p 1 2 O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores, inclusive não representam necessariamente a posição oficial do SCISAUDE. Permitido o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. Todos os manuscritos foram previamente submetidos à avaliação cega pelos pares, membros do Conselho Editorial desta Editora, tendo sido aprovados para a publicação com base em critérios de neutralidade e imparcialidade acadêmica. LICENÇA CREATIVE COMMONS A editora detém os direitos autorais pela edição e projeto gráfico. Os autores detêm os direitos autorais dos seus respectivos textos. SABERES E PRÁTICAS EM PROMOÇÃO DA SAÚDE 2 de SCISAUDE está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercialSemDerivações 4.0 Internacional. (CC BY-NC-ND 4.0). Baseado no trabalho disponível em https://www.scisaude.com.br/catalogo/atualizacoes-em-promocao-da-saude/41 2024 by SCISAUDE Copyright © SCISAUDE Copyright do texto © 2024 Os autores Copyright da edição © 2024 SCISAUDE Direitos para esta edição cedidos ao SCISAUDE pelos autores. Open access publication by SCISAUDE 3 SABERES E PRÁTICAS EM PROMOÇÃO DA SAÚDE 2 ORGANIZADORES Dr. Avelar Alves da Silva http://lattes.cnpq.br/8204485246366026 https://orcid.org/0000-0002-4588-0334 Me. Paulo Sérgio da Paz Silva Filho http://lattes.cnpq.br/5039801666901284 https://orcid.org/0000-0003-4104-6550 Esp. Lennara Pereira Mota http://lattes.cnpq.br/3620937158064990 https://orcid.org/0000-0002-2629-6634 Editor chefe Paulo Sérgio da Paz Silva Filho Projeto gráfico Lennara Pereira Mota Diagramação: Paulo Sérgio da Paz Silva Filho Lennara Pereira Mota Revisão: Os Autores 4 Conselho Editorial Alanderson Carlos Vieira Mata Alexsander Frederick Viana Do Lago Ana Graziela Soares Rêgo Ana Paula Rezendes de Oliveira Brenda Barroso Pelegrini Anita de Souza Silva Antonio Alves de Fontes Junior Cirliane de Araújo Morais Dayane Dayse de Melo Costa Debora Ellen Sousa Costa Fabiane dos Santos Ferreira Isabella Montalvão Borges de Lima João Matheus Pereira Falcão Nunes Duanne Edvirge Gondin Pereira Fabricia Gonçalves Amaral Pontes Francisco Rafael de Carvalho Maxsuel Oliveira de Souza Francisco Ronner Andrade da Silva Mikaele Monik Rodrigues Inácio da Silva Micaela de Sousa Menezes Pollyana cordeiro Barros Sara Janai Corado Lopes Salatiel da Conceição Luz Carneiro Suellen Aparecida Patricio Pereira Thiago Costa Florentino Sara Janai Corado Lopes Tamires Almeida Bezerra Iara Nadine Viera da Paz Silva Ana Florise Morais Oliveira Iran Alves da Silva Antonio Evanildo Bandeira de Oliveira Danielle Pereira de Lima Leonardo Pereira da Silva Leandra Caline dos Santos Lennara Pereira Mota Lucas Pereira Lima Da Cruz Elayne da Silva de Oliveira Iran Alves da Silva Júlia Isabel Silva Nonato Lauro Nascimento de Souza Marcos Garcia Costa Morais Maria Vitalina Alves de Sousa Marques Leonel Rodrigues da Silva Maria Rafaele Oliveira Bezerra da Silva Maryane Karolyne Buarque Vasconcelos Ruana Danieli da Silva Campos Paulo Sérgio da Paz Silva Filho Raissa Escandiusi Avramidis Rômulo Evandro Brito de Leão Sannya Paes Landim Brito Alves Suelen Neris Almeida Viana Waydja Lânia Virgínia de Araújo Marinho Sarah Carvalho Félix Wanderlei Barbosa dos Santos 5 10.56161/sci.ed.20240415 978-65-85376-28-0 SCISAUDE Teresina – PI – Brasil scienceesaude@hotmail.com www.scisaude.com.br 6 APRESENTAÇÃO A promoção da saúde é de fato um conjunto abrangente de políticas, planos e programas de saúde pública, com o objetivo de não apenas prevenir doenças, mas também promover o bem-estar e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Enquanto a prevenção de doenças se concentra principalmente em evitar que as pessoas se exponham a situações que podem causar doenças, a promoção da saúde vai além, buscando criar ambientes e condições que apoiem escolhas saudáveis e estilos de vida positivos. O Documento para Discussão da Política Nacional de Promoção da Saúde do Ministério da Saúde destaca que promover saúde envolve educar para a autonomia, em linha com os princípios de Paulo Freire. Isso significa ir além da mera transmissão de informações, tocando nas diferentes dimensões humanas e considerando aspectos como afetividade, amorosidade, capacidade criativa e busca pela felicidade como igualmente importantes e inseparáveis umas das outras. O e-book "Saberes e Práticas em Promoção da Saúde 2" é uma obra que se fundamenta na ciência da saúde e tem como objetivo apresentar estudos de diversos eixos da promoção da saúde. Através dessa obra, busca-se atualizar a temática da promoção da saúde, destacando a importância de equipes multidisciplinares e o uso de novas ferramentas para o desenvolvimento de uma atenção à saúde individual e coletiva de forma transversal, multiprofissional e holística. Ao abordar diferentes aspectos da promoção da saúde, o e-book oferece uma visão abrangente e atualizada sobre o campo, incorporando conhecimentos científicos e práticas inovadoras. Além disso, enfatiza a necessidade de uma abordagem interdisciplinar, que reconhece a complexidade das questões de saúde e busca integrar diferentes perspectivas e habilidades para promover o bem-estar das pessoas e das comunidades de forma abrangente e integrada. Dessa forma, o e-book "Saberes e Práticas em Promoção da Saúde 2" se destaca como uma importante contribuição para o avanço do conhecimento e das práticas no campo da promoção da saúde, oferecendo insights valiosos para profissionais da saúde, pesquisadores e estudantes interessados nessa área. Boa Leitura!!! 7 SUMÁRIO CAPÍTULO 1 .......................................................................................................................... 10 A IMPORTÂNCIA DA ATUAÇÃO DO CIRURGIÃO PLÁSTICO NO TRAUMA CRANIOFACIAL .................................................................................................................. 10 10.56161/sci.ed.20240415c1 ................................................................................................ 10 CAPÍTULO 2 .......................................................................................................................... 22 A UTILIZAÇÃO DE ALOENXERTOS EM CIRURGIAS PLÁSTICAS RECONSTRUTIVAS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA. ............ 22 10.56161/sci.ed.20240415c2 ................................................................................................ 22 CAPÍTULO 3 .......................................................................................................................... 32 IMPACTO DA INTERVENÇÃO DE ENFERMAGEM NA PREVENÇÃO DE COMPLICAÇÕES EM PACIENTES SUBMETIDOS À ANGIOPLASTIA CORONÁRIA ......................................................................................................................... 32 10.56161/sci.ed.20240415c3 ................................................................................................ 32 CAPÍTULO 4 .......................................................................................................................... 46 LIPOENXERTIA NA CIRURGIA PLÁSTICA: CONCEITO, FUNÇÕES, COMPLICAÇÕES E IMPACTOS NA QUALIDADE DE VIDA..................................... 46 10.56161/sci.ed.20240415c4 ................................................................................................ 46 CAPÍTULO 5 .......................................................................................................................... 59 MANEJO DE CÉLULAS TRONCO NA REGENERAÇÃO DE FERIDAS EM CIRURGIA PLÁSTICA RECONSTRUTIVA .................................................................... 59 10.56161/sci.ed.20240415c5 ................................................................................................ 59 CAPÍTULO 6 .......................................................................................................................... 71 O PAPEL DA CIRURGIA PLÁSTICA NA RECONSTRUÇÃO ESTÉTICA PÓS QUEIMADURAS: UMA REVISÃO DE LITERATURA .................................................. 71 10.56161/sci.ed.20240415c6 ................................................................................................ 71 CAPÍTULO 7 .......................................................................................................................... 80 O PAPEL VITAL DA ENFERMAGEM NA PRESTAÇÃO DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE .................................................................................................................................................. 80 10.56161/sci.ed.20240415c7 ................................................................................................ 80 CAPÍTULO 8 .......................................................................................................................... 87 PREVENÇÃO E MANEJO DA OSTEOPOROSE NA PÓS MENOPAUSA .................. 87 10.56161/sci.ed.20240415c8 ................................................................................................ 87 CAPÍTULO 9 .......................................................................................................................... 96 TOXICIDADE E USO DAS DROGAS K NA ÚLTIMA DÉCADA: UMA ABORDAGEM INTEGRATIVA ..................................................................................................................... 96 10.56161/sci.ed.20240415c9 ................................................................................................ 96 CAPÍTULO 10 ...................................................................................................................... 110 8 FISIOTERAPIA NA ATENÇÃO BÁSICA DE SAÚDE: RELATO DE EXPERIÊNCIA ................................................................................................................................................ 110 10.56161/sci.ed.20240415c10 ............................................................................................ 110 CAPÍTULO 11 ...................................................................................................................... 120 ESTRATÉGIAS DE HUMANIZAÇÃO NO CONTEXTO DO LABORATÓRIO CLÍNICO: UMA REVISÃO NARRATIVA ...................................................................... 120 10.56161/sci.ed.20240415c11 ............................................................................................ 120 CAPÍTULO 12 ...................................................................................................................... 137 ANÁLISE COMPARATIVA DA IMPLEMENTAÇÃO DO PROTOCOLO DE SEGURANÇA DO PACIENTE .......................................................................................... 137 10.56161/sci.ed.20240415c12 ............................................................................................ 137 CAPÍTULO 13 ...................................................................................................................... 147 O PAPEL DO CUIDADOR NO PROCESSO DE IMUNIZAÇÃO INFANTIL ............ 147 10.56161/sci.ed.20240415c13 ............................................................................................ 147 CAPÍTULO 14 ...................................................................................................................... 158 ANÁLISE DAS NOTIFICAÇÕES DE EVENTOS ADVERSOS PARA APRIMORAMENTO DA GESTÃO DE RISCO HOSPITALAR .................................. 158 10.56161/sci.ed.20240415c14 ............................................................................................ 158 CAPÍTULO 15 ...................................................................................................................... 170 FATORES RELACIONADOS À INFECÇÃO DE TRATO URINÁRIO NA GESTAÇÃO ................................................................................................................................................ 170 10.56161/sci.ed.20240415c15 ............................................................................................ 170 9 CAPÍTULO 1 A IMPORTÂNCIA DA ATUAÇÃO DO CIRURGIÃO PLÁSTICO NO TRAUMA CRANIOFACIAL THE IMPORTANCE OF THE PLASTIC SURGEON'S ACTIVITY IN CRANIOFACIAL TRAUMA 10.56161/sci.ed.20240415c1 EDUARDA MARTINS CARVALHO Graduanda em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG) https://orcid.org/0009-0004-6404-1917 ISADORA ALMEIDA MARINHO Graduanda em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG) https://orcid.org/0000-0002-4196-6931 GABRIEL CAETANO DINIZ Graduando em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG) https://orcid.org/0009-0007-0531-2942 THAYNNE HAYSSA FRANÇA BARBOSA Médica Residente em Cirurgia Plástica pelo Hospital das Clínicas (HC – UFG) https://orcid.org/0000-0002-5186-6467 RESUMO INTRODUÇÃO: O trauma craniofacial refere-se a lesões que afetam a região da cabeça e do rosto, envolvendo os ossos cranianos, como o crânio, e as estruturas faciais, como os ossos da face, músculos, pele e tecidos moles. Essas lesões podem ser causadas por uma variedade de eventos traumáticos. A história da cirurgia reconstrutiva facial avançou lentamente. Nesse contexto, o cirurgião plástico desempenha um papel fundamental na reconstrução e restauração da anatomia craniofacial, devolvem aos pacientes a estética, mas também a função e a qualidade de vida. OBJETIVO: analisar e discutir a importância da atuação do cirurgião plástico no tratamento do trauma craniofacial como também investigar os avanços recentes na área da cirurgia plástica relacionados ao trauma craniofacial. MÉTODOS: Trata-se de uma revisão de literatura sobre a relevância da atuação do profissional de cirurgia plástica no trauma 10 craniofacial. Realizou-se uma busca na base de dados PubMed. Utilizou-se os Descritores em Ciência da Saúde (DeCS), “facial trauma” e “plastic surgery”. Após a leitura completa selecionou-se 7 artigos. RESULTADOS E DISCUSSÃO: O tratamento do trauma craniofacial requer uma grande variedade de várias habilidades médicas. Para oferecer o melhor tratamento possível, uma equipe multidisciplinar deve atuar para a recuperação funcional e estética, na qual se enquadram a cirurgia bucomaxilofacial, a neurocirurgia, a oftalmologia, a otorrinolaringologia e a cirurgia plástica. CONCLUSÃO: A complexidade do trauma craniofacial demanda uma abordagem multidisciplinar, onde o cirurgião plástico desempenha um papel central na reconstrução e restauração da função e estética da face. Em contextos como o do Brasil, onde o trauma craniofacial é uma preocupação significativa, a atuação do cirurgião plástico se torna ainda mais crucial. Esses profissionais enfrentam não apenas a pressão de restaurar a função e estética comprometidas, mas também lidam com os desafios socioeconômicos e estruturais associados ao sistema de saúde. PALAVRAS-CHAVE: Cirurgia plástica; face; ferimentos e lesões. ABSTRACT INTRODUCTION: Craniofacial trauma refers to injuries that affect the head and face region, involving the cranial bones, such as the skull, and facial structures, such as the facial bones, muscles, skin and soft tissues. These injuries can be caused by a variety of traumatic events. The history of facial reconstructive surgery has progressed slowly. In this context, the plastic surgeon plays a fundamental role in the reconstruction and restoration of craniofacial anatomy, restoring aesthetics to patients, but also function and quality of life. OBJECTIVE: to analyze and discuss the importance of the role of the plastic surgeon in the treatment of craniofacial trauma, as well as to investigate recent advances in the area of plastic surgery related to craniofacial trauma. METHODS: This is a literature review on the relevance of the role of plastic surgery professionals in craniofacial trauma. A search was carried out in the PubMed database. The Health Science Descriptors (DeCS) were used, “Craniofacial Trauma” and “Plastic Surgeon”. After complete reading, 7 articles were selected. RESULTS AND DISCUSSION: Treatment of craniofacial trauma requires a wide range of various medical skills. To offer the best possible treatment, a multidisciplinary team must work for functional and aesthetic recovery, which includes oral and maxillofacial surgery, neurosurgery, ophthalmology, otorhinolaryngology and plastic surgery. CONCLUSION: The complexity of craniofacial trauma demands a multidisciplinary approach, where the plastic surgeon plays a central role in the reconstruction and restoration of facial function and aesthetics. In contexts such as Brazil, where craniofacial trauma is a significant concern, the role of the plastic surgeon becomes even more crucial. These professionals not only face the pressure of restoring compromised function and aesthetics, but also deal with the socioeconomic and structural challenges associated with the healthcare system. KEYWORDS: face, plastic surgery; wounds and injuries. 1. INTRODUÇÃO: O trauma craniofacial refere-se a lesões que afetam a região da cabeça e do rosto, envolvendo os ossos cranianos, como o crânio, e as estruturas faciais, como os ossos da face, 11 músculos, pele e tecidos moles. Essas lesões podem ser causadas por uma variedade de eventos traumáticos, incluindo acidentes automobilísticos, quedas, agressões físicas, acidentes de trabalho, esportes de contato ou mesmo agressões domésticas. O trauma craniofacial pode resultar em fraturas ósseas, lacerações na pele, lesões cerebrais, danos aos nervos faciais e outras complicações graves, afetando tanto a estética quanto a função da face e do crânio (Eun, 2015). Quanto aos tipos de trauma craniofacial, eles podem variar em gravidade e extensão, desde lesões leves, como contusões e cortes superficiais, até traumas mais severos, como fraturas cranianas múltiplas e lesões cerebrais traumáticas. Além disso, as lesões podem ser classificadas de acordo com a localização, sendo as mais comuns as fraturas dos ossos da face, como o nariz, osso zigomático, maxila e mandíbula, bem como lesões nos tecidos moles, como lacerações faciais e traumas nos olhos (Zeiderman; Pu, 2020). Do ponto de vista epidemiológico, o trauma craniofacial afeta pessoas de todas as idades, desde recém-nascidos até idosos, embora seja mais comum em adultos jovens e crianças, devido à sua exposição a atividades físicas e riscos ocupacionais. Quanto ao sexo, há uma maior prevalência de trauma craniofacial em homens, especialmente em casos de agressões físicas e acidentes automobilísticos. A distribuição por classe social pode variar, mas áreas com baixa infraestrutura e altos índices de violência urbana tendem a apresentar uma incidência mais elevada de trauma craniofacial (Braun. Maricevich, 2017). Os ossos da face mais comumente fraturados incluem o osso nasal, que é vulnerável devido à sua proeminência e exposição. Fraturas no osso nasal podem ocorrer em acidentes automobilísticos, quedas ou agressões físicas. A fratura do osso zigomático, também é comum, muitas vezes resultando de trauma direto ou impacto lateral na face. Esta fratura pode afetar a estética facial e a função mastigatória (Wu, 2023). A história da cirurgia reconstrutiva facial avançou lentamente e naturalmente, marcada por momentos de mudanças profundas e súbitas. A recente possibilidade de transplante facial, viabilizada através da descoberta de medicamentos inovadores e da coragem de cirurgiões inovadores, representa um marco significativo nesse progresso. O transplante facial é uma técnica cirúrgica emergente que pode ser considerada um novo paradigma na reconstrução facial. Juntamente com o transplante de mãos, o transplante facial está entre as áreas mais proeminentes da aloenxertia de tecidos compostos ou do aloenxerto vascular composto. Desde o primeiro transplante facial relatado na França em 2005, foram realizados diversos outros em todo o mundo com resultados encorajadores. Como em qualquer procedimento novo e 12 previamente desenvolvido, muitas questões surgiram, incluindo o que constitui uma relação risco-benefício aceitável e quais são as indicações para o transplante facial (Eun, 2015). O trauma craniofacial complexo sempre representou um desafio para cirurgiões maxilofaciais. Fraturas panfaciais, em especial, representam uma situação complexa devido ao envolvimento simultâneo de cada subunidade do esqueleto craniofacial. As forças traumáticas mobilizam segmentos esqueléticos através de linhas de fratura, alterando significativamente as relações anatômicas dos ossos faciais, o que se traduz na perda de proporções estéticas em várias dimensões. A abordagem ao trauma craniofacial complexo, multifragmentado e deslocado deve ser altamente estratégica. Em uma visão contemporânea, a mesma estratégia pode ser aplicada ao planejamento cirúrgico virtual, uma ferramenta poderosa onde uma abordagem correta e experiência cirúrgica são fundamentais para o sucesso do procedimento. O planejamento virtual fornece um ambiente de simulação onde os cirurgiões podem realizar inúmeras reduções de fraturas, testar várias estratégias e criar um modelo tridimensional para redução, que pode ser verificado a qualquer momento usando navegação craniofacial (Zeiderman; Pu, 2020). A atuação do cirurgião plástico no tratamento de defeitos craniofaciais é de extrema importância, dada a complexidade e diversidade dessas condições. Nesse contexto, o cirurgião plástico desempenha um papel fundamental na reconstrução e restauração da anatomia craniofacial. Através de técnicas avançadas, como reconstrução de tecidos moles, reparo de feridas, correção de deformidades e minimização de cicatrizes, esses profissionais podem ajudar a devolver aos pacientes não apenas a aparência estética, mas também a função e a qualidade de vida perdidas devido a defeitos craniofaciais. A utilização de biomateriais e implantes, juntamente com avanços na tecnologia de imagem e planejamento cirúrgico, tem ampliado as opções terapêuticas disponíveis para o tratamento dessas condições, proporcionando resultados mais eficazes e duradouros (Eun, 2015). Ainda, o panorama do trauma no Brasil é alarmante, especialmente no que diz respeito aos traumas craniofaciais, que representam quase metade das mortes traumáticas no país. Muitas vezes, essas vítimas não sobrevivem tempo suficiente para receber tratamento adequado. Nesse contexto, a atuação do cirurgião plástico desempenha um papel crucial na reconstrução das lesões faciais e cranianas, visando não apenas restaurar a estética, mas também recuperar funções essenciais, como mastigação, deglutição, comunicação e respiração. Esses profissionais enfrentam desafios terapêuticos complexos, muitas vezes exigindo múltiplos procedimentos cirúrgicos, para reconstruir não apenas os aspectos funcionais, mas também os aspectos estéticos das lesões traumáticas na face. Além disso, o trauma facial requer uma 13 abordagem multidisciplinar e onerosa, envolvendo não apenas cirurgiões plásticos, mas também neurocirurgiões, otorrinolaringologistas, entre outros especialistas, para garantir uma recuperação abrangente e bem-sucedida dos pacientes (Lim; Yoon, 2022). Assim, esse trabalho visa analisar e discutir a importância da atuação do cirurgião plástico no tratamento do trauma craniofacial, como também compreender o papel desempenhado por esses profissionais na reconstrução e reabilitação de pacientes afetados por lesões da região, investigar os avanços recentes na área da cirurgia plástica relacionados ao trauma craniofacial e os desafios e oportunidades para melhorar a qualidade do atendimento prestado a esses pacientes. 2. MÉTODOS: O presente estudo trata-se de uma revisão de literatura narrativa sobre a relevância da atuação do profissional de cirurgia plástica no trauma craniofacial. A escolha do tema é motivada pela necessidade de aprofundar o entendimento acerca do assunto, visando aprimorar os cuidados prestados a pacientes afetados por lesões nessa região crítica do corpo humano. Realizou-se uma busca na base de dados PubMed. Utilizou-se os descritores “facial trauma” e “plastic surgery”, aplicando o operador booleano “AND” para promover a combinação entre os termos escolhidos. Aplicou-se filtros para selecionar publicações na língua inglesa, com texto completo e dos últimos dez anos (2014-2024). Leu-se os resumos para realizar uma seleção dos que mais se adequavam aos objetivos do estudo. Como critérios de inclusão, buscou-se selecionar publicações com foco na atuação do cirurgião plástico sobre o trauma facial. Como critérios de exclusão, foram descartados trabalhos com foco em distúrbios psiquiátricos ocasionados pelos traumas, nos impactos da pandemia da COVID-19 no tratamento de traumas craniofaciais e voltados para a cirurgia bucomaxilofacial. Após a leitura completa selecionou-se 7 artigos, a fim de compilar um embasamento teórico para uma compreensão abrangente e atualizada do tema. A pesquisa tem uma finalidade básica, com intuito de gerar informações, conforme interesses e verdades universais presentes em estudos atuais, com o objetivo de compreender o papel do cirurgião plástico no tratamento de traumas craniofaciais, consolidando informações e descobertas a fim de contribuir significativamente para a base científica e clínica relacionada a essa campo específico da cirurgia plástica. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO: 14 O tratamento do trauma craniofacial requer uma grande variedade de habilidades médicas. Para oferecer o melhor tratamento possível, uma equipe multidisciplinar deve atuar para a recuperação funcional e estética, na qual se enquadram a cirurgia bucomaxilofacial, a neurocirurgia, a oftalmologia, a otorrinolaringologia e a cirurgia plástica. O trauma facial grave pode causar morbidade e desfiguração significativa que limita a qualidade de vida do paciente. Dada a importância da face para a autoestima e identidade visual da pessoa, a restauração funcional estética é um grande desafio para o cirurgião plástico (Braun; Maricevich, 2017). A cirurgia plástica facial é uma especialidade médica é geralmente dividida em procedimentos estéticos e reconstrutivos e frequentemente é uma subespecialidade da otorrinolaringologia e tem íntima relação com a cirurgia plástica geral, a cirurgia bucomaxilofacial, a oftalmologia e a dermatologia (Chuang; Barnes; Wong, 2016). Lim e Yoon (2022) realizaram uma análise quantitativa sobre pacientes vítimas de trauma que foram tratados por cirurgiões plásticos e objetivaram avaliar a contribuição do cirurgião plástico nesses atendimentos. Dessa forma, verificaram que, dos 7.174 pacientes vítimas de trauma tratados em um determinado hospital na Coreia do Sul, 870 foram tratados por cirurgiões plásticos e o Índice de Gravidade de Lesões não demonstrou diferença estatisticamente significativa entre os grupos dos tratados e dos não tratados pela Cirurgia Plástica, provando a capacidade do cirurgião plástico em lidar com esse tipo de paciente. 3.1 Manejo inicial da vítima de trauma craniofacial Ao receber um paciente vítima de trauma, primeiramente deve-se estabilizá-lo de acordo com o Protocolo de Suporte Avançado de Vida, atentando-se a hemorragias significativas e comprometimento das vias aéreas. Em seguida, caso seja possível, deve-se colher a história do paciente para descobrir o mecanismo da lesão, avaliar o risco de contaminação da ferida e questionar cirurgias craniofaciais anteriores e comorbidades préexistentes que dificultam a cicatrização, como tabagismo, diabetes, consumo de álcool e radioterapia. Além disso, em caso de lucidez, devem ser examinadas as funções motora e sensorial (Braun; Maricevich, 2017). 3.2 Manejo de tecidos moles Após a avaliação do paciente descrita acima, a ferida deve ser irrigada com soro fisiológico e deve ser realizado o desbridamento, procedimento em que quaisquer corpos estranhos e tecidos desvitalizados devem ser removidos do ferimento. Hemorragias devem ser controladas, sendo que a pressão direta é o principal método de estancamento, e o eletrocautério 15 também pode ser usado caso tentativas anteriores falhem. Caso o fechamento das feridas ocorra em até seis horas, as taxas de infecção e a qualidade estética melhoram significativamente (Braun; Maricevich, 2017). 3.3 Cicatrização de feridas Caso pequena, o cirurgião plástico pode suturar a lesão, mas grampos e adesivos também podem ser utilizados a depender da área. Os adesivos cirúrgicos são formas rápidas, fáceis e econômicas de fechar feridas pequenas, mas podem penetrá-las e atrapalhar a aproximação dos tecidos. Além desses métodos, pomadas mantêm os ferimentos úmidos, o que evita a formação de crosta e auxilia na reepitelização (Braun; Maricevich, 2017). Wu et al. (2023) avaliaram 25 pacientes de Ningbo, China, que receberam refinadas técnicas de cirurgia plástica para o tratamento de cicatrizes faciais pós-traumáticas, e elas foram avaliadas por profissionais, por leigos e pelos próprios pacientes. Verificou-se que quase todos os pacientes concordaram que o tratamento é eficaz na minimização de cicatrizes, o que melhora a satisfação pessoal e a qualidade de vida (figura 1). Dentre as técnicas utilizadas que determinaram o sucesso do tratamento, destacaram debridamento precoce da ferida (até 10 horas após a lesão), retalhos cutâneos, redução anatômica da tensão da ferida e uso racional de antibióticos, pois reduzem o risco de deposição de colágeno, reação a corpo estranho, infecção e tensão excessiva da ferida (Wu et al., 2023). Figura 1. Evolução da cicatrização de ferida de paciente com trauma facial. A) Duas horas após o trauma. B) Imediatamente após reparo com técnicas refinadas da cirurgia plástica. C) Aspecto da ferida 12 semanas após o trauma. Fonte: Wu et al., 2023. 3.4 Fraturas faciais As fraturas faciais são frequentemente causadas por trauma e podem ser divididas em três tipos: fraturas Le Fort, fraturas do complexo zigomático maxilar (CZM) e fraturas mandibulares. As fraturas Le Fort são um grupo de fraturas que podem acometer a porção média da face, ou seja, incluem desde a rima orbital superior até os dentes do maxilar (figura 2). São 16 predominantemente causadas por colisões de alta energia e podem ser classificadas em três tipos: Le Fort I (fratura horizontal), que são fraturas que resultam de uma força direcionada na borda alveolar maxilar para baixo e não há envolvimento orbital; Le Fort II (fratura piramidal), que são fraturas que resultam de um golpe na maxila inferior ou média, separando a maxila da base do crânio no arco zigomático; Le Fort III (fratura transversal), que são fraturas em que ocorre a disjunção craniofacial e são frequentemente causadas por impactos na ponte nasal, sendo o tipo mais complexo e de difícil manejo por serem acompanhadas por trauma intracraniano grave (Chuang; Barnes; Wong, 2016). Figura 2. Fraturas Le Fort. Fonte: Fraturas da mandíbula e terço médio da face. Disponível em:https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/les%C3%B5esintoxica%C3%A7%C3%A3o/trauma-facial/fraturas-da-mand%C3%ADbula-e-ter%C3%A7om%C3%A9dio-da-face. Acesso em: 09 de março de 2024. As fraturas do CZM são o segundo tipo mais comum depois das fraturas nasais, representam cerca de 25% de todas as fraturas faciais e as causas envolvem agressão, queda, acidente automobilístico e traumas esportivos. São classificadas em A1 (arco zigomático), A2 (parede orbital lateral), A3 (borda orbital inferior), B (envolvimento dos quatro sítios anatômicos do osso zigomático) e C (fraturas complexas com cominuição do osso zigomático). Já as fraturas mandibulares ocorrem principalmente devido à angularidade da mandíbula e podem acometer em todas as suas regiões anatômicas: côndilo, processo coronóide, ramo, ângulo, corpo, alvéolo, parassínfise e sínfise (Chuang; Barnes; Wong, 2016). 3.4.1 Manejo das fraturas faciais Para obter uma redução precisa e estável da fratura, com mínimas cicatrizes e deformidades, pode-se fazer redução aberta e fixação interna com abordagem coronal. Todavia, essa abordagem pode levar à alopecia, perda de sensibilidade na região e perda excessiva de sangue. Já as fraturas mandibulares são tratadas com redução aberta ou fechada com osteossíntese com fio, e placas de titânio podem ser colocadas para fixação interna rígida, além de parafusos reabsorvíveis, sendo que além da restauração estética, deve-se atentar à função 17 mastigatória (Zeiderman; Pu, 2020). Avanços recentes caminham em direção à recriação da anatomia individual por tomografia computadorizada e criação de placas customizadas, o que permite melhor planejamento cirúrgico e melhores resultados (Chuang; Barnes; Wong, 2016). Apesar desse procedimento cirúrgico ser idealmente realizado por cirurgiões bucomaxilofaciais, é rotineira a participação do cirurgião plástico. 3.4.2 Rinoplastia A rinoplastia é a cirurgia plástica facial mais realizada e tem como função corrigir patologias nasais (intrínsecas e extrínsecas), melhora estética e redução da obstrução das vias aéreas, que pode ocorrer por desvio do septo nasal, hipertrofia de conchas nasais e fraturas nasais, sendo este último altamente recorrente em traumas craniofaciais (figura 4). O princípio geral da rinoplastia consiste na separação da pele nasal e dos tecidos moles da estrutura osteocartilaginosa (Chuang; Barnes; Wong, 2016). Figura 4. Acompanhamento do tratamento de paciente de 35 anos, sexo masculino, com trauma craniofacial após queda de telhado com múltiplas fraturas de face, como Le Fort 1 e CZM. 18 Tratamento com realização de redução das fraturas, lipoenxertia na fossa temporal e rinoplastia. A) Paciente admitido após o trauma. B) Tomografia do crânio. C) Fixação maxilomandibular. D) e E) Fixação interna com redução aberta das fraturas do seio frontal com placa e tela. F) Lipoenxertia para correção de depressão na fossa temporal. G) 14 meses após rinoplastia. H) Resultado final 10 meses após a última rinoplastia. Fonte: Zeiderman; Pu, 2020. 3.5 Reconstrução da testa, do couro cabeludo, de lábios e de orelhas Lesões do couro cabelo são frequentemente associadas a sangramento intenso e, após o estancamento, lacerações menores de três centímetros devem ser fechadas primariamente (por meio de suturas), enquanto feridas maiores, devido à tensão, podem exigir incisões na gálea subjacente, permitindo maior mobilidade dos retalhos cutâneos. Por fim, lesões extensas podem ser tratadas com enxertos de pele e retalhos pediculares ou livres. Traumas na testa devem ser tratados semelhantemente (Braun; Maricevich, 2017). Para a reconstrução dos lábios, deve-se atentar ao realinhamento das estruturas anatômicas e restauração da função muscular e sensorial, e pode ser feita por fechamento primário e enxertos de pele. As orelhas também podem ser acometidas, principalmente por mordidas, acidentes esportivos e automobilísticos e queimaduras. O uso do retalho cutâneo de mastoide ou condrocutâneo local são boas soluções para as perdas parciais de orelha pós-trauma e resultam em poucas complicações. 3.6 Reconstrução e transplante facial A reconstrução facial é um procedimento caracterizado pela transferência de retalhos cutâneos para a área lesada, que são unidades constituídas por pele e tela subcutânea com seu próprio pedículo vascular, responsável pela sua nutrição. A transferência microvascular de tecidos livres desempenha um papel essencial na cobertura de tecidos moles e as taxas de sucesso em trauma na região de cabeça e pescoço superam 95%. A reconstrução facial começa com o desbridamento completo da ferida a partir da remoção de todo o tecido desvitalizado e possíveis corpos estranhos. Os tecidos moles, se for possível, devem ser suturados e drenos podem ser colocados em feridas contaminadas para reduzir o risco de infecção. Após o desbridamento, a etapa seguinte é a restauração da estrutura esquelética maxilofacial, caso haja fraturas (Zeiderman; Pu, 2020). Traumas craniofaciais severos, como queimaduras e traumas por arma de fogo, ou seja, lesões que incluem danos graves à pele, perda de tecidos e desfiguração, podem exigir o transplante de face, pois nessa região se inicia o movimento facial e por isso seu tratamento é mais complexo (Chuang; Barnes; Wong, 2016). O alotransplante facial é a técnica cirúrgica que transplanta a face de doador com morte cerebral e possui muitas dificuldades, como 19 características discrepantes entre doador e receptor e imunossensibilização. Porém, os resultados funcionais e estéticos têm sido promissores, com recuperação da fonação, da capacidade de sorrir, mastigar, deglutir e soprar (Eun, 2015). Não obstante, vale ressaltar que a carga emocional do trauma é difícil para o paciente e sua família, além de trazer dificuldades de relacionamento interpessoal, o que acarreta em perda da qualidade de vida. Dessa forma, é de grande importância que o cirurgião reconheça não somente a dificuldade da reconstrução cirúrgica, mas também a necessidade de cuidado com as expectativas do paciente e da família (Zeiderman; Pu, 2020). O transplante facial é um procedimento cirúrgico extremamente complexo e pouco realizado no mundo e envolve não apenas aspectos biológicos para o sucesso da cirurgia, mas também psicológicos, uma vez que a avaliação psicológica do paciente deve ser minuciosa e abrangente, pois impacta diretamente nas expectativas do paciente e na satisfação pós-operatória (Eun, 2015). 3.7 Descelularização e recelularização na cirurgia plástica reconstrutiva A descelularização e recelularização é uma técnica da engenharia de tecidos que consiste na remoção dos componentes celulares por meio de métodos físicos, químicos e/ou biológicos para a obtenção de matriz extracelular sem células. Em seguida, é feita a recelularização com células apropriadas e, assim, obtém-se enxertos adequados para o transplante de tecidos ou de órgãos (Shang et al., 2017). A descelularização refere-se à remoção de antígenos celulares que podem causar resposta imune e pode ser feita por métodos químicos, como uso de ácidos e bases, detergentes e álcoois, por métodos físicos, como temperatura e pressão para promover a destruição celular, e métodos biológicos, como agentes quelantes e enzimas, por exemplo as nucleases, tripsinas colagenases e lipases. Atualmente, a perfusão parece ser a forma mais eficaz de descelularizar sem danificar o arcabouço de matriz extracelular (Shang et al., 2017). A recelularização pode ser dividida em duas etapas principais: a semeadura celular, que consiste em criar uma combinação de células apropriada, e a recelularização em si, em que biorreatores podem ser utilizados para avaliar o avanço do processo. Vale destacar que uma baixa concentração de células pode diminuir a eficiência da semeadura, enquanto uma alta concentração pode levar à morte celular. Shang et al. (2017), portanto, verificaram que essa técnica é promissora para o fornecimento de tecidos e órgãos artificiais com melhor funcionalidade e pode ser a chave para o sucesso do tratamento de traumas craniofaciais. 4. CONCLUSÃO: 20 A complexidade do trauma craniofacial demanda uma abordagem multidisciplinar, onde o cirurgião plástico desempenha um papel central na reconstrução e restauração da função e estética da face. Através de técnicas avançadas e uma compreensão profunda da anatomia craniofacial, esses especialistas trabalham para superar os desafios terapêuticos impostos pelas lesões traumáticas. Além disso, o uso de biomateriais, implantes e tecnologias de imagem tem permitido avanços significativos no tratamento dessas condições, resultando em resultados mais eficazes e duradouros para os pacientes (Eun, 2015). Em contextos como o do Brasil, onde o trauma craniofacial é uma preocupação significativa devido à sua alta incidência, a atuação do cirurgião plástico se torna ainda mais crucial. Esses profissionais enfrentam não apenas a pressão de restaurar a função e estética comprometidas, mas também lidam com os desafios socioeconômicos e estruturais associados ao sistema de saúde. Sua capacidade de fornecer cuidados abrangentes e de alta qualidade contribui diretamente para a redução da morbidade e mortalidade relacionadas ao trauma craniofacial (Lim; Yoon, 2022). Por fim, é essencial destacar que a atuação do cirurgião plástico vai além da simples correção das lesões físicas. Eles desempenham um papel vital na reconstrução da autoestima e qualidade de vida dos pacientes, oferecendo suporte emocional e psicológico durante todo o processo de recuperação. Ao reconhecer e abordar não apenas as necessidades físicas, mas também as emocionais dos pacientes, os cirurgiões plásticos contribuem significativamente para a melhoria global do bem-estar dos indivíduos afetados pelo trauma craniofacial. REFERÊNCIAS BRAUN, T. L.; MARICEVICH, R. S. Soft Tissue Management in Facial Trauma. Semin. Plast. Surg., v. 31, n. 2, p. 73–79, mai. 2017. CHUANG, J; BARNES, C. WONG, B. J. F. Overview of Facial Plastic Surgery and Current Developments. Surg. J. (NY), v. 2, n. 1, p. e17-e28, mar. 2016. EUN, S. C. Facial Transplantation Surgery Introduction. JKMS, v. 30, n. 6, p. 669-672, jun. 2015. LIM, N. K.; YOON, J. H. A quantitative analysis of trauma patients having undergone plastic surgery. PLoS One, v. 17, n. 8, p. 1-14, ago. 2022. SHANG, Y. et al. Application of decellularization-recellularization technique in plastic and reconstructive surgery. Chinese Medical Journal, v. 136, n. 17, p. 2017-2027, set. 2023. WU, Y. et al. Evaluation of Facial Trauma Scars After Treating by Refining Plastic Surgery Techniques: A Follow-Up Study. The Journal of Craniofacial Surgery, v. 34, n. 4, p. e376-e380, jun. 2023. ZEIDERMAN, M. R.; PU, L. L. Q. Contemporary reconstruction after complex facial trauma. Burns & Trauma, v. 8, jan. 2020. 21 CAPÍTULO 2 A UTILIZAÇÃO DE ALOENXERTOS EM CIRURGIAS PLÁSTICAS RECONSTRUTIVAS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA. THE USE OF ALLOGRAFTS IN RECONSTRUCTIVE PLASTIC SURGERY: AN INTEGRATIVE REVIEW OF THE LITERATURE. 10.56161/sci.ed.20240415c2 Mariana Ramos de Morais Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás - UFG, Goiás, Brasil. Orcid ID do autor: https://orcid.org/0009-0001-6319-1954 Juraci Alves de Sousa Filho Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás - UFG, Goiás, Brasil. Orcid ID do autor https://orcid.org/0009-0009-7472-5251 Matheus Henrique Barbosa Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás - UFG, Goiás, Brasil. Orcid ID do autor https://orcid.org/0009-0006-7560-1646 Matheus Henrique Bernardes Daniel Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás - UFG, Goiás, Brasil. Orcid ID do autor https://orcid.org/0009-0006-7389-5572 Thaynne Hayssa França Barbosa Residente em Cirurgia Plástica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás HC-UFG, Goiás, Brasil. Orcid ID do orientador: https://orcid.org/0000-0002-5186-6467 RESUMO Introdução: Os avanços contínuos na reconstrução de tecidos, como o uso de Matrizes Dérmicas Acelulares (ADM), estão revolucionando a abordagem de queimaduras e lesões 22 traumáticas. Aloenxertos reduzem o tempo de recuperação em até 40%, promovendo uma evolução constante na cirurgia plástica reconstrutiva, com resultados mais eficazes e seguros para os pacientes. Objetivos: Esta pesquisa visa analisar os avanços no tratamento de queimaduras e lesões traumáticas usando aloenxertos para reconstrução de tecidos na cirurgia plástica reconstrutiva. Materiais e Métodos: Este capítulo baseia-se em revisão integrativa de literatura, utilizando artigos de plataformas como PubMed, BVS e SciELO, destacando-se como método investigativo para acesso direto a evidências em saúde. Resultados e Discussão: A cicatrização de feridas cutâneas é um processo complexo dividido em fases inflamatória, fibroproliferativa e de maturação. O transplante de aloenxerto de pele humana acelera a regeneração, servindo como suporte para o crescimento celular. A aloenxertia é indicada para várias lesões, mas enfrenta desafios de disponibilidade e custo, sendo necessário equilibrar eficácia clínica com viabilidade econômica e considerar a variabilidade dos pacientes. Conclusão: Aloenxertos em cirurgia plástica representam um progresso significativo no tratamento de queimaduras e lesões, mostrando eficácia e segurança. Destacando-se a necessidade de pesquisa para enfrentar desafios como a escassez de recursos. Este estudo evidencia o valor dos aloenxertos na regeneração tecidual, ressaltando a importância de inovação na cirurgia reconstrutiva para melhorar o acesso e resultados aos pacientes. PALAVRAS-CHAVE: Aloenxertos; cirurgia plástica; ferimentos e lesões. ABSTRACT Introduction: Ongoing advancements in tissue reconstruction, such as the use of Acellular Dermal Matrices (ADM), are revolutionizing the approach to burns and traumatic injuries. Allografts reduce recovery time by up to 40%, fostering a constant evolution in reconstructive plastic surgery, yielding more effective and safer outcomes for patients. Objectives: This research aims to analyze progress in treating burns and traumatic injuries using allografts for tissue reconstruction in reconstructive plastic surgery. Materials and Methods: This chapter is based on an integrative literature review, utilizing articles from platforms like PubMed, BVS, and SciELO, serving as an investigative method for direct access to healthcare evidence. Results and Discussion: Cutaneous wound healing is a complex process divided into inflammatory, fibroproliferative, and maturation phases. Human skin allograft transplantation accelerates regeneration, providing cellular growth support. Allografting is indicated for various lesions but faces availability and cost challenges, necessitating balancing clinical efficacy with economic viability and considering patient variability. Conclusion: Allografts in 23 plastic surgery represent significant progress in the treatment of burns and injuries, demonstrating efficacy and safety. Highlighting the need for research to address challenges such as resource scarcity. This study underscores the value of allografts in tissue regeneration, emphasizing the importance of innovation in reconstructive surgery to improve access and outcomes for patients. KEYWORDS: Allografts; surgery, plastic; wounds and injuries. 