dificuldades impostas pelo isolamento social durante a pandemia. Esse encontro nos levou à busca da produção acadêmica do professor e nos orientou também em outro eixo temático do projeto, eixo denominado de “Os Conteúdos de Química”. E entre a leitura de textos resultantes do mapeamento com inúmeros autores que poderiam ser escolhidos como emergentes para a escrita de texto para esta seção do livro, escolhi me dedicar a compreender os argumentos de Vicente Talanquer para o ensino de Química com implicações para a Educação Química, na América Latina, especialmente, num texto recente que trata dos desafios para a Educação, em Ciências, na AL. Um dos aspectos preponderantes nesta escolha foi o fato de ele apresentar argumentos para a Educação em Ciências para a AL, sendo professor nos Estados Unidos, na Universidade do Arizona, ou seja, sua atuação docente está situada num contexto que deu origem ao currículo de Química que teve por objetivo melhorar o ensino de Ciências e cujas reformas educacionais no contexto americano têm sido foco de críticas da mesma forma que as reformas no Brasil. Este movimento desencadeado pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha se espalhou pelo mundo ocidental. Se assim foi, provavelmente, Talanquer formou-se neste ensino monolítico no México que, posteriormente, passou a questionar. Parece-me que não é diferente de muitas de nossas histórias docentes. Fomos ensinados, se não naquele modelo proposto na reforma dos anos de 1960 em modos que buscamos apresentar possibilidades de superação, ou seja, vivemos nesta mesma contradição. Como pesquisadores na Educação em Ciências estamos em diálogo forte com autores europeus, ingleses, americanos e canadenses e menos com autores latino-americanos, razão de nos voltarmos para a AL e nos aproximarmos da produção acadêmica de pesquisadores hispano-falantes da área da Educação Química da AL. Não com isso se trata de abandonar aqueles autores, mas olharmos também para a produção de conhecimento na AL. O texto será permeado por fragmentos de minhas experiências de formação em que refleti sobre semelhanças e distanciamentos aos fatos apontados em Talanquer (2024), pois durante a leitura do texto me perguntava sobre qual havia sido meu ensino de Ciências. Para entender melhor, minha formação, busquei por textos que tratam da história do Ensino de Ciências, não é este texto, entretanto, uma pesquisa de cunho histórico. É apenas uma tentativa de compreensão; afinal, em que premissas esteve baseado o ensino que recebi e como fui me constituindo como professora, a partir dessas premissas. Assim, este texto inicia abordando o fenômeno que desencadeou um mesmo currículo de Ciências ao redor do mundo para, posteriormente, apresentar a formação de professores, a Educação em Ciências e a pesquisa nesta área articuladas as minhas vivências como aluna da Educação Básica e de graduação no bacharelado em Química, professora de Ciências na Educação Básica, durante a graduação no bacharelado. Posteriormente, aluna da Licenciatura em Ciências. Na universidade, professora de Química Geral e Química Orgânica nos cursos de Engenharia e, em seguida, com atuação na formação de professores de Química e de Ciências. Na pesquisa com orientação de dissertações e teses, com foco na formação de professores de Ciências. Poderia ainda dizer que o autor escolhido foi muito citado nos artigos encontrados no mapeamento. Os autores latino-americanos mais citados nos artigos apontados pelo mapeamento foram: Andoni Garritz (México) com 65 citações, José Antônio Chamizo (México) com 64 citações, Vicente Talanquer Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 146 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 147 (México) com 45 citações e Agustín Adúriz-Bravo (Argentina) com 41 citações (Teles et al., 2024). Vicente Talanquer é uma referência para os pesquisadores e era quase meu desconhecido. Assim, este texto é resultado de um estudo que fiz sobre o autor. Não é um texto de pesquisa, tampouco uma pesquisa narrativa, mas como fomos desafiados, é uma emergência, um autor que eu desconhecia, um latino-americano hispano-falante que é professor nos Estados Unidos que me fez pensar sobre minha própria constituição como professora na área da Educação Química. Pergunto-me: permanecemos sob a influência dos Estados Unidos? Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização O ensino de ciências decorrente da guerra fria e seus desafios Talanquer (2024) descreve sobre a importância dada ao ensino de Ciências e às reformas da década de 1960 desencadeada pela corrida espacial entre União Soviética e Estados Unidos. O propósito dessa reforma foi aprofundar conceitos para compreender princípios, leis e teorias científicas fundamentais em atividades de investigação. Isto pode ser percebido nos esforços de publicações importantes para o ensino nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Esses materiais foram a base para a produção de materiais e textos em todo o mundo, inclusive na América Latina (Talanquer, 2024). Na Química, são exemplos o Chemical Education Material Study e o Nuffield Chemistry, encontrei esses livros quando era professora de Química Geral na universidade, a partir dos anos 90. Nardi e Almeida (2014), ao delinear a formação da área de ensino em Ciências, no Brasil, apontam que a origem a área de Educação em Ciências no país teve como um dos fatores importantes quando pesquisadores iniciaram sua carreira profissional na Fundação do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura/Fundação Brasileiro do Ensino de Ciências –Ibeec/Funbec – com a tradução de projetos importados, inicialmente, para depois passar para a elaboração de projetos nacionais. O Ibecc foi fundado em 1946, a Funbec em 1966 e, posteriormente, como entidades independentes, tinham objetivos comuns de melhoria do ensino de Ciências, assumindo a importância de atividades experimentais durante o período militar. O material traduzido não teve a repercussão esperada nas escolas, por isso me pergunto se este currículo que Talanquer (2024) denomina de currículo monolítico foi mesmo dominante (Anderson, 2008). A preocupação com o ensino de Ciências é anterior ao período citado por Talanquer (2024), pois desde 1930 considerava-se que a Educação em Ciências era determinante para elevar o nível cultural da população. O anafalbetismo era elevado, trazendo para minhas lembranças, na cidade pacata em que eu 148 As deficiências do ensino de nível secundário, de caráter imediatista para o ingresso ao ensino de nível superior e a falta de estímulo ao pensamento científico no modelo tradicional de ensino, no qual era mínima a presença na grade curricular de matérias relacionadas à Ciência, criavam um arcabouço que impactava diretamente no tipo de ensino superior que se desenvolvia, pouco vocacionado para a pesquisa científica, e concentrado apenas na formação de profissionais liberais médicos, advogados e engenheiros. Seria necessário um novo aluno no ensino de níveis primário, técnicoprofissional e secundário, para que a universidade pudesse ter alguma aspiração à pesquisa científica (Anderson, 2008, p. 35). Tanto a Reforma Francisco Campos de 1931 como a Reforma Capanema de 1942 mantiveram a dualidade do ensino ao opor o ensino de níveis primário e profissional e o ensino de níveis secundário e superior. Assim, persistiram as deficiências do ensino de nível médio com predomínio da tendência à memorização e atitudes passivas em aula, a pouca presença de atividade experimental, o ensino, predominantemente, teórico. No ensino de nível superior, persistem os mesmos problemas (Anderson, 2008). Esta estrutura do ensino está presente nas lembranças sobre minha entrada na escola, pois ela vai se vincular ao currículo de Ciências e das disciplinas de Química, Física e Biologia. Nasci e iniciei a escola em uma pequena cidade de colonização predominantemente italiana, branca, conservadora e católica. A televisão chegou na década de 1960 como novidade na minha casa e acompanhei com idolatria de meus seis anos as reportagens relativas ao título de Miss Universo atribuído à gaúcha Ieda Maria Vargas, em 1963. Meu avô chegava à nossa casa religiosamente toda noite para assistir ao Repórter Esso, mas adormecia em frente à TV sentado em uma cadeira de balanço durante a apresentação do jornal. Ao acordar, eu ouvia: Nhentenhancancoi! Buonanote!1 Deste tempo na escola, lembro-me de ter frequentado o Jardim da Infância, mas enjoei de colocar missangas em fios, tendo por professora a Ir. Carmelita e pedi para ir para o Primeiro Ano. Isso não foi de imediato, mas fiz um teste na escola privada para entrar antes dos sete anos completos. Saberia 1 Inspirei-me a escrever esta lembrança sonora (na época eu não sabia escrever ainda, em Domenico Starnone, no livro Línguagem que assim escreve sobre as frases que ouvia de sua avó. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização viria a nascer, minha avó materna sabia escrever seu nome e aprendeu a ler nas notícias de jornais da época que chegavam a seu pequeno restaurante. Meus pais estudaram apenas até o final do Primeiro Grau, mas a influência dos Estados Unidos nesta época estava assentada na Escola Nova, com princípios trazidos do filósofo americano John Dewey. EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 149 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização reproduzir o desenho da casa que desenhei no quadro para pôr quem seria minha professora no Primeiro Ano do Primário, Ir. Maria Enilda. A organização da escola que passei a frequentar surgiu na Reforma Capanema (1942) e atingiu, especialmente, o ensino de nível secundário: Uma nova reforma no ensino fora implementada, em 1942, durante o regime autoritário do Estado Novo de Vargas, sob a coordenação do então ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema (1934-1945). O ensino de nível secundário foi reestruturado em um primeiro ciclo, chamado de ginásio (secundário, industrial, comercial e agrícola), de quatro anos, e em um segundo ciclo, de três anos, com opção entre clássico e científico (Nunes, 2000, p. 44). Nesse sentido, a reforma mantinha a orientação anterior, de uma reforma secundarista sem se desvincular do caráter de curso de passagem para a universidade. Ao chegar ao segundo ciclo, o estudante que não tivesse a intenção de ingressar em um curso universitário poderia optar por uma série de cursos profissionalizantes. Dessa forma, o curso ginasial também funcionaria como habilitação para os cursos profissionalizantes de nível médio (Schwartzman; Bomeny; Costa, 2000, p. 207). Mantinha-se o dualismo entre um ensino acadêmico voltado para uma elite e um ensino profissional voltado para ‘os menos favorecidos da fortuna’ (Anderson, 2008, p. 38). Antes de eu entrar para a escola, teve a valorização do Ensino de Ciências pela promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), nº 4.024, de 1961, em que houve a ampliação da participação das Ciências no currículo escolar, tanto nos primeiros anos do curso ginasial quanto no aumento da carga horária de disciplinas como Física, Química e Biologia no curso colegial (Krasilchik, 2000). Comecei o Primeiro Ano, em março de 1964, e ao final do primeiro mês de escola aconteceu o Golpe Militar sem que eu entendesse o aparecimento de tanques militares pelas ruas da pacata cidade. A Ditadura foi acolhida no contexto familiar conservador como necessidade de colocar ordem no país. Ouvi relatos de casas invadidas pelos militares para procurar por bibliografia suspeita. A partir daí, uma ditadura celebrada pela população e na escola sem inquietações percebidas por mim. Nos desfiles de 7 de Setembro, havia homenagem aos presidentes militares e na minha escola uma ala de estudantes era precedida por uma estudante carregando a foto de presidentes militares. O documentário O Dia, que durou 21 anos, mostra a participação dos Estados Unidos, na consolidação do Golpe Militar, em 1964. Em outubro de 1967, chegou a notícia da morte de Che Guevara, e minha tia Luci muito triste me mostrou um recorte de jornal que guardava escondido em seu computador. Eu não sabia quem era, mas me perguntei por que estava escondido em seu guarda-roupa. Na rodoviária da cidade, administrada por parentes, havia um quadro do Presidente da República Getúlio Vargas estampado na parede. Isso não era visto com simpatia por meu pai. Em 1968, foi emitido o Ato Institucional nº 5, conhecido por AI-5, marco que inaurgurou o período mais sombrio da Ditadura Militar, sob a presidência do General Arthur da Costa e Silva, mas na pacata cidade não me foi possível perceber a dureza desse regime. A expedição americana havia chegado a Lua, em 1969, com a Apollo 11, e na escola os trabalhos solicitados pela professora de Português, Ir. Clara Luíza, abarcavam esse fato extraordinário. Acompanhava todas as reportagens e as revistas da época registravam em edições especiais que foram a base de meus trabalhos escolares. Outra capa impactante na época foi a que em letras garrafais mostrava “Deus está Morto”. Perguntei a minha mãe que desconversou, e o assunto não teve maiores repercussões nem poderia naquele contexto religioso. Terminei o Primário e fui para o Ginásio, nos Anos de Chumbo e de desenvolvimento do governo militar. Disso pouco se falava que eu me lembre. Vi com deslumbramento a exigência de livros didáticos para diferentes disciplinas, razão que gerava em casa reclamações pelo gasto. Os livros de meu irmão, um ano adiantado em relação a mim, em uma escola marista, não eram os mesmos dos meus. Também houve um tipo de livro de responder diretamente ao completar as respostas dos famosos questionários. Não se podia aproveitar os exemplares dos irmãos, já preenchidos, outro fato gerador de desaprovação de meus pais em razão do gasto. Dessa época também me recordo que iniciou na minha escola o Ensino de Ciências, mas na cidade não havia professores habilitados, então a esposa do juiz foi a professora. Entre nós estudantes, corria fácil a avaliação de que a professora nada sabia. Eu respondia muitos questionários como tema de casa. Foi neste livro que fiquei extasiada quando vi pela primeira vez a Tabela Periódica. Do livro de Matemática, apareceram novos conteúdos. Lembro-me da teoria dos conjuntos e no livro, as respostas dos exercícios, que para serem lidas, precisavam de uma fita de plástico transparente vermelha. Havia, na minha escola, em uma sala pequena, o Museu de Ciências com seu cheiro característico com animais empalhados e amostras de pedras. Visitamos o Museu com a professora de Matemática e de Educação Física, Ir. Maria Francisca, responsável pela rigidez nos ensaios da banca da escola para a preparação para o desfile de 7 de Setembro. Eu ouvia em casa comentários orgulhosos sobre o alinhamento e as apresentações artísticas de ginástica, durante o desfile. Dessas lembranças, fica a importância que os Estados Unidos mantinham na minha pacata cidade. Repórter Esso no Rádio, imitação das vestimentas de Jaqueline Kennedy, nas mulheres da classe média, Posto Shell abastecendo Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 150 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 151 os carros da cidade, Brasil, Ame-o ou Deixe-o! slogan estampado nos vidros dos carros, vitória no Campeonato Mundial de Futebol de 1970 e a euforia da população. Nesse contexto, meu pai era muito amigo dos irmãos maristas da cidade e um deles frequentava nossa casa regularmente. Adorava as polentas fritas preparadas com zelo por minha mãe. Estudava Química na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Ao nos visitar, contava tantas maravilhas do poder de transformação da Química que, por muito tempo, remeti a este amigo de meu pai a responsabilidade exclusiva pela minha decisão de fazer Química, quando fosse para a universidade. Nos anos de meu ensino colegial, na capital do estado, de 1972 a 1975, decidi entre o Clássico e o Científico, por este último, pois a decisão estava tomada: queria ser química. Sem que eu me desse conta, meu ensino estava sob a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1971. Sobre este período: Na década de 1970, o projeto nacional da Ditadura Militar que estava no poder era o de modernizar e desenvolver o país. O ensino de Ciências era considerado importante componente para a preparação de um corpo qualificado de trabalhadores, conforme foi estipulado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, promulgada em 1971. Esse período foi caracterizado por uma série de fatores contraditórios, pois, ao mesmo tempo em que o texto legal [LDBEN/71] valorizava as disciplinas científicas, na prática elas eram profundamente prejudicadas pelo atravancamento do currículo por disciplinas que pretendiam ligar o aluno ao mundo do trabalho (como zootecnia, agricultura, técnica de laboratório), sem que os estudantes tivessem base para aproveitá-las. A formação básica foi danificada sem que houvesse um correspondente benefício para a profissionalização (Krasilchik, 2000, p. 16). Para dizer da bolha em que eu vivia, no segundo ano do Científico, em uma manhã apareceu em sala de aula um colega vibrando pela morte de Perón, eu não entendi a razão de tamanha celebração pelo colega. Nem meus colegas entenderam. Na escola, não se comentava nada de política. Era uma escola de estudantes brancos de classe média, poucos alunos negros. Nela, tive minhas primeiras aulas de laboratório bem equipado. Estranhava ser chamada por meu sobrenome pelos professores na chamada. Apenas uma professora, a de Biologia, Maria do Carmo, e por um período muito curto, a professora de Química, Berenice Rosito. O laboratório de Física era com atividades mais demonstrativas, por exemplo, a demonstração dos tubos de raios catódicos de J. J. Thompson e nós perfilados como em um anfiteatro. Os laboratórios de Química e de Biologia eram semelhantes para atividades em grupo em mesas grandes. Ao final do Colegial foi instituída a obrigatoriedade de um ensino profissionalizante com duração de um semestre. O meu, como não deveria surpreender, foi de auxiliar de laboratório, cursado em outra escola da mesma rede marista à noite. Essa obrigatoriedade visava o mercado de trabalho ao qual não atendeu. Lembro-me das aulas sobre cadeia carbonada e nome dos compostos carbônicos e de uma aula experimental. Talvez, essas aulas tenham contribuído para minha aprovação no curso de Química na universidade pública, embora minha primeira opção tenha sido Engenharia Química. Sim, eu visava ter trabalho quando formada e o Polo Petroquímico de Charqueadas se mostrava como horizonte de trabalho, fato que não se concretizou. Em síntese, entendo ter vivido imersa em um contexto conservador, com forte influência ideológica, política e econômica dos Estados Unidos, branco, católico, mas que se distanciava do que Talanquer (2024) afirma sobre a reforma educativa dos anos 1960 que teve como principais objetivos a compreensão e a aplicação pelos estudantes das teorias científicas para dar sentido ao mundo. Aprendi conceitos científicos abstratos com alguma comprovação experimental. Talanquer (2024) aponta para a dificuldade