Copyright © 2008 by Andrew Peterson Publicado originalmente sob o título: The Wingfeather Saga: On the Edge of the Dark Sea of Darkness Copyright da ilustração “Mapa do Oskar” © 2008 by Andrew Peterson Copyright da ilustração “Vaca Dentada” © 2020 by Aedan Peterson Copyright de todas as outras ilustrações do miolo © 2020 by Joe Sutphin This translation published by arrangement with WaterBrook, an imprint of Random House, a division of Penguin Random House LLC Tradução: Mauricio Andrade Revisão: Cesare Turazzi Design da Capa: Brannon McAllister Arte da Capa: Nicholas Kole Adaptação e Diagramação: Wirley Corrêa Versão Ebook: Tiago Dias --------------------------------- PIRATARIA É PECADO E TAMBÉM UM CRIME RESPEITE O DIREITO AUTORAL O uso e a distribuição de livros digitais piratas ou cópias não autorizadas prejudicam o financiamento da produção de novas obras como esta. Respeite o trabalho de ministérios como a Editora Trinitas. --------------------------------- Todos os direitos reservados à: Editora Trinitas LTDA São Paulo, SP www.editoratrinitas.com.br SUMÁRIO Uma Breve Introdução ao Mundo de Kistamos Uma Introdução um Pouco Menos Breve à Terra de Skree Uma Brevíssima Introdução ao Chalé Igiby Um | A Carruagem Vem, A Carruagem Negra Dois | Nuggets, Martelos e Totatas Três | Thwaps em um Saco Quatro | Um Estranho Chamado Esben Cinco | O Livreiro, o Homem-Meia e a Cidade de Glipwood Seis | Um Bardo na Esmeralda de Dunn Sete | Descalço e Mendigo Oito | Duas Pedras Atiradas Nove | A Trilha Glipper Dez | Leeli e a Canção dos Dragões Onze | Um Corvo Para a Carruagem Doze | Nada Parecido com Navios e Tubarões Treze | Uma Canção Para a Ilha Brilhante Quatorze | Segredos e Caldeirada de Queijo Quinze | Dois Sonhos e Um Pesadelo Dezesseis | Na Livraria Livros e Vãos Dezessete | O Diário de Bonifer Squoon Dezoito | Tropeçando num Segredo Dezenove | Angústia, Dor e Horror Vinte | Na Mansão Vinte e Um | Os Canicórneos Vinte e Dois | Nas Covas que Abaixo Daqui Estão Vinte e Três | O Lamurioso Fantasma de Brimney Stupe Vinte e Quatro | A Estrada Para Casa Vinte e Cinco | No Salão do General Khrak Vinte e Seis | Problemas na Livraria Vinte e Sete | Uma Armadilha Para os Igibys Vinte e Oito | Floresta Adentro Vinte e Nove | Murças-das-Cavernas e Verdugos-Espinhentos Trinta | A Prematura Morte de Vop Trinta e Um | O Medalhão de Khrak Trinta e Dois | Preparando um Rocambole de Vermes Trinta e Três | Pontes e Galhos Trinta e Quatro | O Castelo de Peet Trinta e Cinco | Fogo e Fangs Trinta e Seis | Fogo e Fangsombrio é o Corcel com Sombrio Arreio E Sombrio Condutor Conduzindo Tem Trinta e Sete | Garras e Uma Funda Trinta e Oito | Um Plano Desagradável Trinta e Nove | Um Presente de Willie Abutre Quarenta | Traição Quarenta e Um | Um Estrondo e Um Grito Quarenta e Dois | Adeus Iggyfings Quarenta e Três | Um Fantasma ao Vento Quarenta e Quatro | Seguindo Podo Quarenta e Cinco | Uma Longa Noite Quarenta e Seis | A Água do Primeiro Poço Quarenta e Sete | Velhas Feridas Quarenta e Oito | Abrigo Quarenta e Nove | As Joias de Anniera Cinquenta | Os Guardiões do Trono Cinquenta e Um | Uma Carta de Casa Apêndices Sobre o Autor Uma Breve Introdução ao Mundo de Kistamos As antigas histórias contam que quando a primeira pessoa acordou na primeira manhã do mundo onde se passa essa história, ela bocejou, espreguiçou-se e disse à primeira coisa que viu: “Bom, aqui estamos”. O nome do homem era Dwayne, e a primeira coisa que viu foi uma pedra. Perto da pedra, porém, estava uma mulher chamada Gladys, com quem ele aprenderia a se dar muito bem. Nas muitas épocas que se seguiram, aquela primeira frase foi ensinada aos filhos e aos filhos dos seus filhos e aos primos dos pais de seus filhos e assim por diante, até que, quase por acidente, todas as criaturas falantes passaram a se referir ao mundo à sua volta pelo nome “Kistamos”. Em Kistamos havia dois continentes principais divididos por um grande oceano chamado Mar Sombrio da Escuridão. Na Quarta Época, a inóspita terra a leste do mar passou a ser conhecida como Dang e tem pouco a ver com essa história (exceto pelo Grande Mal que passou a existir lá e travou uma Grande Guerra contra quase todo mundo). Esse mal era um mal sem-nome, cujo nome era Gnag, o Sem-Nome. Ele governava do alto das Montanhas Picos-da-Morte, no Castelo Throg, e de todas as coisas que Gnag desprezava em Kistamos, o que ele mais odiava era o Supremo Rei Wingfeather, da Ilha de Anniera. Por alguma razão que ninguém sabia, Gnag e suas desprezíveis hordas marcharam a oeste e dizimaram a Brilhante Ilha de Anniera, onde caíram o bom rei, sua casa e seu nobre povo. Insatisfeito, o Mal Sem-Nome (chamado Gnag) construiu uma frota que conduziu seu monstruoso exército rumo a oeste, através do Mar Sombrio da Escuridão, até o continente de Skree. E ele arrasou aquela vasta terra, nove longos anos antes de nossa aventura começar. Uma Introdução um Pouco Menos Breve à Terra de Skree Toda a terra de Skree era verde e plana; exceto, claro, pelas Montanhas Rochosas, ao norte, que não eram de forma alguma planas. Tampouco verdes. Na verdade, eram bem brancas, por causa da neve — apesar de que se a neve derretesse, alguma coisa verde eventualmente poderia crescer ali. Ah, mas mais ao sul, as planícies de Palen Jabh-J cobriam o restante de Skree com seus ondulados (e decididamente verdes) campos. Exceto, é claro, pela Floresta Glipwood. Ao sul das planícies, os Bosques de Linnard continuavam borda afora de todos os mapas, exceto, pode-se supor, pelos mapas feitos por qualquer um que vivesse naquelas terras distantes. Mas os povos que habitavam nas planícies, nas margens da floresta, no alto das montanhas e ao longo do grande Rio Blapp, viviam em um estado de duradoura e gloriosa paz. Quer dizer, exceto pela mencionada Grande Guerra, que eles perderam de forma lastimável e que acabou com a vida como a conheciam. Nos nove anos após o rei de Skree e todos os seus nobres — de fato, todos os que poderiam reclamar o trono — terem sido executados, o povo de Skree aprendeu a sobreviver sob a ocupação dos Fangs de Dang. Os Fangs se portavam como os humanos e, na verdade, se pareciam exatamente com os humanos, exceto pelas escamas esverdeadas que cobriam seus corpos e o focinho de lagarto e as duas presas compridas e venenosas que se projetavam para baixo, saindo de suas bocas sibilantes. Além disso, eles tinham caudas. Desde que Gnag, o Sem-Nome conquistara as terras livres de Skree, os Fangs ocuparam todas as cidades, cobrando impostos e sendo desagradáveis com os skreenianos livres. Ah, sim, o povo de Skree era bastante livre, contanto que seus habitantes estivessem cada um em sua casa até à meianoite. E contanto que não portassem armas e não reclamassem quando um deles fosse, ocasionalmente, levado através do mar, para nunca mais ser visto. Apesar dos pesares, além dos cruéis Fangs e da constante ameaça de morte e tortura, não havia muito o que temer em Skree. Exceto, outra vez, para aqueles que se aventurassem pelas Montanhas Rochosas, onde os peludos bambolhões se arrastavam pela terra com seus longos dentes e suas barrigas famintas, ou pelos desertos congelados das Pradarias de Gelo, onde os poucos que viviam ali lutavam, diariamente, contra os marbutres. Mais ao sul, as planícies de Palen Jabh-J eram tão seguras quanto bonitas, exceto pelos rateixugos que deslizavam pela grama alta (um fazendeiro de Torrboro do Sul alegou ter visto um tão grande quanto um meep jovem, cujo tamanho é de, aproximadamente, um garlinói adulto, animal cuja altura equivale à estatura de um floelho). Antes de bramir sobre as Cataratas Fingap, o rio Blapp era largo e pacífico, cristalino como uma fonte pura, cujos peixes a serem pescados eram deliciosos e dóceis, exceto pelos muitos peixes que exalavam veneno ao mais simples toque e pelo peixe-adaga, conhecido por ser capaz de pular nos barcos e empalar mesmo o pescador mais robusto. Uma Brevíssima Introdução ao Chalé Igiby Fora da cidade de Glipwood, empoleirado próximo à borda dos penhascos acima do Mar Sombrio, ficava o pequeno chalé onde habitava a família Igiby. O chalé era bastante simples, exceto por seu inestimável conforto e por quão bem fora construído e quão bem era mantido, apesar das três crianças que nele moravam, e exceto pelo amor que dele irradiava como a luz da lareira que cintilava à noite através de suas janelas. E quanto à família Igiby? Bom, exceto pela maneira como sempre ficavam sentados ao lado da lareira, até tarde da noite, contando histórias, e fora quando cantavam no jardim enquanto juntavam a colheita, e quando o avô, Podo Helmer, sentavase na varanda baforando anéis de fumaça, e exceto por todas as coisas boas e calorosas que enchiam seus dias, ali, como sidra em uma caneca numa noite de inverno, eles eram bastante infelizes. Bastante infelizes, de fato, naquela terra onde marchavam os Fangs de Dang. 1 A Carruagem Vem, A Carruagem Negra Deitado em sua cama, com os olhos bem fechados, Janner Igiby tremia ouvindo o som amedrontador da Carruagem Negra chacoalhando ao luar. Seu irmão mais novo, Tink, roncava no beliche de cima, e ele sabia, pela respiração de sua irmãzinha, Leeli, que ela também estava dormindo. Janner ousou abrir os olhos e viu a lua, branca como um crânio, rindo para ele através da janela. E por mais que Janner tentasse não pensar a respeito, a canção infantil que aterrorizara crianças na terra de Skree por vários anos cantarolava em sua cabeça, e ele ficou lá, sob o luar pálido — seus lábios mal se moviam... Contempla, do rio Blapp além A Carruagem Negra, a Carruagem vem Sombrio é o corcel com sombrio arreio E sombrio condutor conduzindo tem Criança, ao Criador peça pra dormir Quando a Carruagem sua rua subir Pra você não sonhar com dentes E Carruagens parando bem em frente Pr’arrancar você do beliche e dossel No profundo da