1. INTRODUÇÃO Recentes avanços no tratamento de queimaduras graves e lesões traumáticas têm redefinido as práticas médicas, destacando alternativas inovadoras para a reconstrução de tecidos. Embora os enxertos autólogos de pele fina tenham sido eficazes, sua aplicação é limitada por complicações como a contração da ferida e a morbidade associada ao local doador. Assim, a introdução de Matrizes Dérmicas Acelulares (ADM), provenientes de doadores humanos ou mamíferos, surgiu como uma solução, proporcionando eficácia na reconstrução e minimizando as complicações vinculadas aos enxertos autólogos (SARKOZYOVA et al., 2020; PATEL et al., 2022). Na cirurgia plástica reconstrutiva, especialmente em procedimentos complexos na região da cabeça e pescoço, várias ADMs têm se destacado. Essas matrizes, desprovidas de epiderme e componentes celulares, integram-se ao tecido circundante, estimulando a regeneração e reduzindo a formação de cicatrizes (PATEL et al., 2022). O uso de matriz dérmica acelular, inclusive, tem se destacado também em outras áreas da medicina regenerativa, como na reconstrução do ligamento cruzado anterior (ACL) do joelho. Contudo, os avanços ainda carecem de dados sobre os efeitos ao longo prazo, desafiando os profissionais a equilibrar a inovação terapêutica com considerações financeiras e evidências robustas (SETIAWAN, 2023; ARYANA, 2023). O uso de aloenxertos pode reduzir em até 40% o tempo de epitelização de áreas lesadas, como ferimentos traumáticos e queimaduras (PASCOLAT, 2019). Com isso, a aloenxertia não apenas acelera o processo de recuperação, mas também se revela uma opção com menor risco para os pacientes. Apresentando alta eficácia, associada à facilidade de manejo, que confere a ela uma posição valiosa em procedimentos de reconstrução e tratamento de grandes feridas (LI et al, 2015). 24 Visto todos esses fatores, a utilização de aloenxertos representa um avanço na técnica cirúrgica e amplia as perspectivas de recuperação para pacientes com queimaduras graves e lesões traumáticas extensas. A contínua evolução dessas práticas e o aprimoramento das evidências científicas, portanto, contribuem para consolidar a atuação da aloenxertia na cirurgia plástica reconstrutiva, promovendo resultados mais eficazes, seguros e satisfatórios para os pacientes. 2. OBJETIVOS Esta pesquisa tem como objetivos principais analisar os avanços no tratamento de queimaduras e lesões traumáticas a partir da aplicação de aloenxertos, com ênfase em alternativas inovadoras para a reconstrução de tecidos, por meio de resultados eficazes, seguros e satisfatórios na cirurgia plástica reconstrutiva, a fim de contribuir para o aprimoramento contínuo das práticas e evidências científicas nesse campo. 3. MATERIAIS E MÉTODOS O presente capítulo foi elaborado a partir de uma revisão integrativa de literatura baseada em artigos publicados em plataformas de busca científicas, sendo elas: PubMed, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e SciELO. A revisão integrativa representa uma metodologia de pesquisa investigativa e detalhada, que se destaca notavelmente na atualidade, de modo a conduzir o fácil e direcionado acesso à informação para os profissionais da área da saúde, a partir da reunião das melhores evidências disponíveis para determinado tema em um mesmo trabalho, dada a considerável quantidade de estudos publicados diariamente. Nesse contexto, a revisão integrativa responde a uma questão de pesquisa claramente definida e é reconhecida por sua abrangência metodológica, transparência e rigor (DONATO, DONATO, 2019). Dessa forma, foi estabelecida uma questão de norteadora de pesquisa para o problema abordado: “Como os aloenxertos são utilizados nas cirurgias plásticas reconstrutivas ?”. A partir desse eixo, o método PICO foi utilizado para o desenvolvimento das buscas. Nesse viés, o método PICO (um acrônimo que se baseia em 4 pilares) foi a ferramenta utilizada para definir a estratégia de busca: a população, ou o paciente ou o problema abordado (n) neste trabalho é definida por pacientes de todas as faixas etárias e sexos; a intervenção (Intervention) propõe compreender o uso de aloenxertos em pacientes que foram submetidos à 25 cirurgias plásticas reconstrutivas das mais diversas regiões corporais e tecidos reconstruídos; a comparação da intervenção (Control/Comparison)que corresponde ao cenário oposto, ou seja, pacientes que foram submetidos à cirurgias plásticas reconstrutivas com outros tipos de enxertos utilizados, além do aloenxerto; e os resultados esperados (Outcome) buscam apresentar as diversas aplicações e condições do uso de aloenxertos nas cirurgias plásticas reconstrutivas, de modo a destacar importância de estudos nessa área (ARAÚJO, 2020). Por consequência da utilização dessa estratégia, as etapas de busca foram documentadas e adequadas conforme os descritores e termos associados que foram utilizados, sendo eles: “Allografts” OR "Allogeneic Grafts" AND “Reconstructive Surgical Procedures” OR "Surgical Procedure, Reconstructive" OR "Cosmetic Reconstructive Surgery". Foram utilizados os operadores booleanos “AND” e “OR” para refinar a busca conforme o tema do trabalho. Os termos correspondentes foram retirados das plataformas de Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH) aplicados nas buscas. Foram estabelecidos como critérios de inclusão trabalhos publicados nos últimos 10 anos - com diferentes desenhos de estudo dada a escassez de trabalhos que tratam especificamente do tema abordado, como ensaios clínicos randomizados, estudos retrospectivos, transversais, revisões de literatura e materiais que abordam o cenário brasileiro. Ainda nos critérios de inclusão foram incluídos trabalhos na íntegra, nos idiomas inglês e português. Por outro lado, foram excluídos os estudos que após a pesquisa e leitura direta dos resumos não abordaram o tema em foco ou apresentaram resultados inconclusivos ou sem alterações para os conhecimentos pré-existentes sobre o assunto. Portanto, a próxima etapa para a seleção das referências envolveu a leitura dos resumos de 23 estudos encontrados, de modo que 7 artigos foram selecionados para compor o conteúdo desenvolvido ao longo de todo o capítulo, segundo os critérios de inclusão e exclusão. Sendo assim, por corresponder a uma revisão integrativa de literatura, a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa foi dispensável para o presente estudo. 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO A cicatrização de feridas cutâneas é um processo complexo que envolve uma série de atividades coordenadas, culminando na transformação de uma lesão traumática em uma cicatriz estável. Este processo pode ser dividido em várias fases distintas. Inicialmente, há uma fase inflamatória que engloba a ativação dos sistemas de coagulação intrínseca e extrínseca, além de respostas inflamatórias agudas e crônicas. Em seguida, ocorre a fase fibroproliferativa, 26 caracterizada pela formação de matriz extracelular, angiogênese e vasculogênese, e reepitelização. A fase fibroproliferativa, embora tipicamente observada de 4 a 21 dias após a lesão, na verdade começa logo após o dano tecidual com o processo de reepitelização, onde os queratinócitos adjacentes migram para o local da ferida. Esta matriz temporária é então substituída progressivamente por tecido de granulação, composto principalmente por fibroblastos, células endoteliais e macrófagos, que fornecem suporte para a formação de novos vasos sanguíneos no local da ferida. Com o tempo, essa matriz temporária é substituída pela formação de colágeno durante a fase de maturação, resultando na remodelação estrutural da ferida (BOGLIOLO, 2021; JOHNSON et al., 2018). Os efeitos benéficos do transplante de aloenxerto de pele humana são conhecidos há décadas, especialmente no tratamento de grandes queimaduras, feridas extensas, traumas e outros tipos de lesões (HENN et al., 2019; PASCOLAT et al., 2020). O objetivo de seu uso em cirurgias plásticas é servir como uma estrutura de suporte para acelerar o processo de regeneração tecidual durante a fase fibroproliferativa da cicatrização de feridas. Os produtos são desenvolvidos para aderir à superfície da ferida e facilitar o processo de cicatrização, agindo como um substrato para o crescimento celular e a multiplicação dos tecidos (JOHNSON et al., 2018; SARKOZYOVA et al., 2020). Atualmente, uma variedade de produtos com diferentes origens, usos e mecanismos estão em uso para reproduzir as propriedades naturais e mecânicas da pele. As propriedades desejáveis dos biomateriais incluem eficácia na promoção da regeneração tecidual, fornecimento de suporte para o crescimento celular, inércia química, ausência de alergias, não carcinogenicidade, capacidade de esterilização, facilidade de aplicação e viabilidade econômica (FERREIRA et al., 2011). As indicações para seu uso em cirurgias plásticas abrangem casos de exposição de tendão, osso ou estrutura neovascular, além de feridas de radiação e aquelas que não cicatrizam dentro do período de quatro meses, seguindo os protocolos adequados de cuidados com feridas (JOHNSON et al., 2018). Esses produtos biológicos estão disponíveis em duas formas principais: aloenxertos, provenientes de doadores cadavéricos ou neonatais, e xenoenxertos, derivados de doadores suínos ou bovinos. Além disso, esses enxertos podem ser classificados como acelulares, que não contêm células vivas e são imunologicamente inertes, ou celulares, que mantêm células vivas. Enxertos contendo células vivas podem desencadear uma resposta imunológica no hospedeiro, devendo ser considerados durante a discussão dos resultados com o paciente. Todos os xenoenxertos são do tipo acelular para evitar resposta imunológica do hospedeiro. Os aloenxertos acelulares são obtidos a partir de cadáveres descelularizados, 27 enquanto os aloenxertos celulares têm origem em prepúcios neonatais (JOHNSON et al., 2018; SARKOZYOVA et al., 2020). As Matrizes Dérmicas Acelulares (ADMs) são capazes de restaurar tanto a microestrutura quanto as funções fisiológicas das áreas reconstruídas, proporcionando uma rápida revascularização dos canais vasculares dérmicos preservados pela matriz acelular. Essa revascularização desempenha um papel crucial na promoção da aderência dos enxertos de pele e na garantia de uma cicatrização primária sólida em reconstruções de tecidos moles, com a expectativa de que a estrutura de transporte transplantado seja repovoado pelas células dérmicas do hospedeiro para a síntese de uma nova matriz dérmica autóloga (SARKOZYOVA et al., 2020). No que diz respeito à biocompatibilidade, as ADMs destacam-se pela sua capacidade de integração tecidual, tolerância do hospedeiro e compatibilidade imunológica, devido à sua composição principalmente de estruturas de colágeno, que raramente provocam reações adversas do sistema imunológico. A remoção apropriada de materiais imunogênicos durante o processamento é fundamental para evitar rejeições, conforme observado em enxertos de pele não processados. Além disso, a rápida infiltração de fibroblastos e vasos sanguíneos demonstra a biocompatibilidade das ADMs, que também são avaliados quanto à sua estabilidade mecânica e durabilidade (SARKOZYOVA et al., 2020). A biodegradabilidade e a não-toxicidade das ADMs, relacionadas à sua estrutura única de colágeno, são aspectos fundamentais. Esses materiais são decompostos no organismo por enzimas específicas, resultando na produção de colágeno tipo I e III, que promovem a infiltração de fibroblastos sem desencadear respostas inflamatórias ou de corpo estranho. O controle cuidadoso da taxa de biodegradação e a ausência de produtos de degradação prejudiciais são cruciais para garantir o sucesso do implante (SARKOZYOVA et al., 2020). Por fim, a capacidade dos ADMs de resistir a forças mecânicas é essencial para sua eficácia, especialmente em áreas do corpo sujeitas a estresse. A capacidade desses materiais de resistir a essas forças e minimizar a contratura cicatricial contribui para melhorar a qualidade das áreas enxertadas, especialmente em regiões que requerem elasticidade, maleabilidade e estabilidade. Nesse sentido, as ADMs representam uma opção valiosa para reconstruções de tecidos moles, oferecendo uma combinação única de propriedades biológicas e mecânicas que favorecem a cicatrização eficaz e a integração adequada com o hospedeiro (SARKOZYOVA et al., 2020). Determinar o valor relativo de produtos biológicos para cicatrização de feridas representa um desafio complexo para profissionais da saúde. A avaliação dos resultados 28 relevantes para o paciente deve ser cuidadosamente equilibrada com os custos associados aos diferentes produtos, considerando o impacto financeiro para o sistema médico. A falta de padronização em comorbidades e medidas de desfecho complica a abordagem de feridas abertas, resultando muitas vezes em decisões clínicas baseadas em opiniões e experiências individuais (JOHNSON et al., 2018). Adicionalmente, a variabilidade dos fatores do paciente influencia significativamente tanto o resultado do enxerto quanto o sucesso do procedimento. A falta de recursos e infraestrutura para coleta de dados adequada limita a análise completa do valor dos produtos em muitos sistemas de saúde. A disparidade de custos entre tipos de enxertos é considerável, e as negociações de preços exercem influência significativa no custo final efetivo. No entanto, muitas vezes, informações detalhadas sobre os custos reais não estão disponíveis para os médicos, o que afeta o processo de tomada de decisão clínica (JOHNSON et al., 2018). 5. CONCLUSÃO Esta revisão de literatura, sobre o uso de aloenxertos em cirurgia plástica reconstrutiva através de pesquisas recentes sobre o uso de aloenxertos em cirurgia plástica reconstrutiva, revela uma perspectiva promissora que não apenas destaca os avanços significativos já alcançados, mas também aponta para o imenso potencial de inovação e aprimoramento nesse campo. Apesar dos desafios associados à seleção e ao processamento de aloenxertos, esses materiais são excelentes alternativas para a reconstrução de tecidos, oferecendo resultados eficazes, seguros e satisfatórios. As descobertas discutidas revelam que a cicatrização de feridas é um processo complexo, que são beneficiados pelo uso de aloenxertos, os quais proporcionam uma estrutura de suporte essencial para a regeneração tecidual. Essa técnica demonstrou reduzir a dor, controlar infecções e acelerar o processo de cicatrização, representando uma ferramenta valiosa para médicos e cirurgiões. Além disso, a exploração de alternativas como os xenoenxertos, especialmente derivados da tilápia do Nilo, oferece possibilidades terapêuticas e socioeconômicas promissoras, abrindo novas avenidas para o tratamento de queimaduras e outras lesões traumáticas. Contudo, este estudo também identificou desafios significativos, como a disponibilidade limitada de aloenxertos e a necessidade de uma infraestrutura robusta para suportar a coleta e o processamento de dados adequados. A variabilidade nos custos dos enxertos e a falta de padronização nas abordagens de tratamento são questões críticas que requerem atenção. Assim, para maximizar os benefícios dos aloenxertos e outras abordagens 29 de tratamento inovadoras, é importante que sejam adotadas estratégias que visem a otimização dos recursos disponíveis, a padronização dos protocolos de tratamento e a expansão do acesso a tratamentos eficazes. Esta pesquisa contribui significativamente para a literatura existente, oferecendo insights valiosos sobre o estado atual das práticas de tratamento de queimaduras e lesões traumáticas, e destacando o potencial dos aloenxertos como uma ferramenta vital para a medicina regenerativa. Ademais, sublinha a necessidade de pesquisa contínua, desenvolvimento de políticas de saúde pública eficazes e colaboração interdisciplinar para superar os desafios identificados e explorar plenamente o potencial das tecnologias emergentes na medicina reconstrutiva. Em suma, os avanços no uso de aloenxertos e xenoenxertos em cirurgias plásticas reconstrutivas representam um marco significativo no tratamento de queimaduras e lesões traumáticas, oferecendo novas esperanças para pacientes e contribuindo para o desenvolvimento de práticas médicas mais avançadas e humanizadas. Contudo, é essencial que a comunidade científica e os responsáveis pela formulação de políticas continuem a dedicar atenção e recursos à pesquisa, ao desenvolvimento e à implementação de soluções inovadoras que atendam às necessidades dos pacientes de maneira eficaz e sustentável. REFERÊNCIAS ARAÚJO, Wánderson Cássio Oliveira. Recuperação da informação em saúde: construção, modelos e estratégias. Convergências em Ciência da Informação, v. 3, n. 2, p. 100-134, maio/ago. 2020. BOGLIOLO. Patologia. Editora Guanabara Koogan, edição 10, 2021. DONATO, H.; DONATO, M. Etapas na Condução de uma Revisão Sistemática. Acta Médica Portuguesa, v. 32, n. 3, p. 227, 29 mar. 2019. FERREIRA, M. C. et al. Substitutos cutâneos: conceitos atuais e proposta de classificação. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, v. 26, n. 4, p. 696-702, 2011. HENN, D. et al. Cryopreserved human skin allografts promote angiogenesisand dermal regeneration in a murine model. 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Preparation and processing of human allogenic dermal matrix for utilization in reconstructive surgical procedures. Bratislavske Lekarske Listy, v. 121, n. 6, p. 386-394, 2020. SETIAWAN, C. R.; ARYANA, I. G. N. W. Graft Selection Between Tendon Autograft and Allograft in Anterior Cruciate Ligament Reconstruction Based on the Histological Perspective: A Meta-Analysis. Revista Brasileira de Ortopedia, v. 58, p. 388-396, 2023. 31 CAPÍTULO 3 IMPACTO DA INTERVENÇÃO DE ENFERMAGEM NA PREVENÇÃO DE COMPLICAÇÕES EM PACIENTES SUBMETIDOS À ANGIOPLASTIA CORONÁRIA IMPACT OF NURSING INTERVENTION IN PREVENTING COMPLICATIONS IN PATIENTS UNDERGOING CORONARY ANGIOPLASTY 10.56161/sci.ed.20240415c3 Francisco Lucas Ferreira Sousa Enfermeiro Especialista em Enfermagem Em Nefrologia pela Faculdade Venda Nova Do Imigrante FAVENI Orcid ID https://orcid.org/0009-0004-1071-344X RESUMO A angioplastia coronária (AC) é um procedimento comum utilizado para tratar a doença arterial coronariana, mas está associada a riscos significativos, como sangramento, disfunção renal e eventos cardiovasculares adversos. As intervenções de enfermagem desempenham um papel crucial na prevenção e manejo dessas complicações, porém, sua eficácia ainda carece de uma compreensão aprofundada. Este trabalho propõe uma revisão sistemática para investigar o impacto das intervenções de enfermagem na prevenção de complicações em pacientes submetidos à angioplastia coronária. O objetivo é sintetizar a evidência disponível e identificar lacunas no conhecimento, com o intuito de orientar práticas clínicas baseadas em evidências e aprimorar o cuidado ao paciente após o procedimento de AC. A revisão sistemática será realizada por meio de uma busca detalhada em bases de dados eletrônicas, como Google acadêmico bvs e lilacs, abrangendo estudos publicados até janeiro de 2024. Serão incluídos estudos que investigaram diretamente intervenções de enfermagem em pacientes submetidos à AC. A seleção dos estudos, a coleta de dados e a análise realizadas de forma independente , com resolução de divergências por consenso ou consulta a um terceiro revisor. Os resultados serão analisados criticamente para identificar as principais intervenções de enfermagem associadas à prevenção de complicações após AC. Será discutida a eficácia dessas intervenções, suas limitações e implicações para a prática clínica. Lacunas no conhecimento serão identificadas, fornecendo insights valiosos para futuras pesquisas e aprimoramento das práticas de cuidado ao paciente. A revisão sistemática proposta visa fornecer uma síntese abrangente da evidência disponível sobre o impacto das intervenções de enfermagem na prevenção de 32 complicações em pacientes submetidos à angioplastia coronária. Espera-se que os resultados orientem a prática clínica, promovendo a segurança e bem-estar dos pacientes após o procedimento de AC. PALAVRAS-CHAVE: Reabilitação cardíaca; Doença cardiovascular; Intervenção coronariana percutânea; Adesão à medicação; Dor pós-operatória. ABSTRACT Coronary angioplasty (CA) is a common procedure used to treat coronary artery disease, but it is associated with significant risks such as bleeding, renal dysfunction, and adverse cardiovascular events. Nursing interventions play a crucial role in preventing and managing these complications, however, their effectiveness still lacks in-depth understanding. This work proposes a systematic review to investigate the impact of nursing interventions in preventing complications in patients undergoing coronary angioplasty. The objective is to synthesize the available evidence and identify gaps in knowledge, with the aim of guiding evidence-based clinical practices and improving patient care after the CA procedure. The systematic review will be carried out through a detailed search in electronic databases, such as Google academic bvs and lilacs, covering studies published until January 2024. Studies that directly investigated nursing interventions in patients undergoing CA will be included. Study selection, data collection and analysis were carried out independently, with disagreements resolved by consensus or consultation with a third reviewer. The results will be critically analyzed to identify the main nursing interventions associated with the prevention of complications after CA. The effectiveness of these interventions, their limitations and implications for clinical practice will be discussed. Gaps in knowledge will be identified, providing valuable insights for future research and improvement of patient care practices. The proposed systematic review aims to provide a comprehensive synthesis of the available evidence on the impact of nursing interventions in preventing complications in patients undergoing coronary angioplasty. The results are expected to guide clinical practice, promoting the safety and well-being of patients after the CA procedure. KEYWORDS: Cardiac rehabilitation; Cardiovascular disease; Percutaneous coronary intervention; Adherence to medication; Postoperative pain. 1. INTRODUÇÃO A angioplastia coronária (AC) é um procedimento invasivo comumente utilizado para restaurar o fluxo sanguíneo coronário em pacientes com doença arterial coronariana (DAC) (Smith et al., 2020). A DAC é uma condição caracterizada pela acumulação de placa nas artérias coronárias, o que pode resultar em isquemia cardíaca e angina de peito (Fihn et al., 2014). A AC é realizada para aliviar os sintomas da DAC, melhorar a qualidade de vida e reduzir o risco de eventos cardiovasculares adversos, como infarto do miocárdio e morte súbita cardíaca (Levine et al., 2017). As complicações após a angioplastia coronária representam um desafio significativo para os pacientes e profissionais de saúde. Entre essas complicações, o sangramento é uma das mais comuns e potencialmente graves (Lemesle et al., 2019). O sangramento pós-angioplastia 33 coronária está associado a um aumento do risco de morbidade e mortalidade, incluindo necessidade de transfusão sanguínea, revascularização de emergência e até mesmo óbito (Mehran et al., 2011). Além do sangramento, a disfunção renal é outra complicação importante após a angioplastia coronária. A exposição ao contraste iodado durante o procedimento de angiografia coronária pode causar lesão renal aguda em pacientes com função renal comprometida, aumentando o risco de insuficiência renal e outras complicações (Gurm et al., 2013). Portanto, estratégias para prevenir a disfunção renal pós- angioplastia coronária são essenciais para otimizar os resultados clínicos. Os eventos cardiovasculares adversos, como infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e morte cardíaca, também representam preocupações significativas após a angioplastia coronária (Hamon et al., 2013). Embora a angioplastia coronária seja realizada para melhorar o fluxo sanguíneo coronário e reduzir o risco de eventos cardiovasculares, complicações como reestenose, trombose do stent e lesões vasculares podem comprometer os resultados a longo prazo (Alfonso et al., 2010). As intervenções de enfermagem desempenham um papel crucial na prevenção e manejo dessas complicações em pacientes submetidos à angioplastia coronária. Os enfermeiros desempenham um papel fundamental na avaliação pré-operatória, monitorização intra e pósoperatória, administração de medicamentos, fornecimento de educação ao paciente e coordenação do cuidado multidisciplinar (Golukcu et al., 2018). O modelo de enfermagem baseado em evidências destaca a importância de práticas de enfermagem fundamentadas em evidências científicas para otimizar os resultados dos pacientes (Melnyk & Fineout-Overholt, 2019). 1.1 Monitorização Contínua dos Sinais Vitais e Estado Hemodinâmico na Prevenção de Complicações em Pacientes Submetidos à Angioplastia Coronária A monitorização contínua dos sinais vitais e do estado hemodinâmico é uma parte fundamental dos cuidados perioperatórios em pacientes submetidos à angioplastia coronária (AC). Essa prática permite a detecção precoce de qualquer sinal de deterioração clínica, incluindo sangramento excessivo, hipotensão e arritmias cardíacas, possibilitando intervenções imediatas para prevenir complicações graves e melhorar os resultados do paciente (Alfonso et al., 2010). A medição dos sinais vitais, como frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória e temperatura corporal, fornece informações essenciais sobre o estado fisiológico do paciente durante o procedimento de AC. A identificação de alterações nos sinais vitais pode 34 indicar complicações em desenvolvimento, como sangramento interno, hipovolemia ou insuficiência cardíaca (Golukcu et al., 2018). A pressão arterial é um parâmetro especialmente importante a ser monitorado de perto durante e após a AC, pois a hipotensão pode indicar sangramento interno ou comprometimento da função cardíaca. A detecção precoce da hipotensão permite a implementação imediata de medidas para restaurar a perfusão tecidual adequada e prevenir complicações graves, como choque cardiogênico (Mehran et al., 2011). Além da monitorização dos sinais vitais, a avaliação do estado hemodinâmico do paciente é essencial para detectar precocemente complicações relacionadas à AC. Isso inclui a monitorização da pressão venosa central (PVC) e débito cardíaco, bem como o uso de técnicas invasivas, como cateterismo cardíaco, para avaliar a função cardíaca e a pressão arterial pulmonar (Hamon et al., 2013). A detecção precoce de arritmias cardíacas também é crucial durante o período perioperatório da AC. Arritmias como fibrilação atrial e taquicardia ventricular podem ocorrer como resultado da manipulação vascular durante o procedimento ou devido à resposta inflamatória ao trauma vascular. A monitorização contínua do ritmo cardíaco permite o diagnóstico precoce de arritmias e a implementação de medidas para estabilizar o ritmo cardíaco e prevenir eventos cardiovasculares adversos (Levine et al., 2017). Em resumo, a monitorização contínua dos sinais vitais e do estado hemodinâmico desempenha um papel crucial na prevenção de complicações em pacientes submetidos à angioplastia coronária. Essa prática permite a detecção precoce de sinais de deterioração clínica, como sangramento excessivo, hipotensão e arritmias cardíacas, possibilitando intervenções imediatas para otimizar os resultados do paciente e reduzir o risco de eventos adversos durante o período perioperatório. 1.2 Implementação de Protocolos de Administração de Anticoagulantes e Antiagregantes Plaquetários na Prevenção de Complicações em Pacientes Submetidos à Angioplastia Coronária A implementação de protocolos de administração de anticoagulantes e antiagregantes plaquetários é uma estratégia crucial na prevenção de complicações tromboembólicas em pacientes submetidos à angioplastia coronária (AC). Esses protocolos são desenvolvidos com base nas diretrizes clínicas e na prescrição médica individualizada, visando garantir a manutenção de níveis terapêuticos adequados e minimizar o risco de eventos tromboembólicos, como trombose do stent e infarto do miocárdio (Valgimigli et al., 2018). 35 A administração de anticoagulantes, como heparina não fracionada ou de baixo peso molecular, é rotineiramente realizada durante a AC para prevenir a formação de coágulos sanguíneos nas artérias coronárias após a intervenção. A dose e a duração da terapia anticoagulante são determinadas com base no perfil de risco do paciente, incluindo fatores como idade, peso, função renal e presença de comorbidades (Windecker et al., 2014). Além dos anticoagulantes, os antiagregantes plaquetários desempenham um papel fundamental na prevenção de eventos tromboembólicos em pacientes submetidos à AC. O uso de agentes antiagregantes, como o ácido acetilsalicílico (aspirina) e inibidores do receptor P2Y12, como o clopidogrel, ticagrelor ou prasugrel, é padrão de cuidado após a implantação de stents coronários para prevenir a trombose do stent e a reestenose (Levine et al., 2017). A implementação de protocolos padronizados de administração de anticoagulantes e antiagregantes plaquetários é fundamental para garantir a segurança e eficácia do tratamento. Esses protocolos incluem orientações específicas sobre a dose inicial, ajustes de dose com base em parâmetros laboratoriais, como tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPA) e teste de função plaquetária, e duração da terapia (Steg et al., 2012). Além disso, a monitorização regular da terapia antitrombótica é essencial para avaliar a eficácia do tratamento e identificar precocemente qualquer sinal de hemorragia ou trombose. Isso pode envolver a realização de exames laboratoriais, como contagem de plaquetas, hematócrito e coagulograma, e avaliação clínica dos sinais e sintomas de complicações tromboembólicas ou hemorrágicas (Yusuf et al., 2001). A implementação de protocolos de administração de anticoagulantes e antiagregantes plaquetários é essencial na prevenção de complicações tromboembólicas em pacientes submetidos à angioplastia coronária. Esses protocolos permitem a manutenção de níveis terapêuticos adequados, minimizando o risco de eventos tromboembólicos, e são fundamentais para garantir a segurança e eficácia do tratamento perioperatório. 1.3 Educação ao Paciente e Familiares sobre Cuidados Domiciliares após Angioplastia Coronária A educação ao paciente e seus familiares desempenha um papel fundamental na promoção da recuperação bem-sucedida e na prevenção de complicações após a angioplastia coronária (AC). Esta etapa pós-procedimento é crucial para garantir que o paciente compreenda os cuidados necessários, seja capaz de gerenciar sua condição em casa e esteja ciente dos sinais de alerta de complicações que requerem atenção médica imediata (Dolansky et al., 2016). Um aspecto importante da educação domiciliar é fornecer orientações claras sobre a administração de medicamentos prescritos. Isso inclui explicar a finalidade de cada 36 medicamento, sua dosagem adequada, horários de administração e possíveis efeitos colaterais. É essencial que o paciente compreenda a importância de seguir rigorosamente a prescrição médica para garantir a eficácia do tratamento e prevenir complicações (Lacey et al., 2018). Além da administração de medicamentos, os pacientes e seus familiares devem receber orientações sobre sinais de alerta de complicações que exigem atenção médica imediata. Isso pode incluir sintomas como dor no peito intensa e persistente, falta de ar súbita, palpitações cardíacas anormais, inchaço repentino nas pernas ou incapacidade de respirar (American Heart Association, 2020). Modificar o estilo de vida é outro aspecto importante dos cuidados domiciliares após a AC. Os pacientes devem ser instruídos sobre a importância de adotar hábitos saudáveis, como uma dieta equilibrada, exercícios regulares, controle do peso, cessação do tabagismo e gerenciamento do estresse. Essas mudanças no estilo de vida são essenciais para reduzir o risco de complicações futuras e melhorar a saúde cardiovascular a longo prazo (Piepoli et al., 2016). Por fim, é crucial fornecer orientações sobre o seguimento médico adequado após a alta hospitalar. Os pacientes devem ser informados sobre a necessidade de consultas de acompanhamento com o cardiologista intervencionista, exames de imagem de rotina, como ecocardiograma ou angiografia coronária, e testes laboratoriais periódicos para monitorar a função cardíaca e avaliar a eficácia do tratamento (Levine et al., 2017). Em conclusão, a educação ao paciente e seus familiares sobre cuidados domiciliares após a AC é essencial para promover uma recuperação bem-sucedida e prevenir complicações. Ao fornecer orientações sobre administração de medicamentos, sinais de alerta de complicações, modificação do estilo de vida e seguimento médico adequado, os profissionais de saúde podem capacitar os pacientes a assumirem um papel ativo em sua própria saúde e maximizarem os resultados a longo prazo. 1.4 Manejo da Dor Pós-Procedimento após Angioplastia Coronária O manejo da dor pós-procedimento é uma parte crucial dos cuidados perioperatórios em pacientes submetidos à angioplastia coronária (AC). Esta intervenção invasiva pode resultar em desconforto e dor, que podem ser causados pela manipulação vascular durante o procedimento, trauma tecidual e inflamação local. O manejo eficaz da dor é essencial para melhorar o conforto do paciente, promover a recuperação e reduzir o risco de complicações relacionadas à dor, como aumento do estresse e da ansiedade (Hernandez-Boussard et al., 2018). A administração de analgésicos conforme necessário desempenha um papel central no alívio da dor pós-procedimento. Os medicamentos analgésicos, como paracetamol, opioides e 37 anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), são prescritos com base na intensidade da dor e na resposta individual do paciente ao tratamento. É fundamental que a equipe de saúde avalie regularmente a eficácia do analgésico prescrito e ajuste a terapia conforme necessário para garantir um alívio adequado da dor e minimizar os efeitos colaterais (Kehlet et al., 2018). Além da administração de analgésicos, a implementação de medidas não farmacológicas é essencial para complementar o manejo da dor pós-procedimento. Isso inclui o posicionamento adequado do paciente para reduzir a pressão sobre a área de intervenção e aliviar o desconforto, bem como o uso de técnicas de relaxamento, como respiração profunda, meditação e visualização guiada. Essas técnicas podem ajudar a reduzir a ansiedade, promover o relaxamento muscular e melhorar o bem-estar geral do paciente (McGrath et al., 2019). É importante ressaltar que o manejo da dor pós-procedimento não se limita apenas ao período imediato após a AC. Os pacientes podem experimentar dor e desconforto por vários dias ou semanas após o procedimento, à medida que o corpo se recupera e cicatriza. Portanto, é essencial que a equipe de saúde forneça orientações claras sobre o manejo da dor em casa e incentive os pacientes a relatar qualquer aumento significativo na intensidade da dor ou novos sintomas que possam indicar complicações (Windecker et al., 2014). O manejo da dor pós-procedimento após a angioplastia coronária é uma parte essencial dos cuidados perioperatórios. A combinação de analgésicos conforme necessário, avaliação regular da eficácia do alívio da dor e implementação de medidas não farmacológicas, como posicionamento adequado e técnicas de relaxamento, pode ajudar a garantir o conforto do paciente, promover a recuperação e reduzir o risco de complicações relacionadas à dor. 1.5 Monitorização e Avaliação da Função Renal em Pacientes Submetidos à Angioplastia Coronária A monitorização e avaliação da função renal são aspectos essenciais dos cuidados perioperatórios em pacientes submetidos à angioplastia coronária (AC), especialmente aqueles com fatores de risco pré-existentes para disfunção renal, como idade avançada, diabetes mellitus e insuficiência cardíaca. A disfunção renal é uma complicação comum após a AC e está associada a resultados clínicos adversos, incluindo aumento do risco de eventos cardiovasculares e mortalidade (Rao et al., 2011). Antes do procedimento de AC, é fundamental realizar uma avaliação da função renal para identificar pacientes com risco aumentado de desenvolver disfunção renal pósprocedimento. Isso pode incluir a medição dos níveis séricos de creatinina e a estimativa da taxa de filtração glomerular (TFG) usando equações como a Equação de Cockcroft-Gault ou a Fórmula de MDRD (Modification of Diet in Renal Disease). Além disso, a avaliação de fatores 38 de risco adicionais, como idade avançada, presença de diabetes mellitus e insuficiência cardíaca, é importante para estratificar o risco de disfunção renal (Navaneethan et al., 2012). Durante o procedimento de AC, a monitorização da função renal é realizada para detectar precocemente qualquer alteração nos parâmetros laboratoriais que possa indicar lesão renal aguda. Isso inclui a medição regular dos níveis séricos de creatinina e a avaliação da diurese do paciente. A manutenção de uma hidratação adequada e a minimização do uso de agentes nefrotóxicos, como o contraste iodado, são medidas importantes para prevenir a lesão renal aguda durante o procedimento (Thiele et al., 2012). Após o procedimento de AC, a monitorização da função renal deve ser continuada durante o período de recuperação do paciente. Isso inclui a avaliação regular dos parâmetros laboratoriais, como os níveis séricos de creatinina e a TFG, para detectar qualquer deterioração da função renal. Os pacientes com disfunção renal pré-existente ou aqueles que desenvolvem lesão renal aguda após a AC podem requerer intervenções adicionais, como ajuste de medicações, restrição de líquidos e consulta com um nefrologista para gerenciamento especializado (Mehran et al., 2011). A monitorização e avaliação da função renal são partes essenciais dos cuidados perioperatórios em pacientes submetidos à angioplastia coronária. Essa abordagem multidisciplinar, que inclui avaliação pré-procedimento, monitorização durante o procedimento e acompanhamento pós-procedimento, é fundamental para identificar precocemente a disfunção renal, prevenir complicações e otimizar os resultados clínicos em pacientes de alto risco. 1.6 Coordenação Efetiva da Equipe Multidisciplinar no Cuidado do Paciente Submetido à Angioplastia Coronária A coordenação eficaz entre os membros da equipe multidisciplinar desempenha um papel fundamental na prestação de cuidados de qualidade e na otimização dos resultados para pacientes submetidos à angioplastia coronária (AC). Essa abordagem integrada envolve uma colaboração estreita entre cardiologistas intervencionistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas e assistentes sociais, visando proporcionar uma experiência de cuidado abrangente e personalizada para o paciente (Lopez-Jimenez et al., 2016). Os cardiologistas intervencionistas são responsáveis pela realização do procedimento de AC e pela tomada de decisões clínicas relacionadas ao tratamento cardiovascular do paciente. Eles desempenham um papel central na equipe multidisciplinar, coordenando o plano de cuidados e garantindo uma comunicação eficaz entre os diferentes membros da equipe (Sharma et al., 2019). 39 Os enfermeiros desempenham um papel crucial na coordenação e execução dos cuidados de enfermagem perioperatórios. Eles são responsáveis por fornecer suporte emocional e educacional ao paciente e à família, monitorar os sinais vitais, administrar medicamentos, realizar curativos e fornecer orientações sobre autocuidado e cuidados domiciliares (Alspach & Gross, 2019). Os técnicos de enfermagem desempenham um papel complementar, auxiliando os enfermeiros na execução de tarefas de cuidados diretos, como coleta de amostras de sangue, preparação do paciente para o procedimento, monitorização dos sinais vitais e auxílio nas atividades diárias (Rosdahl & Kowalski, 2017). Os fisioterapeutas desempenham um papel importante no manejo da reabilitação cardíaca e na promoção da mobilidade e independência do paciente após a AC. Eles realizam avaliações físicas, prescrevem exercícios e técnicas de reabilitação e fornecem orientações sobre atividade física segura e modificação do estilo de vida (Anderson et al., 2016). Os assistentes sociais desempenham um papel de suporte ao paciente e à família, fornecendo orientações sobre recursos comunitários, assistência financeira, transporte e apoio psicossocial. Eles ajudam a garantir que o paciente tenha acesso aos serviços necessários para uma recuperação bem-sucedida e uma transição suave para o ambiente domiciliar (American Hospital Association, 2020). Em resumo, a coordenação eficaz entre os membros da equipe multidisciplinar é essencial para garantir uma abordagem integrada no cuidado do paciente submetido à angioplastia coronária. Essa colaboração interprofissional permite uma prestação de cuidados abrangente, personalizada e centrada no paciente, que é fundamental para otimizar os resultados clínicos e promover a recuperação bem-sucedida do paciente após o procedimento. 2. MATERIAIS E MÉTODOS Este estudo se enquadra no escopo de uma revisão da literatura, caracterizada por uma análise detalhada e crítica do impacto da intervenção de enfermagem na prevenção de complicações em pacientes submetidos à angioplastia coronária. A abordagem descritiva e analítica adotada visa proporcionar uma compreensão abrangente do papel dos cuidados de enfermagem nesse contexto específico. A pesquisa foi realizada utilizando diversas fontes de dados eletrônicos, incluindo Google acadêmico bvs e lilacs, abrangendo estudos relevantes publicados até janeiro de 2024. Essa ampla gama de fontes garantiu uma abordagem abrangente na busca por evidências relacionadas à intervenção de enfermagem e angioplastia coronária. 40 A população de interesse incluiu pacientes submetidos à angioplastia coronária em diversos ambientes clínicos, como hospitais universitários, centros de cardiologia e unidades de cuidados intensivos coronarianos. A inclusão de uma variedade de contextos clínicos aumentou a representatividade dos resultados obtidos na revisão. Os critérios de inclusão foram meticulosamente definidos para abranger estudos que investigaram diretamente a intervenção de enfermagem na prevenção de complicações após angioplastia coronária. Por outro lado, estudos que não abordaram diretamente essa intervenção ou não apresentaram resultados pertinentes foram excluídos para manter a precisão e relevância dos achados. A coleta de dados foi realizada por meio de uma busca sistemática nas bases de dados eletrônicas mencionadas, utilizando termos de busca específicos relacionados à intervenção de enfermagem e angioplastia coronária. Essa abordagem garantiu a inclusão de estudos relevantes e a obtenção de uma amostra representativa da literatura disponível. As variáveis selecionadas para análise abrangeram uma ampla gama de aspectos relacionados à intervenção de enfermagem e suas consequências em pacientes submetidos à angioplastia coronária. Isso incluiu desde a monitorização contínua dos sinais vitais até complicações pós-procedimento, como sangramento, disfunção renal e eventos cardiovasculares adversos. A coleta de dados foi conduzida por meio de uma revisão sistemática da literatura, empregando uma metodologia rigorosa para identificação, seleção e análise de estudos relevantes. A aplicação de critérios de inclusão e exclusão foi realizada de forma independente por dois revisores, com resolução de divergências por meio de consenso ou consulta a um terceiro revisor, quando necessário. Os dados coletados foram submetidos a uma análise qualitativa abrangente, envolvendo a síntese dos resultados dos estudos incluídos para identificação de padrões, tendências e lacunas na literatura relacionada à intervenção de enfermagem na prevenção de complicações após angioplastia coronária. Abordagens descritivas e analíticas foram empregadas para interpretar e contextualizar os achados dos estudos revisados. 3. RESULTADOS Os resultados indicam que as intervenções de enfermagem desempenham um papel significativo na prevenção de complicações em pacientes submetidos à angioplastia coronária (AC). Dentre as principais intervenções identificadas, destacam-se a educação do paciente sobre autocuidado e medidas preventivas, a monitorização contínua dos sinais vitais e a identificação precoce de complicações potenciais. 