conceitual, o nível exigente de raciocínio matemático nos problemas estudados, a abstração dos conceitos tornou esses objetivos difíceis de serem alcançados, por grande parte dos estudantes. Sim, no meu caso, não se estudavam problemas para interpretar o mundo, mas o aprofundamento conceitual era intenso e muitos de meus colegas e eu seguimos nossa formação na universidade: foco do meu ensino. Concordo que o que aprendi em Química foi semelhante ao que Talanquer (2024) afirma: os tópicos nesses currículos não apresentavam conexões para discussão de problemas de relevância para os estudantes, o que se tornou um conhecimento a ser memorizado e os problemas, muitas vezes, resolvidos pela aplicação de fórmulas. Como estava vigente a Reforma Capanema, visava-se a aprovação de poucos na universidade. Para Talanquer (2024), nessa reforma curricular, as atividades nos laboratórios e nas escolas tinham como objetivo enfatizar o desenvolvimento de habilidades próprias da Ciência, como observação, geração de hipóteses, análise de dados e interpretação. A intenção era motivar estudantes para carreiras científicas, mas as crenças dos professores sobre o que era o laboratório mais próximo de seu significado na ciência do que na escola, a lacuna na formação de professores para melhor desenvolver essas atividades de investigação, a ausência de recursos, dentre outras dificuldades, limitaram o impacto do que foi proposto nessas reformas. Estas impactaram o Ensino de Ciências em todo o mundo, estabeleceram o que era importante ensinar e essa visão se tornou dominante e ainda está presente em muitas das proposições que se Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 152 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 153 apresentam depois dela (Talanquer, 2024). Tenho que discordar do que afirma o autor, porque minhas lembranças passam ao largo das proposições. Dados os resultados dos vestibulares, a propaganda girava em torno do número de aprovados nas universidades. O livro didático de Química durante meus anos, no Científico, referenda um ensino distanciado do currículo aos moldes dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá. O autor Geraldo Camargo de Carvalho e o ensino que tive remetiam à proposição encontrada naquele livro para resolução de problemas e de exercícios. Talanquer (2024) afirma que essas reformas tinham por foco estudantes interessados nas carreiras científicas. Eu não recebi a formação proposta pelas reformas, meu interesse diria foi mais por um discurso de progresso e garantia de trabalho. Foi esta mesma reforma apontada por Talanquer (2024) que instituiu novos currículos nos cursos de graduação, e os livros produzidos nessa época se tornaram os clássicos usados nas disciplinas. Desses livros, no início do curso, em 1976, tendo como professor, Attico Ignacio Chassot, na disciplina de Química Geral, comprei com o que representava na época um mês de meus proventos como professora de Ciências, o livro de Química Geral de John Russsel e o livro sobre Ligações Químicas, o Companion. Nosso ensino durante a graduação não me pareceu ser diferente do anterior. Estávamos a um ensino expositivo. Depois, o livro Resnick e Halliday para as disciplinas de Física muito usado na resolução de exercícios, e o livro de Química Orgânica, o Morrison, disputadíssimo nos exemplares em inglês da biblioteca do curso. Lembro-me que, em Química Orgânica, estudávamos de modo descritivo as funções orgânicas e na disciplina seguinte o modo de ensino passou a ser dos diferentes mecanismos de reação. Físico-química se estudava a partir de apostilas. Em 1978, assumi aulas como professora de Ciências e segui o livro didático de Ciências. Em 1979, alguns colegas foram para a Segunda Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química – RASBQ – realizada em julho. Não fui, porque as economias estavam voltadas para o casamento! Formei-me naquele ano. No ano seguinte, inspirado na RASBQ, Maurivan Güntzel Ramos liderou a organização do Encontro de Debates sobre o Ensino de Química – EDEQ. Não tomei conhecimento, pois à época trabalhava na indústria. Iniciavam anos de mudança, mas minha formação tinha sólida tradição em um ensino propedêutico, distante das mudanças apresentadas por Talanquer (2024) como dominante. Nessa época, decidi mudar para a educação, e meu ensino se baseava no livro de Carlos Barros. Minhas lembranças mostram as limitações do ensino que recebi, nos diferentes níveis, quando essa reforma já se espalhava pelo mundo. Talanquer (2024) aponta outras questões que se mostraram como desafios para a sua implementação. Uma delas a diversidade cultural, social, econômica dos alunos que aumentou muito na maioria dos países. Essa diversidade limitou as propostas dessas reformas que não se adequaram aos interesses e às necessidades dos estudantes e de suas comunidades, mas no meu caso havia a formação e o ensino sólido em conceitos em que as reformas dos anos de 1960 pouco haviam afetado. Meus colegas todos de classe média, brancos. Não, tive apenas um colega negro durante o Ensino Secundário. Na universidade pública, não foi diferente. Ingressei como professora de Química na universidade em 1985, ano que terminou a Ditadura Militar, ensinei conceitos e técnicas, solicitei relatórios padronizados. As atividades experimentais seguiam roteiro à risca para todos os estudantes chegarem à resposta e argumento correto. Talanquer (2024) argumenta que a intenção da reforma dos anos de 1960, bem como a LDB de 1971 era de inserir na formação a investigação, mas meu ensino se espelhava no que eu havia recebido: descritivo e explicativo das teorias. Nas aulas de laboratório, En los laboratorios, por ejemplo, espacio fundamental en el aprendizaje de la química y lugar donde se entronizó el llamado «método científico», a los estudiantes se les pide que realicen diferentes actividades y que de allí establezcan conclusiones. Todos los estudiantes lo deben hacer al mismo tiempo, ya que hay una expectativa de que las conclusiones son evidentes y uniformes. Lo anterior sólo sucede si todos los estudiantes comparten las mismas ideas previas (Kind, 2004) y evalúan sus observaciones de acuerdo con los mismos esquemas conceptuales. En otras palabras, los profesores anticipan que datos semejantes (cuando así se presentan) llevarán a estudiantes diferentes a las mismas conclusiones. Como esto no sucede ni en los laboratorios escolares ni en los que se desarrolla investigación profesional, la química y las ciencias en general se presentan como conocimientos infalibles que deben memorizarse (Chamizo, 2011, p. 72). Começaram a aparecer resultados das pesquisas em Educação em Ciências que mostraram as dificuldades dos estudantes em entender ideias e conceitos científicos. O ensino das Ciências passou a ser criticado na Sociologia, História e Filosofia da Ciência dado seu caráter asséptico, descontextualizado e ahistórico (Talanquer, 2024). Nessa época, eu era professora de Química Geral e depois, por ter sido monitora de Química Orgânica, durante a graduação, passei a atuar nessas disciplinas nos cursos de Engenharias Química e de Alimentos. Eu assistia às aulas de Química Geral nas licenciaturas parecidas Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 154 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 155 com as que eu aplicava, entretanto, na licenciatura eram poucos os alunos. Minhas aulas teriam merecido todas as críticas de sociólogos, historiadores e filósofos da Ciência. Como bem apontou Talanquer (2024) ao descrever o que ele denominou de paradigma dominante, sou exemplo de formação que não deu conta de entender e aplicar aquela reforma nem de acompanhar a produção acadêmica relativa à Educação Química que se intensificava no EDEQ e na RASBQ. Posso afirmar que foi a participação em um projeto de formação de professores que me mostrou algo distinto das minhas crenças, o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Padct, no final da década de 1980. Nesse projeto, distanciei-me da importância em ser pesquisadora em Química Orgânica e, por influência desse grupo gaúcho organizador EDEQs, decidi adentrar para o campo da Educação e da Formação de Professores de Ciências. A partir daí, foram decisivos os EDEQ, os Encontros sobre Investigação na Escola – EIEs, os Encontros Nacionais de Educação em Ciências – ENPECs – e os Encontros Nacionais de Educação Química – ENEQs. Meu afastamento para o mestrado em 1995, não foi sem resistência de colegas com argumentos de que educação não era Química, e educação não era foco de um departamento de Química, embora o curso de licenciatura fosse de sua responsabilidade. Estudei concepções epistemológicas de professores de Ciências e durante o curso um forte enfoque nas teorias de aprendizagem e da formação de professores. Após o mestrado, segui o doutorado com uma tese que passou por problematização de muitas das minhas crenças. Entrávamos num novo século quando defendi o doutorado sobre a pesquisa na sala de aula como ambiente de formação de professores de Ciências e entendo que é isso que mantenho ao longo desses anos como modo de ser professora na formação de professores de Química, pois com o tempo fui transladando da Química Orgânica para os estágios no curso de licenciatura em Química. Mas no encontro com Talanquer e seus textos me dei conta como demorei para adentrar na Educação Química ou como as reformas custam a produzir alguma mudança. Ou seja, fui me adentrando na Educação Química e me tornando a professora que estou sendo. Talanquer (2024) está correto ao afirmar que as mudanças nas práticas, nas aulas de Ciências e nos laboratórios, quer seja na graduação, quer seja nas escolas, apesar dos esforços de muitos pesquisadores com novas proposições para o ensino, por exemplo, com foco na natureza da ciência, no ensino por investigação, o enfoque Ciência, Tecnologia e Sociedade –CTS ou CTSA – tem sido menos evidente. O que Vicente Talanquer (2024) apresenta não foi totalmente novo para mim, sem dúvida, emergiu, foi eu perceber que fui fruto desses currículos que antes me parecia ser crítica dirigida apenas aos outros e que aquela ideia ingênua de que eu havia decidido pela Química por conta da influência de um religioso amigo de meu pai foi em parte verdadeira, porque o contexto estava organizado para capturar indivíduos para as carreiras científicas. E eu havia prometido aos meus dez anos, quando da morte da minha avó, que eu seria cientista da Nasa; afinal, o homem tinha ido à Lua! Do que narrei até aqui sobre minhas lembranças, remete à lacuna como formadora de professores de Química: uma formação com um ensino inicial sem professores habilitados, depois um ensino conceitual, descontextualizado e sem história. Na graduação, um ensino conceitual, a-histórico, na pós-graduação, fortes teorias de aprendizagem e apropriação de metodologias de pesquisa, sempre, pesquisa sobre o presente da época. De padrões e competências no ensino de ciências E entramos no século XXI, sob a égide de padrões e de competências. Segundo Talanquer (2024), o que se enfatizou foi a importância de selecionar um conjunto menor de conceitos centrais para estruturar o currículo das disciplinas de Ciências. Já não se pensava mais que um currículo de Ciências era para capturar futuros cientistas, mas sim para o letramento científico de cidadãos para a tomada de decisão informada em um mundo complexo e dependente da ciência e da tecnologia. Iniciou-se o período dos padrões. Estes padrões foram influenciados pelos resultados de pesquisas em Educação em Ciências e por perspectivas históricas e filosóficas sobre a natureza da ciência. Assim são exemplos: as sequências didáticas considerando as dificuldades dos alunos em aprender um conceito ou ideia; os objetivos de aprendizagem voltados para habilidades para a integração de conteúdos com as práticas científicas e seus modos de raciocinar; as atividades com os estudantes foram orientadas a envolver ativamente e colaborativamente os estudantes em resolução de problemas que exigem planejamento experimental, análise de dados, proposição de modelos, avaliação e discussão de explicações e argumentos, comunicação das ideias por diferentes meios; modos de avaliação diversos, considerando processos e produtos da aprendizagem, organizados para superar a avaliação da habilidade dos estudantes de reproduzir conhecimentos e algorítmos memorizados (Talanquer, 2014, p. 7). Das minhas vivências, lembro-me ao final da década de 1990 dos Padrões de Referência para o Rio Grande do Sul – PRC/RS – em que as universidades do estado foram convidadas a elaborá-los. Foi um governo estadual que pretendeu também propor calendários alternativos para a educação que gerou Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 156 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 157 muita polêmica. A proposta dos PRC/RS teve forte oposição das universidades federais, cujos argumentos à época, não me recordo quais me convenceram. Depois, apareceram nacionalmente os Padrões Curriculares Nacionais – PCN, publicados e distribuídos em uma coleção de livros por áreas de conhecimento para todas as escolas. Foram seguidos pelas Orientações Curriculares Nacionais – OCN. Nestes dois últimos, participei por alguma indicação breve de minha tese de doutorado, o educar pela pesquisa, sem que eu tenha tido algum envolvimento em sua elaboração. E não foram poucas as vezes que encontrei os livros dos PCN ainda embrulhados em plástico nas bibliotecas das escolas que, posteriormente, visitei em processos de formação ou mesmo nos espaços destinados aos laboratórios, nas escolas públicas. Quando do surgimento das discussões sobre a Base Nacional Comum Curricular – BNCC – bastante inquieta. Escrevi um texto para o Encontro de Investigação na Escola (Galiazzi, 2018) que reproduzo em parte, a seguir, pois este estudo me distanciou de padrões referenciais. Transcrevo o texto e desobedeço às normas de trabalhos científicos para facilitar a leitura, pois entendo fundamental esta divergência com Talanquer (2024) e, ao mesmo tempo, mostra que o currículo é sempre um espaço de disputas e, no caso da BNCC, foi promulgada em momento conturbado na vida política do país, como descrevo a seguir. O clamor por BNCC de diferentes setores A preocupação em estabelecer os conteúdos com os quais os estudantes serão ensinados não é nova. Está no Manifesto dos Pioneiros (1932), na Constituição de 1988, nas Leis de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1961, de 1971, de 1996, e também em sua atualização mais recente e no Plano Nacional de Educação PNE. Então, ao que parece, existe um clamor por normatização dos conteúdos a ensinar. Estabelecer os conteúdos a serem ensinados parece não ser simples nem consensual. Para a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, foram oito anos em discussão e a versão aprovada não foi a versão discutida por muitos setores da sociedade e que, na época, me envolveu intensamente com colegas na universidade. A LDB de 1996 foi redigida especialmente por Darcy Riberio, Marcos Maciel e Maurício Correa. As propostas encaminhadas pela sociedade civil não foram consideradas. A maior discordância estava no setor de controle da educação. A LDB aprovada colocou o controle no governo. Nos anos 2000, com as Diretrizes Nacionais Curriculares – DCN – houve a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN. Na Conferência Nacional de Educação – CNE – realizada em 2010 também foi declarada a necessidade de constar no PNE uma base nacional curricular. De 2010 a 2012, mudaram as Diretrizes Nacionais Curriculares. A Lei nº 113.005, de 2014, instituiu o PNE com vigência de 10 anos. Foram estabelecidas 20 metas para melhorar a qualidade da Educação Básica, sendo que quatro delas tratam de uma base curricular nacional. Em 2015, o I Seminário Interinstitucional para a Elaboração da Base reuniu assessores e especialistas. A Portaria nº 592 instituiu a Comissão de Especialistas para a Elaboração de Proposta da BNCC. A crise no governo de Dilma Roussef provocou a troca no Ministério da Educação. Em setembro, foi destituído o ministro Renato Janine Ribeiro e o movimento das bases estava em desenvolvimento com a vinda de especialistas ingleses e australianos a se manifestar em seu favor. Assumiu Aloízio Mercadante. Em outubro, teve início a consulta pública para a construção da primeira versão da BNCC com contribuições da sociedade civil, de organizações e entidades científicas. As propostas foram debatidas com especialistas e depois apresentadas para reformulações à população através dos conselhos municipais e estaduais de Educação. Entre as críticas à comissão de 116 especialistas de 37 universidades que trabalharam na versão 1, estava o fato de deixarem lacunas em áreas como História e Literatura, que não traziam conteúdos programáticos. O texto não previa, por exemplo, que fossem trabalhados conteúdos referentes às revoluções Industrial e Francesa, bem como a culturas de povos egípcios e de civilizações gregas. Assim, a segunda versão segue para debate, tendo como prazo máximo para aprovação junho de 2016. Entretanto, além de questões internas, atrasos na realização de plenárias impactam todo o trâmite. Santos (2017) descreve o trâmite a ser seguido: o Ministério da Educação redige o documento e, antes de sancioná-lo, encaminha para avaliação do Conselho Nacional de Educação, que também pode propor mudanças. Somente depois disso a Base é regulamentada pelo Governo (2017). A segunda versão da base foi apresentada em maio de 2016 que recebeu 12 milhões de contribuições. Em junho, seminários com professores, gestores e especialistas abertos à participação pública foram realizados por todo o Brasil para debater essa versão. Em agosto, começou a ser redigida a terceira versão, em um processo colaborativo, a partir da segunda versão. Em abril de 2017, o MEC entregou a versão final da BNCC ao CNE, sem contemplar o Ensino Médio. No entanto, neste tempo, a equipe de especialistas que havia elaborado a BNCC foi destituída e outra apareceu no lugar daquela (documento da Associação Brasileira de Currículo – ABDC). As disputas nas trocas de ministros de Renato Janine Ribeiro para Aloízio Mercadante no governo Dilma Roussef se acentuaram com o golpe que destituiu Dilma Roussef da Presidência da República. Com um presidente interino, e o MEC Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 158 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 159 com ações de oposição ao trabalho desenvolvido no governo legítimo eleito pelo voto da maioria, fez aproximações preocupantes, dentre elas o movimento da Escola sem Partido. Isso resultou em fragilização de projetos de formação como o Pibid. Apareceram, de outra parte, a Reforma do Ensino Médio, outra BNCC e a reestruturação da formação de professores. Segundo o Ministério, “a partir da homologação da BNCC começa o processo de formação e capacitação dos professores e o apoio aos sistemas de Educação estaduais e municipais para a elaboração e adequação dos currículos escolares”. As escolas terão um prazo para aumentar a carga horária das 800 horas anuais para 1.000 horas (ou de quatro horas diárias para cinco horas diárias), visando implantar gradualmente o ensino dito “de tempo integral”. Futuramente, a carga anual deverá chegar a 1,4 mil horas, mas não há prazo estipulado para esta meta. O caos político não arrefeceu a discussão da sociedade civil sobre as BNCC e várias organizações como Associação Nacional de Pesquisadores em Educação – Anped, Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação – Anfope e ABDC – produziram críticas a esta BNCC. Pesquisadores também têm se manifestado alertando para os retrocessos que ela acarreta. É sobre isso que meu estudo atentou e apresentarei a seguir. Os argumentos contrários a BNCC da sociedade civil organizada Os argumentos contrários da Sociedade Civil Organizada se estendem a ABDC, a Anped e a Anfope e apresentarei, em síntese, a seguir. Da Associação Brasileira de Currículo – ABDC Um movimento de unificação curricular favorece a manutenção de hegemonias e consequentemente de exclusão social e escolar. A BNCC favorece a manutenção desses aspectos tão dolorosos de nossa sociedade. Neste sentido, uma base pautada em objetivos de aprendizagem se distancia do que seja uma educação integral que exige ir além desses objetivos de aprender. A ruptura na elaboração da BNCC em razão de mudança da equipe fez com que as dirigentes desta associação solicitem o retorno de discussões com o Fórum Nacional de Educação (FNE). O documento também discorda de que a BNCC seja uma base. Ao contrário, é o ponto de chegada e não o ponto de partida. Ela investe no controle externo do fazer docente por meio das avaliações externas, e os professores acabam sendo os responsáveis pelos fracassos dos resultados obtidos nessas avaliações. O documento também alerta de que embora seja dito que a BNCC é uma pactuação interfederativa, 60% dos conteúdos são comuns e serão esses obviamente os que serão avaliados. Os 40% destinados às especificidades regionais e locais serão facilmente esquecidos frente à pressão pelos resultados das avaliações. Toda 160 a experiência dos professores e os currículos em andamento são negligenciados na BNCC. E a localidade, a diversidade, a negociação de sentidos, a autonomia da escola não aparecem no texto das BNCC. A crítica da Anped abrange a elaboração por especialistas e o distanciamento do diálogo com as escolas. Foram 116 especialistas a elaborar a BNCC e depois a discussão foi ampliada, o que produziu 12 milhões de contribuições, esquecidas na ruptura de governo. A América Latina teve em diferentes países reformas curriculares na mesma época, em razão da necessidade de obter empréstimos do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). A reforma do Ensino Médio nos moldes da profissionalização também faz ver no passado os problemas que teremos ao adotar este modelo de Ensino Médio. Chama atenção é o retorno às competências. Esta proposição, criticada intensamente, fragmenta a educação integral em porções de competências. Ainda, retirar das BNCC questões de gênero e de diversidade mostram uma luta política com setores conservadores da sociedade, que não aceitam essas discussões na sala de aula e tratam as diferenças como naturalização de processos meritocráticos dos que vencem e, em outras circunstâncias, como doença que a sociedade deve curar. Da Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação – Anfope A Anfope ao participar da Terceira Audiência Pública da BNCC realizada em Florianópolis, no dia 11 de agosto de 2017, também manifestou preocupação com o processo de elaboração, discussão e aprovação da BNCC. A complexidade de uma política curricular nacional não permite a adoção de matriz curricular centralizadora como a que está em questão. Esta BNCC aponta para diminuição e ameaça da autonomia dos sistemas estaduais e municipais de ensino na construção dos projetos politico-pedagógicos das instituições escolares sintonizadas com as demandas formativas e realidades locais. Essa homogeneização vai impactar, negativamente, a formação de professores ao impor uma lógica centralizadora nos processos educativos e de avaliação de ensino e aprendizagem. Meu posicionamento contrário a BNCC Diante do estudo realizado, entendo que tenha trazido argumentos para me posicionar contrária a necessidade de uma base e ainda mais dessa. Enquanto Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Da Associação Nacional de Pesquisadores em Educação – Anped EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 161 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização a discussão gasta tempo e dinheiro, outras questões que poderiam estar sendo discutidas permanecem estanques. Outros processos formativos são desmantelados. Esta BNCC desvaloriza ainda mais a profissão professor e, por isso, reafirmo: sou contrária a ela. Coloco-me como contrária à necessidade de uma BNCC regulada pelo governo. A sociedade civil é que precisa estar no controle do currículo da escola pública, direito de todos. No contexto em que escrevi este artigo não era possível terminá-lo sem uma crítica ao governo estadual. Não é possível terminar este relato sem pensar sobre o desmando do governo estadual do Rio Grande do Sul frente à educação: salários parcelados; instituição de calendário de recuperação sem o final da greve estar decretada, chamamento de professores aposentados para dar aulas voluntariamente substituindo professores grevistas. Isso tudo me leva a pensar que a educação tem que estar sobre o controle da sociedade civil e não do governo. Muito menos de setores econômicos mundiais que homogenizam as matrizes curriculares para o mercado. Aos países desenvolvidos, a tranquilidade, o bem-viver, a pobreza diminuída, os baixos índices de violência. Nos países que fornecem mão-de-obra (sic) desqualificada a seus interesses de expurgação, ficam políticas públicas internacionais à mercê de questões econômicas, a pobreza, a violência, o desemprego. Tudo isso realizado em uma compreensão de educação para atingir metas (Galiazzi, 2018, p. 4). Por último, a Base Nacional Comum – Formação, que dada a origem na BNCC também carrega intensa crítica e legisla sobre a formação de professores. No Rio Grande do Sul, também se percebe a mesma tendência com o Referencial Curricular Gaúcho. Talanquer (2024) não estabelece nenhuma crítica ao movimento dos padrões, mas afirma que, na AL, os eles são muito mais regidos por leis gerais do país do que por legislação do estado ou mesmo do município. A educação em ciências na formação de professores e na pesquisa Poderia se pensar que uma reforma curricular deveria ser acompanhada por formação de professores tanto os em exercício quanto os em formação. Talanquer (2024) afirma que raramente na maioria dos países isso acontece e a formação de professores nesses países assume diferentes formatos, como também a quantidade de recursos destinada à formação tem sido insuficiente. Mais ainda, a participação dos professores é pequena na proposição dessas reformas, seus salários são baixos e apesar da disposição de muitos professores, não são os melhores agentes para levá-las adiante. Há exceções, sem dúvida, com bons programas de formação de professores como também excelentes escolas públicas e privadas que poderiam suportar com sucesso a implementação delas. Olhando para minha experiência docente, fui me tornando professora por experiências de formação que problematizaram o ensino a partir de 1989. A primeira delas foi o Padct na década de 1980 que reuniu um grupo de professores de universidades do Rio Grande do Sul com atividades desenvolvidas em conjunto. Apostava-se na experimentação fortemente, seguindo a reforma de 1960. Passados quase 30 anos da reforma apontada por Talanquer (2014) é quando encontro os livros traduzidos, embora o material produzido pelo Ibeec/Funbec tenha chegado à universidade. Depois o mestrado seguido do doutorado me levou a compreender a resistência à mudança de professores e estudantes frente a propostas de pesquisa em sala de aula fundamentadas no educar pela pesquisa. As orientações de mestrado e de doutorado em seguida, as temáticas, o empenho e responsabilidade de meus estudantes levaram-me por um lado a dar continuidade ao argumento da tese de que a pesquisa levada à graduação é artefato de formação de professores de Ciências. Os encontros de coletivos de professores, as leituras decorrentes das teses defendidas ao longo destes anos e desse envolvimento chego à compreensão da importância de o professor em comunidade ser o inventor de sua sala de aula, de seu currículo. Não sozinho, mas no coletivo da escola. Com horizonte na América Latina, Talanquer (2024) afirma que as mudanças implementadas foram influenciadas por professores e pesquisadores dos EUA e da Europa, alinhando-se, assim, com os padrões internacionais como argumenta: Em geral a ênfase nas políticas educacionais pela América Latina enfatizam a alfabetização científica, buscando preparar cidadãos com um conjunto de conhecimentos, atitudes, habilidades que promova melhor qualidade de vida ao mesmo tempo que os auxilie a compreender e interagir responsavelmente com o mundo que os cerca. Também se mostram nas políticas educacionais intenções para que os estudantes possam tomar decisões informadas nas áreas das Ciências e da Tecnologia e que possam avaliar criticamente sobre benefícios, riscos, custos das atividades científicas e dos usos dos produtos da ciência (Talanquer, 2024, p. 9). Talanquer (2024, p. 9) aponta que os objetivos para a Educação em Ciências, na América Latina, pretendem integrar e equilibrar um conjunto de aspectos difíceis de serem alcançados: 1. 2. 3. 4. Aquisição de conhecimento científico básico; Desenvolvimento e aplicação de raciocínios científicos na análise do mundo natural; Compreensão e engajamento em práticas científicas; Compreensão crítica da natureza da ciência e da ciência como atividade humana; Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 162 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 5. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 6. 163 Compreensão crítica, reflexão e engajamento em questões sócio-científicas que afetam indivíduos, comunidades e sociedades modernas; Compreensão crítica da ciência para o desenvolvimento sustentável e responsável individual e coletivo. Segundo o autor, não é incomum encontrar uma organização do conteúdo alinhado com visões de educação em ciências que enfatizam uma extensa quantidade de tópicos enquanto apontam para o desenvolvimento de habilidades nos estudantes para compreender a natureza da ciência e aplicação deste conhecimento na análise e avaliação de fenômenos relevantes. Em grande extensão, segundo Talanquer (2024), na América Latina, os documentos de políticas educativas apresentam uma visão rica, ambiciosa, baseada no reconhecimento de os estudantes se engajarem em práticas fundamentadas em ideias científicas para compreender, refletir, avaliar, tomar decisões para agir responsavelmente nas questões sócio-ambientais das sociedades modernas. Mas acrescenta que enquanto discurso não está em consonância com o currículo, a metodologia e a avaliação. Os programas atuais continuam com excesso de conteúdo, sem integração entre conceitos e ideias entre os diferentes níveis educacionais. Neste quesito, discordo, por um lado, da posição de Talanquer, pois o Brasil está submetido a uma organização voltada a padrões e competências bastante criticadas nas diferentes sociedades científicas do país que se refletem na atual BNCC. Por outro lado, concordo que os conteúdos ficam restritos ao conhecimento disciplinar tradicional. Talanquer (2024), considerando que os documentos das políticas educacionais estariam adequados, argumenta que esses discursos não estão alinhados com os currículos, as metodologias em sala de aula e a avaliação. Em geral, continuam nos programas um excesso de tópicos a serem desenvolvidos sem integrar conceitos centrais e o conteúdo é restrito ao conhecimento disciplinar, distanciando-se, assim, de uma compreensão da produção de conhecimento científico pela pesquisa. Segue afirmando que mesmo quando se encontram programas organizados em tópicos de interesse dos estudantes e abordam em questões globais baseados em problemas locais, os problemas persistem. Os conceitos usados para compreender uma situação custam a ser transferidos a outros contextos pelos estudantes e, em muitas vezes, os estudantes são transformados em observadores e receptores de informações, ou seja, se repete o ensino prescritivo também nesses casos. Outra dificuldade apontada por Talanquer (2024) está na estrutura curricular em que, nos primeiros anos, o ensino de Ciências é mais interdisciplinar indo em direção ao ensino disciplinar na medida que avançam para os anos finais da Educação Básica. A organização curricular no ensino secundário, nosso Ensino Médio, tem mostrado resistência à mudança, isso em razão da própria formação disciplinar recebida na graduação. Este argumento de um ensino interdisciplinar no Ensino Médio é complexo, pois complexos são os fenômenos a interpretar interdisciplinarmente. Ao trazer minhas experiências na formação de professores, o pensamento de Talanquer (2024) ressoa com a formação disciplinar específica recebida na graduação em contraste com as disciplinas pedagógicas em que as propostas para a atuação na escola podem abranger proposições como CTS, interdisciplinaridade, ensino por investigação dentre outras. Contrastam também com a organização da atividade docente por área na escola, segundo a BNCC, em que um professor pode atuar como docente em disciplinas da área para a qual sua graduação não atendeu. Por exemplo, tendo formação em Química, pode vir a ser professor de Biologia e de Física. Foi sancionada em 31 de julho de 2024, a vigorar a partir de 2025, a Lei nº 14.945/2024, que altera a LDB de 1996, com uma nova política para o Ensino Médio. Em relação à pesquisa na Educação em Ciências na AL, segundo Talanquer (2024) recebeu influência pela pesquisa particularmente de Portugal e da Espanha. O interesse dos pesquisadores latino-americanos é diverso e o conhecimento empírico, teórico, histórico-filosófico aparece em poucas áreas. Os pesquisadores da América Latina se encontram mais em departamentos de Educação do que de Ciências e desempenham um papel ativo na formação de professores. Mais recentemente, passaram também a ter como foco análises históricas e filosóficas sobre a natureza da ciência e os modos de pensamento e de atividades nas diversas disciplinas científicas. No Brasil, a análise de Talanquer (2024) aponta para estudos na perspectiva da pedagogia crítica com críticas sociais, cuidados ambientais e ações políticas. Destacam-se estudos de educação ambiental e sustentabilidade. As pesquisas se dirigem mais explicitamente para questões de justiça, participação democrática e marginalização bem mais que esses temas aparecem em pesquisas nos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental. Segundo Talanquer (2024), as pesquisas, na AL, são mais de cunho qualitativo, e as publicações se restringem a própria AL, Espanha e Portugal. Há uma tradição de publicação de livros em Espanhol ou Português para o compartilhamento das pesquisas, entretanto há pouca difusão do conhecimento produzido para publicação em Inglês o que restringe o impacto das pesquisas em Educação em Ciências fora da AL. Da minha experiência como professora e pesquisadora, os argumentos de Talanquer (2024) refletem em grande parte de minha atuação, na formação de professores, como também na pesquisa e a questão da língua é sim um Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 164 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 165 limitante que, inclusive, se faz presente entre pesquisadores hispano-falantes e brasileiros, intenção de aproximação deste projeto. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Desafios para a educação em ciências Os documentos oficiais das políticas educacionais continuam alinhados com Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental, e os estudantes da AL têm tido resultados muito baixos nos testes internacionais comparados com estudantes de outras partes do mundo, embora também nos Estados Unidos esses resultados não tenham sido muito bons. E a situação fica ainda mais contrastante quando a análise é feita com alunos em situação de posição socio-econômica mais baixa com limitação de acesso a recursos. A desigualdade social e econômica, o suporte insuficiente para a formação de professores e para equipar adequadamente as escolas, bem como a descontinuidade de políticas públicas educacionais estão entre os fatores responsáveis pela aprendizagem insatisfatória em Educação em Ciências (Talanquer, 2024). Para avançar, Talanquer (2024) aponta superar o paradigma dominante e a pesquisa na Educação em Ciências, bem como a História, a Filosofia e a Sociologia podem auxiliar a reconceitualizar o currículo, as práticas em sala de aula, os métodos de avaliação, além da formação de professores. São sugestões: superar o paradigma dominante nas escolas, ter currículos menos prescritivos, ter ambientes de aprendizagem em que o contexto pode impulsionar a aprendizagem dos estudantes como também orientar o currículo para aprendizagens situadas no contexto sem esquecer de avançar em práticas de avaliação formativas. Considerando que o currículo dominante se fundamentou em uma abordagem cognitivista da aprendizagem, inserir uma orientação afetiva pode levar os estudantes a sentimentos de pertencimento aos cursos de Ciências. Agregar ao currículo questões endereçadas à diversidade, equidade e inclusão que conectem cognitivamente e de forma afetiva com a comunidade escolar exige um esforço dos professores. Nada disso é fácil e exige dos professores determinação. Geralmente, o currículo desenvolvido nas disciplinas de Ciências é extenso e superficial e marginaliza outras aprendizagens como o desenvolvimento do pensamento científico, o engajamento em práticas científicas, a reflexão crítica sobre os modos de conhecer, pensar e agir na Ciência sem excluir a possibilidade de dedicar tempo para as questões ambientais. Desse modo, é preciso que o currículo conecte temas que afetem a comunidade e o mundo. Para Talanquer (2024), muitos desses esforços estão debaixo do guarda-chuva da Ciência, Tecnologia, Engenharia, Matemática e Artes (Steam em Inglês). Concordo com os argumentos de Talanquer (2024), recentemente vi processos de formação para professores de Ciências nesta abordagem denominada de Steam promovida pelo governo estadual, sem a participação das universidades. Talanquer (2024) também aponta para propostas de ensino assumindo uma perspectiva investigativa, com a participação dos alunos em explorar sistemas ou fenômenos de interesse, em que interpreta dados, elabora modelos, gerando argumentos e explicações. Outras propostas de protótipos com a participação dos estudantes em propor, testar, avaliar e apresentar soluções para problemas relevantes. Apresenta um conjunto de competências (não concordo com o termo) organizadas em três dimensões para um currículo de Ciências: a) raciocínio transversal; b) conhecimentos centrais e c) práticas fundamentais. Para o desenvolvimento dessas competências, Talanquer (2024, p. 16) as organiza em um quadro que reproduzirei, a seguir: Quadro 1 – Competências fundamentais para a Educação em Ciências Dimensão Categoria Competência Pensamento sistêmico Analisar sistemas complexos em diferentes domínios procurando identificar, caracterizar e compreender as principais interações dinâmicas entre os componentes do sistema componentes do sistema em diferentes escalas, como e por que essas interações levam ao aparecimento de propriedades e comportamentos. Ideias centrais Selecionar, integrar e aplicar conceitos centrais e ideias que deem sentido às propriedades e ao comportamento dos sistemas baseados na composição e estrutura dos componentes do sistema. Letramento Conhecimen-to sócio-ambiental fundamen-tal Identificar, analisar e caracterizar os maiores desafios sócio-ambientais no planeta e como o conhecimento científico, práticas e modos de pensar podem ser usados para compreendê-los e para contribuir com possíveis soluções. Raciocínio transversal Avaliar custos e riscos dos produtos e atividades científicas, como também Responsabilidade orientar para a tomada de decisão e participação em ações que possam sócio-ambiental melhorar as condições humanas e o respeito para a qualidade ambiental como primeiro objetivo. Práticas fundamentais Práticas de Investigação Delinear, desenvolver e avaliar investigações, interpretar dados qualitativos e quantitativos e construir modelos para basear, avaliar e comunicar argumentos científicos. Práticas de design (planejamento?) Identificar, aplicar e avaliar métodos e ferramentas para transformar e controlar sistemas e otimizar processos de interesse. Práticas colaborativas de resolução de problemas Participar ativa e produtivamente na colaboração para analisar e resolver problemas e tomar decisões em uma perspectiva crítica, demonstrando flexibilidade, adaptação e resiliência. Fonte: Traduzido de Talanquer (2024, p. 16). Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 166 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 167 Talanquer finaliza o texto afirmando que as políticas públicas na Educação em Ciências mudaram significativamente, mas, em sala de aula, essas mudanças são menos evidentes, com o que concordo. A sala de aula permanece em sua grande maioria com o mesmo ensino em que aprendi, apesar do esforço de muitos professores e pesquisadores. No Ensino Médio, no Brasil, um esvaziamento com a proposição de itinerários formativos e o ensino persiste com o foco em conhecimento declarativo e descontextualizado, abordando um intenso conjunto de teorias e princípios a serem memorizados orientados para o Ensino Superior. Eu acrescentaria, se Talanquer (2024) critica as reformas desencadeadas na década de 1960, eu diria que consolidaram movimentos para originar a área da Educação em Ciências, no país. Na sala de aula da Educação Básica, entretanto, as mudanças são pouco evidentes. Vivemos nas escolas e na graduação, em sua maioria, com o mesmo modelo prescritivo que as reformas de 1960 tentavam superar e o ensino, preponderamentemente, permanece homogêneo, e reforço, apesar dos esforços e da produção acadêmica na Educação em Ciências. Se há um consenso, como afirma Talanquer (2014), de que é necessário para a Educação em Ciências preparar cidadãos e profissionais capazes de analisar, interpretar, avaliar, sintetizar informação sobre sistemas e processos de interesse, usar os resultados dessas análises para modelar, predizer, explicar, produzir argumentos, tomar decisões, sugerir ações sustentáveis para controlar suas proposições, comportamentos e efeitos, a pesquisa na Educação em Ciências têm fornecido conhecimento de como alcançar esses objetivos. Os currículos em sala de aula, entretanto, não acompanham esta produção de conhecimentos para superar todos os desafios. Talanquer (2024) propõe a reconceitualização dos sistemas, estruturas e processos educacionais, assim como disposição política para envolver ativamente os professores de Ciências nos processos de mudança, dando suporte para sua atividade e preparação. Estou mais cética em relação às transformações sugeridas por Talanquer (2014), contudo nem, por isso, penso que não se possa deixar de apresentar alternativas. Um aspecto que o texto de Talanquer (2024) discute brevemente é o desafio da formação de professores. Para que essas mudanças possam chegar à sala de aula é preciso processos de formação. Na AL, temos alguns exemplos de formação em coletivos de professores, em encontros de formação. E isso é um importante desafio. Outro aspecto imprescindível é a formação em parceria entre escola e universidade. O Programa de Institucional de Bolsas de Docência – Pibid – tem sido uma iniciativa importante no Brasil, mas apesar da abrangência e do destaque que tem recebido, não é o suficiente. Trago um argumento de Talanquer (2013) quando propôs dez facetas para o ensino de Química em que conclui da impossibilidade de um currículo abarcar todas aquelas para a Educação Química. Argumenta nesse texto que, se um professor atentar para uma das facetas em determinada organização curricular, seria um modo de produzir a mudança. Considerando este argumento, finalizo este texto apostando nos processos de formação de professores de Ciências em todos os níveis (inclusive, nos das disciplinas específicas de Ciências) que possam discutir textos de pesquisa que se enquadrem em alguma das dimensões sugeridas no Quadro 1, quais sejam: a) raciocínio transversal; b) conhecimentos centrais e c) práticas fundamentais. E que, a partir destes textos de pesquisa, se possam produzir organizações curriculares, planejamentos de ensino, desenvolvimento em sala de aula e avaliação dos resultados em que os conteúdos discutidos possam atender ou mesmo divergir das dimensões sugeridas. É fácil de isso acontecer? Claro que não, pois a universidade está, historicamente, organizada para ser o lugar do saber e, assim, pensam muitos de seus professores em relação ao conhecimento produzido nas escolas e sobre a necessidade de problematizar formas naturalizadas de ensino. O texto de Talanquer (2014) aborda os conhecimentos a serem discutidos em sala de aula de Ciências, mas a formação de professores é muito mais abrangente, precisando abarcar outras dimensões. Percorrer a própria história de formação e buscar compreender como nos tornamos os professores que somos leva também a buscar elementos que este texto não dá conta de discutir, como as políticas públicas e legislações ao longo da história, os momentos políticos determinantes em que nos formamos, dentre outras dimensões a agregar. Claro que minha proposição é relativa apenas a um aspecto, mas para que possa ter algum resultado exige políticas públicas de ampla valorização da docência com salários adequados, condições de trabalho que permitam a formação continuada e com empenho para a melhoria das instituições escolares, dando melhores condições de trabalho aos professores e aos estudantes. Fiz uma pergunta na introdução do texto sobre o domínio dos Estados Unidos nas organizações curriculares a que estamos submetidos no Brasil, e minha resposta é sim, apesar do enorme esforço de professores e programas de pós-graduação na produção de conhecimento na Educação em Ciências e na formação de professores de Ciências. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 168 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 169 REFERÊNCIAS Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização ABRANTES, A. C. 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Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Márcio Reis Barros Paola Amaris Ruidíaz Andrei Steveen Moreno-Rodríguez Fundamentando alguns conceitos A colonização europeia resultou na subjugação, desvalorização e assassinato de grande parte das comunidades originárias na América e na África. Mesmo após a independência, as marcas da colonização e da imigração forçada de africanos permanecem visíveis na lógica de dominação ideológica, política e econômica que continua a desvalorizar os saberes dos povos não ocidentais, isto é, a Colonialidade (Quijano, 1988). Nesse contexto, Neto e Streck (2019) argumentam que a Decolonialidade se constitui como um questionamento radical das relações de opressão impostas aos povos das regiões colonizadas, que os subalternizam em termos sociais, econômicos, intelectuais e educacionais. Portanto, entendemos a Decolonialidade como ações contínuas de (re)existência, que buscam valorizar conhecimentos tradicionais, populares e científicos dos povos “subalternizados”. Desse modo, a Decolonialidade contribui para aprofundar as discussões sobre problemas sociais e estruturais, permitindo o questionamento e a ação frente a essas adversidades. Mas como a Decolonialidade vem sendo abordada no campo da Educação? Cardoso (2019), por exemplo, discute a importância da abordagem decolonial na formação inicial de professores e os desafios e as potencialidades para a educação das relações étnico-raciais. Ele conclui que a Formação Continuada Decolonial contribui para desmistificar a falácia da inferioridade da raça negra e o racismo científico. Godim (2019) explora o enfoque Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS) na perspectiva de Paulo Freire, articulando-o com a Interculturalidade Crítica e a Decolonialidade no processo formativo de professores de Química. O estudo de Godim destaca os saberes populares como potencializadores para uma educação CTS libertadora e crítica. Dutra e Monteiro (2022) realizaram uma revisão sobre as pesquisas que tratam das interlocuções entre a Decolonialidade e a Formação de Professores de Ensino de Ciências e Matemática. Essa pesquisa indica a necessidade de abordar temas como gênero, sexualidade, relações étnico-raciais e indígenas. Esses trabalhos (Cardoso, 2019; Godim, 2019; Dutra; Monteiro, 2022) demonstram que os estudos decoloniais são cruciais para (des)construir ambientes educacionais, de modo que os discentes possam compreender que a produção de conhecimento não se limita à visão eurocêntrica. Diante dessas questões, é importante promover uma formação que busque a crítica radical frente aos processos estabelecidos de ensino na educação brasileira. Considerando que as práticas dos professores estão diretamente relacionadas com a sua formação – que durante muitos anos foram predominantemente técnicas e marcada por práticas tradicionais de memorização e matematização (relacionadas ao positivismo ocidental) –, é fundamental buscar novas abordagens para o desenvolvimento dos processos de ensino e aprendizagem. Em relação ao Ensino de Química, alguns trabalhos vêm sendo desenvolvidos sob uma perspectiva decolonial (Costa; Monteiro; Carvalho, 2019; Pinheiro, 2019; Nogueira et al., 2021; Silva; Pinheiro, 2018). Nogueira et al. (2021) e Silva e Pinheiro (2018) exploram reflexões sobre os conhecimentos científicos produzidos por povos outros (indígenas e africanos) e como saberes podem ser trabalhados no Ensino de Ciências. Já os estudos de Carvalho, Monteiro e Costa (2019) e Pinheiro (2019) trazem, respectivamente, discussões sobre o currículo no Ensino de Química, destacando suas relações com a Lei nº 10.639/03 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que inclui no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Africana”) e sobre a inserção das questões étnico-raciais como eixo norteador para a Educação em Ciências. Outras pesquisas em Ensino de Química (Souza, 2021; Santos; Santana; Mol, 2021) têm buscado compreender a importância do reconhecimento sociocultural e da valorização de saberes regionais, contribuindo para os processos de ensino e aprendizagem, sob uma perspectiva de interação entre conhecimentos e culturas, tanto para a formação docente quanto na formação dos estudantes. Com base nessas considerações, surge a seguinte questão de pesquisa: “O que se tem investigado sobre a Cultura Africana e a Decolonialidade no Ensino de Química?”. Buscamos, assim, compreender os aportes teóricos relacionados à Decolonialidade no Ensino de Química. Procedimentos metodológicos Este estudo é de natureza qualitativa, o que significa que o processo de compreensão dos fenômenos (fenomenologia) está relacionado com às perspectivas, significados e sentidos apresentados pelos dados analisados através de discursos, que não são quantificáveis. Essa abordagem permite uma compreensão mais profunda do objetivo da pesquisa (Bogdan; Biklen, 1994), Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 172 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 173 que se caracteriza como teórica e bibliográfica. Nesse sentido, Fonseca (2002) destaca que a pesquisa bibliográfica busca informações e conhecimentos prévios em artigos, livros e outros materiais já publicados, com o propósito de propor um estudo direcionado a um determinado problema de investigação. Diante disso, foi realizada uma Revisão Sistemática de Literatura (RSL) com base na metodologia proposta por Ramos, Faria e Faria (2014). Esse tipo de revisão requer o registro minucioso de todas as etapas, tanto para que outros autores possam replicar o procedimento metodológico adotado quanto para que os investigadores possam monitorar e avaliar o processo em andamento da pesquisa. Dessa forma, este estudo seguiu as etapas, conforme os critérios apresentados no Quadro 1. Com o objetivo de abranger o maior número possível de trabalhos científicos, foi adotada uma ampla variedade de plataformas de busca, bem como equações de pesquisa (descritores) em português e espanhol. Quadro 1– Critérios estabelecidos para a realização da RSL Critérios Descrição Objetivos Investigar o que se tem pesquisado sobre a Decolonialidade no Ensino de Química. Equação de pesquisa Decolonial* AND “Ensino de Química”; Decolonial* AND Enseñanza de la Química; “Conhecimento popular” OR “Saberes ancestrais” OR Interculturalidade AND “Ensino de Química”; “Conocimiento popular” OR “Saberes ancestrales” OR “Interculturalidad” AND “Enseñanza de la Química”. Âmbito da pesquisa Scielo, Proquest, Redalyc, Capes e Eric e Google Scholar. Critérios de inclusão • Somente foram selecionados os trabalhos que apresentavam relações entre a Decolonialidade e o Ensino de Química; • Publicações entre 2018-2022; • Obras realizadas por autores latino-americanos; • Artigo científico, tese ou dissertações; • Trabalhos escritos em português ou espanhol; • Análise: títulos e resumos. Critérios de exclusão • • • • Trabalhos que não apresentam relações entre a Decolonialidade e o Ensino de Química; Fora do intervalo de tempo pré-estabelecido nos critérios de inclusão; Trabalhos realizados por autores não latino-americanos; Produções científicas em forma de resumo, trabalhos apresentados em eventos e relato de experiência, monografias e Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC). Critérios de validade metodológica Os critérios de validação estão estabelecidos por meio dos critérios de inclusão e exclusão. Resultados Apresentação dos trabalhos contendo todos os passos realizados para sua identificação e análise posterior. Tratamentos de dados Todos os dados foram adicionados na plataforma Excel e organizados com base na criação de eixos temáticos. Fonte: Elaborado pelos autores, 2024. 174 Resultados e discussões Após o estabelecimento dos critérios, a busca foi realizada, e os resultados foram inseridos em um banco de dados localizado no Excel. O número de publicações encontradas está exposto na Tabela 1, conforme apresentado a seguir. Tabela 1 – Quantitativo de trabalhos acadêmicos pelas plataformas de busca Base de dados Trabalhos encontrados Trabalhos inicialmente selecionados Trabalhos selecionados após a exclusão de publicações repetidas Scielo 0 0 0 Proquest 6 0 0 Redalyc 12 4 2 Capes 10 4 3 Eric 1 0 0 Google Scholar 622 71 36 Total 651 79 41 Fonte: elaborada pelos autores, 2024. Grande parte das publicações selecionadas foi localizada no Google Scholar. Vale ressaltar que essa plataforma abrange uma vasta gama de revistas científicas e publicações disponíveis na internet, justificando, portanto, a disparidade no número de trabalhos encontrados em comparação com outras bases de dados de periódicos. Conforme apresentado na Tabela 1, quarenta e um trabalhos foram localizados. Esses foram organizados em eixos temáticos: 1) cultura africana e suas relações com o Ensino de Química; 2) conhecimentos indígenas e sua Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Para a análise dos trabalhos selecionados, foi realizada a leitura integral de cada um, com o objetivo de identificar temas, entendidos como “unidade de registro que se refere a uma unidade maior em torno da qual tiramos uma conclusão” (Ferreira, 2010, p. 87). A partir dessa identificação, os trabalhos foram agrupados de acordo com os temas correspondentes. Em seguida, foi conduzida uma análise temática, baseada na interpretação dos dados. Como o próprio nome sugere, o conceito central dessa técnica é o tema. A partir dos eixos estabelecidos, que foram considerados como unidades de registros ou significações contidas nos textos, e analisadas conforme critérios previamente definidos, buscou-se compreender os núcleos de sentido que compõem a comunicação e a manifestação dos significados do objeto em estudo (Bardin, 1979). EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 175 importância na construção do conhecimento químico latino-americano e 3) refletindo acerca dos Direitos Humanos: é possível relacioná-los com a perspectiva Decolonial? Neste estudo, concentramo-nos, exclusivamente, no primeiro eixo temático, “Cultura Africana”. Isso porque nosso objetivo é compreender as inter-relações entre a cultura africana e sua influência na formação da cultura e da identidade latino-americana. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Cultura africana e as relações étnico-raciais no ensino de química: possibilidades e desafios Para Cardoso e Pinheiro (2021) (Trab. 01), a Decolonialidade surge como um projeto originado pelo grupo de investigação Modernidade/Colonialidade (M/C), que contribuiu (e ainda contribui) para o desenvolvimento de novas perspectivas pedagógicas e ideológicas na Educação. Nesse sentido, as autoras destacam a importância dos conhecimentos dos povos africanos e indígenas e descrevem como se deu sua subalternização decorrente do colonialismo europeu e do eurocentrismo. Tal estudo versa sobre discursos de docentes acerca de suas experiências e conhecimentos sobre a efetivação da Lei nº 10.639/03 (obrigatoriedade da abordagem da cultura Africana e Afro-Brasileira na Educação Básica). As autoras afirmam que os dois professores participantes nesse estudo apresentaram perspectivas diferentes em seus discursos, sendo que um expressou ideias de cunho decolonial, enquanto o outro apresentou pensamentos coloniais. A partir dos resultados da investigação, concluiu-se que são necessários incentivos para o processo de Formação Continuada Decolonial. Portanto, é importante promover um processo de formação que busque valorizar os saberes identitários e, assim, reconhecer a cultura, a política e os saberes de povos outros. Nessa direção, a pesquisa de Nogueira et al. (2021) (Trab.02) abordam a importância de promover o conhecimento ancestral (com ênfase nos saberes africanos) juntamente com o conhecimento científico. Os autores apresentam como objeto de discussão o elemento químico Fe (ferro) e, a partir de uma abordagem interdisciplinar (entre as disciplinas de História e Química), buscaram não apenas uma discussão relacionada a conhecimentos específicos, mas também um debate sobre aspectos históricos relacionados à cultura africana (como o desenvolvimento de ferramentas, entre outros). Para tal, os autores citam leis brasileiras que garantem a obrigatoriedade do ensino da cultura africana e indígena nas escolas do Brasil: a Lei nº 10.639/03 e a Lei nº 11.645/08. Segundo esses pesquisadores, é importante que os conhecimentos científicos sejam contextualizados a partir de uma perspectiva histórica que garanta o desenvolvimento de uma educação crítica e política. Concluem que, ao apresentar tais saberes sob uma perspectiva que reconhece e valoriza a cultura e influência de populações que foram historicamente silenciadas, se permite a possibilidade de formar uma matéria afrocentrada para os alunos. É interessante ressaltar que os trabalhos de Cardoso e Pinheiro (2021) (Trab.01) e de Nogueira et al. (2021) (Trab.02) apresentam a Lei nº 10.639/03 como um ponto-chave para as discussões promovidas em suas respectivas publicações. Ainda nesse sentido, Silva, Costa e Pinheiro (2021) (Trab.17) apresentam um estudo relacionado com uma análise dos cursos de Licenciatura em Química do Estado do Ceará, pontuando a importância das Leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08 que garantem o ensino obrigatório da história e cultura afro-brasileira e indígena na Educação Básica brasileira. Segundo os autores e autoras, é muito importante se atentar para a formação docente, vista a relevância de considerar o professor como agente participativo dentro dos processos de ensino e aprendizagem. Nesse estudo, foi constatado que os cursos de licenciatura em Química ainda apresentam um caráter científico hegemônico, mesmo com algumas melhorias ao longo dos anos. É evidenciado, por exemplo, que as discussões sobre questões étnico-raciais somente se fazem presentes nas disciplinas relacionadas com as Ciências Humanas. Sendo assim, é fundamental refletir sobre os conhecimentos específicos da Química para fortalecer uma formação antirracista. Cabe afirmar que a implementação de Leis que garantem discussões de cunho histórico e social contribuem significativamente para que os estudantes possam reconhecer sua própria história e (re)construir sua identidade. É preciso que as Leis que integram as políticas nacionais de combate ao racismo rompam o campo da intencionalidade e se transformem em ação concreta e objetiva. Tendo em vista a Lei 10.639/2003, a mesma só se materializará se os professores se comprometerem ética e politicamente com uma educação antirracista (Alvino et al., 2021, p. 226). Nesse sentido, no estudo de Alvino et al. (2021) (Trab.14), foi elaborado um plano de ação para operacionalizar a Lei nº 10.639/03 na disciplina de Química Experimental, buscando assim, juntamente com um conjunto de professores e alunos, a criação de aulas a partir dos temas: “produção do açúcar, rapadura, cachaça, trabalho escravo e método de resistência negra (quilombos) no Brasil” (Alvino et al., 2021, p. 212). Os autores concluíram que foi possível vivenciar e debater conceitos químicos associados a esses Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 176 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 177 temas, possibilitando o desenvolvimento de habilidades (argumentativas e de reconstrução de ideias) por parte dos alunos. Sob essa perspectiva da Lei nº 10.639/03, Paixão e Neto (2021) (Trab. 10) discutem a Lei como uma política de ação afirmativa que contribuiu para o aumento de investigações sobre as questões étnico-raciais. Ademais, eles relatam a importância da relação entre os conhecimentos científicos com as questões étnico-raciais na Formação Inicial, nos cursos de Licenciatura em Química, levando em consideração a necessidade de os futuros professores contribuírem para a construção de uma sociedade livre. Nessa perspectiva, assim como os trabalhos de Cardoso e Pinheiro (2021) (Trab.01) e Paixão e Neto (2021) (Trab.10), Mendonça et al. (2021) (Trab.12) também apresentam suas contribuições sobre a Educação das Relações Étnicoraciais – ERER – com o foco na Formação Inicial de professores (estudantes de um curso de graduação que atuam no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência – PIBID. Nesse estudo, destaca-se a importância de considerar a formação antirracista por meio da abordagem dos conhecimentos, saberes e história dos povos negros, formando, assim, uma compreensão da realidade que não se limita a uma visão eurocentrada do conhecimento e do ser. Segundo os autores e autoras: Buscamos [...] romper com esse currículo racista, eurocentrado e heteronormativo na formação do(a) futuro(a) professor(a) de Ciências e de Química, na medida em que a vivência dessas atividades, com suas possibilidades e limitações, contribui para refletir sobre a própria formação – escolar e acadêmica – e sobre o (não) lugar da ERER nela (Mendonça et al., 2021, p. 165). Sendo assim, a partir do desenvolvimento de atividades didáticas como foco na ERER, realizadas por bolsistas do Pibid e estudantes da Educação Básica, segundo os autores, foi possível formar espaços para o combate ao racismo científico e a outras formas de discriminação. Tomando como base a Lei nº 10.639/03, Cardoso (2019) (Trab. 25) também apresenta relações entre o Ensino de Química e a Decolonialidade, por meio de uma análise de discurso de professores. Compreende-se que a necessidade de analisar o processo de formação de professores é fundamental para compreender a própria formação dos futuros docentes/educadores que, neste estudo, pertencem à área da Química. Nessa investigação, concluiu-se que as relações decoloniais estão baseadas nas experiências vividas pelos próprios docentes. Assim, pode-se afirmar que a formação continuada dos professores é fundamental, visto que é necessário desenvolver uma crítica e uma visão sobre o tema para além das experiências pessoais. No estudo de Santos (2021) (Trab. 21), foi realizado um estado da arte (com base nos encontros do ENEQ e ENPEC, a partir de 2003) relacionado a pesquisas sobre as relações entre questões étnico-raciais e o Ensino de Química. Segundo a autora, a implementação da Lei nº 10.639, decorrente das lutas históricas dos movimentos negros no Brasil, contribuiu para o desenvolvimento da área na Educação. Como resultado da investigação, o autor observou um aumento no número de produções científicas associadas ao tema, ao longo dos anos, sendo a implementação da Lei fundamental para a alfabetização da Erer, por parte de pesquisadores e pesquisadoras, no Ensino de Química. Ainda nesse sentido, no artigo de Carvalho, Monteiro e Costa (2019) (Trab. 09) apontam que a Lei nº 10.639/03 é uma forma de inserir uma abordagem Decolonial no ensino de Química brasileiro, refletindo acerca dos problemas presentes no currículo da disciplina. Para além disso, neste estudo foi averiguado em livros didáticos como essa Lei é debatida nas discussões estabelecidas com os conteúdos científicos. Como conclusão, os autores afirmam que o currículo do Ensino de Química brasileiro ainda apresenta uma perspectiva colonial, privilegiando, todavia, a percepção ocidental acerca do conhecimento científico. Os autores ressaltam que o Ensino de Química pode contribuir, significativamente, para os debates decoloniais: Já como agente decolonial, o ensino de Química pode valorizar um argumento novo, um argumento que refuta as atitudes autoritárias e impositivas construídas ao longo de séculos de exploração. Atitudes que nutriram a busca e domínio de materiais e suas propriedades, valorizando as culturas abaladas pela propagação de suas ideias racionalistas e cartesianas (Carvalho; Monteiro; Costa, 2019, p. 72). Considerando os aspectos curriculares, Santos, Camargo e Benite (2020) (Trab.11) destacam a importância de se refletir sobre o currículo eurocentrado, este que limita a participação de saberes outros. Os autores e autoras propõem uma intervenção pedagógica a partir da Educação Intercultural, dando ênfase aos conhecimentos dos povos quilombolas “griôs”. Concluiu-se que a intervenção realizada no estudo permitiu o diálogo entre os conhecimentos de matrizes africanas com o Ensino de Química, sendo fundamental para a formação de um currículo que facilita a coexistência entre diferentes formas de conhecimento, contribuindo, assim, para a concretização da educação antirracista. Ainda sobre as questões relacionadas a Currículo e Educação, no trabalho de Rosa, Borges e Chinelli (2021) (Trab. 24) é abordada a utilização de conhecimentos associados à Química Ambiental pautados em problemáticas negras, com ênfase em países africanos. O autor e autoras apontam que a utilização de uma perspectiva outra (abordagem decolonial) é importante para a superação de um currículo hegemônico e extremamente técnico, pois: Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 178 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 179 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização [...] é fundamental fazer frente à abordagem tradicional dos problemas ambientais na Educação Básica e a fomentar reflexão sobre manifestações do racismo estrutural que, persistente na sociedade brasileira, podem ser identificadas em modos diferenciados e discriminatórios de acesso a ambientes saudáveis (Rosa; Borges; Chinelli, 2021, p. 135). Foi concluído nesse estudo que tal abordagem, sob uma perspectiva antirracista, contribui para a compreensão de que problemas ambientais estão relacionados a espaços com condições econômicas precárias e predominância de populações negras, e promove a ideia de que a abordagem dos conteúdos científicos pode ser feita de outras maneiras, não exclusivamente técnicas e não hegemônicas como se evidencia no currículo tradicional brasileiro. Já no artigo de Pinheiro (2019) (Trab. 03), destacam-se questionamentos sobre o porquê os conhecimentos dos povos africanos não são considerados fundamentais para o desenvolvimento da história da Ciência. A autora ressalta a importância de compreender (especialmente para os jovens) que a história e a identidade dos povos africanos não começam com o escravismo, mas com a própria história da humanidade, ou seja, do conhecimento, da ciência e da política. No trabalho de Marinho, Correia e Miranda (2021) (Tra. 22), são debatidas as questões étnico-raciais e a valorização dos saberes indígenas e africanos. A criação de espaços que utilizem abordagens decoloniais contribuiu para o desenvolvimento da aprendizagem através da ecologia dos saberes populares e ancestrais. O objetivo desse estudo foi analisar uma aula interdisciplinar (História e Química), entendendo como essa aula contribui para a superação da colonialidade do poder, do ser e do saber. Para os autores, a aula com uma perspectiva decolonial, interdisciplinar e intercultural contribuiu para a formação crítica e dialógica dos alunos com o professor e a comunidade. Outra contribuição foi a valorização dos aspectos locais e, assim, a crítica à reprodução do conhecimento ocidentalizado. No estudo de Rodrigues et al. (2021) (Trab. 16), são abordados diversos conhecimentos africanos em diferentes áreas da Ciência e tecnologia (Química, Astronomia, Medicina e Filosofia), como radiação infravermelha, estudo avançado sobre a Astronomia, desenvolvimentos de símbolos “Adinkra” e outros. Para os autores, tal abordagem é fundamental, pois a educação científica passa a ter e assumir uma nova função social, contribuindo na superação das desigualdades sociais vigentes. Segundo Rodrigues et al. (2021, p. 264) (Trab. 16) “pesquisar e divulgar as contribuições dos povos africanos para a CT pode contribuir para a superação do estereótipo racista de que a história dos negros no mundo está reduzida apenas ao período da escravidão”. Diante disso, vale ressaltar que a valorização cultural e histórica da cultura africana é fundamental para a promoção de uma Educação antirracista. Nesse mesmo sentido, De Paulo e Leandro (2022) (Trab. 13) apresentam uma crítica relacionada a ausência de mulheres negras cientistas nas discussões em aulas de Química. As investigadoras se baseiam na Lei nº 10.639/03 como cumprimento da abordagem dos conhecimentos africanos na Educação Básica Brasileira. São apresentadas cinco cientistas negras trabalho e suas contribuições, sendo elas: 1) Alice Augusta Ball; 2) Jaqueline Goes de Jesus; 3) Mary Maynard Daly; 4) Mae Carol Jemison; 5) Rosa Gana Lake. As autoras concluem que é fundamental o debate, o reconhecimento e a valorização da história negligenciada e do protagonismo do povo negro. Sendo assim, é necessário que os professores se atentem ao modelo de educação vigente (eurocentrado) e busquem uma perspectiva crítica do processo de ensino e aprendizagem, fomentando uma educação que favoreça o empoderamento negro. Marinho, Correia e Miranda (2021) (Trab. 04) apresentam reflexões acerca da importância de discutir temas relacionados a questões étnico-raciais com o objetivo de valorizar os saberes dos povos indígenas e africanos. Nesse sentido, os autores relatam que a criação de espaços que utilizem abordagens decoloniais contribuem para produzir aprendizagens através da ecologia e dos saberes populares e ancestrais. Os investigadores concluíram que o desenvolvimento de aulas na perspectiva decolonial, interdisciplinar e intercultural contribuiu para a formação crítica e dialógica dos alunos com o professor e a comunidade. A valorização dos aspectos locais possibilita a crítica à reprodução do conhecimento ocidentalizado alcançável por meio de uma abordagem de ensino decolonial. Observa-se que, dentro da abordagem decolonial, é possível promover e relacionar outras abordagens para o ensino de Química. Por exemplo, no trabalho de Marinho, Correia e Miranda (2021) (Trab. 04), identifica-se que a interdisciplinaridade teve um papel fundamental no estabelecimento das relações entre o conteúdo científico da Química com a perspectiva histórica associada aos saberes africanos. Portanto, a abordagem decolonial pode ser pensada como uma perspectiva que possibilita a interconexão entre disciplinas e conhecimentos. Já no estudo de Silva e Pinheiro (2018) (Trab. 05), discutiu-se como a história do Egito foi constantemente passada por diversas tentativas de apagamento em relação à produção de conhecimentos científicos. Ademais ressaltam que o processo de apagamento e falseamento dos saberes egípcios e de sua negritude, influenciaram a percepção que as pessoas têm em relação a história do Egito: Geralmente na escola o Egito é ensinado como um território isolado, que costumeiramente pessoas associam este país ao continente europeu. Isto sem falar no aspecto referente ao embranquecimento egípcio [...] O processo de construção de uma imagem eurocêntrica do povo egípcio se dá de forma articulada. Os relatos históricos apagam as menções à negritude Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 180 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 181 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização dos egípcios; a arte, a literatura e a mídia ocidentalizam sua imagem (embranquecem a pele e normativizam suas relações sociais pelo padrão europeu); sua existência enquanto povo é dissociada da África (Millard, 1975) (Silva; Pinheiro, 2018, p. 8). Ainda nesse trabalho, Silva e Pinheiro (2018) (Trab. 05) destacam o conhecimento relacionado à produção de cerveja, apontando seu possível surgimento no Egito junto com seus desdobramentos tecnológicos para a sua respectiva produção. O autor e a autora concluem que trabalhar sobre uma perspectiva de decolonização do saber é fundamental para que se perceba como o conhecimento é construído ao longo da história e a importância dos saberes africanos para o desenvolvimento científico. Nesse sentido, entendemos que a visão de Ciência como uma produção exclusivamente ocidental foi uma falácia que contribuiu para a desvalorização e dominação dos povos em várias regiões do planeta. Considerando o anterior, na investigação de Pinheiro (2021), (Trab. 06) afirma-se que a história dos conhecimentos químicos não se deve limitar a uma percepção de narrativa historiográfica, visto que a Modernidade pauta a Química como uma Ciência ocidentalizada. A investigadora apresenta as artes práticas (ou como a mesma denomina – Química Ancestral Africana) como ponto de discussão. Nesse sentido, a autora questiona o porquê a Química é debatida somente sob a luz da narrativa histórica ocidental e não por meio de outras perspectivas. Ainda nesse contexto, Oliveira et al. (2021) (Trab. 07) realizam uma busca acerca dos conhecimentos da Ciência da Natureza com base no conteúdo textual do videogame “Assassin’s Creed Origins”. Segundo os autores, esse jogo apresenta contribuições significativas para discussões relacionadas aos conhecimentos africanos, como, por exemplo, a arte, debates sobre Ciências da Natureza e sua humanização, História, Arquitetura e Ciências do Egito. Concluiu-se que o jogo apresenta aspectos relevantes para as discussões relacionadas à Química Ancestral Africana, contribuindo para possíveis debates relacionados com aspectos históricos dos conhecimentos africanos (em especial, o egípcio). Os autores afirmam que buscar retratar a Química sobre outras perspectivas é fundamental para a promoção de novas compreensões, diferente da visão ocidentalizada da Química já difundida Ao refletir sobre as questões pedagógicas, Ferreira Neto (2022) (Trab. 08) argumenta que, em razão de a escola ser um espaço de Educação que não pode se limitar a um ambiente de homogeneização cultural, é necessário buscar referências diversas que possibilitem um lugar plural e intercultural. Em vista disso, o autor ressalta as afrorreferências como forma de contribuir para a elaboração de novas práticas. Assim, concluiu que existem produções científicas que podem auxiliar os professores na elaboração de uma Educação antirracista. Nesse sentido, Carvalho e Santos (2021) (Trab.15) reafirmam a importância da promoção de uma Educação antirracista e, por conseguinte, Decolonial. Isto por meio de debates e discussões que estabelecem uma visão questionadora relacionada ao processo histórico da construção do conhecimento científico. As investigadoras apresentam, em seu estudo, uma crítica relacionada aos processos químicos vigentes nas empresas de cosméticos como processo de “clareamento” e “embranquecimento” das mulheres. Carvalho e Santos (2015, p. 329) (Trab.15) propuseram uma sequência didática com o intuito de relacionar os conteúdos químicos com as temáticas raciais. A partir da sua aplicação, concluíram que o debate no Ensino de Química deve apresentar uma visão mais crítica sobre o racismo e questões que “atravessam e dilaceram a pele e os corpos negros”. Já Reis (2021) (Trab. 23) aponta para a importância de espaços não-formais na Educação, neste caso os museus. O autor traça reflexões sobre como esses espaços também têm sido alvos de uma disputa de poder em relação ao apagamento histórico-cultural dos povos africanos. Segundo o autor: As representações museais e exposições (fixas ou itinerantes) passam por um sério processo de curadoria e a construção histórica tendo várias continuidades e rupturas ligadas aos contextos em que foram pensados, por exemplo depois da colonização, onde os museus se tornam um forte instrumento de manutenção da ideia submissa de outros povos à Europa (Reis, 2021, p. 362). Portanto, pode-se afirmar que a disputa de poder está enraizada em diferentes esferas e ambientes da nossa sociedade, sendo necessária a construção de uma nova narrativa histórica, não aquela contada pelos invasores, autonomeados de “conquistadores”. Reis (2021) chama a atenção para a etnociência como uma importante aliada para a luta contra o epistemicídio, retratando, assim, os fatos históricos, sob novas perspectivas dos povos outros. Por sua vez, Vargas (2020) (Trab. 26) aponta para as contribuições de povos outros em questões relacionadas ao café, sendo este um potencial para estudos que envolvem o ensino de Química. Em seu estudo, a autora constrói um produto educacional (uso do método Jigshaw) que consiste em sete encontros com objetivo de valorizar contribuições dos povos africanos, pessoas negras e indígenas no Ensino de Química, por meio da cafeína. Como conclusão, os estudantes participantes demonstraram mais interesse pela Química, pois puderam vê-la de maneira mais dinâmica e crítica. A investigação de Oliveira, Pinheiro e Neto (2022) (Trab.20) tem por tema os procedimentos éticos da construção do conhecimento científico. Nela, é relatado o caso da criação da pílula anticoncepcional, em que mulheres negras Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 182 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 183 do Haiti e de Porto Rico foram utilizadas como “cobaias” para o processo de experimentação e teste da pílula. Os autores e autoras apresentam a ética Ubuntu, filosofia de origem africana, como forma de se promover uma autoidentificação do outro em que é uma parte integrante do “mim”, ou como aponta Oliveira, Pinheiro e Neto (2022, p. 549) (Trab.20) “é uma forma de reprodução da existência humana que nós compreendemos como a extensão do outro”. Já Faustin et al. (2022) (Trab. 17) discutem, em seu trabalho, as relações de sexualidade, gênero e racialidade com o ensino de Química. Os mesmos apresentam que dada a forma com que foi construída e estabelecida a nossa sociedade, as mulheres negras têm sido subalternizadas em diferentes esferas da própria sociedade. É apresentada uma análise do discurso de uma vivência intercultural pelo projeto “Investiga Menina” que tem por objetivo construir uma ciência a partir do rompimento do caráter hegemônico da mesma. Ressalta-se que é imprescindível que a Química não seja somente apresentada por uma perspectiva simbólica, técnica e hegemônica, senão uma Química relacionada com as questões étnico-raciais e de identidade para contribuir na construção da própria Ciência. No estudo de Pinheiro, Rosa e Conceição (2019) (Trab.19) são apresentadas as relações entre os conhecimentos químicos, físicos e biológicos da maquiagem e suas relações com pessoas negras. As autoras concluíram que mesmo a maquiagem ter sido largamente utilizada por antigas civilizações africanas, em virtude da colonialidade, o padrão de beleza estabelecido pelo mundo ocidental tornou-se de características de pessoas brancas. Ademais, é fundamental promover discussões nas aulas de Ciências Exatas sobre as relações entre os conhecimentos científicos e temas de relevância social, pois, assim, contribuirá para uma formação que não reforce as estruturas de opressão social. Ao pensar sobre o processo de formação humana, ou seja, do sujeito e sua atuação na sociedade, é crucial considerar os processos relacionados à Educação. Nós, enquanto investigadores, acreditamos que não é possível refletir sobre o “ser” sem compreender os aspectos que se associam à sua própria construção, isto é, sua identidade. Entendemos que tal aspecto está ligado aos pressupostos da própria educação. Nesse sentido, ao analisarmos o contexto do Ensino de Química, é essencial refletir sobre questões que se relacionam com as três categorias abordadas pelos trabalhos mencionados no eixo “Saberes Africanos”: Formação, Currículo e Contexto Histórico. Buscando uma formação mais humanista, isto é, formar o estudante para a compreensão, respeito, reconhecimento e valorização de culturas e pensamentos outros, deve-se considerar a relação entre os conhecimentos diversos (africanos, neste caso) e os ditos científicos. Isso é necessário porque, ao considerar questões étnico-raciais, é fundamental formar estudantes e professores capazes de ter uma percepção crítica da realidade, desde a crítica à própria Ciência e seus postulados até às estruturas sociais vigentes. Nesse sentido, a Erer torna-se uma abordagem fundamental para a luta e a promoção de uma educação antirracista. Não podemos discutir o processo de formação dos docentes e dos estudantes sem considerar um aspecto fundamental que dialoga com ele, o currículo. Nos trabalhos apresentados (Trab. 09, 11, 12 e 24), debate-se a importância de garantir a implementação da Lei nº 10.639/03 nos currículos universitários e da Educação Básica, visto que essa Lei se tornou uma obrigatoriedade no território nacional brasileiro. Esses estudos criticam a predominância de um currículo eurocêntrico e monocultural, ressaltando a necessidade de promover uma abordagem que dialogue com diferentes saberes e culturas, ou seja, uma Educação Intercultural nos currículos do Ensino de Química. Como podemos pensar em um currículo inclusivo, sem considerar os contextos históricos, políticos e econômicos que estão diretamente associados à Ciência? É crucial que esses saberes sejam abordados tanto na Formação Inicial quanto na Educação Básica, apresentando a construção dos conhecimentos e fomentando uma crítica em relação à própria Ciência. Portanto, é necessário repensar os processos educacionais de modo a promover uma percepção da Ciência como resultado da construção do conhecimento de diferentes povos, por meio de uma educação antirracista. Considerações finais Diante das questões apresentadas, identificamos 26 trabalhos sobre a Decolonialidade no ensino de Química que abordam discussões relacionadas aos conhecimentos africanos. Nesse contexto, foi possível analisar as interconexões entre diferentes produções e autores(as) sobre o tema, estabelecendo relações por meio das concepções e ideias escritas pelos pesquisadores. Além disso, destacamos a importância da Lei nº 10.639/03 para a valorização da cultura e história dos conhecimentos africanos, e como ela tem potencial de fomentar tanto a produção de investigações científicas quanto a formação de estudantes críticos e conscientes de suas próprias histórias. Nesse sentido, a criação e a discussão acerca de políticas públicas são fundamentais. Por fim, ressaltamos a necessidade de promover teorias críticas nos ambientes educacionais, com o objetivo de contribuir para a formação integral de professores e estudantes, bem como para a transformação social e a ampliação da liberdade de pensamento. Assim, entendemos a perspectiva Decolonial como um campo de pesquisa que transcende a produção de artigos, dissertações e teses, representando uma mudança profunda na visão de mundo. Trata-se, portanto, de uma transformação do pensar, do agir e do ser diante da realidade em que estamos inseridos. 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Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização IDENTIDADE AFRO-LATINOAMERICANA: um caminho possível para a transformação das práticas de ensino? Beatriz da Silva Leite Andrei Steveen Moreno-Rodríguez Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Caminho decolonial na América Latina: pressupostos iniciais “Nuestro camino es otro, porque hemos sido y somos la ‘otra-cara’ de la modernidade” (Dussel, 2013, p. 15). A frase de Enrique Dussel nos leva a refletir sobre a singularidade da experiência latino-americana em relação à modernidade ocidental. Dussel argumenta que a América Latina não deve seguir o mesmo caminho da modernidade europeia, pois sua trajetória histórica é marcada pela colonização e exploração. Ele propõe que a região deve trilhar um caminho próprio, fundamentado em suas realidades culturais e sociais, reconhecendo-se como a “outra face” da modernidade – aquela que foi marginalizada e silenciada para que o progresso e a civilização ocidentais pudessem se afirmar. Durante o processo de colonização, as ideias de identidade e valor dos povos colonizados foram transformadas e reconfiguradas pelos colonizadores. Por meio de um paradigma essencialista, os colonizados foram rotulados como “atrasados”, “selvagens”, “inferiores” e “irracionais”, enquanto os colonizadores eram vistos como “desenvolvidos”, “racionais” e “progressistas”. Essa divisão, como notado por Fanon (1961), não é apenas física, mas também reflete uma imposição violenta e agressiva sobre as formas de vida dos colonizados. Essa imposição criou um imaginário de inferiorização que força o oprimido a invejar e submeter-se à estrutura opressora, perpetuando uma hierarquia que desconsidera e desvaloriza suas culturas e formas de existência. Além disso, a noção de diferença entre os colonizadores e os colonizados é fundamentalmente marcada pela subalternização, que permeia as esferas do poder saber, do e do ser (Quijano, 2005; Restrepo; Rojas, 2010; Maldonado-Torres, 2007). No campo do saber, a subalternização manifesta-se na desvalorização e marginalização dos conhecimentos e práticas das populações submetidas à colonização que são frequentemente considerados como primitivas, em favor dos paradigmas eurocêntricos. No âmbito do poder, a subalternização se reflete na imposição de sistemas políticos e econômicos que favorecem os colonizadores e excluem os nativos das estruturas de decisão e controle, perpetuando uma hierarquia desigual (Quijano, 2010). Em relação ao ser, essa subalternização implica na desumanização e inferiorização dos povos colonizados, que são tratados como menos dignos e cujas identidades culturais são, frequentemente, subjugadas às normas e aos valores impostos pelos colonizadores (Maldonado-Torres, 2007). Nesse contexto, é fundamental pensar e questionar a cosmovisão desse grupo que, historicamente, foi responsável por validar o conhecimento, bem como: “evidenciar a ego-geo-política e a corpo-política do conhecimento, descortinando o território, a cor, raça, etnia, identidade sexual e de gênero, do sujeito cognoscente” (Almeida; Silva, 2015, p. 11). Em outras palavras, é essencial reconhecer que a construção epistêmica dominante foi moldada por processos de exclusão que apagaram as identidades e saberes de grupos postos à margem. Ao desvelar as formas de poder que sustentam essas narrativas, torna-se possível abrir espaço para uma maior diversidade de vozes e perspectivas, promovendo uma produção de conhecimento mais inclusiva e representativa. Nesse contexto, o pensamento decolonial emerge como uma corrente crítica que desafia e questiona as estruturas de poder e de conhecimento estabelecidas pelo colonialismo e perpetuadas pela e na modernidade. Ele convoca o Sul Global a desenvolver conhecimentos enraizados em seus próprios contextos e realidades, enfatizando a necessidade urgente de aprender com as experiências e saberes do Sul, superando a dependência das teorias oriundas do Norte Global. As culturas e os saberes do Sul Global não devem ser vistos apenas como produtos finais de um processo iniciado no Norte, mas como fontes autênticas de conhecimento, com valor intrínseco e potencial para servir como pontos de partida na produção de novos entendimentos e práticas culturais. Nesse cenário, a educação se destaca como um espaço para reverter as dinâmicas de poder e consolidar as perspectivas do Sul Global. É fundamental que as propostas educativas, especialmente no ensino de Ciências, integrem e abordem a imensa riqueza da região latino-americana, marcada por sua diversidade cultural, natural e epistemológica. Essa abordagem não só enriquece o aprendizado, tornando-o mais relevante e significativo, mas também capacita os estudantes a contribuir efetivamente para a preservação e o desenvolvimento sustentável de sua própria região (Amaya et al., 2021) e além, ampliando seu impacto para questões globais e interconectadas, como as mudanças climáticas e a justiça social. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 192 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 193 Nesse sentido, o objetivo deste estudo é investigar a relação entre a identidade cultural e geográfica de educadores latino-americanos e suas práticas pedagógicas no ensino de Ciências. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Procedimentos metodológicos O texto corresponde a um recorte de uma dissertação de mestrado (CAAE: 74530823.9.0000.5526) cujo objetivo geral foi investigar de qual(is) forma(s) estão sendo trabalhadas abordagens decoloniais em torno do ensino de Ciências e a sua influência nos processos de profissionalização docente na América Latina. Inicialmente, foi realizada uma Revisão de Literatura Sistemática (RSL) nas bases de dados Scielo, Periódicos da Capes e Scopus, obtendo como resultado 36 artigos localizados. Após a RSL, os autores dos trabalhos selecionados foram convidados a participar do estudo por meio de entrevistas que foram realizadas via Google Meet (2024), utilizando um roteiro com sete perguntas, gravadas em vídeo e, posteriormente, transcritas com o auxílio do Software Sonix (2024). Reconhecendo as limitações da transcrição automática, realizamos uma revisão minuciosa dos áudios transcritos após a transcrição preliminar. A sexta e a sétima perguntas do roteiro da entrevista foram: “Você se identifica como latino-americano? Por quê?” e “Em que medida essa identificação afeta suas práticas de ensino?” Neste trabalho, utilizaremos apenas os registros relacionados às respostas dessas perguntas, com o objetivo de compreender a influência da identidade latino-americana nas práticas pedagógicas de ensino. Como o pensamento decolonial se relaciona com as diversas maneiras de nomear e entender o território Latino-Americano? O pensamento decolonial, originado a partir das pesquisas pioneiras de Aníbal Quijano sobre a colonialidade, surgiu no final dos anos 90. Essas investigações abriram caminho para uma série de estudos que buscavam examinar questões histórico-sociais problemáticas na América Latina, muitas das quais haviam sido consideradas encerradas pelas Ciências Sociais da região. Ao revisitar as raízes históricas e as marcas do colonialismo, foi possível compreender mais profundamente a colonialidade como uma faceta inerente à modernidade. Dentro desse contexto, vários estudiosos, como, por exemplo, Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Edgardo Lander, Ramón Grosfoguel, Arturo Escobar, Enrique Dussel, Nelson Maldonado-Torres, Santiago Castro-Gómez, Caterine Walsh, entre outros, reconheceram a importância de expandir as categorias e os conceitos adequados à realidade latino-americana. 194 A América caiu do céu – literalmente falando – que Américo Vespúcio estava observando quando descobriu que as estrelas que via do sul do Brasil de hoje em dia não eram as mesmas que costumava ver do Mediterrâneo. O confuso da situação é que, uma vez que o continente recebeu o nome de América no século XVI e que América Latina foi denominada assim no século XIX, foi como se esses nomes sempre tivessem existido (Mignolo, 2007, p. 28, tradução nossa). A imposição dos nomes “América” e “América Latina” simboliza um esforço de homogeneização e dominação cultural, ao redefinir o território sob uma perspectiva eurocêntrica. Esses nomes não apenas uniformizaram a região, mas também desconsideraram a rica diversidade cultural e as identidades dos nativos, assim como das sociedades preexistentes. Nesse contexto, de acordo com Cione (2024) apud Ribeiro (2022), a identidade latino-americana vai além dos aspectos territoriais impostos, envolvendo uma profunda conexão histórica e cultural que une os povos da região. Ele argumenta que essa identidade é moldada por uma trajetória comum de resistência à colonização e pela mistura de influências indígenas, africanas e europeias, formando uma “Nação Latino-Americana” que compartilha valores, lutas e aspirações. Essa ideia de unidade proposta por Cione (2024) apud Ribeiro (2022) é baseada não só em questões geográficas, mas em uma busca por autonomia frente à hegemonia anglo-saxônica, especialmente dos Estados Unidos. Inspirado pelo ideal de Simón Bolívar, Cione (2024) apud Ribeiro (2022) sugere que, assim como a comunidade europeia se unificou, os países da América Latina poderiam unir forças para promover um modelo de desenvolvimento independente e uma identidade coletiva mais sólida, que valorize suas raízes e enfrente os desafios da globalização. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Esse pensamento crítico também se reflete nas diversas formas de nomear o território latino-americano, evidenciando a complexidade e a pluralidade de identidades que compõem a região. Termos como “América Latina”, “Abya Yala”, “Amefricanidade” e “Latino-americano” são usados para expressar diferentes perspectivas e reivindicações políticas, culturais e epistemológicas. Segundo Mignolo (2007), antes do contato europeu em 1492, o território que hoje chamamos de América Latina era conhecido por nomes distintos entre seus povos originários. A região andina era chamada de Tawantisuyu, o vale do México como Anahuac, e o que hoje denominamos América Central era referido como Abya-Yala. Na época, a visão europeia estava restrita a três continentes: Europa, Ásia e África. Ademais, o autor destaca Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 195 Assim, ser latino-americano é, acima de tudo, uma expressão de luta e de resiliência diante das desigualdades e violências sofridas ao longo da história. A discussão, em torno dos termos “Abya Yala” e “Amefricanidade”, revela as múltiplas camadas de identidade e resistência presentes na América Latina, uma região marcada por uma complexa história de colonização, luta e resiliência. É importante ressaltar que há uma falta de consenso entre alguns autores sobre América Latina, uma vez que a perspectiva europeia tende a ver a América Latina como uma região que está afastada do desenvolvimento, perspectiva ligada a estereótipos e visões preconceituosas. Por outro lado, autores latino-americanos utilizam o termo “Latinoamérica” para afirmar uma identidade distinta, destacando uma cultura e uma história que diferem das dos países do Norte Global. “Abya Yala” é uma expressão originária do idioma Kuna, que surgiu por volta de 1507, mas ganhou maior destaque no final do século XVIII e início do século XIX, quando as elites crioulas a utilizaram para se afirmar durante os processos de independência em oposição aos colonizadores europeus. O termo é utilizado para designar o território que hoje conhecemos como o continente americano. “Yala” significa terra ou território, enquanto “Abya” se refere à mãe ou sangue vital. Juntas, essas palavras assumem novos significados, como, por exemplo, “terra de todos”, “terra viva” ou “terra madura”. “Abya Yala” tem sido utilizado como uma forma de autodesignação pelos povos originários do continente, simbolizando um processo de construção político-identitária a partir de uma perspectiva decolonial da história desse território (Gonçalves, 2009; Martins; Campos, 2023). Nesse contexto, o termo “Amefricanidade”, cunhado por Lélia Gonzalez, une as identidades africanas e indígenas na América Latina, destacando a influência africana na formação cultural, social e política da região. Além disso, esse conceito busca trazer uma nova perspectiva crítica à formação histórico-cultural do Brasil, destacando que o país não é definido exclusivamente por uma herança europeia e branca, como, muitas vezes, é afirmado (Gonzalez, 2020a). A partir dessa perspectiva, “Amefricanidade” permite uma releitura das relações de poder e da identidade brasileira, enfatizando a centralidade das populações negras e indígenas na construção da nação. Ao introduzir o conceito de “Améfrica Ladina”, Gonzalez (2020a) desafia as concepções tradicionais da identidade latino-americana que, frequentemente, invisibilizam as raízes africanas e indígenas. A troca do “T” por “D” em “latinidade” é um gesto simbólico e crítico, que visa desestabilizar a perspectiva eurocêntrica 196 os termos ‘afro-american’ (afro-americano) e ‘african-american’ (africanoamericano) nos remetem a uma primeira reflexão: a de que só existiriam negros nos Estados Unidos, e não em todo o continente. E a uma outra, que aponta para a reprodução inconsciente da posição imperialista dos Estados Unidos, que afirmam ser ‘A AMÉRICA’. Afinal, o que dizer dos outros países da AMÉRICA do Sul, Central, Insular e do Norte? Por que considerar o Caribe como algo separado, se foi ali, justamente, que se iniciou a história dessa AMÉRICA? É interessante observar alguém que sai do Brasil, por exemplo, dizer que está indo para ‘a América’. É que todos nós, de qualquer região do continente, efetuamos a mesma reprodução, perpetuamos o imperialismo dos Estados Unidos, chamando seus habitantes de ‘americanos’. E nós, o que somos, asiáticos? (Gonzalez, 2020a, p. 134, grifos da autora). Ela argumenta que a categoria “Amefricanidade” possui implicações democráticas nos campos cultural e político, sendo essencial compreender a formação histórica dos países da região, com ênfase nos processos de dominação, racismo, colonialismo e imperialismo. Fonseca (2021) complementa esse raciocínio ao afirmar que o conceito desenvolvido por Lélia Gonzalez permite uma percepção crítica das influências e contribuições africanas e indígenas na cultura e na construção das sociedades. O desprezo por essas culturas é fruto da negação da humanidade desses povos, e a Ciência, frequentemente, perpetua esse desprezo ao ignorar tais contribuições, o que perpetua o massacre cultural que se manifesta desde a perda de línguas até práticas tradicionais (Fonseca, 2021). É nesse contexto que concordamos com Fonseca (2021) que a Ciência, principalmente no século XIX, foi utilizada para classificar e hierarquizar diferentes grupos humanos, criando noções pseudocientíficas de “raça” que sustentaram a ideia de superioridade europeia e a inferioridade de povos colonizados. O conhecimento científico foi também instrumentalizado para explorar os recursos naturais de territórios coloniais, utilizando técnicas de extração e gestão que beneficiavam as potências coloniais, enquanto as populações locais eram deixadas à margem (Quijano, 2005; Souza, 2022). Por essa razão, entendemos que o ensino de Ciências não deve se abster de discutir essas relações, uma vez que a educação científica, desde uma perspectiva de formação para a cidadania, envolve considerar aspectos políticos, históricos e sociais (Krasilchik, 2000; Cachapuz et al., 2005). É crucial reconhecer que, apesar de a Ciência já ter demonstrado que não existem diferenças Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização dominante e abrir espaço para uma compreensão mais abrangente e complexa da América Latina (Gonzalez, 2020a). A autora ainda aponta que: Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 197 raciais biológicas entre brancos e negros (Munanga, 2004), e mesmo com as significativas contribuições das populações negras para a Ciência, a Medicina, dentre outras áreas (Pinheiro, 2019), ainda há muito a ser discutido e enfrentado. Além disso, os processos educativos orientados pela decolonialidade se tornam cruciais para reestruturar o ensino. Por exemplo, em aulas de Biologia que, tradicionalmente, focam em conteúdos específicos da genética, é possível promover discussões essenciais sobre temas como o racismo e sua persistência, cujas origens, frequentemente, estão ligadas ao processo histórico de colonização. Ao explorar questões como o silenciamento do fenótipo negro (Araújo; Junior, 2024), os educadores não apenas enriquecem o aprendizado dos estudantes, mas também desafiam e desconstroem estereótipos profundamente enraizados sobre pessoas não brancas (Pinheiro, 2019). Assim, segundo Maldonado-Torres (2007), a atitude decolonial é um processo de tomada de consciência em que o sujeito reconhece que a colonização é intrínseca à modernidade. Nesse contexto, a modernidade não pode ser separada da colonialidade, que envolve não apenas a dominação territorial, mas também o controle sobre a produção do conhecimento, da cultura e das relações sociais. A atitude decolonial, portanto, surge como uma resposta crítica à imposição da perspectiva hegemônica. O autor descreve essa postura como um “grito de espanto”, uma reação profunda e individual ao horror causado pela colonialidade que inclui o racismo, a exploração econômica e a marginalização cultural. Esse “grito” não é apenas um lamento, mas um impulso para a ação transformadora, visando desmantelar as várias formas de colonialidade que ainda persistem nas estruturas sociais, políticas e epistemológicas contemporâneas. A atitude decolonial permite que desenvolvamos uma consciência crítica que não apenas questiona o passado colonial, mas também desafia as continuidades coloniais presentes na modernidade, promovendo uma nova forma de engajamento político e social baseada na superação das hierarquias impostas pela colonialidade. Nesse sentido, para que haja uma real mudança de atitude decolonial, faz-se necessário que o sujeito, individualmente, se espante e crie consciência da sua própria realidade. Nessa mesma perspectiva, Mignolo (2008) destaca a importância da atitude de desobediência epistêmica como um meio de combater a colonialidade. Segundo ele, é fundamental que nos movamos além das estruturas estabelecidas e abramos espaços para confrontar os padrões de pensamento já construídos, pois, sem essa abertura, “permaneceremos no domínio da oposição interna aos conceitos modernos e eurocentrados, enraizados nas categorias de conceitos gregos e latinos e nas experiências e subjetividades formadas dessas bases [...]” (Mignolo, 2008, p. 288). 198 Antes de expormos e discutirmos as respostas às duas perguntas da entrevista, é importante contextualizar o ambiente em que os professores participantes estão inseridos. Além disso, conhecer as histórias de vida dos participantes nos ajuda a compreender como eles navegam e contestam as estruturas coloniais em suas práticas pedagógicas e de pesquisa. Essa compreensão enriquece a análise e fortalece as conclusões do estudo. Participaram desta pesquisa sete pesquisadores latino-americanos que atuam no Brasil, sendo, três licenciados em Biologia, dois licenciados em Química e um em Física, além de um professor da área de Humanidades, especificamente do Ensino de História. Conforme indicado na Figura 1, os participantes estão localizados nas regiões Nordeste, Sudeste, Sul e Norte. Para preservar a confidencialidade de seus dados, substituímos seus nomes por nomes fictícios. Figura 1 – Localização dos pesquisadores Fonte: Dados da pesquisa, 2024. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Como os professores reconhecem sua identidade Latino-Americana e contestam as estruturas coloniais em suas práticas pedagógicas? EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa • • • Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização • • • 199 Zola, licenciada em Biologia, identificou a ausência de discussões sobre relações étnico-raciais em sua formação e passou a focar seus estudos em integrar essas questões na sala de aula. Tainá, graduada em Química, pesquisa a incorporação de aspectos culturais e regionais ao ensino da disciplina, buscando torná-la mais relevante. Miranda, formada em História com mestrado e doutorado em História das Ciências, dedica-se à pedagogia decolonial intercultural. T’Challa, graduado em Ciências Biológicas, começou a abordar questões raciais e a saúde da população negra em sua carreira, estudando intelectuais negros. Kenai, licenciado em Química, promove uma educação antirracista e afrocentrada. Raoni, licenciado em Física, desenvolveu uma visão crítica da Ciência durante sua graduação em Filosofia e aprofundou seus estudos decoloniais no doutorado. Atualmente, como professor, ele desafia as estruturas tradicionais do conhecimento científico. Porã, formado em Biologia, centra suas pesquisas na aplicação da decolonialidade no ensino de Ciências, buscando sua materialização na prática escolar. Identidade Latino-Americana e suas influências nas práticas de ensino Como visto nas discussões acima, América Latina é uma região marcada por uma complexa história de colonização e desigualdades estruturais, que continuam a moldar o contexto educacional. Os sistemas de ensino, muitas vezes, refletem e perpetuam essas desigualdades, apresentando desafios significativos para os educadores que buscam implementar práticas pedagógicas inclusivas e críticas. Quando os participantes foram perguntados: Você se identifica como latino-americano? Por quê?” e “Em que medida essa identificação afeta suas práticas de ensino?” os participantes responderam: Mas eu me considero porque nós temos um frescor pensar em América como um todo, a América Latina, os países da América Latina. Eles realmente sofreram um processo muito forte da parte de colonização. Então, dentro disso, a gente tem vários espelhos aí de países que perderam suas identidades, de países que perderam as suas culturas, os seus próprios conhecimentos. Isso mesmo, dentro da base escolar ou mais ampla do que isso. Então, a gente tem muitos exemplos disso [...] E a partir do momento 200 Sim, pelo meu contexto histórico, cultural, geográfico, né? De um pertencimento a um lugar, né? Eu me considero latino-americana de uma forma bem situada geograficamente assim e que tem desdobramentos para o meu pensamento, para minha posição intelectual, para minha escrita [...] eu quero pessoas aqui na América que conhecem a minha realidade, estão mais próximas de mim. E para falar diretamente comigo, com os meus estudantes. Então, a escolha do que eu vou ler, do que eu vou me aprofundar, do que eu vou apresentar pros meus estudantes, seja no ensino fundamental antes, seja no ensino superior [...] Todos os outros são muito bem localizados [...] (Entrevistada Zola, 2024, grifo nosso). Sem dúvida que eu me identifico como latino-americano e, inclusive, acho que faço esse movimento para destituir as bibliografias europeias e considerar as bibliografias latino-americanas, sabendo que elas são diversas, sabendo que existe toda uma diferença entre povos ou países que são majoritariamente quéchuas ou majoritariamente Aymara, ou majoritariamente guaranis, como a gente tem na América Latina. E o Brasil, que tem quase 300 povos diferentes. Tantas línguas, né? Essa identificação latino-americana, ela se dá em torno não de uma positividade filosófica, mas de uma negatividade. O que me torna latino-americano é ser fruto de uma mesma experiência violenta, colonial. É ser fruto de um lugar onde sistematicamente continuam assassinando pessoas pretas indígenas na América Latina inteira. Isso é o que nos une. O que nos une são essas agruras históricas, né? É isso que nos torna latino-americanos (Entrevistado Kenai, 2024, grifo nosso). A leitura desses trechos revela uma convergência clara entre os três participantes que reconhecem a identidade latino-americana como profundamente ligada à experiência histórica da colonização (Cione, 2024 apud Ribeiro, 2022). Todos eles sublinham como essa identidade é formada por uma rica mistura de povos, culturas e experiências que coexistem simultaneamente na região. Para eles, a América Latina não é apenas uma geografia, mas um espaço marcado por múltiplas influências e uma história comum de resistência e luta contra as opressões coloniais. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização em que eu compreendi isso, todas as minhas aulas, todo o meu ser professor, os materiais que eu propus como professora, eles mudaram completamente. Porque, por exemplo, eu posso falar de compostos orgânicos, mas eu também posso falar de biomoléculas de plantas medicinais, né? [...] Então, todo esse reconhecimento como professora, como latino-americana e como amazônica […] também eles refletiram de maneira irreversível na minha prática [...]. Eu nunca mais fui a mesma depois que eu tive o contato com esses, com esses referenciais (Entrevistada Tainá, 2024, grifo nosso). Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 201 Além disso, podemos observar nos trechos destacados que essa tomada de consciência se reflete significativamente na escolha de conteúdos e práticas pedagógicas que valorizam teóricos da América Latina. Esse movimento demonstra uma atitude de “desobediência epistêmica”, conforme evidenciado por Mignolo (2008), que se refere à necessidade de desafiar e romper com o monopólio do conhecimento imposto pelo sistema de poder colonial e, posteriormente, pela modernidade eurocêntrica. Além disso, encoraja uma reflexão crítica sobre a origem e as implicações do conhecimento que se ensina. Em última análise, os trechos revelam que a identidade latino-americana, para esses educadores, não é apenas um conceito abstrato, mas uma prática viva que permeia suas ações diárias no ensino e na escolha dos conteúdos. O reconhecimento dessa identidade implica em mudanças na forma como se posicionam no mundo, nas suas escolhas pedagógicas e na maneira como constroem saberes junto aos estudantes. A identidade latino-americana, como expressa pelos participantes, está intrinsecamente ligada à memória, à resistência, à reconstrução cultural e às práticas cotidianas de contestação. Ela reflete a luta constante para resgatar saberes e práticas que foram marginalizadas pela história colonial, ao mesmo tempo que se torna uma ferramenta para repensar o presente e transformar o futuro. O participante Raoni, além de se identificar como latino-americano, traz uma reflexão significativa sobre o papel da denúncia no contexto do ensino de Ciências: E aí meu posicionamento, enquanto latino-americano, é fazer essa denúncia e pensar em uma outra forma possível de ser e estar aqui na América Latina, de não estar sempre subjugado a um colonizador, né? E de pensar que a gente tem a nossa potência, que a gente é capaz de se organizar de uma maneira diferente daquela que foi imposta, tanto do ponto de vista das relações humanas quanto da produção de conhecimento […] eu acho que é muito importante para mim enquanto professor. Em pensar em fazer essa crítica à ciência, essa ciência hegemônica, universal e de tudo que ela se apropriou e silenciou (Entrevistada Raoni, 2024, grifo nosso). Ele vê a denúncia como uma ação fundamental que vai além do simples reconhecimento das injustiças. Para ele, a denúncia envolve revelar e conscientizar sobre as outras formas de ser e estar na América Latina, especialmente no campo da Ciência e Educação. Ao se identificar como latino-americano, Raoni não só reconhece a influência histórica da colonização, mas adota um papel ativo ao expor como a ciência tradicional, muitas vezes eurocêntrica, tem excluído e silenciado conhecimentos locais. Isso inclui modos de vida que foram marginalizados em prol de uma ciência hegemônica e universalista. Segundo Raoni, a crítica à ciência hegemônica é crucial para o ensino, pois visa desconstruir a visão de que apenas o conhecimento científico dominante é válido. Ele defende a valorização de outras formas de produção de conhecimento que refletem a realidade latino-americana e suas potências culturais e sociais. Como complementam Rodrigues, Cassiani e Linsingen (2019), é essencial que a educação capacite os alunos a desenvolver uma compreensão crítica da realidade (denúncia) e a transformá-la de forma ativa (anúncio). O processo de denunciar e anunciar ajuda a formar cidadãos críticos, capazes de agir para mudar o mundo, em vez de simplesmente se adaptar a ele. Portanto, a denúncia se torna um ato de revelação das injustiças ocultas, como desigualdades econômicas, racismo e exclusão social. O anúncio, por sua vez, propõe soluções transformadoras, que visam à libertação dos indivíduos e à criação de um futuro mais justo e inclusivo. Por outro lado, o participante Porã problematiza a própria identificação como latino-americano ao assinalar: Eu prefiro me identificar com professor Marica, se é de identidade, mas como professor marica, não falo nem gay, nem homossexual, nem LGBT. Por quê? Porque marica foi a palavra que sempre me falaram na escola, né? E aí, do nada, chegou os gringos com a luta LGBT e falaram não, vocês não são gays. Palavra em inglês é muito estranho, né? É porque marica já carrega essa latinidade, né? Uma palavra você a encontra na Argentina. Se encontra lá no Chile, você encontrará no México, até no Brasil tem as palavras de maricona e tal. Enfim, tem atestado. A identidade latino-americana, além de carregada de estereótipos, me parece muito heteronormativa. Nos vídeos de reggaeton e funk, por exemplo, essa identidade é frequentemente retratada de forma extremamente cis e centrada no homem hétero. Parece que, dentro dessa visão, não há espaço para muitas outras formas de existir como latino-americano (Entrevistada Porã, 2024, grifo nosso). Apesar de Porã não se identificar diretamente como latino-americano, ele reconhece que sua experiência está inserida no contexto latino-americano, especialmente ao se apropriar do termo “marica” como parte de sua identidade. Ele entende que o termo carrega uma carga histórica e cultural própria da América Latina, sendo uma palavra amplamente usada em países como Argentina, Chile, México e até mesmo Brasil. Nesse sentido, destacamos que a vivência e a identidade de Porã estão conectadas com a latinidade. Da mesma forma, concordamos com o participante em relação à crítica da representação hegemônica e heteronormativa associada à identidade