MODELAÇÃO DO COMPORTAMENTO À LIQUEFAÇÃO E DA RESPOSTA SÍSMICA LOCAL DE UM SOLO ARENOSO RUI MIGUEL GUIMARÃES COIMBRA PEREIRA Dissertação submetida para satisfação parcial dos requisitos do grau de MESTRE EM ENGENHARIA CIVIL — ESPECIALIZAÇÃO EM ESTRUTURAS E GEOTECNIA Orientadora: Professora Doutora Cristiana Maria da Fonseca Ferreira Coorientador: Professor Doutor Alexandre Manuel Gonçalves Castanheira Pinto JULHO DE 2023 (Versão para discussão) Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso MESTRADO INTEGRADO EM ENGENHARIA CIVIL 2022/2033 DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL Tel. +351-22-508 1901 miec@fe.up.pt Editado por FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO Rua Dr. Roberto Frias 4200-465 PORTO Portugal Tel. +351-22-508 1400 feup@fe.up.pt http://www.fe.up.pt Reproduções parciais deste documento serão autorizadas na condição que seja mencionado o Autor e feita referência a Mestrado Integrado em Engenharia Civil 2022/2023 - Departamento de Engenharia Civil, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal, 2023. As opiniões e informações incluídas neste documento representam unicamente o ponto de vista do respetivo Autor, não podendo o Editor aceitar qualquer responsabilidade legal ou outra em relação a erros ou omissões que possam existir. Este documento foi produzido a partir de versão eletrónica fornecida pelo respetivo Autor. (Versão para discussão) Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso A meus Pais, Família e Amigos Isso já não é o que era, agora é o que é André Vaz (Versão para discussão) Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (Versão para discussão) Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso AGRADECIMENTOS A concretização desta dissertação não seria possível sem o apoio de algumas pessoas, os meus orientadores, família e amigos a quem agradeço profundamente, em especial: • • • • • • • • • • À Professora Doutora Cristiana Ferreira, que me orientou ao longo desta jornada, por proporcionar um tema tão desafiante e complexo, por partilhar a sua sabedoria e conhecimento e por me ajudar sempre que necessário com empenho e amizade; Ao Professor Doutor Alexandre Pinto, que como coorientador, sempre se mostrou disponível para me ajudar, tendo acompanhado o meu trabalho com dedicação, apoio e amizade; À Daniela do LabGeo da FEUP por todo o apoio e amabilidade, na parte laboratorial e realização dos ensaios; À Julieth pela disponibilidade e prontidão em esclarecer dúvidas relativas ao software PLAXIS; Ao Fausto pelo auxílio na parte laboratorial e pelos conselhos fornecidos; Ao meu caro colega e amigo Afonso, pela ajuda, disponibilidade e amabilidade com que me auxiliou na realização dos ensaios laboratoriais; Ao Doutor Ricardo Azeiteiro pelo apoio relativo à interpretação e partilha dos resultados relativos ao seu estudo realizado na Universidade de Coimbra; À minha namorada, que esteve sempre presente em todos os momentos mais difíceis deste trabalho, que me aconselhou, ajudou e guiou ao longo destes anos; A todos os meus amigos que fizeram parte deste percurso ao longo de 5 anos, com os quais criei memórias que decerto ficarão para a vida; Por fim à minha família por todo o apoio incondicional, amor e carinho; em especial à minha mãe que sempre fez de tudo para acompanhar o meu progresso escolar, mas também na vida, como Homem e Engenheiro; ao meu pai que apesar de distante, sempre esteve presente para me ajudar em tudo, e que foi a minha grande inspiração para seguir esta área. (Versão para discussão) i Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (Versão para discussão) ii Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso RESUMO A previsão do comportamento do solo quando sujeito à liquefação, é ainda um tema que gera muita discussão devido à incerteza e elevado número de fatores intervenientes, que comprometem essa mesma resposta. Neste contexto, esta dissertação tem como objetivo simular, no software comercial PLAXIS, o comportamento de uma estratificação de referência composta por três camadas, sendo a camada superficial formada por uma argila sobreconsolidada, seguida de uma camada arenosa solta e a maior profundidade uma camada rochosa, quando sujeitas a uma excitação cíclica aplicada na base. Desta resposta, pretende-se identificar o comportamento da camada de areia, suscetível ao fenómeno da liquefação, e o seu impacto nos restantes estratos e, para além disso, perceber de que modo a liquefação da camada de areia afeta a resposta sísmica local desse perfil de solo. No âmbito deste tema, a areia escolhida foi a areia de referência de Hostun. Anterior a este estudo, foi realizado um estudo muito abrangente por Azeiteiro (2021) na Universidade de Coimbra com esta mesma areia, cujos alguns resultados de ensaios foram introduzidos e utilizados nesta dissertação. Para além disto, foi ainda realizado um conjunto de ensaios triaxiais cíclicos e ensaios cíclicos de corte simples direto no Laboratório de Geotecnia da FEUP. A realização destes ensaios teve como objetivo a calibração dos modelos constitutivos escolhidos, de modo a se poder representar com clareza o real comportamento da areia. No seguimento da escolha do modelo constitutivo que se concluiu fornecer a resposta mais adequada para o problema em estudo, procedeu-se à modelação computacional. Para a modelação da estratificação recorreu-se ao software PLAXIS que utiliza o método dos elementos finitos de modo a produzir a resposta mais viável e aproximada da realidade. Dos dois modelos constitutivos estudados, optou-se pela utilização do modelo PM4Sand desenvolvido por Boulanger e Ziotopoulou (2015). Definiu-se a modelação de diversos perfis de modo a perceber a influência de diversos fatores, nomeadamente da camada de argila e da posição do nível freático na resposta sísmica do sistema. Em adição, realizou-se um conjunto de análises paramétricas nas quais se avaliou o papel do refinamento da malha, da intensidade e frequência do sinal aplicado na base, entre outros. O trabalho realizado permitiu identificar o impacto da liquefação na avaliação da resposta sísmica local de perfis de solos liqueficáveis, bem como a definição de alguns dos parâmetros que mais condicionam essa resposta sísmica. PALAVRAS-CHAVE: Liquefação, modelação numérica, modelo constitutivo, resposta sísmica local, areia Hostun (Versão para discussão) iii Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (Versão para discussão) iv Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso ABSTRACT The prediction of soil behavior when subjected to liquefaction is still a topic that generates much discussion due to the uncertainty and high number of intervening factors, which compromise this same response. In this context, this dissertation aims to simulate, in the PLAXIS program, the behavior of a reference stratification composed of three layers, the surface layer being formed by an overconsolidated clay, followed by a loose sandy layer and at greater depth a rocky layer, when subjected to a cyclic excitation applied at the base. From this response, it is intended to identify the behavior of the sand layer, susceptible to the phenomenon of liquefaction, and its impact on the remaining layers and, in addition, to understand how the liquefaction of the sand layer affects the local seismic response of this soil model. For this topic, the sand chosen was the Hostun reference sand. Prior to this study, a very thorough study was carried out by Azeiteiro (2021) at the University of Coimbra with this same sand, whose some test results were introduced and used in this dissertation. In addition, a set of cyclic triaxial tests and cyclic direct shear tests were performed at the Geotechnical Laboratory of FEUP. The purpose of these tests was the calibration of the chosen constitutive models, in order to clearly represent the real behavior of the sand. Following the choice of the constitutive model that was concluded to provide the most adequate answer to the problem under study, computational modelling was carried out. For the modelling of the stratification, the PLAXIS program was used, which employs the finite element method in order to produce the most feasible and approximate response to reality. Between the two constitutive models studied, it was opted to use the PM4Sand model developed by Manzari and Dafalias (1997). The modelling of several profiles was defined in order to understand the influence of several factors, namely the clay layer and the position of the water table on the seismic response of the system. In addition, a set of parametric analyses were carried out in which the role of mesh refinement, the intensity and frequency of the signal applied at the base, among others, were evaluated. The work carried out allowed the identification of the impact of liquefaction on the evaluation of the local seismic response of liquefiable soil profiles, as well as the definition of some of the parameters that most condition this seismic response. KEYWORDS: Liquefaction, constitutive model, numerical modelling, local seismic response, Hostun sand (Versão para discussão) v Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (Versão para discussão) vi Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso ÍNDICE GERAL AGRADECIMENTOS ......................................................................................................................... i RESUMO ......................................................................................................................................... iii ABSTRACT ...................................................................................................................................... v 1. 2 INTRODUÇÃO .............................................................................................................................. 1 1.1 Enquadramento........................................................................................................................ 1 1.2 Âmbito e objetivos .................................................................................................................. 2 1.3 Organização da dissertação ..................................................................................................... 2 ESTADO DA ARTE ....................................................................................................................... 5 2.1 Ondas Sísmicas ....................................................................................................................... 5 2.1.1 Ondas P ........................................................................................................................... 5 2.1.2 Ondas S ........................................................................................................................... 6 2.1.3 Ondas Superficiais........................................................................................................... 7 2.2 Resposta Sísmica Local ........................................................................................................... 8 2.2.1 Modelos de Análise ......................................................................................................... 8 2.2.2 Propriedades dinâmicas do solo ...................................................................................... 9 2.2.3 Condicionantes do Maciço ............................................................................................ 10 2.2.4 Reflexão e Refração ...................................................................................................... 11 2.2.5 Dispersão e amortecimento lateral e geométrico........................................................... 11 2.3 Liquefação ............................................................................................................................. 12 2.3.1 Casos históricos de ocorrência de Liquefação............................................................... 12 2.3.2 Liquefação e diferentes tipos de rotura ......................................................................... 14 2.4 2.3.2.1 Liquefação por Fluxo ................................................................................................ 15 2.3.2.2 Mobilidade Cíclica .................................................................................................... 16 2.3.2.3 Liquefação por Fluxo vs Mobilidade Cíclica ............................................................ 17 Suscetibilidade à Liquefação ................................................................................................. 18 2.4.1 Critério histórico e geológico ........................................................................................ 18 2.4.2 Critério Composicional ................................................................................................. 19 2.4.3 Teoria dos Estados Críticos ........................................................................................... 20 2.4.4 Abordagem das Tensões Cíclicas .................................................................................. 23 2.4.4.1 Fator de Segurança em Relação à Liquefação........................................................... 25 2.4.5 Ensaios Laboratoriais .................................................................................................... 28 2.4.6 Cartas de Liquefação e Ensaios “In Situ” ..................................................................... 29 (Versão para discussão) vii Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2.5 2.5.1 Apresentação breve do modelo...................................................................................... 29 2.5.2 Relação da Teoria dos Estados Críticos com o Modelo NorSand ................................. 31 2.6 3 Modelo Constitutivo NorSand ............................................................................................... 29 Modelo Constitutivo PM4Sand ............................................................................................. 33 2.6.1 Apresentação breve do modelo...................................................................................... 33 2.6.2 Relação da Teoria dos Estados Críticos com o Modelo PM4Sand................................ 34 METODOLOGIA E PROGRAMA EXPERIMENTAL ............................................................... 37 3.1 Caracterização física do material ........................................................................................... 37 3.1.1 Análise granulométrica .................................................................................................. 37 3.1.2 Densidade das partículas sólidas ................................................................................... 39 3.1.3 Índice de vazios máximo e mínimo ............................................................................... 40 3.2 Ensaios Laboratoriais ............................................................................................................ 41 3.2.1 Ensaio triaxial ................................................................................................................ 41 3.2.2 Ensaio cíclico de corte simples direto (CDSS) .............................................................. 43 3.2.3 Instrumentação............................................................................................................... 44 4 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS LABORATORIAIS E CALIBRAÇÃO DOS MODELOS CONTITUTIVOS.............................................................................................................. 45 4.1 Ensaios Triaxiais Monotónicos ............................................................................................. 45 4.2 Ensaios Triaxiais Cíclicos ..................................................................................................... 46 4.3 Ensaios cíclicos de corte simples direto ................................................................................ 47 4.4 Comparação de resultados entre CTx e CDSS ...................................................................... 50 4.5 Calibração dos modelos ......................................................................................................... 52 4.5.1 Calibração do Modelo NorSand .................................................................................... 52 4.5.1.1 Ensaio triaxial monotonico drenado 0,885/80 ........................................................... 54 4.5.1.2 Ensaio triaxial monotonico não drenado 0,876/80 .................................................... 56 4.5.1.3 Conclusões ................................................................................................................. 57 4.5.2 Calibração do Modelo PM4Sand ................................................................................... 58 4.5.2.1 Ensaios CDSS calibrados .......................................................................................... 60 4.5.2.2 Conclusões ................................................................................................................. 62 5 MODELAÇÃO NUMÉRICA: APRESENTAÇÃO DO CASO DE ESTUDO E DISCUSSÃO DE RESULTADOS ..................................................................................................................................... 63 5.1 Apresentação e modelação do caso de estudo num software comercial ................................ 63 5.1.1 Descrição geral .............................................................................................................. 63 5.1.2 Apresentação e modelação do caso de estudo ............................................................... 64 5.1.2.1 Areia Hostun com NorSand ....................................................................................... 68 5.1.2.2 Areia Hostun com PM4Sand ..................................................................................... 71 (Versão para discussão) viii Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 5.2 Análise de resultados do Modelo 1 ....................................................................................... 73 5.2.1 5.2.1.1 Influência da variação da aceleração aplicada na base do modelo ............................ 76 5.2.1.2 Influência da variação da frequência da excitação aplicada na base do modelo ....... 79 5.2.1.3 Influência do refinamento da malha utilizada ........................................................... 81 5.2.2 Perfis 2 e 4 ..................................................................................................................... 83 5.2.3 Perfil 3 ........................................................................................................................... 85 5.3 Análise de resultados do Modelo 2 ....................................................................................... 87 5.3.1 5.3.1.1 Perfil 1 ........................................................................................................................... 88 Representação da curva CSR:NL e comparação com ensaios laboratoriais .............. 90 5.3.2 Perfis 2 e 4 ..................................................................................................................... 93 5.3.3 Perfil 3 ........................................................................................................................... 94 5.4 6 Perfil 1 ........................................................................................................................... 73 Comportamento pós-solicitação dinâmica ............................................................................ 95 5.4.1 Assentamentos à superfície ........................................................................................... 96 5.4.2 Evolução dos excessos de pressão neutra após a solicitação dinâmica ......................... 99 CONCLUSÕES E DESENVOLVIMENTOS FUTUROS ......................................................... 101 6.1 Considerações finais ............................................................................................................ 101 6.2 Desenvolvimentos futuros ................................................................................................... 102 Referências Bibliográficas .................................................................................................................. 105 (Versão para discussão) ix Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (Versão para discussão) x Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso ÍNDICE DE FIGURAS Fig. 2.1 – Esquema de propagação das ondas P ................................................................................... 6 Fig. 2.2 – Esquema de propagação das ondas S ................................................................................... 6 Fig. 2.3 – (a) Esquema de propagação das ondas Rayleigh; (b) Esquema de propagação das ondas Love; adaptado de (Costa, 2011) ............................................................................................................ 7 Fig. 2.4 – Módulo de distorção e coeficiente de amortecimento ........................................................... 10 Fig. 2.5 – Esquema de formação de uma onda superficial ................................................................... 11 Fig. 2.6 – Modelo visco-elástico de Kelvin-Voigt, adaptado de (Kramer, 1996) ................................... 12 Fig. 2.7 – Danos provocados pelo sismo em Nobi, no ano de 1891 .................................................... 13 Fig. 2.8 – Deslizamento de terras decorrente do “Great Alaska Earthquake”, em 1964 ...................... 13 Fig. 2.9 – Liquefação: (a) estado de repouso; (b) liquefação; (c) pós fenómeno, adaptado de (Fernandes, 2006) ................................................................................................................................. 14 Fig. 2.10 – Solos A e B exibem comportamento dilatante; Solos C, D e E exibem comportamento contrátil, adaptado de (Kramer, 1996) .................................................................................................. 15 Fig. 2.11 – Representação gráfica da Linha de Estado Permanente no plano q:p´, adaptado de (Kramer, 1996) ..................................................................................................................................................... 16 Fig. 2.12 – Resultados dos ensaios triaxiais realizados por Castro e Poulos (1977), adaptado de (Rocha, 2010) ..................................................................................................................................................... 17 Fig. 2.13 – Zoneamento da suscetibilidade aos diferentes tipos de rotura por liquefação, adaptado de (Kramer, 1996) ...................................................................................................................................... 18 Fig. 2.14 – Limites de suscetibilidade à Liquefação a partir das curvas granulométricas de Tsuchida (1970), adaptado de (dos Santos Junior et al., 2019) ........................................................................... 19 Fig. 2.15 – Comportamento de solos densos e soltos para a mesma tensão efetiva de confinamento. e l – índice de vazios inicial do solo solto; ed – índice de vazios inicial do solo denso; ec – índice de vazios crítico; adaptado de (Kramer, 1996) ..................................................................................................... 20 Fig. 2.16 – (a) comportamentos de solos densos e soltos sob condição drenadas e não drenadas; (b) limite entre região suscetível e não suscetível à Liquefação; adaptado de (Kramer, 1996) ................ 21 Fig. 2.17 – Resposta dos solos relativamente aos ensaios triaxiais, adaptado de (Araújo, 2022) e (Kramer, 1996) ...................................................................................................................................... 21 Fig. 2.18 – Definição Gráfica do Parâmetro de Estado ........................................................................ 22 Fig. 2.19 – (a) tensão de corte máxima no caso da área se comportar como um solo rígido; (b) tensão de corte máxima com a introdução do fator minorativo rd; (c) coeficiente redutor da tensão, adaptado de (Fernandes, 2020) ............................................................................................................................ 23 Fig. 2.20 – Zona de Liquefação, adaptado de (Kramer, 1996) ............................................................. 26 Fig. 2.21 – Zoneamento sísmico em Portugal Continental, segundo Eurocódigo 8, Parte 1, Anexo Nacional (2010) ..................................................................................................................................... 27 (Versão para discussão) xi Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 2.22 – (a) Carta de Liquefação com base no ensaio SPT; (b) Carta de Liquefação com base no ensaio CPT; adaptado de (Fernandes, 2020) ....................................................................................... 29 Fig. 2.23 – (a) Superfície de cedência para uma areia solta; (b) Superfície de cedência para uma areia densa; adaptado de (Jefferies & Shuttle, 2005) .................................................................................... 30 Fig. 2.24 – Relação das propriedades do solo com a Teoria dos Estados Críticos, adaptado de (Araújo, 2022) ...................................................................................................................................................... 32 Fig. 2.25 – Superfícies de carregamento (adaptado de (Boulanger & Ziotopoulou, 2015) ................... 33 Fig. 2.26 – Definição do de estado relativo e representação da LEC (adaptado de (Toloza Barría, 2018) ............................................................................................................................................................... 35 Fig. 3.1 – Curva granulométrica da areia Hostun obtida no LabGeo- FEUP ........................................ 38 Fig. 3.2 – Câmara triaxial; Ligação (a) pressão neutra; (b) contrapressão; (c) pressão na câmara; (d) drenagem da base, adaptado de (Fonseca, 2009) e (Fernandes, 2006) ............................................. 42 Fig. 3.3 – Aparelho relativo ao ensaio cíclico de corte simples direto .................................................. 43 Fig. 3.4 – Esquema de um elemento duplo piezocerâmico (Ferreira, 2003) ........................................ 44 Fig. 3.5 – Esquema de funcionamento de um bender element (Ferreira, 2003) ................................. 44 Fig. 4.1 – Ensaio ICDMTC p↑ 0,885/80, (Azeiteiro, 2021) .................................................................... 46 Fig. 4.2 – Ensaio ICUMTC p↑ 0,876/80, (Azeiteiro, 2021) .................................................................... 46 Fig. 4.3 – Ensaio Hn_CTx2 realizado no LabGEO ................................................................................ 47 Fig. 4.4 – Ensaio CDSS Hn_80_12 ....................................................................................................... 49 Fig. 4.5 – Comparação das curvas do ensaio CTx e CDSS ................................................................. 51 Fig. 4.6 – Correção da curva relativa ao ensaio triaxial cíclico ............................................................. 