41 Os estudos revisados demonstraram consistentemente que a implementação de protocolos de enfermagem específicos está associada a uma redução significativa no risco de complicações pós-procedimento, como sangramento, disfunção renal e eventos cardiovasculares adversos. Além disso, observou-se uma melhoria na qualidade dos cuidados e nos resultados clínicos dos pacientes quando as intervenções de enfermagem são integradas ao processo de cuidado peri e pós-angioplastia. É importante ressaltar que a colaboração interprofissional e a comunicação eficaz entre enfermeiros, cardiologistas intervencionistas e outros profissionais de saúde são fundamentais para garantir uma abordagem abrangente e integrada no cuidado desses pacientes. A educação do paciente e o envolvimento ativo na tomada de decisões também emergiram como elementos essenciais para otimizar os resultados do tratamento e promover a adesão às medidas preventivas. No entanto, algumas limitações foram identificadas nos estudos revisados, incluindo a heterogeneidade das intervenções de enfermagem relatadas e a falta de padronização nos desfechos avaliados. Portanto, são necessárias pesquisas futuras com metodologias mais rigorosas e abordagens padronizadas para avaliar o impacto das intervenções de enfermagem na prevenção de complicações após a AC, visando fornecer evidências mais robustas e orientar práticas clínicas baseadas em evidências. 4. DISCUSSÃO A discussão do presente artigo aborda os principais achados da revisão sistemática sobre o impacto da intervenção de enfermagem na prevenção de complicações em pacientes submetidos à angioplastia coronária (AC). Os resultados destacam a importância do papel dos enfermeiros na promoção da saúde cardiovascular e na redução de complicações após a AC. As intervenções de enfermagem, como a educação do paciente sobre autocuidado, a monitorização cuidadosa dos sinais vitais e a identificação precoce de complicações potenciais, foram associadas a melhores resultados clínicos e a uma redução significativa no risco de complicações pós-procedimento. Além disso, a discussão aborda a necessidade de uma abordagem multidisciplinar no cuidado de pacientes submetidos à AC, destacando a importância da colaboração entre enfermeiros, cardiologistas intervencionistas, fisioterapeutas e outros profissionais de saúde. Essa abordagem integrada permite uma avaliação abrangente das necessidades do paciente e a implementação de estratégias de cuidado personalizadas, visando otimizar os resultados clínicos e a qualidade de vida. 42 Outro ponto relevante discutido é a importância da educação do paciente e do envolvimento ativo na tomada de decisões relacionadas ao seu tratamento. Os enfermeiros desempenham um papel crucial na educação dos pacientes sobre a AC, seus potenciais riscos e benefícios, bem como sobre as medidas de autocuidado e prevenção de complicações pósprocedimento. Por fim, são discutidas as limitações da revisão, como a heterogeneidade dos estudos incluídos, a falta de padronização nas intervenções de enfermagem relatadas e a possibilidade de viés de publicação. Sugere-se que futuras pesquisas adotem metodologias mais rigorosas e abordagens padronizadas para avaliar o impacto das intervenções de enfermagem na prevenção de complicações após a AC, visando fornecer evidências mais robustas e orientar práticas clínicas baseadas em evidências. 5. CONCLUSÃO A angioplastia coronária (AC) é um procedimento invasivo comum realizado para restaurar o fluxo sanguíneo coronariano em pacientes com doença arterial coronariana. Embora seja geralmente seguro, a AC está associada a riscos significativos de complicações, como sangramento, disfunção renal e eventos cardiovasculares adversos. Neste estudo, realizamos uma revisão sistemática para investigar o impacto das intervenções de enfermagem na prevenção de complicações em pacientes submetidos à AC. Ao longo deste trabalho, foram discutidas teorias e evidências científicas relevantes, com o objetivo de desenvolver uma compreensão abrangente do papel da enfermagem nesse contexto e fornecer insights valiosos para a prática clínica. No desenvolvimento deste estudo, exploramos uma série de intervenções de enfermagem que desempenham um papel crucial na prevenção e manejo de complicações após a AC. A monitorização contínua dos sinais vitais e estado hemodinâmico foi identificada como uma estratégia fundamental para detectar precocemente qualquer sinal de deterioração clínica, permitindo intervenções rápidas e eficazes para prevenir complicações graves. A implementação de protocolos de administração de anticoagulantes e antiagregantes plaquetários foi destacada como uma medida essencial para minimizar o risco de eventos tromboembólicos, garantindo a segurança do paciente durante o período perioperatório e além. Além disso, a educação ao paciente e familiares desempenha um papel crucial na promoção da segurança e recuperação pós-procedimento. Orientações claras sobre os cuidados domiciliares, administração de medicamentos e sinais de alerta de complicações são essenciais para capacitar os pacientes a assumirem um papel ativo em sua própria saúde e promover uma transição suave para o ambiente domiciliar. Por fim, o manejo eficaz da dor pós-procedimento 43 foi identificado como uma parte importante dos cuidados perioperatórios, proporcionando conforto ao paciente e facilitando a recuperação. A coordenação eficaz entre os membros da equipe multidisciplinar também foi destacada como uma chave para o sucesso na prevenção de complicações após a AC. Uma abordagem integrada, envolvendo cardiologistas intervencionistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas e assistentes sociais, é essencial para garantir uma prestação de cuidados abrangente e personalizada. Essa colaboração interprofissional permite uma comunicação eficaz, compartilhamento de conhecimentos e coordenação de cuidados, resultando em melhores resultados para os pacientes. Ao analisar a literatura existente e discutir as contribuições teóricas e práticas relacionadas ao tema, fica evidente que as intervenções de enfermagem desempenham um papel crucial na prevenção de complicações em pacientes submetidos à AC. No entanto, é importante reconhecer que ainda existem lacunas no conhecimento e áreas para futuras pesquisas. Estudos adicionais são necessários para avaliar a eficácia de intervenções específicas, identificar fatores de risco adicionais e desenvolver abordagens inovadoras para melhorar os resultados clínicos e a experiência do paciente. Em conclusão, esta revisão sistemática fornece insights valiosos sobre o papel das intervenções de enfermagem na prevenção de complicações em pacientes submetidos à angioplastia coronária. Ao identificar intervenções eficazes, destacar a importância da coordenação interprofissional e reconhecer áreas para futuras pesquisas, este estudo contribui para o avanço da prática clínica baseada em evidências e para a melhoria dos resultados para os pacientes submetidos a esse procedimento crucial. REFERÊNCIAS Alfonso, F., Pérez-Vizcayno, M. J., & García, L. (2010). Coronary artery stents. Revista Española de Cardiologia (English Edition), 63(4), 446-462. Alspach, J. G., & Gross, K. H. (2019). Enfermagem cardíaca: Um guia abrangente. Springer Publishing Company. American Heart Association. (2017). Doença cardiovascular: Um fardo custoso para a América - Projeções até 2035. American Heart Association. (2020). Heart attack and angina symptoms. Recuperado de https://www.heart.org/en/health-topics/heart-attack/heart-attack-symptoms-and-warning-signs American Hospital Association. (2020). 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J., Nikolsky, E., Clayton, T., Dangas, G 45 CAPÍTULO 4 LIPOENXERTIA NA CIRURGIA PLÁSTICA: CONCEITO, FUNÇÕES, COMPLICAÇÕES E IMPACTOS NA QUALIDADE DE VIDA FAT GRAFTING IN PLASTIC SURGERY: CONCEPT, FUNCTIONS, COMPLICATIONS AND IMPACTS ON QUALITY OF LIFE 10.56161/sci.ed.20240415c4 Sirilo Antonio Dal Castel Júnior Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG) https://orcid.org/0009-0001-8449-8349 Ana Beatriz Silveira De Andrade Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG) https://orcid.org/0009-0003-3657-5703 Arthur Saldanha Guimarães Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG) https://orcid.org/0009-0008-4316-3295 Eduarda Martins Carvalho Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG) https://orcid.org/0009-0004-6404-1917 Gabriel Caetano Diniz Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG) https://orcid.org/0009-0007-0531-2942 Gabriela Luz Castelo Branco De Souza Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG) https://orcid.org/0009-0008-5629-9802 Laura Stival Dias Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG) https://orcid.org/0009-0003-6405-2715 Thaynne Hayssa França Barbosa 46 Residente em Cirurgia Plástica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás https://orcid.org/0000-0002-5186-6467 RESUMO INTRODUÇÃO: A lipoenxertia, usada desde 1800 para reconstrução mamária e facial, enfrentou desafios de reabsorção e sobrevivência do enxerto. A técnica, que auxilia na reparação de tecidos moles, ganhou popularidade nos anos 80 e é amplamente utilizada em procedimentos estéticos. É crucial entender as técnicas, fatores de sucesso, complicações e impacto na qualidade de vida dos pacientes.Objetivo: explorar a técnica da lipoenxertia, seu conceito, história, complicações e impacto na qualidade de vida. OBJETIVO: explorar a técnica da lipoenxertia, seu conceito, história, complicações e impacto na qualidade de vida. METODOLOGIA: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura sobre o uso do enxerto autólogo de gordura em cirurgias plásticas. Os artigos foram pesquisados utilizando as seguintes bases de dados: MEDLINE, Cochrane, EmBase e Scielo. Utilizou-se os seguintes descritores, juntamente com os operadores booleanos: (“autologous fat transfer” OR lipofilling OR “fat grafting”) AND (“plastic surgery” OR “reconstructive surgery”) AND (gluteal OR facial OR breast OR complications). Os critérios de inclusão abrangeram artigos publicados nos últimos 20 anos, nos idiomas português ou inglês, e que abordassem o histórico, técnica cirúrgica, resultados clínicos, impactos na qualidade de vida e complicações da lipoenxertia. Após a leitura dos artigos na íntegra, foram incluídos neste estudo 22 artigos. RESULTADOS E DISCUSSÃO: houve grande evolução na técnica de lipoenxertia nas últimas duas décadas, com melhoras na lipoaspiração, tratamento do material e injeção. Essas funções são aplicadas tanto na cirurgia plástica reparadora, com a melhora de cicatrizes de queimaduras e reconstrução mamária, quanto na cirurgia estética de glúteo, mama e face. As complicações do procedimento são raras, sendo mais prevalente nas cirurgias de nádegas e mamas e podendo haver assimetrias, formação de cistos ou hematomas, perfuração de vísceras, infecções e embolias. CONCLUSÕES: a lipoenxertia é uma técnica amplamente aceita que possuirá protagonismo nas cirurgias plásticas de remodelamento de tecidos moles. PALAVRAS-CHAVE: cirurgia plástica; qualidade de vida; tecido adiposo. ABSTRACT Introduction: Lipofilling, used since 1800 for breast and facial reconstruction, faced challenges of reabsorption and graft survival. The technique, which aids in the repair of soft tissues, gained popularity in the 80s and is widely used in aesthetic procedures. It is crucial to understand the techniques, success factors, complications, and impact on patients’ quality of life.Objective: to explore the fat grafting technique, its concept, history, complications and impact on quality of life. Methodology: This is an integrative literature review on the use of autologous fat grafting (lipofilling) in both aesthetic and reconstructive plastic surgeries. The articles were researched using the following databases: MEDLINE, Cochrane, EmBase, and Scielo. The following descriptors were used, along with boolean operators: (“autologous fat transfer” OR lipofilling OR “fat grafting”) AND (“plastic surgery” OR “reconstructive surgery”) AND (gluteal OR facial OR breast OR complications). The inclusion criteria covered articles published in the last 20 years, in portuguese or english, and that addressed the history, surgical technique, clinical results, impacts on quality of life, and complications of lipofilling. After reading the articles in full, 22 articles were included in this study. Results and discussion: there has been great evolution in the fat grafting technique in the last two decades, with improvements in liposuction, material treatment and injection. These functions are applied both in reconstructive plastic surgery, with the improvement of burn scars and breast reconstruction, 47 and in aesthetic surgery of the buttocks, breasts and face. Complications of the procedure are rare, being more prevalent in buttocks and breast surgeries and there may be asymmetries, formation of cysts or hematomas, perforation of viscera, infections and embolisms.Conclusions: fat grafting is a widely accepted technique that will play a leading role in plastic surgeries for soft tissue remodeling. KEYWORDS: adipose tissue; plastic surgery; quality of life. 1 INTRODUÇÃO A técnica de lipoenxertia é relatada desde 1800 quando cirurgiões utilizavam para reconstrução mamária, correção de perda de volume facial no envelhecimento e até mesmo para mudar a aparência de espiões durante a Segunda Guerra Mundial. Foi documentado em 1893 o sucesso da técnica para pequenas áreas (Dayal et al., 2021). Por outro lado, apesar de ser uma técnica muito utilizada nos dias atuais, a lipoenxertia não era amplamente aceita até a década dos anos 80. Estudos iniciais demonstraram resultados positivos no uso da lipoenxertia para a reconstrução facial e mamária, porém logo em seguida apresentou problemas relacionados à reabsorção da gordura (Strong et al., 2015). Outro problema historicamente associado à lipoenxertia diz respeito a imprevisibilidade da sobrevivência do enxerto de gordura, o que incitou que cirurgiões e cientistas a otimizar cada etapa do procedimento, incluindo a seleção do local para retirada, processamento e injeção (Dayal et al., 2021). A técnica voltou a se tornar popular no início da década de 80, após ter sido demonstrado seus benefícios a longo prazo (Strong et al., 2015). Acredita-se que o enxerto de gordura ajuda a iniciar um processo bioquímico responsável pela reparação dos tecidos moles, usualmente pouco vascularizados, sendo a lipoenxertia responsável por induzir efeito vasculogênico (Evans et al., 2020). Dessa forma, a lipoenxertia é útil para o tratamento de patologias dos tecidos moles, preenchimento de áreas e cicatrização de feridas. Pensando em procedimentos estéticos, nos últimos anos houve um aumento na demanda principalmente por pacientes jovens em busca de intervenções cosméticas. Nessa perspectiva, a busca por rejuvenescimento facial é relevante em vista da ascensão de selfies e das mídias sociais (Dayal et al., 2021). Sendo assim, por se tratar de um procedimento amplamente utilizado e o aumento da busca por procedimentos estéticos, é fundamental aprofundar o conhecimento sobre as técnicas envolvidas, os fatores que contribuem para o sucesso ou insucesso do procedimento e as potenciais complicações associadas. Dessa forma, esse trabalho objetiva abranger as principais 48 técnicas, suas funções e complicações e o impacto da lipoenxertia na qualidade de vida dos pacientes. 2 METODOLOGIA Trata-se de uma revisão integrativa da literatura. Objetivou-se analisar as utilizações do enxerto autólogo de gordura (lipoenxertia) em pacientes submetidos a cirurgias plásticas, bem como suas vantagens, limitações e complicações. Os artigos científicos utilizados como base para este trabalho foram selecionados por meio das bases de dados MEDLINE, via PubMed, Cochrane Library, Elsevier, via EmBase e Scielo, empregando os operadores booleanos “AND” e “OR” e utilizando os descritores infracitados. Buscamos ampliar a pesquisa para abranger revisões bibliográficas e áreas de atuação da medicina tanto estética como reparadora. Os descritores usados na pesquisa buscaram nos títulos os seguintes elementos: (“autologous fat transfer” OR lipofilling OR “fat grafting”) AND (“plastic surgery” OR “reconstructive surgery”) AND (gluteal OR facial OR breast OR complications). As duplicatas encontradas foram excluídas por meio do software de auxílio de seleção de artigos científicos Rayyan. Data da pesquisa: 19 de novembro de 2023. Tendo em vista os critérios de elegibilidade, foram incluídos os artigos com as seguintes características: 1) Artigos publicados nos últimos 20 anos; 2) Artigos cujo idioma original é o português ou inglês; 3) Cita o histórico, descrição de técnica cirúrgica, resultados clínicos, impactos na qualidade de vida ou possíveis complicações da lipoenxertia. Excluímos artigos incompletos ou cujo método tratava-se de uma revisão narrativa de literatura. Após a leitura dos artigos na íntegra, com intuito de sintetizar as conclusões dos diversos estudos e facilitar a compreensão global do tema, foram incluídos neste estudo 22 artigos. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO A lipoenxertia, ou enxerto autólogo de gordura, envolve a extração de gordura de uma região doadora por meio de lipoaspiração, seguida da re-inserção desse tecido em uma área receptora utilizando seringas e cânulas. Essa técnica é frequentemente utilizada para preenchimento, definição ou aumento de volume em várias partes do corpo, tanto na cirurgia plástica estética, quanto reparadora (Schroeder et al., 2022). Dentre as possíveis aplicações do lipoenxerto, valem ressaltar o uso na cirurgia estética das mamas, face, glúteo e mãos, juntamente com o uso nas cirurgias reconstrutoras de pacientes queimados, na correção de cicatrizes, reconstrução mamária, e na radiodermatite. 49 3.1 RESULTADOS 3.1.1 CIRURGIA PLÁSTICA REPARADORA 3.1.1.1 RECONSTRUÇÃO MAMÁRIA O uso do enxerto autólogo de gordura continua ganhando popularidade como uma opção de reconstrução mamária para pacientes elegíveis, uma vez que pode resultar em uma mama com aparência natural e sensação macia (Kanchwala et al., 2009). Enquanto volumes menores de injeção de gordura são adequados para correção de irregularidades de contorno menores, quantidades maiores de injeção oferecem alternativas poderosas aos meios convencionais de reconstrução completa da mama (Khouri et al., 2017). Destaca-se também que o uso do enxerto de gordura autóloga no contexto da reconstrução mamária vai além da recriação ou remodelagem da mama. As aplicações terapêuticas propostas incluem o tratamento da síndrome de dor pós-mastectomia, dor de contratura capsular e fibrose de tecido irradiado (Turner et al., 2020). Figura 1: Reconstrução mamária (acima, esquerda) em mulher de 38 anos após mastectomia bilateral e irradiação em mama esquerda. Em ordem, antes da realização do lipoenxerto (acima, direita), 3 meses após (abaixo, esquerda), 6 meses após (abaixo, centro), e 1 ano após (abaixo, direita). Fonte: adaptado de Khouri, R. K., Jr, & Khouri, R. K. (2017). 3.1.1.2 CICATRIZES, FIBROSES E QUEIMADOS Pacientes com cicatrizes retráteis e dolorosas que comprometem a atividade diária normal/mobilidade da articulação afetada podem se beneficiar do tratamento com gordura autóloga. Na verdade, o lipoenxerto pode ser usado não apenas para preencher cicatrizes atróficas, mas também para reduzir a contratura da cicatriz como uma alternativa regenerativa a outras técnicas cirúrgicas (Khouri et al., 2013). A lipoenxertia é uma alternativa de preenchimento de tecidos moles para a fibrose. O preenchimento de gordura criterioso transforma a cicatriz fibrosa em uma matriz receptora. O 50 que antes era uma cicatriz fibrosa densa se torna um suporte fibroso frouxo para enxertos de gordura (Khouri et al., 2017). Além disso, o uso de células-tronco pela medicina regenerativa, tem se tornado uma terapia eficiente, com baixa morbidade e alta qualidade para cobertura da pele em queimaduras, principalmente devido à regeneração dos anexos da pele e pelo risco mínimo de desenvolvimento de cicatrizes hipertróficas (Jones et al., 2002). Figura 2: Contratura palmar (acima) e 1 ano após (abaixo) aponeurotomia percutânea e lipoenxerto. Fonte: Khouri, R. K., Jr, & Khouri, R. K. (2017). 3.1.1.3 RADIODERMATITE A radiação mata células cancerígenas, mas também elimina as células-tronco derivadas do tecido adiposo, responsáveis pela manutenção do tecido e capacidade de enxerto. A gordura obtida por lipoaspiração é rica em células-tronco derivadas do tecido adiposo. Embora seja inicialmente difícil de realizar o lipoenxerto devido ao ambiente hostil, o pequeno enxerto que se fixa na primeira aplicação de gordura autóloga facilita a aceitação de mais enxertos nas aplicações seguintes. A partir desse ponto, a vantagem é exponencial, com mais enxertos tornando o tecido mais rico em células normais e mais semelhante ao tecido não irradiado (Khouri et al., 2017). 3.1.2 CIRURGIA PLÁSTICA ESTÉTICA 3.1.2.1 GLÚTEOS Com o aumento significativo no número de procedimentos de enxerto de gordura, o preenchimento glúteo com gordura tornou-se cada vez mais popular e uma preferência de muitos cirurgiões e pacientes, devido à facilidade da técnica, recuperação rápida e resultados excelentes. Para muitos pacientes magros, a lipoenxertia glútea não é uma opção devido à falta 51 de tecido doador, fazendo de indivíduos discretamente acima do peso, porém em boa saúde, candidatos ideais (Condé-Green et al., 2016). Ressalta-se o risco de embolia gordurosa, uma vez que a região glútea possui vasos sanguíneos calibrosos, sendo recomendado, dessa maneira, para reduzir riscos, nunca injetar a gordura na musculatura, utilizar uma cânula de 5 mm ou maior e injetar em um ângulo agudo em relação à pele. Figura 3: Comparativo de antes (A) e 7 meses após (B) realização de lipoenxertia em glúteos. Fonte: adaptado de Shauly, Orr et al. (2022). 3.1.2.2 MAMA Um dos locais mais comuns para lipoenxertia é a mama, onde a gordura é injetada no espaço subcutâneo e no plano pré-peitoral, e também diretamente no tecido mamário em si. Dentro do campo da cirurgia estética de mama, a enxertia de gordura tem diversas aplicações, como a redução da distância entre as mamas, por meio da lipoenxertia na região medial do peito (Serra-Mestre et al., 2017), e a correção de assimetria mamária significativa para adicionar volume à mama subdesenvolvida (Delay et al., 2013). Faz-se necessário evidenciar que embora não haja evidências de aumento na incidência de câncer, ainda não está claro quanto da gordura é absorvida após o enxerto e se existe um risco potencial de estimulação de células tumorais “dormentes” locais para induzir uma recorrência local. A segurança dessa técnica é amplamente estudada, e até o momento, não foi demonstrado que a enxertia de gordura para a mama aumenta o risco de transformação maligna. No entanto, é importante continuar monitorando e pesquisando para entender completamente os efeitos a longo prazo (Shauly et al., 2021). 52 Figura 4: Comparativo de antes (A) e 6 meses após (B) realização de lipoenxertia mamária. Fonte: Shauly, Orr et al. (2022). 3.1.2.3 FACE O enxerto de gordura facial é frequentemente realizado como um complemento aos procedimentos de lifting facial. A gordura é colocada entre o espaço do tecido areolar frouxo e os ligamentos retentores, podendo ser utilizada para melhorar os resultados por meio de uma técnica de levantamento seguido de preenchimento, ou vice-versa (Shauly et al., 2021). Para deformidades no contorno facial, a lipoenxertia não apenas pode ser usada sozinha para preencher depressões locais, mas também pode ser combinada com outros materiais rígidos para remodelar áreas extensas e tratar deformidades graves (Qiao et al., 2017). A gordura autóloga também contribui significativamente para o rejuvenescimento facial e melhora da aparência (Coleman et al., 2006). Ela pode corrigir o volume de gordura perdido em rostos envelhecidos e realçar o contorno tridimensional do rosto (Lv et al., 2020). Figura 5: Comparativo de antes (A) e 6 meses após (B) realização de lipoenxertia facial. Fonte: Shauly, Orr et al. (2022). 3.1.3 COMPLICAÇÕES A lipoenxertia possui um pequeno percentual de complicações, incluindo reações locais e sistêmicas, tanto relacionadas com o processo da lipoaspiração, quanto com o processo da lipoenxertia em si (Schroeder et al., 2022). Dentre os efeitos adversos locais mais comuns, estão as irregularidades e assimetrias pós-procedimento, necrose de gordura e formação de cistos de gordura, infecção local, hematomas, seromas, hiperpigmentação, edema prolongado, equimoses, reabsorção ou proliferação do tecido gorduroso, entre outras (Nakada et al., 2018). As complicações sistêmicas incluem as perfurações de vísceras ou vasos durante a lipoaspiração, embolia gordurosa e síndrome da embolia gordurosa, além de eventos, que 53 podem estar associados a qualquer procedimento cirúrgico, como reações de hipersensibilidade a medicações, infecções, tromboembolismos, dentre outros (Franco et al., 2011). Um estudo analisou o Registro Geral de Transferência Autóloga de Gordura (GRAFT), registro acessível pela web criado pela Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (ASPS) e a Fundação de Cirurgia Plástica (PSF), em 2015, com objetivo de determinar as taxas de resultados desfavoráveis (complicações) do enxerto de gordura. foram incluídos 7052 procedimentos de lipoenxertia (Kaur et al., 2023). Embora a taxa geral de complicações tenha sido baixa (5,01%), as taxas de complicações para o enxerto de gordura nas mamas e nádegas foram mais altas do que aquelas para o rosto e outras áreas. Especificamente: ● Enxerto de gordura nas mamas: 2,68% de cistos de gordura e 1,64% de infecções foram as complicações mais comuns, ● Enxerto de gordura nas nádegas: 1,84% de seromas e 1,33% de massa palpável foram as complicações mais frequentes, ● Enxerto de gordura no rosto: 0,54% de massa palpável e 0,54% de infecções foram as mais comuns. Figura 6: Taxas de complicações por região de enxerto autólogo de gordura. Fonte: Kaur, Surinder et al. (2022) 54 Figura 7: Taxas de incidência de tipos de complicações por local de lipoenxertia. Fonte: Kaur, Surinder et al. (2022). 3.2 DISCUSSÃO A enxertia de gordura é amplamente aceita como um excelente método para preenchimento de tecidos moles, tendo em vista que os enxertos de gordura são biocompatíveis, não alergênicos, não tóxicos, fáceis de obter e sinérgicos com a pele natural. Essa técnica tem um grande histórico, desde Neuber em 1893, que a relatou pela primeira vez; até Illouz, que pioneiramente desenvolveu a liposucção na década de 1980; até os dias atuais, onde Coleman demonstrou técnicas para a estabilidade de enxertos de gordura a longo prazo. Novas tecnologias estão sendo introduzidas para apoiar os esforços clínicos relacionados à enxertia de gordura (Sinno et al., 2016). A enxertia de gordura por meio de uma cânula romba tem sido utilizada por cirurgiões plásticos para alterar os contornos faciais há quase 100 anos. O tecido autólogo é completamente biocompatível, sendo, portanto, geralmente a escolha mais segura para alterar o volume ou contornos corporais. Além disso, os enxertos de gordura podem ser colocados de forma que sejam duradouros, totalmente integrados e com aparência natural. Entretanto, somente nos últimos 20 anos, avanços em técnicas e instrumentação nos permitiram obter resultados previsíveis, tornando a enxertia de gordura uma opção viável para aumento de tecido mole (Coleman et al., 2006). No entanto, enxertia de gordura tem sido criticada por apresentar duração dos enxertos amplamente inconsistente e resultados aparentemente dependentes do cirurgião. A variedade de técnicas para colheita, processamento e injeção provavelmente é a razão para as diferenças 55 no tempo de sobrevivência dos enxertos. Além disso, outra desvantagem significativa da lipoenxertia é que os pacientes precisam passar por várias sessões antes que o resultado final possa ser alcançado, um fator que às vezes desanima os pacientes. (Illouz et al., 2009). Outra limitação é a necessidade de infiltrar células em contato direto com tecidos bem vascularizados (Ferraro et al., 2010). Além disso, lipoenxertia apresenta uma baixa incidência de complicações, que podem estar relacionadas ao processo de lipoaspiração e ao próprio procedimento de lipoenxertia, como assimetrias pós-procedimento, cistos de gordura, infecção local, embolia gordurosa, dentre outros. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A lipoenxertia emerge como uma técnica cirúrgica propícia a diversas intervenções, tanto de natureza reparadoras quanto estéticas, capaz de obter bons resultados em variadas regiões corpóreas. Apesar das possíveis complicações tanto da lipoaspiração quanto da enxertia de gordura, a praticidade da realização do procedimento, amplitude de aplicações da técnica, e o sucesso do uso dessa modalidade corroboram para que a lipoenxertia tenha protagonismo no cenário cotidiano do cuidado em saúde. Entretanto, é necessária uma avaliação criteriosa por parte do profissional cirurgião para a decisão personalizada entre lipoenxertia ou outra técnica, buscando sempre a saúde, a funcionalidade do órgão reparado e estética corporal. Além disso, é crucial prestar o devido esclarecimento ao paciente para possibilitar a escolha da conduta terapêutica de forma conjunta e embasada. REFERÊNCIAS COLEMAN, S. R. Facial Augmentation With Structural Fat Grafting. Clinics in Plastic Surgery, v. 33, n. 4, p. 567–577, out. 2006. CONDÉ-GREEN, A. et al. Fat Grafting for Gluteal Augmentation: A Systematic Review of the Literature and Meta-Analysis. 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Desse modo, na cirurgia plástica há o emprego cada vez maior de técnicas da medicina regenerativa para que se recriem tecidos a partir de célulastronco, principalmente para remoldar ou preencher partes do corpo. Nesse âmbito, as célulastronco derivadas dos adipócitos são pluripotentes e mesenquimais, usadas cada vez mais por essa especialidade cirúrgica. Esse trabalho visa analisar a utilização e manejo das células-tronco na especialidade da cirurgia plástica, contemplando o âmbito reconstrutivo. Metodologia: Os dados foram coletados na base PubMed com os seguintes descritores: ”surgery, plastic”, “wounds and injuries”, “stem cells” e “regeneration”, ligados pelo operador booleano “AND”. 59 A busca resultou em 40 artigos, dos quais 13 foram selecionados. Resultados e discussão: As células-tronco têm sido utilizadas na medicina regenerativa, devido à sua capacidade única de se diferenciar em diferentes tipos celulares. Atualmente, essas células estão principalmente envolvidas na facilitação da cicatrização de feridas da pele através da função parácrina de múltiplos fatores, suporte trófico, ação anti-inflamatória e imunomodulação. As células-tronco mesenquimais (MSCs) são uma excelente alternativa para estimular a cicatrização de feridas agudas e crônicas. Já as células-tronco derivadas do tecido adiposo (ADSCs) estão sendo cada vez mais exploradas na cirurgia plástica reconstrutiva. Conclusão: Pacientes com cicatrizes retráteis e dolorosas, o uso das ADSCs por meio da lipoenxertia demonstrou ser uma terapia eficiente. Apesar das células-tronco do cordão umbilical e da placenta apresentarem diversas maneiras no tratamento de feridas e serem eficazes na melhoria da cicatrização, o seu processo de aquisição ainda dificulta o uso generalizado dessas. As células estromais derivadas da medula óssea (BM-MSCs) apresentaram uma eficácia terapêutica potencial na regeneração cutânea humana. PALAVRAS-CHAVE: Células-tronco adultas; cirurgia plástica; regeneração. ABSTRACT Introduction: Stem cells are special categories of cells in which there is no cellular differentiation, that is, they have the ability to proliferate extensively and can differentiate into different types of cells and tissues. Thus, in plastic surgery there is an increasing use of regenerative medicine techniques to recreate tissues from stem cells, mainly to reshape or fill parts of the body. In this context, stem cells derived from adipocytes are pluripotent and mesenchymal, increasingly used by this surgical specialty. This work aims to analyze the use and management of stem cells in the specialty of plastic surgery, covering the reconstructive scope. Methodology: Data were collected in the PubMed database with the following descriptors: ”surgery, plastic”, “wounds and injuries”, “stem cells” and “regeneration”, linked by the Boolean operator “AND”. The search resulted in 40 articles, of which 13 were selected. Results and discussion: Stem cells have been used in regenerative medicine due to their unique ability to differentiate into different cell types. Currently, these cells are mainly involved in facilitating skin wound healing through the paracrine function of multiple factors, trophic support, anti-inflammatory action and immunomodulation. Mesenchymal stem cells (MSCs) are an excellent alternative to stimulate the healing of acute and chronic wounds. Adipose tissue-derived stem cells (ADSCs) are increasingly being explored in reconstructive plastic surgery. Conclusion: For patients with retractile and painful scars, the use of ADSCs through fat grafting has proven to be an efficient therapy. Although stem cells from the umbilical cord and placenta have several ways of treating wounds and are effective in improving healing, their acquisition process still makes the widespread use of these cells difficult. Bone marrow-derived stromal cells (BM-MSCs) have shown potential therapeutic efficacy in human skin regeneration. KEYWORDS: Adult Stem Cells; surgery, plastic; regeneration. 60 1. INTRODUÇÃO Células-tronco são categorias especiais de células em que não há diferenciação celular, isto é, tem a capacidade de se proliferarem de maneira extensa, normalmente partindo de uma única célula capaz de produzir clones, que podem se diferenciar em diferentes tipos de células e tecidos. Existem alguns tipos de células-tronco, entre elas as pluripotentes, que podem se diferenciar em qualquer camada germinativa (endo, meso ou ectoderme), as multipotentes que se diferenciam somente em uma camada germinativa e as oligopotentes que possuem uma diferenciação limitada a depender do tecido de origem delas.(Kolios; Moodley, 2013). Sendo assim, sabendo desse potencial de diferenciação das células-tronco, cogita-se constantemente que isso seja usado no reparo de tecidos doentes, no entanto, ainda carece de estudos para que isso seja viável em larga escala, ademais, há ainda conflitos éticos principalmente na obtenção de células-tronco embrionárias (Kolios; Moodley, 2013). Todavia, mesmo com tais limitações, a medicina regenerativa, assim chamada quando há o uso de células-tronco, avança na direção do entendimento mais profundo da fisiopatologia de doenças, não obstante, não se limita a isso e se arrisca em tratamentos de algumas doenças e podendo ser usadas desde reparos de defeitos anatômicos até mesmo para o tratamento do câncer, da diabetes e de doenças cardiovasculares (Sarkar et al., 2021). Desse modo, na cirurgia plástica há o emprego cada vez maior de técnicas da medicina regenerativa para que se recriem tecidos a partir de células-tronco, principalmente para remoldar ou preencher partes do corpo. Nesse âmbito, as célulastronco derivadas dos adipócitos são pluripotentes e mesenquimais, usadas cada vez mais por essa especialidade cirúrgica, principalmente pelo amplo contato dela com a retirada e enxertos de gordura para remodelamento corporal através da lipoescultura, entre outras técnicas cirúrgicas. Não somente, a cirurgia plástica tem usado cada vez mais essas técnicas na reconstrução de feridas e no reestabelecimento funcional reconstrutivo e não somente estético, tendo suas conquistas e desafios nessa área. (Agrawal et al., 2019). Assim, esse trabalho visa explorar o contexto específico da utilização e manejo das células-tronco na especialidade da cirurgia plástica, contemplando principalmente o seu âmbito reconstrutivo a despeito da parte estética. 61 2. MATERIAIS E MÉTODOS Trata-se de uma revisão integrativa da literatura na qual utilizou-se o repositório de dados do PubMed para realização da pesquisa. Os descritores escolhidos foram:” surgery, plastic”, “wounds and injuries”, “stem cells” e “regeneration”, sendo todos combinados com o operador booleano “AND”. Ademais, o intervalo de tempo de 2014 a 2024, a gratuidade dos textos e o idioma inglês foram critérios de seleção dos textos. Inicialmente, foram encontrados 40 artigos, sendo excluídos os trabalhos que não se encaixavam em revisão ou revisão sistemática e que não discutiam o uso de células tronco na regeneração de feridas em cirurgia plástica. Dessa maneira, foram selecionados 13 artigos que abordavam melhor a temática, seguida de leitura completa dos trabalhos para extração de dados 3. RESULTADOS 3.1- Conceito As células-tronco são células que possuem o potencial de diferenciar-se em diversos tipos celulares, dependendo de quão especializadas elas são . Com base nisso, as células-tronco podem ser classificadas de acordo com seu alcance de potencial de diferenciação. Células-tronco totipotentes podem se diferenciar em todos os tipos de células, elas têm a capacidade de formar estruturas embrionárias e extra embrionárias, como a placenta. Células-tronco pluripotentes, assim como as células-tronco embrionárias, podem formar células somáticas e da linhagem germinal. Já as célulastronco multipotentes, por sua vez, podem se diferenciar em tipos celulares específicos, especialmente em tecidos ou órgãos específicos, exemplos incluem as células-tronco hematopoéticas (HSCs), as células progenitoras endoteliais (EPCs) e as células-tronco mesenquimais (MSCs). As células-tronco têm sido amplamente utilizadas na medicina regenerativa, devido à sua capacidade única de se diferenciar em diferentes tipos celulares . No entanto, questões éticas envolvendo células-tronco totipotentes e pluripotentes levaram às MSCs (células-tronco mesenquimais) a se tornarem populares para pesquisas. 62 Principais fontes de células tronco utilizadas na bioengenharia. Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9737138/pdf/ijms-23-15339.pdf 3.2- Células-tronco mesenquimais (MSCs) As células-tronco mesenquimais (MSCs) são células-tronco multipotentes com capacidade de auto-renovação, potencial de diferenciação multidirecional e regulação parácrina. Além das MSCs na medula óssea, as MSCs também estão presentes em tecido adiposo (ADSCs), medula óssea (BM-MSCs), placenta, cordão umbilical, vários órgãos e outros tecidos. Devido a seu fácil isolamento, expansão in vitro e multipotência, as MSCs têm sido reconhecidas como uma importante fonte de células-tronco no campo da medicina regenerativa, incluindo a reparação de tecidos, sobretudo na remodelação da pele, vascularização de tecidos, regeneração de tecidos moles, reparo de ossos e cartilagens, rejuvenescimento de múltiplos tecidos e regeneração de folículos capilares. Atualmente, as células-tronco estão principalmente envolvidas na facilitação da cicatrização de feridas da pele através da função parácrina de múltiplos fatores, suporte trófico, ação anti-inflamatória, imunomodulação, a partir de citocinas como fator de crescimento do endotélio vascular (VEGF), fator de transformação do crescimento-β1 (TGF-β1), interleucina-6 (IL-6) e interleucina-10 (IL-10), dentre outros, além de atividade antiapoptótica, capacidade de diferenciação e quimiotaxia. 3.2.1- Células estromais derivadas de tecido adiposo (ADSCs) 63 As células tronco derivadas de tecido adiposo (ADSCs) são altamente heterogêneas e contêm uma variedade de outros tipos de células, incluindo células endoteliais, pericitos, fibroblastos, leucócitos, células-tronco hematopoiéticas e células progenitoras endoteliais. A área mais notável da cirurgia reconstrutiva onde as ADSCs podem ser aplicáveis é no enxerto de gordura autóloga (lipoenxertia), técnica popular para aprimoramento de tecidos moles em todo o corpo. Pacientes com cicatrizes retráteis e dolorosas que comprometem a atividade diária normal/mobilidade da articulação afetada podem se beneficiar do tratamento com gordura autóloga. O preenchimento de gordura criterioso transforma a cicatriz fibrosa em uma matriz receptora. O que antes era uma cicatriz fibrosa densa se torna um suporte fibroso frouxo para enxertos de gordura. Dessa forma, o uso de células-tronco advindas do tecido adiposo pela medicina regenerativa, tem se tornado uma terapia eficiente, com baixa morbidade e alta qualidade para cobertura da pele, sobretudo em queimaduras, principalmente devido à regeneração dos anexos da pele e pelo risco mínimo de desenvolvimento de cicatrizes hipertróficas. ADSCs no lipoenxerto atuam através da diferenciação adipogênica, regulação parácrina da angiogênese e suporte vascular direto. Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5567606/pdf/ten.teb.2016.0455.pdf 3.2.2- Células estromais derivadas da placenta e cordão umbilical A aquisição de células-tronco do cordão umbilical e da placenta não é dolorosa e pode ser realizada após a dequitação da placenta. Essas células-tronco podem ser 64 utilizadas de diversas maneiras no tratamento de feridas: aplicação tópica, injeções na ferida e administração intravascular. Um estudo mostrou que células-tronco mesenquimais do âmnio humano, quando injetadas subcutaneamente em queimaduras, reduziram a apoptose induzida por estresse térmico e estimularam a proliferação de fibroblastos dérmicos e queratinócitos. As células-tronco do cordão umbilical e da placenta foram relatadas como eficazes na melhoria da cicatrização de feridas. O processo de aquisição, a partir de doadores voluntários saudáveis, pode dificultar o uso generalizado dessas células em um número maior de pacientes. 3.2.3- Células estromais derivadas da medula óssea (BM-MSCs) As MSCs derivadas da medula óssea (BM-MSCs) são normalmente colhidas de humanos por aspiração da crista ilíaca, seguida de seleção in vitro com base em sua capacidade de aderir a uma placa de cultura. As células podem então ser expandidas em cultura e aplicadas topicamente em feridas para promover a regeneração do tecido. Ensaios clínicos confirmaram ainda mais a eficácia terapêutica potencial das BM-MSCs na regeneração cutânea humana. Um estudo com pacientes humanos com úlceras crônicas nas pernas resistentes ao tratamento convencional por pelo menos 1 ano mostrou que a aplicação de BM-MSCs autólogas impregnadas em uma matriz de colágeno levou à redução do tamanho da ferida, aumento da vascularização e aumento da espessura dérmica. Pouca ou nenhuma rejeição foi observada após a transplantação de BM-MSCs alogênicas. 3.3- Mecanismos de ação das células tronco mesenquimais na regeneração de feridas As MSCs podem exercer seus efeitos de várias maneiras, uma das quais é mobilizando-se para o local da lesão. Evidências disso foram vistas em dois modelos separados de feridas em ratos, onde a migração de MSCs derivadas da medula óssea (BMMSCs) para o local da ferida foi rastreada após administração intravenosa. Esse tipo de migração e recrutamento de MSCs é baseado em seu diversificado perfil de expressão de receptores de quimiocinas que promovem a quimiotaxia. Além disso, as MSCs expressam e secretam fatores paracrinos que podem ativar mecanismos de reparo e regeneração e melhorar a sobrevivência celular. 65 Os efeitos parácrinos também foram observados a partir de resultados in vivo, onde a administração de células-tronco derivadas de tecido adiposo humano (ADSCs) em cicatrizes de ratos com feridas de queimaduras de terceiro grau resultou na detecção de marcadores de adipogênese e adipócitos maduros no leito da ferida. Foi proposto que as ADSCs humanas estavam exercendo seu efeito induzindo a adipogênese de novo. Além disso, as MSCs podem secretar citocinas e fatores de crescimento, promover a reconstrução da matriz extracelular (ECM), angiogênese, neovascularização e modular a resposta imune. Células-tronco também podem contribuir para a formação de ECM na reparação de feridas através da deposição de colágeno. A promoção da vasculogênese e da angiogênese ocorre pela capacidade das MSCs de regularem fatores de crescimento e citocinas, a partir da liberação de moléculas pró-angiogênicas, como VEGF, HGF, bFGF, TGF-β e IGF-1 em níveis bioativos em cultura. Feridas resultam na liberação de várias citocinas inflamatórias que podem levar à inflamação sistêmica, que associada ao hipercatabolismo e ao desperdício de proteínas, pode progredir para insuficiência de múltiplos órgãos, sepse e até mesmo morte. Modular a resposta inflamatória é um aspecto importante do cuidado com o paciente. As MSCs podem atenuar essa resposta inflamatória regulando o perfil de citocinas pós-lesões, bem como controlando a população de células no local da lesão. 66 Mecanismos de atuação de células-tronco mesenquimais (MSCs) para reparo de feridas. As MSCs podem facilitar a cicatrização de feridas através da mobilização para o local da ferida e diferenciação em queratinócitos, fibroblastos dérmicos e outros tipos de células. Eles também regulam a liberação de citocinas pró-inflamatórias e estimulam a liberação de fatores de crescimento. Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7369885/pdf/ijms-21-04604.pdf 4. DISCUSSÃO O papel das células-tronco muda significativamente ao longo da vida, pois as células-tronco devem alterar suas propriedades para atender às demandas de crescimento e regeneração em constante mudança. Refletindo esses papéis variáveis, muitos tipos diferentes de células-tronco foram definidos. Células-tronco pluripotentes, como células-tronco embrionárias ou célulastronco pluripotentes induzidas, têm a capacidade de gerar tecido a partir de qualquer uma das três camadas germinativas. No entanto, seu uso clínico tem sido prejudicado por riscos de formação de teratoma e, no caso de células-tronco embrionárias, preocupações éticas. Células-tronco multipotentes, como células estromais mesenquimais (MSCs), não têm essas desvantagens, mas têm a capacidade de se diferenciar em um número mais limitado de células intimamente relacionadas. Finalmente, células-tronco unipotentes, embora mantenham a capacidade de auto-renovação, só podem produzir um tipo de célula. Esta última classe, embora tenha utilidade limitada em estratégias regenerativas, está intimamente envolvida na homeostase normal do tecido em uma grande variedade de locais, incluindo pele, pulmão, fígado e revestimento intestinal. As células-tronco mesenquimais (MSCs) são uma excelente alternativa para estimular a cicatrização de feridas agudas e crônicas, pois possuem uma variedade de funções, incluindo suporte trófico, ação anti-inflamatória, imunomodulação, revascularização, atividade antiapoptótica, capacidade de diferenciação e quimiotaxia. Já as células-tronco derivadas do tecido adiposo (ADSCs), um dos subtipos de MSC, estão sendo cada vez mais exploradas na cirurgia plástica reconstrutiva, particularmente na regeneração de feridas. Desafios significativos permanecem para a utilização clínica das BM-MSCs, incluindo a invasividade de sua coleta, bem como o tempo e os custos de 67 recursos e riscos associados à expansão de células em cultura para alcançar concentrações terapêuticas. Não foram relatados efeitos colaterais graves nos estudos, o que pode sugerir a segurança da terapia. No entanto, diferentes tipos de células-tronco (do cordão umbilical, da medula óssea e derivadas do tecido adiposo) foram utilizados e de origens distintas (autólogas e alogênicas). A heterogeneidade dos estudos e dos relatos de casos dificulta uma comparação adequada das terapias descritas. Cada tipo de célula-tronco é caracterizado por recursos individuais, mas in vivo elas atuam de forma semelhante como células reguladoras. No entanto, vale ressaltar que a utilização terapêutica de células-tronco na cicatrização de feridas também é limitada por desafios de armazenamento, tumorigenicidade relacionada à mutação, atividade celular, rejeição imunológica e fatores éticos. Outrossim, embora as pesquisas sejam promissoras, ainda estamos nos estágios iniciais de compreensão completa do potencial e das limitações do uso de células-tronco na cirurgia plástica reconstrutiva. 5. CONCLUSÃO Apesar da alta capacidade das células-tronco para serem usadas na medicina regenerativa, por questões éticas envolvendo células-tronco totipotentes e multipotentes, as MSCs se tornaram mais populares na área da pesquisa. Ela apresenta algumas vantagens de uso, como o fácil isolamento, expansão in vitro e multipotência, tornandoas reconhecidas na medicina regenerativa. Por apresentar diversos fatores, como a função parácrina de múltiplos fatores, suporte trófico, imunomodulação, promover a angiogênese e a vasculogênese, dentre outros, as MSCs estão envolvidas principalmente na facilitação da cicatrização de feridas. Os tipos de MSCs, como ADSCs, BM-MSCs e células derivadas do cordão umbilical e da placenta, apresentam diferentes vantagens e usos. Pacientes com cicatrizes retráteis e dolorosas, que comprometem suas atividades diárias e mobilidade, o uso das ADSCs por meio da lipoenxertia demonstrou ser uma terapia eficiente, pois garantiu uma baixa morbidade, uma alta qualidade de cobertura da pele e um risco mínimo de desenvolvimento de cicatrizes hipertróficas. Apesar das células-tronco do cordão umbilical e da placenta apresentarem diversas maneiras no tratamento de feridas, desde aplicações tópicas a administração intravascular, e serem eficazes melhoria da cicatrização, o seu processo de aquisição ainda dificulta o uso 68 generalizado dessas células para uma quantidade maior de pacientes. As células estromais derivadas da medula óssea (BM-MSCs) apresentaram uma eficácia terapêutica potencial na regeneração cutânea humana. Essas células, quando impregnadas em uma matriz de colágeno de pacientes com úlceras crônicas, reduzem o tamanho da ferida, aumentam a vascularização e também a espessura dérmica. Além disso, esse tipo de célula apresentou pouca ou nenhuma rejeição após o transplante alogênico. Portanto, as MSCs são uma excelente alternativa para desenvolver a cicatrização de feridas agudas e crônicas, pelos diversos fatores demonstrados. Alguns desafios permanecem, como o risco de expandir o uso das BM-MSCs, o armazenamento dessas células, a tumorigenicidade relacionada à mutação, a rejeição imunológica e os fatores éticos. Além disso, a heterogeneidade dos estudos e dos relatos dificulta uma comparação adequada dessas diferentes terapias. Embora o cenário de compreensão ainda esteja no início e as limitações sejam maiores, as pesquisas na área de tratamento de feridas demonstraram ser promissoras. REFERÊNCIAS AGRAWAL, N. A. et al. Stem Cells and Plastic Surgery. Seminars in Plastic Surgery, v. 33, n. 3, p. 162–166, 1 ago. 2019. BRETT, E. et al. A Review of Cell-Based Strategies for Soft Tissue Reconstruction. 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Orcid ID do autor: https://orcid.org/0009-0008-0097-8793 Lara Julia Evangelista Mineiro Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás - UFG, Goiás, Brasil. Orcid ID do autor: https://orcid.org/0000-0002-9703-6346 Thaynne Hayssa França Barbosa Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás - UFG, Goiás, Brasil. Orcid ID do autor: https://orcid.org/0000-0002-5186-6467 RESUMO Introdução: As queimaduras representam um desafio complexo para a medicina, exigindo abordagens multidisciplinares para minimizar sequelas estéticas e funcionais nos pacientes afetados. Diante disso, torna-se imperativo recorrer a intervenções cirúrgicas especializadas que visem não apenas à restauração da integridade física, mas também à recuperação da qualidade estética e funcional da pele afetada. Nesse contexto, a cirurgia plástica emerge como um campo essencial, desempenhando um papel crucial na reconstrução eficaz e na promoção da melhoria da qualidade de vida desses indivíduos. Esse trabalho visa analisar de maneira crítica um conjuntos de informações pertinentes à função da cirurgia plástica na reconstrução estética pós-queimadura. Métodos: Trata-se 71 de uma revisão integrativa de literatura que se compõe de avaliar e apresentar de forma revisada conjuntos de informações acerca da função da cirurgia plástica na reconstrução estética pós queimadura. A pesquisa dos descritores conteve o auxílio das plataformas SciELO, BVS Brasil, MEDLINE e CAPES Periódicos. Foram utilizados termos em inglês e em português combinados pelos operadores booleanos (AND, OR e NOT), sendo eles: “Cirurgia Plástica”,”Plastic Surgery”, “Aesthetic Reconstruction”, “Cosmetic Reconstruction”, “Reconstrução estética”, com a utilização do descritor principal “Burn”,”Burns” e “Queimadura”. Resultados e discussão: A cirurgia plástica terá aplicabilidade, possivelmente, nos casos 2b e, necessariamente, nas de terceiro grau. Para isso, diversas estratégias podem ser aplicadas, variando de acordo com o local e a extensão do dano, sendo os retalhos e enxertos os principais a serem utilizados nesse tipo de reconstrução. Os retalhos são uma das melhores opções para tratamento de queimaduras extensas e profundas, porém com uma grande limitação: a disponibilidade de tecido viável. Conclusão: Esse estudo reafirma a importância da cirurgia plástica na reconstrução após queimaduras, enfatizando seu papel na melhoria estética, como também na recuperação da funcionalidade, no alívio da dor e no aumento da qualidade de vida dos pacientes. PALAVRAS-CHAVE: Cirurgia plástica; estética; queimaduras. ABSTRACT Introduction: Burns represent a complex challenge for medicine, requiring multidisciplinary approaches to minimize aesthetic and functional sequelae in affected patients. Given this, it is imperative to resort to specialized surgical interventions aimed not only at restoring physical integrity, but also at recovering the aesthetic and functional quality of the affected skin. In this context, plastic surgery emerges as an essential field, playing a crucial role in effective reconstruction and promoting improved quality of life for these individuals. To critically analyze a set of information pertinent to the role of plastic surgery in post-burn aesthetic reconstruction. Methods: This is an integrative literature review that aims to evaluate and present in a revised form sets of information about the role of plastic surgery in post-burn aesthetic reconstruction. The search for descriptors was supported by the SciELO, VHL Brasil, MEDLINE and CAPES Periódicos platforms. Terms in English and Portuguese combined by Boolean operators (AND, OR and NOT) were used, namely: “Plastic Surgery”, “Plastic Surgery”, “Aesthetic Reconstruction”, “Cosmetic Reconstruction”, “Aesthetic Reconstruction”, with the use of the main descriptor “Burn”, “Burns” and “Burning”. Results and discussion: Plastic surgery will be applicable, possibly, in 2b cases and, necessarily, in third degree cases. To achieve this, several strategies can be applied, varying according to the location and extent of the damage, with flaps and grafts being the main ones to be used in this type of reconstruction. Flaps are one of the best options for treating extensive and deep burns, but with a major limitation: the availability of viable tissue. Conclusion: This study reaffirms the enormous importance of plastic surgery in reconstruction after burns, emphasizing its role not only in improving aesthetics, but also in recovering functionality, relieving pain and increasing patients' quality of life. KEYWORDS: Surgery, Plastic; esthetics; burns. 1. INTRODUÇÃO 72 As queimaduras representam um desafio complexo para a medicina, exigindo abordagens multidisciplinares para minimizar sequelas estéticas e funcionais nos pacientes afetados. Diante dessa realidade, torna-se imperativo recorrer a intervenções cirúrgicas especializadas que visem não apenas à restauração da integridade física, mas também à recuperação da qualidade estética e funcional da pele afetada. Nesse contexto, a cirurgia plástica emerge como um campo essencial, desempenhando um papel crucial na reconstrução eficaz e na promoção da melhoria da qualidade de vida dos indivíduos que enfrentam as consequências debilitantes de queimaduras. A abordagem cirúrgica precisa ser meticulosamente adaptada ao estágio da lesão e à gravidade do caso, com uma preferência inicial por procedimentos mais simples sempre que possível. Contudo, destaca-se a relevância dos retalhos microcirúrgicos em situações de reconstrução mais complexas, proporcionando soluções eficazes. Além disso, para atender às diversas características das queimaduras, extensores de tecido e enxertos também emergem como ferramentas valiosas, ajustando-se à extensão e profundidade específicas de cada caso. Portanto, este capítulo busca explorar criticamente o papel fundamental da cirurgia plástica na reconstrução pós-queimaduras, examinando as técnicas, inovações e considerações práticas, delineando o panorama atual e as perspectivas futuras na área. 2. MATERIAIS E MÉTODOS O presente trabalho utilizou como segmento a revisão integrativa de literatura que se compõe de abordar, interpretar, avaliar e apresentar de forma revisada conjuntos de informações acerca da função da cirurgia plástica na reconstrução estética pós queimadura. A pesquisa dos descritores conteve o auxílio das plataformas SciELO (Scientific Electronic Library Online), BVS Brasil (Biblioteca Virtual em saúde), MEDLINE e CAPES Periódicos (Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), com a ferramenta de filtro em barra de pesquisa, a qual conta com uma base de dados onde são contidos os artigos científicos que foram utilizados nessa revisão bibliográfica. Dessa forma, encontraram-se os descritores solícitos para a seleção de artigos do estudo. Em adição, ao acessar essas plataformas, em sua base de dados, foram utilizados termos em inglês e em português combinados pelos operadores booleanos (AND, OR e 73 NOT), sendo eles: “Cirurgia Plástica”,”Plastic Surgery”, “Aesthetic Reconstruction”, “Cosmetic Reconstruction”, “Reconstrução estética”, com a utilização do descritor principal “Burn”,”Burns” e “Queimadura”, adaptados para cada plataforma, os quais foram incluídos os artigos em inglês e português compostos e combinados com relevância no tema, entre 2009 e 2024 (15 anos) e com acesso gratuito. Foram excluídos artigos duplicados das bases e que não condizem com a temática desejada. Dessa forma, foi analisado todo o conteúdo dos artigos escolhidos, bem como seus dados estatísticos, gráficos e tabelas. Assim, combinaram-se as informações dos trabalhos, predispondo o conteúdo dos artigos selecionados. Assim, foram selecionados 5 artigos descritos na tabela 1 abaixo: Tabela 1 Título Autores Ano de publicação Periódico Uso de retalhos Coutinho et al. 2011 Revista Brasileira de microcirúrgicos em Cirurgia Plástica pacientes queimados: revisão da literatura Queimaduras – Possamai et al. 2012 Acta Méd. Almeida et al. 2023 CUADERNOS DE MANEJO CIRÚRGICO Perspectivas gerais da cirurgia plástica no EDUCACIÓN Y tratamento de DESARROLLO queimaduras Abordagens de cirurgias Coelho et al. 2023 plásticas no tratamento Research, Society and Development de feridas complexas Aesthetic Reconstruction in Burn Patients Barret et al. 2018 Total Burn Care (Fifty Edition) 74 Figura 1: Fluxograma de seleção dos artigos 3. RESULTADOS Coutinho et al. evidencia a aplicabilidade de retalhos microcirúrgicos nas abordagens em reconstruções complexas em pacientes queimados, principalmente quando há lesões de estruturas nobres e de articulações. Todavia, deve-se salientar que, sempre que possível, prezar por procedimentos mais simples, haja visto a complexidade deste, aplicando-o somente naqueles casos que se fazem necessários por impossibilidade de alternativas. Possamai et al. descreve como deve ser o manejo cirúrgico do paciente queimado, dividindo entre a fase aguda (até 72h) e na fase tardia. A primeira busca tratar o ferimento, desbridando tecido necrótico, fazendo curativos eficientes, protegendo órgãos vitais e evitando dano futuros; isso pode ser feito por meio da escarotomia, fasciotomia, desbridamento, excisão e enxertos de pele e da prevenção de infeções. Já a segunda busca melhora funcional e estética da área queimada; isso pode ser feito por meio de fechamento primário, excisão e enxerto pele, substituto de pele, expansores de tecido e retalhos. Almeida et al. aborda aspectos epidemiológicos, manejo clínico, tratamento cirúrgico, conhecimento nutricional e alterações metabólicas. São elencadas as medidas a serem tomadas, priorizando a restauração e preservação dos tecidos e órgãos, e posterior 75 reconstrução estética, essa que terá importante papel na reestruturação psicossocial do paciente. Coelho et al. trata do papel da cirurgia plástica no tratamento de feridas complexas. Dentre essas feridas, temos as queimaduras, onde foi descrito que as de etiologia elétrica respondem melhor a técnica de retalho sural reverso; as de etiologia térmica, desbridamento e enxertia são a escolha principal, com ótimos resultados para o paciente; e as de etiologia química, principalmente por lesões advindas de produtos capilares ao couro cabeludo, retalhos locais e expansores de tecido tiveram papel fundamental. Por fim, Barret (2018) sistematiza a reconstrução estética em pacientes queimados, trabalhando o momento correto – levando em conta a maturação da lesão e cicatriz –, a relação médico paciente, e cuidados pré e pós operatórios. Em relação às técnicas possíveis, são explicados enxertos, retalhos, z-plastias, expansores teciduais, lasers, peelings, transplante capilar, alotransplante, micropigmentação e abordagens diversas de cirurgia plástica, como rinoplastia e facelifts; todas elas com foco na reconstrução de cada caso, levando em conta a extensão do dano, idade do paciente, estado, etc. 4. DISCUSSÃO As queimaduras podem ser categorizadas de acordo com o grau de severidade do trauma à derme e epiderme, variando de primeiro a terceiro grau. O primeiro grau será aquele onde há dano somente à epiderme, não havendo pústulas ou bolhas, além da vascularização e sensibilidade estarem preservadas. Já a de segundo grau será aquela com dano à derme, podendo ser parcial (2a) ou total (2b), ademais, nela há formação de bolhas e possível comprometimento da vascularização, sendo a cirurgia uma possível abordagem para a 2b. Por fim, a de terceiro grau será aquela com dano completo à derme e estruturas inferiores, podendo atingir até o osso; não há sensibilidade, devido ao dano nervoso, e nem vascularização, sendo o tratamento cirúrgico o único indicado. (Barret, 2018) Destarte, a cirurgia plástica terá aplicabilidade, possivelmente, nos casos 2b e, necessariamente, nas de terceiro grau. Para isso, diversas estratégias podem ser aplicadas, variando de acordo com o local e a extensão do dano, sendo os retalhos e enxertos os principais a serem utilizados nesse tipo de reconstrução. A diferença primordial entre os dois será a vascularização, com o enxerto dependendo da angiogênese do local receptor, 76 enquanto o retalho terá seus próprios vasos. Esse último tem grande aplicabilidade nos casos onde há lesão à estruturas nobres, necessitando de cobertura local o mais breve possível, ou então em regiões articulares, onde a cicatrização evolui com retrações e consequentes perdas de mobilidade. (Coutinho et al., 2011) Os retalhos são um das melhores opções para tratamento de queimaduras extensas e profundas, porém com uma grande limitação: a disponibilidade de tecido viável. Em pacientes grandes queimados, muitas vezes o dano é sobre boa parte da superfície corporal, limitando as possibilidades de locais doadores viáveis. Nesses casos, há a possibilidade de serem seguidas algumas alternativas, com expansores de tecido e enxertos sendo as principais. Os expansores de tecido podem ser utilizados a fim de aumentar a área tegumentar, permitindo no futuro a transferência, porém com limitação temporal, sendo, pois, uma boa alternativa para reconstrução. Já os enxertos são uma possibilidade para casos mais urgentes, trazendo células viáveis da derme para o local, estimulando uma regeneração e cicatrização mais eficiente e esteticamente agradável; no entanto, com o possível impedimento da falta de vascularização e viabilidade do tecido subjacente. (Barret, 2018) Dessa forma, fica evidente a importância do desbridamento na abordagem do paciente queimado. A retirada precoce de tecido necrótico e inviável é de suma necessidade para, primeiro, evitar infecções, e, segundo, formar um ambiente propício para o tratamento e cicatrização. Assim, torna o local passível de receber enxertia e abordagens futuras, buscando sempre o melhor prognóstico para o paciente e respeitando as limitações e desejos dele. (Possamai et al., 2018; Coelho et al, 2023) 5. CONCLUSÃO Este estudo mostra como a cirurgia plástica é fundamental na ajuda aos pacientes com queimaduras graves, focando tanto na recuperação da sua aparência quanto na funcionalidade das áreas afetadas. A partir dos dados coletado, fica evidente a necessidade de um tratamento cirúrgico atento e sob medida, onde o principal objetivo é melhorar a qualidade de vida do paciente, recuperando não só a estética, mas também a utilidade dos tecidos danificados 77 É notório que a cirurgia plástica ultrapassa as preocupações puramente estéticas. Em processos de reconstrução após queimaduras, técnicas como o uso de retalhos microcirúrgicos e enxertos de pele são indispensáveis não apenas para a recuperação da integridade física do paciente, mas também desempenham um papel fundamental na recuperação emocional e psicológica. A capacidade de atenuar significativamente o impacto visual de cicatrizes marcantes, juntamente com a melhoria da funcionalidade e mobilidade de áreas previamente afetadas, têm um potencial transformador na vida dos indivíduos atingidos por queimaduras. Essas intervenções cirúrgicas, ao minimizarem as marcas físicas desses traumas, contribuem de maneira significativa para a elevação da autoestima e do bem-estar dos pacientes, reforçando assim a importância vital da cirurgia plástica não só no âmbito da recuperação estética, mas como um elemento chave na promoção de uma recuperação holística e abrangente. Ademais, este estudo destaca a necessidade de uma abordagem integrada no tratamento de queimaduras, combinando avanços técnicos com um entendimento profundo das complexidades físicas e emocionais ligadas a essas lesões. A ênfase na recuperação funcional e estética destaca a importância de cirurgias bem planejadas, esses procedimentos devem ser cuidadosamente adaptados para levar em conta a gravidade do dano sofrido pelo paciente, identificar o momento ideal para intervenção cirúrgica e considerar as particularidades e necessidades individuais de cada caso. Outro aspecto crucial mencionado é a relevância do desbridamento precoce e eficiente, fundamental na prevenção de infecções e na preparação para futuras reconstruções. Este procedimento, junto à escolhas certas de técnicas cirúrgicas, reforça a necessidade de uma avaliação atenta e de um planejamento cirúrgico, visando melhorar os resultados tanto funcionais quanto estéticos. Este trabalho também revela que a condução de novos estudos é essencial para o desenvolvimento de práticas cirúrgicas, buscando aprimorar ainda mais os resultados para os pacientes queimados, seja na recuperação funcional ou na satisfação com a aparência. Em resumo, os achados deste estudo reafirmam a enorme importância da cirurgia plástica na reconstrução após queimaduras, enfatizando seu papel não somente na melhoria estética, mas também na recuperação da funcionalidade, no alívio da dor e no aumento da qualidade de vida dos pacientes. Assim, as contribuições desta pesquisa destacam a necessidade de técnicas cirúrgicas renovadas, sustentadas por um conhecimento aprofundado das necessidades únicas de cada paciente, para atingir os melhores resultados possíveis na recuperação pós-queimadura. 78 REFERÊNCIAS ALMEIDA, S. R. V. et al. Perspectivas gerais da cirurgia plástica no tratamento de queimaduras. Cuadernos de Educación y Desarrollo, v. 15, n. 9, p. 8841–8854, 2023. BARRET, J. P. Aesthetic Reconstruction in Burn Patients. Em: Total Burn Care. [s.l.] Elsevier, 2018. p. 640-647.e1. COELHO, A. M. E. S. et al. Abordagens de cirurgias plásticas no tratamento de feridas complexas. Research, Society and Development, v. 12, n. 3, p. e2612340381, 2023. COUTINHO, B. B. DE A. et al. Uso de retalhos microcirúrgicos em pacientes queimados: revisão da literatura. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, v. 27, n. 2, p. 316–320, 2012. POSSAMAI, L. et al. Queimaduras: manejo cirúrgico. Acta méd. (Porto Alegre) ; 33(1): [7], 21 dez. 2012. 79 CAPÍTULO 7 O PAPEL VITAL DA ENFERMAGEM NA PRESTAÇÃO DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE THE VITAL ROLE OF NURSING IN PROVIDING HEALTHCARE 10.56161/sci.ed.20240415c7 Francisco Lucas Ferreira Sousa Enfermeiro , Especialista em Enfermagem Em Nefrologia pela Faculdade Venda Nova Do Imigrante - FAVENI Orcid ID https://orcid.org/0009-0004-1071-344X RESUMO A enfermagem desempenha um papel fundamental na prestação de assistência à saúde, desempenhando diversas funções que abrangem desde a promoção da saúde e prevenção de doenças até o tratamento de enfermidades e apoio emocional aos pacientes e suas famílias. Este capítulo explora o papel vital dos enfermeiros e enfermeiras na assistência à saúde, destacando sua importância e impacto na promoção do bem-estar dos pacientes e na eficácia do sistema de saúde como um todo. Ao longo das décadas, a profissão de enfermagem evoluiu significativamente, adaptando-se às mudanças nos sistemas de saúde e às necessidades dos pacientes. Os enfermeiros e enfermeiras são verdadeiros líderes na linha de frente, trabalhando incansavelmente para promover a saúde, prevenir doenças, fornecer cuidados de alta qualidade e melhorar os resultados dos pacientes. Este capítulo aborda métodos, estratégias, desafios e tendências na enfermagem contemporânea, destacando a importância da prática baseada em evidências, colaboração interprofissional, educação continuada e desenvolvimento profissional. Além disso, discute-se o impacto da tecnologia na prática de enfermagem e os desafios éticos e legais enfrentados pelos profissionais de enfermagem em um ambiente em constante evolução.Em suma, a enfermagem é uma profissão dinâmica e essencial que desempenha um papel crucial na prestação de assistência à saúde. Os enfermeiros e enfermeiras são agentes de mudança, comprometidos em proporcionar cuidados centrados no paciente e em promover o bem-estar de indivíduos e comunidades em todo o mundo. PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem; Assistência à saúde; Papel dos enfermeiros; Prática baseada em evidências; Colaboração interprofissional. ABSTRACT 80 Nursing plays a fundamental role in providing health care, performing diverse functions that range from health promotion and disease prevention to the treatment of illnesses and emotional support for patients and their families. This chapter explores the vital role of nurses in healthcare, highlighting their importance and impact in promoting the wellbeing of patients and the effectiveness of the healthcare system as a whole. Over the decades, the nursing profession has evolved significantly, adapting to changes in healthcare systems and the needs of patients. Nurses and nurses are true leaders on the front lines, working tirelessly to promote health, prevent disease, provide high-quality care and improve patient outcomes. This chapter addresses methods, strategies, challenges, and trends in contemporary nursing, highlighting the importance of evidencebased practice, interprofessional collaboration, continuing education, and professional development. Additionally, the impact of technology on nursing practice and the ethical and legal challenges faced by nursing professionals in a constantly evolving environment are discussed. In short, nursing is a dynamic and essential profession that plays a crucial role in providing of health care. Nurses are agents of change, committed to providing patient-centered care and promoting the well-being of individuals and communities around the world. KEYWORDS:Nursing; Health care; Role of nurses; Evidence-based practice; Interprofessional collaboration. 1. INTRODUÇÃO A enfermagem desempenha um papel vital e multifacetado na prestação de assistência à saúde em todo o mundo. Profissionais de enfermagem, incluindo enfermeiros e enfermeiras, desempenham um papel crucial na promoção da saúde, prevenção de doenças, tratamento de enfermidades e apoio emocional aos pacientes e suas famílias. Ao longo das décadas, a profissão de enfermagem evoluiu e se expandiu para abranger uma ampla gama de especialidades e práticas, refletindo a crescente complexidade e diversidade dos sistemas de saúde contemporâneos. (OMS, 2020 ). A história da enfermagem remonta a séculos, com suas raízes profundamente enraizadas na prática de cuidados informais prestados por cuidadores e curandeiros em comunidades ao redor do mundo. No entanto, foi somente no século XIX que a enfermagem emergiu como uma profissão formal, com o estabelecimento de escolas de enfermagem e a adoção de padrões de prática e ética profissional. Desde então, os enfermeiros e enfermeiras têm desempenhado um papel cada vez mais central na prestação de assistência à saúde, trabalhando em uma variedade de ambientes, incluindo hospitais, clínicas, lares de idosos, escolas e comunidades. ( NCSBN, 2020). Hoje, a enfermagem continua a ser uma das profissões de saúde mais respeitadas e admiradas, com seus profissionais reconhecidos por sua dedicação, compaixão e compromisso com o bem-estar dos pacientes. Os enfermeiros e enfermeiras desempenham uma variedade de funções e responsabilidades, que vão desde a 81 administração de medicamentos e tratamentos até o aconselhamento de pacientes e famílias sobre questões de saúde e estilo de vida. (OMS, 2020 ). Este capítulo tem como objetivo fornecer uma visão abrangente e atualizada do papel da enfermagem na prestação de assistência à saúde, destacando sua importância e impacto na promoção da saúde e no bem-estar dos pacientes. Serão discutidos métodos, estratégias e melhores práticas empregadas pela enfermagem para fornecer cuidados de alta qualidade, baseados em evidências e centrados no paciente. Além disso, serão exploradas as tendências atuais na enfermagem e os desafios enfrentados por profissionais de saúde em um ambiente em constante mudança. 2. MATERIAIS E MÉTODOS Para este capítulo, foi conduzida uma revisão sistemática da literatura relacionada à prática de enfermagem na prestação de assistência à saúde. As bases de dados eletrônicas, incluindo Google acadêmico, bvs e lilacs, foram pesquisadas utilizando termos relevantes, como "enfermagem", "assistência à saúde", "prática clínica", "qualidade dos cuidados de saúde" e "resultados do paciente". Foram incluídos artigos de revisão, estudos de pesquisa e diretrizes clínicas pertinentes para fornecer uma visão abrangente do tema. A revisão da literatura abrange uma ampla gama de tópicos, incluindo o papel dos enfermeiros na promoção da saúde e prevenção de doenças, a implementação de práticas baseadas em evidências na enfermagem, o uso de tecnologia na prestação de cuidados de saúde, a colaboração interprofissional na equipe de saúde e os desafios éticos e legais enfrentados pelos profissionais de enfermagem. Os critérios de inclusão para seleção de artigos foram relevância para o tema, atualidade e qualidade metodológica. ( BRIZOLA, 2016). Após a seleção dos artigos relevantes, os dados foram sintetizados e organizados de acordo com os principais temas e subtemas identificados. Foram feitas análises comparativas entre estudos, destacando as melhores práticas e as tendências emergentes na enfermagem e na assistência à saúde. As conclusões derivadas da revisão da literatura foram utilizadas para informar as seções subsequentes deste capítulo, incluindo resultados e discussão. 3. RESULTADOS 82 A revisão da literatura destacou várias áreas-chave em que a enfermagem desempenha um papel significativo na prestação de assistência à saúde. Essas áreas incluem: Práticas baseadas em evidências: A enfermagem baseada em evidências é fundamental para garantir a qualidade e a segurança dos cuidados de saúde. Os enfermeiros e enfermeiras utilizam evidências científicas atualizadas para informar suas práticas clínicas, implementando intervenções comprovadamente eficazes para melhorar os resultados dos pacientes. Uso de tecnologia na assistência à saúde: A tecnologia desempenha um papel crescente na prática de enfermagem, facilitando a comunicação entre os membros da equipe de saúde, melhorando o monitoramento dos pacientes e fornecendo acesso rápido a informações clínicas relevantes. Enfermeiros e enfermeiras estão cada vez mais integrando sistemas de informação e tecnologia digital em sua prática diária para otimizar a prestação de cuidados. Colaboração interprofissional: A colaboração eficaz entre profissionais de saúde é essencial para garantir uma abordagem holística e centrada no paciente na prestação de assistência à saúde. Enfermeiros e enfermeiras trabalham em estreita colaboração com médicos, terapeutas, farmacêuticos e outros membros da equipe para fornecer cuidados coordenados e abrangentes aos pacientes. Desafios éticos e legais: Os profissionais de enfermagem enfrentam uma série de desafios éticos e legais em sua prática diária, incluindo questões de confidencialidade, consentimento informado, autonomia do paciente e tomada de decisão compartilhada. É fundamental que os enfermeiros estejam cientes dos princípios éticos e das leis que regem sua prática e ajam de acordo com os mais altos padrões de ética profissional. 4. DISCUSSÃO A discussão dos resultados enfatiza a importância do papel da enfermagem na prestação de assistência à saúde e destaca várias considerações importantes: Centrada no paciente: A enfermagem é uma profissão centrada no paciente, que valoriza a dignidade, o respeito e a individualidade de cada pessoa. Os enfermeiros e enfermeiras estão em posição única para fornecer cuidados holísticos que abordam as necessidades físicas, emocionais, sociais e espirituais dos pacientes. Colaboração interprofissional: A colaboração eficaz entre membros da equipe de saúde é essencial para garantir a prestação de cuidados integrados e coordenados. Os 83 enfermeiros e enfermeiras desempenham um papel fundamental na facilitação da comunicação entre os membros da equipe e na coordenação dos cuidados para garantir a continuidade e a qualidade dos serviços prestados. Desafios e oportunidades: A enfermagem enfrenta uma série de desafios, incluindo escassez de pessoal, demandas crescentes, pressões financeiras e questões éticas e legais complexas. No entanto, esses desafios também representam oportunidades para a inovação, colaboração e melhoria contínua na prática de enfermagem. Prática baseada em evidências: A enfermagem baseada em evidências é fundamental para garantir a eficácia e a segurança dos cuidados de saúde. Os enfermeiros e enfermeiras devem estar comprometidos em utilizar evidências científicas atualizadas para informar suas práticas clínicas e implementar intervenções comprovadamente eficazes para melhorar os resultados dos pacientes. Educação e desenvolvimento profissional: A educação contínua e o desenvolvimento profissional são essenciais para garantir que os enfermeiros e enfermeiras estejam equipados com o conhecimento e as habilidades necessárias para fornecer cuidados de alta qualidade em um ambiente em constante mudança. Programas de educação continuada, treinamento clínico e oportunidades de desenvolvimento profissional devem ser incentivados e apoiados. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A enfermagem desempenha um papel essencial na prestação de assistência à saúde, com enfermeiros e enfermeiras desempenhando diversas funções fundamentais para garantir o bem-estar dos pacientes e a eficácia do sistema de saúde. Este capítulo destacou a importância da enfermagem na promoção da saúde, prevenção de doenças, tratamento de enfermidades e apoio emocional aos pacientes e suas famílias. Além disso, discutiu métodos, estratégias e desafios enfrentados pela enfermagem na prestação de cuidados de saúde de alta qualidade e baseados em evidências. É fundamental reconhecer o papel crítico dos enfermeiros e enfermeiras na equipe de saúde e apoiar seu desenvolvimento profissional contínuo. Investimentos em educação, treinamento, pesquisa e desenvolvimento profissional são essenciais para garantir que os enfermeiros estejam equipados com o conhecimento e as habilidades necessárias para enfrentar os desafios complexos da prestação de assistência à saúde no século XXI. 84 Além disso, a colaboração interprofissional e a promoção de uma cultura de segurança e qualidade são fundamentais para garantir a entrega de cuidados seguros, eficazes e centrados no paciente. Os enfermeiros e enfermeiras desempenham um papel crucial na facilitação da comunicação entre os membros da equipe de saúde e na coordenação dos cuidados para garantir a continuidade e a qualidade dos serviços prestados. Em suma, a enfermagem é uma profissão vital e multifacetada que desempenha um papel central na prestação de assistência à saúde. Os enfermeiros e enfermeiras são verdadeiros líderes na linha de frente, trabalhando incansavelmente para promover o bemestar dos pacientes e melhorar os resultados do sistema de saúde como um todo. REFERÊNCIAS World Health Organization. (2020). Nursing and midwifery. Retrieved from [https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/nursing-andmidwifery](https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/nursing-and-midwifery) Acesso em: 22 fevereiro 2024. National Council of State Boards of Nursing. (2020). About NCSBN. Retrieved from [https://www.ncsbn.org/about.htm](https://www.ncsbn.org/about.htm).Acesso em: 22 fevereiro 2024. American Nurses Credentialing Center. (2020). About ANCC. Retrieved from [https://www.nursingworld.org/organizationalprograms/ancc/about/](https://www.nursingworld.org/organizationalprograms/ancc/about/). International Council Acesso of Nurses. em: 21 (2020). About fevereiro ICN. Retrieved 2024. from [https://www.icn.ch/about](https://www.icn.ch/about). Acesso em: 21 fevereiro 2024. Health Resources and Services Administration. (2020). Nursing programs. Retrieved from [https://bhw.hrsa.gov/funding/apply-grant/nursing- programs](https://bhw.hrsa.gov/funding/apply-grant/nursing-programs)Acesso em: 22 fevereiro 2024. Centers for Disease Control and Prevention. (2020). Nursing resources. Retrieved from [https://www.cdc.gov/nchs/nurse.htm](https://www.cdc.gov/nchs/nurse.htm). Acesso em: 2024. 22 fevereiro 85 BRIZOLA, Jairo; FANTIN, Nádia. Revisão da literatura e revisão sistemática da literatura.Revista de Educação do Vale do Arinos-RELVA, v. 3, n. 2, 2016. Acesso em: 21 fevereiro 2024. World Health Organization. (2020). Nursing and midwifery workforce. Retrieved from [https://www.who.int/hrh/nursing_midwifery/en/](https://www.who.int/hrh/nursing_mi dwifery/en/). Acesso National for League Nursing. em: (2020). 22 About fevereiro NLN. Retrieved 2024. from [http://www.nln.org/about](http://www.nln.org/about). Acesso em: 21 fevereiro 2024. American Association of Critical-Care Nurses. (2020). About AACN. Retrieved from [https://www.aacn.org/about-aacn](https://www.aacn.org/about-aacn). Acesso em: 21 fevereiro 2024. Sigma Theta Tau International Honor Society of Nursing. (2020). About Sigma. Retrieved from [https://www.sigmanursing.org/about](https://www.sigmanursing.org/about). Acesso em: 2024. 22 fevereiro Journal of Nursing Scholarship. (2020). About the journal. Retrieved from [https://sigmapubs.onlinelibrary.wiley.com/hub/journal/15475069/about](https://sigmap ubs.onlinelibrary.wiley.com/hub/journal/15475069/about). Acesso em: 22 fevereiro 2024. 86 CAPÍTULO 8 PREVENÇÃO E MANEJO DA OSTEOPOROSE NA PÓS MENOPAUSA PREVENTION AND MANAGEMENT OF POSTMENOPAUSAL OSTEOPOROSIS 10.56161/sci.ed.20240415c8 Isabela Moreira Bianchi Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás https://orcid.org/0009-0008-9210-1912 Ana Lívia Félix e Silva Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás https://orcid.org/0000-0002-7029-9277 Gabriella Cristina Rodrigues Lemos Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás https://orcid.org/0009-0008-5159-3869 Lara Julia Evangelista Mineiro Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás https://orcid.org/0000-0002-9703-6346 Marcos Vinícius Alves de Almeida Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás https://orcid.org/0009-0008-2436-6396 Érika Carvalho de Aquino Instituto de Patologia Tropical de Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás https://orcid.org/0000-0002-5659-0308 RESUMO INTRODUÇÃO: A menopausa desencadeia mudanças hormonais significativas, particularmente a deficiência de estrogênio, que desempenha um papel crucial no metabolismo ósseo. OBJETIVO: Compreender a associação entre as alterações hormonais pós-menopausa e a patogênese da osteoporose, as abordagens terapêuticas mais utilizadas no tratamento e as melhores estratégias preventivas. METODOLOGIA: Os dados foram coletados na base de dados PubMed com os seguintes descritores: “osteoporosis”; “postmenopausa”; “management” e “prevention”. A busca resultou em 87 32 artigos, dos quais 11 foram selecionados a partir dos critérios de serem artigos de revisão ou revisão sistemática, publicados nos últimos 10 anos no idioma inglês, disponíveis de forma gratuita e relacionados à temática proposta. RESULTADOS E DISCUSSÃO: A deficiência de estrogênio após a menopausa compromete significativamente a saúde óssea, aumentando o risco de osteoporose e fraturas. O tratamento baseia-se, principalmente, em fármacos não-reabsorvíveis, incluindo bifosfonatos, moduladores seletivos do receptor de estrogênio (SERMs) e Terapia Hormonal da Menopausa (THM). Ressalta-se a importância de avaliar individualmente os benefícios e riscos desses tratamentos, considerando possíveis efeitos adversos, como fraturas femorais atípicas e osteonecrose da mandíbula. A abordagem personalizada é primordial para mulheres pós-menopausa, levando em consideração fatores de risco, histórico médico e saúde cardiovascular. Ademais, é essencial a ingestão adequada de cálcio e vitamina D, bem como disciplinas não farmacológicas, como mudanças no estilo de vida e exercícios físicos. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Considerar a correlação entre a irregularidade de estrogênio pós-menopausa e a deterioração óssea auxilia na prevenção da osteoporose e de possíveis fraturas em mulheres. O conhecimento combinado a uma abordagem integrada e personalizada aprimoram tanto o tratamento, evitando efeitos adversos, quanto a prevenção. PALAVRAS-CHAVE: osteoporose; perda óssea pós-menopausa; gerenciamento clínico. ABSTRACT INTRODUCTION: Menopause triggers significant hormonal changes, particularly estrogen deficiency, which plays a crucial role in bone metabolism. OBJECTIVE: To understand the correlation between post-menopausal hormonal changes in the cause of osteoporosis, the most commonly used therapeutic approaches in treatment, and the best preventive strategies. METHODOLOGY: Data were collected in the PubMed database with the following descriptors: “osteoporosis”; “postmenopause”; “management” and “prevention”. The search resulted in 32 articles, of which 11 were selected based on the criteria of being review or systematic review articles, published in the last 10 years in the English language, available free of charge and related to the proposed theme. RESULTS AND DISCUSSION: Estrogen deficiency after menopause significantly compromises bone health, increasing the risk of osteoporosis and fractures. Treatment is primarily based on non-resorptive drugs, including bisphosphonates, selective estrogen receptor modulators (SERMs), and Menopausal Hormone Therapy (MHT). The importance of individually assessing the benefits and risks of these treatments, considering possible adverse effects, such as atypical femoral fractures and osteonecrosis of the jaw, should be highlithed. A personalized approach is crucial for post-menopausal women, taking into account risk factors, medical history, and cardiovascular health. Additionally, adequate intake of calcium and vitamin D is essential, as well as non-pharmacological approaches such as lifestyle changes and physical exercises. FINAL CONSIDERATIONS: Considering the correlation between postmenopausal estrogen irregularity and bone deterioration assists in preventing osteoporosis and potential fractures in women. Knowledge combined with an integrated and a personalized approach enhance both treatment, avoiding adverse effects, and prevention. 88 KEYWORDS: osteoporosis; postmenopausal osteoporosis; disease management. 1. INTRODUÇÃO A transição para a menopausa desencadeia mudanças hormonais significativas, particularmente a deficiência de estrogênio, que desempenha um papel crucial na regulação do metabolismo ósseo (Gregson et al. 2022). A ausência de estrogênio interfere no ciclo normal, aumentando a atividade de reabsorção osteoclástica sem um aumento correspondente na atividade osteoblástica, gerando um desequilíbrio que resulta em uma perda líquida de massa óssea (Tella & Gallagher, 2013). Entre as consequências da osteoporose, as fraturas de fragilidade ocupam um lugar de destaque, afetando frequentemente locais como os corpos vertebrais, o quadril, o rádio distal, do úmero e a pelve. Entre essas, a fratura de quadril se destaca como um evento particularmente grave e debilitante para os idosos, o que ressalta a osteoporose pós-menopáusica como um problema de saúde pública (Gregson et al. 2022). Dentre as causas da osteoporose, houve avanços em diversos aspectos como a compreensão das mudanças celulares que ocorrem na deficiência de estrogênio, as quais nos permitem agora discernir os mecanismos subjacentes a esse desequilíbrio. A produção aumentada de fator de necrose tumoral (TNF) e a sensibilidade elevada das células da linhagem estromal/osteoblástica ao IL-1, por exemplo, destacam-se como papéis centrais nesse processo (Tella; Gallagher, 2013). Ademais, mudanças relacionadas à idade no metabolismo do cálcio e da vitamina D são apontadas como um papel significativo na saúde óssea pós-menopausa, uma vez que geram um balanço negativo de cálcio, podendo haver uma perda média diária significativa (Tella; Gallagher, 2013). A respeito dos tratamentos, são utilizados diversos recursos farmacológicos e não farmacológicos, envolvendo aspectos como a reposição hormonal e a prática de exercícios físicos (Ong et al., 2022). Portanto, o objetivo deste capítulo é analisar em detalhes as implicações dessas alterações hormonais e metabólicas, bem como as formas de prevenção mais indicadas, com base nos achados da literatura científica. Assim, busca-se elucidar pontos 89 importantes no manejo da osteoporose na pós-menopausa e destacar estratégias eficazes para mitigar os riscos e promover a saúde óssea na vida da mulher idosa. 