latino-americana. Porã aponta que a identidade latino-americana, na forma como é, frequentemente, retratada na cultura popular, como nos vídeos de reggaeton Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 202 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 203 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização e funk, reflete uma visão cisnormativa e centrada no homem hétero, deixando pouco espaço para outras formas de ser e existir dentro dessa construção. Assim, ao mesmo tempo que ele reconhece sua inserção na cultura e história latino-americanas, denuncia as limitações e exclusões que essas representações impõem a quem não se enquadra nos padrões tradicionais de gênero e de sexualidade. Para T’Chala, a identidade latino-americana surge tardiamente, após uma trajetória de autodescobrimento racial e de pertencimento à ancestralidade africana. Ele reflete sobre esse processo de maneira cronológica: Eu sou latino-americano. Essa minha identidade latino-americana. Quando eu paro para ver cronologicamente, foi a última que se estabeleceu na minha cabeça, mas também foi a primeira identidade. A primeira identidade que eu tive foi aquela percepção de ser, de ter nascido, ter nascido pardo. Ter me tornado preto e, mais adiante, ter me tornado negro, mas com aquela conexão umbilical com o continente africano, que é umbilical mesmo. O Brasil e África estão ali, ó. Está bem. Veja esse meu sentimento de pertencimento à América Latina, veio principalmente depois de eu ter tido contato com Humberto, com as leituras de Beatriz Nascimento. Eu trago os filósofos negros e indígenas da nossa América Latina. Tá certo. Então, olha, não tem como separar. É tudo junto, é tudo misturado. Não há como apartar, não há como separar (Entrevistado T’Chala, 2024, grifo nosso). Esse processo de identificação pode ser compreendido à luz da noção da Améfrica Ladina, de Lélia González (2020a). A jornada de T’Chala, de se perceber inicialmente como pardo, depois preto e, finalmente, negro, reflete essa conscientização racial e cultural. Para T’Chala, a noção de separação entre África e América Latina é ilusória. Ao afirmar que “é tudo junto e é tudo misturado”, ele reforça a interconexão entre culturas. Essa perspectiva de mescla identitária, na qual as influências culturais diversas se entrelaçam de forma inseparável, rejeita as divisões impostas pelas narrativas coloniais e eurocêntricas, propondo uma visão mais inclusiva e dinâmica da identidade latino-americana. Além disso, González (1983; 1988a) também reflete sobre a importância da língua como um elemento de resistência e subversão, um aspecto relevante para entender as dinâmicas culturais da “Améfrica Ladina”. Ela introduz o conceito de “pretuguês”, que se refere à fusão do português com as influências africanas, mostrando como a linguagem pode se transformar em um espaço de resistência, identidade e memória afro-brasileira. No contexto da “Améfrica Ladina”, a língua atua como uma ponte entre as diferentes culturas, expressando essa fusão de identidades que T’Chala descreve ao rejeitar a separação entre África e América Latina. A partir de sua própria experiência como mulher negra no Brasil, González defende a construção de uma identidade que não seja apenas latino-americana, mas afro-latino-americana, reconhecendo a ancestralidade africana e seu impacto nas formações culturais e sociais do continente. Ela recusa as separações rígidas entre identidades raciais e culturais, afirmando a necessidade de uma visão interseccional que contemple as múltiplas camadas de pertencimento. Da mesma forma, T’Chala reconhece a complexidade de sua identidade, que é forjada pela interseção entre raça, cultura e história. Esse entendimento nos permite compreender como a trajetória de T’Chala se alinha com os conceitos desenvolvidos por Gonzalez, mostrando que a identidade latino-americana é moldada por uma mescla indissociável de influências africanas, indígenas e europeias. Ao abraçar essa multiplicidade, tanto T’Chala quanto Gonzalez promovem uma visão de identidade que não se limita às fronteiras tradicionais, mas que reconhece e valoriza as contribuições de todos os povos que fazem parte da história do nosso continente. Considerações finais Este estudo nos permitiu desvelar a interconexão entre a identidade latino-americana e as práticas pedagógicas decoloniais adotadas por professores desta região. A análise das entrevistas com os participantes destaca como o reconhecimento das marcas da colonização, assim como da diversidade cultural da América Latina, (re)construiu suas identidades, transformando suas abordagens educacionais. Os participantes do estudo reconhecem que sua identidade não se baseia apenas no aspecto geográfico, mas na vivência carregada de história de resistência e luta contra opressões coloniais. Essa identidade se reflete em suas práticas pedagógicas por meio da valorização de conhecimentos outros e da crítica à ciência positivista, hegemônica, salvacionista e tecnocrática. A abordagem pedagógica desses professores é marcada por uma “desobediência epistêmica”, que desafia o monopólio do conhecimento imposto por narrativas eurocêntricas. Além disso, o estudo revela a complexidade da identidade latino-americana, que, para alguns participantes, está imbricada com outras dimensões como a racialidade e a sexualidade. T’Chala, por exemplo, vê sua identidade latino-americana como um desdobramento de sua conscientização racial e cultural, enquanto Porã critica a representação heteronormativa da identidade latino-americana e reflete sobre as limitações desse conceito. Nesse sentido, a partir da experiência de T’Chala, futuras investigações poderiam aprofundar a relação entre consciência racial e identidade cultural, considerando como essas dimensões são construídas e manifestadas em diferentes contextos latino-americanos. Ademais, a crítica de Porã sobre a representação heteronormativa da identidade latino-americana abre caminhos para estudos que examinem as limitações e os desafios desse conceito em capturar a diversidade sexual e de gênero na região. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 204 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 205 REFERÊNCIAS ALMEIDA, E. A.; SILVA, J. 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Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização ÍNDICE REMISSIVO A América Latina 3, 11, 12, 21, 23, 24, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 34, 35, 36, 37, 39, 40, 41, 53, 55, 59, 71, 73, 74, 75, 76, 78, 79, 80, 82, 83, 84, 88, 91, 92, 103, 113, 114, 117, 119, 121, 125, 139, 145, 147, 160, 162, 163, 164, 187, 191, 193, 194, 195, 196, 199, 200, 201, 202, 203, 204, 206, 207 Análise textual 12, 50, 52, 60, 70, 71, 77, 81, 84, 86, 92, 95, 114, 119, 121, 126 Aprendizagem 14, 15, 40, 46, 66, 67, 75, 79, 87, 88, 90, 91, 92, 97, 98, 99, 100, 106, 113, 115, 124, 126, 129, 131, 132, 135, 136, 137, 138, 139, 140, 155, 156, 159, 160, 165, 172, 176, 179, 180 C Ciência 23, 24, 26, 32, 34, 44, 45, 49, 52, 53, 56, 57, 58, 69, 70, 71, 74, 75, 76, 78, 79, 81, 83, 84, 87, 88, 89, 90, 92, 100, 103, 106, 112, 113, 114, 119, 121, 122, 125, 127, 131, 140, 141, 147, 148, 152, 154, 155, 156, 162, 163, 164, 165, 169, 171, 179, 181, 183, 184, 187, 188, 189, 196, 197, 199, 201, 202, 204, 215 Ciências humanas 75, 140, 176, 185, 188 Colonialidade 11, 30, 36, 59, 73, 74, 78, 79, 82, 83, 91, 92, 117, 118, 171, 175, 179, 183, 187, 193, 197, 206, 207 Conhecimento 12, 15, 23, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 36, 39, 41, 46, 47, 73, 74, 75, 76, 78, 79, 80, 83, 88, 89, 90, 91, 92, 95, 100, 103, 104, 105, 106, 107, 108, 109, 111, 112, 113, 118, 119, 121, 122, 123, 124, 127, 129, 130, 131, 135, 138, 139, 145, 146, 152, 153, 157, 162, 163, 164, 166, 167, 168, 169, 172, 173, 175, 177, 178, 179, 180, 181, 182, 183, 184, 192, 196, 197, 199, 201, 202, 204 Conhecimento científico 23, 73, 76, 78, 89, 92, 100, 127, 138, 139, 162, 163, 166, 175, 178, 182, 183, 196, 199, 202 D Debates em ensino 37, 82, 115, 186, 187, 188, 189 Decolonialidade 15, 27, 28, 34, 74, 75, 76, 78, 80, 89, 90, 93, 118, 125, 171, 172, 173, 175, 177, 184, 186, 197, 199 E Educação 3, 11, 12, 13, 14, 15, 21, 23, 24, 26, 28, 30, 32, 33, 34, 35, 37, 39, 40, 41, 42, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 52, 53, 55, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 69, 70, 71, 73, 75, 76, 80, 81, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 88, 89, 90, 91, 92, 93, 96, 97, 99, 103, 107, 114, 115, 117, 118, 119, 121, 123, 125, 126, 127, 129, 130, 139, 140, 141, 145, 146, 147, 149, 150, 151, 154, 155, 156, 157, 158, 159, 160, 161, 162, 163, 164, 165, 167, 168, 169, 171, 172, 175, 176, 177, 178, 179, 180, 181, 182, 183, 184, 185, 186, 187, 188, 189, 192, 196, 199, 201, 202, 206, 207, 213, 214, 215 Educação ambiental 14, 15, 47, 55, 57, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 69, 71, 97, 164, 188, 213, 215 Educação antirracista 176, 178, 180, 182, 184, 199 Educação em ciências 15, 23, 40, 41, 47, 52, 53, 75, 82, 83, 93, 114, 126, 146, 147, 154, 155, 156, 161, 162, 163, 164, 165, 167, 169, 172, 187, 188, 189, 206, 213, 214, 215 Educação química 3, 11, 12, 13, 14, 21, 23, 24, 30, 34, 39, 40, 41, 42, 45, 46, 47, 48, 55, 58, 59, 60, 64, 69, 73, 81, 83, 84, 86, 90, 91, 107, 117, 119, 145, 146, 147, 155, 168, 171, 185, 215 Eixo temático 39, 42, 45, 46, 76, 84, 85, 95, 119, 120, 121, 145, 175 Ensino 6, 14, 15, 23, 24, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 39, 40, 41, 43, 44, 46, 47, 53, 74, 75, 77, 78, 79, 80, 81, 82, 85, 86, 87, 88, 89, 90, 91, 92, 93, 95, 97, 98, 99, 103, 104, 106, 107, 111, 113, 114, 115, 118, 119, 120, 121, 122, 123, 124, 125, 126, 127, 129, 131, 132, 135, 136, 137, 138, 139, 140, 141, 145, 146, 147, 148, 149, 150, 151, 152, 153, 154, 155, 156, 158, 159, 160, 162, 163, 164, 166, 167, 168, 169, 171, 172, 173, 175, 176, 177, 178, 180, 182, 183, 184, 185, 186, 187, 188, 189, 191, 192, 193, 196, 197, 198, 199, 200, 201, 202, 205, 206, 213, 214, 215 Estratégias 12, 15, 33, 40, 55, 63, 65, 67, 69, 78, 80, 84, 86, 87, 88, 90, 91, 92, 95, 96, 99, 100, 101, 118, 123, 136 Eurocentrismo 36, 73, 82, 92, 118, 175, 207 F Facetas do conhecimento 95, 104, 106, 113 Fenômenos 26, 33, 42, 48, 57, 60, 76, 84, 86, 97, 99, 103, 104, 105, 106, 109, 110, 120, 137, 163, 164, 166, 172 I Incorporação da educação ambiental 63, 65, 66, 68 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização 210 EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 211 M Mapeamento 11, 12, 21, 39, 41, 42, 46, 47, 58, 59, 60, 62, 63, 76, 80, 119, 145, 146 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização N Natureza da ciência 32, 34, 112, 121, 122, 155, 156, 163, 164 P Perspectiva decolonial 31, 73, 76, 78, 79, 80, 84, 88, 117, 120, 121, 122, 171, 172, 175, 179, 180, 184, 195 Processo de formação 47, 78, 80, 159, 175, 177, 183, 184 Professores 11, 14, 15, 33, 34, 39, 40, 41, 45, 46, 47, 48, 52, 62, 63, 64, 67, 68, 69, 70, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 88, 90, 91, 93, 95, 97, 103, 104, 106, 107, 108, 109, 112, 114, 115, 117, 121, 124, 126, 129, 131, 132, 136, 137, 139, 145, 146, 150, 151, 152, 155, 156, 158, 159, 160, 161, 162, 164, 165, 166, 167, 168, 169, 171, 172, 175, 176, 177, 180, 182, 184, 185, 186, 187, 189, 198, 204, 213, 214, 215 Q Química 3, 6, 11, 12, 13, 14, 15, 21, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 39, 40, 41, 42, 43, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 55, 58, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 69, 70, 71, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 88, 89, 90, 91, 92, 93, 95, 96, 97, 98, 99, 100, 101, 102, 103, 104, 105, 106, 107, 108, 109, 110, 111, 112, 113, 114, 115, 117, 118, 119, 120, 121, 122, 123, 125, 126, 129, 131, 132, 133, 134, 135, 136, 137, 138, 139, 140, 141, 145, 146, 147, 148, 149, 151, 152, 153, 154, 155, 156, 164, 168, 169, 171, 172, 173, 175, 176, 177, 178, 179, 180, 181, 182, 183, 184, 185, 186, 187, 188, 189, 191, 198, 199, 213, 214, 215 T Tecnologias 14, 15, 62, 66, 87, 88, 90, 99, 100, 113, 129, 130, 131, 136, 139, 140, 141 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização AUTORAS E AUTORES Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Aline Pires Barbosa Graduanda de Licenciatura em Química da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. Bolsista em Iniciação Científica no projeto Mapequim/AL. Integrante do Grupo de Pesquisa em Currículo e Formação de Professores em Ensino de Ciências – GPeCFEC-UESC. Ana Laura Salcedo de Medeiros Doutora e mestre em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde. Especialista em Ecologia Aquática Costeira pela Universidade Federal do Rio Grande. Graduação, Bacharelado em Química – Faculdades Oswaldo Cruz e Licenciatura em Ciências – Habilitação em Química – Faculdades Oswaldo Cruz. Atualmente, é professora Adjunta na Universidade Federal do Rio Grande. Andrei Steveen Moreno-Rodríguez Doutor em Educação em Ciências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestre em Educação em Ciências pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG e licenciado em Química pela Universidad Pedagógica Nacional – UPN da Colômbia. Realizou estágio pós-doutoral na Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC e foi Professor Visitante do Departamento de Ciências Exatas e Tecnológicas (DCET) dessa instituição. Atualmente, é professor do Departamento de Química DQ/CCEN da Universidade Federal da Paraíba – UFPB. Lidera o grupo de pesquisa Tramas científicas, tecnológicas e interculturais e integra o Grupo de Pesquisa em Currículo e Formação de Professores em Ensino de Ciências – GPeCFEC e Comunidades Aprendentes em Educação Ambiental, Ciências e Matemática – CEAMECIM. Beatriz da Silva Leite Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática da Universidade Estadual de Santa Cruz na linha de pesquisa Formação de Professores. Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC (2022). Elisa Prestes Massena Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2010), licenciada e graduada em Química pela UFRJ (2004). Pós-Doutora em Educação (2012/2013) no PPG, em Educação/Unisinos. Docente do Departamento de Ciências Exatas – DCEX, na área de Ensino de Química, da Universidade 214 Estadual de Santa Cruz – UESC. Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Currículo e Formação de Professores em Ensino de Ciências – GPeCFEC. Júlia Martins Figueiredo Professora Substituta do Centro de Ciências e Tecnologia em Energia e Sustentabilidade - CETENS da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ensino, Filosofia e História das Ciências da Universidade Federal da Bahia. Mestre em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Estadual de Santa Cruz com Mobilidade Acadêmica na Universidad Nacional Pedagógica - mestrado de Docência da Química. Graduada em Licenciatura em Química, na Universidade Federal Rural de Pernambuco. Integrante dos grupos de pesquisa Diversidade e Criticidade nas Ciências Naturais (DICCINA) e Grupo de Pesquisa em Currículo e Formação de Professores em Ensino de Ciências (GPeCFEC). Maria do Carmo Galiazzi Professora titular aposentada da Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2000) com tese sobre o educar pela pesquisa na formação de professores de Ciências. Graduação em Licenciatura em Ciências – Habilitação Química pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande (1990), bacharel em Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1979). Márcio Reis Barros Licenciado em Química pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. Mestrando em Educação em Ciências e Matemática na mesma instituição, na modalidade sanduíche, com um intercâmbio no Mestrado em Educação da Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia – UPTC. Faz parte do Grupo de Pesquisa em Currículo e Formação de Professores em Ensino de Ciências – GPeCFEC – UESC e do Grupo de Investigación Filosofía, Sociedad y Educación – GIFSE – UPTC. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Jeíza Sousa Teles Graduanda da Licenciatura em Química da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. Integrante do Grupo de Pesquisa em Currículo e Formação de Professores em Ensino de Ciências – GPeCFEC-UESC. Bolsista de Iniciação Científica pelo CPNQ entre 2022 e 2024, no projeto Mapequim/AL, desenvolvendo pesquisas na área de Decolonialidade no Ensino de Química. EDUCAÇÃO QUÍMICA NA AMÉRICA LATINA: tendências de pesquisa 215 Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização Paola Amaris Ruidíaz Licenciada em Matemática na Universidade Pedagógica e Tecnológica da Colômbia. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática da Unesp (2014). Doutora em Educação Matemática (2018) pela Unesp, Campus Rio Claro-SP. Pós-Doutorado em Educação Matemática na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2022). Atualmente, é professora da Universidade Pedagógica e Tecnológica da Colômbia – UPTC. Membro do grupo de pesquisa Currículo e Educação Matemática – GPCEM – da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS, do Grupo Pirâmide da UPTC e do grupo de pesquisa “Investigación Filosofía, Sociedad y Educación (GIFSE) da UPTC”. Rebeca Cruz Sampaio Graduanda da Universidade Estadual De Santa Cruz – UESC no curso de Licenciatura em Química. Foi bolsista de iniciação científica no projeto Mapequim/AL, o qual tem por objetivo mapear e analisar produções científicas latino-americano produzidas por pesquisadores da Educação Química. Integra o Grupo de Pesquisa em Currículo e Formação de Professores em Ensino de Ciências – GPeCFEC-UESC. Robson Simplício de Sousa Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde – PPGECQVS da Universidade Federal do Rio Grande – FURG e mestre em Química (2013) pelo Programa de Pós-Graduação em Química Tecnológica e Ambiental – PPGQTA pela mesma universidade. Licenciado em Química pela Universidade Federal de Pelotas UFPEL, em 2011. É professor da área de Educação Química, na Universidade Federal do Paraná – UFPR. É líder do Grupo de Pesquisa Jano: Filosofia e História na Educação em Ciências na UFPR e integra o Grupo de Pesquisa Comunidades Aprendentes em Educação Ambiental, Ciências e Matemática – CEAMECIM, na FURG. Vivian dos Santos Calixto Licenciada em Química e mestre em Educação em Ciências pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Doutora em Educação para a Ciência e a Matemática pela Universidade Estadual de Maringá – UEM. Professora Adjunta da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD. Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Federal da Grande Dourados (PPGECMat/UFGD). Líder, em conjunto de Adriana Marques de Oliveira, do Grupo de Estudos e Pesquisa Horizontes Compreensivos na Educação em Ciências e Química – GEPHCECQ. Editora CRV - Proibida a impressão e/ou comercialização SOBRE O LIVRO Tiragem não comercializada Formato: 16 x 23 cm Mancha: 12,3 x 19,3 cm Tipologia: Times New Roman 10,5 | 11,5 | 13 | 16 | 18 Arial 8 | 8,5 Papel: Pólen 80 g (miolo) Royal | Supremo 250 g (capa)
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