51 Fig. 4.7 – Comparação das curvas V0 e ensaio ................................................................................... 54 Fig. 4.8 – Comparação das curvas V1 e ensaio ................................................................................... 55 Fig. 4.9 – Comparação das curvas V2 e ensaio ................................................................................... 55 Fig. 4.10 – Comparação das curvas V0 e ensaio ................................................................................. 56 Fig. 4.11 – Comparação das curvas V1 e ensaio ................................................................................. 56 Fig. 4.12 – Comparação das curvas V2 e ensaio ................................................................................. 57 Fig. 4.13 – LEC proposta para a areia de Hostun, adaptado de (Azeiteiro, 2021) ............................... 59 Fig. 4.14 – Calibração do ensaio Hn_80_12 ......................................................................................... 61 Fig. 4.15 – Calibração do ensaio Hn_160_30 ....................................................................................... 61 Fig. 5.1 – Modelo 1 ................................................................................................................................ 66 Fig. 5.2 – Modelo 2 ................................................................................................................................ 66 Fig. 5.3 – Acelerograma da onda sinusoidal com a=1 m/s2 de amplitude; f=1 Hz; t=60 s .................... 68 Fig. 5.4 – Variação do excesso de pressão neutra ao longo do tempo, para o ponto médio da camada, para diferentes acelerações, utilizando o modelo NorSand .................................................................. 70 (Versão para discussão) xii Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 5.5 – Variação de ru ao longo do tempo para a=1 m/s2 no modelo PM4Sand .............................. 72 Fig. 5.6 – Comparação da evolução de ru ao longo do tempo para ambos os modelos constitutivos . 72 Fig. 5.7 – Perfil de acelerações para o Modelo 1 perfil 1 ...................................................................... 74 Fig. 5.8 – Perfil de ru para o Modelo 1 perfil 1 ....................................................................................... 75 Fig. 5.9 –Comparação dos perfis de acelerações para o Modelo 1 perfil 1 para diferentes acelerações ............................................................................................................................................................... 76 Fig. 5.10 –Comparação dos perfis de ru para o Modelo 1 perfil 1 para diferentes acelerações ........... 77 Fig. 5.11 – Evolução em profundidade do Fator de amplificação máximo para diferentes a input .......... 78 Fig. 5.12 – Mapas de ru para diferentes acelerações ........................................................................... 79 Fig. 5.13 – Evolução em profundidade do Fator de amplificação máximo para diferentes frequências ............................................................................................................................................................... 80 Fig. 5.14 – a) Mapa de ru do Modelo 1 perfil 1 com ainput= 1m/s2 e f=0,5 Hz; b) Evolução de ru em profundidade para ondas sinusoidais de diferentes frequências .......................................................... 81 Fig. 5.15 – Comparação dos perfis de ru para o Modelo 1 perfil 1, simulado com diferentes densidades de malha ................................................................................................................................................ 82 Fig. 5.16 – Evolução em profundidade do Fa máximo no Modelo 1 perfil 1, para diferentes malhas .. 82 Fig. 5.17 –Comparação dos perfis de acelerações para o Modelo 1 perfis 1 e 2 ................................ 84 Fig. 5.18 – Desenvolvimento em profundidade do fator de amplificação máximo para os 3 perfis ..... 85 Fig. 5.19 – Comparação dos mapas de ru dos peris 1 e 3 do Modelo 1 ............................................... 86 Fig. 5.20 – Comparação da evolução em profundidade de F a máximo para os perfis 1 e 3 do Modelo 1 ............................................................................................................................................................... 87 Fig. 5.21 – Perfil de acelerações para o Modelo 2 perfil 1 .................................................................... 88 Fig. 5.22 – Perfil de ru (60 s) para o Modelo 2 perfil 1 .......................................................................... 89 Fig. 5.23 – Comparação do Fator de amplificação ao longo da estratificação para o perfil 1 dos diferentes Modelos ................................................................................................................................ 90 Fig. 5.24 – Valores de ru para o ponto P3 utilizando diferentes sinais de input.................................... 91 Fig. 5.25 – Variação de Fa para diferentes ainput no ponto P3 dos Modelos 1 e 2 ................................ 92 Fig. 5.26 – Curvas CSR para os ensaios CDSS, CTx e Modelo 2 perfil 1 ........................................... 92 Fig. 5.27 – Evolução em profundidade do fator de amplificação máximo para diferentes perfis do Modelo 2 ............................................................................................................................................................. 93 Fig. 5.28 – Mapa de ru dos diferentes perfis do Modelo 2 .................................................................... 94 Fig. 5.29 – Evolução em profundidade de Fa máximo para os perfis 1 e 3 do Modelo 2 ..................... 94 Fig. 5.30 – Evolução do deslocamento vertical do ponto P1 ao longo do tempo ................................. 96 Fig. 5.31 – Assentamentos à superfície ................................................................................................ 97 Fig. 5.32 – Evolução dos deslocamentos verticais em profundidade ................................................... 98 (Versão para discussão) xiii Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 5.33 – Dissipação dos excessos de pressão neutra gerados ........................................................ 99 (Versão para discussão) xiv Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso ÍNDICE DE TABELAS Tabela 2.1 – Campo de validade de modelos constitutivos em função da distorção (adaptado de Ishihara, 1996 segundo Costa, 2011) ..................................................................................................... 9 Tabela 2.2 – Valores de MSF com CSR, adaptado de (Kramer, 1996)................................................ 25 Tabela 2.3 – Valores de MSF com CRR, adaptado de (Fernandes, 2020) .......................................... 25 Tabela 2.4 – Aceleração máxima de referência consoante a zona sísmica, EC8-NA (2010) .............. 27 Tabela 2.5 – Valores de cr ..................................................................................................................... 28 Tabela 2.6 – Propriedades do modelo NorSand (adaptado de (Jefferies & Shuttle, 2005).................. 30 Tabela 2.7 – Parâmetros do modelo NorSand, adaptado de Jefferies e Been (2015) ......................... 31 Tabela 2.8 – Propriedades do modelo PM4Sand ................................................................................. 34 Tabela 3.1 – Coeficientes de uniformidade e de curvatura .................................................................. 39 Tabela 3.2 – Comparação dos valores obtidos com valores da Universidade de Coimbra para a areia Hostun ................................................................................................................................................... 41 Tabela 4.1- Ensaios CDSS ................................................................................................................... 48 Tabela 4.2- Velocidades das ondas S e P ............................................................................................ 50 Tabela 4.3-Valores de CSR e número de ciclos para os ensaios cíclicos............................................ 50 Tabela 4.4- Valores de Gref para ambos os ensaios ............................................................................. 53 Tabela 4.5 – Valores de input na calibração do modelo NorSand ........................................................ 53 Tabela 4.6 – Intervalos de variação dos parâmetros de entrada .......................................................... 57 Tabela 4.7 – Valores de G0 para os ensaios CDSS realizados ............................................................ 58 Tabela 4.8 – Valores da densidade relativa no estado crítico para 50 e 100 kPa para diferentes valores de Q e R ................................................................................................................................................ 60 Tabela 4.9 – Valores de input na calibração do modelo PM4Sand ...................................................... 60 Tabela 4.10 – Valores dos parâmetros variáveis da calibração dos ensaios CDSS ............................ 62 Tabela 5.1 – Parâmetros de input da camada argilosa, adaptados de (Vilhar & Brinkgreve, 2018) .... 64 Tabela 5.2 – Parâmetros de input da camada rochosa, adaptado de (Vilhar & Brinkgreve, 2018) ..... 65 Tabela 5.3 – Catálogo de modelos ....................................................................................................... 67 Tabela 5.4 – Propriedades da areia Hostun com o modelo NorSand .................................................. 69 Tabela 5.5 - Propriedades da areia Hostun com o modelo PM4Sand.................................................. 71 Tabela 5.6 – Tempo de cálculo para o modelo com diferentes malhas ............................................... 83 Tabela 5.7 – Correspondência entre NL e CSR para diferentes acelerações no ponto P3 .................. 91 Tabela 5.8 – Assentamentos no ponto P1 em todas as simulações .................................................... 97 (Versão para discussão) xv Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (Versão para discussão) xvi Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso SÍMBOLOS, ACRÓNIMOS E ABREVIATURAS ALFABETO LATINO agr - aceleração máxima de referência ainput - aceleração induzida na base do modelo amáx - aceleração máxima gerada por um sismo Cc - índice de compressibilidade ou curvatura Cg – parâmetro que define o módulo de corte elástico para pequenas deformações CU - coeficiente de uniformidade cr - fator corretivo que relaciona CRRtx com CRRss C´ref – coesão de referência C´inc – incremento de coesão D - diâmetro da amostra D10 - diâmetro efetivo, dimensão correspondente a 10% de material passado numa curva granulométrica D% - diâmetro efetivo, dimensão correspondente à % de material passado numa curva granulométrica DR - densidade relativa DR,cs - densidade relativa no estado crítico Dr0 - densidade relativa inicial E - módulo elasticidade Eref 50 – módulo de elasticidade para ensaio triaxial a 50% da tensão máxima Eref oed – módulo de elasticidade para carregamento edométrico Eref ur – módulo de elasticidade de carga-descarga e - índice de vazios e0 - índice de vazios inicial ec - índice de vazios crítico ess - índice de vazios no estado permanente (steady state) ecs – índice de vazios no estado crítico (critical state) emáx - índice de vazios máximo emin - índice de vazios mínimo f - Frequência Fa – Fator de amplificação FSL - fator de segurança relativo ao desencadeamento da liquefação G - módulo de distorção (Versão para discussão) xvii Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso G0 - módulo de corte inicial Gref 0 – módulo de corte inicial para pequenas deformações Gref - módulo de corte de referência Gsec - módulo de distorção secante g - aceleração da gravidade H0 - Parâmetro de endurecimento inicial HΨ - Parâmetro de endurecimento em função de Ψ hp0 – taxa de contração K0 - coeficiente de impulso em repouso Knc 0 - coeficiente de impulso em repouso normalmente consolidado L - onda Love m – massa do provete m – expoente relativo à dependência da rigidez em relação ao nível de carregamento M - Módulo confinado; parâmetro resistente M - Magnitude de referência Mtc - razão de atrito no estado crítico para o ensaio triaxial MSF - fator corretivo relativo à magnitude de referência NL - número de ciclos para liquefazer N - propriedade de associação volumétrica (N1)60 - parâmetro normalizado do ensaio SPT nb - parâmetro da superfície limite nd - parâmetro da superfície de dilatância OCR - grau de sobreconsolidação P - onda de compressão Pa - pressão atmosférica p' - tensão média efetiva pref - pressão média de referência q - tensão de desvio qc - tensão de desvio crítica R - onda Rayleigh Rf - coeficiente de falha rd - coeficiente redutor da tensão ru – razão de excesso de pressão neutra (Versão para discussão) xviii Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso S - onda de corte S - parâmetro de suavização uy – deslocamentos verticais VP - velocidade das ondas de compressão VS - velocidade das ondas de corte yref – coordenada de referência z – profundidade ɣ - distorção ou deformação por corte ALFABETO GREGO α, β – coeficientes de amortecimento de Rayleigh - índice de vazios para p´= 1 kPa ɣ - distorção ou deformação por corte - peso volúmico do solo d,min - peso volúmico seco mínimo d,max - peso volúmico seco máximo w - peso volúmico da água s - peso volúmico das partículas sólidas sat - peso volúmico saturado nsat - peso volúmico não saturado u - excesso de pressão neutra Ψ - parâmetro de estado Ψ0 - parâmetro de estado inicial a - deformação axial q - deformação de corte r - deformação radial v - deformação volumétrica η - coeficiente de viscosidade ηG - expoente power-law da elasticidade θs – ângulo de incidência da onda P e - declive da linha dos estados críticos - coeficiente de Poisson ξ - amortecimento (Versão para discussão) xix Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso ξR - índice de estado relativo - densidade t – resistência à tração v - tensão total vertical v0 - tensão total vertical inicial ´3c - tensão efetiva vertical crítica ’v - tensão efetiva vertical ’v0 - tensão efetiva vertical inicial τ - tensão de corte τcic - tensão de corte cíclica φ’ – ângulo de atrito φ´cv – ângulo de atrito para volume constante χtc - parâmetro da relação de estado-dilatância para ensaios triaxiais de compressão SIGLAS E ACRÓNIMOS BP- Back Pressure- Contrapressão CDSS- Cyclic Direct Simple Shear test ou ensaio cíclico de corte simples direto CPT - Cone Penetration Test CSSM – Critical State Soil Mechanics CSR - Razão de Ação Cíclica CRR - Razão da Resistência Cíclica CRRin situ - Razão da Resistência Cíclica in situ CRRss - Razão da Resistência Cíclica para os ensaios de corte cíclico simples CRRtx - Razão da Resistência Cíclica para os ensaios triaxiais CTx – Ensaio triaxial cíclico EC8 – Eurocódigo 8 FEUP - Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto LabGeo - Laboratório de Geotecnia da FEUP LCN - Linha Normalmente Consolidada LEP – Linha de Estado Permanente LEC - Linha dos Estados Críticos LVC – Linha de índice de Vazios Críticos (Versão para discussão) xx Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso LVDT- Linear Variable Differential Transformers SPT - Standard Penetration Test TEC – Teoria dos Estados Críticos (Versão para discussão) xxi Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (Versão para discussão) xxii Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 1 1. INTRODUÇÃO 1.1 ENQUADRAMENTO O fenómeno abordado nesta dissertação recai num assunto muito debatido e estudado no âmbito da geotecnia, sobre o qual ainda existe muita discussão e interesse em obter novos dados, para reforçar a investigação existente. A liquefação é caracterizada por um aumento da pressão nos poros, induzida pela água intersticial e originada pela vibração do solo. Ocorre na sua maioria em solos saturados, granulares soltos e expostos a ações vibratórias exteriores, não se regendo a apenas estes parâmetros e condições. O aumento de pressão neutra gerado por uma dilatância negativa (diminuição de volume devido a rearranjo das partículas) pode atingir valores que, ao igualar a tensão total, anulam a tensão efetiva do solo sob condições não drenadas. Em consequência deste acontecimento, gera-se uma grande perda de resistência no solo à superfície, o que pode originar consequências nefastas nas estruturas ali assentes. Para além disto, os danos causados podem continuar mesmo após o término do sismo dado que, após o período de vibração do solo, ocorre um rearranjo das partículas perturbadas o que poderá culminar em assentamentos superficiais. O estudo deste evento revela-se cada vez mais importante devido aos custos associados aos estragos induzidos, refletindo-se em tentativas de previsão e mitigação destas ocorrências. Deste modo, com o objetivo de conhecer o comportamento do solo face a determinada solicitação, desenvolveram-se métodos e modelos constitutivos fundamentados na Teoria dos Estados Críticos. O estudo da resposta do solo é bastante complexo e por isso, como forma a facilitar a análise de dados, foram desenvolvidos vários ‘software’ aplicando os modelos anteriormente referidos, implementando-os pelo método dos elementos finitos. A definição dos principais parâmetros intervenientes na ativação do fenómeno, bem como das condições necessárias no que toca à estratigrafia e propriedades do solo, nível freático, ações exteriores (sismo), entre outros, são os principais fundamentos para o desenvolvimento deste trabalho. A modelação de um perfil de referência composto por três camadas enquadra-se no âmbito desta dissertação visto que a areia de referência utilizada, a areia de Hostun, não está associada a um perfil de solo real. Para além disto, esta análise é fundamentada por ensaios laboratoriais de modelação física realizados numa centrifugadora, no Schofield Centre da Universidade de Cambridge, nos quais foram utilizados perfis de referência semelhantes. (Versão para discussão) 1 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 1.2 ÂMBITO E OBJETIVOS No âmbito desta tese, realizar-se-á um estudo do comportamento constitutivo de uma areia de referência, a areia Hostun. Esta areia francesa provém da cidade de Hostun, França e, é uma areia natural que foi selecionada devido às suas características físicas e mecânicas únicas, que a tornam um material modelo para o estudo de liquefação em laboratório. Este trabalho tem como objetivo principal a modelação do comportamento constitutivo da areia Hostun através de uma simulação utilizando elementos finitos, fornecida pelo programa PLAXIS. O programa, que utiliza o método dos elementos finitos de modo a realizar análises de modelos geotécnicos, permite simular esta mesma areia sob a influência de solicitações sísmicas. Primeiramente, irá ser realizada uma modelação de uma série de ensaios triaxiais cíclicos e de corte simples direto cíclicos, executados no Laboratório de Geotecnia da FEUP (LabGeo), e de ensaios monotónicos realizados na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), com a finalidade de validar os parâmetros constitutivos do solo. De seguida, realizar-se-ão diversas análises da resposta sísmica de perfis de terreno com diferentes características, nomeadamente, diferente estratificação, espessura de camadas, cota do nível freático, incluindo ainda análises paramétricas, de modo a avaliar de que modo estes fatores afetam a resposta sísmica. Os resultados obtidos neste estudo poderão ser utilizados para a análise da resposta à liquefação de infraestruturas críticas fundadas em solos suscetíveis à liquefação. 1.3 ORGANIZAÇÃO DA DISSERTAÇÃO A presente dissertação encontra-se organizada em 6 capítulos, incluindo ainda 2 anexos. Neste primeiro capítulo é realizada uma pequena introdução ao tema, seguida de uma contextualização e enquadramento da tese no âmbito do assunto em estudo. De seguida, é apresentada a organização da dissertação. O Capítulo 2 é referente ao estudo realizado sobre a temática em análise. Apresenta-se a investigação relativa às ondas sísmicas, volumétricas e superficiais, e no seguimento da matéria, o estudo relativo à resposta sísmica local e propagação das ondas sísmicas. Adicionalmente, é retratada a temática da liquefação, sendo incluídos casos históricos, diferenciados os dois tipos correntes de liquefação, cíclica e monotónica, e apresentados alguns critérios de avaliação da suscetibilidade à liquefação. Por fim, são demonstradas algumas particularidades dos dois modelos constitutivos analisados, como os parâmetros utilizados na definição do solo no programa PLAXIS e, a relação de ambos os modelos com a Teoria dos Estados Críticos. No Capítulo 3 está inserida a caracterização física do material contando com a análise granulométrica, densidade das partículas e índice de vazios máximo e mínimo. Para além disto, é feita uma breve descrição dos ensaios laboratoriais utilizados, a nível de procedimentos e instrumentação utilizada. O quarto Capítulo divide-se em duas partes, primeiramente são retratados os resultados dos ensaios laboratoriais anteriormente apresentados, e feita uma comparação entre os ensaios cíclicos realizados. De seguida, e utilizando os resultados dos ensaios laboratoriais, procede-se à calibração dos modelos constitutivos escolhidos, NorSand e PM4Sand. O Capítulo 5 representa a modelação no programa PLAXIS. É introduzida uma breve apresentação do programa, na qual se explica o funcionamento do mesmo e os aspetos principais a ter em consideração na modelação. De seguida, são apresentados os modelos e perfis utilizados, analisando especificamente (Versão para discussão) 2 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso a sua geometria, parâmetros utilizados na definição das camadas de solo, pormenores de malha e condições de fronteira e ainda, as fases de cálculo e tipos de análise utilizados. Por último, é realizada uma análise dos resultados obtidos, tanto a nível comportamental da camada de areia quando sujeita à liquefação, como quanto à resposta sísmica local relativa à propagação das ondas de corte transmitidas pela base ao longo do perfil. No fim deste capítulo são ainda apresentados resultados relativos a uma análise após o final da solicitação dinâmica, na qual são analisados assentamentos à superfície nos diferentes perfis e, a dispersão dos valores de excessos de pressão neutra gerados. No último Capítulo são tecidas algumas considerações finais, referentes a aspetos importantes a ter em conta na modelação e principais conclusões retiradas de todo o estudo realizado. Finaliza-se com uma breve secção dedicada a desenvolvimentos futuros e possíveis análises paramétricas de grande interesse. (Versão para discussão) 3 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (Versão para discussão) 4 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2 2 ESTADO DA ARTE 2.1 ONDAS SÍSMICAS As ondas sísmicas propagam-se através da crusta terrestre geradas por um terramoto. Quando o estado de repouso de um meio elástico é perturbado localmente, as energias potencial elástica e cinética reunidas em torno da região afetada dão lugar a ondas que se propagam pelo meio, transportando energia para os restantes locais. Essas ondas podem ser geradas a partir de uma variedade de fontes, como a movimentação de placas tectônicas, atividade vulcânica ou explosões. Existem dois tipos principais de ondas sísmicas: as ondas primárias (P) e as ondas secundárias (S). As ondas P são ondas de compressão que se propagam através do material sólido da Terra, como o granito ou outras rochas. As ondas S são ondas cujo processo de propagação implica deformação a volume constante, sendo que o movimento das partículas aquando da propagação pode apresentar componentes normal ou paralela ao plano vertical, referente à direção de propagação. Além das ondas P e S também denominadas como ondas volumétricas, existem outras formas de ondas sísmicas, como as ondas de superfície que se propagam ao longo da superfície da Terra. Essas ondas podem ser particularmente destrutivas, podendo causar movimentação no solo em grande escala (Kramer, 1996). 2.1.1 ONDAS P As ondas volumétricas, propagam-se através de meios sólidos, líquidos e gasosos, numa única direção, semelhante ao movimento de uma mola comprimida e descomprimida. Estas ondas são também denominadas de primárias, visto que são as primeiras a serem recebidas pelo sismógrafo. Conseguem atingir maiores velocidades ao propagarem-se pela água do que pelo ar, o que leva a concluir que a velocidade de propagação das ondas é diretamente proporcional à rigidez do material de propagação, quanto mais rígido o meio de propagação, maior a velocidade atingida. Na Fig. 2.1 está representado um esquema de propagação da onda volumétrica P. (Versão para discussão) 5 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 2.1 – Esquema de propagação das ondas P O cálculo da velocidade das ondas longitudinais pode ser realizado através da seguinte fórmula, que depende das características do meio, segundo a Teoria da Elasticidade: 𝐸 (1 − 𝜈) 𝑀 𝑉𝑝 = √ . = √ 𝜌 (1 + 𝜈). (1 − 2𝜈) 𝜌 2.1.2 (2.1) ONDAS S As ondas S, também conhecidas como ondas de corte, apenas se conseguem propagar em meios sólidos, através de movimentos puramente distorcionais. O desenvolvimento da onda ocorre através de movimentos das partículas perpendiculares à direção de propagação. Na Fig. 2.2 tem-se um exemplo do esquema de propagação das ondas S. Fig. 2.2 – Esquema de propagação das ondas S O cálculo da velocidade das ondas S pode ser realizado através da seguinte fórmula, que depende das características do meio, de acordo com a Teoria da Elasticidade: (Versão para discussão) 6 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 𝑉𝑠 = √ 𝐸 1 𝐺 . = √ 2𝜌 (1 + 𝜈) 𝜌 (2.2) Dado que a velocidade de propagação das ondas volumétricas apenas depende das propriedades elásticas do meio e da massa volúmica, é possível estabelecer uma relação direta entre as velocidades de ambas as ondas referidas anteriormente. Esta relação estabelece-se em função do coeficiente de Poisson e é dada por: 𝑉𝑠 (1 − 2𝜈) = √ 𝑉𝑝 (2 − 2𝜈) 2.1.3 (2.3) ONDAS SUPERFICIAIS Estas ondas denominadas de ondas superficiais têm como meio de propagação a superfície terrestre, mais precisamente, percorrem a interface entre a crusta terrestre e a atmosfera. As ondas Rayleigh (R) são caracterizadas por um movimento elíptico das partículas, sendo que possuem um caráter evanescente na direção normal à superfície. Este comportamento assemelha-se a uma onda que se move na superfície da água, fazendo com que o solo se mova para cima e para baixo. São produto de uma interação entre as ondas P e S com a condição de fronteira imposta pela superfície livre. Para além disto, são as ondas superficiais mais lentas, mas também as mais complexas e possuem uma amplitude maior que as ondas volumétricas, o que as torna mais destrutivas. Relativamente às ondas Love (L), as suas partículas propagam-se na direção normal ao plano de propagação. Possuem uma velocidade de propagação superior às ondas Rayleigh e a sua energia é forçada a permanecer nas camadas superiores devido à ocorrência de reflexão interna total (Costa, 2011). Na Fig. 2.3 representada de seguida, apresentam-se imagens exemplificativas do esquema de propagação de ambas as ondas. Fig. 2.3 – (a) Esquema de propagação das ondas Rayleigh; (b) Esquema de propagação das ondas Love; adaptado de (Costa, 2011) (Versão para discussão) 7 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2.2 RESPOSTA SÍSMICA LOCAL A resposta sísmica local e o estudo do comportamento do solo quando sujeito a ações dinâmicas, é um tópico relevante para o desenvolvimento desta dissertação. No decorrer de um sismo, são produzidas ondas de energia que se propagam até à superfície por via do meio sólido do terreno. As ondas volumétricas referidas anteriormente dão origem às ondas superficiais, principais causadoras de danos em estruturas e camadas de solos no plano emergente. Os efeitos destas ondas podem ser sentidos a grandes distâncias do epicentro, no entanto dois locais distintos, equidistantes da origem do registo sísmico, podem não experienciar as mesmas ações. Isto acontece devido aos efeitos de sítio que se relacionam com as propriedades mecânicas do solo, a sua estrutura geológica e topografia. Estes efeitos de sítio podem inclusivamente amplificar as ondas sísmicas produzindo alterações a nível da amplitude, frequência e duração das vibrações sísmicas, devido à reflexão nas zonas de descontinuidade. O efeito de amplificação, no caso de solos estratificados, é originado pela ressonância das ondas de corte que se propagam na vertical, estando dependente dos períodos fundamentais dos depósitos de solo e do período fundamental das vibrações sísmicas. Relativamente aos solos, este período varia consoante as propriedades do mesmo (de Oliveira Alves, 2021). Neste contexto, os solos brandos evidenciam um maior amortecimento material e atenuação inelástica das ondas sísmicas do que, por exemplo, os solos rijos. Este maior amortecimento levaria a concluir que existiria uma resposta sísmica com menor valor de aceleração de pico, no entanto, devido à estratificação, ocorre uma maior amplificação das vibrações, gerada também pelos contrastes de impedância entre as várias camadas e o estrato rochoso (Estêvão et al., 2007). 