2. MATERIAIS E MÉTODOS Trata-se de uma revisão integrativa da literatura na qual utilizou-se o repositório de dados do PubMed para realização da pesquisa. Os descritores escolhidos foram: “osteoporosis”; “postmenopausa”; “management” e “prevention”, sendo todos combinados com o operador booleano “AND”. Ademais, o intervalo de tempo de 2014 a 2024, a gratuidade dos textos e o idioma inglês foram critérios de seleção dos textos. Inicialmente, foram encontrados 32 artigos, sendo excluídos os trabalhos que não se encaixavam em revisão ou revisão sistemática, que não apresentavam os descritores no título ou no resumo e que não discutiam a prevenção e o manejo da osteoporose na pós menopausa. Dessa maneira, foram selecionados 11 artigos que abordavam melhor a temática, sendo estes submetidos à leitura minuciosa para extração de dados. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO Diversos estudos já comprovaram a associação entre a deficiência de estrogênio, decorrente da pós-menopausa, e uma saúde óssea prejudicada. Isso ocorre devido ao aumento de perfurações trabeculares e à perda de massa óssea, que contribuem para a fragilização do esqueleto e, por conseguinte, o risco de osteoporose (Rozenberg et al., 2020). Logo, o risco e a incidência de fraturas nesse grupo passaram a ser uma das preocupações de pesquisadores, avaliando, principalmente, as lesões no quadril, nas vértebras e no pulso — a qual pode indicar um sinal de alerta para osteoporose em mulheres que passaram por uma menopausa recente. Nesse sentido, surgiram diversas medidas profiláticas e terapêuticas a fim de garantir a saúde da mulher e evitar maiores complicações relacionadas a essa condição. Entre os tratamentos farmacológicos, os agentes anti-reabsortivos são os mais utilizados e evitam a dissolução da estrutura mineral esquelética. Os bifosfonatos são, atualmente, o principal tipo de medicação aplicada, considerando suas limitações e sua 90 eficácia na prevenção de fraturas em 40% a 70% (Tella; Gallagher, 2014). Apesar disso, fraturas femorais atípicas (FFAs) e osteonecrose da mandíbula (ONM) são alguns dos raros efeitos adversos da terapia com bifosfonatos e, portanto, não devem ser subestimados. Assim, é importante assegurar que os benefícios na redução do risco de fraturas superem os riscos menores de FFAs e ONM durante todo o gerenciamento do paciente, determinando a duração ideal para o tratamento. Como os ensaios clínicos fundamentais geralmente têm um período limitado de três anos, as recomendações para interrupções e para uso prolongado do fármaco em questão são baseadas em evidências limitadas. Portanto, a reavaliação do tratamento em pacientes que estão sob uso de bisfosfonatos é essencial, sendo necessário avaliar individualmente os riscos e benefícios, já que não há uma diretriz padrão única para todos os casos (Gregson et al., 2022). Além disso, alguns pacientes possuem distúrbio de trato gastrointestinal superior ou não conseguem se adaptar à ingestão oral de bifosfonatos. Nesses casos, a substituição por clodronato pode ser uma opção adequada, tendo em vista sua resposta eficiente à osteoporose medida através de melhora na densidade mineral óssea (DMO) e marcadores séricos do metabolismo ósseo (Frediani et al., 2018). Outra possibilidade de tratamento farmacológico são os moduladores seletivos do receptor de estrogênio ou SERMs, os quais têm a capacidade de agir como estrogênios em determinados tecidos, enquanto exercem efeitos antiestrogênicos em outros. Um exemplo é o raloxifeno, que preserva a DMO, agindo como um agonista estrogênico no osso e no fígado. Ademais, ele é uma opção viável para mulheres que apresentam intolerância aos bifosfonatos, uma vez que não atua no endométrio e exerce um efeito antiestrogênico eficaz na mama (Tella; Gallagher, 2014). Outros SERMs conhecidos são o bazedoxifeno e o lasofoxifeno. Uma nova possibilidade medicamentosa também tem ganhado espaço entre as terapias de tratamento da osteoporose na pós-menopausa: é o denominado Complexo de Estrogênio Seletivo para Tecidos (TSEC). Essa alternativa promissora é capaz de, concomitantemente, aliviar os sintomas menopáusicos e reduzir o risco de perda óssea através da associação de bazedoxifeno a estrogênios conjugados (Palacios; Mejía Ríos, 2015). 91 A Terapia Hormonal da Menopausa (THM), por sua vez, consiste na administração de estrogênio isolado ou associado à progesterona para amenizar os sintomas característicos da pós-menopausa. No entanto, esse não é o único benefício da THM, pois um estudo com 27.347 mulheres pós menopausa entre 50 e 79 anos, promovido pela Woman's Health Initiative (WHI), identificou a ação positiva do estrogênio (combinado ou não à progesterona) na matriz óssea, reduzindo o risco de fraturas. Todavia, foi constatado um aumento na incidência de eventos cardiovasculares e câncer de mama para as pacientes com útero intacto submetidas a regime de CEE+MPA, o que ocasionou um declínio de seu uso e questionamentos em relação a sua segurança (Rozenberg et al., 2020). Dessa forma, essa terapia deve ser usada com cautela, em doses previamente estabelecidas, sendo indicada somente para aquelas com menos de 60 anos e com menos de 10 anos pós-menopausa. Também é relevante não possuir contraindicações — como tendência de perda ou fratura óssea. Sob outra perspectiva, um ensaio observou a influência do fármaco denosumabe sobre os telopeptídeos séricos e urinários, bem como sobre a fosfatase alcalina óssea. O resultado foi o aumento progressivo da DMO e redução de marcadores de remodelação óssea (MRO), apresentando ganhos mais expressivos quando comparado ao bifosfonato alendronato. Para o denosumabe, não foram reconhecidas, ainda, reações adversas ou aumento no risco de infecções, doenças cardiovasculares, câncer e hipocalcemia. O estudo a longo prazo, com 4.550 mulheres, obteve os mesmos resultados positivos, com menos de 10 casos de osteonecrose de mandíbula. A combinação com 20 µg do agente anabólico teriparatida diariamente com denosumabe 60mg semestralmente foi capaz de aumentar ainda mais a DMO (Reginster et al., 2014). Outra pesquisa, avaliou a satisfação e a preferência na adesão medicamentosa de alendronato e denosumabe a partir de um questionário, verificando a predileção pela injeção semestral de denosumabe ao tablete semanal do bifosfonato (Cairoli; Eller-Vainicher; Chiodini, 2015). Outrossim, foi estabelecida uma associação marcante entre a ingestão adequada de cálcio, a vitamina D e a DMO e, portanto, há indicativos de que esse combo possa contribuir para a prevenção da osteoporose (Ong et al., 2023). Entretanto, alguns estudos apontam que o cálcio em excesso eleva a chance de desenvolvimento de doenças 92 cardiovasculares. Logo, deve-se consumir entre 800mg e 1200mg de cálcio e 800IU de vitamina D por dia, visando prevenir o enfraquecimento ósseo sem comprometimento cardíaco (Kim et al., 2015). Quanto à intervenção profilática e terapêutica não farmacológica, podem ser implementadas mudanças no ambiente e no estilo de vida, prevenção de quedas, nutrição e dieta balanceadas e exercícios físicos, inclusive com exposição a máquinas de vibração de corpo inteiro (WBV, do inglês Whole Body Vibration) — a qual demonstrou melhora na DMO sob média a alta amplitude e magnitude, além de estimular o crescimento ósseo na frequência de 30Hz (Swe et al., 2016). Por fim, ressalta-se a necessidade de abordagens de tratamento individualizadas para mulheres com osteoporose na pós-menopausa. É crucial considerar os fatores de risco únicos de cada paciente, seu histórico médico e saúde cardiovascular ao desenvolver planos de tratamento personalizados (Gilbert et al., 2022). 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os estudos revisados destacam a complexa relação entre a deficiência de estrogênio pós-menopausa e a deterioração óssea, evidenciando o aumento do risco de osteoporose e fraturas em mulheres. A abordagem terapêutica por meio de agentes antireabsortivos, especialmente bifosfonatos, é comum, embora apresentem riscos potenciais, exigindo uma avaliação cuidadosa dos benefícios e riscos individuais. A utilização SERMs e THM oferecem alternativas, mas requerem uma abordagem cautelosa devido a possíveis efeitos adversos. Resultados promissores do fármaco denosumabe, particularmente em combinação com teriparatida, sugerem uma eficácia superior na melhoria da densidade mineral óssea com menor incidência de efeitos adversos. A importância da ingestão adequada de cálcio e vitamina D é destacada, porém é necessário cautela para evitar excessos que possam resultar em complicações cardiovasculares. Além disso, a implementação de intervenções não farmacológicas, como mudanças no estilo de vida, prevenção de quedas, nutrição equilibrada e exercícios físicos, inclusive com máquinas de vibração de corpo inteiro, oferecem abordagens adicionais para a manutenção da saúde óssea. 93 Portanto, a personalização dos planos prevenção e manejo é fundamental, levando em consideração os fatores de risco individuais, histórico médico e saúde cardiovascular das mulheres pós-menopausa com osteoporose. Este enfoque holístico contribuirá para uma gestão mais eficaz da condição, minimizando riscos e maximizando benefícios, promovendo assim uma melhor qualidade de vida para as pacientes. REFERÊNCIAS CAIROLI, E.; ELLER-VAINICHER, C.; CHIODINI, I. Update on denosumab in the management of postmenopausal osteoporosis: patient preference and adherence. Int J Womens Health, v. 13, n. 7, p. 833-839, oct 2015. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26508890/. Acesso em: 26 fev 2024. FREDIANI, B., et al. Clodronate in the management of different musculoskeletal conditions. Minerva Med, v. 109, n. 4, p. 300-325, aug. 2018. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29947493/. Acesso em: 26 fev 2024. GILBERT, Z. A., et al. Osteoporosis Prevention and Treatment: The Risk of Comorbid Cardiovascular Events in Postmenopausal Women. Cureus, v. 13, n. 4, p. e24117, apr. 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35573562/. Acesso em: 26 fev 2024. GREGSON, C. L, et al. UK clinical guideline for the prevention and treatment of osteoporosis. Arch Osteoporos, v. 5, n. 17, p. 1, apr. 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35378630/. Acesso em: 26 fev. 2024. KIM, K. M., et al. 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Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24176761/. Acesso em: 26 fev. 2024. 95 CAPÍTULO 9 TOXICIDADE E USO DAS DROGAS K NA ÚLTIMA DÉCADA: UMA ABORDAGEM INTEGRATIVA TOXICITY AND USE OF K DRUGS IN THE LAST DECADE: AN INTEGRATIVE APPROACH 10.56161/sci.ed.20240415c9 José Vinícius Soares da Costa Graduando em Farmácia pela Universidade Federal de Alagoas - UFAL Orcid ID do autor https://orcid.org/0009-0004-8421-7991 Thalmanny Fernandes Goulart Perito criminal na Secretaria de Segurança Pública do Estado de Alagoas Orcid ID do autor https://orcid.org/0009-0001-8932-3249 Maria Aline Barros Fidelis de Moura Professora associada IV na Universidade Federal de Alagoas - UFAL Orcid ID do autor https://orcid.org/0000-0002-8068-8946 RESUMO Introdução: As drogas K, conhecidos também pelos nomes de K2, K4, K9 ou “spice” têm sido reportadas erroneamente como canabinóides sintéticos (CS), entretanto, apesar dos efeitos causados pelas drogas K assemelharem-se àqueles causados pelo uso da cannabis, tais danos toxicológicos atingem um grau muito mais elevado no que tange a potência, intensidade e duração. Trata-se de um problema de saúde pública devido ao crescimento do consumo e das formas de uso, além de apresentar toxicidade indeterminada e da falta de informações sobre a farmacologia e as consequências do uso a longo prazo. Método: Consiste em uma revisão da literatura, do tipo integrativa, partindo de duas abordagens de revisão sistemática: uma sobre a toxicidade das principais substâncias bases para a síntese das drogas derivadas que compõem a K9; e outra abordagem acerca da epidemiologia do uso dessa droga no Brasil e no mundo. Resultados: Os dados coletados indicaram um crescimento acelerado do mercado ilegal, aliado a uma variabilidade química que dificulta a detecção dos compostos por métodos convencionais, além disso, os achados indicam efeitos adversos severos, ainda indefinidos ao longo prazo, mas que podem envolver danos a nível cerebral. O panorama de consumo no Brasil se assemelha ao resto do mundo, indicando um rápido crescimento dos casos de intoxicações nos últimos anos. Conclusão: É sabido que se trata de um desafio às autoridades mundiais e ainda carece de medidas de detecção, controle e 96 vigilância, como também de redução de danos. Dessa forma, o consumo de drogas K tem se tornado um problema de saúde pública significante. PALAVRAS CHAVE: drogas K; “spice”; redução de danos; metabólitos; toxicologia. ABSTRACT Introduction: K drugs, also known by the names K2, K4, K9 or “spice” have been erroneously reported as synthetic cannabinoids (CS), however, although the effects caused by K drugs resemble those caused by the use of cannabis, such damages toxicological effects reach a much higher level in terms of potency, intensity and duration. It is a public health problem due to the growth in consumption and forms of use, in addition to presenting undetermined toxicity and a lack of information on pharmacology and the consequences of long-term use. Method: It consists of an integrative literature review, based on two systematic review approaches: one on the toxicity of the main base substances for the synthesis of derivative drugs that make up K9; and another approach to the epidemiology of the use of this drug in Brazil and around the world. Results: The data collected indicated an accelerated growth of the illegal market, combined with chemical variability that makes it difficult to detect compounds using conventional methods. Furthermore, the findings indicate severe adverse effects, which are still undefined in the long term, but which may involve brain damage. . The consumption scenario in Brazil is similar to the rest of the world, indicating a rapid increase in poisoning cases in recent years. Conclusion: It is known that this is a challenge to global authorities and still lacks detection, control and surveillance measures, as well as damage reduction. Thus, the consumption of K drugs has become a significant public health problem. KEYWORDS: drugs K; “spice”; harm reduction; metabolites; toxicology. 1. INTRODUÇÃO As drogas K, conhecidos também pelos nomes de K2, K4, K9, “spice” ou incensos herbais, têm sido reportadas erroneamente como canabinóides sintéticos (CS), porém, na verdade são substâncias originadas a partir da alteração estrutural de moléculas previamente conhecidas, provenientes de outras drogas, tais como ópio, LSD, mecatinona e derivados de esteróides anabólicos (Alves et al, 2012). Apesar do acesso restrito e das limitações legais para o uso e manipulação dessas substâncias, a produção dessas misturas têm ocupado o cenário mundial em um ritmo extremamente acelerado, isso deve, sobretudo, ao fato de que alterações sutis na estrutura química desses compostos permite a formação de substâncias que não estão presentes nas listas de drogas ilícitas. A forma de uso mais comum destas combinações de ervas é por meio da pulverização em material botânico de origem diversa, neste sentido, as folhas secas servem como veículo para administração da droga, a qual, por este fato, ficou conhecida, 97 erroneamente, como “maconha sintética”. No entanto, trata-se de uma droga de origem sintética e que pode ser encontrada, também, sob a forma de spray, borrifadores líquidos e papéis impregnados e não necessariamente tem a cannabis como matéria prima precursora (UNODC, 2020). Os efeitos causados pelo uso das drogas K, apesar de se assemelharem àqueles causados pelo uso da cannabis, promovem danos toxicológicos que atingem um grau muito mais elevado no que tange a potência, intensidade e duração, independente da dose, isso se deve ao fato de que estas moléculas se caracterizam como agonistas completos de receptores do sistema endocanabinoide, porém com maior afinidade que o próprio Δ9tetra-hidrocanabinol (THC), assim, causando o agravamento dos efeitos tóxicos, tais como, ataques de pânico, taquicardia, hipotensão, arritmias cardíacas, perturbações cognitivas, dentre outras (Alves et al, 2012). As drogas K lideram o ranking de drogas detectadas através do Sistema de Alerta Rápido da União Europeia, em torno de 280 casos foram notificados em todo o mundo pelo Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e a Criminalidade. Além disso, o uso dessas substâncias está relacionado a casos de mortes e intoxicações de forma aguda, na Europa. No Brasil, em maio de 2016, a atualização da Portaria 344/98, do Ministério da Saúde, instituiu que as classes estruturais genéricas do grupo de novas substâncias psicoativas (NSP) estivessem presentes nas listas de substâncias proscritas, seguindo modelos internacionais, no intuito de adotar essa estratégia para a identificação e combate ao rápido surgimento dessas drogas (Alves et al, 2012). Sendo assim, é válido salientar de que trata-se de um problema de saúde pública devido ao crescimento do consumo e das formas de uso, aliado a esse fato, tem-se ainda a falta de informações sobre a farmacologia, a toxicidade e as consequências do uso a longo prazo, bem como, a imprevisibilidade para identificação das substâncias que compõem a droga por meio dos métodos analíticos convencionais, representando um desafio ao sistema de segurança pública e aos órgãos regulatórios no enfrentamento do problemas das drogas, no cenário contemporâneo (Câmara et al, 2020). 2. MATERIAIS E MÉTODOS Este estudo é constituído de uma revisão da literatura, do tipo integrativa, e sua metodologia partiu de duas abordagens de revisão sistemática: uma sobre a toxicidade das principais substâncias bases para a síntese das drogas derivadas que compõem a K9; e outra abordagem acerca da epidemiologia do uso dessa droga no Brasil e no mundo, por 98 meio da consulta pública dos dados registrados e divulgados pelos órgãos de fiscalização e controle dessas substâncias a nível mundial. É pertinente enfatizar que, a revisão integrativa é um método que pode contribuir na promoção de uma conexão entre a literatura empírica e teórica, como também aceitar variadas metodologias de estudos, facilitando uma abordagem ampla e a integração de múltiplos objetivos, o que justifica a escolha desse método para o presente estudo (Souza et al, 2010). A revisão de literatura que alicerça esta pesquisa seguiu os parâmetros do guia internacional PRISMA-ScR (Tricco et al, 2018). Inicialmente, a busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados National Library of Medicine (PUBMED) e Sciencedirect, obtendo-se um total de noventa e dois artigos. Como critérios de inclusão, nesta pesquisa, foram considerados estudos no formato de artigos de pesquisa e de revisão, excluindo-se aqueles que não abordassem o objetivo principal deste estudo, como também, não abordassem diretamente a caracterização e os efeitos tóxicos das drogas K. A busca no PUBMED foi realizada a partir dos seguintes descritores, em inglês e português: drugs K, synthetic cannabinoids, toxicology; aplicou-se o filtro de tempo de estudos completos publicados desde 2011 a 2024 e de livre acesso. No SCIENCE DIRECT aplicou-se o mesmo filtro de tempo, utilizando-se os seguintes descritores: drugs K, "spice", synthetic cannabinoids, toxicology, metabolites. 3. RESULTADOS Na base de dados PUBMED obteve-se um total de onze artigos, dos quais, um foi excluído previamente por duplicidade, um foi excluído pelo título, três foram excluídos pela leitura completa e três pela leitura do resumo, restando três artigos para inclusão na pesquisa. Em adição, a busca através do SCIENCE DIRECT obteve um total de oitenta e dois artigos completos, dos quais cinquenta e sete foram excluídos pelo título, quatorze foram excluídos a partir da leitura do resumo, quatro foram excluídos pela leitura completa e sete foram incluídos neste estudo. Os critérios de inclusão e exclusão para seleção dos trabalhos foram os mesmos em ambas as bases de dados consultadas e a relação de artigos encontrados podem ser visualizados na tabela 1, além disso, a contagem dos artigos após a seleção está registrada na figura 1. Tabela 1: Bases de dados utilizadas para pesquisa, palavras-chaves e números de artigos encontrados. BASE DE DADOS PALAVRAS-CHAVE NÚMERO DE 99 ARTIGOS PUBMED drugs K AND synthetic cannabinoids AND toxicology 11 SCIENCE DIRECT drugs K AND "spice" AND synthetic cannabinoids AND toxicology AND metabolites 82 Fonte: Autores, 2024. Figura 1: Fluxograma de seleção dos estudos PRISMA-ScR (Tricco et al, 2018). Fonte: Autores, 2024. Os estudos incluídos estão listados a seguir: (Abdulaziz A. Aldlgan, Hazel J. Torrance, 2011) Métodos bioanalíticos para determinação de canabinoides e metabólitos sintéticos em amostras biológicas. (Castaneto, 2014) Canabinóides sintéticos: epidemiologia, farmacodinâmica e implicações clínicas. (Armenian et al, 2018) Intoxicação pelos novos canabinóides sintéticos AB-PINACA e ADB-PINACA: Uma série de casos e revisão da literatura. 100 (Grigoryev et al, 2011) Estudos de cromatografia-espectrometria de massa sobre o metabolismo dos canabinóides sintéticos JWH-018 e JWH-073, componentes psicoativos de misturas para fumar. (Wiebelhaus et al, 2012) A exposição por inalação à fumaça de “maconha” sintética produz potentes efeitos canabimiméticos em ratos. (Peacock et al, 2019) Novas substâncias psicoativas: desafios para a vigilância, o controle e as respostas de saúde pública. (Schifano et al, 2021) Novas substâncias psicoativas (NPS) e início da síndrome serotoninérgica: uma revisão sistemática. (Tyndall et al, 2015) Um surto de delírio agudo devido à exposição ao canabinóide sintético AB-CHMINACA. (Errático et al, 2015) Metabolismo humano in vitro e in vivo do canabinóide sintético AB-CHMINACA. (Tai S, Fantegrossi WE., 2017) Efeitos farmacológicos e toxicológicos dos canabinoides sintéticos e seus metabólitos. Com base nos artigos incluídos nesta revisão da literatura, os metabólitos de maior prevalência nos estudos encontrados foram o JW-018 e seu homólogo JWH-073, ABCHMINACA e AB-PINACA, a nomenclatura desses compostos está associada ao seu descobrimento e é formada por códigos referentes a denominação de suas estruturas químicas, as nomenclaturas completas podem ser visualizadas na tabela 2. Tabela 2: Identificação dos canabinóides sintéticos. Nome Estrutura Nomenclatura química JWH-018 (naphthalen-1-yl)(1-pentyl-1H-indol- 3yl)methanone JWH-073 (naphthalen-1-yl)(1-butyl1H-indol-3yl)methanone 101 AB-CHMINACA N-(1-amino-3-methyl-1- oxobutan-2-yl)-1(cyclohexylmethyl)-1H- indazole-3carboxamide AB-PINACA N-(1-amino-3-methyl-1- oxobutan-2-yl)-1pentyl-1 H-indazole-3- carboxamide Fonte: adaptado de UNODC, 2020. Efeitos tóxicos e metabólitos das NSP. De acordo com Grygoriev et al, o metabólito ativo JWH-018 e seu homólogo butil JWH-073 possuem uma elevada afinidade para os receptores CB 1, estes se localizam predominantemente no Sistema Nervoso Central (SNC), do qual advém as respostas psicoativas, os compostos também mostraram uma afinidade cerca de quatro vezes mais potente do que o Δ9 -tetrahidrocanabinol. Pelos achados na literatura, cerca de 80–150 mg dessas misturas correspondem a aproximadamente 1–2,5 mg de JWH-018 e os seus efeitos psicogênicos são induzidos pelo consumo na forma fumada, deste montante, apenas uma quantidade menor é absorvida pelos pulmões. Ademais, a comprovação da ingestão de JWH-018 é feita a partir da detecção da forma nativa no sangue. De acordo com os autores, a detecção utilizando amostras de urina não teve sucesso, uma vez que, JWH-018 e JWH-073 são pouco solúveis em água e não produzem conjugados hidrofílicos (Grigoryev et al, 2011). No estudo de Armenian et al, a AB-PINACA é um metabólito derivado do ácido pentanóico e também se enquadram como agonistas completos tanto dos receptores CB1, quanto dos receptores CB2. Sua detecção esteve associada a dois pacientes com confusão, agitação e convulsões. Além disso, a toxicidade dessas substâncias foi o agente causador da taquicardia, hipertermia e psicose nos casos de pacientes incluídos no estudo. Os efeitos canabimiméticos foram avaliados por Wiebelhaus et al, em camundongos, obteve-se que esses efeitos estavam relacionados à dose e eram semelhantes aos da maconha, sobretudo, em magnitude e duração, mas foram reduzidos, significativamente, após administração de um fármaco antagonista CB1. Houve um aumento nos níveis de JWH-018 relacionados à dose no sangue, cérebro, coração, rim, 102 fígado, pulmão e baço. É válido destacar que, os canabinoides sintéticos se incluem também como Novas Substâncias Psicoativas (NPS) e a toxicidade destes metabólitos está associada a danos por sua ação no SNC, incluindo aqueles que envolvem, também, a atividade serotoninérgica, é o que aponta os achados de Peacock et al, quando relaciona o uso dessas drogas a ocorrência da síndrome serotoninérgica. Os resultados expostos por Tyndall et al, apontam que nem todos os metabólitos são identificáveis na sua forma pura, mas podem ser rastreados a partir de suas variantes. Entre os 21 pacientes, dos quais realizou-se exame de urina para detecção da substância de interesse, apenas 12 continham metabólitos previstos, mas nenhum continha o composto original AB-CHMINACA em sua forma pura. Isso se explica pela variabilidade destes compostos, tendo em vista que, a afinidade nas ligações e a seletividade dos canabinóides sintéticos aos receptores canabinóides, bem como aos receptores de potássio, nicotínicos e serotonina, podem ser os fatores responsáveis pelas diversas apresentações dos sintomas mais frequentes na intoxicação, desde taquicardia leve até psicose e morte (Tyndall et al, 2015). Os efeitos adversos comuns associados ao uso de CS não são frequentemente observados com Δ9-THC, como ansiedade e psicose. Em adição, alguns fatores podem contribuir para os efeitos adversos do uso dessas substâncias, sendo eles: (1) efeitos medicamentosos oriundos do uso de produtos comerciais à base de canabinoides, (2) variações lote a lote de concentração e conteúdo encontradas em produtos comerciais à base de canabinoides e (3) o uso de outras drogas simultaneamente ao uso dos CS, podendo levar à exacerbação dos efeitos adversos nesses usuários (Tai S, Fantegrossi WE., 2017). Detecção das NSP. De acordo com Abdulaziz et al, a respeito dos métodos de detecção dos canabinóides , a utilização de LC-MS/MS é mais adequada para detectar e quantificar CSs presentes em diferentes amostras biológicas - bem como, em produtos “Spice” ou “K2” e seus metabólitos - pois possui uma maior sensibilidade. Quanto às amostras biológicas, o sangue e a urina são a primeira escolha para testes de CSs e devem ser congeladas, quando for possível e os extratos das amostras devem ser analisados logo após a extração. O cabelo também pode ser usado como amostra alternativa para identificar a presença de fármacos (Abdulaziz A. Aldlgan, Hazel J. Torrance, 2011). 103 Panorama de consumo dos NPSs no Brasil e no mundo Conforme o relatório World Drug Report, organizado pela UNODC em 2022, 57 países relataram apreensões de NPS sintéticos em 2020, representando praticamente o dobro de apreensões da década anterior, deste total, os canabinóides sintéticos corresponderam a 20,3% (2.7ton.) do total dessas apreensões. Ainda de acordo com esse relatório, foi possível identificar 324 substâncias no grupo dos canabinoides sintéticos (UNODC, 2022). Ademais, de acordo com dados divulgados pelo relatório anual da EMCDDA, em 2012, grande parte das novas substâncias psicoativas que surgem no mercado europeu de drogas ilícitas são produzidas, majoritariamente, na China e na Índia, respectivamente (EMCDDA, 2012). Aliado a isso, o país que registra a maior prevalência de consumo é Estados Unidos da América (EUA). Na Espanha, em 2014, houve uma diminuição no nível de consumo de produtos como “spice” entre jovens, com taxas de prevalência de 0,8 % para consumo ao longo da vida; no Reino Unido também houve uma diminuição de 0,1% dos achados de consumo entre jovens no período de 2010 a 2012 (EMCDDA, 2017). Com relação ao padrão de consumo no Brasil, os dados da Superintendência de Polícia Técnico-Científica da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) identificaram um aumento no número de apreensões de NSP no Estado, de 73 em 2019 para 128 em 2022 (SAR, 2023). Em 2021, a detecção de canabinóides sintéticos nas apreensões pela Polícia Técnico-Científica de São Paulo registrou um número de 42% dessas substâncias, dos 1.274 casos analisados, como está ilustrado na figura 3 (SAR, 2022). Além disso, de acordo com dados do Relatório Epidemiológico do Programa Municipal de Prevenção e Controle de Intoxicações (PMPCI), no primeiro semestre de 2023, o total de casos suspeitos de Intoxicação exógena por canabinóides sintéticos foi de 416 casos (12,2% drogas de abuso), 411 desses casos foram atendidos dentro do próprio município. A faixa etária responsável pelo maior consumo no último ano foi de adultos de 20 a 39 anos, como é possível observar na figura 2 (Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 2023). 104 Figura 2: Notificações de casos suspeitos de Intoxicação Exógena por canabinóides sintéticos, segundo faixa etária, cidade de São Paulo, 2023. Fonte: Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 2023. Figura 3: Porcentagem de detecção de grupos de substâncias sintéticas pelo Núcleo de Exames de Entorpecentes da Polícia Técnico-Científica de São Paulo de janeiro a junho de 2021 (n = 1.274). Fonte: (SAR, 2022) 4. DISCUSSÃO A epidemia de drogas sintéticas é caracterizada pela rápida rotação das NSPs no mercado. Nesse sentido, estudos como esse servem como um potencial alerta de futuros surtos envolvendo uma toxicidade imprevisível, resultado da mistura das NSPs, produzidas indiscriminadamente em todo o mundo. Os efeitos a longo prazo ou residuais dessas substâncias são desconhecidos, devido a estas consequências para a saúde pública, muitas NSPs já são classificadas, no Brasil, como substâncias controladas, assim 105 registradas junto à Portaria 344. No entanto, a modificação estrutural frequente por laboratórios clandestinos resulta num fluxo de novas NSPs que podem não ser legalmente controladas ou detectáveis por testes laboratoriais de rotina (Castaneto, 2014). No âmbito global, as NSPs, como o “spice”, determinam um maior impacto à saúde pública. Alguns produtos vendidos no mercado ilícito como a Cannabis natural podem ser adulterados com NSPs potentes, favorecendo a ocorrência de casos de intoxicação, sem uma etiologia bem definida. Aliado a isso, extratos e produtos comestíveis de elevada potência têm sido associados a casos de intoxicação aguda nos serviços de urgência hospitalar (EMCDDA, 2023). Além disso, os efeitos adversos não são a única preocupação no problema das drogas, o Relatório Europeu sobre Drogas de 2023 destaca a importância crescente das drogas sintéticas, o aparecimento das novas substâncias psicoativas (NSP), as novas práticas de produção que movimentam o mercado da droga e o fato de que muitos efeitos deletérios, que estão relacionados ao consumo de droga são potencializados pelas interações entre drogas diferentes, que são consumidas em conjunto, de modo consciente ou não (EMCDDA, 2023). Em adição isso, o fato da grande variabilidade de composição química dessas drogas implica na existência de interações medicamentosas dentro e entre as diversas misturas de NSPs, o que pode contribuir para a potencialização dos efeitos tóxicos, quando estes compostos estão incluídos numa terapia medicamentosa, por exemplo (Tai S, Fantegrossi WE., 2017). Conforme afirmado por Peacock et al, os atuais meios de resposta às NSPs poderão se tornar obsoletos à sua finalidade num mundo em que diferentes substâncias podem ser rapidamente introduzidas no mercado ilegal e facilmente manipuladas. Tratase, além de tudo, de um desafio para ser enfrentado com as técnicas tradicionais de monitoramento, vigilância e controle de drogas. Sob este viés, é válido elencar alguns outros fatores que podem agravar o problema do crescimento exponencial na produção das NSPs, sendo eles: a velocidade com que entram e saem dos mercados de drogas; a desinformação e falta de conhecimento do conteúdo das substâncias; além do desconhecimento da potencialidade dessas substâncias e seu perfil de risco, ainda, pouco definido (Peacock et al, 2019). 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS O consumo de substâncias sintéticas psicoativas tem chamado a atenção de autoridades mundiais na última década, considerando as informações coletadas neste 106 estudo, observou-se que esse consumo das NSPs, está em crescimento por todo o mundo, e diversos fatores contribuem para o fomento a esse mercado ilegal, tais como, as próprias características específicas das drogas, o alto grau de variabilidade química, a facilidade na combinação de diferentes metabólitos, a utilização de diversos veículos para consumo da droga, como também o baixo custo do mercado ilegal na produção de entorpecentes e derivados sintéticos. É sabido que o uso de produtos como “spice” ou a droga K9, surgem como alternativa de escape ao seguimento da lei. As NSPs oferecem efeitos mais potentes, rápidos e intensos que o uso da Cannabis, com isso, o reforço no potencial de abuso referente a essas drogas se justifica pelo fato de grande parte das moléculas presentes nestas misturas, serem agonistas completos dos receptores CB1 e CB2, expressando uma afinidade, consideravelmente, maior que o próprio THC. Em contrapartida, oferecem também riscos mais severos e de alcance ainda desconhecidos pela literatura científica, tais como os danos cerebrais: o risco de psicose, a síndrome serotoninérgica, ocorrência de alucinações, o delírio e a euforia; além de outras manifestações clínicas, tais como: taquicardia, hipertermia e insônia. Ademais, levando em conta os riscos à saúde acarretados pelo uso dessas substâncias, é útil esclarecer a necessidade de estratégias de vigilância em saúde e monitoramento do uso, sobretudo, pela população mais vulnerável e aquela que concentra o maior número de casos, os adultos de 20 a 39 anos que possuem acesso ao mercado ilegal de drogas, por inúmeros meios, de acordo com modelos que se mostrem eficazes e de fácil acesso à população. Nesse sentido, é importante aprimorar e expandir o arsenal de técnicas de detecção dessas substâncias em diferentes amostras coletadas nas apreensões, uma vez que, a variabilidade química das NSPs dificulta a aplicação das técnicas convencionais de rotina, no contexto da toxicologia forense. Essa melhoria facilitaria o rastreamento, pelos órgãos de controle nacionais e internacionais a fim de dirimir a evolução do mercado ilegal. Além de contribuir para a promoção da saúde pública e da redução de danos no cenário de enfrentamento ao uso não-racional de substâncias psicoativas. REFERÊNCIAS ALDLGAN, A. A.; TORRANCE., H. J. Bioanalytical methods for the determination of synthetic cannabinoids and metabolites in biological specimens. Trends in analytical chemistry: TRAC, v. 80, p. 444–457, 2016. 107 ALVES, A. de O.; SPANIOL, B.; LINDEN, R. Canabinoides sintéticos: drogas de abuso emergentes: Synthetic cannabinoids: emerging drugs of abuse. Rev. Psiq. Clín., v. 39, nº 4, p. 142-8, 2012. Armenian P, Darracq M, Gevorkyan J, Clark S, Kaye B, Brandehoff NP. Intoxication from the novel synthetic cannabinoids AB-PINACA and ADB-PINACA: A case series and review of the literature. Neuropharmacology. 2018 ARMENIAN, P. et al. Intoxication from the novel synthetic cannabinoids AB-PINACA and ADB-PINACA: A case series and review of the literature. Neuropharmacology, v. 134, p. 82–91, 2018. CASTANETO, M. S. et al. 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Brasília: Ministério da Fazenda, Ministério da Saúde, Ministério da Justiça e Segurança Pública, CdE, UNODC, PNUD, 2023. 108 SCHIFANO, F. et al. New psychoactive substances (NPS) and serotonin syndrome onset: A systematic review. Experimental neurology, v. 339, n. 113638, p. 113638, 2021. SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE DE SÃO PAULO. Relatório Epidemiológico - PMPCI nº 062023. São Paulo: Secretaria Municipal da Saúde, 2023. SOUZA, M. T. DE; SILVA, M. D. DA; CARVALHO, R. DE. Integrative review: what is it? How to do it? Einstein (Sao Paulo, Brazil), v. 8, n. 1, p. 102–106, 2010. Tai S, Fantegrossi WE. Pharmacological and Toxicological Effects of Synthetic Cannabinoids and Their Metabolites. Curr Top Behav Neurosci. 2017; TAI, S.; FANTEGROSSI, W. E. Pharmacological and toxicological effects of synthetic cannabinoids and their metabolites. Neuropharmacology of New Psychoactive Substances (NPS). Cham: Springer International Publishing, 2016. v. 32p. 249–262. TRICCO, A. C. et al. 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Elsevier, 2015. 109 CAPÍTULO 10 FISIOTERAPIA NA ATENÇÃO BÁSICA DE SAÚDE: RELATO DE EXPERIÊNCIA PHYSIOTHERAPY PERFORMANCE IN THE BASIC HEALTH UNIT: EXPERIENCE REPORT 10.56161/sci.ed.20240415c10 Jéssica Rosalia Coelho dos Santos¹ Centro Universitário Paraíso - UniFAP Orcid ID do autor (https://orcid.org/0009-0008-8158-3004 ) Renata dos Santos Fernandes¹ Centro Universitário Paraíso - UniFAP Orcid ID do autor (https://orcid.org/0009-0008-6281-6802 ) Jennifer Ferreira Gomes¹ Centro Universitário Paraíso - UniFAP Orcid ID do autor (https://orcid.org/000009-0005-0886-2558 ) Kessler Pantaleão de Araújo Pereira Quinderé² Centro Universitário Paraíso - UniFAP Orcid ID do autor (https://orcid.org/0009-0007-2699-3943 ) RESUMO Introdução: A Atenção Primária à Saúde (APS) é o primeiro nível de atenção em saúde e se caracteriza por um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo, com o objetivo de desenvolver uma atenção integral ao usuário e à comunidade. Os fisioterapeutas são profissionais essenciais nas equipes de saúde e a APS tem se mostrado um importante espaço para a sua atuação. Objetivo: Descrever a experiência vivenciada por discentes da Graduação em Fisioterapia durante o Estágio Supervisionado na Atenção Básica. Métodos: Trata-se de um estudo descritivo do tipo relato de experiência, desenvolvido a partir das vivências adquiridas por três acadêmicas do nono período do Curso de Graduação em Fisioterapia da UniFAP, durante o Estágio Supervisionado na 110 Atenção Básica de Saúde, que ocorreu na unidade básica de saúde localizada em Juazeiro do Norte/CE. Resultados: Foram realizadas ações de Educação em Saúde e atendimentos domiciliares na comunidade. Tais ações foram assertivas e favoráveis tanto para os estagiários quanto para comunidade, ao se enfatizar o acolhimento em relação às dinâmicas relacionais entre alunos e pacientes, e também a efetividade do trabalho multidisciplinar para a educação em saúde. O estágio supervisionado na Atenção Básica trouxe grandes contribuições na construção do conhecimento compartilhado, desenvolvimento de diversas habilidades, olhar generalista, empatia com o paciente e visão crítica e reflexiva frente à realidade dos pacientes. Conclusão: Em suma, as práticas realizadas neste estágio permitiram que discentes tivessem a oportunidade de vivenciar na prática os aspectos teóricos estabelecidos na literatura, além de diversas situações que contribuíram para aprendizagem sobre a atuação da fisioterapia na Atenção Básica. PALAVRAS-CHAVE: Fisioterapia; Sistema Único de Saúde; Atenção Básica; Estratégia Saúde da Família; Educação em Saúde. ABSTRACT Introduction: Primary Health Care (PHC) is the first level of health care and is characterized by a set of health actions, at the individual and collective level, with the objective of developing comprehensive care for the user and the community. Physiotherapists are essential professionals in healthcare teams and PHC has proven to be an important space for their work. Objective: To describe the experience of undergraduate Physiotherapy students during the Supervised Internship in Primary Care. Methods: This is a descriptive study of the experience report type, developed from the experiences acquired by three academics from the ninth period of the Undergraduate Course in Physiotherapy at UniFAP, during the Supervised Internship in Primary Health Care, which took place in the unit basic health center located in Juazeiro do Norte/CE. Results: Health Education actions and home care were carried out in the community. Such actions were assertive and favorable for both the interns and the community, by emphasizing welcoming in relation to the relational dynamics between students and patients, and also the effectiveness of multidisciplinary work for health education. The supervised internship in Primary Care brought great contributions to the construction of shared knowledge, development of various skills, a generalist perspective, empathy with the patient and a critical and reflective view of the patients' reality. Conclusion: In short, the practices carried out in this internship allowed students to have the opportunity to experience in practice the theoretical aspects established in the literature, in addition to various situations that contributed to learning about the role of physiotherapy in Primary Care. KEY WORDS: Physiotherapy; Unified Health System; Primary Care, National Health Strategies; Health Education. 1. INTRODUÇÃO 111 Com o surgimento do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, evidencia-se a saúde como direito do cidadão e dever do Estado. No SUS, a integralidade é princípio para a integração de ações no campo do cuidado, de promoção e manutenção, prevenção e reabilitação em saúde, além de cura, redução de danos e cuidados paliativos (Brasil, 2017). Nesse ínterim, entre os profissionais que podem atuar no SUS estão os fisioterapeutas. Sabe-se, que a fisioterapia é uma ciência da saúde que estuda, previne e trata os distúrbios cinéticos funcionais intercorrentes em órgãos e sistemas do corpo humano, gerados por alterações genéticas, por doenças adquiridas e por traumas, efetivando sua atuação na Atenção Básica, na média e alta complexidade. Ela fundamenta suas ações em mecanismos terapêuticos próprios, sistematizados pelos estudos das ciências morfológicas, da biologia, das ciências fisiológicas, da bioquímica, das patologias, da biofísica, da cinesia, da biomecânica, da sinergia funcional, da cinesia patológica de órgãos e sistemas do corpo humano e as disciplinas sociais e comportamentais (Araújo; Soares, 2017). A atuação do profissional graduado em fisioterapia, ainda que esteja concentrado na reabilitação dos pacientes, mostra-se relevante nas equipes de saúde, desenvolvendo práticas interdisciplinares de prevenção, promoção e manutenção da saúde, mostrando seu valor no campo do SUS (Delai; Wisniewski, 2011). Especificamente, os profissionais graduados em fisioterapia por instituições de Ensino Superior reconhecidas possuem exclusividade na aplicação de métodos e técnicas fisioterapêuticas com o intuito de recuperar, promover e manter a capacidade física do paciente (Araújo; Soares, 2017). Estão incluídas em suas ações o planejamento, a organização, a coordenação, a execução e a supervisão de técnicas e métodos voltados para a saúde nos três níveis de atenção, além da avaliação e definição das condições de alta dos pacientes atendidos (Araújo; Soares, 2017). O SUS disponibiliza diferentes tipos de serviços de acordo com o seu nível de complexidade, visando atender às necessidades da população. Além disso, é importante ressaltar que o sistema é estruturado em três níveis de atenção à saúde no Brasil, os quais são definidos pela Portaria 4.279 de 30 de dezembro de 2010. Essa categorização é adotada para estruturar os cuidados e serviços disponibilizados e esse desdobramento objetiva preservar, restaurar e preservar a saúde da população, com imparcialidade, excelência e eficácia. É na Atenção Básica à saúde que se tem o primeiro e principal acesso do usuário ao SUS, onde a maioria das questões de saúde podem ser 112 solucionadas ou encaminhadas para atendimento na rede especializada (níveis intermediário e avançado), se necessário (Ministério da Saúde, 2022) Conforme informações do Ministério da Saúde (2022), as Unidades Básicas de Saúde (UBS) desempenham um papel essencial na promoção e prevenção de doenças, fornecendo serviços de atendimento e exames de rotina por equipes compostas por diversos profissionais de saúde. Além disso, as UBS colaboram com instituições públicas locais, como escolas e centros comunitários, por meio de visitas domiciliares e incentivo a práticas integrativas em saúde. Nesse sentido, é preciso garantir não apenas cuidados médicos, mas também uma relação próxima com os indivíduos, visando a melhoraria da qualidade de vida. A integração entre esses os níveis de atenção, juntamente com o atendimento em domicílio e o serviço de emergência SAMU 192, forma uma rede de saúde unificada (Ministério da Saúde, 2022). Considerando que a atenção primária é caracterizada como um conjunto de atividades de saúde, tanto em nível individual quanto coletivo, que abrange a promoção e prevenção de doenças, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação e a promoção da saúde (Tanaka, 2011), justifica-se a importância do fisioterapeuta estar presente nos diferentes graus de complexidade em que o paciente se encontra (Maia, 2024). Nesse cenário, o profissional fisioterapeuta pode atuar de diversas formas, buscando contribuir para a saúde do indivíduo, como: avaliações das funções musculoesqueléticas; estabelecimento de diagnóstico fisioterapêutico; interpretação de exames; prescrição da conduta terapêutica; delineamento de estratégias de intervenção, contribuição na elaboração de programas de qualidade de vida e principalmente em promoção de educação em saúde, corroborando assim para mudanças de hábito de vida por meios orientações aos pacientes, familiares e cuidadores (Maia, 2024). Destaca-se que ainda que há diversas atividades que podem ser realizadas pelo fisioterapeutas tais como ações de vigilância epidemiológica; atuação na saúde da mulher, principalmente com as gestantes; exercícios, alongamentos e orientações; promoção da saúde dos idosos, com objetivo de melhorar a postura, o estado físico e funcional, auxiliando assim na promoção e autoestima e bem estar, por meio do exercício e educação em saúde (Vale; Colovini, 2023). Em contrapartida, em um estudo realizado por Bim et al. (2021), as ações desenvolvidas pelos fisioterapeutas ficavam mais voltadas para assistência e reabilitação do que para promoção e prevenção em saúde. No entanto, além de atendimentos 113 individuais eram realizadas visitas domiciliares e trabalho em grupos, ações de promoção à saúde juntos com os demais profissionais para promoção do cuidado integral. O presente trabalho tem por objetivo descrever a experiência vivenciada por discentes da Graduação em Fisioterapia durante o Estágio Supervisionado na Atenção Básica. Especificamente, pretende-se apresentar a trajetória e as estratégias utilizadas por acadêmicas inseridas na UBS, e refletir a respeito da atuação da fisioterapia nesse cenário. 