noite e na hora mais escura Através do mar e para a torre cruel Onde Gnag, o Sem-Nome a você esmurra No Castelo Throg, além da imensidão Um mundo de distância de toda afinidade Você chora ao pensar no início da aflição Quando as trevas roubaram sua liberdade Longe, sim, do rio Blapp além A Carruagem Negra, a Carruagem veio A Carruagem chegou pra você também Sombrio é o corcel com sombrio arreio Não é de admirar que Janner tivesse dificuldades para dormir após ter ouvido o baque surdo de cascos e o tilintar de correntes. Em sua imaginação ele conseguia ver as formas dos corvos que circundavam a Carruagem e sobre ela pousavam, ouvir o crocitar dos bicos e o bater de asas negras. Embora repetisse a si mesmo que os sons eram só sua imaginação, ele sabia que, em algum lugar no campo, naquela mesma noite, a Carruagem Negra iria parar em frente à casa de uma pobre alma, e as crianças lá seriam levadas, para nunca mais serem vistas. Não mais que uma semana antes, Janner havia entreouvido sua mãe chorando por causa do sequestro de uma garota de Torrboro. Sara Cobbler tinha a mesma idade de Janner, e ele se lembrava de tê-la encontrado uma vez, enquanto sua família passava por Glipwood. Mas agora ela se fora para sempre. Uma noite ela esteve deitada na cama, exatamente como Janner estava naquele momento. Ela provavelmente deu um beijo de boa noite em seus pais e fez uma oração. E a Carruagem Negra veio atrás dela. Naquele derradeiro instante, estaria ela acordada? Teria ela ouvido o resfolegar dos cavalos negros do lado de fora, ou visto o vapor saindo de suas narinas? Os Fangs de Dang a amarraram? Sara lutou quando a colocaram na carruagem, como se fosse alimento na boca de um monstro? O que quer que tenha feito, foi inútil. Ela havia sido arrancada de sua família e ponto-final. Os pais de Sara fizeram um velório. Ser levado pela Carruagem Negra era como morrer. Podia acontecer com qualquer pessoa, a qualquer momento, e não havia nada a ser feito a respeito, exceto torcer para que a Carruagem continuasse se movendo quando chacoalhasse em sua rua. O chacoalhar, os tinidos e as batidas de cascos ecoavam pela noite. Estaria a Carruagem Negra se aproximando? Faria ela a curva, subindo até o chalé Igiby? Janner orou ao Criador para que aquilo não acontecesse. Nugget, o cachorro de Leeli, ergueu a cabeça, junto ao pé da cama e rosnou para a noite, janela afora. Janner viu um corvo pousar em um galho ossudo, delineado pela lua. Janner tremia, agarrando sua colcha e puxando-a até o queixo. O corvo virou a cabeça e pareceu espiar pela janela de Janner, zombando do menino cujos olhos arregalados refletiam o luar. Janner ficou ali, aterrorizado, desejando poder afundar-se ainda mais em sua cama, onde os olhos negros do corvo não pudessem vê-lo. Mas o pássaro voou para longe. A lua ficou anuviada, o baque-baque dos cascos e o rangidochacoalhar da carruagem foram sumindo, sumindo, finalmente até o silêncio. Janner percebeu que estava prendendo a respiração, e expirou lentamente. Ele ouviu o bater da cauda de Nugget contra a parede e, sabendo que o cachorrinho também estava acordado, sentiu-se muito menos sozinho. Não demorou para que Janner logo caísse num sono profundo, com sonhos agitados. 2 Nuggets, Martelos e Totatas De manhã, os sonhos se foram. O sol brilhava, o frescor da manhã perdia terreno para um dia quente de verão e Janner imaginava poder voar. Ele estava observando as libélulas flutuando através do pasto e imaginou-se projetando sua própria mente na mente de uma libélula, a fim de ver o que ela via e sentir o que ela sentia. Janner imaginou o leve giro das asas que a levavam zunindo através de um prado, girando para a esquerda e para a direita, alçando-a pelo vento sobre as copas das árvores ou reduzindo a queda íngreme até o Mar Sombrio. Ele imaginou que, se fosse uma libélula, sorriria enquanto voasse (embora não tivesse certeza de que as libélulas sorriam), porque não teria que se preocupar com o chão fazendo-o tropeçar. Parecia a Janner que, nos últimos meses, ele havia perdido o controle de seus membros: seus dedos estavam mais longos e seus pés maiores, e sua mãe havia dito, recentemente, que ele era todo cotovelos e joelhos. Janner enfiou a mão no bolso e, olhando em volta para se certificar de que ninguém estava olhando, tirou um pedaço de papel velho, dobrado. Seu estômago revirou, como havia acontecido uma semana antes, quando encontrou o papel ao varrer o quarto de sua mãe. Ele o desdobrou, agora para refletir sobre o retrato de um menino, parado na proa de um pequeno veleiro. O menino tinha cabelos escuros e membros desajeitados, e parecia inegavelmente com Janner. Grandes nuvens onduladas embranqueciam o céu, e o borrifar das ondas explodia em respingos parecendo tão reais e úmidos que — pensava Janner — se tocasse neles, mancharia a imagem. Abaixo do desenho estava escrito: “Meu décimo segundo aniversário. Duas horas sozinho em mar aberto — o melhor dia da minha vida, até agora”. Não havia nome no retrato, mas Janner sabia, em seu coração, que o menino era seu pai. Ninguém jamais falava de seu pai — nem sua mãe, nem seu avô. Janner sabia pouquíssimo acerca dele. Mas ver aquele retrato era como abrir uma janela em um lugar muito escuro. Aquele sentimento confirmava sua suspeita de que a vida era muito mais do que viver e morrer na cidadezinha de Glipwood. Janner nunca vira um barco de perto. Ele, no máximo, os observava dos penhascos — pequenas manchas traçando caminhos lentos como fitas, atravessando as ondas distantes, navegadas por uma tripulação em uma ou outra missão aventureira. Ele então se imaginava em seu próprio barco, sentindo o vento e os borrifos da água, como o menino do retrato... Janner despertou de seu devaneio e viu-se apoiado em um forcado, com feno pinicante até os joelhos. Em vez de sentir o vento do oceano, ele enfrentou uma nuvem de palha e poeira, levantada por Danny, o cavalo de carga, atrelado impaciente a uma carroça abarrotada de feno até a metade, esperando para atravessar o campo até o celeiro. Janner estava trabalhando desde o nascer do sol e já fizera três viagens, ansioso por terminar suas tarefas. Aquele dia era o Festival do Dia dos Dragões, e o único dia do ano em que Janner ficava feliz por estar na pacata cidade de Glipwood. A cidade inteira esperava o ano todo pelo Dia dos Dragões, quando toda a Skree parecia vir para Glipwood. Haveria jogos e comidas, pessoas de aparência estranha de cidades distantes e os próprios dragões, emergindo do Mar Sombrio da Escuridão. Pelo que sabia, Janner nunca havia deixado Glipwood, em todos os seus doze anos. Então, o festival era o mais próximo que ele chegava de ver o resto do mundo — e um bom motivo para acabar logo de catar todo aquele feno. Ele enxugou o suor da testa e olhou, melancolicamente, por cima do ombro, para uma libélula que zunia para longe. Então, com um gemido, enfiou fundo o forcado no feno e o jogou na carroça. Com esse movimento, seu pé prendeu-se numa pedra escondida sob o feno e ele cambaleou para a frente, caindo de cara em uma pilha pura e fresca de “pepitas” feitas por Danny, o cavalo de carga. Janner saltou, de pé, cuspindo e limpando o rosto com um punhado de feno. Danny, o cavalo de carga, olhou para ele, bufou e arrancou uma boa bocada de grama, enquanto Janner corria, rápido como uma libélula, até o cocho de água para limpar o rosto. Do outro lado do campo, depois da cerca, o irmão de Janner, Tink (cujo verdadeiro nome era Kalmar) estava estendido sobre o telhado do chalé — dois pregos entre os lábios e um martelo numa mão. Tink estava tentando consertar uma telha solta, mas tendo dificuldade com a tentativa, porque tremia demais. Quando mais novo, o simples fato de cavalgar nos ombros do avô o deixava nervoso. E embora risse, seus olhos estavam sempre arregalados de pavor até que fosse recolocado na firmeza do chão. Podo, seu avô, sempre designava a reparação do telhado a Tink, porque acreditava que lhe faria bem enfrentar seu medo. Mas Tink, então com onze anos, ainda ficava tão assustado quanto antes. Tremendo igual vara verde, pegou um prego entre seus lábios e o martelou no telhado, tão timidamente como se estivesse martelando seu próprio rosto. Ele voltou-se ao campo e avistou Janner correr e mergulhar a cabeça no cocho de água; Tink estava desejoso de já ter terminado suas tarefas para poder jogar uma partida de zibzy1 com seu irmão mais velho, nos jogos do Dia dos Dragões. Tink era inútil no telhado, mas quando seus pés estavam em terra firme, podia correr como um cervo. Com a primeira pancada do martelo, o prego escapuliu de entre os dedos de Tink. Ele tentou pegá-lo, mas falhou e acabou se jogando para baixo, abraçando ambos os lados do telhado quente. O prego e o martelo caíram pelo telhado em direções opostas, lançando-se da borda. Tink gemeu porque aquilo significava ter que avançar lentamente até a borda e descer a escada outra vez. Também significava que demoraria muito mais até que pudessem ir à cidade para o festival. “Perdeu alguma coisa?” O medo de Tink se transformou em mau humor. “Basta jogá-lo de volta, pode ser?” Tink ouviu risos, e então o martelo voou para cima, rodopiando e pousando a alguns metros dele. Ele reuniu toda a coragem que tinha para chegar à borda e agarrou o martelo com uma mão trêmula, um pouco antes de deslizar de volta para baixo. “Obrigado, Leeli”, ele exclamou, tentando soar muito mais simpático. Leeli sentou-se de novo nos degraus, na parte de trás do chalé e, cantarolando, continuou descascando suas totatas. Nugget estava a seus pés, abanando a cauda, ofegando na sombra acolhedora. Não demorou muito até que Leeli conseguiu se levantar com uma pequena muleta de madeira e sacudir as cascas de totata da frente do vestido. Carregando o balde, ela coxeou para dentro de casa — Nugget colado atrás dela. Sua perna