2.2.1 MODELOS DE ANÁLISE De modo a conseguir solucionar os diversos problemas mecânicos correntes, existiu a necessidade de desenvolver modelos constitutivos que traduzam, com a maior fiabilidade possível, a realidade física do comportamento dos materiais. Os materiais geotécnicos apresentam um comportamento bastante complexo e dependente da escala de análise e por isto, as propriedades do material podem variar a nível geométrico (homogeneidade versus heterogeneidade), a nível da deformação envolvida e história de carregamento, e conforme a direção de carregamento (anisotropia versus isotropia). Estas propriedades são também influenciadas pela escala de análise tomada. No caso dos solos, estas são mais relevantes quanto menor a escala da análise. Os modelos devem ser formulados consoante duas condições principais: a primeira foca-se numa boa simulação do comportamento do solo para a escala em análise e para o nível de deformação envolvido; a segunda rege-se pela simplicidade do modelo, não tornando a sua aplicabilidade proibitiva devido à complexa e extensa introdução de parâmetros. Existem diversos modelos constitutivos passíveis de ser aplicados. A sua aplicação depende principalmente do nível de deformação envolvido. Na Tabela 2.1 desenvolvida por Ishihara (1996), temse um resumo da influência da distorção nos modelos de simulação a utilizar. (Versão para discussão) 8 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Tabela 2.1 – Campo de validade de modelos constitutivos em função da distorção (adaptado de Ishihara, 1996 segundo Costa, 2011) Distorção 10-6 10-5 10-4 10-3 10-2 10-1 Fenómeno Propagação de ondas, vibrações Fissuras, assentamentos diferenciais Escorregamento, compactação, liquefação Domínio de comportamento mecânico Elásticas Elastoplásticas Rotura Efeito de ações repetidas Efeito de frequência de solicitação Propriedades Modelos de simulação Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Módulo de distorção, coeficiente de Poisson, amortecimento lateral Modelo visco(elástico) linear Modelo visco elástico linear equivalente Ângulo de atrito, coesão Modelos cíclicos não lineares Tendo em conta o caso em estudo percebe-se que a ocorrência de liquefação se relaciona com distorções superiores a 10-1, sendo que a resposta do solo começa a ser controlada não só por parâmetros de deformabilidade, como também por parâmetros resistentes. Dada a complexidade do fenómeno e das suas consequências, e da respetiva resposta do solo, percebe-se que o modelo de simulação referenciado seja o mais complexo, neste caso, o modelo cíclico não linear, como os que são disponibilizados no programa PLAXIS. 2.2.2 PROPRIEDADES DINÂMICAS DO SOLO As propriedades dinâmicas do solo são propriedades que controlam o comportamento dos mesmos quando sujeito a ações dinâmicas ou cíclicas. O módulo de distorção ou de corte (Gsec) estabelece a razão entre a tensão de corte e a deformação de corte de um dado ciclo. Varia bastante consoante o nível de deformação induzido, exibindo uma maior ou menor degradação em cada ciclo. O módulo de distorção inicial (G0) representa o comportamento cíclico de solos sujeitos a pequenas deformações. Este último é influenciado pela tensão de confinamento e índice de vazios em solos arenosos, ou seja, com o aumento das grandezas referidas, G0 aumenta e diminui, respetivamente. O coeficiente de amortecimento (ξ) mede a capacidade de dissipação de energia do solo sujeito a ações cíclicas. (Versão para discussão) 9 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 𝜏 ɣ (2.4) G0 = 𝜌. 𝜈𝑠 2 (2.5) G𝑠𝑒𝑐 = 1 1 + 𝑒 −0,0145𝐼𝑃 ξ= . 6 2 1,3 . [0,586. ( G𝑠𝑒𝑐 2 G𝑠𝑒𝑐 ) − 1,547. + 1] G0 G0 (2.6) Na Fig. 2.4 ilustra-se graficamente as propriedades apresentadas, bem como a sua variação consoante o tipo de ciclo a que estão sujeitas. Fig. 2.4 – Módulo de distorção e coeficiente de amortecimento 2.2.3 CONDICIONANTES DO MACIÇO Como referido anteriormente, as propriedades mais condicionantes relacionam-se com a geometria, história de carregamento e deformação e direção de carregamento. No que toca à geometria do material, vários estudos concluíram que é perfeitamente aceitável considerar homogéneas as formações geotécnicas identificadas pelos estudos geológico-geotécnicos. Esta consideração advém do facto das variações das propriedades ocorrerem em zonas com dimensões de grandeza menor que o comprimento da onda que se propaga, sendo que a frequência de excitação se torna o elemento de relevância. Tendo em conta que a velocidade de propagação das ondas superficiais R, é superior a 100 m/s, o menor comprimento de onda terá o seu valor na ordem dos 0,5 m o que se traduz numa dimensão aceitável quando comparando com zonas de heterogeneidade local (Costa, 2011). Relativamente à direção do carregamento, interessa referir que embora o comportamento elástico dos solos seja usualmente simulado com base em modelos isotrópicos, a própria história do maciço conduz a uma certa anisotropia. Na grande maioria dos problemas geotécnicos, a modelação é feita tratando a direção de carregamento como isotrópica, não pela dificuldade de simulação, mas sim pelas limitações relacionadas com a obtenção de parâmetros elásticos de modo a obter uma correta caracterização do modelo anisotrópico. (Versão para discussão) 10 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso A história de carregamento assume um papel importante devido ao estado de tensão a que o solo está sujeito. Apesar da determinação do estado de tensão em repouso ser crucial em grande parte das obras geotécnicas, no caso de problemas de vibrações, tendo presente uma gama de deformações de baixa grandeza, pode não possuir a mesma relevância. A propagação de ondas elásticas pode originar alterações no estado de tensão, no entanto, estas mesmas alterações são independentes do estado inicial. Apesar disto, interessa referir que a rigidez dos estratos aumenta em profundidade, muito por causa da tensão de confinamento aplicada pelas camadas superiores, tensão esta dependente do estado de tensão de repouso. Pode-se então concluir que apesar da tensão de repouso não ser extremamente condicionante, existem aspetos associados a esta que possuem grande influência (Costa, 2011). 2.2.4 REFLEXÃO E REFRAÇÃO Aquando da incidência de uma onda numa fronteira, o fenómeno referido como reflexão total ocorre. No caso de a fronteira separar solos com características e propriedades diferentes, dá-se origem a uma reflexão parcial sendo que, parte da energia transportada é refletida para o meio inicial e, o restante para o meio adjacente. Dado que as propriedades dos dois estratos são díspares, as direções das ondas incidentes e transmitidas são também diferentes, sendo possível afirmar a ocorrência de refração da onda. O ângulo de incidência da onda volumétrica revela-se um fator determinante na criação de ondas superficiais. No caso de o ângulo de incidência ser superior ao ângulo de incidência crítico, a onda volumétrica é refletida com o mesmo ângulo para o meio transmissor e, é originada uma onda superficial com decaimento exponencial na direção normal à superfície do maciço, como se verifica na Fig. 2.5. Fig. 2.5 – Esquema de formação de uma onda superficial 2.2.5 DISPERSÃO E AMORTECIMENTO LATERAL E GEOMÉTRICO A dispersão relaciona-se com a dependência da velocidade de fase de uma onda em relação à frequência ou comprimento de onda de excitação. No caso de ondas volumétricas, verifica-se que a velocidade de fase não tem dependência da frequência de excitação, mas sim das propriedades elásticas do material e da sua massa volúmica. Por este motivo, a propagação de ondas volumétricas em meios homogéneos classifica-se como não dispersiva. Já no caso de maciço estratificados, estas mesmas ondas volumétricas (Versão para discussão) 11 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso dão origem às ondas superficiais, como visto no ponto 2.2.4, que se classificam como dispersivas. O facto de um maciço ser dispersivo pode condicionar o padrão de resposta das ondas superficiais. Como é fácil perceber, à medida que a onda se afasta da sua fonte emissora, assiste-se a uma diminuição progressiva da sua amplitude, sendo este fenómeno denominado de amortecimento geométrico. Este amortecimento resulta no espalhamento da energia transportada pela onda, à medida que a onda se afasta da sua fonte. Por outro lado, o amortecimento material refere-se à dissipação energética da onda à medida que esta se afasta da origem. A principal diferença entre ambos os amortecimentos é que, enquanto que o geométrico espalha a energia transportada mantendo-a no meio, o amortecimento material dissipa essa energia que acaba por se perder. Este amortecimento material é um dos conceitos básicos da dissipação de energia e como tal, existem vários modelos que explicam o comportamento, sendo um deles o desenvolvido por Kelvin-Voigt, denominado de modelo visco-elástico (Fig. 2.6). Fig. 2.6 – Modelo visco-elástico de Kelvin-Voigt, adaptado de (Kramer, 1996) 2.3 LIQUEFAÇÃO O conceito de liquefação em geotecnia foi introduzido na década de 1960, após uma série de terramotos devastadores terem ocorrido em áreas propensas a esse fenómeno, como o Japão e o Alasca. Durante esses terramotos, foram observados vários casos em que o solo perdeu a sua capacidade de suporte devido à ação de ondas sísmicas, que deram origem à liquefação, causando o colapso de edifícios, pontes e outras estruturas. A partir dessa época, o estudo deste fenómeno cresceu exponencialmente, através de observação de ações sísmicas de elevada intensidade que desencadearam este acontecimento, bem como através da interpretação de ensaios em solos com potencial de liquefação e mais tarde, utilizando a modelação computacional. 2.3.1 CASOS HISTÓRICOS DE OCORRÊNCIA DE LIQUEFAÇÃO O primeiro caso que desencadeou o surgimento do interesse por este ramo de investigação, foi o terremoto de Nobi em 1891, no Japão. Este terramoto de magnitude 8,0 na escala de Ritcher afetou a região central do Japão, causando danos extensos. Durante esta catástrofe, a vibração sísmica gerou um decréscimo na resistência do solo, condicionando o seu comportamento (Fig. 2.7). A elevada atividade sísmica provocou deslizamentos de terras, tsunamis e incêndios. O nível de estragos causados suscitou interesse na descoberta do fenómeno que, aliado às vibrações induzidas, originou tal devastação. (Versão para discussão) 12 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 2.7 – Danos provocados pelo sismo em Nobi, no ano de 1891 O ano de 1964 ficou marcado por duas grandes catástrofes que ocorreram no Alasca e no Japão. O terramoto no Alasca, também conhecido como o “Great Alaska Earthquake” ocorreu a 27 de março de 1964 e teve uma magnitude de 9,2 na escala de Ritcher. Teve o seu epicentro localizado no Golfo do Alasca e afetou outros estados dos E.U.A bem como o Havai e o Japão. Este terramoto gerou vários deslizamentos de terra e tsunamis que afetaram diversas áreas costeiras. Na presente Fig. 2.8 encontrase uma fotografia de um local onde aconteceu o relatado deslizamento. O mês seguinte deu lugar a um outro sismo de elevada intensidade, desta vez com o epicentro localizado na costa de Niigata, no norte do Japão. A magnitude deste evento atingiu o valor de 7,9 na escala de Ritcher, tendo causado danos significativos tanto a níveis estruturais como em termos de movimentos à superfície devido à liquefação. Ambos os terramotos destacaram a importância da preparação relativamente a medidas de mitigação, a nível de reforço estrutural e reforço do solo, para desastres naturais em regiões propensas a eventos sísmicos de altas intensidades. Fig. 2.8 – Deslizamento de terras decorrente do “Great Alaska Earthquake”, em 1964 (Versão para discussão) 13 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2.3.2 LIQUEFAÇÃO E DIFERENTES TIPOS DE ROTURA A liquefação é um fenómeno que ainda gera muita polémica entre os investigadores e interessados no tema, principalmente pela sua complexidade e forte dependência de um elevado número de fatores, que em conjunto dão origem a este acontecimento. A forte não-linearidade dos solos, bem como a variância das suas características no decorrer do tempo, são aspetos que incentivam este conflito de ideias. Para além disto, e relativamente às ações exteriores que originam o fenómeno, condicionantes como a intensidade e natureza das ondas vibratórias são fatores intervenientes nesta discussão (Teixeira, 2015). No decorrer do sismo, as ondas geradas propagam-se desde o firme rochoso (epicentro) até à superfície através das várias camadas de solo, que atuam como um filtro que acaba por modificar as propriedades de movimento do terreno bem como da própria onda sísmica. Após absorver esta interação, o solo rearranja as suas partículas o que culmina numa redução de volume (dilatância negativa). Neste processo, a pressão da água aplicada nas partículas do solo aumenta devido à incapacidade de haver drenagem da mesma, podendo atingir valores que igualem a tensão total do solo. Nesse momento, a tensão efetiva aplicada ao solo anula-se, e dá-se início ao processo de liquefação (Fernandes, 2020). Na Fig. 2.9 está representada uma ilustração clássica do processo de liquefação, simulado em laboratório. De notar que este fenómeno é predominante em solos granulares soltos e saturados, no entanto, como se discutirá mais à frente, não é vinculativo a estas características. Fig. 2.9 – Liquefação: (a) estado de repouso; (b) liquefação; (c) pós fenómeno, adaptado de (Fernandes, 2006) Dentro da liquefação interessa distinguir os dois grandes grupos, a liquefação por fluxo e a mobilidade cíclica. Estes dois tipos de liquefação exprimem-se de maneira diferente na superfície e apresentam condições diferentes de formação. (Versão para discussão) 14 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2.3.2.1 Liquefação por Fluxo Liquefação por fluxo, ou estática, acontece quando a resistência ao corte necessária para atingir o equilíbrio estático, é maior do que a resistência ao corte do solo no estado liquefeito (Kramer, 1996). Para que este fenómeno tenha início, é necessário que duas condições sejam cumpridas: que o solo se situe acima da Linha de Estado Permanente (LEP) caracterizando-se como um solo solto e de comportamento contrátil e que este mesmo solo seja solicitado com uma ação monotónica ou cíclica. Kramer (1996) apresenta um exemplo bastante ilustrativo deste acontecimento, apresentando 5 tipos de solos diferentes, representando a sua localização relativamente à LEP e, para além disto, a trajetória de tensões de cada um (Fig. 2.10). Fig. 2.10 – Solos A e B exibem comportamento dilatante; Solos C, D e E exibem comportamento contrátil, adaptado de (Kramer, 1996) Nos solos C, D e E (acima da LEP) ocorre liquefação por fluxo e o seu início, caracterizado pelo ponto máximo relativo à trajetória de tensões, encontra-se marcado pelas cruzes assinaladas no gráfico p´- q. Graficamente, estes pontos podem ser usados para definir a superfície da liquefação por fluxo primeiramente proposta por Vaid e Chern (1985). Uma vez que a liquefação por fluxo não pode ocorrer caso a trajetória de tensões se situe abaixo do ponto de estado permanente, esta linha representativa da LEP fica truncada nesse ponto, como se verifica na Fig. 2.11. (Versão para discussão) 15 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 2.11 – Representação gráfica da Linha de Estado Permanente no plano q:p´, adaptado de (Kramer, 1996) Esta superfície marca uma separação entre estados estáveis e instáveis em condição de corte não drenadas, e por isso funciona como elemento de identificação da liquefação por fluxo. Uma vez mobilizado, as deformações produzidas por este fenómeno são causadas por tensões de corte estáticas. Este fenómeno de liquefação ocorre menos frequentemente que a mobilidade cíclica, no entanto, produz danos bastantes mais severos entre os quais, deslizamentos de terras contribuindo para o afundamento ou inclinação de estruturas, flutuação de estruturas enterradas e falha de estruturas de contenção. 2.3.2.2 Mobilidade Cíclica A mobilidade cíclica, comummente referenciada como liquefação cíclica, ocorre quando as tensões de corte estáticas são menores do que a resistência ao corte do solo liquefeito (Kramer, 1996). Em comparação com a liquefação por fluxo, este fenómeno acontece mais frequentemente e numa gama maior de condições in situ e de solo. As deformações podem desenvolver-se em areias soltas, médias ou, em condições especiais, densas e até em argilas sobreconsolidadas. A liquefação cíclica produz deformações que evoluem drasticamente ao longo do terramoto. Estas deformações são causadas tanto por tensões de corte cíclicas como por tensões estáticas, materializando-se em deformações laterais. Para além disto, algumas das consequências que advêm desta ocorrência são a queda de encostas, e erupções de areias. Durante o sismo, os excessos de pressão neutra vão sendo dissipados pelo fluxo ascendente de água intersticial. Se o gradiente hidráulico atinge um nível crítico, a tensão efetiva baixa para zero e a água sobe a grandes velocidades até à superfície, podendo transportar partículas de areia e formando as denominadas erupções de areia ou sand boils (Kramer, 1996). (Versão para discussão) 16 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2.3.2.3 Liquefação por Fluxo vs Mobilidade Cíclica Com o intuito de diferenciar ainda mais os dois fenómenos descritos anteriormente, Castro e Poulos (1977) realizaram um conjunto de ensaios triaxiais em areias saturadas, dos quais obtiveram as relações e trajetórias apresentadas na Fig. 2.12, bem como as condições de ocorrência de cada fenómeno. Fig. 2.12 – Resultados dos ensaios triaxiais realizados por Castro e Poulos (1977), adaptado de (Rocha, 2010) No caso de um solo solto com comportamento contrátil, retratado pelo ponto C, ser carregado monotonicamente sob condições não drenadas, atinge um estado de rotura, intersetando a Linha de Estado Permanente, ponto A. No que toca a um solo denso com comportamento dilatante, representado pelo ponto D, após ser carregado monotonicamente exibe uma resposta bastante distinta do anteriormente mencionado. Neste caso, as tensões efetivas para pequenas deformações aumentam até atingir um valor de pico, começando imediatamente a reduzir, e com trajetória para a direita do ponto D. Acabam por intersetar a Linha de Estado Permanente, atingindo a rotura. No caso de o carregamento ser do tipo cíclico, o ponto D adquire uma trajetória contrária à anterior, deslocando-se para a esquerda, reduzindo a tensão efetiva até liquefazer, alcançando o ponto representativo B (Castro e Poulos, 1977). Na Fig. 2.13 interessa perceber a comparação de regiões a sombreado, que representam as zonas de referência para a suscetibilidade de ocorrência dos dois fenómenos em discussão. (Versão para discussão) 17 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 2.13 – Zoneamento da suscetibilidade aos diferentes tipos de rotura por liquefação, adaptado de (Kramer, 1996) 2.4 SUSCETIBILIDADE À LIQUEFAÇÃO Mesmo quando um solo apresenta as características necessárias e se encontra nas condições propícias à ocorrência de liquefação, existe sempre a necessidade de verificar se este é suscetível à liquefação ou se o fenómeno pode não iniciar. Deste modo, no presente subcapítulo, interessa perceber alguns dos critérios mais preponderantes na decisão e avaliação desta situação. A história e as condições geológicas do solo, a sua composição e o seu “estado”, são fatores de extrema importância neste estudo. 2.4.1 CRITÉRIO HISTÓRICO E GEOLÓGICO Em termos históricos, grande parte da informação atualmente utilizada foi recolhida através de investigações pós-sismo que mostram que a liquefação tem tendência a ocorrer no mesmo sítio, quando as condições de solo e nível freático se mantêm as mesmas (Youd, 1984). Para além disto, estas investigações mostram, como seria de esperar, que quanto mais afastado do epicentro o solo em estudo estiver, menor a propensão do solo para sofrer liquefação. Por via de uma grande variedade de estudos realizados foi possível determinar o que hoje se designam como zonas de risco. Relativamente ao critério geológico, este, toma como referência a disposição das partículas e a sua distribuição. Um solo granular uniforme que na sua condição geológica forma distribuições e deposições em regime solto, produz um cenário em que o mesmo é suscetível de ser afetado por liquefação. Dada a sua idade e distribuição de partículas (elevado índice de vazios), os solos mais recentes são mais prováveis de serem afetados do que solos mais antigos e, portanto, mais consolidados. Para além disto, e no que toca às condições hidrológicas, é de notar que a posição do nível freático é um fator de extrema importância, dado que a liquefação se inicia em solos saturados (Kramer, 1996). (Versão para discussão) 18 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2.4.2 CRITÉRIO COMPOSICIONAL A composição do material tem uma grande influência no comportamento do solo e por isso, na sua suscetibilidade à liquefação. Características como o tamanho e forma dos grãos, a granulometria do solo e a sua plasticidade podem definir a concretização deste fenómeno. As características mencionadas anteriormente relacionam-se diretamente com a variação de volume que por sua vez está intrinsecamente associada à ocorrência de liquefação devido à dilatância negativa e consequente aumento de pressão nos poros. Neste sentido, Kramer (1996), no seu livro, afirma que um solo bem graduado tem menor propensão a ser afetado, visto que as variações de volume são menos prováveis de acontecer. No que toca à forma das partículas, o mesmo autor justifica que partículas com forma arredondada têm tendência a densificar mais facilmente, levando a uma maior suscetibilidade para a ocorrência de liquefação, em detrimento de partículas com forma angular. As partículas arredondadas encontram-se frequentemente em ambientes fluviais e aluviais onde a liquefação é mais preponderante. Para além dos solos granulares, existem outros solos que podem enfrentar o fenómeno em estudo. Siltes com partículas grossas, que são não plásticos e não possuem coesão, são passiveis de serem afetadas. Outro exemplo são os cascalhos que, quando rodeados por superfícies não drenantes, simulando condições não drenadas, podem também ser afetados devido à dificuldade em proceder à dissipação do excesso de pressão nos poros. No sentido de resumir as conclusões retiradas de análises e observações de diferentes tipos de solos, Tsuchida (1970) definiu numa carta granulométrica (Fig. 2.14) um conjunto de fronteiras que permitiram delimitar os solos cuja suscetibilidade à ocorrência de liquefação é maior. Fig. 2.14 – Limites de suscetibilidade à Liquefação a partir das curvas granulométricas de Tsuchida (1970), adaptado de (dos Santos Junior et al., 2019) (Versão para discussão) 19 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2.4.3 TEORIA DOS ESTADOS CRÍTICOS A Teoria dos Estados Críticos, desenvolvida por Casagrande (1936), formula um dos critérios de suscetibilidade, uma vez que mesmo que um solo esteja em conformidade com os critérios anteriormente discutidos, este pode ou não ser suscetível à liquefação. As condições iniciais do solo têm um importante papel na definição da suscetibilidade de liquefação. A formação de excesso de pressão de água nos poros está diretamente relacionada com as tensões iniciais a que o solo está sujeito, bem como com a sua densidade. Analisando a Fig. 2.15 presente em Kramer (1996) pode-se comparar o comportamento relativo de um solo denso e, de outro solto, tanto relativamente à trajetória referente às tensões deviatórias, como ao sentido do índice de vazios. Fig. 2.15 – Comportamento de solos densos e soltos para a mesma tensão efetiva de confinamento. e l – índice de vazios inicial do solo solto; ed – índice de vazios inicial do solo denso; ec – índice de vazios crítico; adaptado de (Kramer, 1996) Numa tentativa de estudo das tensões de corte dos solos, Casagrande (1936) realizou uma série de ensaios triaxiais em condições drenadas, e com controlo de deformações, em amostras de solo arenoso, originalmente soltas e densas. Os resultados obtidos mostraram que o comportamento das amostras era bastante diferente sendo que, durante o corte as areias soltas sofriam uma diminuição de volume (contração), e as amostras de solo inicialmente densas suportavam uma pequena contração e depois tendiam rapidamente para um aumento de volume. Para além disto, observou-se que, para grandes deformações, as areias tendiam para a mesma densidade atingindo o corte com resistências constantes. A este ponto e seu respetivo índice de vazios, Kramer (1996) chamou de índice de vazios crítico (ec). No decorrer dos seus trabalhos, Casagrande (1936) constatou que o valor do índice de vazios crítico poderia ser relacionado com as tensões de confinamento através de uma função exponencial. Com isto, desenvolveu o gráfico da Fig. 2.16 que representa no eixo das ordenadas o índice de vazios e as tensões de confinamento aritméticas e logarítmicas na Fig. 2.16 (a) e (b), respetivamente. (Versão para discussão) 20 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 2.16 – (a) comportamentos de solos densos e soltos sob condição drenadas e não drenadas; (b) limite entre região suscetível e não suscetível à Liquefação; adaptado de (Kramer, 1996) Esta linha representada pela função exponencial foi denominada de linha de índice