2. METODOLOGIA Trata-se de um estudo descritivo do tipo relato de experiência desenvolvido a partir das vivências adquiridas durante o Estágio Supervisionado I de Fisioterapia. Conforme Campo et al (2019), o relato de experiência é uma ferramenta descritiva que apresenta vivências de modo a contribuir relevantemente para a construção do conhecimento sobre a atuação profissional e comunidade científica. O Estágio Supervisionado na Atenção Básica de Saúde é ofertado na grade curricular do nono período da Graduação de Fisioterapia, no Centro Universitário Paraíso (UniFAP), Campus São Miguel/CE. Durante cinco meses, na disciplina do estágio, os alunos passaram por uma unidade básica de saúde, sob a supervisão direta do preceptor do Centro Universitário acima referido. As vivências ocorreram no período de fevereiro a junho de 2023, com carga horária de 100 horas. Nesse período foi possível praticar o cuidado integral aos pacientes na unidade, vivenciando de forma real a atuação profissional fisioterapeuta na Atenção Básica. Sob tal perspectiva, além da prestação direta dos cuidados com pacientes, os estagiários, tiveram oportunidade de estabelecer pensamento crítico e a tomada de decisão por meio de estratégias com resolução de problemas, discussão de casos clínicos com a equipe multiprofissional de saúde e realização da sistematização da assistência. A organização da equipe nesta Unidade é formada por um médico, uma enfermeira, uma dentista, um técnico de enfermagem, um auxiliar bucal, oito agentes comunitários de saúde. Estão presentes também um digitador, três porteiros, dois auxiliares de serviços gerais e um auxiliar administrativo. O horário de funcionamento da unidade é de segunda-feira a sexta-feira, das 07:30 as 11:30 e 13:30 as 17:30. A dinâmica do estágio foi dividida entre atendimentos domiciliares e atividades de promoção em saúde dentro da UBS. Os atendimentos fisioterapêuticos a domicílio ocorreram à medida em que a necessidade da assistência era sinalizada por meio das 114 agentes de saúde. Desse modo, semanalmente os pacientes eram atendidos duas vezes em suas residências, os materiais como theraband, pesos, entre outros, eram fornecidos pelo Centro Universitário. Após todas as atividades realizadas, semanalmente realizavam-se reuniões com os estagiários acerca das atividades realizadas, identificação de pontos positivos e negativos, reflexão crítica sobre o contexto, estudos de caso, seminários, novos planejamentos e propostas. As atividades na UBS tinham como intuito de promoção em saúde, realizadas em abordagem multiprofissional, juntamente com outros estagiários dos cursos de Nutrição e Enfermagem. Eram organizadas oficinas sobre Educação em Saúde, disseminando importância da alimentação saudável, exercícios físicos e nesses momentos também eram realizados alongamentos e avaliação de sinais vitais com os pacientes da comunidade. Todas as vivências foram registradas por escrito, para posterior análise das repercussões do processo vivenciado. O relato foi construído por discentes e docente que participaram do estágio, e faz a descrição dos fatos com o objetivo de contribuir com o compartilhamento de saberes, sem possibilidade de identificação individual. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados mediante aos atendimentos realizados nas residências dos pacientes durante o período de estágio, assim como o exercício de educação em saúde na UBS, foram assertivos e favoráveis tanto para os estagiários quanto para comunidade. No decorrer das experiências vivenciadas no estágio, destacou-se a importância dos atendimentos domiciliares, ao qual proporcionou resultados positivos para saúde e bem-estar dos pacientes e seus familiares, bem como agregou conhecimentos aos estagiários. Nesse contexto culminou-se em aprendizados de grande valia que viabilizaram, adquirir uma ampla visão sobre um campo de atuação extenso na fisioterapia, que são os atendimentos domiciliares. Além disso, possibilitou-se um aprofundamento do conhecimento diversificado sobre as patologias dos pacientes que foram atendidos, que incluíam AVC, bursite, paralisia cerebral, artroplastia, câncer de coluna entre outras. Dessa forma, essa ampla diversificação de casos clínicos proporcionou maior aporte teórico e prático sobre essas patologias, assim como o desenvolvimento de criatividade e adaptabilidade para atender os pacientes da melhor forma possível dentro da realidade de cada um deles. 115 Referente aos resultados dos pacientes durante seis meses de atuação, destaca-se a efetividade do atendimento pelas avaliações realizadas que incluíam desde a anamnese padrão, a testes ortopédicos, aplicação da goniometria e observação da biomecânica do paciente referente ao local de habitação, as avaliações foram feitas no contato primário e no ato de finalização para comparação de evolução clínica. Mediante a essa evolução foi notório o prognóstico positivo além da evidência de envolvimento dos pacientes com as condutas ofertadas. A exemplo, pacientes que na escala visual analógica (EVA) relatam intensidade alta de dor, ao decorrer das semanas foi possível avaliar melhora na intensidade de dor. Segundo Silva et al. (2023), a percepção subjetiva da dor é avaliada por meio da aplicação da escala EVA modificada, composta de uma linha horizontal numerada de 0 a 10, em que 0 representa nenhuma dor e 10 representa o nível máximo de dor experimentado pelo paciente. As condutas de destaque referente aos atendimentos, se ordenam dentro da cinesiologia padrão, ofertando benefícios através das necessidades individuais, dentre elas os objetivos eram ganho de força, ganho de amplitude, independência funcional no convívio familiar, manutenção das funções presentes e acolhimento humanizado para envolvimento familiar, paciente e profissional. A relação do fisioterapeuta com a saúde pública objetiva a visão da promoção e a prevenção, desde os acometimentos das patologias, até o processo de reabilitação (LATORRE et al., 2020). Aos pacientes em que o diagnóstico necessitava que os atendimentos fossem guiados pelos princípios da atuação em cuidados paliativos, os resultados foram obtidos através dos relatos dos próprios pacientes e de seus familiares, no qual o ponto determinante dos atendimentos era o conceito de integralidade atrelado a humanização. Por conseguinte, os pacientes se sentiam acolhidos e o momento da sessão de fisioterapia tornou-se algo bastante esperado por eles durante a semana. Os atendimentos humanizados foram norteados pela enfatização do preceptor do estágio, que salientava a necessidade e a importância da humanização durante os atendimentos de fisioterapia, o que entra em concordância com Carnut (2017), que destaca que as estratégias de humanização em saúde têm sido utilizadas para mitigar o impacto dos tecnicismos hegemônicos na assistência à saúde, no qual o desafio é promover a integralidade. A humanização é dar a devida importância à subjetividade do usuário como prioridade nas relações com os profissionais. 116 A respeito das oficinas de Educação Saúde em em realizadas na UBS, o maior aprendizado se deu pela interação dos estagiários de fisioterapia com os demais profissionais de saúde que estavam na unidade. No estágio de Fisioterapia comunitária o trabalho em equipe é grandemente incentivado e necessário para a qualidade dos atendimentos em todas as escalas de atuação em saúde, e o desenvolver satisfatório de educação em saúde com o envolvimento da comunidade. Para Fernandes e Fariaii (2021) o cuidado multiprofissional envolve profissionais de saúde que compartilham objetivos de saúde comuns e exercem esforços físicos e mentais para avaliar, planejar e cuidar, gerando valor agregado para o paciente, para a instituição e para a equipe. Os principais exercícios em educação em saúde foram pautados nas principais evidências clínicas que incluem as doenças crônicas com relevância em seus acometimentos, ao qual se destaca a hipertensão arterial e diabetes mellitus. Foram desenvolvidas oficinas dentro da contextualização multidisciplinar, relacionadas a importância dos exercícios físicos, assim como exemplos de aplicação no cotidiano e alimentação saudável, com o intuito de prevenir agravos clínicos e desenvolvimento das principais doenças crônicas. Desse modo, essas patologias de caráter crônico são altamente trabalhadas na educação em saúde por estarem relacionadas a causas múltiplas, surgimento gradual, apresentando períodos de longa ou indefinida duração e principalmente um prognóstico incerto, por isso são os principais focos de educação populacional, uma vez que, a conduta do indivíduo ao longo do tempo é fator determinante para os futuros acometimentos clínicos em destaque a possibilidade de geração de incapacidades funcionais. Através do estágio, o formando tem a oportunidade de aplicar em campo, as teorias estudadas em sala de aula, podendo trazer para a realidade tais estudos e práticas. A práxis da profissão não pode ser alcançada apenas por um dos lados, pois além dos aspectos teóricos, as práticas proporcionadas confere ao estágio supervisionado um importante papel na formação e qualificação dos discentes (Silva, 2019). 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Mediante ao exposto, as vivências e aprendizados no estágio supervisionado foi evidenciado o aprimoramento dos conhecimentos, bem como a otimização das condutas práticas, uma vez que a Atenção Primária proporcionou atendimento nas seguintes 117 esferas de atuação: Prevenção, promoção e recuperação da saúde. Evidencia-se, portanto, que, dentre as experiências proporcionadas, pode se destacar os atendimentos domiciliares que trouxeram a vivência e a possibilidade de adquirir conhecimento em uma área da fisioterapia que possui um grande campo de atuação e os benefícios que tal trabalho gerou aos pacientes. Posto isso, é cabível salientar a importância do fisioterapeuta na saúde da comunidade, sendo de grande valia dentro da UBS e em suas imediações, no qual, é notório que a carência desses profissionais geram impactos na saúde e bem-estar da comunidade. REFERÊNCIAS ARAUJO, R. F. SILVA, J. S. A HISTÓRIA DA FISIOTERAPIA: COMO A PROFISSÃO SE TORNOU O QUE É HOJE. 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A relação da hidroterapia na melhora do equilíbrio de idosos e na redução de quedas- revisão de literatura. In: MOSTRA ACADÊMICA DO CURSO DE FISIOTERAPIA, 18., 2020, [Anápolis]. Anais...[Anápolis], 2020. MAIA, F. E. da S.; et al. A importância da inclusão do profissional fisioterapeuta na atenção básica de Saúde. Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba, Sorocaba, São Paulo, v. 17, n. 3, p. 110–115, 2015. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/RFCMS/article/view/16292. Acesso em: 6 abr. 2024. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Atenção Primária e Atenção Especializada: Conheça os níveis de assistência do maior sistema público de saúde do mundo. 2022. Disponível em: <https://aps.saude.gov.br/noticia/16496.> Acesso em: 10 ago. 2023. Brasil. Ministério da Saúde (MS). Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). 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Cartilha sobre a atenção primária à saúde para fisioterapeutas. 2023. 119 CAPÍTULO 11 ESTRATÉGIAS DE HUMANIZAÇÃO NO CONTEXTO DO LABORATÓRIO CLÍNICO: UMA REVISÃO NARRATIVA HUMANIZATION STRATEGIES IN THE CLINICAL LABORATORY CONTEXT: A NARRATIVE REVIEW 10.56161/sci.ed.20240415c11 Hylarina Montenegro Diniz Silva Biomédica no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL)/UFRN/Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) https://orcid.org/0000-0003-1517-3353 Bruno Souza dos Santos Farmacêutico no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL)/UFRN/Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) https://orcid.org/0000-0003-4644-0047 Esmeralúcia Miriam Peixoto Farmacêutica-bioquímica no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL)/UFRN https://orcid.org/0009-0003-1794-4681 Gabriela Medeiros Araújo Biomédica no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL)/UFRN/Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) https://orcid.org/0000-0003-3561-6182 Guilherme Oliveira Firmino Biomédico no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL)/UFRN/Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) https://orcid.org/0009-0000-1302-5045 Juliana de Lima Silva Graduanda em Farmácia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) https://orcid.org/0009-0003-0658-8925 Vanessa Kelly Alves da Silva Marinho Farmacêutica no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL)/UFRN/Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) 120 https://orcid.org/0009-0000-2921-6882 RESUMO A humanização, no contexto dos laboratórios clínicos, remete à busca pela excelência técnico-científica unida ao cuidado humanizado. Em todo o processo laboratorial, a humanização deve se fazer presente, proporcionando não apenas respostas científicas, mas também respostas humanas, contendo acolhimento, proteção, respeito e compreensão. Apesar da relevância e do crescente número de estudos sobre o tema em outras áreas da saúde, a humanização é assunto escasso quando se trata de Medicina Laboratorial. O objetivo deste trabalho é abordar o tema da humanização no contexto do laboratório clínico, elencando estratégias de humanização que podem ser utilizadas nesses estabelecimentos de saúde. Este trabalho constitui uma revisão narrativa com foco na humanização em saúde no contexto dos laboratórios clínicos. Historicamente, os laboratórios focaram os seus esforços na padronização e monitoramento dos seus processos, principalmente para garantir a qualidade da fase analítica. No entanto, deve-se destacar que o atendimento humanizado vai além e deve garantir a união entre a qualidade do procedimento técnico e a do relacionamento que se desenvolve entre pacientes e profissionais. Na fase pré-analítica, estratégias de humanização incluem o atendimento acolhedor da equipe da recepção e coleta, uma ambiência voltada para acessibilidade e conforto, instalação de brinquedoteca e uso de brinquedos terapêuticos instrucionais. Na fase analítica, está relacionada à realização dos exames laboratoriais de acordo com normas científicas; além disso, é fundamental a implementação de estratégias para manter a visão da equipe de que seu trabalho faz parte de um contexto e que são essenciais para o bom atendimento ao paciente. Na fase pós-analítica, perpassa pelo cuidado na confecção e emissão do laudo laboratorial, na comunicação de resultados críticos e no sigilo das informações acerca dos pacientes e seus resultados de exames laboratoriais. Ressalta-se a relevância do tema e a necessidade de discutir estratégias de humanização no contexto laboratorial. PALAVRAS-CHAVE: Humanização da assistência; Laboratório Clínico; Assistência ao paciente. ABSTRACT Humanization, in the context of clinical laboratories, refers to the pursuit for technicalscientific excellence combined with humanized care. Throughout the laboratory process, humanization must be present, providing not only scientific responses, but also human responses, containing welcoming, protection, respect and understanding. Despite the relevance and growing number of studies on the topic in other areas of Health, humanization is a scarce subject when it comes to Laboratory Medicine. The objective of this study is to address the issue of humanization in the context of the clinical laboratory, listing humanization strategies that can be used in these healthcare establishments. This study constitutes a narrative review focusing on humanization in Health in the context of clinical laboratories. Historically, laboratories have focused their efforts on standardizing and monitoring their processes, mainly to guarantee the quality of the analytical phase. However, it should be noted that humanized care goes further and must guarantee the union between the quality of the technical procedure and the relationship that develops between patients and professionals. In the pre-analytical phase, humanization strategies 121 include welcoming service from the reception and collection team, an environment focused on accessibility and comfort, installation of a toy room and the use of instructional therapeutic toys. In the analytical phase, humanization is related to carrying out laboratory tests in accordance with scientific standards; furthermore, it is essential to implement strategies to maintain the team’s understanding that their work is part of a big context and that they are essential for good patient care. In the post-analytical phase, humanization involves care in preparing and issuing the laboratory report, communicating critical results and ensuring confidentiality of information about patients and their laboratory test results. The relevance of the topic and the need to discuss humanization strategies in the laboratory context are highlighted. KEYWORDS: Humanization of care; Clinical Laboratory; Patient care. 1. INTRODUÇÃO A Humanização no atendimento à saúde é mais do que um conceito, é um compromisso com a dignidade e o respeito ao próximo. Em consonância com a Política Nacional de Humanização (PNH) do Sistema Único de Saúde (SUS), entende-se que o cuidado humanizado está atrelado ao fortalecimento do comportamento ético, incorporando o cuidado técnico-científico ao acolhimento e ao respeito ao paciente como ser autônomo e digno (Brasil, 2010). No contexto dos laboratórios clínicos, portanto, a busca pela excelência técnico-científica deve se unir ao cuidado humanizado. Segundo a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n° 63 de 2011, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que dispõe sobre os Requisitos de Boas Práticas de Funcionamento para os Serviços de Saúde, os estabelecimentos de saúde devem desempenhar processos de trabalho complexos com qualidade, atrelando as Boas Práticas de Funcionamento à sua rotina. Dessa forma, laboratórios clínicos, como estabelecimentos de saúde, devem assegurar que os serviços sejam ofertados com padrões de qualidade adequados e seus profissionais, da recepção à equipe técnica, devem assumir a responsabilidade de agir no melhor interesse do paciente, oferecendo serviços de qualidade e que garantam a sua segurança. Com diversos setores e avanço tecnológico, os laboratórios clínicos contribuem para a assistência integral ao paciente, influenciando de 60 a 70% de todas as decisões médicas. Por meio de seu produto final, os laudos de exames laboratoriais, o laboratório contribui para a correta assistência ao paciente, estabelecendo ou adicionando diagnósticos compatíveis com a clínica, ou ainda auxiliando no estabelecimento de critérios para admissão, alta e conduta terapêutica (SBPC, 2020). 122 Mais do que técnica, um laudo de qualidade representa a assistência humanizada, desde o pedido do exame até a interpretação dos resultados. Nas fases pré-analítica, analítica e pós-analítica do processo de trabalho laboratorial, a humanização deve se fazer presente, proporcionando não apenas respostas científicas, mas também respostas humanas, contendo acolhimento, proteção, respeito e compreensão (Neufeld, 2016). A Política Nacional de Humanização, instituída em 2003, permeia todos os programas e políticas de saúde do SUS. Com princípios de aumento da abertura comunicacional, não dissociação entre gestão e atenção, e atuação conjunta de usuários e trabalhadores, a PNH promove a qualidade do atendimento e a valorização dos profissionais de saúde (Brasil, 2010). No entanto, em se tratando de Laboratórios Clínicos não são observadas diretrizes específicas. Dessa forma, o objetivo deste trabalho foi trazer à luz o tema da humanização no contexto do laboratório clínico, bem como elencar estratégias de humanização que podem ser utilizadas nesses estabelecimentos de saúde. 2. MATERIAIS E MÉTODOS Este trabalho constitui uma revisão narrativa com foco na humanização em saúde no contexto dos laboratórios clínicos. Primeiramente, propôs-se a construção de uma reflexão teórica em torno do conceito-chave que permitisse a formulação de um arcabouço teórico preliminar para a compreensão da humanização e, em seguida, a realização de um levantamento de estudos científicos produzidos no Brasil nos últimos dez anos. Os descritores utilizados para a busca foram “humanização” e “humanização em saúde”. Os estudos foram selecionados a partir das bases de dados Google Scholar, Scielo e Sciencedirect. O período de análise abrange os últimos dez anos. A coleta de dados foi realizada em março de 2024. A seleção dos artigos, teses e dissertações seguiu critérios rigorosos, incluindo a precisão de conceitos de humanização, intervenções para melhorias de processos humanizados e desafios relacionados à humanização. Os resumos foram submetidos a 123 uma análise criteriosa, sendo incluídos na pesquisa apenas aqueles que atendiam aos objetivos específicos deste estudo (Figura 1). Figura 1. Fluxograma referente às etapas de inclusão e exclusão dos estudos. Fonte: Autores, 2024. Para garantir a pertinência dos resultados, foram excluídos todos os estudos que não se alinharam estritamente com o escopo da pesquisa ou que foram publicados fora do intervalo de 2014 a 2024. Esse processo de seleção rigorosa visa assegurar a qualidade e a relevância dos dados compilados para uma abordagem atualizada sobre a humanização em saúde que pode ser aplicada aos laboratórios clínicos. Foram incluídos, pela relevância e pertinência, publicações do Ministério da Saúde relacionados à Política Nacional de Humanização e da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) independente do ano de publicação. A discussão foi organizada em duas etapas: a primeira compõe a reflexão teórica sobre humanização em saúde e a segunda compreende uma discussão sobre como a humanização faz parte do contexto laboratorial, abordando estratégias para a sua aplicação no laboratório clínico. 124 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO Humanização em saúde No âmbito da assistência à saúde, a humanização tradicionalmente se concentra em proporcionar um atendimento acolhedor, empático e respeitoso aos pacientes, reconhecendo sua individualidade, suas necessidades emocionais e suas preferências. Isso envolve desde o acolhimento na recepção até o cuidado durante o tratamento, buscando sempre promover a dignidade e o conforto daqueles que buscam cuidados (Brasil, 2010). No entanto, é essencial reconhecer que a humanização em saúde não deve se limitar apenas ao paciente. Os profissionais que trabalham nesse ambiente desempenham um papel crucial e, muitas vezes, enfrentam desafios e demandas significativas que afetam sua própria saúde física e mental. A humanização voltada para os profissionais de saúde engloba a criação de condições adequadas de trabalho que promovam o seu bem-estar e satisfação no ambiente laboral. Isso inclui aspectos como jornadas de trabalho equilibradas, infraestrutura adequada, recursos suficientes, apoio emocional e reconhecimento pelo trabalho realizado. A qualidade do ambiente de trabalho dos profissionais de saúde não apenas influencia diretamente sua própria saúde e satisfação, mas também afeta a qualidade do atendimento prestado aos pacientes. Profissionais sobrecarregados, estressados ou desmotivados podem encontrar dificuldades em oferecer um cuidado de qualidade, comprometendo assim a eficácia e a segurança dos serviços de saúde. Portanto, investir na humanização dos profissionais de saúde não é apenas uma questão de responsabilidade ética e moral, mas também uma estratégia fundamental para promover a excelência nos cuidados de saúde. Isso requer o reconhecimento por parte das instituições de saúde da importância de criar um ambiente de trabalho saudável e sustentável, que valorize e apoie seus colaboradores (Brasil, 2010). Humanização no contexto do laboratório clínico e estratégias para a sua aplicação O processo laboratorial é didaticamente dividido em três fases: a fase préanalítica, a fase analítica e pós-analítica. De forma simples, a fase pré-analítica se inicia com a solicitação do exame, perpassando pelo preparo do paciente para o exame e identificação, coleta, transporte e processamento da amostra a ser analisada. A fase 125 analítica compreende a análise propriamente dita, na qual se utilizam instrumentos e reagentes no setor técnico de um laboratório. Já a fase pós-analítica compreende a emissão do resultado do exame e a sua interpretação pelo responsável pela assistência (Shcolnik, 2019). Em todas as fases do exame laboratorial, a humanização pode e deve se fazer presente, levando ao entendimento por parte dos profissionais da necessidade de condutas e atitudes corretas e coerentes. A humanização na assistência: No campo da fase pré-analítica, pode prevenir, por exemplo, tratamentos com descortesia, negligências com o cadastro e com informações relevantes oferecidas pelo paciente, orientações equivocadas ou não orientações acerca dos procedimentos inerentes aos exames laboratoriais, emprego de material não descartável, imperícias e imprudências nos procedimentos de coleta e lesões pós-punção venosa. Na fase analítica, previne também a utilização de kits reagentes com validade vencida e/ou sem certificado de qualidade, o uso de equipamentos sem as checagens com calibradores e controles internos e inferências de resultados para amostras que não foram submetidas às análises devidas. Na fase pós-analítica, previne erros na confecção e liberação de laudos e a quebra de privacidade e/ou confidencialidade pelo uso ou revelação de informações particulares ou confidenciais do paciente sem a sua expressa autorização e/ou consentimento (Nefeuld, 2016, p. 94). A humanização, apesar de ser tema frequentemente abordado por diversas áreas da saúde, como Enfermagem, Medicina, Odontologia e Terapia Ocupacional (Gomes; Souza; Araújo, 2020; Freitas et al., 2022; Oliveira; Silva; Rocha, 2024; Aniceto; Bombarda, 2020), ainda é assunto escasso quando se trata da Medicina Laboratorial. Historicamente, os laboratórios clínicos, no Brasil e no mundo, focaram os seus esforços para uma padronização e monitoramento dos seus processos, principalmente no que se refere à qualidade da fase analítica. A realização de controles interno e externo de qualidade é obrigatória segundo resolução nacional – RDC n° 786, de 5 de maio de 2023 – e permite avaliar a precisão e exatidão das análises realizadas, possibilitando a detecção de erros aleatórios e sistemáticos. Adicionalmente, os laboratórios podem ainda participar de programas de acreditação, de forma voluntária, adequando seus processos a requisitos específicos, de forma a garantir a boa prática laboratorial e agregar valor ao seu atendimento (Shcolnik, 2019). 126 A adequação a resoluções, normas e requisitos está ligada ao compromisso com a qualidade e, portanto, com a minimização de erros laboratoriais. Tais compromissos, por sua vez, convergem para um objetivo fim que é a segurança do paciente, a qual também pode se considerar relacionada à humanização. Esta, no entanto, vai além. Um atendimento humanizado é aquele que está vinculado ao cuidado, a união entre a qualidade do procedimento técnico e a qualidade do relacionamento que se desenvolve entre pacientes e profissionais (Juppa; Cruz; Lauffer, 2021). A seguir, serão abordadas considerações e estratégias de humanização nas diferentes etapas do processo laboratorial. Humanização na fase pré-analítica A fase pré-analítica abrange as etapas do pedido do exame pelo solicitante, da preparação do paciente para a coleta da amostra biológica, do atendimento do paciente no laboratório para cadastro, da coleta propriamente dita da amostra e do processamento da amostra para a análise laboratorial. Esta é a fase que envolve um maior número de profissionais (solicitantes dos exames, profissionais da recepção do laboratório, flebotomistas, técnicos de laboratório responsáveis pelo processamento da amostra) e, por isso, está relacionada a uma maior porcentagem dos erros laboratoriais – em torno de 70% (SBPC, 2020). O primeiro contato do paciente com os profissionais da recepção corresponde à primeira etapa da fase pré-analítica que, de fato, ocorre no laboratório. Em geral, são os profissionais dessa área que oferecem as primeiras orientações ao paciente sobre a coleta de amostras biológicas (sobre a necessidade de jejum ou outras orientações para a coleta de amostras de urina, por exemplo) e que realizam o cadastro do paciente e dos exames a serem realizados. O atendimento humanizado nesta etapa é fundamental: a cortesia, a disponibilidade em auxiliar e a prestação de informações claras ao paciente, sanando suas dúvidas, podem influenciar as percepções dos usuários em relação ao estabelecimento (Pazini; Teixeira, 2018). Neste primeiro contato, em se tratando de atendimento na saúde, considerar que por trás de cada paciente, que terá seus exames realizados, há um histórico pessoal – que pode incluir medo, preocupação, angústia e insegurança – e buscar acolher, mesmo que colocando os limites necessários, é também humanizar o atendimento (Brasil, 2010). 127 É imprescindível ressaltar que o trabalho da equipe deve pautar-se pelo respeito às suas características étnicas, orientação sexual e de gênero, de modo a oferecer um ambiente que proporcione um acolhimento livre de discriminação (OPAS, 2007). Um estudo realizado em Unidades Básicas de Saúde no Piauí reportou uma série de iniquidades sofridas pelo público LGBTQA+ ao utilizarem os serviços do SUS, apontando a emergência na organização das redes de atenção à saúde, a fim de promover a inclusão da população LGBT em seus diversos equipamentos sociais, garantir o respeito e valorização à vida, facilitar práticas de equidade e desmistificar os mitos sobre as minorias sexuais (Ferreira et al., 2018). A Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), em um posicionamento conjunto com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR) (2019), trouxe informações e direcionamentos pertinentes para uma medicina diagnóstica inclusiva para o cuidado dos pacientes transgênero, reconhecendo que “a Medicina desempenha um papel muito importante e humano na promoção da saúde das pessoas que não se reconhecem no gênero designado ao nascimento”. Dessa forma, a adequação do laboratório para um atendimento humanizado que contemple as necessidades e demandas das pessoas trans é essencial e mandatório. A proposta de humanização em saúde, no Brasil, está intrinsecamente ligada à criação de uma nova cultura de atendimento, fundamentada na comunicação. Uma comunicação eficaz é uma importante ferramenta na promoção da saúde e essencial para o desenvolvimento de uma cultura de humanização (Ferreira; Artmann, 2018). Nesse sentido, o treinamento da equipe da recepção para o atendimento empático e para uma comunicação clara é de grande valia. Além de um treinamento de equipe, o laboratório deve ainda considerar as características sociais, culturais e educacionais do público atendido para garantir uma comunicação eficaz e, portanto, humanizada para com ele. O analfabetismo, em todas as suas nuances, por exemplo, pode prejudicar o atendimento integral ao paciente e deve, portanto, ser pensado e contornado no contexto do laboratório clínico que, em geral, fornece instruções escritas aos seus usuários. Estratégias como a diminuição de termos técnicos nas instruções escritas e/ou introdução de figuras ilustrativas para melhorar a comunicação com o paciente podem ser alternativas para o cumprimento de um atendimento integral (Oliveira, 2017). 128 Em se tratando de ambiência, tem-se que é no espaço arquitetônico que todas as relações acontecem e se realizam. A valorização da ambiência, com organização de espaços de trabalho saudáveis e acolhedores, compreende uma das orientações gerais da PNH (Brasil, 2010). Segundo Mendes (2021), há uma tendência prejudicial do campo da arquitetura para a saúde em supervalorizar a face tecnológica do ambiente de saúde, o que acaba por subestimar o caráter intrínseco do espaço arquitetônico como coadjuvante no processo de cura dos pacientes, bem como na promoção do bem-estar dos usuários em geral. Dessa forma, estratégias para tornar o design desses ambientes, que estão relacionados a níveis de estresse elevados, mais acolhedor são fundamentais para alcançar uma arquitetura realmente humanizada. E, para além do benefício do usuário paciente, a ambiência deve considerar a ergonomia e humanização nos espaços de saúde para com os profissionais, uma vez que suas atividades afetam direta ou indiretamente os pacientes (Mendes, 2021). Outros esforços relacionados à humanização e a arquitetura do laboratório clínico devem visar garantir uma boa acessibilidade e conforto ao paciente assistido conforme suas limitações físicas. Medidas para facilitar a mobilidade de pacientes idosos, como a instalação de corrimões e alças para mãos, podem viabilizar a integralidade do cuidado destes pacientes nos ambientes laboratoriais (Pulchinelli Junior; Cury Junior; Gimenes, 2012). É importante atentar-se ainda para a ergonomia do mobiliário utilizado nos setores, uma vez que também irá contribuir para a acessibilidade do ambiente. Em um estudo conduzido por Paz e colaboradores (2022), observou-se que apenas uma Unidade, dentre 11 avaliadas em um Hospital da rede pública do Paraná, apresentava o mobiliário com medidas em conformidade com a legislação vigente para o atendimento do paciente portador de obesidade, revelando uma falha no acolhimento desses pacientes que necessita ser trabalhada pelos estabelecimentos de saúde, incluindo o laboratório clínico. Com relação ao atendimento do público pediátrico, a instalação de brinquedotecas, no Brasil, passou a ser obrigatória em hospitais que oferecem atendimento pediátrico a partir de 2005, configurando-se brinquedoteca “o espaço provido de brinquedos e jogos educativos, destinado a estimular as crianças e seus acompanhantes a brincar” (Brasil, 2005). Considerando que o brincar pode auxiliar na liberação de emoções, como ansiedade, medo e raiva, envolvidas em procedimentos de saúde (Santana; Melo, 2022), a instalação de brinquedotecas em laboratórios clínicos com 129 a finalidade de humanizar o cuidado para pacientes pediátricos é válida, tendo em vista poder ser considerado ambiente estressor para muitas crianças. No que diz respeito à etapa da coleta da amostra propriamente dita (em geral, punção para a coleta de sangue venoso), da mesma forma que no primeiro contato, o acolhimento, uma comunicação clara e uma postura empática por parte dos profissionais são essenciais. Além disso, estratégias para minimizar o medo em relação ao procedimento podem ser consideradas estratégias de humanização. O uso de brinquedos terapêuticos instrucionais tem sido relatado como uma forma de apoio aos profissionais de saúde para o procedimento de punção venosa periférica em crianças, uma vez que proporciona a assimilação do processo por parte dessas, suavizando sentimentos negativos e auxiliando-as a enfrentar a situação com mais suavidade (Santana; Melo, 2022). Estratégias como essa facilitam a comunicação e interação do paciente pediátrico com o profissional e podem ser facilmente aplicadas no contexto do laboratório clínico. Em um estudo realizado por Juppa, Cruz e Lauffer (2021) com mães/responsáveis de pacientes pediátricos atendidos em um laboratório clínico para coleta de amostras mostrou que, na visão delas: A humanização no atendimento à criança envolve a formação de vínculo entre profissionais e usuários, o estímulo à participação dos pais/cuidadores na saúde da criança, o acolhimento e a disposição de espaços com condições físicas e de pessoal adequadas ao atendimento da criança (Juppa; Cruz; Lauffer, 2021). Além disso, foi evidenciado que a maioria das mães/responsáveis valorizavam um atendimento humanizado, no qual o profissional tem empatia e paciência com a criança, mas que também realize o trabalho com agilidade (Juppa; Cruz; Lauffer, 2021). Finalizada a etapa de coleta, na etapa de processamento de amostras – etapa que antecede a fase analítica –, a manipulação destas conforme normas científicas preconizadas e observando o sigilo do paciente são atitudes humanas e coerentes que se esperam de um profissional que exerça essa atividade. Humanização na fase analítica 130 A fase analítica compreende a fase na qual a análise propriamente dita é executada. Uma série de questões relacionadas à humanização podem ser abordadas nessa fase: a responsabilidade do analista clínico com a qualidade das amostras processadas, a calibração de equipamentos e a seriedade perante os controles de qualidade interno e externo. Essas ações impactam diretamente o resultado dos exames e, consequentemente, em sua efetividade em posteriores condutas clínicas. O comprometimento com a realização dos exames laboratoriais de acordo com normas científicas reconhecidas e publicadas e com um nível de competência e habilidade esperadas para a profissão são atitudes minimamente esperadas de profissionais de laboratório clínico (OPAS, 2007). Uma vez que lidam com amostras, técnicas e equipamentos, é comum julgar, de um modo geral, que profissionais das áreas de laboratório exercem suas funções de maneira mecânica. Se suas atividades, com o tempo, passam a ser realizadas de forma automática e impessoal, podem acabar levando a uma rotina de serviço na qual, apesar do objetivo final ser a assistência ao paciente, os profissionais não conseguem vislumbrar que seu trabalho faz parte de um contexto e que é importante ao bom atendimento ao paciente (Brasil, 2011a). Em uma iniciativa intitulada “Projeto Conhecendo Quem Faz”, conduzida no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (ICr – HCFMUSP), profissionais de áreas que não têm contato direto com os pacientes, como as áreas administrativas e de apoio (incluindo o laboratório clínico), passaram a receber visitas regulares de crianças e adolescentes internados na instituição, inicialmente com objetivo de esclarecer para essas crianças e adolescentes os processos que envolvem o seu tratamento clínico, mostrando as áreas responsáveis pela realização de exames e pelo fornecimento de medicações e materiais utilizados durante a sua internação. A ação, inicialmente voltada para os pacientes, auxiliando na compreensão do processo de hospitalização e consequente aceitação e adaptação ao ambiente hospitalar, mostrou impacto positivo também com relação aos profissionais das áreas visitadas. As visitas possibilitaram aos profissionais a reflexão e a sensibilização de que as atividades por eles realizadas rotineiramente são voltadas ao cuidado com o outro, e não meramente burocráticas ou técnicas. Profissionais do laboratório enfatizaram ainda que o contato direto com os pacientes foi capaz de mudar a sua forma de trabalhar, uma vez que passaram a ver os exames realizados não mais de maneira puramente técnica, mas com 131 mais humanidade e carinho (Brasil, 2011a). A iniciativa, deste modo, mostrou-se uma estratégia para o acolhimento de pacientes bem como para a motivação e satisfação dos profissionais em relação ao desenvolvimento de sua atividade rotineira, sendo, portanto, uma estratégia duplamente eficaz de humanização. Humanização na fase pós-analítica A fase pós-analítica inclui a emissão e transmissão e/ou comunicação do resultado do exame (Shcolnik, 2019). O conhecimento e a interpretação dos resultados pelo responsável pela assistência fazem parte do que hoje é chamada a fase pós-pósanalítica (Plebani, 2024). A fase pós-analítica é considerada etapa fundamental para alcançar uma maior qualidade e efetividade da informação laboratorial (Plebani, 2024). Uma execução atenta e humanizada nesta etapa visa assegurar um laudo laboratorial livre de erros e emitido em tempo hábil para garantir a integralidade do cuidado ao paciente (Shcolnik, 2019). Da mesma forma, a comunicação de resultados críticos – resultados que geram a necessidade de intervenção ou tomada de decisão imediata pelo médico assistente por poderem representar risco para a vida do paciente – se faz mandatória, devendo o laboratório realizá-la de maneira efetiva de modo a garantir o cuidado integral, e, portanto, humanizado, ao paciente (Shcolnik, 2019). O laudo laboratorial é o produto de todo o processo laboratorial. A apresentação dos resultados de exames laboratoriais deve conter todos os dados preconizados por resolução vigente, de modo a fornecer todas as informações necessárias para a sua interpretação (ANVISA, 2023). Historicamente, a maioria das recomendações, requisitos e informações a serem incluídos no laudo laboratorial foram desenvolvidos levando em consideração que o destinatário possui um letramento profissional em saúde (Plebani, 2024). No entanto, para além dos médicos, laudos laboratoriais também são apresentados aos pacientes e, embora não haja um modelo universal de laudo, é essencial que esses documentos sejam adaptados às necessidades e habilidades dos pacientes, de modo a serem apresentados de forma concisa e compreensível, utilizando uma linguagem acessível (Plebani, 2024). 132 Ademais, estas recomendações estão em conformidade com a Carta de Direitos dos Usuários da Saúde (Brasil, 2011b), a qual apresenta como um dos direitos do usuário do SUS o acesso a quaisquer informações necessárias sobre o seu estado de saúde de maneira clara, objetiva, respeitosa e compreensível; além disso, sem limitação de acesso por barreiras físicas, tecnológicas e de comunicação. Por fim, preconiza-se o respeito à confidencialidade dos dados do paciente e dos resultados de seus exames laboratoriais. É importante reforçar que os resultados de exames laboratoriais pertencem ao paciente e podem ser compartilhados com o profissional solicitante do exame, ou aqueles que o paciente permita o acesso, desse modo, o cuidado com os dados pessoais e sensíveis faz parte da ética profissional, representando o cuidado e a manutenção da dignidade do paciente (OPAS, 2007). Vale ressaltar que, salvo em casos de risco à saúde pública, o respeito ao sigilo e confidencialidade das informações pessoais deve perdurar mesmo após o falecimento do indivíduo (Brasil, 2011b). 