direita torcia para dentro, num ângulo não natural abaixo do joelho, e os dedos dos pés de sua perna ruim se arrastavam levemente ao longo do piso de madeira. Quando ela era pouco mais que um bebê, havia aprendido a andar com uma muleta minúscula debaixo do braço, e a cada ano, seu avô lhe fazia uma maior, sempre mais ornamentada e resistente que a anterior. A muleta atual era feita de teixo e tinha pequenas flores roxas gravadas ao longo de seu comprimento. Leeli pôs o balde de totatas descascadas sobre a mesa, atrás de Nia, sua mãe, que estava colocando ingredientes em uma grande panela de cozido. “Ah, obrigada, querida”. Nia limpou as mãos em seu avental, depois prendeu para trás das orelhas algumas mechas soltas do cabelo. Ela era alta e graciosa, e Leeli a achava tão bonita que por mais simples fosse o vestido, aos olhos da filha a mãe sempre aparentava estar vestida em trajes reais. As mãos de Nia eram fortes e calejadas por anos de trabalho duro, mas gentis o suficiente para trançar o cabelo de Leeli ou acariciar o rosto de seus meninos quando ela lhes dava um beijo de boa noite. “Você poderia ir buscar seu avô para mim?” Perguntou ela. “Ele está no jardim colhendo ervas há pelo menos uma hora, o que só pode significar uma coisa...” Leeli riu. “Os thwaps voltaram?” “Temo que sim”. Nia voltou ao seu cozido, exatamente quando outro ruído soou acima delas. Seus olhos seguiram o som ao longo do teto até a janela, onde ela e Leeli viram o martelo de Tink cair na grama. Um gemido abafado veio do telhado. “Eu pego.” Leeli coxeou pela porta dos fundos e jogou o martelo de volta para Tink. Janner correu até o chalé, encharcado da cintura para cima, trazendo consigo um cheiro horroroso e um enxame de gordas moscas verdes zumbindo em torno de sua cabeça. Enquanto mancava até a frente da casa para encontrar seu avô, Leeli ouviu sua mãe gritar e colocar Janner para fora de casa, onde ele foi prontamente atingido na cabeça por um martelo em queda livre. 3 Thwaps em um Saco O avô perneta de Leeli estava de joelhos, resmungando contra algo no jardim. Totatas gordas e vermelhas pendiam das vinhas; cabeças redondas de alface brotavam silenciosamente do solo em longas fileiras; brotos de verduras, cenouras e as amoras — suas favoritas — ainda estavam viçosas e úmidas. Como Leeli, Podo se saía bem com apenas uma perna, embora, em vez de usar uma muleta, ele prendesse um toco de madeira abaixo do joelho. Ele nunca falava sobre como havia perdido a perna, mas não era nenhum segredo que fora um pirata em sua juventude selvagem, e, assim, entretinha seus netos todas as noites com contos de suas aventuras no mar. Como na vez em que todos os dezoito membros de sua tripulação adoeceram por comer um lote de jebirum estragado — que haviam saqueado de um barco de pesca perto das ilhas Phoob. Podo foi o único que não comeu e teve que pilotar o navio sozinho durante uma tempestade, enquanto sua tripulação cambaleava ao redor, lamuriando pelo convés. “E essa não foi a pior parte”, dizia Podo. “Deixa eu dizer! Isso tudo com a Marinha Skreeniana bem na minha cola, canhões disparando e flechas zunindo pelo meu cabelo (é por isso que ele se divide em três partes, viu?). Até hoje não consigo sentir o menor cheiro de jebirum sem ter ânsia de alçar vela e fugir o mais rápido possível...” As crianças Igiby gritavam de alegria, e o velho Podo se empenhava tanto que precisava secar o suor de sua testa com um lenço. E ele estava enxugando a testa com o lenço, agora, enquanto olhava para os brotos de verdura. “Vovô?” Leeli chamou por trás dele. Podo girou a cabeça, acenando com um porrete nodoso de madeira. Seus longos cabelos brancos estavam desgrenhados e ele parecia uma velha bruxa maluca. “Ei! Cuidado, mocinha. Eu quase que bato na sua cabeça com esse meu trambolho.” Suas sobrancelhas brancas e espessas se ergueram e ele levou um de seus dedos retorcidos aos lábios. “Thwaps!” — sussurrou. De repente, uma figura pequena e peluda saltou de debaixo de um pé de totata e soltou um grito estridente. Podo saltou atrás dela. Nugget, que se queixava todo serelepe, perdeu o controle e saltou para o jardim com um latido. O thwap comum era um pouco maior do que um gambá — não muito mais do que uma bola de pelo, com patas traseiras e dianteiras magras, que alcançava o meio da única canela de Podo. O porrete do velho acertou o alvo e mandou a criaturinha voando pelo ar, mas não antes que outra disparasse do jardim e, com seus longos dentes amarelos, mordesse Podo ferozmente em sua perna de pau. O primeiro thwap, arremessado, estatelou-se no tronco de uma árvore próxima e caiu no chão, de onde imediatamente se levantou e arremessou uma pedra contra o velho. Acertou Podo bem na testa. Ele cambaleou por um momento, rodopiando a cabeça, enquanto batia no thwap cujos dentes estavam cravados em sua perna de pau. Os thwaps guincharam e lançaram-se de volta para o jardim. Reapareceram um momento depois: um com uma totata nas patas peludas, o outro com uma braçada de cenouras. Ambos se esquivaram de outro golpe do porrete de Podo e dispararam para o jardim novamente. Podo urrou e girou o porrete por cima de sua cabeça. “Basta, roedores nojentos!” Uma rajada de vento moveu as folhas do jardim em ondas. Os cabelos brancos de Podo flutuaram sobre sua nuca, e ele se inclinou contra a brisa com uma expressão feroz na mandíbula. Um thwap apareceu atrás de um pé de amoras e jogou outra pedra. Podo brandiu seu porrete e mandou a pedra voando de volta ao jardim, enquanto os thwaps mergulhavam para se proteger. “Aha!” Alguns momentos se passaram enquanto os thwaps guinchavam e chilreavam entre si. O rosto de Podo se enrugou ainda mais. Ele baixou o porrete e colocou a mão em concha sobre a orelha, como se pudesse entendê-los. De repente, uma gorda totata vermelha passou zunindo pelo ar e explodiu no rosto de Podo. “As totatas não!” Podo piscou com força espremendo dos olhos o suco que escorria — e logo em seguida bateu em outra totata com seu porrete. “Não minhas totatas!” Assim que Leeli se virou, viu o avô mergulhar de cabeça no jardim, vociferando o tempo todo. Ela sorriu e mancou de volta ao chalé, que estava impregnado do aroma de café da manhã. Nia passou por ela até o jardim sem dizer uma palavra, arrebatou duas folhas de uma aroeira e voltou para a cozinha, ignorando os latidos de Nugget, os berros de raiva de Podo e os thwaps voando pelo ar. Janner, que finalmente conseguiu limpar o estrume do rosto e do cabelo, voltou para casa, todo molhado. Tink, magro como um ancinho, sentou-se à mesa, ao lado de Leeli. Seus olhos estavam fixos na grande pilha de linguiças fritando no fogão — o som de seu estômago roncando encheu a sala. “Bom! Assim está melhor!” Nia cruzou os braços e tentou não rir para Janner. “Achei que já começaria a ver grama fresca crescendo em seu rosto.” Janner corou, e meneou a cabeça enquanto se sentava. Leeli e Tink tentaram esconder o riso, enquanto Nia puxava uma cadeira e se sentava com os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos, observando seus filhos comerem. Janner olhou pela janela, imerso em seus pensamentos; Tink curvou-se sobre o prato feito um urubu, comendo as panquecas e a linguiça como se fossem fugir; Leeli observava seus irmãos e mexia na bainha do vestido, cantarolando e balançando a cabeça para a frente e para trás enquanto mastigava. “Comam bem, meus queridos. Vai ser um dia agitado”, Nia aconselhou, sorrindo. Os olhos das crianças se arregalaram. “Os dragões-marinhos!” — gritaram em uníssono. Nia riu e levantou-se da mesa. “A dourada lua de verão o veranil anoitecer em dois partiu, e a dourada melodia dos dragões todo aquele que veio ouviu!” — ela cantou. “Eles virão exatamente como têm vindo por mil anos. Terminem seu café e iremos para a cidade. As tarefas podem esperar.” Com um estrondo, a porta dos fundos se abriu e lá estava Podo, encharcado de suor e sem fôlego. “THWAPS!”, esbravejou, segurando um saco com algo se contorcendo e gritando dentro. Podo acertou-o com seu porrete e os guinchos pararam imediatamente. Nugget latiu e dançou a seus pés, dando mordidas no saco. “Há mais dois desses fedorentos por aí, mas esses três” — ele sacudiu o saco — “não vão comer mais nenhum dos nossos vegetais e legumes, posso garantir. Malditos, ladrõezinhos, monstrengos...” Ele notou que seus três netos e a filha o observavam e pigarreou. “Não se preocupem. Vou jogá-los do penhasco direto para o Mar Sombrio, após comer algumas de suas deliciosas panquecas, querida”, acenando com a cabeça para Nia, tentando soar menos rude. Nia ficou boquiaberta. “Como você tem coragem de jogar essas coisas no mar?” Podo coçou a cabeça. “Fácil. Veja, eu pego esse saco aqui e... despejo o saco... sobre o penhasco. Simples assim.” Leeli estava sentada com o garfo na mão e uma expressão de horror no rosto. “Vovô, você não pode simplesmente matá-los!” Ela se afastou da mesa enquanto os meninos reviravam os olhos. Leeli mancou com sua muleta até seu enorme avô e olhou para ele com uma doce compaixão em seus olhos. Podo amava sua netinha como nada mais em Kistamos, e ela sabia disso. “Eles são coisinhas tão doces, vovô, e nunca fazem mal a ninguém.” Podo gaguejou e apontou para os arranhões em seus braços. Leeli não pareceu se importar. “E tudo o que eles pegam são alguns de nossos vegetais e legumes todos os anos para alimentar seus thwapzinhos. Não consigo acreditar que você faria uma coisa dessas. Por favor, vovô, não mate os pequeninos.” Ela agarrou sua camisa, puxou seu rosto para o dela e o beijou na bochecha grisalha. “Vamos, Nugget”, disse ela, e saiu da cozinha. O saco guinchou e Podo bateu de novo, mas com menos vigor. Com um forte resmungo, Podo jogou o saco no chão, ao lado da mesa, e enfiou uma panqueca na boca. “Agora, Janner, rapaz”, disse Podo sem levantar os olhos do prato, “pode ficar