de vazios crítico (LVC) por Casagrande (1936). Para além de fornecer uma separação clara entre solos soltos com comportamento contrátil e solos densos com comportamento dilatante, define também uma barreira entre a suscetibilidade ou não de um solo sofrer liquefação (Kramer, 1996). No contexto deste estudo, Castro (1969) desenvolveu um conjunto de ensaios triaxiais não drenados, cíclicos e estáticos, em amostras consolidadas isotropicamente e, uma série de ensaios estáticos em amostras consolidadas anisotropicamente. Os resultados dos solos anisotrópicos foram bastante notáveis, daí o interesse em serem explicados de seguida. Para os ensaios em amostras consolidadas anisotropicamente, Castro utilizou 3 tipos de solos distintos, solo A-solto, B-denso e C-densidade intermédia (Fig. 2.17). Fig. 2.17 – Resposta dos solos relativamente aos ensaios triaxiais, adaptado de (Araújo, 2022) e (Kramer, 1996) (Versão para discussão) 21 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Analisando os gráficos da Fig. 2.17, foi possível perceber que o solo A (solto) exibiu a resistência não drenada máxima para pequenas deformações, tendo colapsado de seguida para o fluxo, atingido tensões nulas, fenómeno designado por Castro (1969) como liquefação. No que toca ao solo B (denso) foi possível perceber que inicialmente este mesmo solo diminuiu de volume (pequena contração inicial) no entanto, para deformações intermédias este exibiu a tendência de dilatar e atingir uma pressão de confinamento constante e relativamente elevada. Por último, e no que toca à amostra C (densidade intermédia) os resultados foram de grande interesse. Para pequenas deformações, o solo C atingiu um pico local de pressão de confinamento (contração inicial), ao que se segue uma diminuição da mesma, com o aumento das deformações, culminando numa dilatação. No processo de transição do comportamento contrátil para o dilatante, Ishihara (1975) afirmou que existe um ponto de transição ao qual deu o nome de “ponto de transformação de fase”. Um solo caracterizado pelo seu índice de vazios pode ser suscetível à liquefação para grandes pressões de confinamento e no entanto, para pequenas pressões pode não se verificar o mesmo resultado. Neste sentido, Been e Jefferies (1985) propuseram o conceito de parâmetro de estado (Ѱ), que relaciona o índice de vazios no estado inicial com o índice de vazios no estado permanente (crítico). Ѱ = 𝑒0 − 𝑒𝑠𝑠 (2.7) Se o parâmetro de estado assume valor positivo, ou seja, e0 >ess , o solo exibe um comportamento contrátil e pode ser suscetível à liquefação por fluxo. Se, por outro lado, ess >e0 e o valor de parâmetro de estado é negativo, é expectável um aumento de volume, sendo o solo classificado como não sendo suscetível à liquefação por fluxo (Kramer, 1996). Utilizando o gráfico da Fig. 2.16 (b) Been e Jeffries (1985) definiram o parâmetro de estado, representado agora na Fig. 2.18, percebendo que este simboliza a distância vertical entre o estado inicial e final (crítico) do solo. Fig. 2.18 – Definição Gráfica do Parâmetro de Estado (Versão para discussão) 22 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2.4.4 ABORDAGEM DAS TENSÕES CÍCLICAS Por volta dos anos 60 e 70, houve um grande desenvolvimento no panorama geral da liquefação, impulsionado pelo trabalho de Seed e Lee (1966). Esta pesquisa consistia na avaliação das condições de carregamento necessárias para desencadear a liquefação. Este carregamento foi descrito como tensão de corte cíclica, e o potencial de liquefação foi estudado consoante a amplitude e número de ciclos das tensões cíclicas induzidas pelo sismo (Kramer, 1996). No seu trabalho, Seed e Lee (1966) definiram que o início da liquefação surgia quando o excesso de pressão neutra gerado igualava a tensão efetiva vertical, o que originou a criação de um novo índice que determina a origem do fenómeno, a razão de excesso de pressão neutra (ru). Este fator representa o quociente entre o excesso de pressão neutra e a tensão efetiva vertical, sendo que a liquefação começa quando ru atinge valores perto de 1. Na atualidade, e após diversos estudos, confirmou-se que ru não necessita de atingir o valor de 1 para que se dê início à liquefação, podendo em alguns casos chegar a valores na ordem dos 0,8-0,9 (Rios et al., 2020). 𝑟𝑢 = 𝛥𝑢 𝜎´𝑣0 (2.8) Esta abordagem primeiramente formulada por Seed e Idriss (1971) é fruto da observação de casos em que ocorreu e não ocorreu liquefação utilizando relatórios bem documentados. Baseia-se na avaliação da resistência à liquefação e na classificação de solos suscetíveis ou não a este fenómeno. De um modo simplificado, esta abordagem projeta-se no cálculo da tensão de corte cíclica (τcic) relacionando 65% da amplitude máxima do sismo, com a tensão vertical total em repouso e com um fator minorativo (rd ), dado que a coluna de solo representada na Fig. 2.19 não representa um corpo rígido (Fernandes, 2020). Fig. 2.19 – (a) tensão de corte máxima no caso da área se comportar como um solo rígido; (b) tensão de corte máxima com a introdução do fator minorativo rd; (c) coeficiente redutor da tensão, adaptado de (Fernandes, 2020) (Versão para discussão) 23 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Na Fig. 2.19 (a), tem-se uma primeira abordagem relativamente ao cálculo da tensão de corte máxima, tendo em conta que o corpo representado a sombreado se comporta como corpo rígido. Na passagem para a Fig. 2.19 (b) introduz-se um fator minorativo, que diminui com a profundidade (Fig. 2.19(c)), dado que na prática, e principalmente no caso de solos, o corpo em estudo não possui um comportamento rígido e unificado. Na expressão seguinte identifica-se a fórmula utilizada para calcular a tensão de corte cíclica referida anteriormente. 𝜏𝑐𝑖𝑐 = 0,65. 𝑎𝑚𝑎𝑥 . 𝜎𝑣0 . 𝑟𝑑 𝑔 (2.9) Como visto por Seed e Idriss (1971) através de simulações numéricas, o fator minorativo (rd ) decresce com a profundidade. Neste contexto, Liao e Whitman (1986) desenvolveram um par de equações consideradas aproximadas aos valores simulados numericamente, que são traduzidas por: 𝑟𝑑 = 1,0 − 0,00768. 𝑧 , 𝑠𝑒 𝑧 ≤ 9,15𝑚 (2.10) 𝑟𝑑 = 1,174 − 0,0267. 𝑧 , 𝑠𝑒 9,15 ≤ 𝑧 ≤ 23𝑚 (2.11) É importante referir que as expressões acima apresentadas não abordam valores de z>23m dado que, para tais profundidades a probabilidade de ocorrência de liquefação é bastante baixa ou não é detetada. Tal conclusão é suportada por um valor de índice de vazios decrescente com a profundidade (Teixeira, 2015) e (Fernandes, 2020). Com a tensão de corte cíclica é possível determinar a razão de tensões cíclicas (CSRM ) para uma determinada magnitude (M), dividindo (τcic ) pela tensão vertical efetiva em repouso. O CRR representa a razão de resistência cíclica, valor este posteriormente utilizado na criação de cartas de liquefação. As expressões utilizadas no cálculo de ambos os fatores, encontram-se de seguida: 𝐶𝑆𝑅𝑀 = 𝜏𝑐𝑖𝑐 𝜎 ′ 𝑣0 𝐶𝑅𝑅 = 𝐶𝑅𝑅15 . 𝐾𝑀 . 𝐾𝜎 . 𝐾𝛼 (2.12) (2.13) A fórmula (2.13), foi inicialmente introduzida por Seed (1981), dado que a magnitude padrão de um sismo é 7,5 na escala de Ritcher, propriedade que é variável em cada evento sísmico. O fator de CRR15 representa o valor da razão de resistência cíclica associada a 15 ciclos (valor de referência), e as restantes (Versão para discussão) 24 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso parcelas fatores corretivos que têm em conta a magnitude do sismo, o nível de tensão e a tensão de corte pré-existente no plano horizontal (Da Fonseca, 2013) A magnitude de referência (M) normalmente utilizada é de 7,5, e por isto, de modo a ser possível obterse valores para diferentes magnitudes, desenvolveram-se as seguintes Tabela 2.2 e Tabela 2.3 com o fator corretivo denominado de MSF. Tabela 2.2 – Valores de MSF com CSR, adaptado de (Kramer, 1996) MSF = CSRM /CSRM=7,5 Magnitude, M 1 54 1,50 6 1,32 3 64 1,13 1 1,00 72 1 0,89 82 Tabela 2.3 – Valores de MSF com CRR, adaptado de (Fernandes, 2020) MSF= CRRM /CRRM=7,5 Magnitude, M EC8- Parte 5 Youd e Idriss (2001)* (EN 1998-5:2004) 5,5 2,20 2,86 6,0 1,76 2,20 6,5 1,44 1,69 7,0 1,19 1,30 7,5 1,00 1,00 8,0 0,84 0,67 8,5 0,72 - *Os valores desta coluna são aproximados pela expressão MSF=174/M2.56 2.4.4.1 Fator de Segurança em Relação à Liquefação A segurança em relação à liquefação é um aspeto muito importante na avaliação da suscetibilidade e prevenção contra a ocorrência do fenómeno. O fator de segurança (FSL) é materializado através duma associação de dois componentes, a tensão de corte cíclica necessária para causar liquefação (τcic,L ) e a tensão de corte cíclica equivalente induzida pelo sismo (τcic ). (Versão para discussão) 25 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 𝐹𝑆𝐿 = 𝜏𝑐𝑖𝑐,𝐿 𝜏𝑐𝑖𝑐 = 𝐶𝑆𝑅𝐿 𝐶𝑆𝑅 = 𝐶𝑅𝑅𝑀 𝐶𝑆𝑅 (2.14) O valor do fator de segurança tem de ser sempre superior a 1 para que não ocorra liquefação dado que, se a tensão necessária para causar liquefação for menor que tensão induzida pelo sismo, o fenómeno encontra-se em iminência de acontecer. Na Fig. 2.20, que ilustra o comportamento típico de um solo que sofreu liquefação, é possível verificar as linhas referentes às tensões limite e induzidas pelo sismo que, quando se sobrepõe, dão origem a uma zona de suscetibilidade à liquefação. Fig. 2.20 – Zona de Liquefação, adaptado de (Kramer, 1996) A resistência à liquefação é determinada através da tensão de corte cíclica e esta, através dos valores de aceleração tabelados no Eurocódigo 8 (EC8), referentes às diferentes regiões sísmicas do país. O EC8 distribui a área continental de Portugal em várias zonas de ação sísmica, e atribui a cada zona uma aceleração máxima de referência (𝑎𝑔𝑟 ). Para além da divisão em zonas de ação sísmica, o EC8 considera dois tipos de ação sísmica. O Tipo 1 é referente ao cenário de sismo “afastado”, também denominado de sismo interplaca. Este tipo de sismos tem o seu epicentro localizado na região Atlântica, e representa ações de elevada magnitude e grande distância focal. Por outro lado, o Tipo 2 refere-se à ocorrência de sismos “próximos “(intraplaca), cujo epicentro se localiza no território continental ou nos arquipélagos. Representa as ações sísmicas de magnitude moderada e pequena distância focal. Na Fig. 2.21 tem-se uma imagem retirada do Anexo Nacional onde se encontram representadas as referidas zonas de ação sísmica, para cada tipo de ação. (Versão para discussão) 26 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 2.21 – Zoneamento sísmico em Portugal Continental, segundo Eurocódigo 8, Parte 1, Anexo Nacional (2010) Para além disto, neste mesmo Anexo Nacional, está presente uma tabela com os valores de referência para cada zona e tipo de ação sísmica (Tabela 2.4). Tabela 2.4 – Aceleração máxima de referência consoante a zona sísmica, EC8-NA (2010) Ação sísmica Tipo 1 Ação sísmica Tipo 2 2 Zona Sísmica agr (m /s) Zona Sísmica agr (m2 /s) 1,1 2,5 2,1 2,5 1,2 2,0 2,2 2,0 1,3 1,5 2,3 1,7 1,4 1,0 2,4 1,1 1,5 0,6 2,5 0,8 1,6 0,35 - - De notar que esta divisão zonal é baseada na distância epicentral, dado que as características do solo dentro da mesma região são bastante variáveis e por isso, assumir valores de aceleração relativos a uma área espacial tão alargada pode nem sempre corresponder ao comportamento real do solo. A razão de resistência cíclica (CRR) é comummente obtida através de ensaios, tanto laboratoriais como in situ, e da sua correlação com a história de casos de liquefação. De entre os ensaios laboratoriais destacam-se os ensaios triaxiais com carregamento cíclico e corte cíclico simples. No âmbito dos ensaios in situ tem-se correlações com ensaios SPT, CPT e inclusive com a medição da velocidade de ondas de corte, Vs, desenvolvido, como alternativa aos anteriormente referidos, por Andrus e Stokoe (2000). (Versão para discussão) 27 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2.4.5 ENSAIOS LABORATORIAIS O desenvolvimento da abordagem das tensões cíclicas originou o interesse na realização de ensaios laboratoriais de modo a caracterizar a resistência à liquefação. Os resultados retirados dos ensaios laboratoriais confirmam que o número de ciclos necessários para que ocorra liquefação, está associado à densidade bem como à amplitude das tensões de corte provocadas pelo sismo. Para maiores tensões de corte, o número de ciclos vai ser menor e, dependendo da densidade da areia, irá ser mais baixo para areias soltas do que para areias densas. O Eurocódigo 8 estabelece a aplicação de uma amplitude obtida pela razão de tensões cíclicas (CSR), proposto por Seed e Idriss (1971) na qual se admite que o corte cíclico é aplicado com amplitude constante. O valor da razão de tensões cíclicas deve ser definido de maneira diferente para ambos os ensaios. Deste modo, vários autores desenvolveram um fator corretivo (cr), representado na Tabela 2.5, de modo a relacionar os valores de (CSR)𝑠𝑠 relativos ao ensaio de corte simples cíclico e, (CSR)𝑡𝑥 referente ao ensaio triaxial cíclico. (2.15) (𝐶𝑆𝑅)𝑠𝑠 = 𝑐𝑟 . (𝐶𝑆𝑅)𝑡𝑥 Tabela 2.5 – Valores de cr Referência Equação Finn et al. (1971) cr para: K0 =0,40 K0 =1,00 c 1+K0 0,70 1,00 Seed e Peacock (1971) Várias 0,55-0,72 1,00 Castro (1975) c 2(1+2K0) 0,69 1,15 r= r= 2 3√3 Ao contrário do observado nos ensaios laboratoriais, os sismos produzem tensões de corte em diferentes direções (Kramer, 1996). Neste contexto, Seed (1975) propôs que a resistência à liquefação (CSR) necessária para iniciar o fenómeno no terreno era 10% menor que a necessária para dar origem à liquefação nos ensaios laboratoriais. Posto isto, desenvolveu-se uma nova fórmula para a resistência à liquefação dada por: 𝐶𝑆𝑅𝑖𝑛 𝑠𝑖𝑡𝑢 = 0,9. 𝐶𝑆𝑅𝑠𝑠 = 0,9. 𝑐𝑟 . 𝐶𝑆𝑅𝑡𝑥 (Versão para discussão) 28 (2.16) Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2.4.6 CARTAS DE LIQUEFAÇÃO E ENSAIOS “IN SITU” No âmbito da avaliação da suscetibilidade de um determinado solo à liquefação, Youd e Idriss (2001) e Robertson e Wride (1998) desenvolveram as denominadas cartas de liquefação nas quais relacionam os resultados característicos dos ensaios in situ CPT e SPT, qc e (𝑁1 )60 respetivamente, com o valor da razão da resistência critica (CRR) para a magnitude de referência. Nestas cartas, representadas na Fig. 2.22, dominam as linhas que definem a fronteira entre os solos observados que foram sujeitos à liquefação e os que não foram afetados (Fernandes, 2006). Fig. 2.22 – (a) Carta de Liquefação com base no ensaio SPT; (b) Carta de Liquefação com base no ensaio CPT; adaptado de (Fernandes, 2020) 2.5 MODELO CONSTITUTIVO NORSAND 2.5.1 APRESENTAÇÃO BREVE DO MODELO Um dos modelos constitutivos escolhidos para ser aplicado nesta dissertação é o modelo NorSand. Este modelo destaca-se em relação a outros bastante utilizados como o Cam Clay, visto que representa com bastante critério as variações de volume. É bastante requisitado para situações de grandes deformações, confinamento e, como é o caso em estudo, situações em que são originados excessos de pressão neutra. Comummente utilizado na constituição de parâmetros do solo, este modelo encontra-se melhor inserido na utilização de ensaios carregados monotonicamente. Está diretamente relacionado com o Critical State Soil Mechanics (CSSM), devido à extrema dependência na densidade do solo e por isto, o parâmetro de estado (Ѱ) é um elemento chave na aplicação deste modelo. Para além disto, e apesar da liquefação estar diretamente relacionada com areias soltas, é necessário obter dados em amostras compactas, dado que a natureza da relação tensão-dilatância é de difícil interpretação em amostras soltas (Jefferies & Been, 2015). A superfície de cedência do modelo em questão tem a forma familiar de uma “bala”, semelhante ao modelo Cam Clay (Fig. 2.23). (Versão para discussão) 29 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 2.23 – (a) Superfície de cedência para uma areia solta; (b) Superfície de cedência para uma areia densa; adaptado de (Jefferies & Shuttle, 2005) Existem 14 propriedades principais posteriormente utilizadas para calcular os parâmetros a aplicar. Estas propriedades referidas de seguida são essenciais para uma correta modelação dos ensaios triaxiais no programa PLAXIS. Na Tabela 2.6 que se segue, encontram-se as propriedades, que representam uma gama de valores corretos em areias, comumente utilizadas no modelo, bem como os intervalos de referência. Tabela 2.6 – Propriedades do modelo NorSand (adaptado de (Jefferies & Shuttle, 2005) Propriedades Intervalo Típico Unidades Descrição 𝐺𝑟𝑒𝑓 - Mpa Módulo de Corte de referência 𝑝𝑟𝑒𝑓 100 kPa Pressão média de referência 𝜂𝐺 - - Expoente da power-law da elasticidade 𝜈 0,1-0,3 - Coeficiente de Poisson 𝛤 0,9-1,4 - Ordenada da LEC para p´=1 kPa 𝜆𝑒 0,01-0,07 - Declive da LEC 𝑀𝑡𝑐 1,2-1,5 - Razão de atrito no estado crítico para ensaio triaxial 𝑁 0,2-0,45 - Propriedade de associação volumétrica 𝜒𝑡𝑐 2,5-4,5 - Parâmetro da relação estadodilatância para ensaios triaxiais de compressão 𝐻0 - - Parâmetro de endurecimento inicial (Versão para discussão) 30 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 𝐻Ѱ - - Parâmetro de endurecimento em função de Ѱ 𝑂𝐶𝑅 1 - Grau de Sobreconsolidação 𝑆 0 ou 1 - Parâmetro de Suavização Ѱ0 - - Parâmetro de Estado inicial O modelo conta com o cálculo de uma série de parâmetros, nomeadamente parâmetros internos do próprio modelo, parâmetros relativos ao estado crítico, à superfície de cedência, à regra de endurecimento, à relação tensão-dilatância e por último, ligados à elasticidade do solo. Todos os princípios referidos podem ser encontrados na Tabela 2.7 idealizada por Jefferies e Been (2015). Tabela 2.7 – Parâmetros do modelo NorSand, adaptado de Jefferies e Been (2015) 𝑝′ Parâmetros internos do modelo Ѱ𝑖 = Ѱ − ln ( ′𝑖 ) em que Ѱ = 𝑒0 − 𝑒𝑠𝑠 𝑝 𝑀 𝑖 = 𝑀 (1 − 𝑀 ) 𝑒𝑐𝑠 = 𝛤 − 𝜆. 𝑙𝑛 (𝑝′ ) Estado Crítico Superfície de Cedência 𝑁. 𝜒|Ѱ𝑖 | 𝜂𝑐𝑠 = 𝑀 𝑞𝑚𝑎𝑥 𝜂𝑚𝑎𝑥 = 𝜂 𝑀 𝑝′𝑚𝑎𝑥 𝑝′ 𝑝′ = 1 − 𝑙𝑛 ( ′𝑖 ) com ( 𝑚𝑎𝑥 ) = 𝑒𝑥𝑝 (− ′ 𝑝 𝑝 𝜒Ѱ𝑖 𝑀 ) Na superfície de cedência: Regra de Endurecimento 𝜂 𝑝′ 2 𝜒Ѱ𝑖 𝑝′ 𝑝 = 𝐻 ( ) [ 𝑒𝑥𝑝 ( − ) − ] 𝜀̇ 𝑞 ( ) 𝑝′ 𝑖 𝑀 𝑝′ 𝑖 𝑀 𝑝′ 𝑖 𝑝̇ ′ Na superfície interna: 𝑝̇ ′ 𝑝′ 𝑖 =− 𝐻𝜂 2𝑀 |𝜀̇ 𝑝𝑞 | 𝑑𝑚 = 𝑀 − 𝜂 Tensão-Dilatância Elasticidade 2.5.2 𝑀 𝐷𝑝𝑚 = 𝐷𝑝 ( ) 𝜂 𝐼𝑟 = 𝐺 𝑝′0 RELAÇÃO DA TEORIA DOS ESTADOS CRÍTICOS COM O MODELO NORSAND As propriedades relativas ao estado crítico, índice de vazios para p´=1 kPa (Γ) e declive (λ) da curva ecs , que representa a (LEC) no plano e:log(p´), são determinadas através de ensaios de compressão triaxial em amostras de solo solto. São utilizadas amostras na condição solta para garantir que se desenvolve um comportamento contrátil, o que fornece uma clara indicação do estado crítico sem (Versão para discussão) 31 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso problemas localizados (Jefferies & Shuttle, 2005). Normalmente, as amostras referidas são preparadas por “moist tamping” (ou compactação húmida ligeira), de modo a produzir amostras com maior índice de vazios atingindo o estado crítico dentro dos limites de deformação do ensaio triaxial. (2.17) 𝑒𝑐𝑠 = 𝛤 − 𝜆. 𝑙𝑛 (𝑝′ ) Para além disto, interessa ao modelo identificar o parâmetro resistente (M), correspondente ao declive de uma linha reta que fornece a representação da (LEC) no plano p´:q. (2.18) 𝑞 = 𝑀. 𝑝´ As soluções encontradas após o desenho destes gráficos apresentam dados bastantes importantes para a obtenção de uma aproximação da linha dos estados críticos (LEC) posteriormente relevante para a classificação e estudo do comportamento do solo. Na Fig. 2.24 observa-se a construção da LEC com os parâmetros referidos acima, neste caso no plano e:log(p´). log Fig. 2.24 – Relação das propriedades do solo com a Teoria dos Estados Críticos, adaptado de (Araújo, 2022) (Versão para discussão) 32 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 2.6 MODELO CONSTITUTIVO PM4SAND 2.6.1 APRESENTAÇÃO BREVE DO MODELO No seguimento da apresentação dos modelos constitutivos utilizados na caracterização do solo utilizando um conjunto de parâmetros convencionais, e consequente modelação, tem-se o modelo PM4Sand. Este é um modelo criado para areias com controlo da razão de tensões, compatível com o estado crítico e com uma superfície de cedência com plasticidade, inicialmente apresentado por Manzari e Dafalias (1997). Foi desenvolvido para analisar a liquefação e as deformações do solo daí resultantes. Em complemento ao modelo anteriormente referido, os parâmetros de calibração são obtidos através de ensaios carregados ciclicamente. Originalmente, a superfície limite engloba duas superfícies de cedência, uma interior, que delimita a região elástica, e uma exterior, que funciona com uma superfície de cedência convencional. Quando o estado de tensão se situa entre estas duas linhas, podem ser simuladas deformações plásticas seguidas de um descarregamento elástico. Para além disto, o PM4Sand utiliza superfícies de carregamento adicionais, tais como a superfície dos estados críticos, e de dilatância, representadas na Fig. 2.25 (Boulanger & Ziotopoulou, 2015). O modelo conta ainda com a resposta volumétrica através de carregamentos cíclicos, delimitando as fronteiras entre o comportamento contrátil e dilatante, através da superfície de dilatância. Esta superfície corresponde ao ângulo de transformação de fase enquanto que a superfície limite corresponde ao ângulo de atrito de pico. Fig. 2.25 – Superfícies de carregamento (adaptado de (Boulanger & Ziotopoulou, 2015) Na aplicação do modelo ao programa de modelação PLAXIS, existem uma série de propriedades que requerem definição e posterior calibração. Na Tabela 2.8 encontram-se discriminados as referidas propriedades pedidas como input pelo programa, bem como alguns valores de referência. (Versão para discussão) 33 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Tabela 2.8 – Propriedades do modelo PM4Sand Propriedades Intervalo Típico Unidades Descrição 𝐷𝑟0 - - Densidade relativa inicial 𝐺0 - - Módulo de distorção inicial ℎ𝑝0 - - Taxa de contração 𝑝𝐴 101,3 kPa Pressão atmosférica 𝑒𝑚𝑎𝑥 - - Índice de vazios máximo 𝑒𝑚𝑖𝑛 - - Índice de vazios mínimo 𝑛𝑏 0,5 - Parâmetro da superfície limite 𝑛𝑑 0,1 - Parâmetro da superfície de dilatância 𝜙´𝑐𝑣 - ° Ângulo de atrito para volume constante 𝜈 0,1-0,35 - Coeficiente de Poisson 𝑄 10 - 𝑅 1,0-1,5 - Parâmetros do Estado Crítico 2.6.2 RELAÇÃO DA TEORIA DOS ESTADOS CRÍTICOS COM O MODELO PM4SAND Tal como o modelo NorSand, também o PM4Sand tem como enquadramento a Teoria dos Estados Críticos proposta por Bolton (1986), através de um índice de estado relativo (ξR) que materializa a diferença entre a densidade relativa no estado crítico e a densidade relativa aparente. Na Fig. 2.26 podese observar a LEC obtida através de parâmetros do modelo PM4Sand, que explica a relação do modelo com a Teoria dos Estados Críticos. (2.19) 𝜉𝑅 = 𝐷𝑅,𝑐𝑠 − 𝐷𝑅 𝐷𝑅,𝑐𝑠 = 𝑅 𝑄 − 𝑙𝑛 (100 𝑝´ ) 𝑝𝐴 (Versão para discussão) 34 (2.20) Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 2.26 – Definição do de estado relativo e representação da LEC (adaptado de (Toloza Barría, 2018) Na figura acima, o parâmetro Q indica o nível normalizado da tensão efetiva média (p´) na qual a LEC curva significativamente devido a um elevado esmagamento das partículas (Bastidas, 2016). Ao definir R=1,5 tem-se uma melhor aproximação dos resultados típicos, observados nos ensaios de carregamento de corte simples (Direct Simple Shear Loading), (Boulanger & Ziotopoulou, 2015) e (Toloza Barría, 2018). No seguimento deste trabalho, o modelo constitutivo anteriormente apresentado, demonstrou um melhor desempenho, em termos de ajuste aos resultados experimentais, por conseguir simular mais eficazmente uma resposta ajustada aos resultados obtidos laboratorialmente, no que toca ao fenómeno da liquefação e deformações associadas. (Versão para discussão) 35 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (Versão para discussão) 36 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 3 3 METODOLOGIA E PROGRAMA EXPERIMENTAL 3.1 CARACTERIZAÇÃO FÍSICA DO MATERIAL 3.1.1 ANÁLISE GRANULOMÉTRICA A composição granulométrica constitui uma das propriedades básicas do solo, e por isto, é normalmente apresentada como a característica de identificação do solo, sendo habitualmente determinada antes de qualquer outra. É definida como a distribuição em percentagem ponderal, ou seja, percentagem do peso total, das partículas de solo conforme as suas dimensões (Fernandes, 2006). Considera-se um solo bem graduado, se este apresentar uma curva granulométrica extensa, englobando várias dimensões de partículas. No caso em estudo, relativo ao potencial à liquefação, interessa analisar areias mal graduadas dado que, quanto melhor a graduação, menor a propensão de ocorrerem variações de volume significativas que produzam aumento do excesso de pressão neutra. Insere-se neste tipo de solos a areia Hostun. A areia Hostun é uma areia com origem francesa e nas últimas décadas tem sido bastante utilizada como um solo de referência para estudos relacionados com o comportamento à liquefação. De modo a obter a curva granulométrica desta areia, optou-se pelo método convencional, mais conhecido como o método da peneiração. No gráfico da curva granulométrica, estão representadas as dimensões (diâmetros) das partículas, em milímetros, no eixo das abcissas, enquanto que, no eixo das ordenadas, se encontra a percentagem de partículas que passa em cada peneiro. Para partículas de grande dimensão (caso dos materiais granulares, como a areia Hostun) usa-se o método da peneiração, processo este que inicia com a separação do material através do peneiro n.º 200 da ASTM, cuja malha apresenta a dimensão de 0,075mm. Os grãos de menor dimensão são separados, sendo posteriormente submetidos a um outro método de classificação designado por sedimentação, a partir do qual se irá determinar a respetiva granulometria. No fim da amostra ter passado pelos peneiros, obteve-se a curva granulométrica desejada, representada na Fig. 3.1. (Versão para discussão) 37 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 3.1 – Curva granulométrica da areia Hostun obtida no LabGeo- FEUP Através da curva apresentada acima, é possível determinar algumas grandezas que fornecem informações muito úteis sobre o solo. A primeira será o diâmetro efetivo (D 10 ), que simboliza 10% do peso de partículas com dimensões inferiores a D10. Uma outra grandeza bastante importante que se retira do exame da curva granulométrica é o coeficiente de uniformidade (CU), que define a variedade de dimensões que as partículas de solo possuem. Este coeficiente apresenta uma relação direta com a boa ou não graduação de um solo, dado que, quando maior for o valor de CU melhor graduado será o solo. Por último, existe ainda outro coeficiente de relativa importância, o coeficiente de curvatura (C C), que se relaciona diretamente com a forma da curva granulométrica, ou seja, se esta consagrar uma equilibrada representação dos diâmetros intermédios o solo deve ser considerado bem graduado (Fernandes, 2006). 𝐷60 𝐷10 (3.1) (𝐷30 )2 𝐷10 . 𝐷60 (3.2) 𝐶𝑈 = 𝐶𝐶 = (Versão para discussão) 38 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso A análise da Fig. 3.1 permite identificar os valores de referência de modo a ser possível calcular os coeficientes de uniformidade e curvatura, valores estes apresentados na Tabela 3.1. Tabela 3.1 – Coeficientes de uniformidade e de curvatura Solo D10 (mm) D30 (mm) D60 (mm) CU CC Areia Hostun 0,22 0,28 0,33 1,5 1,08 Introduzindo o método da Classificação Unificada, é possível afirmar que esta é uma areia limpa, visto que tem menos de 5% de finos, e que se classifica como sendo mal graduada dado que CU<6, o que também se constata devido à forma achatada da curva. Para além disto, e fazendo a ligação com o critério composicional estudado no ponto 2.4.2, a análise da curva granulométrica da Fig. 3.1, permite identificar a posição da curva da areia Hostun como inserida no balizamento relativo à suscetibilidade à liquefação proposto por Tsuchida (1970). 