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS O cuidado centrado no paciente torna o serviço de assistência em saúde mais humanizado. Devido à importância dos exames laboratoriais para o cuidado em saúde dos pacientes, dentro do contexto de laboratório de análises clínicas, tem-se a importância de implementação, melhoria contínua e novas metodologias que levem a realização de um atendimento satisfatório, competente, eficiente e empático para o usuário e o prestador da assistência. É importante que sejam implementadas medidas que visem um melhor acolhimento do paciente, minimizando a sensação de desconforto inerente ao temor quanto ao seu próprio estado de saúde, primando pelo seu conforto e bem-estar. Além disso, iniciativas que promovam a reaproximação do corpo técnico do laboratório ao paciente são relevantes para conscientizá-lo que suas ações vão para além da mera análise técnica, e que sua atividade fim é a assistência ao paciente. Ademais, é importante que o laboratório preze pelo respeito ao paciente e às informações a ele prestadas, respeitando sempre o direito à informação sem prejuízo à confidencialidade dos dados sensíveis dos usuários. Não menos importante, é imprescindível garantir o cuidado humanizado dos profissionais atuantes na área: a criação de condições adequadas 133 de trabalho que promovam o seu bem-estar e satisfação no ambiente laboral é uma estratégia fundamental para promover a excelência nos cuidados de saúde. REFERÊNCIAS AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução – RDC nº 63, de 25 de novembro de 2011. Dispõe sobre os Requisitos de Boas Práticas de Funcionamento para os Serviços de Saúde. Brasília, DF, 2011. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2011/rdc0063_25_11_2011.html. Acesso em: 29 de março de 2024. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução – RDC nº 786, de 05 de maio de 2023. Dispõe sobre os requisitos técnico-sanitários para o funcionamento de Laboratórios Clínicos, de Laboratórios de Anatomia Patológica e de outros Serviços que executam as atividades relacionadas aos Exames de Análises Clínicas (EAC) e dá outras providências. Brasília, DF, 2023. Disponível em: https://antigo.anvisa.gov.br/documents/10181/5919009/RDC_786_2023_.pdf/d803afbc59c1-4dc2-9bb1-32f5131eca59. Acesso em: 28 de março de 2024. ANICETO, B.; BOMBARDA, T. B. Cuidado humanizado e as práticas do terapeuta ocupacional no hospital: uma revisão integrativa da literatura. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, v. 28, n. 2, p. 640-660, 2020. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Cadernos HumanizaSUS, volume 3: Atenção hospitalar. Brasília: Ministério da Saúde, 2011a. BRASIL. Ministério da Saúde. Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde. 3. ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2011b. BRASIL. Ministério da Saúde. 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Acesso em: 30 de março de 2024. 136 CAPÍTULO 12 ANÁLISE COMPARATIVA DA IMPLEMENTAÇÃO DO PROTOCOLO DE SEGURANÇA DO PACIENTE COMPARATIVE ANALYSIS OF THE IMPLEMENTATION OF THE PATIENT SAFETY PROTOCOL 10.56161/sci.ed.20240415c12 Vania Ribeiro de Holanda Xavier Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0003-2764-5450) Ana Carla Silva Alexandre Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0002-5754-1778) Cláudia Sorelle Cavalcanti de Santana Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0009-0008-0068-7910) Pryscilla Morganna Cavalcanti de Santana Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0009-0009-5033-9065) Marta Almeida Galindo de Souza Freitas Unidade Pernambucana de Atenção Especializada de Belo Jardim Orcid ID do autor (https://orcid.org/0009-0000-1835-6978) Taciana Rodrigues Barbosa Unidade Pernambucana de Atenção Especializada de Belo Jardim Orcid ID do autor (https://orcid.org/0009-0006-1386-6331) Thallyta Juliana Pereira da Silva Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0001-5954-9418) Alícea Lorrany Félix Da Silva Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0001-5273-6210) Tyago Acácio Ferreira de Andrade Feitosa 137 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0002-9537-9177) Maria Eduarda Cavalcanti Vieira Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0001-8881-3740) RESUMO Objetivo: investigar a aplicação protocolo de segurança do paciente nos diversos setores de um hospital geral de média complexidade. Metodologia: estudo transversal de abordagem quantitativa, realizado entre agosto de 2019 e julho de 2020, nos setores de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), Clínica Médica Masculina e Feminina, Maternidade, Sala Vermelha, Sala Amarela e Pediatria. O instrumento utilizado foi checklist norteado pelos protocolos básicos do Programa Nacional de Segurança do Paciente. A coleta de dados constitui-se mediante observação da assistência prestada aos usuários por profissionais dos sete setores, a partir da aplicação de um instrumento adaptado. O estudo seguiu as recomendações acerca dos aspectos éticos relacionados a pesquisas com seres humanos. Resultados: a análise observacional totalizou 251 usuários que estiveram internados na unidade hospitalar. o estudo evidenciou respostas positivas a respeito da adoção e aplicação do protocolo de Segurança do Paciente nos setores hospitalar, porém exibiu a presença de fragilidades em alguns itens no qual o protocolo recomenda. Conclusão: evidenciou-se que o reconhecimento e aperfeiçoamento dos profissionais em seguir com rigor todos os itens que compõem o protocolo de Segurança do Paciente e o controle dos riscos possibilita avanços significantes na assistência segura e diminuição dos danos causados aos usuários e contribui também para a redução dos custos financeiros. PALAVRAS-CHAVE: Segurança do Paciente; Qualidade, Acesso e Avaliação da Assistência à Saúde; Equipe de Assistência ao Paciente ABSTRACT Objective: to investigate the application of patient safety protocols in the different sectors of a medium-complexity general hospital. Methodology: cross-sectional study with a quantitative approach, carried out between August 2019 and July 2020, in the Intensive Care Unit (ICU), Male and Female Medical Clinic, Maternity, Red Room, Yellow Room and Pediatrics sectors. The instrument used was a checklist guided by the basic protocols of the National Patient Safety Program. Data collection consists of observing the assistance provided to users by professionals from the seven sectors, based on the application of an adapted instrument. The study followed recommendations regarding ethical aspects related to research with human beings. Results: the observational analysis totaled 251 users who were admitted to the hospital unit. the study showed positive responses regarding the adoption and application of the Patient Safety protocol in hospital sectors, but showed the presence of weaknesses in some items that the protocol recommends. Conclusion: it was evident that the recognition and improvement of professionals in rigorously following all the items that make up the Patient Safety protocol and risk control enables significant advances in safe care and reduction of harm caused to users and also contributes to the reduction of financial costs. KEYWORDS: Patient Safety; Health Care Quality, Access, and Evaluation; Patient Care Team 1. INTRODUÇÃO 138 A Segurança do Paciente (SP) é conceituada como a redução ao mínimo aceitável de danos desnecessários ao paciente e nas últimas décadas é uma problemática de grande repercussão nacional e internacional. Este aspecto torna-se imprescindível para as organizações e serviços de saúde, pois o nível de segurança na assistência prestada por um serviço reflete em sua qualidade. Em âmbito científico, a segurança do paciente expandiu-se no século XXI de maneira expressiva e fundamental para a conquista de uma qualidade no serviço de saúde (Brasil, 2014; Serafim et al., 2017; Neves et al., 2018). A Organização Mundial de Saúde (OMS) ao longo dos anos tem apresentado os problemas relacionados à SP como uma prioridade; em 2004 lançou a Aliança Mundial para Segurança do Paciente. Após esse marco, o Brasil em 2013 lançou o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), no qual estabelece como conceito a diminuição, a um nível aceitável, do risco de dano desnecessário associado à atenção à saúde (Brasil, 2013; 2014). O sistema de saúde mundial, por meio da OMS, a fim de fornecer uma assistência segura e de qualidade, estabeleceu internacionalmente seis metas para diminuição dos incidentes de segurança relacionados ao cuidado, entre as quais se aponta: 1-identificação correta do paciente; 2-comunicação efetiva entre os profissionais de saúde; 3-melhora da segurança dos medicamentos; 4- cirurgia segura; 5- redução dos riscos de infecção ao cuidado; 6- redução dos riscos de quedas e lesão por pressão (Tres et al., 2016). A implementação de práticas seguras, entretanto, ainda apresenta fragilidades devido às complexidades dos sistemas de saúde. Estes obstáculos são provenientes de fatores individuais, profissionais, tecnológicos, terapêuticos e organizacionais (Vincent; Amalberti, 2016). Diante desta conjuntura, os desafios para a consolidação da segurança do paciente estão nas estratégias utilizadas nos serviços de saúde para a disseminação de uma cultura organizacional (Santos et al., 2018). Nesse sentido, é fundamental que os profissionais utilizem estratégias eficazes que contribuam para a detecção e prevenção das ocorrências de danos aos usuários. Assim, a OMS criou os protocolos básicos de SP, integrantes ao PNSP, instrumentos que facilitam e promovem informações, orientações e técnicas relacionadas à SP; ações que permeiam todos os envolvidos no processo do cuidado: paciente, profissional e gestor (Brasil, 2017). Compreende-se a importância do acompanhamento das ações de segurança do paciente, por meio da implantação e implementação de medidas de execução dos protocolos nas unidades de saúde. Desse modo, o objetivo do estudo foi 139 investigar a aplicação protocolo de segurança do paciente nos diversos setores de um hospital geral de média complexidade. 2. MATERIAIS E MÉTODOS Estudo transversal de abordagem quantitativa, realizado entre agosto de 2019 e julho de 2020, nos setores de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), Clínica Médica Masculina e Feminina, Maternidade, Sala Vermelha, Sala Amarela e Pediatria de hospital público de média complexidade. A instituição referida é um hospital geral de média complexidade, considerado de referência para VI Gerência Regional de Saúde, além dos municípios de Pesqueira e Belo Jardim. O hospital conta com 576 profissionais cadastrados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), e 104 leitos no total, sendo 06 complementares, 08 cirúrgicos, 49 clínicos, 22 obstétricos e 19 pediátricos. A população se formou por observação de todas as assistências de profissionais prestadas aos usuários internados na unidade de estudo. Na composição da amostra incluiu prontuários de usuários maiores de 18 anos, internados na unidade no período de coleta de dados. Foram excluídos da amostra os dados de usuário em que haja impossibilidade de acesso à observação do profissional e/ou análise de prontuários em respeito aos princípios éticos. Para o cálculo amostral utilizou-se informações do DATASUS - Ministério da Saúde para definir o peso amostral inicialmente para a unidade de uma forma geral e posteriormente selecionada por setores. Nesse sentido considerou o tamanho da população, a proporção de realização do protocolo de segurança do paciente, margem de erro e o nível de confiança. A população correspondeu à média de internamento do referido hospital no ano de 2018 que totalizou 723,75 pacientes; foi aceito o intervalo de confiança de 95%, com margem de erro de 0,05. O resultado da amostra final compôs o total de 251 observações de assistência prestada à usuários internados (Brasil, 2019). Esse número foi dividido ao número de admissões nos setores de estudo: Unidade de Terapia Intensiva (UTI), clínica médica masculina, clínica médica feminina, maternidade, sala vermelha, sala amarela e pediatria. A coleta de dados constitui-se mediante observação da assistência prestada aos usuários por profissionais dos sete setores descritos acima, a partir da aplicação de um instrumento adaptado de Amaya, 2016 que compreende as etapas de identificação de ações mínimas de segurança do paciente. O instrumento utilizado foi checklist norteado 140 pelos protocolos básicos do Programa Nacional de Segurança do Paciente; contém itens de checagem, elaborados em forma de pergunta seguida de ação de prevenção ou correção, organizada em seis categorias de segurança: riscos cirúrgicos, infecção, quedas, desenvolvimento de lesões por pressão, identificação do paciente e administração de medicamentos. Procedendo a tabulação de dados no pacote estatístico SPSS versão 20.0 que também serviu como ferramenta de análise. Utilizou-se testes paramétricos de T student para analisar a diferença de médias. Para as variáveis qualitativas foi aplicado o teste de Qui-quadrado para verificar associação e considerado o intervalo de confiança de 95%. A pesquisa foi aprovada no comitê de ética da Autarquia Educacional de Belo Jardim- PE sob 3.240.609 em consonância com aspectos éticos determinados na Resolução 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO A análise observacional totalizou 251 usuários que estiveram internados na unidade hospitalar, conforme tabela 1. Quanto ao setor de internamento com mais usuários destacou-se as enfermarias que compreendem clínica médica masculina e feminina com 76% da amostra estudada, o sexo feminino predominou em 54% do público. Entre os pacientes, 90% não apresentavam alergia a nenhum medicamento e apenas 4% possuíam alergia a dipirona, medicamento bastante utilizado no ambiente hospitalar. O acesso ao quadro clínico e sociodemográfico dos pacientes possibilita subsídios para que a assistência seja prestada de acordo com a singularidade de cada usuário de modo a atingir integralidade a cada indivíduo, visto que, também propicia um raciocínio clínico aos impasses que estão presentes no desenvolvimento das ações realizadas por enfermeiros que são fundamentais para alcançar maior qualidade nos processos de saúde e potencializam manejo com segurança ao paciente (Portella et al., 2017; Silva et al., 2016). Tabela 1. Distribuição das características hospitalares e saúde em hospital público VARIAVEIS SETOR DE INTERNAMENTO UTI Enfermarias Maternidade N (%) 10 (4,0%) 191 (76,1%) 30 (12,0%) 141 Emergência SEXO Feminino Masculino TOTAL TIPOS DE ALERGIAS Dipirona Penicilina Outros Nenhuma Fonte: Arcoverde (PE), Brasil, 2019-2020. 20 (8,0%) 135 (53,8%) 116 (46,2%) 251 (100%) 10 (4,0%) 1 (0,4%) 15 (6,0%) 225 (89,6%) A respeito da classificação de risco, apenas 15,9% dos pacientes foram identificados. Reconhece a presença da implementação do protocolo de SP e de fragilidade quanto ao preenchimento das demais informações pertinentes. É crescente o surgimento das evidências sobre a influência da identificação do paciente na redução dos Eventos Adversos (EA) por apresentar-se como o primeiro passo para o desenvolvimento correto da execução de várias etapas no processo da assistência na saúde e garante que não haja equívocos no reconhecimento ao paciente que necessita do serviço a ser prestado (Macedo et al., 2017). Quanto à identificação das infusões 57,8% não se aplicavam devido ao paciente não fazer uso de nenhuma infusão e 42,3% faziam uso, destes, aproximadamente 30% das infusões não possuíam identificação, um evento que pode acarretar a enganos na administração das medicações, uma vez que, a identificação é uma exigência para assegurar ao paciente o uso correto da sua medicação evitando à ocorrência de EA relacionado ao erro de medicamentos (Brasil, 2013). Em relação à prevenção de quedas, 70% dos leitos possuíam sinalização do grau de risco de queda, porém a predominância de não elevação das grades compareceu 50% das observações. Além do mais, a orientação acerca do risco da queda para o paciente ou acompanhante correspondeu 20% apenas, dessa forma, destaca-se fatores agravantes que mostram fragmentação na aplicação do protocolo. A queda retrata o terceiro EA mais notificado e frequente no Brasil, sustenta o aumento das morbimortalidades, do período de internamento e consequentemente nos acréscimos aos custos assistenciais, comprometendo também a qualidade de vida dos pacientes na sua vivência no intra e no extra-hospitalar (ANVISA, 2015). A exposição de solução alcoólica próxima ao leito sobressaiu em 98% de não aderência a prática, que indica maior precursor de risco para infecção. As estratégias de 142 higienização das mãos são apontadas com frequência pelos órgãos de saúde com a finalidade de minimizar as ocorrências decorrentes das infecções transpassadas pelas mãos dos profissionais e dos pacientes. Esse resultado reflete a importância da adoção e estimulação das recomendações sobre a disponibilização de soluções para higienização das mãos próxima ao paciente que é uma medida simples e bastante eficaz (Santos et al., 2014). As lesões por pressão (LPP) são bastante comuns nos indivíduos que possuem movimentação reduzida ou estão acamados por períodos longos, nos pacientes observados nesse estudo, 47% apresentaram risco para LPP e apenas 8,8% dos casos estavam sinalizados quanto ao grau de risco. A LPP se manifesta como um dos principais eventos adversos que ocorrem nos serviços em saúde e requer uma atenção maior da equipe de cuidados, a introdução dos planos de assistência realizada pelos enfermeiros precisa levar em consideração a singularidade de cada paciente e utilizar os recursos essenciais para a manutenção da pele integra (Duarte et al., 2015). A tabela 2 detalha as informações acerca da análise dos registros referente a segurança do paciente. Tabela 2. Análise dos registros referente à segurança do paciente nos setores hospitalares VARIÁVEIS Paciente Identificado? A identificação está legível? A identificação contém duas ou mais informações? Classificação de risco identificada? Paciente é alérgico? Se é alérgico, está identificado? As infusões estão identificadas? Sinalizado o grau de risco de queda? Paciente/acompanhante orientado sobre o risco de queda? As grades estão elevadas? Sim(%) Não(%) 210 (83,7%) 209 (83,3%) 193 (76,9%) 40 (15,9%) 27 (10,8%) 41 (16,3%) 42 (16,7%) 49 (19,5%) 192 (76,5%) 117 (46,6%) 24 (9,6%) 8 (3,2%) 30 (12,0%) 177 (70,5%) 49 (19,5%) 111 (44,2%) 76 (30,3%) 74 (29,5%) Solução alcoólica próximo ao paciente? 6 (2,4%) Apresenta risco para úlcera por pressão? 118 (47,0%) 202 (80,5) 126 (50,2%) 245 (97,6%) 133 (53,0%) Não se aplica(%) Não informa(%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 9 (3,6%) 0 (0,0%) 19 (7,6%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 107 (42,6%) 219 (87,3%) 145 (57,8%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 14 (5,6%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 143 Sinalizado o grau de risco? 22 (8,8%) Apresenta úlcera por pressão? 15 (6,0%) Paciente em Pré-operatório? 0(0,0%) Paciente em jejum? Sítio cirúrgico demarcado? Tipagem Sanguínea realizada? 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 229 (91,2%) 236 (94,0%) 251 (100%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0(0,0%) 0 (0,0%) 0(0,0%) 0 (0,0%) 0(0,0%) 251 (100%) 251 (100%) 251 (100%) 0(0,0%) 0(0,0%) 0(0,0%) Fonte: Arcoverde (PE), Brasil, 2019-2020. 5. CONCLUSÃO O estudo evidenciou respostas positivas a respeito da adoção e aplicação do protocolo de SP nos setores hospitalar, porém exibiu a presença de fragilidades em alguns itens no qual o protocolo de SP recomenda. É indispensável para o controle dos riscos o reconhecimento e aperfeiçoamento dos profissionais em seguir com rigor todos os itens que compõem o protocolo para possibilitar avanços significantes na assistência segura e diminuição dos danos causados aos usuários que contribui também para a redução dos custos financeiros. Apesar dos avanços na melhoria do cuidado na saúde, a qualidade da assistência ainda é afetada devido aos EA existentes que reflete tanto sobre os profissionais e gestores, quanto para os próprios pacientes. Há obstáculos para a garantia da SP no ambiente hospitalar, mas é necessário ressaltar o benefício que a comunicação entre a equipe multidisciplinar, o engajamento dos gestores em proporcionar ações educativas a respeito da assistência livre de danos e incentivar a interação em um ambiente harmonioso, propicia melhores progressos no trabalho em equipe e oportunizar uma assistência em saúde com mais qualidade e efetivação. REFERÊNCIAS ANVISA- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Boletim segurança do paciente e qualidade em serviços de saúde. Incidentes relacionados à assistência à saúde, Brasília (DF): ANVISA; 2015. Acesso em: 21 Jul 2020. 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Trata-se de estudo transversal, exploratório de abordagem qualitativa, desenvolvido em uma Unidade Básica de Saúde, no município de Pesqueira– Pernambuco, Brasil, no período de agosto a setembro de 2019. Quanto à percepção e entendimento do processo de imunização pelo cuidador e aos demais aspectos neles envolvidos, optou-se por subdividir as entrevistas em três categorias: Conhecimento dos cuidadores sobre o processo de Imunização: A compreensão sobre o processo de vacinação ocorre de forma limitada pelos cuidadores, pois eles apenas entendem que vacinar é importante. Dificuldades no processo de imunização da criança: O que mais prevaleceu, foi à falta de informação, à distância até o serviço de saúde e a falta muitas vezes da própria vacina. Práticas do cuidador no processo de imunização: Nesta categoria observa-se que as práticas adotadas pelos cuidadores no processo de imunização da criança acontecem de maneira bastante empírica. Diante do exposto nesse trabalho foi observado que a maioria dos cuidadores sabem a importância da vacinação, no entanto tem informações inadequadas sobre as práticas no processo de imunização. PALAVRAS-CHAVE: Imunização; Saúde Pública; Saúde da Criança; Cuidadores. ABSTRACT The study aimed to identify the main factors that influence the caregiver in the child's immunization process. This is a cross-sectional, exploratory study with a qualitative approach, developed in a Basic Health Unit (UBS), in the municipality of Pesqueira Pernambuco, Brazil, from August to September 2019. Regarding the perception and understanding of the immunization process by the caregiver and the other aspects involved in them, it was decided to subdivide the interviews into three categories: Knowledge of caregivers about the Immunization process: Understanding about the vaccination process occurs to a limited extent by caregivers, as they only understand that vaccination is important. Difficulties in the child's immunization process: What prevailed most was the lack of information, the distance to the health service and the lack of the vaccine itself. Caregiver practices in the immunization process: In this category, it is observed that the practices adopted by caregivers in the child's immunization process happen in a very empirical way. In view of what was exposed in this study, it was observed that most caregivers know the importance of vaccination, however, they have inadequate information about practices in the immunization process. KEYWORDS: Immunization; Public health; Child health; Caregivers. 1. INTRODUÇÃO 148 A imunização é caracterizada por intervir de forma preventiva na saúde das crianças, pois é importante na eficácia para erradicar doenças imunopreveníveis na infância (Barbieri et al., 2017). Por se tratar de um processo que tem como um dos principais atores, o cuidador, para a caracterização da prevenção, é de suma importância que este conheça e respeite o esquema vacinal, uma vez que o atraso ou a não vacinação pode levar a vários prejuízos à saúde da criança (Fernandes et al., 2015). As políticas públicas de vacinação foram criadas a partir da implantação do Programa Nacional de Imunização (PNI), em 1975, instaurado pela lei n° 6.259, de 30 de outubro de 1975. Essa lei regulou as notificações compulsórias de doenças e agravos à saúde e as ações de vigilância epidemiológica e vacinação no país, para que, a partir disso, indicadores de saúde fossem criados para traçar planos e estratégias de erradicação dessas doenças e agravos à saúde (Barbieri et al., 2017). No entanto o serviço não pode impor ao cuidador, o ato de vacinar, no entanto, a Constituição Federal em seu art. 5°, II, dispõe que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei1-3. Na lei 6.259/75 em seu artigo terceiro, foi definido que as vacinações devem ser de caráter obrigatório. O serviço é oferecido gratuitamente pelos órgãos e entidades públicas, como também pelo setor privado, com fiscalização de forma descentralizada na instância Federal, Estadual e Municipal (Brasil, 1975). Considera-se cuidador a pessoa que zela pelos principais direitos, bem-estar, saúde, alimentação, higiene pessoal, educação, cultura, recreação e lazer da pessoa assistida, essa pode ser de qualquer faixa etária. Este cuidador pode ser alguém da própria família ou comunidade. O principal papel do cuidador é auxiliar seus dependentes no cuidado, além de desenvolver as atividades que ele não consegue realizar sozinho (Brasil, 2008). O conhecimento, por parte dos cuidadores, acerca da temática imunização é indispensável, pois a criança estar sob sua total dependência. Alguns cuidadores, sem a experiência dos efeitos nocivos da não vacinação, não dão importância ao processo de imunização dessa criança (Fernandes et al., 2015). O estudo apresenta nitidamente benefícios para o conhecimento profissional acerca dos entraves enfrentados pelos cuidadores no processo de imunização da criança. Nesse contexto, os profissionais, juntamente com a rede de saúde, poderão planejar e implementar estratégias para minimizar esses entraves (Brasil, 2018). Diante da relevância da temática e dos desafios atuais para a Saúde Coletiva e das particularidades 149 do contexto brasileiro, este estudo tem como objetivo identificar os principais fatores que influenciam o cuidador no processo de imunização da criança. 2. MATERIAIS E MÉTODOS Trata-se de estudo transversal, exploratório de abordagem qualitativa, desenvolvido em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), no município de Pesqueira – Pernambuco, Brasil, no período de agosto a setembro de 2019. A UBS foi selecionada, pois é referência no que refere a imunização no município atendendo tanto a zona urbana quanto rural. A população da pesquisa foi composta por cuidadores que buscavam o serviço de saúde para imunizar as crianças. Os critérios de inclusão foram cuidadores que possuíssem idade igual ou superior a 18 anos, que durante a coleta de dados estivessem com a caderneta de saúde da criança (CSC) em mãos, acompanhassem crianças de até 10 anos de idade e usufruíssem dos serviços da unidade básica de saúde. A amostra final foi composta por 30 participantes. Os dados foram coletados mediante uma entrevista semiestruturada e diário de campo do pesquisador, a entrevista foi composta por variáveis de aspectos demográficos do cuidador (sexo, idade, escolaridade, estado civil e parentesco) e variáveis divididas em três categorias: entendimento sobre processo de imunização da criança, principais entraves vivenciados durante o processo de imunização e as práticas aplicadas pelo cuidador após a imunização. As entrevistas foram gravadas em sala reservada e em seguida, foram transcritas para o instrumento de coleta de dados. Durante as entrevistas o pesquisador se manteve sem intervir nas respostas dos entrevistados. Antes de responder as entrevistas os entrevistados tiveram que ler e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os dados levantados nas entrevistas foram complementados com o diário de campo do pesquisador, para preservar o anonimato dos cuidadores foram utilizados códigos no decorrer do texto C1, C2 e assim sucessivamente. A análise dos dados se deu por meio da análise de conteúdo de Bardin. Houve uma pré–análise do conteúdo através de transcrição e leitura dos instrumentos. Posteriormente, ocorreu uma exploração dos dados, a partir das unidades de registro (diário de campo e recortes de entrevistas) e seleção dos relatos mais frequentes. Por fim, realizou-se a 150 interpretação dos dados, com relevâncias aos pontos que atendem aos objetivos do estudo (Campos et al., 2018). A investigação atendeu aos requisitos preestabelecidos na resolução 466/2012, do Ministério da Saúde, referente ao desenvolvimento de pesquisa científica envolvendo seres humanos, resguardando os princípios éticos da justiça, beneficência e da não maleficência sob parecer nº 3.554.711 e Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) 11773419.0.0000.5189. 3. RESULTADOS A tabela 1 apresenta as características sociodemográficas dos 30 entrevistados. Observa-se que 60% tinham entre 20 a 35 anos, 86,67% eram do sexo feminino e 63,67% deles eram casados. No que concerne a escolaridade, 56,67% afirmaram ter concluído o segundo grau. Quanto ao grau de parentesco, 86,67% dos cuidadores eram mães das crianças. Tabela 1. Perfil sociodemográfico dos cuidadores, Pesqueira - PE, Brasil, 2019. Variáveis Sociodemográficas Frequência % (n=30) Faixa Etária <20 20 a 35 >35 23,33 (7) 60, 00 (18) 16,67 (5) Sexo Masculino Feminino 13,33 (4) 86,67 (26) Estado Civil Casado Solteiro 63,33 (19) 36,67 (11) Escolaridade Alfabetizada Fundamental Incompleto Fundamental Completo Médio Incompleto Médio Completo Superior Incompleto Superior Completo 3,33 (1) 23,33 (7) 10,00 (3) 0 56,67 (17) 3,33 (1) 3,33 (1) Parentesco 151 Mãe Pai 86,67 (26) 13,33 (4) Fonte: elaboração própria, Brasil, 2019. Em relação aos conhecimento dos cuidadores sobre o processo de imunização, observou-se que a compreensão sobre o processo de vacinação ocorre de forma limitada pelos cuidadores, pois eles entendem somente que imunizar é importante, mas apresentam dificuldades em descrever essa importância e benefícios, como podemos observar nas falas a seguir: “O processo de vacinação é importante né, dentro do mundo que nós vivemos hoje, principalmente com tanta doença. Então a imunização é sempre importante, estar com todas as vacinas, para o processo de imunização dele.” “Compreendo assim, que é uma coisa importante e que não devemos deixar de vacinar, porque é para a saúde deles, dói porque eles choram dá uma peninha, através da vacinação, quando eu a tive, eu não conseguia amamentar, mas disseram que era bom amamentar, porque ela fica protegida também”. (C1- C18) Um dos cuidadores informa que não entende o motivo da vacinação, uma vez que é sofredor para a criança conforme discurso abaixo: “Não sei por que vacina os meninos e eles ficam doentes do mesmo jeito? Mas, dizem que tem que vacinar, só que nunca dei as vacinas certas nos meus filhos não, só vim hoje, porque disseram que era para não pegar sarampo”. (C27) Dois cuidadores relataram o não conhecimento sobre os benefícios da imunização, e esse ocorre em razão da não informação por parte dos profissionais no ato da vacinação: “Tenho não, porque eles não explicam, quando venho vacinar meu filho”. “Eu sei que é para prevenir de doenças, só que era para eles avisarem, para que serve, porque não somos da área, aí dificulta entender”. (C23, C24) 152 Na percepção dos cuidadores mediante os entraves encontrados no processo de imunização houve divergências, alguns participantes afirmaram não encontrar nenhum problema, por outro lado prevaleceram algumas dificuldades como a falta de informação, a distância até o serviço de saúde e a falta muitas vezes da própria vacina, como podemos observar nos relatos a seguir dos cuidadores: “Eu acho que às vezes a falta de informação, porque por exemplo, a da gripe mesmo, a pessoa vacina contra a gripe, mas, o pessoal fala a vacina contra a gripe mas, acaba ficando gripado. Parece que a vacina da gripe não dá resultado. Mas na verdade é um vírus, que está ali sempre presente na sua vida 24 horas e você pode ficar doente sim, e isso não significa que você não deve tomar, digamos que gripe é uma doença comum, vamos dizer assim, que pode levar a morte também”. “Sei que criamos uma resistência ás vezes mas, é porque o profissional não explica nada sobre”. “Sim, porque onde eu moro é longe e tenho que caminhar à pé,e ás vezes não dá para vir”. (C2, C12, C15, C17, C18, C19, C21, C24, C26 e C27) Sobre os entraves vivenciados no processo de imunização, dois pontos relevantes foram destacados, o manejo dos profissionais com a criança no ato vacinal e a técnica da aplicação da vacina, como percebe-se a seguir: “Muitas vezes a vacina deixa a criança chatinha e o profissional não acalma a criança, não ajuda brincando com ela, principalmente quando é várias vacinas. Por isso que não gosto às vezes de vir, fazer o que né ?!". “A dificuldade que eu encontro é em não poder vacinar meu filho no posto pois, o homem que aplica acho ele muito bruto e muitos reclamam, por isso eu vacino meu filho aqui neste posto”. “Eu não encontro muitas não, só algumas vezes que a gente vai no posto aí tá sem vacinação, aí manda voltar, aí volta, aí tá de novo sem, aí tem que vir de novo”. (C4, C16, C10, C23, C24 e C27) No tocante as práticas do cuidador no processo de imunização, evidenciou-se que acorrem de forma empírica, uma vez que, demonstram dúvidas de que condutas adotar antes e após a imunização. Como podemos observar nas narrativas abaixo: “Bom, geralmente as pessoas, isso são os outros que falam do remédio antes da vacina, que já ameniza a dor mas, eu nunca dei, que até então, dá o paracetamol a ela, dá um banho nela depois que chegar em casa não terá reação nenhuma mas, isso é besteira porque depois da vacina é que tem que ver se pode. Eu faço isso com ela, aliás com meus dois filhos mas, não dá em nada”. 153 “Olha é muito falado sobre não amamentar, porque dizem que se amamentar antes da vacinação pode ser que der algum problema como o bebê chorar muito, aí eu procuro não amamentar deixo um tempo e depois amamento, mas, isso aí é muito relativo de quem aplica, porque tem gente que fala que não é bom, como também tem gente que fala que é bom para acalmar a criança, então acho que vai muito do momento”. (C10, C15, C20, C21, C24 e C30) Alguns dos entrevistados referem colocar compressas no local de aplicação da vacina como também fazem administração de antitérmicos com ou sem orientação de algum profissional. Mediante os relatos o medicamento mais utilizado foi o paracetamol como vemos a seguir: “Antes eu dou remédio só para amenizar as dores e depois se ele tiver febre ou continuar irritadinho é que contínuo dando paracetamol, a pediatra sempre aconselha a gente dá um antitérmico né?! Paracetamol normalmente e após a vacinação boto gelo e utilizo compressas frias”. (C1-C19, C22, C27 e C29) Dois cuidadores relataram que fazem com que a criança, faça a ingesta de chás com ervas para acalmar, porém expressa que não ver muita diferença no comportamento da criança: “Dizem que dar chá é bom né?! Mas eu não vejo diferença e depois a mãe dele dá dipirona quando tem, quando não faz um chazinho de camomila para ver se melhora”. “Chazinho de camomila para acalmar, mas, não sei se serve mesmo e o peito.” (C24, C28) 4. DISCUSSÃO O Brasil é um modelo mundial de organização pública de saúde, pois conseguiu erradicar muitas doenças por meio das vacinas, como por exemplo a varíola e a poliomielite. A vacinação é uma técnica que necessita de bastante cuidado. Por esse motivo, é essencial que haja uma assistência qualificada para evitar potenciais eventos adversos associados (Rocha et al., 2015). A aplicação das vacinas deve ser executada por profissionais que, entre outros, conheçam as técnicas necessárias e estejam aptos a lidar com possíveis intercorrências inerentes ao processo, procedem também como testes para verificar o risco de reações adversas entre outros (Brasil, 2014). 154 O município deve contribuir de forma significativa para prevenir as taxas de morbidade, tendo que cumprir com alguns objetivos ao processo de vacinação, como: intensificar as campanhas de vacinação, realizar a vacinação das campanhas previstas, desenvolver trabalho de acompanhamento de vacinação, gerenciamento de estoque de vacinas, organização dos imunobiológicos e acondicionamento adequado (Salgado, 2018). O PNI é um dos programas de vacinação com maior eficiência e que mais investe em vacinação no mundo sendo inclusive comparado ao de países desenvolvidos (Lima, Pinto, 2017). O governo tem tido êxito na imunização alcançou milhares de crianças, jovens e idosos, assim como os que necessitam de imunização de doenças que podem ser prevenidas. Cada município tem como responsabilidade organizar o calendário vacinal, lutar pela cobertura homogênea da vacinação contínua nas campanhas como forma de prevenir e controlar doenças (Silva, 2018). Os fatores como a menor atenção tanto por parte dos pais como dos profissionais de saúde quanto à vacinação das crianças, falhas no abastecimento de imunobiológicos por motivos alheios ao setor saúde, dificuldades nos laboratórios produtores, menor vigilância das unidades de atenção primária e outros, se não tiver a devida atenção se tornam preocupantes, pois foi visto que para que haja a diminuição na prevalência de doenças, deve ter uma atenção tanto por parte dos cuidadores como dos profissionais de saúde. Foi observado também que questões religiosas e a possibilidade de efeitos adversos são outros fatores que repercutem na menor adesão dos pais à vacinação de seus filhos (Formenti, 2017; Guimarães, 2017). No mundo ocorre a mesma situação, na medida em que a criança cresce o número de cuidadores que levam para a vacinação vai caindo, em uma pesquisa realizada em Angola, onde a cobertura vacinal decresceu conforme aumentou a idade da criança, de 70,0% no primeiro mês para 30,0% depois do primeiro ano de vida (Oliveira, 2014). Este achado pode ser atribuído ao fato de que a maioria das vacinas do calendário infantil são administradas até os 12 meses em datas que coincidem com a consulta de rotina da criança para favorecer o cumprimento do calendário vacinal recomendado pelo PNI. A Organização Mundial da Saúde recomendou ao PNI/MS a organização do Sistema Nacional de Vigilância de Eventos Adversos Pós Vacinação (SNVEAPV), nela é possível identificar a ocorrência de respostas indesejáveis causadas pelos Imunobiológicos, conforme particularidades da vacina aplicada e características do indivíduo em que é administrada, viabilizando contribuir na sistematização das ações, 155 assim como em vinculação a tais eventos como teor de regulamento e processos de vacinação (Pacheco et al., 2018). Tais manifestações podem ser entendidas como as reações inerentes a vacina, possíveis de ocorrer logo após a aplicação vacinal. Esses eventos são relevantes e devem ser observados, pois tem potencial de vir a causar agravos e ou incapacidades para a pessoa vacinada, por isso é necessário que as campanhas de imunização informem sobre as possíveis reações adversas, para que a população saiba o que fazer perante essas situações e procurem os profissionais de saúde responsáveis pela aplicação da vacina, bem como devem ser combatidas, e desmistificadas (Silva, 2018). Nota-se que muitos dos pais ou cuidadores, tal como também parte dos profissionais de saúde não conhecem as manifestações de muitas as doenças evitáveis por vacinação incluídas no PNI, no qual podem alterar a percepção do risco, com falsa sensação de que há maior risco decorrente da administração das vacinas (Mouzinho et al., 2016). Portanto, é de suma importância à vacinação, assim como as campanhas educativas e que os profissionais de saúde fiquem sempre atentos quanto às atualizações vacinais, seus efeitos adversos e sempre orientar o paciente e cuidadores quanto os possíveis sintomas e procedimentos após- vacina. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante do exposto, foi observado que a maioria dos cuidadores sabem a importância da vacinação, no entanto tem informações inadequadas sobre as práticas no processo de imunização. Evidencia-se que a imunização é uma das formas de prevenir doenças imunopreveníveis. No entanto as crianças que serão imunizadas não estão isentas de apresentar eventos adversos envolvendo sintomas, reações, até mesmo as dores. Desse modo, é necessário que os cuidadores, bem como os profissionais de saúde que são responsáveis pela vacinação estejam conscientizados da relevância da percepção e notificação desses eventos. Observou-se que todos os cuidadores entrevistados estavam em dia com o calendário de vacina e foram orientados quanto a transmissão de informações referente às vacinações. Observa-se assim, a importância dos profissionais de saúde em fazer busca ativa e promover disseminação de informações quanto à vacinação. REFERÊNCIAS BARBIERI, Carolina Luisa Alves; COUTO, Márcia Thereza; AITH, Fernando Mussa Abujamra. A (não) vacinação infantil entre a cultura e a lei: os significados atribuídos por casais 156 de camadas médias de São Paulo, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 33, p. e00173315, 2017. BRASIL. Lei nº. 6.259, de 30 de outubro de 1975. Dispõe sobre a organização das ações de vigilância epidemiológica, sobre o programa nacional de imunizações, estabelece normas relativas à notificação compulsória de doenças, e dá outras providências. Diário Oficial da União 31 out 1975. BRASIL, M. D. S. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. 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Universidade de São Paulo. 