tumultuado lá fora com as festividades em andamento, e você sabe que os Fangs ficam ainda mais malvados quando parece que nós, skreenianos, estamos nos divertindo demais.” “Sim, senhor.” Janner olhou para seu prato e apertou as laterais da cadeira, preparando-se para o que estava por vir. “E você é o mais velho, o que carrega uma nobre responsabilidade. Significa…” “— Significa que preciso ficar de olho em Tink e Leeli, e garantir que cheguem em casa em segurança. Ouço a mesma coisa todos os dias da minha vida, e eu não sou burro.” Janner surpreendeu até a si mesmo. Suas bochechas ficaram vermelhas quando ele viu a expressão de choque no rosto de sua mãe. Ele tinha consciência de que havia ido longe demais, mas era tarde para retroceder. Anos de frustração decidiram explodir sobre as panquecas naquela mesma manhã. “O que isso significa é que sou uma babá, que nunca posso fazer o que realmente quero.” Tink bufou e tentou esconder sua risada empurrando outra garfada goela abaixo. Janner o chutou por baixo da mesa, o que só fez Tink bufar novamente. “Não quero passar minha vida me preocupando com Tink e Leeli, seguindo duas crianças pequenas por todo lado, me rastejando atrás deles como uma velha e desperdiçando minha vida!” “Filho...” Podo começou a falar. “Não sou seu filho! Você não é meu pai, e se meu pai estivesse vivo, ele entenderia”. Janner já se odiava pelo que havia dito. Ofegante, desviava o olhar para o fogão, com medo de contemplar o rosto de seu avô. Seu peito ardia e as lágrimas estavam prestes a desabar. Ele colocou a mão no bolso e apertou o retrato dobrado de seu pai. Como nunca antes, ele desejou estar naquele barco, no Mar Sombrio da Escuridão, longe de Glipwood... e longe de sentir o que estava sentindo naquele momento. Podo mastigou e engoliu suas panquecas lentamente, encarando seu neto em um denso silêncio. “Tink, limpe seu prato e vá se vestir, rapazinho”, disse ele sem tirar os olhos de Janner. Nia ficou perto do fogão, olhando para o chão e com as mãos na cintura. O velho grisalho limpou a boca com um guardanapo e agarrou as laterais da mesa com suas grandes mãos. Janner estava em apuros. Ele tinha certeza disso. 4 Um Estranho Chamado Esben A porta se fechou atrás de Tink enquanto Nia puxava uma cadeira e se sentava entre Podo e Janner. “Rapaz, você sabe que eu te amo, né?” — perguntou Podo. Janner acenou com a cabeça e acrescentou: “Sim, senhor”. “Sei bem que não sou seu pai. Ele era um bom homem. Um homem valente. Ele lutou bem e morreu bem, na Grande Guerra, e é meu dever educar vocês, crianças, o mais próximo possível da educação que o seu pai desejaria dar pra vocês.” Janner olhou de relance para a mãe. Ela lutou contra as lágrimas enquanto se levantava e se ocupava em tirar os pratos da mesa. “Agora, garoto, você está ficando com as pernas compridas e sua voz está ficando mais grossa. Espero que você perceba que está se tornando um homem, hein?” — Podo olhou para Janner, uma sobrancelha branca e espessa erguida, um olho semicerrado fixo nele. “Fala, rapaz.” “Bom, tenho doze anos! Eu sei que não sou adulto, mas...” — ele parou, incapaz de pensar no que dizer. “Às vezes você sente que seu irmão e sua irmã podem pesar sobre você como uma âncora, é isso? Às vezes você sente que esta pequena cidade é pequena demais pras ambições em sua cabeça?” Janner olhou para as próprias mãos. Com um profundo suspiro puxou a imagem do bolso. Nia parou de limpar as coisas quando Janner desdobrou o retrato e o abriu sobre a mesa. Ele não conseguia mais conter as lágrimas; gotejavam da ponta do nariz e caíam sobre o retrato, misturando-se aos respingos do mar. Nia abraçou a cabeça de Janner contra o peito e alisou seu cabelo por um longo instante. “Eu estava imaginando onde esse retrato foi parar.” “É ele?” Perguntou Janner. Nia acenou com a cabeça, lentamente. “Sim.” “Ele quem desenhou?” “Sim.” Nia enxugou as lágrimas do retrato com o avental. “Era uma época diferente. Um mundo diferente.” Ela ficou quieta por outro longo instante. “Antes dos Fangs. Seu pai não ia querer nada mais do que você poder navegar em seus próprios mares, e um dia você navegará. Mas se estivesse aqui, ele diria a você a mesma coisa que seu avô está dizendo. Há um tempo para navegar e um tempo para ficar parado.” “Rapazinho, eu entendo mais do que você imagina.” A voz de Podo estava mais suave. “Mas me escuta: eu tava lá quando seu pai morreu. Eu não vi, mas eu tava lá do mesmo jeito.” Janner ergueu os olhos bruscamente. “O senhor estava lá? O que aconteceu?” “Aham.” “Papai, não...” Nia interrompeu. “Já é hora de Janner saber alguma coisa sobre suas origens, mocinha.” Podo apontou para o retrato, depois para Janner. “Olha pra ele... é a mesma cara...” “Não vejo o que isso tem a ver com nada disso. Ressuscitar a memória de Esben dos mortos não vai adiantar nada. Nada de bom.” A voz de Nia estava trêmula. Janner odiava ver sua mãe tão chateada, mas queria desesperadamente ouvir mais. “O nome dele era Esben?” Perguntou Janner, pois esperava manter Podo falando. Podo e Nia olharam para ele, tristes. Nia beijou o cabelo de Janner. “Chega. Por favor” — disse ela a Podo e saiu da sala. Janner ficou em silêncio. Podo ficou em silêncio. Os thwaps no saco ficaram em silêncio. Finalmente, Podo pigarreou. “Bom, você precisa confiar em mim. Vejo seu pai em você. Ele foi um grande homem. Ele lutou por nós. Morreu lutando por nós. Sua irmã e seu irmão são pequenos tesouros, assim como você, e não queremos perder nossos tesouros.” O velho inclinou-se para frente e baixou a voz. “Sangue foi derramado para que vocês três pudessem respirar o bom ar da vida, e se isso significa você perder um jogo de zibzy, então que seja. Parte de ser homem é colocar as necessidades dos outros antes das suas.” Janner pensou em Tink e Leeli. A ideia de sempre ter que cuidar deles ainda o irritava, mas ele os amava. Ele queria ser um homem bom e corajoso como seu pai — cujo nome acabara de ouvir pela primeira vez. “Sim, senhor. Eu vou tentar”, atestou ele, sem ainda conseguir olhar nos olhos do avô. Janner então dobrou o retrato e, interrogativamente, olhou-o de lado. Podo consentiu com um aceno de cabeça, e logo em seguida, com cuidado, Janner colocou o retrato de volta no bolso. “Agora, rapaz, já que está tão crescido, por que você, seu irmão e sua irmã não vão pro festival sem sua mãe e eu, por enquanto? Ainda temos algumas coisas pra cuidar. Você está no comando.” “Mas mamãe disse que Leeli não podia...” “Ei!” — Podo riu. “Eu cuido da sua mãe. Apenas mantenha sua irmã perto de você. Sua mãe e eu iremos logo depois. Você dá conta?” “Sim, senhor”, afirmou Janner, repentinamente inseguro, imaginando se de fato daria. Podo bateu com a mão na mesa. “Certo, então. Agora, há algo que preciso que você faça por mim antes de vocês três irem pro festival.” Ele entregou o saco de thwaps para Janner e baixou a voz. “Você se importaria de jogar esses fedorentos no penhasco para o seu bom e velho Podo?” Os olhos de Janner se arregalaram. “O quê?!” “Ah, tô brincando” — lamentou Podo, frustrado. “Não consigo mais fazer isso depois da pequena encenação de Leeli.” Então Podo, enfiando a mão no bolso e entregando a Janner três moedas acinzentadas, abocanhou outra panqueca, engoliu-a e arrotou. “Compre uns doces pra vocês.” 5 O Livreiro, o Homem-Meia e a Cidade de Glipwood As crianças Igiby correram pelo gramado do chalé, embora o passo tivesse de acompanhar a velocidade de Leeli mancando. Janner resistiu ao impulso de oferecer-lhe ajuda. Ele havia aprendido, há muito tempo, que sua irmãzinha era capaz de se virar sozinha e que se quisesse ajuda, ela mesma pediria. Janner também sabia que, embora ela fosse persistentemente independente, Leeli ia querer persistentemente que eles a esperassem. Mesmo com uma perna defeituosa, Leeli era incrivelmente rápida, e seus irmãos trotavam pela estrada sombreada que levava à cidade de Glipwood. Nugget caminhava ao lado de Leeli, abanando o rabo, e se as crianças Igiby tivessem rabo, também o teriam abanado. Eles já podiam ouvir o som incomum de risos vindo da direção da vila e da música alegre se elevando por cima dos carvalhos. Repentinamente, Janner sentiu-se satisfeito por receber a responsabilidade de cuidar de seus dois irmãos mais novos. Achou graça ao pensar na rapidez com que seus sentimentos mudaram. Poucos minutos atrás, ele se sentia acorrentado por sua responsabilidade — agora, porém, estava orgulhoso. Ir até a cidade sozinho com Tink e Leeli era muito diferente de navegar sozinho em mar aberto como seu pai havia feito, mas teria que servir. Janner se perguntou o que seu amigo, o velho Oskar N. Reteep da livraria, diria quando visse os Igibys sem nenhum adulto acompanhando. Será que Oskar lhe daria mais trabalho na loja ou o deixaria levar mais livros para casa? Talvez ele finalmente permitisse que Janner lesse os livros reservados apenas para pessoas mais velhas, aqueles grossos nas prateleiras superiores com encadernação antiga. Ele sorriu para si mesmo. Afinal, a responsabilidade talvez não seja tão ruim assim. “Então, o que aconteceu lá?” Tink perguntou enquanto seguiam pela estrada. “Nada.” “O que você quer dizer com nada?” Tink parecia frustrado. “Nenhuma palmada?” “Não. Sem palmadas.” “Então, quando se tem doze anos, você pode ser mal-educado e se safar?” “É complicado”, lamuriou Janner, pensando novamente em seu pai. Ele se perguntou quando mostraria o retrato a Tink e Leeli. “Mal posso esperar para ter doze anos.” Tink sorriu maliciosamente enquanto contornavam a esquina para a rua principal. Janner sorriu de volta para seu irmão, mas, por dentro, estava preocupado. Esben. Esben Igiby, ele pensava. Saber o nome de seu pai fez Janner pensar nele como uma pessoa real, não apenas uma sombra feliz de seus sonhos. Havia muitos dias em que ele não pensava tanto no pai, mas