3.1.2 DENSIDADE DAS PARTÍCULAS SÓLIDAS O peso volúmico das partículas sólidas (γs) foi determinado em laboratório por via húmida. O processo utilizado passa pela determinação do peso do picnómetro com água destilada até uma medida de referência (m3), de seguida, a introdução da amostra no interior do recipiente referido e medição do novo peso (m5) e por último, colocação do recipiente na estufa e nova determinação do peso da amostra seca (m4). Para além disto, interessa ainda calcular o valor de k que representa a razão entre a densidade da água à temperatura do ensaio e a temperatura de referência, a 20º. 𝛾𝑠 = 𝑘. 𝑚4 . 9,81 𝑚3 − (𝑚5 − 𝑚4 ) (3.3) Com o valor de γs é possível proceder ao cálculo da densidade das partículas (Gs), representado de seguida. 𝐺𝑠 = 𝛾𝑠 9,81 (3.4) Os ensaios laboratoriais permitiram obter um valor de γs= 26 kN/m3 e para a densidade das partículas de 2,651. (Versão para discussão) 39 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 3.1.3 ÍNDICE DE VAZIOS MÁXIMO E MÍNIMO Para determinar o índice de vazios de um solo é necessário, primeiramente, conhecer o valor do seu peso volúmico. O índice de vazios máximo (emax) foi determinado com uma amostra seca em estufa, e o procedimento foi guiado pela norma Japonesa JGS 0161, (JGS, 2009). O processo consiste na determinação do peso do molde (m0) e no volume do mesmo molde (V0). Posteriormente colocou-se a amostra no interior do molde com o auxílio de um funil, com um movimento em espiral e de uma pequena altura. Deve-se ter em atenção que a amostra utilizada deve preencher o molde na sua totalidade. Por último, retira-se o solo em excesso e pesa-se o conjunto solo + molde (m1). Através da determinação do peso volúmico seco mínimo (γd,min) é então possível obter o valor de emax utilizando o seguinte par de fórmulas. 𝑚1 − 𝑚0 𝑉0 (3.5) 𝛾𝑠 − 𝛾𝑑,𝑚𝑖𝑛 𝛾𝑑,𝑚𝑖𝑛 (3.6) 𝛾𝑑,𝑚𝑖𝑛 = 𝑒𝑚𝑎𝑥 = No que toca ao índice de vazios mínimo (emin), a determinação deste parâmetro advém do enchimento do molde utilizado anteriormente, aplicando a mesma técnica de vazamento do solo. Primeiramente, procede-se à regularização do solo no molde e pesagem do conjunto. Após isto, coloca-se o molde, prato e alonga sobre a mesa vibratória, e dentro da alonga e sobre o prato do molde aplica-se uma sobrecarga de 14kg. Seguidamente, aplica-se uma vibração com frequência de 50 Hz durante 20 minutos, com erros contabilizados na ordem de +/- 2 Hz e +/- ¼ de minuto, respetivamente. Por fim, após a vibração desmonta-se os dispositivos sobre o prato e o molde e, mede-se o desnível entre a superfície do molde e o solo compactado em 6 pontos opostos, obtendo assim uma altura média e o volume da amostra (V1). Com o cálculo do peso volúmico seco máximo (γd,max), é possível obter o valor de emin desejado. 𝑚1 − 𝑚0 𝑉1 (3.7) 𝛾𝑠 − 𝛾𝑑,𝑚𝑎𝑥 𝛾𝑑,𝑚𝑎𝑥 (3.8) 𝛾𝑑,𝑚𝑎𝑥 = 𝑒𝑚𝑎𝑥 = Os valores determinados laboratorialmente para os índices de vazios foram, 0,609 para o índice de vazios mínimo e, 0,963 para o índice de vazios máximo. De modo a perceber se os valores obtidos nos ensaios laboratoriais, são valores plausíveis, formulou-se a Tabela 3.2 que compara valores de estudos anteriormente realizados, nomeadamente por Azeiteiro (2021), relativos à areia Hostun. (Versão para discussão) 40 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Tabela 3.2 – Comparação dos valores obtidos com valores da Universidade de Coimbra para a areia Hostun Solo D50 (mm) CU Gs emin emax Areia em estudo 0,3 1,5 2,651 0,609 0,963 Areia (Azeiteiro, 2021) 0,33 1,4 2,64 0,66 1,00 3.2 ENSAIOS LABORATORIAIS No âmbito desta dissertação, foram realizados vários ensaios laboratoriais, de modo a ser possível obter as propriedades mecânicas da areia Hostun, necessárias para a posterior modelação deste material. Na modelação da areia com o modelo constitutivo NorSand foram processados dados dos ensaios triaxiais monotonicos desenvolvidos por Azeiteiro (2021), enquanto que para simulação deste solo utilizando o modelo PM4Sand, optou-se pela realização de ensaios triaxiais cíclicos (CTx) e ensaios de corte simples direto cíclicos ou cyclic direct simple shear (CDSS). 3.2.1 ENSAIO TRIAXIAL De modo a obter uma melhor caracterização da resistência ao corte da areia Hostun, foram realizados uma série de ensaios triaxiais com carregamento monotónico, na Universidade de Coimbra, Azeiteiro (2021) O Ensaio triaxial é realizado numa câmara cilíndrica que normalmente é constituída por uma base e um topo, separados por um corpo de acrílico. Estes três elementos são unidos através de um conjunto de tirantes. A amostra de areia é preparada de modo a preconizar uma forma cilíndrica, sendo de seguida colocada na base da câmara sobre o pedestal e envolvida por uma membrana fina de borracha. A estanquidade deste conjunto fica garantida através de quatro o-rings. Para além disto, o sistema é ainda composto por uma pedra porosa colocada no topo e na base da célula, bem como transdutores piezocerâmicos conhecidos como bender/extender elements. Para que a amostra de solo possa ser carregada verticalmente, existe um êmbolo no topo que se encontra centrado com o resto do sistema. A medição do carregamento vertical é realizada por uma célula de carga instalada no interior da câmara fixa ao pistão. Através da placa de topo são introduzidas contrapressões, também conhecidas como back pressure (BP), provenientes de uma ligação exterior a um controlador de pressão. Em adição, existem outras ligações nomeadamente, a de pressão na câmara (cell pressure) que potencia a introdução de pressão de água dentro da câmara, a da pressão neutra que se encontra conectada à placa da base e por fim, uma outra ligação que tem como finalidade a drenagem da base. Na Fig. 3.2 é possível ter uma ideia do aspeto e funcionamento do aparelho utilizado neste ensaio. (Versão para discussão) 41 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 3.2 – Câmara triaxial; Ligação (a) pressão neutra; (b) contrapressão; (c) pressão na câmara; (d) drenagem da base, adaptado de (Fonseca, 2009) e (Fernandes, 2006) A realização do ensaio é condicionada por um conjunto de passos normalizados, que se encontram descritos em Fonseca (2009). No caso de o ensaio ser carregado monotonicamente é utilizada uma prensa estática. A aquisição dos dados é realizada através de um programa computacional que recolhe informações dos transdutores de pressão e deslocamento axial e radial. No LabGeo da FEUP foram realizados ensaios triaxiais cíclicos na areia de Hostun, de modo a perceber a influência do carregamento dinâmico no desencadeamento da liquefação, cujos resultados serão apresentados no capítulo seguinte. Este tipo de ensaios utiliza um sistema de câmara triaxial idêntico ao mencionado anteriormente, sendo que a diferença reside no tipo de prensa utilizada. A prensa cíclica efetua ciclos de carga e descarga axial em movimento sinusoidal, ciclos estes realizados com o auxílio de um motor e de uma bomba hidráulica. O êmbolo é fixo ao atuador de modo a que seja possível obter uma curva de carregamento o mais próxima possível da curva sinusoidal aplicada. O corte pode ser controlado por deformação axial ou por tensão, através do controlo do atuador cíclico e da célula de carga interior, podendo-se alterar entre as duas abordagens sem haver grandes perturbações. (Versão para discussão) 42 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 3.2.2 ENSAIO CÍCLICO DE CORTE SIMPLES DIRETO (CDSS) O ensaio cíclico de corte simples direto ou cyclic direct simple shear (CDSS) é muito utilizado na investigação do comportamento dinâmico dos solos. Apresenta algumas vantagens em relação ao ensaio triaxial cíclico, uma vez que traduz uma melhor simulação das condições impostas por um sismo, por permitir a rotação das tensões principais. É recomendado para o estudo das características da liquefação sob condições drenadas, a volume constante. Neste ensaio, as amostras são confinadas através de uma membrana de borracha e de uma série de anéis de cobre, que restringem as deformações laterais, no entanto, permitem a ocorrência de distorção na amostra, como é possível observar na Fig. 3.3 . O aparelho inclui uma célula de carga multi-axial cujos resultados são analisados através do software GEOsys®. No que toca à instrumentação, as cargas horizontais e verticais foram medidas através de um transdutor de carga colocado na parte de baixo da amostra. Fig. 3.3 – Aparelho relativo ao ensaio cíclico de corte simples direto A realização do ensaio é condicionada por um conjunto de passos normalizados (Ramos, 2021): a) Preparação da amostra no pedestal fora da câmara; i. primeiramente colocar a membrana e os anéis de cobre no pedestal; ii. utilizar fita transparente para selar o molde, de modo a conseguir aplicar vácuo à membrana; iii. medir a altura do molde; iv. colocar um filtro na parte de baixo do pedestal e preparar a amostra com o método desejado; b) Medir novamente a altura da amostra e subtrair este valor ao da primeira medida de modo a obter a altura real da amostra; c) Anexar uma peça de suporte à base sendo que a tampa superior fica fixa a essa mesma peça; d) Baixar a tampa de topo de modo a tocar no topo da amostra; e) Fixar a membrana e os anéis de cobre; f) Retirar o molde, inserir uma peça inferior de modo a fixar os anéis g) Empurrar a placa inferior para dentro da câmara e o pistão horizontal é fixado e definido para a posição 0; h) Baixar o pistão vertical até entrar em contacto com a tampa superior, e fixar utilizando 3 parafusos; i) Depois do pistão vertical e da tampa estarem fixos, é possível retirar a peça de suporte. (Versão para discussão) 43 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 3.2.3 INSTRUMENTAÇÃO Para além de todos os elementos referidos nos ensaios anteriormente mencionados, muitas vezes são utilizados instrumentos auxiliares, como é o caso dos LVDT (Linear Variable Diferential Transformers) e os bender elements (BE). Os primeiros são responsáveis pela medição de deslocamentos lineares. São fixados na parte lateral da amostra medindo os deslocamentos horizontais da mesma, podendo haver um terceiro elemento que mede os deslocamentos verticais. Estes apresentam resultados com extrema exatidão e são comummente utilizados em ensaios de CDSS e triaxiais cíclicos. Os bender elements são transdutores piezoelétricos empregados na determinação da velocidade de propagação das ondas sísmicas. No caso de serem elementos duplos, são compostos por 2 placas finas piezocerâmicas, constituindo uma configuração mais versátil e proporcionando movimentos de extensão e compressão, e movimentos de flexão. Na Fig. 3.4 está representado um comportamento usual de um elemento duplo em repouso e sob tensão. Fig. 3.4 – Esquema de um elemento duplo piezocerâmico (Ferreira, 2003) Os bender elements, ou transdutores de flexão, são elementos duplos, sendo que as duas placas piezocerâmicas se encontram ligadas por uma lâmina metálica que, para além de fazer a ligação, funciona como material de reforço. Têm com função gerar as ondas de corte S através de um movimento de flexão, resultando na expansão de uma das placas e por conseguinte, na contração da outra. A Fig. 3.5 exemplifica o movimento de flexão que dá origem a um impulso sinusoidal de propagação de ondas de corte. Fig. 3.5 – Esquema de funcionamento de um bender element (Ferreira, 2003) (Versão para discussão) 44 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 4 4 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS LABORATORIAIS E CALIBRAÇÃO DOS MODELOS CONTITUTIVOS 4.1 ENSAIOS TRIAXIAIS MONOTÓNICOS Como referido anteriormente, os resultados dos ensaios triaxiais carregados monotonicamente, foram providenciados por Azeiteiro (2021) na FCTUC da Universidade de Coimbra, com intuito de simular numericamente o processo de liquefação numa areia de referência, no caso, a areia também em estudo nesta dissertação, a areia de Hostun. No seu trabalho, Azeiteiro (2021) faz uma análise bastante extensa, realizando um grande número de ensaios, de diferentes tipologias e em diversas condições de estado, de carregamento e de drenagem. No âmbito deste trabalho, apenas foram selecionados dois ensaios de carregamento monotónico, um em condições drenadas e outro em condições não drenadas, de modo a proceder à posterior calibração do modelo constitutivo a utilizar. A técnica utilizada para a preparação das amostras é a de air-pluviation, escolhido com o intuito de obter amostras homogéneas, com uma distribuição de índice de vazios relativamente uniforme. Para além disto, esta técnica é bastante conhecida pela sua repetibilidade, o que assegura uma boa comparação entre resultados obtidos em vários equipamentos e em laboratórios diferentes. Todas as especificidades deste processo ultrapassam esta dissertação e podem ser encontradas no trabalho do autor (Azeiteiro, 2021). O ensaio drenado escolhido foi o ICDMTC p↑ 0,885/80, sendo que esta designação representa o tipo de consolidação (IC, para consolidação isotrópica), o tipo de condição drenada (D, para drenagem), o tipo de carregamento (MTC p↑, para um carregamento monotónico triaxial de compressão com tensão média crescente), o índice de vazios imediatamente após a consolidação (0,885) e por fim, a tensão média efetiva logo após consolidação ou pressão de confinamento (80 kPa). As curvas selecionadas para a calibração do modelo NorSand encontram-se representadas de seguida na Fig. 4.1. (Versão para discussão) 45 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 4.1 – Ensaio ICDMTC p↑ 0,885/80, (Azeiteiro, 2021) Relativamente ao ensaio não drenado, optou-se por ensaio com uma pressão de confinamento e índice de vazios inicial semelhantes, sendo o ensaio o ICUMTC p↑ 0,876/80. A diferença relativamente à nomenclatura do ensaio anterior reside apenas no tipo de drenagem (U, representa condições não drenadas). Os resultados do ensaio encontram-se na Fig. 4.2. Fig. 4.2 – Ensaio ICUMTC p↑ 0,876/80, (Azeiteiro, 2021) 4.2 ENSAIOS TRIAXIAIS CÍCLICOS Os ensaios triaxiais cíclicos foram realizados no Laboratório de Geotecnia (LabGEO) do Departamento de Engenharia Civil da FEUP, com o intuito de simular o espoletar de uma liquefação cíclica na areia em estudo. A preparação das amostras teve em conta o método da pluviação seca. Consiste em introduzir e espalhar a areia com um funil, de modo a que a altura de queda seja nula, de forma constante, até preencher o molde na sua totalidade. A compactação da amostra é efetuada batendo lateralmente no molde até se obter a compacidade desejada, (Fernandes, 1994). As amostras possuem uma geometria cilíndrica contando com uma altura de 140 mm e um diâmetro de 70 mm. Foram realizados 4 ensaios, consolidados isotropicamente, variando a carga cíclica aplicada, tendo sido escolhido um ensaio modelo representado na Fig. 4.3. O ensaio escolhido (Hn_CTx2) foi efetuado com a capacidade da célula de carga interna para 1 kN, saturação até 300 kPa de BP a 50 kPa/h, tensão de (Versão para discussão) 46 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso confinamento isotrópica de 50 kPa e uma força aplicada ciclicamente de ± 60 kN. Os gráficos dos restantes ensaios podem ser analisados no Anexo A. Fig. 4.3 – Ensaio Hn_CTx2 realizado no LabGEO Os resultados acima apresentados são curvas características de um ensaio CTx no qual o provete sofreu liquefação. Neste caso, a liquefação ocorre no sexto ciclo sendo que a condição de início de liquefação utilizada foi a obtenção de um valor de ru superior a 0,98. 4.3 ENSAIOS CÍCLICOS DE CORTE SIMPLES DIRETO Os ensaios cíclicos de corte simples direto (CDSS) foram também realizados no Laboratório de Geotecnia da FEUP, com intuito de simular o espoletar de liquefação, através da introdução de um conjunto de deslocamentos, que simulam uma solicitação dinâmica, para uma melhor aproximação da realidade. A preparação dos ensaios foi a mesma descrita em (4.2) tendo sido utilizada uma densidade relativa de 40% e um correspondente índice de vazios inicial de 0,82. Os ensaios foram cumpridos em condições secas. Dado que o valor do ângulo de atrito, retirado do trabalho de Azeiteiro (2021), toma o valor de 31,5º, é possível obter o K0 da consolidação, através da seguinte fórmula: (Versão para discussão) 47 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (4.1) 𝐾0 = 1 − sin (𝜙´𝑐𝑣 ) Tendo-se obtido o valor de 0,4775 para este parâmetro de consolidação. O provete inicialmente foi idealizado com uma massa de 247,56 g, e volume de 169,83 cm 3 com a condição de densidade relativa referida anteriormente. No entanto, e após a consolidação da amostra, foi necessário proceder a uma correção do volume e do valor de índice de vazios inicial. O valor do volume foi alterado para 167,98 cm3 e o índice de vazios para 0,8. A densidade foi obtida através da seguinte fórmula: 𝜌= 𝑚 𝑉 (4.2) Tendo-se obtido o valor de 1473,7 kg/m3. Realizaram-se cinco ensaios, fazendo variar a tensão efetiva vertical inicial, e a amplitude da tensão de corte. As amostras foram ensaiadas sempre para 50 ciclos com ondas de 0,2 Hz de frequência, sendo que, dada a condição de fim de ensaio ser uma deformação horizontal máxima de 5 mm, nenhum dos ensaios conseguiu atingir o número de ciclos total. No primeiro ensaio utilizou-se uma tensão efetiva inicial (’v0) de 80 kPa e uma amplitude de tensão de corte de 20 kPa. Posteriormente foram realizados outros três ensaios nos quais se fez variar a amplitude de tensão de corte para 14,12 e 10 kPa. Já no último ensaio aumentou-se ’v0 para 160 kPa e a amplitude de tensão de corte para 30 kPa. Os ensaios são denominados primeiramente pela tensão efetiva aplicada e depois pela tensão cíclica, sendo um exemplo de um ensaio com 80 kPa de tensão efetiva vertical e 12 kPa de tensão cíclica, o ensaio Hn_80_12. Todos os ensaios CDSS realizados encontram-se sumarizados na Tabela 4.1. Tabela 4.1- Ensaios CDSS Ensaios σ´v0 (kPa) Hn_80_10 τcic (kPa) 10 Hn_80_12 12 80 Hn_80_14 14 Hn_80_20 20 Hn_160_30 160 30 De notar que foi realizado um maior número de ensaios com uma tensão efetiva de 80 kPa de modo a ser possível estabelecer uma boa correspondência com os ensaios triaxiais cíclicos anteriormente apresentados, executados com uma tensão efetiva de 50 kPa. Uma vez que os ensaios CTx são realizados (Versão para discussão) 48 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso em consolidação isotrópica da amostra (K0=1), a pressão de confinamento toma o valor de 50 kPa. No caso do ensaio CDSS, no qual a amostra é consolidada com total constrangimento das deformações horizontais, logo com um K0 estimado de 0,48, e de modo a atingir uma tensão efetiva média (p´) semelhante, é necessário aplicar uma tensão efetiva de 80 kPa. Este raciocínio é justificado pelo cálculo da tensão efetiva média, aproximadamente igual a 50 kPa em ambos os ensaios, conforme a seguinte expressão clássica da Mecânica dos Solos dos Estados Críticos: 𝑝′ = 𝜎´𝑣0 + 2. (𝐾0 . 𝜎´𝑣0 ) 3 (4.3) De seguida, na Fig. 4.4 é apresentado um ensaio representativo realizado (Hn_80_12) com uma pressão efetiva de 80 kPa, tensão cíclica de 12 kPa e todas as condições iniciais comuns referidas anteriormente. Fig. 4.4 – Ensaio CDSS Hn_80_12 As curvas acima tomam a forma comum de um ensaio CDSS. Sendo uma possível condição de início de mobilidade cíclica uma deformação > |3,5%|, conclui-se que neste ensaio a areia atingiria essa condição no 9º ciclo. A designação de mobilidade cíclica é mais correta neste tipo de ensaio, porque o solo se encontra seco e não se verifica efetivamente “liquefação”, por não haver lugar à geração de excessos de pressão neutra. Para além destes resultados, foram ainda medidas as velocidades das ondas S e P para ambos os carregamentos de 80 e 160 kPa, cujos valores se encontram destacados na Tabela 4.2Tabela 4.. A medição destas velocidades permite o cálculo do módulo de distorção máximo, um dos parâmetros fundamentais dos modelos constitutivos. (Versão para discussão) 49 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Tabela 4.2- Velocidades das ondas S e P Tensão efetiva vertical (kPa) 80 160 Velocidade das ondas S (m/s) 170 200 Velocidade das ondas P (m/s) 345 396 4.4 COMPARAÇÃO DE RESULTADOS ENTRE CTX E CDSS Neste subcapítulo, são comparados os valores obtidos em ambos os ensaios no que toca à resistência à liquefação e consequente número de ciclos. Da análise dos 4 ensaios cíclicos realizados na câmara triaxial, obteve-se a Tabela 4.3 que demonstra os valores da resistência à liquefação da areia Hostun e o número de ciclos que o provete demora até atingir liquefação. Do mesmo modo, esta mesma análise foi também aplicada aos ensaios cíclicos de corte simples direto, e representada na mesma tabela. De notar que apesar das condições de início de liquefação (ou mobilidade cíclica) serem completamente diferentes nos dois ensaios, ambas as metodologias são válidas e capazes de retratar eficazmente o comportamento do solo sob ações cíclicas. Tabela 4.3-Valores de CSR e número de ciclos para os ensaios cíclicos Ensaios Ensaio Triaxial Cíclico Ensaio Cíclico de corte simples direto Nº Ciclos CSR Hn_CTx1 57 0,135 Hn_CTx2 6 0,18 Hn_CTx3 2 0,187 Hn_CTx4 24 0,153 Hn_80_20 0,5 0,25 Hn_80_14 4 0,175 Hn_80_12 9 0,15 Hn_80_10 19 0,125 Hn_160_30 3 0,1875 Através da análise da Tabela 4.3 foi possível desenvolver o gráfico presente na Fig. 4.5 que ilustra a relação entre as duas variáveis em estudo. (Versão para discussão) 50 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 0,28 0,26 0,24 CSR 0,22 CTx 0,2 CDSS 0,18 0,16 0,14 0,12 0,1 0 10 20 30 40 50 60 NL Fig. 4.5 – Comparação das curvas do ensaio CTx e CDSS É importante referir que a definição dos pontos para tensões cíclicas mais altas e correspondentes número de ciclos mais baixos, carece de alguma precisão dado que apenas são utilizados números inteiros para o valor do número de ciclos. Para além disto, existe uma discrepância nos provetes utilizados dado que os ensaios triaxiais cíclicos foram realizados em condições saturadas, enquanto que nos ensaios CDSS as amostras estão na condição seca. Como seria previsível, as curvas dos ensaios em análise são próximas, mas não coincidem no espetro da resistência à liquefação e número de ciclos. Ishihara et al. (1985), chegou a esta mesma conclusão e propôs um fator corretivo (cr) de modo a conseguir aproximar os resultados obtidos. Este autor desenvolveu uma correlação entre o fator corretivo e K0, no entanto em trabalhos mais recentes, outros autores afirmaram que cr também era dependente da densidade relativa, tensão de confinamento e tipo de solo (Tatsuoka et al., 1986), (Vaid & Sivathayalan, 1996). Aplicando um fator corretivo igual a 0,8 obteve-se uma melhor aproximação dos resultados dos ensaios triaxiais cíclicos com os dos ensaios cíclicos de corte simples direto. Esta aproximação é visível na Fig. 4.6. 0,28 0,26 0,24 CSR 0,22 0,2 CDSS 0,18 CTx corrigido 0,16 0,14 0,12 0,1 0 10 20 30 NL 40 50 60 Fig. 4.6 – Correção da curva relativa ao ensaio triaxial cíclico (Versão para discussão) 51 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 4.5 CALIBRAÇÃO DOS MODELOS De modo a conseguir calibrar os parâmetros para uma correta modelação do comportamento real da areia Hostun, utilizou-se uma ferramenta do software comercial PLAXIS que permite simular os ensaios de laboratório realizados. A ferramenta soiltest, é uma funcionalidade recentemente introduzida no programa, e por este motivo possui algumas limitações. Após várias iterações, foi possível concluir que o modelo constitutivo NorSand apresenta uma resposta muito mais satisfatória para ensaios de carregamento estático, no caso, ensaios triaxiais monotónicos. Relativamente ao modelo PM4Sand, percebeu-se que as curvas fornecidas pelo programa e as obtidas nos ensaios experimentais, apenas coincidiam no ensaio CDSS. Dada a novidade desta ferramenta, é possível que os ensaios triaxiais cíclicos não estejam ainda ajustados para os modelos em estudo. As curvas resultantes relativas a este ensaio, nos dois modelos, em nada se equipararam às obtidas em laboratório, e por este motivo, estes resultados não foram considerados no processo de calibração. Verificou-se que a ferramenta descrita não permite simular com precisão os ensaios realizados em laboratório, mesmo para os ensaios com uma resposta satisfatória. No caso do ensaio CDSS, ao aplicar uma amplitude de tensão cíclica mantém esta amplitude constante ao longo de todo o ensaio, ocorrência que não se revela verdadeira nos ensaios reais. 4.5.1 CALIBRAÇÃO DO MODELO NORSAND Para a calibração do modelo NorSand foram utilizados os resultados dos ensaios realizados por Azeiteiro (2021). No seu trabalho, para além de partilhar os dados das curvas obtidas, fornece alguns valores de parâmetros da areia Hostun, estabelecidos como não mutáveis no ajuste do modelo. No que toca aos parâmetros do estado crítico, em vez de utilizar a fórmula (2.17), opta por usar uma formulação distinta, representado a LEC numa forma curva em vez de retilínea, apresentada de seguida. 𝐶 𝑒𝑐𝑠 = 𝐶𝑎 − 𝐶𝑏 ( 𝑐 𝑝´ ) 𝑝´𝑟𝑒𝑓 𝑒𝑐𝑠 = 𝑒0;𝑟𝑒𝑓 − λ ( 𝑝´ ) 𝑝´𝑟𝑒𝑓 ξ (4.4) (4.5) Na qual Ca=1; Cb=0,07; Cc=0,36; p´ref=100 kPa, (Azeiteiro, 2021). Para além destes valores, Azeiteiro propõe ainda uma aproximação do valor de M tc=1,265. O expoente power-law da elasticidade tem o seu valor fixo em 0,49 e o coeficiente de Poisson em 0,32. Por fim o grau de sobreconsolidação e o parâmetro de suavização são iguais a 1. A ferramenta soiltest não tem em conta diretamente a influência do índice de vazios que, como se sabe, é de extrema importância neste tipo de análise. O módulo de corte de referência (Gref), cujos valores se encontram na Tabela 4.4, é o parâmetro que permite contabilizar o efeito do índice de vazios através da seguinte expressão: (Versão para discussão) 52 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 𝐺𝑟𝑒𝑓 = 𝐶𝑔 . 𝑝′𝑟𝑒𝑓 . (2,97 − 𝑒)2 . 𝑂𝐶𝑅𝑘 1+𝑒 (4.6) Que advém do seguinte conjunto de fórmulas: 𝑛 𝐺𝑚𝑎𝑥 = 𝐶𝑔 . 𝑝′𝑟𝑒𝑓 . 𝑔 (2,97 − 𝑒)2 𝑝´ . 