O Objectivismo baseá-la em uma realidade objectiva, ou seja, os factos são apenas factos, não são
interferidos por qualquer tipo de emoção e desejo dos homens. Para ser possível a apreensão
objectiva da realidade, é necessário que os homens se utilizem da razão. Sendo esse o único meio
para que o homem possa compreender a realidade, é também a razão a única fonte de
conhecimento, o único guia para as nossas acções. Cada homem é um fim em si mesmo, deve
buscar o próprio benefício, através da valorização do auto-interesse racional, tendo como maior
meta a própria felicidade. Esta visão colide frontalmente com o colectivismo, que subordina o
indivíduo ao grupo. O livro "Anthem" de Ayn Rand é uma alegoria desta luta, retratando uma
sociedade distópica onde o "eu" foi erradicado em favor do "nós". Irei analisar esta dicotomia à
luz de "Anthem".
Em "Anthem", a individualidade é pecado. A sociedade é controlada por Conselhos que ditam a
vida de todos. Igualdade 7-2521, personifica a rebelião individual através da curiosidade científica
e do amor (pela "Golden One"). A sua fuga e a redescoberta do "eu" representam a vitória do
espírito individual sobre a opressão colectiva, ecoando os pilares objectivistas: a mente como
motor do progresso e a felicidade pessoal como fim moral.
O objectivismo defende que a liberdade política e individual é necessária para o crescimento
humano. Isto encontra eco nas aspirações do protagonista quando afirma que “na porta da glória”
olhará para o passado e reconhecerá que “o espírito que o moveu foi o espírito da liberdade do
homem”. A sua luta consiste em reencontrar e exaltar o direito ao “eu”, que é a verdadeira fonte
da criatividade e progresso. Rejeita a ideia de que o indivíduo deva subordinar-se à
colectividade, pois isso leva à mediocridade e à escravatura mental.
Quando olhamos para certas situações na África, especialmente durante períodos de regimes
autoritários ou durante o colonialismo, podemos constatar paralelos com estas ideias. Muitos
países africanos sofreram sob estruturas políticas onde o poder centralizado negava as vozes
individuais e colectivas, impondo identidades colectivas artificiais e reprimindo o direito à
autodeterminação. Assim como Em Anthem, onde os personagens são obrigados a aceitar papéis
fixos e restritivos, numerosas populações africanas viram a sua liberdade limitada, quer fosse por
colonizadores ou por ditaduras subsequentes que suprimiam a dissidência e o debate livre.
Por exemplo, em Moçambique, após a independência em 1975, viveu-se um regime socialista
sob o camando da FRELIMO, que implementou um Estado com um único partido e uma
economia planificada. Tal como em Anthem, onde o governo controla as mentes e as acções dos
cidadãos, o regime buscou impor uma colectivização das consciências e vidas das pessoas,
promovendo a ideia de que o indivíduo deveria subordinar-se inteiramente aos objectivos do
partido e do Estado. Isso gerou repressão política, limitação da liberdade de expressão e
perseguição à oposição, um reflexo real dos perigos da negação do “eu”, onde “os homens não
podem saber se os seus pensamentos são os pensamentos de al”. A guerra civil subsequente, com
pensamentos opositores como a RENAMO, aumentou ainda esta situação, pois ambos os lados
buscavam impor visões absolutistas, deixando pouco espaço para a pluralidade ou liberdade
pessoal.
A partir da análise, verifica-se que a essência do objectivismo reside na valorização da razão e do
indivíduo como centro da existência ética e social. A rejeição do colectivismo, presente tanto na
alegoria de "Anthem" como em exemplos históricos reais, mostra os perigos de sistemas que
suprimem a autonomia pessoal, levando à opressão e ao retrocesso. A liberdade individual
emerge, assim, como condição fundamental para o desenvolvimento humano e a prosperidade
cultural e intelectual, evidenciando a necessidade de proteger o espaço do “eu” contra qualquer
forma de dominação que o negue ou dilua.