sempre que as outras crianças em Glipwood falavam de seus pais, ou quando perguntavam a Janner por que vivia com seu velho avô, ele se sentia uma aberração. Janner sabia que Leeli e Tink sentiam a mesma coisa. Todos os outros em Glipwood haviam crescido lá, ou em algum lugar nas proximidades. Mas sempre que Janner perguntava a Podo ou Nia de onde sua família veio, a resposta era, invariavelmente, o silêncio. Tudo o que ele sabia era que Podo havia crescido no chalé, e que seus ta-tataravós (ta-ta-tataravós de Janner) haviam construído a casa uns duzentos anos antes, quando Glipwood era pouco mais que um punhado de edifícios.1 Agora, Glipwood possuía uma rua principal com vários edifícios de cada lado. A Taverna do Crespo ficava à esquerda — seu telhado verde-escuro exibia a imagem de um cachorro com um cachimbo pendurado na boca. Ao lado ficava o maior edifício da cidade, a única pousada de Glipwood. No alto, uma placa dizia a única pousada, e abaixo disso, em letras menores, “a única pousada de Glipwood”. Os Shoosters, um gentil casal de idosos, mantinham a pousada aconchegante e limpa, e os aromas que emanavam da cozinha deixavam toda a cidade com água na boca. Do outro lado da rua havia uma barbearia chamada J. Bird, onde o Sr. Bird geralmente podia ser visto dormindo em uma de suas cadeiras. Ao lado da barbearia estava a cadeia da cidade, onde Fangs relaxavam no alpendre e lançavam insultos aos transeuntes. Carvalhos largos e musgosos estendiam seus galhos sobre as ruas, oferecendo uma sombra bem-vinda ao sol de verão. Crianças com rostos pegajosos andavam em passos largos, saboreando várias sobremesas. Para onde quer que Janner olhasse havia homens e mulheres de diferentes estruturas e tamanhos. As mulheres usavam vestidos longos, esvoaçantes e de cores vivas, e os homens que lhes faziam companhia baforavam cachimbos e portavam ridículos chapéus de topo redondo. Ocasionalmente, uma carruagem puxada por cavalos passava rangendo — seus ocupantes espreitavam presunçosamente pela janela. Janner, Tink e Leeli, com Nugget ao seu lado, abriram caminho pela cidade, passaram pela Pousada (sempre cheia naquela época do ano, sendo a única pousada de Glipwood), pela Floricultura da Ferínia e pelo edifício, velho e frágil, que abrigava a Livros e Vãos. Havia uma placa pendurada na janela: Oskar N. Reteep Proprietário/Livreiro/Intelectual/Apreciador do organizado, do estranho e/ou do saboroso Oskar N. Reteep, um homem redondo com uma barba curta, branca e pouquíssimo cabelo no topo da cabeça, acenou para eles de sua varanda, onde se sentava em uma cadeira de balanço, fumando um longo cachimbo. Ele havia penteado longas mechas de cabelo sobre sua cabeça de ovo, parda e sardenta, na vã tentativa de esconder o fato de ser careca. A brisa agitava uma longa mecha do cabelo, como se também estivesse acenando para as crianças. “Olá, Janner!” Ele chamou, sorrindo e acenando para as crianças. “Olá, senhor Reteep”, Janner gritou mais alto que o ruído da multidão. Da janela atrás de Oskar, um homenzinho com orelhas pontudas os observava. Zouzab Koit era um corre-crista2 que Oskar havia adotado seis anos antes, quando abriu uma caixa que deveria estar cheia de livros vinda de Torrboro. Em vez disso, Oskar foi surpreendido ao encontrar dentro da caixa um Zouzab faminto, assustado e encolhido. Corre-cristas eram um povo pequeno e pouco conhecido em Skree, mas Oskar, um autoproclamado Apreciador do Organizado, do Estranho e/ou do Saboroso, decidiu que Zouzab certamente se qualificava. As descrições de Zouzab de sua terra natal e de sua vida angustiante nas Montanhas Picos-daMorte eram muito Organizadas, como eram seus cabelos crespos e feições pontudas. Suas vestes e comportamento eram bastante Estranhos. Ele usava calças de couro e uma camisa de tecidos e retalhos em vários formatos e com várias cores que ondulavam em torno dele como uma centena de pequenas bandeiras. O mais estranho de tudo: Zouzab não conseguia evitar escalar tudo quanto fosse mais alto do que ele próprio — ou seja, a maioria das coisas. Quanto a ser Saboroso, Oskar não se importou em especular. Janner pensou em como ambos juntos pareciam bastante estranhos: Oskar redondo como uma abóbora e Zouzab curto e fino como uma erva daninha tosquiada. Leeli acenou para Zouzab. Seus olhos redondos se arregalaram e ele sumiu de vista. “Onde está Podo?” Oskar perguntou, limpando os óculos no colete. Janner tentou parecer indiferente. “Lá no chalé. Disse que podíamos vir sozinhos hoje.” “Oh-ho.” Oskar olhou para Janner através dos óculos empoleirados na extremidade de seu nariz. Janner sorriu. “Chegue bem cedo depois de amanhã, hein? Encontrei um verdadeiro tesouro de livros em minha última viagem a Cavadópolis. Vou precisar de ajuda para carregá-los.” “Sim, senhor, chegarei cedinho”. Janner começou a pensar em todos os livros que leria em seguida. Oskar estreitou os olhos em Tink e o olhou de cima a baixo. “E traga esse magrela do seu irmão, também. Poderemos usar uma mãozinha extra e, pelo que parece, o exercício lhe será útil.” Os olhos de Tink se arregalaram. “Sério, senhor Reteep?” “Isso mesmo, rapaz.” Oskar sorriu para Leeli. “O que você acha de toda essa confusão, moça? Glipwood é uma cidade diferente por um dia, não é?” Leeli olhou ao redor para o povo que passava por eles, apreendendo a vista, os sons e os cheiros que eram tão estranhos à pacata cidadezinha. Ela sorriu. “Eu gosto disso tudo, mas, depois de um dia tão cheio, ficarei feliz quando as coisas voltarem ao normal.” Janner revirou os olhos. “Bom, eu gostaria que Glipwood fosse assim todo dia. Eu gostaria que A Única Pousada estivesse sempre cheia de viajantes e comerciantes com novidades de Torrboro e Forte Lamendron, ou de histórias de exploradores que foram além das fronteiras dos mapas. Você já pensou que pode haver continentes inteiros que ninguém de Skree nunca viu? Que ninguém em lugar nenhum viu? Nunca estivemos em Forte Lamendron, e Podo diz que fica a não mais que um dia de viagem daqui. Todas essas pessoas ricas de Cavadópolis e Torrboro conseguem realmente enxergar Kistamos, não apenas recolher feno o dia todo...” Oskar ergueu as sobrancelhas para Janner, cuja fala foi sumindo com a reação inquisitiva do amigo. Oskar então enxugou a fronte e pressionou uma única mecha de cabelo Reteep de volta à testa. “Então, Glipwood é muito pequena para Janner. O que você diz, jovem Tink?” Tink farejou o ar. “Eu quero uma torta de amora.” “Janner”, disse Oskar, “há mais coisas no mundo do que apenas enxergálo. Se não consegue encontrar paz aqui em Glipwood, você não vai encontrála em lugar nenhum.” Oskar apontou para uma carruagem que passava. “Aquelas pessoas podem parecer ricas, mas nenhuma delas mais é, de fato. Se você olhar de perto, verá que os ternos e vestidos que essas ditas pessoas ricas vestem estão esfarrapados e remendados. Nem brincos, nem colares adornam as mulheres. Nenhum anel brilha nos dedos dos homens.” Janner viu que era verdade. Por que nunca percebeu aquilo antes? Aborrecido, acenou com a cabeça para Oskar e chutou a terra com um pé. Era seu dia de ser corrigido pelos adultos, pensou. “Rapaz, uma coisa é ser pobre no bolso — nada de errado com isso. Mas ser pobre de coração não é nada bom. Olhe pra esse pessoal. Eles têm a tristeza nos olhos, e é uma tristeza que nenhuma quantia de dinheiro pode reparar. Céus! Eles nem se lembram mais como é rir de verdade.” “Mas eles parecem estar felizes, não é, senhor Reteep? Pudemos ouvir as risadas e a música lá de cima”, especulou Leeli. “O pessoal vem a Glipwood para ver os dragões porque é uma das poucas liberdades que restou. Claro, eles dormem sob seus próprios telhados com suas próprias famílias, e embora esteja arrasada, esta ainda é sua própria terra. Mas isso está muito longe da liberdade, jovens Igiby. Alguns de nós ainda se lembram de como era passear pela cidade após escurecer, ou, sem medo, andar a cavalo na floresta.” A voz de Oskar aumentou em irritação e pareceu a Janner que ele não estava mais falando com eles, mas consigo mesmo. “Está começando a parecer que os Fangs sempre estiveram aqui, e que aquele Gnag, o Sem-Nome sempre nos governou, nos cobrou impostos e roubou nossos filhos.” Janner olhou para os sorrisos refreados nos rostos das pessoas. Ele viu a forma como as pessoas se esquivavam dos Fangs zombeteiros, no alpendre da cadeia. Havia tristeza por baixo de toda aquela alegria e, pela primeira vez, Janner tinha idade suficiente para sentir e entender tudo aquilo. Oskar voltou a si e sorriu para as crianças. “Bom, mas está um ótimo dia, não é, jovens Igiby? Há hora de pensar sério e hora de relaxar. Agora, vão andando. Como escreveu sabiamente o grande Polegar do Prado da Corneta, ‘Os jogos vão começar suficientemente em breve!’