𝑂𝐶𝑅𝑘 . ( ) 1+𝑒 𝑝´𝑟𝑒𝑓 (4.7) 𝑛 (4.8) 𝑔 𝑝´ 𝐺 = 𝐺𝑟𝑒𝑓 . ( ) 𝑝´𝑟𝑒𝑓 Tabela 4.4- Valores de Gref para ambos os ensaios Ensaio drenado 0,885/80 Ensaio não drenado 0,876/80 67,57 68,48 𝐺𝑟𝑒𝑓 (mPa) O valor de Cg=293 foi retirado da leitura do trabalho de Azeiteiro (2021), juntamente com os restantes parâmetros mencionados anteriormente. Os demais parâmetros enunciados na Tabela 2.6, foram assumidos como variáveis e, intervenientes na calibração do modelo. Optou-se, como valores de entrada, pelo seguinte conjunto, N=0,4; χtc=4; H0=0; HΨ=300 e Ψ0=-0,15. Todos os valores de input encontram-se definidos na Tabela 4.5. Tabela 4.5 – Valores de input na calibração do modelo NorSand Não Variáveis Propriedades Valor 𝐺𝑟𝑒𝑓 67,57/ 68,48 𝑝𝑟𝑒𝑓 100 𝜂𝐺 0,49 𝜈 0,32 𝑀𝑡𝑐 1,265 𝐶𝑎 1 𝐶𝑏 0,07 𝐶𝑐 0,36 𝑅 1 𝑆 1 (Versão para discussão) 53 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Variáveis 𝑁 0,4 𝜒𝑡𝑐 4 𝐻0 0 𝐻Ѱ 300 Ѱ0 -0,15 A funcionalidade soiltest do programa PLAXIS apenas permite realizar a calibração automática dos parâmetros para um gráfico e por este motivo, escolheram-se os dois gráficos que na teoria, teriam mais influência na calibração, daí apenas serem apresentados os dois gráficos da Fig. 4.1. Foram realizadas várias iterações para proceder à melhor calibração possível, utilizando ensaios drenados e não drenados. A iteração V0 correspondente aos parâmetros de entrada da Tabela 4.5, a iteração V1 na qual se calibra o modelo para o gráfico εV:εa no ensaio drenado e para o gráfico Δu:εa no ensaio não drenado, e por fim a iteração V2, cujo ajuste se foca na curva q: εa. 4.5.1.1 Ensaio triaxial monotonico drenado 0,885/80 Utilizando os valores da Tabela 4.5, obtiveram-se as seguintes curvas (Fig. 4.7), sendo a iteração V0 a correspondente aos parâmetros de entrada. Fig. 4.7 – Comparação das curvas V0 e ensaio Como se pode observar, os parâmetros de entrada escolhidos forneceram uma excelente resposta no que toca à curva q: εa, não obtendo resultados tão satisfatórios no que toca ao gráfico εV:εa. No ajuste realizado para o gráfico εV:εa obtiveram-se as curvas da iteração V1, representadas na Fig. 4.8 em conjunto com os parâmetros variáveis calibrados. (Versão para discussão) 54 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 4.8 – Comparação das curvas V1 e ensaio É de realçar um claro aperfeiçoamento dos resultados da curva εV:εa em relação à iteração V0, no entanto em detrimento da curva q:εa. Para a calibração utilizando o gráfico q:εa, o resultado da iteração V2 é o apresentado na Fig. 4.9 conjuntamente com os valores dos parâmetros calibrados. Fig. 4.9 – Comparação das curvas V2 e ensaio Neste caso, os resultados são mais congruentes dado que a curva à esquerda se encontra mais próxima da do ensaio, enquanto que a da direita não varia muito em relação à iteração V1. (Versão para discussão) 55 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 4.5.1.2 Ensaio triaxial monotonico não drenado 0,876/80 Com os parâmetros de entrada propostos na Tabela 4.5, e utilizando a ferramenta de simulação de ensaios, foi possível desenhar as seguintes curvas da iteração V0, apresentadas na Fig. 4.10. Fig. 4.10 – Comparação das curvas V0 e ensaio A iteração V0, tal como acontecia no ensaio drenado, apresenta valores bastante compatíveis no gráfico q:εa, sendo que no outro, os resultados não se revelam tão positivos. No que toca à iteração V1, os gráficos e parâmetros calibrados podem ser consultados na Fig. 4.11. Fig. 4.11 – Comparação das curvas V1 e ensaio Os resultados desta iteração revelam-se interessantes na curva para a qual se realizou a calibração dos parâmetros, no entanto, para o gráfico q:εa observa-se um decaimento na qualidade da aproximação. (Versão para discussão) 56 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Relativamente à iteração V2 todos os resultados padronizados anteriormente podem ser consultados na Fig. 4.12. Fig. 4.12 – Comparação das curvas V2 e ensaio Nesta última iteração que foca a convergência dos parâmetros para o gráfico q:εa, obtém-se um excelente resultado para esta primeira curva sem comprometer em demasia os resultados da curva Δu:εa. 4.5.1.3 Conclusões Na Tabela 4.6 são apresentados os intervalos entre os quais os parâmetros mutáveis variam. Tabela 4.6 – Intervalos de variação dos parâmetros de entrada N χtc H0 HΨ Ψ0 0,3-0,463 3,426-4,083 0,2594-3,633 178,4-271,6 -0,166-(-0,1038) Examinando com atenção a Tabela 4.6 retira-se que a amplitude dos intervalos é baixa na grande maioria dos parâmetros, sendo maior nos fatores de endurecimento, o que é justificado pela escala e proporção dos valores. Analisando os resultados de todas as calibrações e comparando os ensaios drenados e não drenados, é possível identificar que o ensaio não drenado apresenta as respostas mais próximas em ambos os gráficos em estudo. Dentro deste ensaio, a iteração V2 é a que possui melhor compromisso com ambas as curvas. Dado isto, a posterior modelação da resposta sísmica local da areia Hostun utilizando o modelo NorSand, irá ser realizada tendo em conta os valores desta calibração. Para além de toda a análise realizada neste subcapítulo de calibração dos modelos, foi ainda estudado um outro conjunto de iterações nas quais se fazia variar um outro parâmetro, a razão de atrito no estado crítico para o ensaio triaxial (Mtc). O interesse nesta análise auxiliar surgiu com intuito de aproximar ainda mais as curvas dadas pelo programa, com as obtidas em ensaio. Efetivamente, as curvas para as (Versão para discussão) 57 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso quais os parâmetros eram calibrados melhoraram os seus resultados, tendo-se obtido aproximações mais precisas, no entanto, o segundo gráfico piorava significativamente a convergência em todas as iterações. Por este motivo, optou-se por introduzir nesta dissertação apenas os valores da primeira análise, visto que esta segunda não oferecia conteúdo determinante. 4.5.2 CALIBRAÇÃO DO MODELO PM4SAND Na calibração deste modelo, e tal como no anterior, utilizaram-se alguns valores de referência providenciados por Azeiteiro (2021). A pressão atmosférica foi tomada como 101,3 kPa e o ângulo de atrito para volume constante como 31,5°. Os índices de vazios máximo e mínimo assumem os respetivos valores de 0,963 e 0,609, referidos anteriormente na Tabela 3.2. No que toca ao valor do coeficiente de Poisson foi utilizada a seguinte fórmula, retirada de um trabalho desenvolvido na areia de Hostun por Kassas et al. (2021), chegando-se a um valor de 0,32. 𝜈= 𝐾0 1 + 𝐾0 (4.9) O valor de G0 foi calculado a partir das medições das velocidades das ondas S para os dois ensaios realizados, disponíveis na Tabela 4., e encontra-se resumido na Tabela 4.7. 𝑛 𝐺 = 𝐺0 . 𝑝´𝑟𝑒𝑓 ( (4.10) 𝑔 𝑝´ ) 𝑝´𝑟𝑒𝑓 (4.11) 𝐺 = 𝜌. 𝑉𝑠 2 Tabela 4.7 – Valores de G0 para os ensaios CDSS realizados 𝜌= 14573,7 Kg/m3 𝜎´𝑣0 =80 kPa; 𝑝´0 =50 kPa; 𝑉𝑠 =170 m/s 𝜎´𝑣0 =160 kPa; 𝑝´0 =100 kPa; 𝑉𝑠 =200 m/s 𝐺 (MPa) 42,6 59 𝐺0 598 590 Atendendo à variabilidade inerente à preparação das amostras, há uma pequena variação nos valores de G0 que, no entanto, não se revela significativa, sendo que o valor adotado será a média entre os dois e igual a 594. (Versão para discussão) 58 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso A densidade relativa inicial está diretamente relacionada com o ensaio CDSS realizado, e toma o valor de 0,46, que advém do valor do índice de vazios inicial corrigido de 0,8. 𝐷𝑅 = 46% = 𝑒𝑚𝑎𝑥 − 𝑒 𝑒𝑚𝑎𝑥 − 𝑒𝑚𝑖𝑛 (4.12) Relativamente ao par de parâmetros diretamente relacionados com o estado crítico da areia, Q e R, e tendo em conta novamente a Fig. 2.26, foi possível obter os valores exatos destes parâmetros. Utilizando a análise anteriormente desenvolvida por Azeiteiro (2021) e a LEC proposta para a areia de Hostun visível na Fig. 4.13, em conjunto com a expressão (2.20), desenvolveu-se um sistema de duas equações a duas incógnitas e concluiu-se que Q=7 e R=0,47. Fig. 4.13 – LEC proposta para a areia de Hostun, adaptado de (Azeiteiro, 2021) Dada a utilização da Linha dos Estados Críticos proposta por Azeiteiro (2021), optou-se por aplicar os valores de índice de vazios máximo e mínimo sugeridos pelo mesmo. Este cálculo leva a valores de Q e R que fogem um pouco dos valores de referência, no entanto o cálculo fica apoiado pela Tabela 4.8 que demonstra que para as mesmas pressões de confinamento (50 e 100 kPa) e aplicando a expressão (2.20) com os valores de Q e de R de referência, 10 e 1 respetivamente, se obtêm valores de densidade relativa no estado crítico bastante aproximados. Esta aproximação deriva da grande incerteza na definição de valores de Estado Crítico para tensões baixas (Azeiteiro, 2021). (Versão para discussão) 59 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Tabela 4.8 – Valores da densidade relativa no estado crítico para 50 e 100 kPa para diferentes valores de Q e R 𝐷𝑅,𝑐𝑠,50 𝐷𝑅,𝑐𝑠,100 Índice de vazios (Azeiteiro, 2021) 16% 21% Parâmetros de Estado de referência (Q=10 e R=1) 16% 19% Os restantes critérios de definição da areia foram considerados como variáveis. Deste modo, como valores de entrada optou-se por hp0=0,05; nb=0,5; nd=0,1. Todos os valores de input encontram-se definidos na Tabela 4.9. Tabela 4.9 – Valores de input na calibração do modelo PM4Sand Variáveis Não Variáveis Propriedades Valor ℎ𝑝0 0,05 𝑛𝑏 0,5 𝑛𝑑 0,1 𝐷𝑟0 0,4 𝐺0 594 𝑝𝐴 101,3 𝜑´𝑐𝑣 31,5 𝜈 0,32 𝑒𝑚𝑎𝑥 0,963 𝑒𝑚𝑖𝑛 0,609 𝑄 5 𝑅 0,04 Em comparação com o modelo constitutivo NorSand, este segundo modelo possui um menor número de parâmetros variáveis, o que poderia indicar uma calibração mais simples. Como referenciado no início do subcapítulo de calibração dos modelos, a ferramenta soiltest não consegue simular de forma correta a resposta do provete aquando de ações cíclicas. Por este motivo, e ao contrário da calibração do modelo anterior, não foi possível recorrer ao método de ajuste automático oferecido pelo soiltest, tendo sido realizado um acerto manual das variáveis, fazendo um conjunto de iterações até se atingir uma correspondência aceitável entre ambas as curvas dos dois gráficos. 4.5.2.1 Ensaios CDSS calibrados Do conjunto de ensaios CDSS realizados, foram escolhidos 2 para a realização da calibração dos parâmetros, sendo eles o ensaio Hn_80_12 e o Hn_160_30. Sendo que não foi possível realizar um ajuste automático dos parâmetros variáveis, a calibração manual foi realizada com objetivo de aproximar (Versão para discussão) 60 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso o número de ciclos nos quais a amostra atingiria uma deformação > |3,5%|. A delimitação deste intervalo de deformação, encontra-se representado através das linhas verticais a vermelho. Na Fig. 4.14 encontram-se os resultados do ensaio Hn_80_12 bem como as curvas fornecidas pelo PLAXIS após a calibração das variáveis e os correspondentes valores dessas mesmas variáveis. Fig. 4.14 – Calibração do ensaio Hn_80_12 Analisando os resultados, percebe-se que a resposta fornecida pelo PLAXIS é bastante mais satisfatória no gráfico τcic:ɣ do que no gráfico da direita. Este resultado é justificado pela calibração ter como objetivo o primeiro gráfico, no entanto, a resposta do segundo também se apresenta aproximada. Os valores obtidos para os parâmetros variáveis são coincidentes com os valores de referência do modelo, o que indica uma boa aproximação (Vilhar & Brinkgreve, 2018). Relativamente ao segundo ensaio, e olhando para a Fig. 4.15 é possível identificar a aproximação obtida para o ensaio Hn_160_30. Fig. 4.15 – Calibração do ensaio Hn_160_30 (Versão para discussão) 61 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso A calibração do ensaio Hn_160_30, para além de divergir um pouco dos valores de referência do modelo, não apresenta resultados tão aproximados como o ensaio analisado anteriormente. 4.5.2.2 Conclusões Antes da análise da calibração dos ensaios, é interessante perceber a dimensão da influência de alguns parâmetros na resistência à liquefação da areia. Numa fase preliminar, na qual ainda não se conheciam todos os parâmetros constantes, foram utilizados para os parâmetros hp0, Q e R, valores normalizados de modo a tentar perceber o comportamento da amostra aquando de uma solicitação cíclica. Após se fazer variar os valores destes fatores, concluiu-se que a taxa de contração (hp0) desempenha um papel fundamental na definição da resistência à liquefação. Esta conclusão foi também introduzida em estudos anteriores por Toloza Barría (2018) e Kassas (2021). Deste modo, quanto maior o valor de hp0 maior a resistência oferecida pela areia, sendo este parâmetro um fator fundamental na calibração das curvas CSR:NL. No que toca aos ensaios calibrados, houve uma certa atenção e cuidado para que os dois ensaios fossem calibrados para um mesmo valor de hp0, tendo-se optado pela variação de nb e nd. Das análises realizadas, o ensaio Hn_80_12 é o que apresenta a resposta mais aproximada às curvas laboratoriais e por esta razão, os valores obtidos para os parâmetros variáveis serão utilizados na posterior modelação. Na modelação da resposta sísmica local, as variáveis em estudo assumirão os valores destacados na Tabela 4.10. Tabela 4.10 – Valores dos parâmetros variáveis da calibração dos ensaios CDSS hp0 nb nd 0,2 0,5 0,1 Após o modelo se encontrar devidamente calibrado e numa tentativa de estabelecer uma correspondência com os ensaios triaxiais cíclicos, realizou-se um estudo sobre a possibilidade de elaborar uma modelação deste mesmo ensaio aplicando as condições utilizadas em laboratório. A modelação passaria por uma representação do provete cilíndrico utilizando a formulação de um retângulo que teria a altura do provete e a largura do raio do provete, tirando partido de uma análise axissimétrica. O que se concluiu após a modelação, foi que o sistema não providenciava resultados coerentes, uma vez que não produzia excessos de pressão neutra. Seguido de alguma pesquisa, entre artigos de trabalhos realizados e artigos publicados pelos autores deste modelo constitutivo, percebeuse que o modelo não responde de forma correta aquando da aplicação de uma análise axissimétrica. Como alternativa, surgiu a ideia de utilizar o programa PLAXIS 3D com o intuito de modelar o provete com as suas dimensões reais, no entanto a literatura relativa ao PM4Sand afirma que como o modelo foi desenvolvido em duas dimensões, não devendo ser aplicado em simulações tridimensionais (Boulanger & Ziotopoulou, 2015) e (Toloza Barría, 2018). (Versão para discussão) 62 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 5 5 MODELAÇÃO NUMÉRICA: APRESENTAÇÃO DO CASO DE ESTUDO E DISCUSSÃO DE RESULTADOS 5.1 APRESENTAÇÃO E MODELAÇÃO DO CASO DE ESTUDO NUM SOFTWARE COMERCIAL 5.1.1 DESCRIÇÃO GERAL Prever com fiabilidade o comportamento dinâmico de estruturas que interagem com os maciços terrosos é uma tarefa que se reveste de elevada complexidade. Na generalidade dos casos, fruto da complexidade dos sistemas em apreço, não existem abordagens analíticas ou semi-analíticas que permitam lidar com os problemas, sendo imperativo recorrer à modelação numérica. Atualmente existe um grande número de softwares comerciais que o permitem fazer, sendo o software PLAXIS o escolhido para o desenvolvimento do estudo que se apresenta ao longo deste capítulo. Este encontra-se implementado no domínio do tempo contando com uma formulação de elementos finitos que permitem lidar com geometrias complexas. As análises dinâmicas realizadas pelo PLAXIS são particularmente úteis na análise geotécnica de estruturas submetidas a carregamentos dinâmicos, tais como vibrações causadas por terremotos, explosões, ondas de choque, maquinaria pesada ou tráfego rodo-ferroviário. O software comercial adotado permite simular o comportamento dinâmico do solo e das estruturas, possibilitando aferir a resposta das mesmas a esses carregamentos. Adicionalmente, oferece diversas opções de modelação, como a inclusão de efeitos de amortecimento e a análise no domínio da frequência. Além disso, permite a análise do comportamento dinâmico de solos saturados e não saturados, incluindo a análise da liquefação. Os resultados das análises dinâmicas fornecidos pelo programa comercial permitem uma melhor compreensão do comportamento estrutural e do solo sob carregamentos dinâmicos, possibilitando a avaliação da segurança de uma estrutura e a tomada de medidas preventivas para minimizar riscos de danos ou colapso da mesma. A modelação divide-se em 5 fases. Uma primeira relativa ao solo, na qual se escolhem as propriedades, as espessuras das camadas e a posição do nível freático. De seguida, tem-se a janela estrutural, podendo introduzir elementos estruturais como cortinas, vigas, e ainda interfaces e deslocamentos estáticos e dinâmicos. Depois de ter o modelo completamente definido, é necessário definir a malha de elementos finitos e as condições de fluxo da água. Por último fica apenas por definir as etapas de construção dependentes do projeto em análise. (Versão para discussão) 63 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 5.1.2 APRESENTAÇÃO E MODELAÇÃO DO CASO DE ESTUDO Como referido previamente, o presente capítulo tem como objetivo principal avaliar a suscetibilidade da areia de Hostun à liquefação com recurso à modelação numérica. Neste sentido foi imperativo idealizar uma estratificação geotécnica que constituísse o ponto de partida para o desenvolvimento do presente capítulo. Esta conta com três solos distintos, uma camada de argila superficial, a camada de areia de Hostun e por fim, o bedrock (rocha-mãe ou substrato rochoso do modelo). Importa referir que as propriedades das camadas de argila e rocha foram retiradas, tendo algumas sido adaptadas, de um projeto realizado pela Universidade de Delft em parceria com programadores do software comercial PLAXIS, (Vilhar & Brinkgreve, 2018). No que toca à camada de areia Hostun, e dado que estão a ser estudados dois modelos constitutivos passíveis de simular o seu comportamento à liquefação, as propriedades escolhidas para cada modelo bem como os resultados obtidos e conclusões retiradas, serão discutidos nos subcapítulos seguintes. É importante referir, que em ambos os modelos constitutivos não foram calculados os coeficientes de Rayleigh (α e β), tendo sido utilizados os valores de referência sugeridos pelo programa. As propriedades da camada de argila e da camada de rocha encontram-se nas Tabela 5.1e Tabela 5.2, respetivamente. Tabela 5.1 – Parâmetros de input da camada argilosa, adaptados de (Vilhar & Brinkgreve, 2018) Parâmetro Símbolo Valor Unidade Modelo Constitutivo - HS small - Tipo de drenagem - Não drenado (A) - Peso volúmico não saturado nsat 18 kN/m3 Peso volúmico saturado sat 20 kN/m3 Índice de vazios inicial e0 1,2 - α 0,096 - β 0,00079 - 9000 kN/m2 9000 kN/m2 Coeficientes de amortecimento de Rayleigh Módulo de elasticidade secante para um ensaio triaxial a 50% da tensão máxima 𝐸50 Módulo de elasticidade tangente para carregamento edométrico 𝐸𝑜𝑒𝑑 Módulo de elasticidade de carga-descarga 𝐸𝑢𝑟 27000 kN/m2 Expoente para dependência da rigidez em relação ao nível de carregamento m 1 - Coesão cref´ 10 kN/m2 Ângulo de atrito φ´ 26 ° Ângulo de dilatância ψ 0 ° 0,0007 - 60000 kN/m2 𝑟𝑒𝑓 𝑟𝑒𝑓 𝑟𝑒𝑓 Extensão de corte para Gs= 0.722G0 Módulo de corte para pequenas deformações 𝑟𝑒𝑓 𝐺0 (Versão para discussão) 64 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Coeficiente de Poisson 0,2 - Pressão de referência pref 100 kN/m2 Coeficiente de impulso em repouso normalmente consolidado 𝐾𝑛𝑐 0 0,5616 - Incremento de coesão cinc´ 0 kN/m2/m Coordenada de referência yref 0 m Coeficiente de falha Rf 0,9 - “Tension cut-off” - Verdadeiro - Resistência à tração t 0 kN/m2 Grau de sobreconsolidação OCR 2 - Permeabilidade kx / ky 1x10-8 m/s Tabela 5.2 – Parâmetros de input da camada rochosa, adaptado de (Vilhar & Brinkgreve, 2018) Parâmetro Símbolo Valor Unidade Modelo Constitutivo - Linear Elástico - Tipo de drenagem - Drenado - Peso volúmico não saturado nsat 22 kN/m3 Peso volúmico saturado sat 22 kN/m3 Módulo de Elasticidade E’ 8.106 kN/m3 Coeficiente de Poisson 0,2 - Deve ressalvar-se que para caracterizar corretamente a camada de argila, houve a necessidade de se definir as condições de permeabilidade da mesma. Deste modo, para além de introduzir os valores de permeabilidade acima referidos, classificou-se a camada como sendo constituído por material muito fino. Tendo os parâmetros definidos, foi possível passar à modelação da estratificação. Foram desenvolvidos dois casos de estudo, o Modelo 1 e o Modelo 2 que serão apresentados de seguida. Para o Modelo 1, optou-se por uma espessura de 1 m para a camada de argila, 18 m para a camada arenosa e de 4 m para a camada rochosa. Pode-se encontrar uma imagem ilustrativa do Modelo 1 na Fig. 5.1 a), estando apresentada a malha de elementos finitos adotada na Fig. 5.1 b). Relativamente ao Modelo 2, apresentado na Fig. 5.2, manteve-se a espessura da camada de argila, tendo-se alterado as espessuras da camada de areia e de rocha para 10 e 2 m, respetivamente. Deste modo, foi possível controlar a solicitação aplicada no ponto P3 permitindo, consequentemente, estabelecer uma comparação direta entre a simulação realizada e os ensaios laboratoriais. (Versão para discussão) 65 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 5.1 – Modelo 1 Fig. 5.2 – Modelo 2 A definição da malha, também representada na Fig. 5.1 e na Fig. 5.2 foi escolhida consoante os objetivos da análise. A escolha de uma malha mais refinada levaria a um maior número de nós e pontos de Gauss, o que por sua vez levaria a tempos de cálculo exorbitantes. Deste modo, optou-se por uma malha medianamente refinada possibilitando a escolha de pontos de interesse para posteriormente ser possível definir o time history de cada ponto relativa à aceleração e razão de excessos de pressão neutra. Os (Versão para discussão) 66 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso pontos de interesse referidos encontram-se destacados na imagem da esquerda das Fig. 5.1 e Fig. 5.2, representando os nós da malha definida. Através destes nós é possível retirar os valores das acelerações horizontais, enquanto que os valores de ru ao longo da solicitação dinâmica são obtidos através dos stress points que envolvem os nós. Para cada modelo apresentado, idealizaram-se 4 perfis de estratificação distintos onde se combinou a supressão da camada de argila com o rebaixamento do nível freático. O primeiro perfil corresponde à ilustração das Fig. 5.1 e Fig. 5.2, no qual o nível freático se encontra a 1 m de profundidade, coincidente com a superfície de contacto da camada de argila e areia. O perfil 2 apresenta uma geometria semelhante ao perfil 1, no entanto, a posição do nível da água difere, passando para um nível inferior à camada rochosa, de modo a simular uma condição seca. Os perfis 3 e 4 são iguais aos perfis 1 e 2 respetivamente, sendo que a alteração consta na remoção da camada de argila. Na Tabela 5.3 está presente um catálogo que contem todos os modelos e respetivos perfis descritos anteriormente, bem como as principais diferenças entre os mesmos. Tabela 5.3 – Catálogo de modelos (Versão para discussão) 67 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso No que toca à excitação aplicada, procedeu-se à simulação da solicitação dinâmica através da criação de um line displacement, em concordância com o acelerograma da Fig. 5.3. Visto tratar-se de uma análise de referência e não um caso de estudo real, e de modo a aproximar a solicitação, da ação induzida nos ensaios laboratoriais, foi escolhido um acelerograma de uma onda sinusoidal. Optou-se, primeiramente, por utilizar uma onda sinusoidal com frequência de 1 Hz, amplitude 1 m/s 2 e com uma duração de 60 segundos, o que permite uma fácil tradução do número de ciclos que a areia demora até atingir liquefação, uma vez que, cada segundo corresponde a um ciclo. Considerando que a condição de fronteira na base do modelo foi definida através de uma base compatível, a solicitação dinâmica tem de ser metade do outcropping motion. Deste modo, é utilizado um fator de 0,5 no deslocamento em x, e fixados os deslocamentos em y (Vilhar e Brinkgreve, 2018). De modo a obter uma amostra de resultados mais completa, fez-se variar, em algumas simulações, a frequência e aceleração da onda. Ainda no contexto do separador estrutural do programa, foi definida uma interface positiva de modo a inferir uma boa modelação do contacto da line displacement com a camada rochosa. Onda Sinusoidal 1 a (m/s2) 0,5 0 0 2 4 6 8 10 -0,5 -1 t (s) Fig. 5.3 – Acelerograma da onda sinusoidal com a=1 m/s2 de amplitude; f=1 Hz; t=60 s As condições de fronteira utilizadas nas fronteiras laterais do modelo pretendem simular uma continuação infinita do solo dado que esta geometria apenas representa uma secção de um perfil modelo, e, portanto, garantir a condição de radiação de energia de Sommerfeld, Adicionalmente, e mantendo as definições pré-definidas do PLAXIS, o fluxo de água para fora do modelo não foi contabilizado, de modo a verificar a condição não drenada Por último, foram introduzidas duas etapas para o cálculo do modelo, a primeira correspondente ao estado inicial de tensão, K0, e a segunda relativa à introdução da ação dinâmica. Todas as especificações de condições de fronteira e parâmetros relativos ao tipo de análise, podem ser encontrados no documento que serviu de referência à modelação apresentada ao longo do presente capítulo (Vilhar e Brinkgreve, 2018). 5.1.2.1 Areia Hostun com NorSand Utilizando o modelo constitutivo NorSand para simular as características dinâmicas da areia em estudo caracterizada em capítulos anteriores obteve-se as propriedades apresentadas na Tabela 5.4. Na definição dos pesos volúmicos saturado e não saturado correspondentes ao índice de vazios inicial, utilizou-se o seguinte par de fórmulas: (Versão para discussão) 68 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 𝛾𝑠𝑎𝑡 = 𝛾𝑠 + 𝛾𝑤 . 𝑒 1+𝑒 (5.1) 𝛾𝑠 1+𝑒 (5.2) 𝛾𝑛𝑠𝑎𝑡 = Tabela 5.4 – Propriedades da areia Hostun com o modelo NorSand Parâmetro Símbolo Valor Unidade Tipo de drenagem - Não Drenado (A) - Peso volúmico não saturado nsat 14,28 kN/m3 Peso volúmico saturado sat 18,7 kN/m3 Índice de vazios inicial 𝑒0 0,82 - Coeficiente de Poisson 0,32 - Módulo de corte de referência 𝐺𝑟𝑒𝑓 68,48 MPa Pressão de referência 𝑝𝑟𝑒𝑓 100 kPa Expoente power-law da elasticidade 𝑛𝑔 0,49 - Razão de atrito no estado crítico para o ensaio triaxial 𝑀𝑡𝑐 1,265 - 𝐶𝑎 1 - 𝐶𝑏 0,07 - 𝐶𝑐 0,36 - Grau de sobreconsolidação 𝑂𝐶𝑅 1 - Parâmetro de suavização 𝑆 1 - Propriedade de associação volumétrica 𝑁 0,463 - Parâmetro da relação estado-dilatância para ensaios triaxiais de compressão 𝜒𝑡𝑐 3,426 - Parâmetro de endurecimento inicial 𝐻𝑜 1,584 - Parâmetro de endurecimento em função de Ѱ 𝐻𝛹 234,9 - Parâmetro de Estado inicial 𝛹0 -0,166 - Permeabilidade kx / ky 1x10-3 m/s Parâmetros do estado crítico Relativamente à análise dos resultados obtidos para o Modelo 1 perfil 1, utilizando o modelo constitutivo NorSand, tem-se a Fig. 5.4 na qual se encontra representada a evolução do excesso de pressão neutra ao longo do tempo para um ponto médio da camada de areia, ou seja, o ponto P3. De notar que o estudo (Versão para discussão) 69 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso da evolução de Δu no tempo, foi realizado para diferentes a solicitações dinâmicas na base, de modo a obter uma amostra de resultados mais ampla. 40 Δu (kPa) 30 20 10 a=1 m/s^2 a=1,5 m/s^2 0 0 20 40 60 t (s) Fig. 5.4 – Variação do excesso de pressão neutra ao longo do tempo, para o ponto médio da camada, para diferentes acelerações, utilizando o modelo NorSand Um índice de análise da suscetibilidade à liquefação comummente utilizado é o ru também denominado de razão de excesso de pressão neutra, que representa a razão entre o excesso de pressão neutra pela tensão efetiva vertical. 𝑟𝑢 = 𝛥𝑢 𝜎´𝑣0 (5.3) Quando o excesso de pressão neutra iguala a tensão efetiva (ru≈1), originam-se condições para o início da liquefação. No caso em análise a tensão vertical efetiva inicial no ponto médio da camada de areia assume o valor de 100 kPa. 𝜎´𝑣0 = (1 ∗ 20 + 9 ∗ 18,7) − 9 ∗ 9,81 = 100 𝑘𝑃𝑎 (5.4) Sendo que o valor máximo atingido pelo excesso de pressão neutra neste ponto é cerca de 38 kPa, correspondente com uma aceleração de 1,5 m/s2, o valor de ru=0,38 obtido, encontra-se bastante abaixo dos valores de referência. Após calcular o modelo e analisar os resultados, foi possível perceber que o modelo constitutivo NorSand não seria o mais indicado para tratar a ação dinâmica aplicada aos perfis de solo. Como referido no capítulo 2.5, Jefferies and Been (2015) afirmam que o modelo constitutivo foi idealizado para carregamentos estáticos, não conseguido projetar a devida resposta aquando de (Versão para discussão) 70 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso solicitações dinâmicas. A própria empresa que desenvolveu o programa PLAXIS (Bentley Communities), afirma que o modelo foi desenvolvido para uma correta representação da liquefação estática ou por fluxo. No manual de utilização, os programadores do software aconselham a utilizar vários modelos de modo a se obter uma boa resposta no que toca à liquefação por solicitação dinâmica, sendo que o modelo NorSand não consta nesta lista. Apesar dos resultados obtidos nesta análise não serem os mais satisfatórios, tanto o programa PLAXIS como o modelo NorSand ainda hoje se encontram em desenvolvimento. Deste modo, no futuro é possível que uma coligação entre este modelo e programa forneça uma boa resposta para solicitações dinâmicas. 