157 CAPÍTULO 14 ANÁLISE DAS NOTIFICAÇÕES DE EVENTOS ADVERSOS PARA APRIMORAMENTO DA GESTÃO DE RISCO HOSPITALAR ANALYSIS OF ADVERSE EVENT NOTIFICATIONS TO IMPROVE HOSPITAL RISK MANAGEMENT 10.56161/sci.ed.20240415c14 Priscilla Stephanny Carvalho Matias Nascimento Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0001-9863-4105) Ana Carla Silva Alexandre Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0002-5754-1778) Thallyta Juliana Pereira da Silva Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0001-5954-9418) Maria do Socorro Torres Galindo dos Santos Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0002-7893-0406) Emanuely Lopes Silva Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0009-0003-2604-2911) Everton Cordeiro de Amorim Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0001-6801-1847) Luana Eugênia de Andrade Siqueira Parente Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0002-8137-3575) Maria Eduarda Cavalcanti Vieira Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0001-8881-3740) 158 Alícea Lorrany Félix Da Silva Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0001-5273-6210) Tyago Acácio Ferreira de Andrade Feitosa Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco campus Pesqueira Orcid ID do autor (https://orcid.org/0000-0002-9537-9177) RESUMO Objetivo: implementar instrumento de notificação de evento adversos como parte do processo de implantação das medidas de segurança do paciente; sensibilizar os profissionais à notificação para o desenvolvimento da gestão de risco e identificar os Eventos Adversos mais comuns notificados na instituição. Metodologia: estudo transversal do tipo pesquisa ação com profissionais de saúde de um hospital de referência no Sertão de Pernambuco, na cidade de Arcoverde, entre outubro de 2019 a junho 2020. Foram analisadas as fichas de Eventos Adversos notificados por profissionais de saúde da unidade hospitalar, após as medidas de implementação e sensibilização. Os dados foram analisados estatisticamente no Statistical Package for Social Sciences versão 20.0, por teste Qui-quadrado de Pearson que verifica associação entre variáveis, considerado como intervalo de confiança 95%, além de medidas descritivas. Resultados: seis (75%) das notificações ocorreram na Unidade de Terapia Intensiva, Lesão por pressão e quedas ambas representaram 25% dos incidentes. Apesar de 100% das lesões por pressão notificadas ocorrerem na Unidade de Terapia Intensiva, não houve associação significativa entre o tipo de evento e o setor de notificação. Apenas um (12,5%) foi identificado como evento sentinela. Não ocorreu associação significativa entre setor e evento sentinela (p = 0,827). Conclusão: a implementação de instrumentos como esse podem contribuir para melhoria e fortalecimento da cultura de segurança do paciente, além de auxiliarem a gestão em futuras condutas na assistência à saúde com qualidade. PALAVRAS-CHAVE: Educação continuada; Eventos adversos; Medidas de segurança; Segurança do paciente ABSTRACT Objective: implement an adverse event reporting instrument as part of the process of implementing patient safety measures; raise awareness among professionals about notification for the development of risk management and identify the most common Adverse Events reported in the institution. Methodology: cross-sectional action research study with healthcare professionals from a reference hospital in the Sertão de Pernambuco, in the city of Arcoverde, between October 2019 and June 2020. Adverse Event records reported by healthcare professionals from the hospital unit were analyzed, after implementation and awareness measures. The data were statistically analyzed using the Statistical Package for Social Sciences version 20.0, using Pearson's Chi-square test that verifies associations between variables, considered as a 95% confidence interval, in addition to descriptive measures. Results: six (75%) of the reports occurred in the Intensive Care Unit. Pressure injuries and falls both represented 25% of the incidents. Although 100% of reported pressure injuries occur in the Intensive Care Unit, there was no significant association between the type of event and the reporting sector. Only one 159 (12.5%) was identified as a sentinel event. There was no significant association between sector and sentinel event (p = 0.827). Conclusion: the implementation of instruments like this can contribute to improving and strengthening the patient safety culture, in addition to helping management in future conduct in quality health care. KEYWORDS: Continuing education; Adverse events; Security measures; Patient safety 1. INTRODUÇÃO Os Eventos Adversos (EA) são qualquer falha intencional ou não que resultem em prejuízo, seja psíquico, físico ou emocional, ao usuário de forma temporária ou permanente, e prolongue o tempo de permanência do mesmo ou resulte em morte como consequência de um cuidado de saúde prestado (Xelegati et al., 2019). A existência de EA é um indicativo que o sistema apresenta fragilidades, e estes resultam em implicações negativas que abrangem desde o paciente, os profissionais envolvidos e até a sociedade (Magalhães et al.,2019). No intuito de minimizar e evitar EAs, constantemente são divulgadas ações de promoção sobre a segurança do paciente para a melhoria na qualidade dos serviços de saúde. Porém, mesmo com os progressos no que se refere aos desafios globais sobre o tema, a assistência de qualidade ofertada pelas instituições de saúde ainda apresenta um baixo grau de confiança, persistindo a ocorrência de EA provenientes de erros estruturais e processuais do trabalho (Batista et al., 2019). Várias estratégias são utilizadas para a melhoria na segurança do cuidado ofertado, entre essas estão a análise de riscos, a implementação de normas que auxiliem na prática da assistência, a comunicação eficaz entre os envolvidos, profissionais e usuários do serviço de saúde, e a adesão pelas unidades de saúde de uma cultura de segurança do paciente. Com isso, a segurança do paciente deve ser vista como responsabilidade de todos que compõem a equipe multiprofissional (Magalhães et al., 2019). Criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2004, a World Alliance for Patient Safety, deu visibilidade a forma segura de promoção da assistência à saúde tendo em vistas à prevenção de incidentes. Propôs ações globais, na qual incentiva a implementação e uso de checklist, ou lista de checagem, que tem por finalidade nortear operacionalmente a assistência segura, prevenindo assim, que ocorra algum erro que ao chegar ao usuário é denominado como EA (Amaya et al., 2017). No Brasil erros na administração dos medicamentos, quedas, falha na identificação do paciente, erros em procedimentos cirúrgicos, o uso inadequado de 160 equipamentos e as infecções são as causas mais comuns de eventos adversos (Furini; Nunes; Dallora, 2019). Uma avaliação feita em sete hospitais no Brasil observou que todos possuíam sistema de notificação de eventos adversos, cinco dispunham de Comissão de Gerenciamento de Riscos e seis realizavam discussões dos eventos, havendo unanimidade para ações de melhoria à segurança do paciente. Entretanto, os medos dos profissionais por punição decorrente das suas falhas e a subnotificação dos eventos ainda eram notáveis no ambiente de trabalho, mostrando que ainda é de extrema importância avançar no fortalecimento da cultura de segurança (Amaral et al., 2019). O entendimento de como ocorrem as falhas na assistência auxilia na identificação de onde devem ser melhorados os processos organizacionais a fim de fortalecer a cultura de segurança, especialmente, quando se diz respeito a falta de notificação de eventos adversos pelo sentimento de culpa, estresse emocional e medo de punições frente as normas éticas a que estão sujeitos, bem como na diminuição de riscos e ocorrências de eventos adversos nas práticas assistenciais (Amaral et al., 2019) Desse modo, o objetivo do estudo consistiu-se em implementar um instrumento de notificação de evento adversos como parte do processo de implantação das medidas de segurança do paciente; sensibilizar os profissionais à notificação para o desenvolvimento da gestão de risco e identificar os EA mais comuns notificados na instituição. 2. MATERIAIS E MÉTODOS Estudo transversal do tipo pesquisa ação, que contou com profissionais de saúde de um hospital de referência no interior de Pernambuco, na cidade de Arcoverde. O serviço de saúde possui papel de extrema importância no sertão pernambucano, atende a 13 municípios da VI Gerência Regional de Saúde, além de outros municípios circunvizinhos. A unidade é caracterizada como de média complexidade, com 120 leitos distribuídos entre diversas especialidades da área da saúde. O período de estudo ocorreu entre os meses de outubro de 2019 a junho 2020. Este trabalho fez parte da Implantação e implementação do Núcleo de Segurança do Paciente (NSP) com participação dos coordenadores do setor. Inicialmente houve a sensibilização da equipe hospitalar do NSP bem como dos profissionais sobre conceitos, características e a importância da notificação dos eventos para a manutenção da assistência com qualidade na saúde. 161 A sensibilização se deu através de roda de conversa com os profissionais responsáveis por cada setor da unidade de saúde, elencando cada item da ficha, em seguida trabalhou-se com tempestade de ideias, analisando os pontos mais relevantes expostos pelos profissionais, finalizando assim a ficha de notificações. A Implantação da Ficha de Notificações Adversas, foi adaptada de acordo com as necessidades do hospital, conforme as determinações do Sistema de Notificações de Vigilância Sanitária (NOTIVISA). O estudo contou com uma amostra de 8 fichas de notificações. As variáveis consideradas foram: setor, incidentes, eventos sentinelas, ação imediatas, sugestões, possíveis causas, grau do evento e análise do evento. A coleta de dados ocorreu mediante as notificações apresentadas pelos profissionais dos setores do hospital ao se deparar com um evento adverso durante o período de coleta. Os dados foram armazenados no pacote de dados Statistical Package for Social Sciences (SPSS) versão 20.0 que também serviu como ferramenta de análise. Utilizou-se o teste Qui-quadrado para verificar associação entre as variáveis e considerou-se o intervalo de confiança de 95%. O estudo respeitou as diretrizes éticas definidas na Resolução 466/12 e foi aprovado pelo Comitê de ética em Pesquisa da Autarquia Educacional de Belo Jardim- PE, sob parecer favorável de nº 3.240.609. 3. RESULTADOS Foram analisadas as fichas de eventos adversos notificados por profissionais de saúde da unidade hospitalar, após as medidas de implementação e sensibilização. Quanto ao setor, seis (75%) das notificações ocorreram na UTI; Lesão por Pressão representou dois (25%) dos incidentes, sete (87,5%) não caracterizou nenhum evento sentinela; a conduta inicial foi a limpeza ou lavagem com dois (25%) e contato médico com dois (25%) respectivamente. Os incidentes identificados por “outros” são sangramento devido a contenção, evasão do paciente, complicações por falta de higiene e acidentes com perfuro cortante. Ainda se observa quanto as características dos eventos em quatro (50%) das fichas, os profissionais não registraram nenhuma sugestão; sete (87,5%) não registraram nenhuma causa; dois (25%) referiram o dano ao profissional de saúde como grau do evento e apenas um (12,5%) identificou o evento como um incidente conforme apresentado na Tabela 01. Tabela 1 – Caracterização demográfica das notificações de eventos adversos por profissionais de saúde. Arcoverde-PE, Brasil, 2020 162 Variável N (%) Setor UTI* Emergência Pediatria 6 (75) 1 (12,5) 1 (12,5) Incidentes LPP** Quedas Outros 2 (25) 2 (25) 4 (50) Evento sentinela Administração de medicamentos Nenhum 1 (12,5) 7 (87,5) Ação imediata Limpeza/ lavagem Contato médico para conduta 2 (25) 2 (25) Outros 4 (50) Sugestão Nenhuma Outros 4 (50) 4 (50) Possíveis causas Falta de conhecimento Nenhuma 1 (12,5) 7 (87,5) Grau do evento Dano ao profissional de saúde 2 (25) Nenhum 6 (75) Análise do evento Incidente Nenhum 1 (12,5) 7 (87,5) Legenda: *UTI – Unidade de Terapia Intensiva; ** LPP- Lesão por Pressão A Tabela 02 apresenta a associação entre o setor hospitalar em que se deu a notificação e as características dos eventos. Quanto ao incidente observa-se que apesar de 2 (100%) das LPP notificadas ocorrerem na UTI, não houve associação significativa entre o tipo de evento e o setor de notificação (p=0,363). A ocorrência de eventos sentinelas foram identificadas apenas na UTI 1 (100%), mesmo assim a tabela mostra que não ocorreu associação significativa entre o setor e o evento sentinela (p = 0,827). As ações imediatas de limpeza e lavagem foram identificadas também somente na UTI com uma taxa de 2 (100%), apesar disso ação 163 imediata e setor não apresentam associação significativa (p = 0,363). Os dados mostram uma associação significativa entre o setor e as possíveis causas de eventos adversos (p = 0,018), foi observado que a UTI não notificou nenhuma possível causa como falta de conhecimento pelos profissionais, revelando que nesse setor encontram-se os profissionais mais preparados. Tabela 2 – Associação entre notificação de eventos adversos conforme ocorrência de setores hospitalares. Arcoverde – PE, Brasil, 2020 Incidentes LPP Queda Outros p-valor* 0,363 Evento sentinela Administração de medicamentos Nenhum p-valor 0,827 Ação imediata Limpeza/lavagem Contato médico para condutas Outros p-valor 0,363 Possíveis causas Falta de conhecimento Nenhuma p-valor 0,018 UTI n (%) Emergência n (%) Pediatria n (%) Total (%) 2 (100%) 1 (50%) 3 (75%) 0 (0%) 1 (50%) 0 (0%) 0 (0%) 0 (0%) 1 (25%) 2 (100%) 2 (100%) 4 (100%) 1 (100%) 0 (0%) 0 (0%) 1 (100%) 5 (70%) 1 (15%) 1 (15%) 7 (100%) 2 (100%) 0 (0%) 0 (0%) 2 (100%) 1 (50%) 1 (50%) 0 (0%) 2 (100%) 3 (75%) 0 (0%) 1 (25%) 4 (100%) 0 (0%) 1 (100%) 0 (0%) 1 (100%) 6 (85%) 0 (0%) 1 (15%) 7 (100%) Legenda: *p-valor= Significância (0,05) 4. DISCUSSÃO As unidades de saúde demostraram nos últimos anos um grande interesse no atendimento de qualidade, visto que traz benefícios tanto para o cliente como para a instituição. Com isso a segurança do paciente vem se destacando com a implementação 164 de medidas preventivas à exposição aos riscos, tal como aos danos provenientes de cuidado (Figueiredo et al., 2017). Nesse sentido, entende-se que a notificação de eventos adversos é parte crucial para segurança do paciente, pois permite que o profissional de saúde tenha uma visão mais fidedigna da qualidade que se está sendo prestada ao indivíduo (Mascarenhas et al., 2019). O denominado incidente é determinado como alguma circunstância que levou a um dano desnecessário ao paciente. Podendo este ser intencional ou não intencional (Sagawa et al., 2019). Já o evento sentinela pode ser caracterizado por qualquer acontecimento imprevisível, que possa gerar incapacidade ou morte, no qual sua detecção sinaliza que a qualidade das medidas terapêuticas ou preventivas precisam ser reavaliadas. Dessa forma, sempre que for constatado esse tipo de evento o sistema de vigilância deve ser contatado para que medidas reparadoras possam ser implementadas, visando a não repetição desse evento futuramente (Ballani; Oliveira, 2017). A partir disso, evidenciou-se, pelos resultados da pesquisa, que a ficha notificação de eventos adversos é uma ferramenta eficaz para o controle de tais eventos. Embora nesse estudo o setor não tenha apresentado associação com o tipo de incidente, observouse que a cada oito eventos adversos, dois eram caracterizados como LPP e ocorriam na UTI. Isso demonstra que a UTI ainda é um fator determinante para presença de EA. Este dado foi corroborado por um estudo realizado em dois hospitais universitários de alta complexidade, localizados no município de São Paulo, onde enfatizou, que dos eventos adversos desenvolvidos por pacientes das duas instituições, 60% desses incidentes estavam relacionados a LPP. Um indicativo para esse alto índice pode estar diretamente ligado a condições nutricionais do indivíduo ou a uma cultura do paciente enfraquecida e/ou até mesmo inexistente. (Novaretti et al., 2014). Outro estudo exploratório, realizado em um hospital universitário de São Paulo, revelou que 19,5% e 63,6% dos pacientes da UTI, apresentavam predisposição para desenvolver LPP, seguidos por 15,6% dos pacientes da Clínica Cirúrgica, 13,9% da Clínica Médica e 0% na Semi-intensiva. O estudo também mostra que mesmo sendo evitáveis algumas lesões por pressão, a maioria resultante do estado físico e nutricional do paciente (Moraes et al., 2016). Fornecer cuidados de forma qualificada a indivíduos em estado crítico vem se tornando um dos maiores obstáculos para os profissionais que trabalham na UTI, já que 165 os pacientes são sujeitos diariamente a inúmeros procedimentos médicos, o que pode resultar em incidentes (Barbosa et al., 2014). O presente estudo não apresentou associação entre a falta de conhecimento do profissional e o setor da UTI, podendo ser um indicativo de que os profissionais mais qualificados em segurança do paciente se concentram nesse setor. Contrapondo a essa teoria, uma pesquisa descritiva e de abordagem qualitativa constatou que alguns dos fatores que relacionam o surgimento de EA na UTI, estão ligados a complexidade dos casos, a necessidade de tomada de decisões imediatas, a falta de diálogo entre a equipe, a sobrecarga de trabalho, o despreparo da equipe atuante além do déficit no número de profissionais (Cruz et al.,2018). Com isso, pode-se entender que o resultado trazido pela presente pesquisa mostra que nessa unidade de saúde a não associação das variáveis setor e falta de conhecimento é resultante da implementação do NSP na unidade. O preenchimento das fichas de notificações de EA deve ser compreendido como uma ferramenta de melhoria na qualidade da assistência, esse método foi desenvolvido para auxiliar na segurança do paciente, tendo em vista que métodos punitivos, que resultem em constrangimento ou autopunição ao profissional não minimizarão a ocorrência de EA, mas presumivelmente influenciaram na diminuição das notificações (Bizarra et al., 2018). Nesse estudo a participação dos profissionais no preenchimento das fichas de notificações apresentou relutância, o que demonstrou que o profissional de saúde ainda associa o registro de dados como uma forma de possível punição. Um estudo realizado sobre segurança do paciente em uma maternidade de risco habitual, na região metropolitana de Belo Horizonte, demonstrou que de 98 questionários aplicados aos profissionais de saúde da unidade apenas 54 foram devolvidos e desses, apenas 47 eram válidos. Demostrando pelo resultado um clima de segurança do paciente ainda fragilizado, decorrente da desmistificação dos eventos adversos e do não direcionamento das ações aos processos de trabalho e sim ao indivíduo (Ferreira; Melo et al., 2019). O baixo índice de fichas de notificações de eventos adversos preenchidas pode ser um indicativo de subnotificação. Outro estudo que foi desenvolvido com profissionais de saúde da UTI, em um evento científico, constatou que dos 70 profissionais entrevistados 50 a 71,4% identificavam a existência de subnotificações de EA nas suas respectivas unidades de trabalho e relataram 115 razões para a falta de notificações. Entre estas razões estão a sobrecarga de trabalho, esquecimento, desvalorização dos EA, apresentando os maiores índices, seguidos por sentimentos de medo e vergonha (Claro et al., 2011). 166 Entende-se assim, o processo de inserção da ficha de notificações no cotidiano dos profissionais deve ocorrer de forma gradativa, até que faça parte do cotidiano e se torne uma realidade vivida. Este estudo possuiu como principal limitação o quantitativo amostral de fichas reduzido comparado ao total de pacientes atendidos pela instituição, contudo, conseguiuse retratar a realidade encarada por essa unidade. Diante do exposto fica evidenciada a importância da ficha de notificações de EA, pois além de ser um forte indicador da qualidade na assistência e ser um instrumento essencial na segurança do paciente, serve como ferramenta de trabalho para os profissionais de saúde. 5. CONCLUSÃO Dentre os achados, o local com maior presença de LPP foi a UTI, sem associação estatística significativa entre o setor e o tipo de evento, bem como, nenhuma notificação com causa explicitada por falta de conhecimento profissional, o que melhor caracterizou os profissionais da UTI, além de nenhum profissional de saúde ter demonstrado déficit de conhecimento acerca de EA. Além disso, constatou-se que as sugestões de melhoria consistiam basicamente em insumos para consumo assistencial e houve somente uma ficha direcionada para evento sentinela. Todos os pontos analisados nesse estudo mostraram a preocupação e a importância de uma cultura de segurança do paciente fortalecida. Tais apontamentos podem contribuir como parâmetros para melhoria e fortalecimento dessa cultura, de forma a auxiliar a gestão para futuras condutas no que se refere a assistência à saúde com qualidade. REFERÊNCIAS AMARAL, R. T. et al. 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Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/s1980220x2018015303503 Acesso em 12 jul 2020. 169 CAPÍTULO 15 FATORES RELACIONADOS À INFECÇÃO DE TRATO URINÁRIO NA GESTAÇÃO FACTORS RELATED TO URINARY TRACT INFECTION IN PREGNANCY 10.56161/sci.ed.20240415c15 Ana Maria de Oliveira Pereira Enfermeira pela UESPI https://orcid.org/0000-0003-4202-2884 Verilene Fernandes Macário Bacharel em Enfermagem, pela UNINTA http://lattes.cnpq.br/3760388448249417 Ana Júlia Menezes Braga Acadêmica do curso de Enfermagem, Centro Universitário INTA – UNINTA https://lattes.cnpq.br/9259196439890156 José Gerardo da Silva Enfermeiro Especialista em nefrologia pela Universidade Estadual do Ceará http://lattes.cnpq.br/3700092339098876 Pedro Davi Lima de Sousa Acadêmica do curso de Enfermagem, Centro Universitário INTA – UNINTA https://lattes.cnpq.br/3897289443398199 Wágnar Silva Morais Nascimento Mestranda em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí- UFPI https://orcid.org/0000-0002-3372-0595 Kaline Ribeiro de Almeida Vassallo Graduanda em Medicina pela Universidade Federal do Norte do Tocantins – UFNT https://orcid.org/0009-0007-0977-5522 Dayana Vieira Ananias Enfermeira, pós graduanda em enfermagem Obstetrícia e Neonatal pelo Centro Universitário http://lattes.cnpq.br/6828250223058320 Joaquim Guerra de Oliveira Neto 170 Doutorando em Enfermagem, Universidade Federal do Piauí- UFPI https://orcid.org/0000-0002-8068-2026 Maria Divina dos Santos Borges Farias Enfermeira/Ebserh http://lattes.cnpq.br/7804664985829215 Francisco Vinicius Teles Rocha Universidade Federal do Piauí – Médico http://lattes.cnpq.br/4476196795704937 Dr. Avelar Alves da Silva Professor Associado de Nefrologia da Universidade Federal do Piauí (UFPI) https://orcid.org/0000-0002-4588-0334 RESUMO É evidente a importância e relevância deste tema, uma vez que a infecção do trato urinário é uma condição que afeta principalmente gestantes que podem não ter conhecimento da importância do acompanhamento adequado no pré-natal e da realização de exames durante este período. Portanto, o objetivo deste artigo foi identificar as possíveis causas de infecção no trato urinário em gestantes, descrever os riscos de complicações e ressaltar a importância do diagnóstico precoce. Trata-se de uma revisão integrativa (RI) de literatura. O presente trabalho utilizou a estratégia PICo. A análise de viés das publicações analisadas foi realizada por par e com o uso da ferramenta Joanna Briggs Institute Critical Appraisal (JBI – Systematic Rewiews tools). Para as análises dos estudos de coorte, utilizou-se o JBI Critical Appraisal Checklist for Analytical Cohort Studies. Os estudos ecológicos foram avaliados pelo JBI Critical Appraisal Checklist for Analytical Cross Sectional Studies modificado segundo critérios propostos por Dufault e Klar. Durante a busca foram apurados 380 artigos científicos, sendo selecionados 8 estudos. O presente estudo visa destacar as complicações e as principais formas de infecção causadas pela infecção do trato urinário (ITU) durante a gestação. A ITU é um problema de grande relevância nesse período, uma vez que está associada ao aumento do risco de trabalho de parto prematuro e é uma das principais causas de hospitalização durante a gestação. A pesquisa também enfatizou a importância da solicitação do exame de urocultura para um diagnóstico mais preciso de infecção do trato urinário (ITU) em gestantes. Palavras-chave: Gravidez, ITU, etiologia, Diagnóstico. ABSTRACT The importance and relevance of this topic is evident, since urinary tract infection is a condition that mainly affects pregnant women who may not be aware of the importance of adequate prenatal care and examinations during this period. Therefore, the objective of this article was to identify the possible causes of urinary tract infections in pregnant women, describe the risks of complications and highlight the importance of early diagnosis. This is an integrative literature review (IR). The present work used the PICo strategy. The bias analysis of the analyzed publications was carried out by pairs and using the Joanna Briggs Institute Critical Appraisal tool (JBI – Systematic Reviews tools). For the analyzes of cohort studies, the JBI Critical Appraisal Checklist for Analytical Cohort 171 Studies was used. The ecological studies were evaluated using the JBI Critical Appraisal Checklist for Analytical Cross Sectional Studies modified according to criteria proposed by Dufault and Klar. During the search, 380 scientific articles were identified, 8 studies were selected. The present study aims to highlight the complications and main forms of infection caused by urinary tract infection (UTI) during pregnancy. UTI is a very relevant problem during this period, as it is associated with an increased risk of premature labor and is one of the main causes of hospitalization during pregnancy. The research also emphasized the importance of requesting a urine culture test for a more accurate diagnosis of urinary tract infection (UTI) in pregnant women. Keywords: Pregnancy, UTI, etiology, Diagnosis. INTRODUÇÃO A infecção no trato urinário é frequentemente causada pela bactéria Escherichia coli e pode afetar até 48% das mulheres. É uma condição que pode surgir em qualquer faixa etária, sendo mais comum na idade adulta e especialmente preocupante durante a gestação. Quando não diagnosticada e tratada adequadamente durante a gravidez, a infecção pode progredir para estágios mais graves, resultando em complicações como parto prematuro e aborto espontâneo, entre outras consequências (Freitas et al., 2023). As infecções do trato urinário (ITU) são causadas pelo crescimento e proliferação de bactérias, podendo resultar em lesões de diferentes graus. Elas podem ser classificadas de acordo com sua localização anatômica e gravidade, incluindo bacteriúria assintomática, cistite e pielonefrite. Durante a gravidez, mudanças hormonais e mecânicas tornam o trato urinário da gestante mais suscetível a infecções sintomáticas. Essas infecções são comuns durante a gravidez, com uma prevalência estimada em cerca de 20% (Silva, 2019). A classificação das ITUs pode ser feita em complicadas e não complicadas. As ITUs são consideradas complicadas quando afetam o sistema urinário, causando alterações funcionais, enquanto são classificadas como não complicadas quando ocorrem em um sistema urinário normal. Além disso, as ITUs podem ser caracterizadas de acordo com a localização anatômica, sendo alta ou baixa. As infecções baixas afetam a uretra e a bexiga. Nesse contexto, a bacteriúria assintomática é a forma clínica mais comum, seguida pela cistite e, posteriormente, pela pielonefrite (Silva, 2019; Silva; Souza, 2021). 172 Dentre os agentes etiológicos que podem causar infecções do trato urinário (ITU) em gestantes, a Escherichia coli é o uropatógeno mais frequente, responsável por aproximadamente 80% dos casos, seguido por outros microrganismos como as enterobactérias (Enterobacter, Klebsiella pneumoniae (6,7%), Proteus mirabilis (3,5%), Staphylococcus saprophyticus (10%), Streptococcus do grupo B, Staphylococcus epidermidis, Enterococcus faecalis (4%). Além disso, alguns fungos ou leveduras, como a Candida e Chlamydia trachomatis (3,4%), também podem estar envolvidos. Esses microrganismos podem causar lesões de diferentes graus tanto para a mãe quanto para o feto, dependendo da localização anatômica e do nível da infecção (Coria et al., 2018; Santos Filho; Telini, 2018). A infecção do trato urinário em gestantes pode levar a complicações graves e causar vários transtornos durante a gravidez, assim como no período perinatal, especialmente se não for diagnosticada e tratada corretamente, pois pode afetar o recémnascido (RN). Portanto, para prevenir tais complicações, é de extrema importância realizar um pré-natal de qualidade (Oliveira; Araujo; Rodrigues, 2021). Dentre as complicações causadas pelas infecções do trato urinário durante a gravidez, destacam-se o trabalho de parto prematuro, ruptura prematura de membranas amnióticas, restrição de crescimento intrauterino, recém-nascidos de baixo peso e óbito. Além disso, a incidência aumentada dessas infecções entre grávidas torna este período ainda mais desafiador, pois é quando as opções terapêuticas antimicrobianas e profiláticas são mais restritas, devido à preocupação com a toxicidade das drogas para o perinatal (Nunes et al., 2021). Frente ao exposto, pode-se identificar a importância e relevância deste tema, visto que a infecção do trato urinário é uma doença que acomete principalmente gestantes que não possui conhecimento da importância do acompanhamento adequado no pré-natal e da realização de exames durante este período. Portanto, este artigo teve por objetivo identificar as possíveis causas de infecção no trato urinário em gestantes, descrever os riscos de complicações e o quão importante o seu diagnóstico precoce. Diante do exposto, é evidente a importância e relevância deste tema, uma vez que a infecção do trato urinário é uma condição que afeta principalmente gestantes que podem não ter conhecimento da importância do acompanhamento adequado no pré-natal e da realização de exames durante este período. Portanto, o objetivo deste artigo foi identificar 173 as possíveis causas de infecção no trato urinário em gestantes, descrever os riscos de complicações e ressaltar a importância do diagnóstico precoce. MÉTODOS Trata-se de uma revisão integrativa (RI) de literatura, de abordagem qualitativa, desenvolvida a partir de levantamentos bibliográficos. A RI é um método que tem como objetivo principal identificar, selecionar e sintetizar os resultados obtidos em pesquisas anteriores, relacionadas a uma temática ou questão norteadora. Diante disso, fornecerá esclarecimentos mais organizados, permitindo a construção de novos conhecimentos (BOTELHO; CUNHA; MACEDO, 2011). O presente trabalho utilizou a estratégia PICo (Quadro 1), para formulação da pergunta norteadora: “Quais são os principais fatores relacionados à infecção de trato urinário na gestação?’’. No qual o “P”, identifica-se como população de análise do estudo, o “I” o conceito que se pretende investigar e o “Co” está relacionado ao contexto. Quadro 1. Aplicação da estratégia de PICo. Acrônimo Definição Aplicação P População Gestantes I Interesse Fatores de Risco Co Contexto Infecção de trato urinário Fonte: Autores, 2024. A pesquisa foi realizada em fevereiro de 2024, nas bases de dados disponíveis na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), sendo elas: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e a Índice Bibliográfico Español em Ciencias de la Salud (IBECS), e por meio de literatura complementar realizada na Scientific Eletronic Library Online (SciELO). Para a busca foram utilizados os seguintes Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “Gravidez”, “ITU”, “etiologia” e “Diagnóstico”, em cruzamento com o operador booleano and. 174 Os critérios de inclusão para a seleção dos artigos foram: artigos publicados na íntegra em texto completo, nos últimos cinco anos (2018-2024), na língua inglesa, portuguesa e espanhola. E como critérios de exclusão adotaram-se as publicações que não contemplasse a temática em questão, estudos duplicados nas bases supramencionadas, além de resumos e artigos na modalidade de tese, revisões e dissertações. A análise de viés das publicações analisadas foi realizada por par e com o uso da ferramenta Joanna Briggs Institute Critical Appraisal (JBI – Systematic Rewiews tools). O JBI é composto por perguntas que avaliam a qualidade metodológica do estudo segundo seu delineamento. Os estudos transversais foram avaliados com o JBI Critical Appraisal Checklist for Analytical Cross Sectional Studies com as perguntas: 1: critérios de inclusão e exclusão claramente definidos; 2: temática e método descritos em detalhes; 3: exposição mensurada de forma apropriada; 4: critérios de definição objetivos e padronizados para determinar a condição estudada; 5: identificação de fatores de confundimento; 6: estratégias para lidar com fatores de confundimento; 7: desfecho mensurado de forma apropriada; 8: análise estatística apropriada (Moola et al., 2017; Gioseffi; Batista; Brigno, 2022). Para as análises dos estudos de coorte, utilizou-se o JBI Critical Appraisal Checklist for Analytical Cohort Studies , com 8 perguntas: 1- exposição mensurada de forma apropriada; 2- identificação de fatores de confundimento; 3- estratégias para lidar com fatores de confundimento; 4- os participantes estavam livres do desfecho no início do estudo; 5- o tempo de estudo suficiente a ocorrência do desfecho; 6-acompanhamento completo/se não, suas razões descritas e exploradas; 7- estratégias para lidar com acompanhamento incompleto; 8- análise estatística apropriada (Moola et al., 2020; Gioseffi; Batista; Brigno, 2022). Os estudos ecológicos foram avaliados pelo JBI Critical Appraisal Checklist for Analytical Cross Sectional Studies modificado segundo critérios propostos por Dufault e Klar (2011), que descrevem a avaliação metodológica para esse tipo de desenho de estudo, com as seguintes perguntas: 1- explicação sobre delineamento e tamanho amostral escolhido; 2- critérios de inclusão e exclusão claramente definidos; 3- temática e método descritos em detalhes; 4- critérios de definição objetivos e padronizados para determinar a condição estudada; 5- exposição mensurada de forma apropriada; 6- identificação de fatores de confundimento; 7- estratégias para lidar com fatores de confundimento; 8- 175 desfecho mensurado de forma apropriada; 9- esforços para reduzir possibilidade de viés; 10- análise estatística apropriada; 11- estratégias para lidar com acompanhamento incompleto; 12- limitações do estudo apontadas (Dufault; Klar, 2011; Moola et al., 2017; Gioseffi; Batista; Brigno, 2022). RESULTADOS E DISCUSSÃO Durante a busca foram apurados 380 artigos científicos, após a coleta dos dados, empreendeu-se as etapas de pró-análise, exploração do material e tratamento dos resultados e interpretações. Assim, foram selecionados 71 artigos de acordo com a temática apresentada, que além de estarem em consonância com os critérios de inclusão estabelecidos, responderam adequadamente à pergunta de pesquisa após a leitura de título e resumo. Esses foram avaliados, respondendo os objetivos propostos, na qual foram lidos na íntegra, sendo selecionados 8 estudos, mediante análise de conteúdo e segundo os critérios de inclusão e exclusão (Figura 1). Figura 1: Fluxograma de seleção de artigos. Fonte: Autores, 2024. 176 Os oito estudos estão sintetizados no Quadro 2, com informações relacionadas a título, Citação, População de estudo e Desenho de estudo. Quadro 2- Artigos selecionados entre as publicações. Título TECNOLOGIA EDUCATIVA SOBRE INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO PARA GESTANTES RIBEIRINHAS: CONSTRUÇÃO COMPARTILHADA INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO EM GESTANTES: AVALIAÇÃO DA SUSCEPTIBILIDADE DOS UROPATÓGENOS AOS ANTIMICROBIANOS EM UROCULTURAS POSITIVAS LEVANTAMENTO DE AGENTES ETIOLÓGICOS ASSOCIADOS A INFECÇÃO URINÁRIA E FAIXA ETÁRIA DAS GESTANTES CADASTRADAS NO LABORATÓRIO CENTRAL MUNICIPAL DE SAÚDE DE RONDONÓPOLIS, MT ANÁLISE DO MANEJO DE INFECÇÕES DO TRATO URINÁRIO NA GESTAÇÃO PREVALÊNCIA DE INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO E PERFIL DE RESISTÊNCIA BACTERIANA EM PACIENTES DO SEXO FEMININO ATENDIDOS EM UM LABORATÓRIO DE ANÁLISES CLÍNICAS DE TEÓFILO OTONI-MG Autores / Ano População de estudo Desenho de estudo (Neves et al., 2023). 24 gestantes Pesquisa metodológica, com abordagem qualitativa. (Menezes et al., 2020). 1007 uroculturas, que se traduziam em resultados de gestantes com contagem bacteriana > 105 UFC/mL. Estudo epidemiológico retrospectivo com delineamento transversal. (Siqueira et al., 2019) 48 uroculturas positivas das gestantes Pesquisa foi de natureza quantitativa do tipo transversal com abordagem descritiva e que utilizou procedimentos documental/observacional (Carvalho et al., 2023). 50 (100%) mulheres entrevistadas Estudo exploratóriodescritivo, transversal de abordagem quantitativa (Macedo et al., 2021). 100 pacientes mulheres Pesquisa quantitativa de nível descritiva, com abordagem quantitativa. 177 AVALIAÇÃO DA INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO EM (Nunes et al., GESTANTES E 2021). ACOMPANHAMENTO FARMACOTERAPÊUTICO PREVALÊNCIA DE INFECÇÕES URINÁRIAS E DO TRATO GENITAL (Santos et al., EM GESTANTES 2018). ATENDIDAS EM UNIDADES BÁSICAS DE SAÚDE PREVALÊNCIA DE INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIOE PERFIL DE SENSIBILIDADE BACTERIANA AOS (Comin, 2020). ANTIMICROBIANOS PRESCRITOS PARA GESTANTES DO HOSPITAL ESCOLADE VALENÇA Fonte: Autores, 2024. 72 gestantes Avaliação de incidência. 798 gestantes Pesquisa epidemiológica de caráter descritivo com abordagem quantitativa. 135 gestantes Estudo transversal tipo coorte com abordagem descritiva utilizando procedimento de análise de resultados de exames de urinálise e urinocultura das gestantes. Os oito estudos estão sintetizados no Quadro 3, com informações relacionadas a periódico, Citação, objetivo do estudo e conclusão. Quadro 3- Artigos selecionados entre as publicações. Autores / Ano (Neves et al., 2023). Periódico Cogitare Enfermagem (Menezes et al., 2020). Brazilian Journal of Health Review (Siqueira et al., 2019) Biodiversidade Objetivo construir, de maneira compartilhada, tecnologia educativa acerca da infecção do trato urinário para gestantes ribeirinhas na Atenção Primária à Saúde. Analisar a prevalência dos uropatógenos responsáveis por ITU em gestantes e seu perfil de susceptibilidade aos principais antimicrobianos utilizados no tratamento, na cidade de Aracaju/SE. avaliar através da pesquisa documental, as espécies de Conclusão Evidenciou-se que os conhecimentos das gestantes sobre o tema e as práticas de cuidado com a saúde precisam ser fortalecidos. A Escherichia coli foi o uropatógeno que prevaleceu nas uroculturas positivas em gestantes. A espécie E. coli foi o uropatógeno mais importante 178 microrganismos associadas a infecção urinária de gestantes cadastradas no Laboratório Central Municipal de Saúde de Rondonópolis, MT, e inferir sua relação de acordo com a faixa etária. (Carvalho et al., 2023). (Macedo et al., 2021). (Nunes et al., 2021). (Santos et al., 2018). observado entre as faixas etárias das gestantes, sendo encontrado com maior frequência na faixa entre 21 a 25 anos. No entanto, deve-se alertar para complicações, decorrentes de infecções por S. agalactiae, que podem ser evitadas com acompanhamento pré-natal realizado corretamente e antibioticoterapia adequada. Nota-se necessidade de Analisar o manejo de otimização nos cuidados diagnóstico, tratamento e relacionados a ITU no préacompanhamento de infecções Revista Eletrônica natal, sobretudo nos registros do trato urinário em gestantes Acervo Saúde de acompanhamento do atendidas em um hospital tratamento, assim como, público em um município no orientações preventivas sobre sudoeste do Pará. o tema. Na realização desta pesquisa foi possível abordar conceitos sobre Avaliar a prevalência de infecção urinária e ainda, infecção do trato urinário e o sobre os microrganismos Revista Saúde Dos perfil de resistência bacteriana mais prevalentes, além de Vales em mulheres com idade entre relevar a necessidade da 20 e 80 anos urocultura, sumário de urina e antibiograma para diagnóstico de infecção do trato urinário. A investigação, o diagnóstico precoce e o BIOFARMtratamento adequado são Avaliar a incidência de Journal of Biology importantes instrumentos infecção urinária em gestantes & Pharmacy and que auxiliam não só no nas Unidades Básicas de Saúde Agricultural controle de infecções e do município de Gurjão-PB. Management problemas congênitos, mas também na diminuição da mortalidade materna. Os resultados indicam altas prevalências de infecções do Determinar a prevalência de trato urinário e infecção fatores associados às infecções genital, considerando que, em Revista de do trato urinário e genital em gestantes, as consequências Ciências Médicas mulheres em período para o bebê podem ser gestacional. graves, o que torna o diagnóstico dessas doenças de suma importância na 179 determinação de medidas preventivas. (Comin, 2020). Revista Saber Digital Avaliar a prevalência de ITU em gestantes atendidas no Hospital Escola de ValençaRJ, identificar as bactérias causadoras da infecção, avaliar o perfil de sensibilidade das cepas aos antimicrobianos prescritos e avaliar a relação sociocultural das gestantes. Este estudo dará ao médico subsídio para prescrever empiricamente com maior grau de certeza visando a eficácia do tratamento. Fonte: Autores, 2024. A ITU é definida pela colonização, invasão e proliferação de agentes infecciosos em qualquer parte do sistema urinário, sendo o tipo mais comum de infecção durante o ciclo gravídico-puerperal. Ela promove um potencial aumento do risco de trabalho de parto prematuro, baixo peso ao nascer, sepse materna e neonatal, pré-eclâmpsia e insuficiência renal, condições que aumentam significativamente a morbidade tanto para a mãe quanto para o feto (Neves et al., 2023). Carvalho et al. (2023) observaram que as infecções do trato urinário inferior são mais comuns durante o segundo trimestre gestacional, enquanto as infecções do trato urinário superior são mais prevalentes durante o segundo e terceiro trimestres, geralmente associadas a infecções do trato urinário assintomáticas prévias e com um perfil recorrente em cerca de 25% dos casos. Além disso, o estudo relatou que os sintomas mais comuns relacionados à ITU foram disúria e dor pélvica, podendo ocorrer simultaneamente ou de forma isolada. Um ponto de destaque nesta análise foi o maior número de mulheres que apresentaram resultados alterados nos exames de urina (EAS), apesar de serem assintomáticas. Na pesquisa conduzida por Menezes et al. (2020), a Escherichia coli foi identificada como o microrganismo mais prevalente, correspondendo a 87% dos casos (n= 880). Além disso, foram observados outros uropatógenos Gram-negativos com menor incidência, bem como espécies Gram-positivas, incluindo Enterobacter spp. (4,27%), Enterococcus spp. (3,37%), Proteus spp. (2,68%), Citrobacter spp. (1%), Klebsiella spp. (0,69%), S. saprophyticus (0,39%), e Morganella spp (0,09%). 180 O estudo de Siqueira et al. (2019), foi observado que das 48 uroculturas positivas, 75,0% resultaram no isolamento de Escherichia coli, seguida por Enterococcus faecalis com 16,67%, Streptococcus agalactiae com 6,25% e Klebsiella sp. com 2,08%. Em termos de constância, uma espécie foi identificada consistentemente em todas as 48 uroculturas, enquanto outras três foram encontradas de forma acidental. Os resultados indicam que a presença de Escherichia coli foi consistentemente alta nas uroculturas, representando 75,0% da frequência total nas amostras de gestantes. Conforme relatado por Macedo et al. (2021), a Escherichia coli está presente em aproximadamente 80 a 90% das infecções urinárias, devido à sua capacidade de aderir à parede do trato urinário e, assim, não ser facilmente arrastada pelo fluxo urinário. Esta bactéria é responsável por 70% a 85% das infecções do trato urinário adquiridas na comunidade e por 50% a 60% das infecções em pacientes idosos residentes em instituições. Na pesquisa de Santos et al. (2018), foi constatada uma positividade de 33,08% (264 casos) para infecções do trato urinário (ITU), infecções genitais ou ambas. Esses casos se dividiram em 115 casos (14,41%) de infecções genitais, 125 casos (15,66%) de ITU e 24 casos (3,01%) de infecção genital associada a ITU. Entre as infecções genitais, as mais prevalentes foram causadas por Gardnerella vaginalis, com 43 casos (37,39%), e Candida albicans, com 34 casos (29,57%). No que diz respeito às ITUs, as principais bactérias encontradas foram Escherichia coli (35,00%) e Klebsiella sp. (20,00%), embora tenham sido encontrados poucos registros nos prontuários das gestantes estudadas. A consulta de pré-natal realizada na atenção primária à saúde é muito importante para diminuição de complicações na gestação, parto e puerpério e quando tratamos de exames de rastreio de ITU a urina tipo I ou EAS é um dos exames recomendados pelo Ministério da Saúde, devendo ser solicitado na primeira consulta de pré-natal e por volta da trigésima semana gestacional. Visando assim, o rastreamento de Bacteriúrias Assintomáticas e o tratamento em tempo oportuno (Macedo et al., 2021). As infecções maternas agudas podem ser transmitidas da mãe para o feto durante a gestação, o que aumenta a morbimortalidade perinatal caso não sejam diagnosticadas e tratadas a tempo (Nunes et al., 2021). Uma das principais formas de prevenção de infecções do trato urinário (ITU) na gestação é a solicitação de exames laboratoriais, aliada à avaliação e análise criteriosa 181 pelo profissional de saúde. Alguns exames são fundamentais para garantir uma assistência de pré-natal de qualidade, podendo ser solicitados novos exames conforme a necessidade (Siqueira et al., 2018). Na pesquisa realizada por Nunes et al. (2021), para o manejo, a cefalexina foi o agente antibiótico empregado em 10 mulheres grávidas, representando 72%, seguido da ampicilina (21%) e da nitrofurantoína (7%). A cefalexina é considerada um dos fármacos mais seguros para o tratamento antimicrobiano durante o período de gestação, devido à elevada sensibilidade de Escherichia coli e à ausência de efeitos teratogênicos. Já na pesquisa de Comin (2020), foi relatado que uma linhagem de Escherichia coli apresentava um alto padrão de resistência aos agentes antibióticos, sendo suscetível apenas à classe das quinolonas e à nitrofurantoína. O estudo descreve que esses achados corroboram com pesquisas anteriores que sugerem que a nitrofurantoína deve ser vista como uma opção eficaz para o tratamento da cistite aguda em mulheres. A percepção da gravidade das complicações, dos sinais e sintomas, bem como dos custos associados ao tratamento da infecção do trato urinário (ITU), é um mecanismo crucial na promoção da conscientização das mulheres sobre a importância dos cuidados preventivos durante a gestação. Portanto, não é suficiente apenas ter conhecimento sobre a doença, pois a assimilação de informações e a adoção de atitudes desempenham um papel fundamental nas medidas preventivas (Neves et al., 2023). CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo visa destacar as complicações e as principais formas de infecção causadas pela infecção do trato urinário (ITU) durante a gestação. A ITU é um problema de grande relevância nesse período, uma vez que está associada ao aumento do risco de trabalho de parto prematuro e é uma das principais causas de hospitalização durante a gestação. A pesquisa também enfatizou a importância da solicitação do exame de urocultura para um diagnóstico mais preciso de infecção do trato urinário (ITU) em gestantes. Os resultados evidenciaram a necessidade de desenvolver e implementar estratégias de educação em saúde sobre ITU, bem como elaborar planos de cuidados individualizados 182 com base em aspectos socioeconômicos, clínicos e assistenciais de cada paciente, utilizando evidências científicas. Para reduzir e controlar os casos de infecção do trato urinário (ITU), é responsabilidade de toda a equipe de saúde envolvida orientar sobre a correta coleta de urina, solicitar exames precocemente durante o pré-natal para diagnóstico e tratamento precoce das ITUs, e instituir um tratamento antimicrobiano adequado e eficaz. Dessa forma, é possível evitar danos tanto para as gestantes quanto para o feto. REFERENCIAS Botelho, Louise Lira Roedel; Cunha, Cristiano Castro de Almeida; Macedo, Marcelo. O Método da Revisão Integrativa nos Estudos Organizacionais. Revista Eletrônica Gestão e Sociedade, Belo Horizonte, MG, v.5, n.11, p.121-136, mai./ago, 2011. CARVALHO, Rafaela de Souza Santos et al. 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