.” Oskar acenou para eles com uma piscadela, enquanto baforava seu cachimbo e espalmava o cabelo de volta para sua careca. Com o coração pesado, as crianças desceram pela rua aglomerada. Janner estava perdido em pensamentos, olhando fixamente para o Comandante Gnorm, o Fang mais gordo e cruel em Glipwood. Os pés de Gnorm estavam apoiados em um velho cepo, e ele estava roendo a carne de um osso de galinha — sua longa língua roxa sorvendo ruidosamente. Gnorm jogou o osso contra um idoso que passava e os soldados Fangs sibilaram e riram enquanto o homem se curvava e limpava a gordura de seu rosto. Janner achava difícil acreditar que já existiu um dia em que ninguém em Skree jamais ouvira falar dos Fangs de Dang. Passando a cadeia, em frente ao pequeno edifício que alojava a prensa móvel, um círculo de pessoas ria de alguma coisa. Acima das cabeças dos espectadores, duas botas esfarrapadas davam chutes no ar. Janner e Tink sorriram um para o outro. “Peet, o Homem-Meia!” Tink apontou e saiu correndo. “Vamos, Leeli! Vamos ver o que ele está aprontando.” Os três forçaram caminho pela multidão e viram o estranho sujeito caminhando sobre as mãos, no meio de todos. Ele cantava repetidamente a frase “asas e casas e coisas rasas”, dando chutes com os pés, no mesmo ritmo. Tinha as bochechas encovadas e os olhos enevoados, e as rugas ao redor deles davam-lhe a aparência de ter acabado de chorar. Ele usava roupas esfarrapadas e estava imundo, assim como as meias tricotadas e encardidas que usava nos braços, enfiadas até os cotovelos. Espectadores jogavam moedas, mas para os moradores de Glipwood, esse era o comportamento normal de Peet. Na verdade, no início daquele verão, Peet se chocou contra a placa de sinalização na esquina da Rua Principal com a Via Vibbly (que foi inocentada, já que estava parada e bem à vista). Depois de insultar a mãe da placa, Peet a desafiou para um duelo, embora a dita cuja, estoicamente, não tivesse mostrado nenhum sinal de retaliação. Ele, então, desferiu-lhe um golpe forte, errou, rodopiou como uma dançarina de circo de Cavadópolis e desabou no chão, onde roncou ruidosamente a noite toda. Janner aplaudiu com a multidão quando Peet deu um salto para trás e se pôs de pé, ajeitou o cabelo com um floreio e se mandou com um olho fechado e uma mão enluvada na boca, deixando as moedas na poeira. Janner sorriu olhando para Peet, cuja espessa cabeça ia dançando pela rua empoeirada até sumir na esquina. “E lá se foi ele!” Constatou Janner. “Você acha que é verdade que ele mora perto da velha floresta?” Tink perguntou. Janner encolheu os ombros. “Ele teria que ser louco pra viver lá.” Nos anos anteriores à Guerra, guardiões e caçadores enfrentavam a floresta e controlavam as feras mortais que rondavam dentro dela. Mas os Fangs confiscaram todas as armas da terra. Cada espada e escudo, cada arco e flecha, cada adaga e lança, cada ferramenta agrícola que poderia ser usada como arma: tudo, absolutamente tudo estava guardado e trancafiado.3 “Bom, se alguém é louco o suficiente pra chegar perto da floresta, esse maluco é o Peet.” Tink pausou. “Os irmãos Blaggus disseram que o viram perto da floresta, cavalgando uma vaca-dentada como se fosse um cavalo, batendo nos lombos dela com uma vara. Eles disseram que Peet estava cantando uma balada.” Janner bufou. “Sem chance! Ninguém sobrevive a uma vaca-dentada. Sem contar que os irmãos Blaggus são medrosos demais para chegar perto da floresta. Eles estão tirando uma com a sua cara.” Janner se virou para ir embora. “Vamos.” Mas ele estancou no caminho e agarrou o braço do irmão. Não conseguia ver Leeli. Sua cabeça girou de um lado para o outro, examinando a rua movimentada. “Onde está Leeli?!” — gritou. “Leeli!” Tink deu um tapinha em seu ombro. Janner se virou e viu o irmão apontando para o chão, perto dos seus pés. Leeli estava sentada ali, coçando a barriga de Nugget, olhando para ele, inocentemente. Janner suspirou e sentiu o interior estremecer de alívio. No espaço de alguns segundos, ele imaginou Leeli perdida ou ferida, e sentiu uma pequena amostra da culpa dolorosa que carregaria se algo, algum dia, realmente acontecesse a ela. Mas nada nunca acontece, Janner pensou consigo, amargurado. Aqui estamos, no Festival do Dia dos Dragões, e estou uma pilha de nervos desde o minuto em que chegamos. E estou assim por nada. O que, em nome dos céus, poderia acontecer em apenas alguns segundos? 6 Um Bardo na Esmeralda de Dunn Venha”, Janner resmungou, aliviado, mas irritado consigo mesmo por entrar em pânico. Tink se agachou para ajudar Leeli a se levantar, mas ela o ignorou e se levantou com a ajuda de sua muleta. De repente, o toque de uma corneta atravessou o ar de verão e a multidão aplaudiu. Os jogos estavam começando. Durante todo o dia, os jogos seriam disputados na Esmeralda de Dunn, o amplo gramado no lado leste da cidade. Os participantes e espectadores ficavam lá a maior parte da tarde assistindo a corridas de sacos, partidas de handyball,1 de zibzy e torneios de caça ao frango. Todo mundo deitava em colchas na grama macia e assistia aos esportes, beliscando guloseimas compradas na cidade. E era exatamente isso que Janner tinha em mente, se eles conseguissem chegar lá. Janner puxou Leeli pela mão livre e pediu a Tink que o acompanhasse. “Tem como vocês dois andarem mais devagar?” — ironizou. Tink estava muito mais interessado nos aromas deliciosos que emanavam das cozinhas e barracas improvisadas onde os comerciantes vendiam pastéis cozidos de massa de manteiga e barbatanas de treixe assadas na brasa. “Pera aí, eu quero um pãozinho de frutas vermelhas.” Tink revirou o bolso com a mão que Janner não estava puxando. Janner estava perdendo a paciência. “Se você quer tanto assim, mais tarde eu compro o pãozinho de frutas pra você. Mas agora, vamos”, resmungou. Tink cedeu, lançando de lado um olhar longo e arrependido para um homem rechonchudo, de avental, regando um prato de pães com uma geleia vermelha e viçosa. Quando finalmente chegaram à Esmeralda de Dunn, as crianças Igiby sentaram-se no gramado e assistiram às festividades durante toda a manhã e até a tarde esquentar. Quando o sol se punha a oeste e as sombras aumentaram, as pessoas começaram a tagarelar ainda mais. Ao anoitecer, os dragões-marinhos chegariam e as multidões iriam se empoleirar nas falésias para vê-los dançar à luz do luar. Janner podia sentir a expectativa no ar. Para sua alegria, Tink avistou, logo atrás dele, um comerciante vendendo pegajosos bolinhos de mirtilo. Ele havia usado as poucas moedas que Nia tinha lhe dado, então Janner relutantemente compartilhou algumas das suas só para acalmar o estômago de Tink (e sua boca, claro). Tink não tinha ideia de que seu rosto estava então manchado de roxo escuro. Leeli se contentava em assistir aos jogos passivamente, enquanto fazia cócegas na barriga de Nugget ou jogava um pedaço de pau para ele buscar. Os espectadores toleraram aquilo até que ela acidentalmente jogou o toco de madeira no campo de jogo. Quando Nugget o perseguiu, um dos jogadores de handyball (que estava se remexendo desajeitadamente pelo campo, tomando cuidado para não deixar seus pés tocarem a grama) perdeu um passe de outro jogador porque Nugget entrou em seu caminho. Todos os olhos se voltaram com raiva para Leeli, cujas bochechas ficaram tão vermelhas quanto as de Tink estavam roxas. Mas quando os espectadores viram a muleta de Leeli, suavizaram os olhares e o jogo continuou. Janner ficou feliz por Leeli estar ocupada demais repreendendo Nugget para notar a pena da multidão, ou ela teria ficado ainda mais chateada. Janner estava tão animado com todos os rostos desconhecidos ao seu redor quanto com os jogos. Ele se perguntava de onde era toda aquela gente, embora o traje denunciasse algumas delas. Os cidadãos de Torrboro, por exemplo, se vestiam da mesma forma: os homens usavam chapeuzinhos pretos, casacos com cauda longa (apesar do calor do verão) e calças puxadas até uma altura chocante: as fivelas dos cintos ficavam um pouco abaixo do queixo! As mulheres elegantes usavam vestidos de babados com padrões que representavam o nariz de vários animais; seus sapatos pretos eram grandes e pontiagudos, como se os dedos dos pés fossem do tamanho dos próprios pés — o que fazia as mulheres darem um salto para a frente ao caminhar. Para Janner, era como assistir a palhaços de circo (sobre os quais ele só havia lido) tentando desesperadamente não ser engraçados. A maioria daquelas pessoas usava luvas brancas. Então, quando um jogador de handyball marcava um gol, o som de seus aplausos era mais parecido com umas palmadinhas do que com palmas, e eles diziam coisas como “Bela apresentação!”, ou “Ei-alá!-mãe-me-dá-um-plá!”, ou “U-haa!”, ou “Jogada indiscutivelmente boa!”. O povo de cabelos compridos de Cavadópolis não era tão estranho em seus trajes, mas seus modos eram chocantes. Homens e mulheres falavam alto e suas risadas soavam mais como uivos. Janner percebeu que certas palavras que eles usavam eram inaceitáveis para o povo de Torrboro, que estava por perto, mas os cavadopolienses nem ligavam. Eles rosnavam, grunhiam e faziam um barulho tão alegre que era difícil não gostar deles, apesar de tudo. Cada estranho em Glipwood, naquele dia, era um lembrete a Janner de que ele nunca, nunca havia deixado a cidade. Eles incitavam sua imaginação e o enchiam de vontade de ver o mundo. Mas então ele ouvia Leeli dar uma risadinha ou Tink arrotar e lembrava, de novo, que, por enquanto, teria que cuidar da irmã e do irmão naquela cidadezinha terrivelmente quieta — isto é, quieta exceto no dia em que os dragões-marinhos vinham. Janner então resolveu se divertir e afastou todos os pensamentos desagradáveis. De repente, uma comoção em todo o campo interrompeu os pensamentos de Janner — e o jogo de handyball. Os espectadores perto do gol oposto haviam se virado, tentando abrir espaço para algo ou alguém. Sussurros animados circulavam pela multidão, mas Janner não conseguia entender o que estavam dizendo. Vozes se ergueram do aglomerado, e até mesmo os jogadores, suados e cobertos de grama e terra (embora seus pés estivessem bem limpos), pararam e se concentraram na confusão. Janner e Tink se levantaram para tentar ver o que estava acontecendo, mas não havia nada para ver além de espectadores agitados se afastando do caminho enquanto alguém passava por eles. As sentinelas dos Fangs rosnaram e silvaram, irritadas com a perturbação. Eles estavam encarregados de manter o povo sob controle, e algo incomum estava acontecendo. Tanto quanto odiavam os skreenianos elas também não estavam interessadas em ter nenhum trabalho extra num dia quente como aquele. Então o boato finalmente chegou aos ouvidos de Janner. Uma mulher corpulenta à sua direita engasgou e, sem fôlego, disse ao marido corpulento que Armulyn, o Bardo aparecera sem avisar e fora convidado a cantar pelo honorável prefeito de Glipwood, Blaggus.2 Tink