5.1.2.2 Areia Hostun com PM4Sand Relativamente à definição das propriedades da areia Hostun utilizando o modelo PM4Sand já calibrado, obteve-se os valores expressos na Tabela 5.5. Tabela 5.5 - Propriedades da areia Hostun com o modelo PM4Sand Parâmetro Símbolo Valor Unidade Tipo de drenagem - Não Drenado (A) - Peso volúmico não saturado nsat 14,28 kN/m3 Peso volúmico saturado sat 18,7 kN/m3 Índice de vazios inicial 𝑒0 0,82 - Coeficiente de Poisson 0,32 - Densidade relativa inicial 𝐷𝑟0 0,4 - Módulo de distorção inicial 𝐺0 594 - Taxa de contração ℎ𝑝0 0,2 - Pressão atmosférica 𝑝𝐴 101,3 kPa Índice de vazios máximo 𝑒𝑚𝑎𝑥 0,963 - Índice de vazios mínimo 𝑒𝑚𝑖𝑛 0,609 - Parâmetro da superfície limite 𝑛𝑏 0,5 - Parâmetro da superfície de dilatância 𝑛𝑑 0,1 - Ângulo de atrito para volume constante 𝜑´𝑐𝑣 31,5 ° 𝑄 7 - 𝑅 0,47 - PostShake - 0 - Permeabilidade kx / ky 1x10-3 m/s Parâmetros do Estado Crítico Na Fig. 5.5 é possível observar um gráfico que retrata a evolução da razão de excesso de pressão neutra (ru) ao longo do tempo para o mesmo ponto (P3) e condições analisadas no modelo NorSand. (Versão para discussão) 71 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 1 0,8 ru () 0,6 0,4 0,2 a=1 m/s^2 0 0 20 40 60 t (s) Fig. 5.5 – Variação de ru ao longo do tempo para a=1 m/s2 no modelo PM4Sand Da análise do gráfico anterior retira-se que o ponto P3, utilizando o modelo constitutivo PM4Sand, atinge a liquefação em cerca de 2 ciclos. De modo a facilitar a comparação da evolução de r u ao longo do tempo de cálculo dinâmico, para o ponto P3 nos dois modelos, formulou-se o gráfico da Fig. 5.6. 1 0,8 PM4Sand a=1 m/s^2 NorSand a=1m/s^2 0,6 ru () NorSand a=1,5 m/s^2 0,4 0,2 0 0 20 t (s) 40 60 Fig. 5.6 – Comparação da evolução de ru ao longo do tempo para ambos os modelos constitutivos Observa-se que para a mesma amplitude de sinal input, o ponto P3 não atinge liquefação aquando da caracterização das propriedades mecânicas da areia utilizando o modelo NorSand. Adicionalmente, aumentando a aceleração aplicada na base, P3 continua a não atingir a liquefação aplicando o modelo NorSand, sendo que, para o modelo PM4Sand, este mesmo ponto atinge valores de ru que permitem concluir que o ponto médio é afetado por este fenómeno. Através da análise do gráfico anterior, conclui-se que o modelo constitutivo que melhor simula o comportamento da areia de Hostun relativamente à resposta consequente de uma solicitação dinâmica e conseguinte liquefação, é o modelo PM4Sand. (Versão para discussão) 72 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso O facto de o programa comercial PLAXIS não gerar de um modo direto um gráfico da evolução do parâmetro ru:ao longo do tempo para o modelo NorSand, é por si só um indicador de que este modelo constitutivo não está pronto para formular uma resposta correspondente com a realidade. A este fator, alia-se o facto de um tempo de cálculo do modelo NorSand, para as mesmas condições, ser bastante inferior quando comparado com o tempo de cálculo do modelo PM4Sand. Para uma aceleração de 1 m/s2 o modelo PM4Sand finaliza o cálculo após 5,5 horas, enquanto que o modelo NorSand executa a computação em 0,75 horas, cerca de 7 vezes mais rápido. 5.2 ANÁLISE DE RESULTADOS DO MODELO 1 No presente subcapítulo irão ser abordados os resultados das análises realizadas, bem como os resultados provenientes do estudo comparativo entre os vários perfis. No Perfil 1 desenvolveu-se um estudo paramétrico de modo a aferir a importância do refinamento da malha nos resultados, a influência da variação da frequência da solicitação e a variação da aceleração da onda sísmica, e as consequentes repercussões nas soluções obtidas. 5.2.1 PERFIL 1 No primeiro perfil do Modelo 1, procedeu-se, inicialmente, à avaliação da resposta sísmica local do estrato em análise. Para isto realizou-se um perfil de acelerações, presente na Fig. 5.7 que retrata a evolução do sinal que se propaga da rocha até à superfície, ao longo do tempo de solicitação de 60 s. Nesta análise foram utilizados os pontos P1, P2, P3, P4, P5 e P6 como referência. (Versão para discussão) 73 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 5.7 – Perfil de acelerações para o Modelo 1 perfil 1 A Fig. 5.7 permite avaliar diretamente o comportamento dinâmico, e a amplificação/atenuação local, obtida para diversos níveis. Nos pontos P6 e P5 não há praticamente alteração do sinal gerado na base da camada rochosa, como seria de esperar, dado que a camada foi caracterizada como um elemento que mantém o regime elástico devido ao elevado módulo de elasticidade. No que toca à camada arenosa, e analisando o ponto P4, observa-se que a resposta obtida difere da verificada anteriormente para os pontos P5 e P6. Neste caso, o ponto recebe o sinal da solicitação aplicada na base até ao terceiro ciclo, sofrendo uma redução na amplitude nos ciclos restantes. O sinal sofre uma redução de cerca de 75% da amplitude inicial, registando uma aceleração de cerca de 0,25 m/s2 nos ciclos seguintes. Ao analisar complementarmente a Fig. 5.8, onde se apresentam as variações dos excessos de pressão neutra gerados ao longo do mapa de tensões verticais efetivas, denota-se uma correspondência entre a ocorrência da diminuição do sinal e o espoletar da liquefação, visto que ambos ocorrem entre o segundo e o terceiro ciclo. O ponto médio da camada de areia apresenta uma resposta bastante semelhante à estudada no ponto à cota -14,5 m, dado que tanto a atenuação do sinal, como o início da liquefação, ocorrem por volta do mesmo ciclo. (Versão para discussão) 74 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Deste estudo é possível retirar a influência da liquefação na propagação da onda sísmica. Após liquefazer, o solo assume um comportamento mais viscoso e altamente amortecedor das ondas sísmicas que percorrem o perfil, explicando o fator de redução na amplitude do sinal conseguinte. Esta evidência foi também demonstrada no trabalho de Saade Li et al. (2023). Para além disto, interessa ainda perceber a razão pela qual a distorção do sinal registado em P4 é menor do que a registada em P3. Este resultado pode ser explicado pela maior proximidade do primeiro ponto em relação ao hipocentro da atividade sísmica, em comparação com o ponto médio da camada arenosa. Os pontos de referências mais próximos da superfície, P2 e P1, assumem picos de aceleração superiores ao sinal base aplicado, chegando a atingir acelerações de cerca de 1,4 m/s2, o que corresponde a um fator de amplificação de 1,4. A amplificação do sinal nestes dois pontos é justificada pela reflexão das ondas sísmicas transmitidas nas zonas de descontinuidade, bem como a eventual ressonância destas mesmas ondas que se propagam na vertical (Costa, 2011). Apesar do valor de pico atingido no ponto P2, percebese pelo exame complementar da Fig. 5.8, que a liquefação não ocorre ao longo de todo o perfil. Comparativamente, o sinal apontado por ambos os pontos, não sofre alterações, o que sugere que a camada de argila não assume um comportamento amortecedor do sinal. A perceção da amplitude do sinal em P1, principalmente, é de extrema importância para os estruturalistas, em termos da interação solo-estrutura. É imperativo conhecer as acelerações na superfície do terreno, de modo a que possam ser acauteladas medidas de mitigação e introduzidos fatores de caráter importantíssimo no cálculo das fundações e da própria estrutura. Fig. 5.8 – Perfil de ru para o Modelo 1 perfil 1 (Versão para discussão) 75 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Através dos gráficos que expressam as curvas de razão de excesso de pressão neutra ao longo do tempo dinâmico, torna-se mais simples perceber a resposta da camada de areia em relação à liquefação. Analisando a evolução de ru ao longo do tempo dinâmico conclui-se que a liquefação do terreno ocorre praticamente toda no mesmo intervalo de tempo, entre o segundo e terceiro ciclos. Mais uma vez, verifica-se que a onda sinusoidal com aceleração de 1m/s2 não é suficiente para desencadear liquefação em toda a camada de areia. Para além disto, ao longo de todo perfil observam-se algumas descontinuidades na liquefação, que podem ser atribuídas tanto à definição da malha como ao efeito combinado da aceleração base e da liquefação ou ainda a alguma falha numérica na malha. 5.2.1.1 Influência da variação da aceleração aplicada na base do modelo No contexto do estudo desenvolvido relativamente ao Modelo 1 perfil 1, desenvolveu-se uma análise paramétrica, fazendo variar a excitação aplicada na base. Neste caso, optou-se primeiramente por aumentar e posteriormente diminuir a amplitude da aceleração imposta em 50%, totalizando uma a input de 1,5 m/s2 e 0,5 m/s2, respetivamente. Começando por analisar os efeitos do aumento da excitação e realizando uma comparação no espectro da propagação das ondas sísmicas, presente na Fig. 5.9, identificam-se algumas disparidades na avaliação dos sinais medidos nos pontos de referência. Esta discrepância tem em conta a variação do sinal aplicado na base e a respetiva resposta do solo. Fig. 5.9 –Comparação dos perfis de acelerações para o Modelo 1 perfil 1 para diferentes acelerações (Versão para discussão) 76 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso É percetível que nos pontos a maior profundidade, continua a não haver uma distorção no sinal registado. O exame dos resultados obtidos na camada de areia, revelam um teor bastante mais interessante para discussão e obtenção de conclusões. Analisando os pontos P3 e P4, destacam-se os picos de aceleração obtidos, quando comparando o gráfico de acelerações registado nestes mesmos pontos, para uma solicitação de amplitude igual a 1 m/s 2. O ponto P3 assume uma aceleração máxima, em módulo, de 3,47 m/s2 por volta do segundo ciclo, sendo que este valor vem amplificado da |a|max= 3,13 m/s2, registada anteriormente no ponto P4 para o mesmo espetro temporal. À cota -14,5 m, e após se atingir o pico anteriormente referido, observa-se o registo de um novo máximo, novamente negativo. O comportamento relativo aos dois pontos mais próximos da superfície, também apresenta disparidades, sendo que para uma ainput= 1m/s2, se obtém uma amplificação maior do que para uma excitação mais intensa na base. Neste caso o fator de amplificação registado em P1 e P2 ronda 1,2. Na Fig. 5.10 tem-se a comparação dos perfis de ru para as diferentes acelerações aplicadas na base do perfil 1 do Modelo 1. Fig. 5.10 –Comparação dos perfis de ru para o Modelo 1 perfil 1 para diferentes acelerações (Versão para discussão) 77 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso De uma análise geral entre os dois perfis de ru da Fig. 5.10, retira-se que a resposta apresentada é bastante semelhante. Visto se tratar de uma comparação pontual e dado que para uma ainput=1 m/s2 os pontos de referência liquefazem rapidamente, não seriam expectáveis grandes disparidades. O contraste mais significativo é destacado na Fig. 5.12 que apresenta, através de um mapa de cores, a evolução de ru ao longo dos perfis. Passando para uma comparação protagonizada pelos 3 modelos simulados para diferentes acelerações, desenvolveu-se a Fig. 5.11, que representa a evolução do fator de amplificação em profundidade. É importante referir que os gráficos apresentados relativos à evolução do fator de amplificação e razão de excesso de pressão neutra em profundidade são gráficos normalizados, não tendo sido contabilizados outliers, inerentes a uma modelação utilizando uma malha de elementos finitos, considerados não representativos do real comportamento do solo. Note-se ainda, que a amplificação máxima registada foi considerada em módulo e pode não ocorrer ao mesmo tempo em todos os pontos do perfil. Fig. 5.11 – Evolução em profundidade do Fator de amplificação máximo para diferentes ainput Da análise da figura acima representada é possível retirar conclusões respetivamente ao modo de propagação da onda sísmica e a influência da aceleração neste contexto. Na camada rochosa, os fatores de amplificação registados são todos próximos de 1, como seria expectável. Nas cotas mais profundas da camada de areia observa-se que para ainput= 0,5m/s2 surge uma quebra no fator de amplificação, que corresponde com a zona da camada de areia não liquefeita, visível na Fig. 5.12. Após isto, o fator de amplificação aumenta mantendo-se constante ao longo do resto da camada. Registam-se maiores valores de amplificação no modelo com ainput= 1,5 m/s2, o que estabelece uma correspondência com o modelo (Versão para discussão) 78 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso cuja camada de areia é mais afetada pela liquefação. Nos pontos mais próximos da superfície concluiuse que para menores acelerações input, maior é o fator de amplificação. Esta resposta advém de uma combinação de fatores entre a liquefação e propagação das ondas, ou seja, quanto maior a espessura da camada de areia liquefeita, menor será a amplificação do sinal à superfície. No que toca à evolução do mapa de razão de excesso de pressão neutra, no âmbito do aumento e diminuição das solicitações aplicadas na base, tem-se a Fig. 5.12 que ilustra a distribuição dos excessos de pressão neutra ao longo do campo de tensões verticais efetivas. Fig. 5.12 – Mapas de ru para diferentes acelerações Quanto maior a intensidade da excitação, maior a espessura da camada de areia afetada. No caso do perfil sujeito a uma solicitação sinusoidal de 0,5 m/s2, observa-se que a parte inferior da camada de areia não sofre liquefação. Este resultado é diretamente influenciado tanto pela menor intensidade da excitação, como pelo maior valor de tensões verticais aplicadas nestas cotas. Como complemento, e respetivo ao cálculo numérico, comparando os modelos com acelerações iguais a 1 e 1,5 m/s2, concluise que o aumento da intensidade da ação leva a uma menor dispersão e desajuste dos resultados. 5.2.1.2 Influência da variação da frequência da excitação aplicada na base do modelo Neste estudo paramétrico variou-se a frequência da excitação induzida na base da camada rochosa, diminuindo este parâmetro para metade, ou seja, a onda sinusoidal aplicada na base mantém uma amplitude de 1 m/s2, no entanto, possui agora uma frequência de 0,5 Hz, o que leva a que um ciclo seja completado no dobro do tempo (período da onda de 2 segundos) e, sendo uma ação dinâmica com o mesmo intervalo de excitação, o número de ciclos reduza também para metade, sendo efetuados 30 ciclos. (Versão para discussão) 79 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Esta modificação no valor da frequência teve como consequência uma grande variação nos resultados obtidos. Observando a Fig. 5.13 percebe-se o impacto desta variação na evolução do fator de amplificação ao longo do perfil. Fig. 5.13 – Evolução em profundidade do Fator de amplificação máximo para diferentes frequências A redução da frequência da onda sinusoidal aplicada na base do estrato não possui grande influência na propagação da onda sísmica ao longo da camada rochosa. Em contraste, nas camadas de areia e argila as acelerações medidas registam grandes amplificações de sinal. No contexto da liquefação, é percetível o impacto anteriormente analisado na amplificação do sinal, visto que é registada uma grande variação nos resultados obtidos nos mapas de ru. Comparando o mapa da Fig. 5.8 com o da Fig. 5.14 a), denota-se que com a diminuição da frequência, a espessura da camada de areia liquefeita aumenta exponencialmente, o que leva a concluir que para menores frequências o solo admite um comportamento menos resistente. Estes resultados indicam que muito provavelmente, a frequência fundamental do terreno será mais baixa do que 1 Hz, no entanto, esse estudo excede o âmbito desta dissertação. Na Fig. 5.14 b) é apresentado um gráfico que retrata a comparação dos valores de r u atingidos ao longo do perfil. (Versão para discussão) 80 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 5.14 – a) Mapa de ru do Modelo 1 perfil 1 com ainput= 1m/s2 e f=0,5 Hz; b) Evolução de ru em profundidade para ondas sinusoidais de diferentes frequências Esta resposta foi também documentada por Lee e Fitton (1969), Feng e Zhang (2013), Zhang et al. (2015) e Guo e He (2009), que realizaram uma série de ensaios triaxiais cíclicos nos quais fizeram variar a intensidade da frequência e concluíram que para menores frequências, o solo apresentava uma resposta menos resistente, (Nong et al., 2020). Este estudo poderia ser complementado com análises para uma maior gama de frequências, bem como para sismos reais, no entanto, tais análises excedem o âmbito da presente dissertação. 5.2.1.3 Influência do refinamento da malha utilizada Em programas numéricos que utilizam o método dos elementos finitos para proceder à análise do desempenho do modelo, a malha de elementos finitos possui um papel fulcral na avaliação dos resultados. No caso de análises dinâmicas, a definição do número de nós e pontos de Gauss, e consequente densidade da malha, possui relativa importância, (Subasi et al., 2021). Neste estudo paramétrico compararam-se os resultados deste perfil, modelado com uma malha esparsa, média, analisada anteriormente, e refinada. Deste modo, e tendo em conta a Fig. 5.15, percebe-se que a densidade da malha tem influência na distribuição dos excessos de pressão neutra ao longo da camada de areia. (Versão para discussão) 81 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 5.15 – Comparação dos perfis de ru para o Modelo 1 perfil 1, simulado com diferentes densidades de malha No perfil simulado com recurso a uma malha esparsa, percebe-se que a baixa densidade da malha confere uma maior dispersão dos valores de excesso de pressão neutra, o que resulta numa pior e menos detalhada definição do perfil de ru. Em relação à malha mais densa, denota-se um maior pormenor na distribuição dos excessos de pressão neutra e uma menor dispersão de valores. Analisando a amplificação do sinal ao longo do estrato, tem-se a Fig. 5.16 que ilustra a comparação do aumento do sinal para as diferentes malhas. Fig. 5.16 – Evolução em profundidade do Fa máximo no Modelo 1 perfil 1, para diferentes malhas (Versão para discussão) 82 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso A variação da densidade da malha apresenta certas disparidades, relativamente ao fator de amplificação, nas cotas mais afetadas pela liquefação. No restante perfil, os valores de aceleração mantêm-se os mesmos. Através destes resultados comprova-se a influência da densidade da malha nos resultados obtidos, concluindo que uma malha mais refinada garante valores mais aproximados e com maior relevância; no entanto, há que estabelecer uma relação entre os resultados e o tempo de cálculo do modelo. Na Tabela 5.6 estão sintetizados os tempos de cálculo utilizados para cada malha. Tabela 5.6 – Tempo de cálculo para o modelo com diferentes malhas Tempo de cálculo (h) Malha Esparsa Malha Média Malha Refinada 0,2 5,5 +100 Existe um aumento exponencial no tempo de cálculo dos modelos, estando esta variação também dependente do computador utilizado para a simulação. A análise do fator tempo de cálculo deve ser feita qualitativamente e não quantitativamente, visto que os valores podem variar dependendo da potência de cálculo. 5.2.2 PERFIS 2 E 4 Os perfis 2 e 4 foram modelados de modo a simular a condição seca e a perceber a influência do nível freático e da liquefação na propagação das ondas sísmicas. A diferença nos dois perfis reside na presença ou não da camada de argila na parte superior do estrato. Em condição seca, o perfil de acelerações toma resultados bastante díspares dos observados na Fig. 5.7. A Fig. 5.17 ilustra a comparação entre os perfis de acelerações do perfil 1 com o perfil 2. (Versão para discussão) 83 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 5.17 –Comparação dos perfis de acelerações para o Modelo 1 perfis 1 e 2 A relevância da cota do nível freático bem como do início da liquefação, encontram-se bastante explícitos na figura acima representada. Nos pontos P5 e P6 esta preponderância não é tão identificativa, apesar de no ponto P5 haver uma maior distorção do sinal registado. Nos restantes pontos de referência, as diferenças são bastante claras. Primeiramente, aparenta existir um aumento constante do fator de amplificação, à medida que a onda se propaga desde a base até à superfície. O facto de não haver liquefação e consequente amolecimento do solo, é um dos fatores que explica esta ocorrência. Outro fator que afeta a resposta obtida, é o facto de o perfil 2 possuir uma maior tensão efetiva, logo assume uma resposta mais rígida. Para além disto, no perfil 2 não se observa a redução na amplitude do sinal recebido em cada ponto, mantendo-se constante ao longo do intervalo dinâmico. Mais uma vez, o facto de não ocorrer liquefação explica estes resultados. Nesta comparação, o valor de |a|max para o ponto à superfície do perfil 1 toma o valor de 1,38 m/s2, enquanto que para o mesmo ponto P1 do perfil 2, o valor da aceleração máxima registada é de 1,68 m/s2. (Versão para discussão) 84 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Comparando os resultados dos 3 perfis (1,2 e 4), num contexto de desenvolvimento do fator de amplificação em profundidade, verifica-se na Fig. 5.18 que a evolução da amplificação se mantém constante e que, não existe uma diferença relevante entre os perfis 2 e 4, o que permite concluir que a camada de argila não interfere na propagação da onda sísmica. 1 Fa() 2 -3 Z (m) -8 -13 -18 Perfil 1 Perfil 2 Perfil 4 -23 Fig. 5.18 – Desenvolvimento em profundidade do fator de amplificação máximo para os 3 perfis Na superfície de contacto entre a rocha e camada de areia Hostun, os perfis 2 e 4 apresentam uma amplificação não registada nos outros perfis. Na teoria seria de esperar uma trajetória semelhante à obtida no perfil 1. Este resultado pode ser explicado por um maior estado de tensão efetivo no perfil seco, o que conduz a um comportamento mais rígido, no entanto, seriam necessários estudos mais detalhados para perceber se se trata de um fenómeno de natureza espúria, ou se possui um fundamento físico. A amplificação do sinal revela-se superior nos perfis 2 e 4 ao longo de todo o estrato, no entanto, no ponto P4 à cota -14,5 m, esta tendência troca, sendo a amplificação superior no perfil 1. Este resultado pode ter em conta a influência da liquefação, que não ocorre nos outros dois perfis. 5.2.3 PERFIL 3 A modelação do Perfil 3 tinha como objetivo perceber a influência da camada de argila no desenvolver da liquefação, visto que esta camada deveria ter um efeito de crosta, não permitindo o alívio dos excessos (Versão para discussão) 85 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso de pressão neutra. Seria de esperar que esta diferença entre perfis gerasse um mapa de ru com uma espessura de camada de areia afetada pela liquefação, superior no perfil 1 e inferior no perfil 3, e que isto afetasse de algum modo a propagação das ondas sísmicas principalmente nas cotas superiores do estrato. Na Fig. 5.19 está representada uma comparação do mapa da razão de excessos de pressão neutra de ambos os perfis. Fig. 5.19 – Comparação dos mapas de ru dos peris 1 e 3 do Modelo 1 Da comparação dos mapas retira-se que a camada de argila não gera o efeito crosta desejado. A dispersão dos valores de ru mantém-se a mesma, no entanto, no local onde no perfil 3 estaria a camada de areia, geram-se excessos de pressão neutra. Esta variação do perfil teve o propósito de estabelecer uma ligação com uma modelação física realizada numa centrifugadora, e perceber a influência da camada de argila nos resultados. O facto de a camada argilosa não originar este comportamento, pode estar relacionado com diversos fatores, como a geometria da estratificação e espessura da camada de areia, e a baixa espessura da camada de argila e a sua profundidade. A propagação do sinal sísmico encontra-se representada na Fig. 5.20. (Versão para discussão) 86 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fa() 1 2 -3 Z (m) -8 -13 -18 Perfil 1 Perfil 3 -23 Fig. 5.20 – Comparação da evolução em profundidade de Fa máximo para os perfis 1 e 3 do Modelo 1 Da análise do gráfico anteriormente apresentado denota-se uma ligeira amplificação superior no perfil 1, o que poderia indicar que o efeito de crosta da camada de argila estaria a funcionar ainda que de forma muito suave, no entanto, seriam necessários estudos mais detalhados para perceber se se trata de um fenómeno de natureza espúria, ou se possui um fundamento físico. Deste modo, conclui-se novamente que a camada de argila não apresenta uma influência expressiva no comportamento geral do solo. Este resultado pode demonstrar-se favorável, visto que, no modelo físico construído na Universidade de Cambridge, não foi introduzida uma camada superficial de argila. 5.3 ANÁLISE DE RESULTADOS DO MODELO 2 Na presente secção, e à semelhança do estudo realizado no ponto 5.2, irá ser realizada uma comparação entre os diversos perfis relativos ao Modelo 2. Em complemento, realizar-se-á um estudo paramétrico relativo à variação das acelerações de input e traçada uma curva CSR:NL de modo a estabelecer uma comparação com os ensaios laboratoriais realizados. (Versão para discussão) 87 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 5.3.1 PERFIL 1 Apesar da clara diferença no que toca às espessuras das camadas dos dois modelos, a resposta do solo no perfil 1 dos dois modelos é bastante semelhante, o que seria expectável, e por isso, a análise dos resultados não irá ser tão exaustiva. O perfil de acelerações representado na Fig. 5.24 apresenta uma distribuição semelhante ao perfil da Fig. 5.7 relativo ao Modelo 1. Fig. 5.21 – Perfil de acelerações para o Modelo 2 perfil 1 Tal como visto anteriormente, os pontos mais próximos do foco sísmico não apresentam grandes variações relativamente ao sinal inicial. Como é percetível na Fig. 5.22, o ponto P2 não chega a atingir valores de ru próximos de 1, o que leva a concluir que não ocorre liquefação na parte superior da camada de areia. Sendo a espessura da camada de areia menor, verifica-se que em comparação com o primeiro Modelo, as |a|max atingidas nos pontos P1 e P2 do Modelo 2 são superiores e atingem valores na ordem dos 1,6 m/s2. É de notar duas particularidades inerentes ao ponto P3, relativamente ao primeiro modelo. Nos resultados apresentados acima, e apesar de haver a correspondência já estudada entre a aceleração máxima e o desencadeamento da liquefação em termos temporais e de ciclos, a atenuação do sinal não se revela tão acentuada e, em adição, é atingido um pico de amax=1,7 m/s2, superior ao sinal base. Estes fenómenos são justificados pela proximidade do ponto P3 à superfície de contacto das camadas de areia (Versão para discussão) 88 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso e rocha e, consequentemente, ao sinal induzido na base desta última camada. O mesmo se concluiu anteriormente na comparação da amplitude do sinal relativamente aos pontos P4 e P3 do Modelo 1. Na Fig. 5.22 estão ilustrados os resultados relativos à análise da razão de excessos de pressão neutra no Modelo 2, para os vários pontos em estudo. Fig. 5.22 – Perfil de ru (60 s) para o Modelo 2 perfil 1 Neste modelo é praticamente impercetível a diferença entre o início de liquefação no ponto à cota -10 m e no ponto refente à interface entre as duas camadas mais profundas. Esta diferença relativamente ao outro modelo reside no facto dos pontos P3 e P7 do Modelo 2, se encontrarem muito mais próximos do que os pontos P3 e P5 do Modelo 1. Num paralelismo com o Modelo 1, apresenta-se de seguida, na Fig. 5.23, dois gráficos que expressam a propagação do sinal sísmico ao longo de ambos os estratos. Apesar dos dois modelos possuírem geometrias distintas, a comparação do fator de amplificação, principalmente nos pontos mais próximos da superfície, possui relativa importância. (Versão para discussão) 89 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Fig. 5.23 – Comparação do Fator de amplificação ao longo da estratificação para o perfil 1 dos diferentes Modelos Do paralelismo verificado conclui-se que, apesar dos dois gráficos apresentarem respostas e tendências semelhantes, tendo em conta a discrepância de geometrias, ocorre maior amplificação no Modelo 2 do que no Modelo 1. 