e Janner olharam um para o outro sem acreditar. Armulyn, o Bardo estava lá, em Glipwood? Será que o mesmo homem que afirmava ter visitado a Brilhante Ilha de Anniera,3 o mesmo Armulyn que vagara pelas terras cativas e cantara as lendas de Kistamos,4 de grandes feitos e grandes amores, estava agora em Glipwood, vestido em seu traje real e montado em seu majestoso cavalo? Todos os pensamentos sobre o jogo de handyball desapareceram. Os jogadores ficaram bastante aliviados com o fato e se levantaram, gemendo e se alongando. Dois homens corpulentos empurraram uma carroça vazia para o centro do campo de jogo. O prefeito Blaggus deu um gemido para subir na plataforma improvisada e ela rangeu sob seu peso (ele havia comido pastéis com manteiga um tanto demais, naquele dia). Ele usava calças escuras e uma camisa vermelha brilhante. Uma pena amarela berrante brotava de seu chapéu, e ele franzia o bigode com presunção. Blaggus estendeu as mãos para silenciar o público e então se virou, dirigindo-se aos Fangs. “Com a permissão de nossos oniscientes e incrivelmente bonitos, poderosos e ágeis soldados”, declarou ele, curvando-se tão profundamente que sua barriga tocou nos joelhos, “gostaríamos de ouvir uma ou duas canções do bardo Armulyn. Suplicamos a Vossas Excelências este prazer banal, pelo qual lhes renderemos eterna gratidão e servidão.” “Fale por si mesmo”, murmurou Tink com um olhar de soslaio para os Fangs, cujos sorrisos escamosos mostravam o quanto apreciavam a humilhação do prefeito. Um dos Fangs acenou com a cabeça e soltou um ruído estridente que poluiu o ar como fumaça. “Agradecemos, amáveis mestres.” O prefeito Blaggus limpou a garganta. Seu tom mudou abruptamente para a voz majestosa e inflada que ele havia usado por muitos anos, antes da Grande Guerra. “Meus queridos amigos e vizinhos, uma honra raramente concedida erigiu-se sobre nós como um sol radiante”, anunciou o prefeito. “Armulyn, o Bardo, arauto de histórias da imaginária Ilha Brilhante de Anniera, por acaso juntou-se a nós em Glipwood, neste belo dia. Ele aceitou meu convite para se apresentar a nós. Por favor, deem as boas-vindas a este filho de Skree, hoje, à beira-mar de Glipwood. Senhoras e senhores, apresento-lhes Armulyn, o Bardo!” Um homem enlameado subiu na carroça, portando uma harpa eólica5 já gasta sob um dos braços. O sorriso em seu rosto rígido lembrou a Janner um menino travesso, prestes a desobedecer. Armulyn piscou para a multidão e berrou: “Olá, queridos skreenianos! Os Fangs são feios!” Os aplausos cessaram abruptamente, e os quatro Fangs, parados nas extremidades da multidão, atroaram um berro arrepiante e correram, sibilando, em direção ao bardo. 7 Descalço e Mendigo Janner sentiu o brilho do suor frio cobrindo-o como uma febre. Ele levou um tempo para entender o que ouvira. Teria Armulyn acabado de insultar os Fangs? No turbilhão daquele choque explodiu-lhe uma dúvida incessante: aquele mendigo na plataforma seria, de fato, o famoso contador de histórias? Houve algum erro? Certamente Armulyn, o Bardo pelo menos estaria usando sapatos, ele imaginou. E pela aparência imunda e calejada dos pés daquele homem, Janner podia ver que não andava a cavalo, mas, aonde quer que fosse, ia a pé. Não fosse pela harpa eólica gasta debaixo de um dos braços e a líquida profundidade no olhar, Janner já teria acreditado que o homem era um impostor. Os Fangs empurraram o povo para o lado e avançaram em direção à carroça, desembainhando suas espadas enquanto corriam. Todo o corpo de Janner se contraiu e ele estava tentando desviar os olhos do momento em que os Fangs alcançassem Armulyn. Muitos na multidão emergiram do choque em tempo de gritar. Mas o bardo simplesmente permaneceu na carroça e sorriu. No que os Fangs se aproximaram, Armulyn dedilhou sua harpa eólica e ergueu a voz numa canção. Os Fangs vacilaram, pararam bruscamente e agacharam-se diante de Armulyn, tentando em vão cobrir as orelhas e, ao mesmo tempo, brandir suas espadas contra ele. “Sssilêncio!” — um deles sibilou. Armulyn parou de cantar e ergueu as sobrancelhas para eles, como se aborrecido com a interrupção. “Pois não?” “Cuidado, bardo”, o Fang cuspiu. “Não seria difícil pra nós cortá-lo em pedaços e tomá-lo numa sopa.” Armulyn, com o mesmo sorriso insolente de antes, olhou para suas caras sinistras. “Duvido que vocês apreciariam meu gosto. Sou magro e mal alimentado.” O único som restante era o barulho das folhas ao vento. “Isso é tudo?” Perguntou o Bardo, depois de um momento, levantando a harpa eólica para voltar a entoá-la. Os Fangs estavam petrificados, mas Janner pensou ter visto seus olhos negros se moverem de soslaio para a multidão que os rodeava no gramado. “Desfrutem de suas canções mesquinhas” — o líder Fang rosnou, virandose para a multidão. “E nós desfrutaremos de matar todos assim que Gnag, o Sem-Nome decidir que basta pra vocês. Que esse dia chegue logo.” A língua do Fang se projetou por entre suas longas e afiadas presas, e sua boca arqueou-se para cima, num sorriso. Ele rangeu os dentes e sibilou para uma menininha, que se encolhia grudada aos pés dos pais, enquanto os que estavam ao redor, no campo, olhavam para o chão ou fechavam os olhos. O Fang que falara cuspiu na grama e se afastou, seguido de seus três companheiros que também sibilavam. O silêncio foi quebrado pelo toque da harpa eólica. O homem barbudo levantou a voz novamente em uma canção, e não houve mais qualquer dúvida na mente de Janner de que era, de fato, Armulyn, o Bardo. A multidão ficou maravilhada enquanto ele cantava “A Balada de Lanric e Rube”,1 e Janner e Tink se viram segurando as lágrimas enquanto ouviam a trágica história. Depois dessa, ele cantou outra para a plateia extasiada, e mais outra, até que o sol se pôs a oeste e a luz ficou dourada, alongando as sombras no gramado. Como se de alguma forma soubesse, o bardo encerrou sua última canção, momentos antes do som de uma trompa baixa rasgar o ar escuro. Armulyn deu um grande sorriso e muitos ouvintes arfaram de entusiasmo. “Os dragões”, comemorou Janner, agarrando Tink pelos ombros. Tink sorriu de volta para ele com suas bochechas pegajosas e roxas. “Vamos lá”, chamou Tink. “Temos que encontrar um bom lugar.” “Vamos, Leeli!” Janner gritou, virando-se para ir embora. As pessoas na multidão estavam se levantando e voltando em direção à cidade. “Leeli?” — Janner perguntou outra vez, voltando-se quando ela não respondeu. Mas Leeli havia sumido. Janner disse a si mesmo para se acalmar. A mesma coisa havia acontecido antes. Ela não poderia ter ido longe. Há pouco ela estava ali no gramado, esfregando a barriga de Nugget, certo? “Leeli Igiby!” — ele a chamou, virando-se em todas as direções. As pessoas estavam em todos os lugares, empurrando os meninos enquanto passavam por eles. “Saia da frente, garoto”, resmungou um velho com uma bengala, segurando as calças até o queixo enquanto passava. Os vestidos largos das mulheres de Torrboro passavam por Janner e Tink, puxando-os de um lado para o outro. Então, um grupo turbulento de cavadopolienses apareceu como uma parede diante deles. Janner se viu esquivando de cotovelos e mergulhando entre pernas, e duas vezes tropeçou nos sapatos pontiagudos das mulheres de Torrboro. Tink não podia ser visto em lugar nenhum, mas Janner sabia que ele estava perto por causa dos gritos de surpresa e dos xingamentos vindos de sua esquerda. Janner temia que os Fangs pudessem ser atraídos por esta nova comoção, mas para seu alívio a multidão finalmente diminuiu e ele viu que os Fangs haviam sumido. “Isso foi quase divertido”, reclamou Tink, limpando-se. Janner se virou e agarrou Tink pelo colarinho. “Não há nada de divertido nisso, Tink. Você entende que ela pode estar machucada? Ela pode ter sido levada por um Fang. Ou morta por um! Precisamos encontrá-la!” Janner olhou para seu irmão. Tink era realmente tão tolo que não percebia o quão grave era a situação deles? Tão preocupado quanto estava com Leeli, Janner também estava pensando em sua própria pele. O que Podo faria quando descobrisse que Janner falhou em seu dever? Como ele viveria consigo mesmo se algo realmente acontecesse com sua irmã? Tink tirou as mãos de Janner de sua camisa e recuou. Ele olhou ao redor, na Esmeralda de Dunn, para as pessoas que ainda estavam lá dobrando suas colchas e recolhendo seus pertences para a caminhada até os penhascos. Finalmente Tink entendeu que a situação deles era terrível, e ele colocou as mãos em concha na boca, virando-se em todas as direções, para gritar continuamente: “Leeli!”. Podo havia lhes ensinado que, se algum dia se separassem, deveriam se encontrar no último lugar em que todos estiveram juntos. Certamente Leeli estaria esperando por eles inocentemente, com Nugget no colo, assim que o resto da multidão se dispersasse. “Ela deve estar aqui por perto, Tink. Eu sei que ela estava aqui com Nugget apenas alguns minutos atrás.” Janner examinou o gramado com uma mão na testa. Tink não respondeu. Suas sobrancelhas estavam franzidas e ele estava torcendo as mãos, chamando o nome da irmã com um tremor na voz. “Ela vai ficar bem, você vai ver”, consolou-o Janner, tentando parecer otimista. Tink e Janner chamaram por ela até que a multidão estava quase toda dispersa, mas, ainda assim, Leeli continuava fora de vista. Janner perguntou aos poucos que ainda restavam da multidão se tinham visto uma menininha, mas eles responderam apenas com olhares irritados; estavam muito mais preocupados com os dragões-marinhos do que com aquelas crianças irritantes. Finalmente, Janner e Tink ficaram sozinhos no gramado, sob uma luz fraca. A pequena Leeli Igiby havia sumido. Os irmãos se entreolharam, incapazes de falar, sem saber o que fazer. Então, um som fraco chegou aos ouvidos deles vindo da direção da cidade — um som que transformou seu medo em terror e que os fez correr o mais rápido que podiam. Um cachorro latia e alguém, uma menininha — Leeli! — estava gritando. 