5.3.1.1 Representação da curva CSR:NL e comparação com ensaios laboratoriais Como referido anteriormente, a modelação do Modelo 2 foi concretizada de modo a ser possível um melhor controlo da aceleração máxima aplicada no ponto à cota -10 m (P3). Nas análises relativas ao Modelo 2 perfil 1, a amplitude do sinal induzido na base da camada rochosa foi de 1 m/s 2. Tomando este sinal, e da interpretação das Fig. 5.21 e Fig. 5.22, percebe-se que o desencadear da liquefação no ponto P3 ocorre por volta do terceiro ciclo. Para além deste estudo, foram efetuadas outras simulações com diferentes ondas sinusoidais, fazendo variar a sua amplitude. Estes novos cálculos foram realizados para acelerações de 0,75, 0,5, 0,4 e 0,3 m/s2. A Fig. 5.24 apresenta os resultados da variação de ru ao longo do tempo dinâmico de 60 s, para as diferentes amplitudes de sinal aplicadas. (Versão para discussão) 90 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 1 ru () 0,8 0,6 a=1 m/s^2 a=0,75 m/s^2 a=0,5 m/s^2 a=0,4 m/s^2 a=0,3 m/s^2 0,4 0,2 0 0 10 20 30 40 50 60 t (s) Fig. 5.24 – Valores de ru para o ponto P3 utilizando diferentes sinais de input Na Tabela 5.7 abaixo, encontra-se um resumo dos resultados dos 5 cálculos feitos, o número de ciclos para que ocorresse liquefação no ponto P3 (Nl), a aceleração máxima registada nos 60 segundos, o fator de amplificação e o valor de CSR correspondente. O valor de CSR foi calculado com recurso aos valores de aceleração máxima, tensão vertical total e efetiva no ponto P3, bem como a sua cota, aplicando as expressões (2.9), (2.11) e (2.12). Tabela 5.7 – Correspondência entre NL e CSR para diferentes acelerações no ponto P3 Acelerações NL amax (m/s2) Fator de amplificação (Fa) CSR a=1 m/s2 3 1,8 1,8 0,19 a=0,75 m/s2 4 1,25 1,67 0,14 a=0,5 m/s2 7 0,93 1,86 0,11 a=0,4 m/s2 15 0,79 1,98 0,09 a=0,3 m/s2 48 0,57 1,9 0,07 Do exame da tabela acima representada e com complemento da Fig. 5.25 , conclui-se que o Fa ronda valores na ordem do dobro da aceleração de input, para todas as acelerações estudadas, no caso do ponto à cota -10 m. Comparativamente com o mesmo ponto do Modelo 1 perfil 1, retira-se que existe uma maior dispersão no fator de amplificação neste modelo do que na simulação com um estrato menos profundo. O facto do ponto P3 no Modelo 2 se encontrar mais próximo da base, está diretamente relacionado com a menor dispersão nos valores de Fa. (Versão para discussão) 91 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 3 Ponto P3 Fa () 2 1 Modelo 1 Modelo 2 0 0 0,5 ainput (m/s2) 1 1,5 Fig. 5.25 – Variação de Fa para diferentes ainput no ponto P3 dos Modelos 1 e 2 Analisando mais concretamente as acelerações estudadas nos dois modelos, para uma a input= 0,5 m/s2 tem-se um fator de amplificação bastante próximo nos Modelos 1 e 2, já para uma a input= 1 m/s2 não se retira o mesmo resultado. Neste caso, o modelo com maior geometria apresenta uma amplificação bastante menor do que o modelo mais curto. Utilizando os dados retirados da Tabela 5.7 foi possível desenvolver o gráfico da Fig. 5.26 e comparar a curva CSR:NL produzida pelo PLAXIS com as curvas obtidas através dos ensaios laboratoriais. 0,25 CTx CDSS 0,2 CSR PLAXIS 0,15 0,1 0,05 0 0 10 20 30 NL 40 50 60 Fig. 5.26 – Curvas CSR para os ensaios CDSS, CTx e Modelo 2 perfil 1 A execução desta curva reside numa tentativa de validar o modelo em termos de comportamento e resposta à liquefação. Para ações de maior intensidade e consequente menor número de ciclos, destacase uma correspondência entre a curva obtida no programa computacional e a desenhada pelos ensaios triaxiais cíclicos. Como seria expectável, não existe uma sobreposição exata das 3 curvas, no entanto, o (Versão para discussão) 92 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso facto de haver um certo paralelismo no desenho das linhas de tendência, confere a segurança de uma boa aproximação. Esta discrepância nas curvas obtidas nos ensaios relativamente à obtida no programa computacional, pode ser explicada pelas diferentes condições, às quais a areia de Hostun se encontra submetida, bem como pela discrepância na solicitação aplicada. No caso do modelo computacional, existe uma clara influência das camadas rochosa e argilosa, que afeta diretamente os resultados obtidos. 5.3.2 PERFIS 2 E 4 Nos perfis 2 e 4 do Modelo 2 a tendência estudada no Modelo 1 manteve-se a mesma. Na Fig. 5.27 consta o gráfico da evolução do Fator de amplificação em profundidade, para os perfis 1,2 e 4. 1 Fa() 2 -1 Z (m) -4 -7 -10 Perfil 1 Perfil 2 Perfil 4 -13 Fig. 5.27 – Evolução em profundidade do fator de amplificação máximo para diferentes perfis do Modelo 2 Relativamente aos perfis 2 e 4 percebe-se que, mantendo as propriedades e fazendo apenas variar a geometria da estratificação, os resultados referentes à propagação de ondas são bastante semelhantes, quando comparados com os mesmos perfis do Modelo 1, sendo que a diferença reside na maior amplificação atingida nos perfis com maior comprimento. Em comparação com o perfil 1 do mesmo modelo, regista-se uma diminuição na amplificação ao longo de todo o perfil. Este comportamento distingue-se do analisado anteriormente para os 3 perfis do Modelo 1. Uma possível razão para esta ocorrência pode ser a variação na geometria dos modelos. O facto de o Modelo 2 ser menos profundo leva a que a camada de areia afetada pela liquefação não aplique um efeito amortecedor tão expressivo, como o experienciado no Modelo 1. (Versão para discussão) 93 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 5.3.3 PERFIL 3 Sendo que no Modelo 1 não foi possível perceber com clareza a influência da camada de argila nos resultados obtidos, simulou-se esse mesmo perfil agora para o Modelo 2. Através do exame do mapa de ru representado na Fig. 5.28 é agora possível identificar uma diferença na distribuição dos excessos de pressão neutra, principalmente na vizinhança da cota -5 m, que representa a superfície limite de ru≈1. Fig. 5.28 – Mapa de ru dos diferentes perfis do Modelo 2 Em comparação com a análise realizada para o Modelo 1, o efeito da camada de argila é mais percetível neste Modelo 2. No perfil 3 observa-se uma maior dispersão dos excessos de pressão neutra ao longo do perfil, causada pelo desaparecimento da camada de argila. Neste contexto, e analisando os dados retirados do gráfico da Fig. 5.29, constata-se que a tendência para um maior valor de fator de amplificação no perfil 1, observada no Modelo 1, se mantém. 1 Fa() 1,5 2 -1 Z (m) -4 -7 -10 Perfil 1 Perfil 3 -13 Fig. 5.29 – Evolução em profundidade de Fa máximo para os perfis 1 e 3 do Modelo 2 (Versão para discussão) 94 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Dos resultados obtidos para o perfil 3 é possível constatar que, apesar da modelação da camada de argila ter a intenção de simular um efeito de crosta, impedindo a dissipação dos excessos de pressão neutra, e se terem registado algumas discrepâncias quando comparados tais resultados com os retirados do perfil 1, neste enquadramento, a camada argilosa não é um fator decisivo, tanto na propagação das ondas sísmicas, como na geração de excessos de pressão neutra. 5.4 COMPORTAMENTO PÓS-SOLICITAÇÃO DINÂMICA O estudo realizado nesta dissertação foca-se, como o próprio título indica, no comportamento à liquefação e na resposta sísmica local de um solo arenoso, no entanto, interessa também perceber quais os efeitos gerados no terreno após o término da solicitação sísmica. No fim da ação sísmica os excessos de pressão neutra produzidos são dissipados ao longo do terreno originando um período drenado, no qual ocorre uma reorganização dos grãos de areia e consequentemente da estrutura ou fábrica do solo. Consequência deste novo rearranjo, surgem deformações volumétricas, que se traduzem em assentamentos à superfície e ao longo das camadas, prejudiciais tanto para estruturas fundadas à superfície como para infraestruturas enterradas. No decorrer do assentamento do terreno, existe a possibilidade de haver locais nos quais o assentamento se expressa de forma mais acentuada, dando origem aos conhecidos assentamentos diferenciais. Os assentamentos diferenciais consistem em valores de deslocamento vertical diferentes ao longo de um perfil horizontal. Esta discrepância de deslocamentos, ainda que pequena, pode originar rotura de fundações, fissurações no edifício, entre outras graves consequências. Na modelação apresentada de seguida, utilizaram-se os modelos anteriormente estudados, tendo-se acrescentado uma nova fase de cálculo. Nos modelos secos adicionou-se uma nova fase de análise dinâmica, na qual não está aplicada nenhuma ação cíclica, de modo a perceber se o rearranjo das partículas continua após o fim da solicitação dinâmica. Relativamente aos modelos saturados, optou-se por incorporar um novo tipo de análise denominado de análise dinâmica com consolidação. Este estudo tem em conta um comportamento drenado, dando origem a uma dissipação dos excessos de pressão neutra gerados. Deste modo, houve a necessidade de mudar as propriedades da areia de Hostun, sendo que o tipo de drenagem passou a ser considerado como drenado e o parâmetro de PostShake, anteriormente assumido como 0, passou agora a valer 1 (Subasi et al., 2021). Esta diferenciação no tipo de análise realizada, de modo a perceber a escala de assentamentos obtidos, advém do comportamento distinto das areias saturadas e secas. As areias secas densificam muito rapidamente e por isto, os assentamentos registados são totalizados logo após o fim da solicitação dinâmica. No caso das areias saturadas, os assentamentos não se observam logo após a solicitação dinâmica, sendo necessário haver uma dissipação dos excessos de pressão neutra, requerendo mais tempo para atingirem o valor de assentamento máximo (Kramer, 1996). De notar que este tipo de análise é um desenvolvimento recente ao programa PLAXIS e, por isso, as referências em torno deste tipo de cálculo são bastante reduzidas. Na simulação da análise dinâmica com consolidação irá ser possível perceber a distribuição dos excessos de pressão neutra após o término do sinal aplicado na base. Para além disto, irá ser realizada uma análise dos assentamentos registados na superfície do modelo, e ao longo do perfil, de modo a se perceber a influência de cada camada no resultado final dos assentamentos. (Versão para discussão) 95 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 5.4.1 ASSENTAMENTOS À SUPERFÍCIE De modo a perceber o impacto e a escala dos deslocamentos pós-solicitação dinâmica, elaborou-se um estudo relativo aos assentamentos registados no ponto médio da superfície do perfil. A Fig. 5.30 ilustra a evolução dos deslocamentos verticais no ponto P1 ao longo do tempo de cálculo dinâmico, distinto, dependendo dos perfis em análise. Para os perfis secos foi calculado um “tempo dinâmico” (dynamic time no PLAXIS) de 70 segundos, para os perfis saturados do Modelo 1 um tempo dinâmico de 80 segundos e, por fim, para os perfis saturados do Modelo 2, 90 segundos. Fig. 5.30 – Evolução do deslocamento vertical do ponto P1 ao longo do tempo No gráfico apresentado é possível identificar a priori que a evolução dos assentamentos, nos modelos secos, não ocorre após o término da ação sísmica, o que vai de encontro com as propriedades estabelecidas anteriormente. No entanto, e analisando os modelos saturados, percebe-se que durante a solicitação dinâmica não são gerados deslocamentos verticais, sendo que os assentamentos apenas têm origem na fase de consolidação. Comparando os perfis secos de cada modelo conclui-se que não existe uma grande discrepância entre os valores de assentamentos dos perfis 2 e 4. No Modelo 1 os perfis secos atingem assentamentos na ordem dos 5 cm, enquanto que no Modelo 2 apenas assentam 1 cm. Deste modo, ao confrontar os resultados dos perfis secos dos Modelos 1 e 2, retira-se que o modelo com uma geometria maior, obtém os maiores valores de assentamento e que, para além disto, a ação dinâmica e fator de amplificação de cada modelo têm também influência nestes valores. Relativamente aos modelos saturados, salienta-se a necessidade de um maior tempo de consolidação para que os deslocamentos verticais dos perfis do Modelo 2 comecem a estabilizar. De acordo com o gráfico da Fig. 5.30 anteriormente apresentado, os perfis saturados do Modelo 1 demoram cerca de 15 segundos até estabilizarem os assentamentos, já no caso do Modelo 2 demoram o dobro do tempo, por volta dos 30 segundos. Os resultados analisados e conclusões retiradas relativamente à escala de assentamentos e tempo dinâmico de consolidação foram também demonstrados por Borozan (2017) e Subasi et al. (2021) (Versão para discussão) 96 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Na Tabela 5.8 que se segue, estão expressos os resultados dos assentamentos observados no ponto P1, para cada simulação. Tabela 5.8 – Assentamentos no ponto P1 em todas as simulações Assentamentos (cm) Perfil 1 7,92 Perfil 2 4,73 Perfil 3 7,82 Perfil 4 4,48 Perfil 1 7,08 Perfil 2 1,01 Perfil 3 6,54 Perfil 4 0,96 Modelo 1 Modelo 2 Da análise da Tabela 5.8 e da Fig. 5.30 podem ainda retirar-se outras duas conclusões. A primeira relativa à comparação dos perfis secos e saturados, sendo que os perfis saturados atingem valores de assentamentos bastante superiores aos perfis secos. A segunda refere-se à diferença observada nos valores de assentamentos entre perfis secos e saturados do mesmo modelo. Nos perfis do Modelo 2, a disparidade de assentamentos é bastante superior quando comparada com os assentamentos dos perfis do Modelo 1. Como referido anteriormente, a avaliação da existência de assentamentos diferenciais é uma matéria de elevada importância. Neste contexto, é apresentada a Fig. 5.31 que ilustra um corte horizontal realizado imediatamente abaixo da superfície do terreno, representando o desenvolvimento dos deslocamentos verticais ao longo da superfície. Fig. 5.31 – Assentamentos à superfície (Versão para discussão) 97 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Neste caso, a análise do gráfico da Fig. 5.31 não infere tanto na identificação dos deslocamentos verticais obtidos, já analisados na Fig. 5.30, mas sim na constância desses assentamentos ao longo do perfil. De um modo geral, o gráfico expressa assentamentos constantes ao longo do perfil, o que seria de esperar visto que se trata de uma análise 1D da propagação do sinal sísmico, e que o modelo representa uma coluna de referência e não um perfil real de maior largura. Interessa salientar o comportamento dos perfis saturados do Modelo 2, que se apresenta distinto das restantes simulações. Dado o curto período disponível para a realização da dissertação, não surgiu a oportunidade de se desenvolver um estudo dirigido a esta anomalia, por este motivo, fica em sugestão para desenvolvimentos futuros. Ainda no âmbito do estudo dos deslocamentos verticais, desenvolveram-se os gráficos da Fig. 5.32, de modo a perceber a influência de cada camada no assentamento geral do perfil. Fig. 5.32 – Evolução dos deslocamentos verticais em profundidade Como seria expectável, a camada rochosa mantém a sua geometria não sendo afetada pelos efeitos da consolidação e consequente assentamento. A camada de areia é a principal motivadora dos assentamentos registados, devido ao rearranjo das partículas proveniente da fase de consolidação, sendo que a camada argilosa tende a acompanhar as deformações da sua camada subsequente. Nas simulações saturadas é percetível uma quebra no gráfico apresentado, que se encontra em correspondência com a espessura da camada de areia afetada pela liquefação. (Versão para discussão) 98 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 5.4.2 EVOLUÇÃO DOS EXCESSOS DE PRESSÃO NEUTRA APÓS A SOLICITAÇÃO DINÂMICA Como visto anteriormente, Kramer (1996) afirma que, para que ocorram assentamentos no estrato de areia, é necessário que se inicie uma dissipação dos excessos de pressão neutra, de modo a que o rearranjo das partículas afetadas possa ser realizado. A Fig. 5.33, relativa ao perfil 1 do Modelo 1, mostra precisamente a tendência dissipadora dos excessos de pressão neutra, ainda que pouco tempo depois do fim da solicitação dinâmica. De modo a não tornar a análise demasiado extensiva e monótona, apenas se apresentam os resultados do Modelo 1 perfil 1, no entanto, é importante ter em conta que o comportamento se mantém para as restantes simulações. Fig. 5.33 – Dissipação dos excessos de pressão neutra gerados Através de uma análise comparativa entre a figura acima e a Fig. 5.8 é possível identificar o início do processo de consolidação e a consequente diminuição de ru ao longo do perfil. Nos pontos mais próximos da superfície, a variação da pressão neutra atinge valores muito próximos de zero, aproximando-se da condição inicial, antes da solicitação dinâmica. Dado o curto prazo de tempo disponível para realizar a dissertação, aliado ao elevado tempo de cálculo desta nova análise dinâmica com consolidação, não foi possível determinar quanto tempo levaria ao terreno para atingir valores de pressão neutra semelhantes às condições iniciais. (Versão para discussão) 99 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (Versão para discussão) 100 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso 6 6 CONCLUSÕES E DESENVOLVIMENTOS FUTUROS 6.1 CONSIDERAÇÕES FINAIS A simulação de um estrato sujeito a uma ação dinâmica e a consequente avaliação do seu comportamento à liquefação e respetiva resposta sísmica local, é um tema em desenvolvimento no contexto da modelação computacional geotécnica. Relativamente ao programa PLAXIS existem ainda hoje poucos documentos de guia numa modelação tão complexa. A definição do melhor modelo constitutivo a utilizar de modo a se obter um comportamento mais aproximado da realidade, aliado à calibração desse mesmo modelo, são fatores de grande importância, no entanto muitas vezes descartados nos documentos de referência. Como visto ao longo do Capítulo 4, de modo a proceder à validação dos modelos escolhidos, surgiu a tentativa de calibrar os parâmetros constitutivos associados. A ferramenta oferecida pelo programa para proceder a essa calibração (Soiltest) carece de algum desenvolvimento, dado que, apesar de disponibilizar uma panóplia de ensaios nas suas opções, não fornece respostas adequadas para todos os modelos constitutivos. Relativamente à modelação da estratificação, interessa salientar a importância na atenção aos detalhes relativos a condições de fronteira e tipos de análise a realizar. Ao longo do estudo e desenvolvimento deste projeto foi possível retirar várias conclusões e estabelecer um procedimento padrão de uma correta modelação. Primeiramente, foi possível demonstrar o funcionamento da ferramenta soiltest utilizando dois modelos constitutivos user defined, e explorar as principais dificuldades do programa na calibração dos mesmos, ocorrência que não se encontra bem documentada. Para além disto, comprovou-se a falha relativa ao modelo NorSand no que toca à modelação de um comportamento dinâmico, e ainda, que o PM4Sand se revela uma boa opção neste tipo de simulações. Explorou-se uma calibração detalhada dos parâmetros variáveis nos dois modelos, sendo que em grande parte dos documentos-guia disponíveis assumem, maioritariamente, parâmetros de referência. No que toca à modelação, foi possível realizar uma análise do comportamento de um estrato modelo sujeito a uma ação dinâmica sinusoidal, de forma adequada e com conclusões de elevado interesse, e que ajudam na perceção da resposta sísmica de um perfil do solo quando sujeito à liquefação. Ao longo deste trabalho foram avaliados, em todas as simulações, dois aspetos importantíssimos para uma correta caracterização da resposta do solo, a propagação das ondas sísmicas ao longo do perfil e a distribuição da razão de excessos de pressão neutra ao longo da camada de areia, de modo a compreender o desempenho da estratificação aquando da liquefação. Através de um conjunto de análises paramétricas foi possível concluir que: (Versão para discussão) 101 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso • • • • • • • A variação da amplitude da aceleração induzida na base influencia diretamente o modo de propagação das ondas volumétricas, bem como o fator de amplificação em cada ponto. Em adição, a distribuição dos excessos de pressão neutra ao longo do estrato e o espoletar da liquefação são também fatores afetados pela variação da aceleração aplicada na base; A diminuição da frequência do sinal input conduz a uma resposta menos resistente do solo; O refinamento da malha possui efeitos bastante visíveis principalmente no mapa de razões de excesso de pressão neutra; A geometria do modelo e posição do nível freático têm um efeito direto na propagação das ondas sísmicas, e nos assentamentos gerados na fase de consolidação; A camada de argila não origina uma grande variação nos resultados; A utilização de um tipo de cálculo dinâmico com consolidação leva a uma resposta credível e próxima do expectável; A camada de areia é a principal motivadora dos assentamentos gerados no perfil. Aliado ao estudo desenvolvido nesta dissertação, seria importante perceber de que formas se pode prevenir a ocorrência destes acontecimentos devastadores. Atualmente existem diversas maneiras de preparar a resposta do sistema solo-estrutura contra os danos causados pela liquefação, passando em alguns casos pelo reforço estrutural, assumindo o desencadear da liquefação, sendo que noutros contextos, a solução mais viável passa por alterar as condições iniciais do solo, de modo a que este se torne mais resistente e consequentemente, deixe de ser suscetível a liquefazer. Os dois grupos de medidas descritos apresentam custos bastantes elevados e, além disso, estão fortemente dependentes de outras condições, como acessos e construções na vizinhança, limitações temporais no que toca ao tempo de construção e ainda as necessidades especiais do solo (Moura, 2015). No que toca ao tratamento do solo, destacam-se algumas medidas de mitigação sendo elas a densificação do solo reduzindo o volume de vazios entre as partículas, aumentando consequentemente, a sua resistência à liquefação, a inserção de colunas de brita, injeção de jet-grouting, vibro-compactação, ou mais recentemente a indução da condição de saturação parcial, entre outros. Relativamente ao reforço das estruturas tem-se como medida comumente utilizada, a aplicação de estacas ou micro-estacas nas fundações da estrutura, atingindo camadas mais profundas e resistentes, de modo a garantir uma maior estabilidade. A introdução destes sistemas de melhoramento do solo e prevenção da liquefação, apesar de acarretarem custos elevados, são altamente recomendados, dado que podem fazer a diferença entre perdas económicas, estruturais e, acima de tudo, humanas. 6.2 DESENVOLVIMENTOS FUTUROS No âmbito desta dissertação, existem ainda vários aspetos de elevada importância que merecem ser estudados e analisados. Devido ao curto tempo disponibilizado para a realização deste trabalho, não houve a possibilidade de realizar mais ensaios laboratoriais de modo a proceder a uma melhor caracterização do solo. No que toca à escolha de modelos constitutivos, seria interessante estudar o comportamento da areia quando caracterizada mecanicamente por outros modelos constitutivos de referência como o UBC3D-PLM desenvolvido por Tsegaye (2010). No que se refere à modelação da estratificação, seria interessante desenvolver uma malha de elementos finitos mais ajustada ao problema, optando pelas fórmulas e metodologia propostas por Kuhlemeyer e Leymer (1973) e Subasi et al. (2021). Além disso, e visto que foram utilizados valores de α e β de (Versão para discussão) 102 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso Rayleigh de referência, seria relevante calcular o amortecimento e frequência fundamental de modo a obter os coeficientes, anteriormente mencionados, com o intuito de introduzir de forma mais precisa o real amortecimento do solo. No contexto das análises paramétricas, existe uma infinidade de iterações e variações de fatores que influenciam a resposta do solo. Deste modo, são apresentadas de seguida algumas sugestões: • • • • • Dar continuidade ao estudo iniciado relativamente aos efeitos pós-liquefação, no que toca a assentamentos desenvolvidos em diferentes condições, à evolução da geração e dissipação de excessos de pressão neutra ao longo do estrato e do tempo e ao estudo dos assentamentos diferenciais registados nos perfis saturados do Modelo 2; Colocar uma membrana de argila a meio da camada arenosa e perceber o efeito produzido relativo à geração de excessos de pressão neutra; Na solicitação aplicada na base, realizar um estudo fazendo variar a frequência da solicitação e perceber se a resposta estudada nesta dissertação se mantém; Perceber a resposta da interação solo-estrutura, modelando um edifício-tipo à superfície; Modelar um estrato previamente analisado numa centrifugadora e comparar os resultados com o modelo físico. (Versão para discussão) 103 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso (Versão para discussão) 104 Modelação do comportamento à liquefação e da resposta sísmica local de um solo arenoso REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Andrus, R. D., & Stokoe II, K. H. (2000). Liquefaction resistance of soils from shear-wave velocity. Journal of geotechnical and geoenvironmental engineering, 126(11), 1015-1025. Azeiteiro, R. J. N. (2021). Numerical simulation of liquefaction-related phenomena 00500:: Universidade de Coimbra]. Araújo, P. N. G. (2022). Modelo constitutivo NorSand aplicado à areia de duna de Natal Universidade Federal do Rio Grande do Norte]. Bastidas, A. M. P. (2016). Ottawa F-65 sand characterization. University of California, Davis. Been, K., & Jefferies, M. G. (1985). A state parameter for sands. Géotechnique, 35(2), 99-112. Bolton, M. (1986). The strength and dilatancy of sands. Géotechnique, 36(1), 65-78. Borozan, J., Costa, P. 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