8 Duas Pedras Atiradas Mais rápido, Janner!” — Tink gritou, sem olhar para trás, enquanto disparava em direção à cidade. Janner bufava atrás dele, incapaz de acompanhá-lo. Ao passarem pelo curral na orla da cidade, Janner ouviu um som mais profundo, abaixo dos gritos de Leeli e dos rosnados de Nugget: os terríveis e inconfundíveis silvos e rosnados de um Fang. Janner olhou de um lado a outro da rua, desesperado por alguma pista de onde vinham os gritos, mas pareciam estar em todos os lugares. Tink desembestou pela rua principal, que estava quase deserta. Os poucos adultos que restaram se apressavam em direção aos penhascos, pensando apenas na dança anual dos dragões-marinhos. Se eles ouviram os gritos e rosnados, não deram nenhum sinal. Com o canto do olho, Tink viu, em um estreito beco entre a Floricultura da Ferínia e a Barbearia J. Bird, um Fang se debatendo com algo. Tink parou derrapando e Janner se chocou contra ele, quase o derrubando. Lá no beco, em uma nuvem de poeira, Nugget disparava para frente e para trás entre as pernas do Fang, evitando os esforços furiosos do Fang para atravessá-lo com uma lança. Leeli gritou de novo e, sem pensar duas vezes, seus irmãos correram pelo beco para salvá-la, embora ambos soubessem que não havia nada que dois garotos pudessem fazer para enfrentar um Fang de Dang. O estreito beco conduzia, por uma esquina, a uma pequena área entre a parte de trás da Floricultura e seus estábulos. Leeli estava encolhida como uma bola enquanto um segundo Fang a mantinha no lugar com o cabo de sua lança. Um Fang observava com prazer mórbido enquanto o outro lutava com o pequeno cachorro preto. Nugget estava em frenesi, saltando de um lado para o outro, rosnando e tentando morder o Fang. O Fang perto de Leeli estava rindo com uma voz fina e estridente: “Qual é o problema, Slarb? Essa coisinha fedorenta é demaisss pra você?”. Slarb rosnou enquanto golpeava Nugget novamente. A lança acertou Nugget na perna e ele ganiu. Leeli gritou e o Fang a golpeou com o cabo de sua lança, justo no momento em que seus irmãos surgiram na esquina — Tink na frente. Leeli os viu e começou a chutar o Fang com o vigor renovado. Janner se viu nas costas de Slarb, batendo nele com toda a força em torno do pescoço e dos ombros. Era a primeira vez que ele tocava num Fang, e ficou levemente surpreso com o quão fria e escamosa era a pele. Tink voou, passando pelo segundo Fang, e agarrou os braços de Leeli tentando puxá-la para longe. Slarb, com Janner em suas costas, sibilou e se debateu — suas longas e afiadas presas pingavam veneno que queimava ao toque. Nugget mordeu a perna do lagarto e não largou. O outro Fang agarrou Tink pelo colarinho da camisa e o lançou violentamente para trás e para o chão, onde ficou sufocando e segurando sua garganta. Leeli agarrou sua muleta, mas o Fang a arrancou dela e a quebrou em pedaços. Ela viu os pedaços de madeira, gravados com flores roxas, se esfarelando pelo ar. O Fang, então, caminhou até Slarb e chutou Nugget com força na barriga, fazendo-o voar com um gemido. O cachorrinho se chocou contra a parede de madeira e caiu imóvel. Slarb pegou Janner por cima do ombro, jogou-o no chão e, curvando-se sobre o pescoço do garoto com sua mandíbula escamosa bem aberta, expôslhe suas presas gotejantes prontas para a mordida. O segundo Fang desembainhou sua espada e a ergueu para acertar Tink. Leeli nada podia fazer, a não ser fechar os olhos e orar. Naquele momento, houve um baque surdo. Os olhos negros de Slarb rolaram para trás e ele caiu inconsciente, em cima de Janner. O segundo Fang teve tempo de ver que Slarb havia sido atingido na cabeça por uma pedra do tamanho de um punho, antes de sentir uma pedra se chocar contra sua própria têmpora. Ele cambaleou por um momento, depois desabou no chão. Tink estava lá, atordoado. “De onde vieram essas pedras?” — ele se perguntou, ofegante. As mãos de Leeli estavam cerradas com força e seus olhos ainda estavam fechados. Ela abriu um dos olhos, surpresa de que os três ainda estivessem vivos. Eles ouviram a voz abafada de Janner, debaixo do Fang, e Tink saiu de seu torpor. Depois de alguns arquejos, ele empurrou Slarb, e Janner se arrastou com um gemido, esfregando o pescoço no lugar onde o veneno ardente do Fang havia pingado. Janner correu até Leeli e ajudou-a a se levantar, inspecionando-a cuidadosamente. “Você está ferida?” Leeli estremeceu, mas balançou a cabeça, afastando o cabelo do rosto. Ela abraçou seus irmãos e sorriu através das lágrimas teimosas. “Nugget!” Ela gritou, e mancou até o pequeno amontoado negro. Um dos Fangs gemeu e se mexeu. “Precisamos sair daqui”, exclamou Janner. “Não queremos estar aqui quando essas coisas acordarem.” Leeli estava chorando, acariciando a cara de Nugget. “Leeli, temos que ir”, insistiu Janner, puxando-a para longe do cachorro. De repente, Nugget latiu e se levantou num salto. Pelos do pescoço eriçados, dentes à mostra, ele espreitou ameaçadoramente. Mas sua ferocidade se desmanchou quando viu Leeli, e ele começou a lamber seu rosto e abanar o rabo como se nada tivesse acontecido. Leeli lutou para se levantar e apontou para sua muleta arruinada. “Não vou a lugar nenhum com aquilo.” “Aqui”, prontificou-se Janner, esgueirando-se para o lado dela, tomando um de seus braços e colocando-o em volta do próprio pescoço. “Parece que você vai ter que nos deixar ajudar, pelo menos uma vez. Vamos!” — insistiu Janner, e eles se apressaram saindo do beco, deixando-o completamente vazio. Exceto, é claro, pelos dois Fangs caídos no chão, as duas pedras que os nocautearam e a figura misteriosa no telhado da barbearia de J. Bird, assistindo às três crianças Igiby fugirem. 9 A Trilha Glipper Quando voltaram para a rua aberta, duas das três crianças e Nugget se sentiram um pouco melhor. Leeli ficou feliz demais porque Nugget estava bem, Tink estava muito contente porque Leeli estava bem e Janner estava apavorado porque era o mais velho e havia começado a pensar no futuro. Ele sabia que Glipwood era uma cidade pequena e seria apenas uma questão de tempo — talvez horas, quem sabe apenas minutos — antes que o Fang chamado Slarb e seu companheiro se reportassem ao Comandante Gnorm. Então, coisas terríveis aconteceriam. “Temos que ir pra casa.” “Ah, Janner!” Tink choramingou, já pronto para a próxima aventura. “Não podemos ver os dragões? Todo mundo está lá, e assim que a lua nascer...” “Quando a lua nascer, você sabe o que vai acontecer?” Janner replicou veementemente. Leeli e Tink ficaram em silêncio enquanto caminhavam pela principal rua de Glipwood, então vazia. Janner tentou se acalmar. “O que vai acontecer, além da dança dos dragões-marinhos, é que aqueles dois Fangs vão acordar. E assim que despertarem, todos os Fangs em Glipwood estarão procurando por três crianças e um cachorrinho preto. Ah, e a garota tem uma perna aleijada. Agora me diga, você acha que eles terão dificuldade em nos encontrar?” Janner terminou, mais irritado do que quando começou. “O que faremos, então?” Leeli perguntou após uma longa pausa. “Mamãe estará nos penhascos vendo os dragões, e lá provavelmente será o primeiro lugar onde os Fangs nos procurarão. Podo sempre fica em casa no Dia dos Dragões. Então, é pra lá que vamos. Podo saberá o que fazer.” Janner olhou para o caminho que levava ao chalé. “Espero que saiba.” “Aqui.” Tink colocou o outro braço de Leeli em torno de seu pescoço e acelerou o ritmo. Nugget, com a feição bastante séria, trotava ao lado deles, como se também tivesse percebido que aquela era uma situação realmente ruim. A escuridão se aprofundava à medida que avançavam, apressados. Assim, quando ainda estavam à distância de um tiro de flecha da casa, eles já sabiam que seu avô não estava lá. Nenhum lampião queimava na janela, nenhuma fumaça saía preguiçosamente da chaminé. Janner parou — e Tink com ele — enquanto colocavam Leeli na grama, cada um se curvando para recuperar o fôlego. “Onde... você... supõe… que… ele está?” Tink, ofegante, perguntou pausadamente. “Não sei” — respondeu Janner, andando de um lado para o outro. “Talvez ele tenha ido ver os dragões este ano.” Tink estava em dúvida. “Mas ele nunca vai aos penhascos no Dia dos Dragões”, retrucou Leeli, intrigada. “Por que ele iria desta vez?” “E por que ele não estaria aqui no chalé?” Perguntou Tink. “Acho que devemos procurá-lo nos penhascos; então poderemos ver os dragões, afinal...” Um olhar de Janner o interrompeu. Janner olhou para o leste, na direção do mar. Talvez Tink estivesse certo. Talvez, por alguma razão, Podo houvesse decidido ver os dragões naquele ano. “Tudo bem” — cedeu ele. “Mas vamos pegar a trilha Glipper. Não podemos arriscar a estrada principal. Provavelmente, há Fangs em todos os lugares. De qualquer modo, a trilha Glipper é mais rápida.” Tink se queixou, mas Janner já estava ajudando Leeli em direção à trilha.1 Uma antiga trilha para caminhadas passava por entre as árvores atrás do chalé Igiby e serpenteava precariamente perto da beira dos penhascos. Nas sombras cada vez mais profundas, as crianças abriram caminho por entre as árvores. Quando elas emergiram, a vista era terrível e vasta. O xisto e a grama dura cobriam a orla rochosa da terra. O horizonte era silencioso e aberto, e um vento salgado soprava para cima, em torno de seus tornozelos e pelos cabelos. As crianças ficaram sem falar, tontas com a pequenez que sentiram ao olhar para o Mar Sombrio da Escuridão. Janner olhou para a direita e pôde ver uma trilha precária serpenteando sobre pedras e arbustos, levando para onde as pessoas estariam olhando os dragões. A Trilha Glipper permanecia quase nivelada em uma elevação estreita, enquanto o solo próximo à linha das árvores se elevava abruptamente acima deles. Arbustos e raízes rijos agarravam-se à parede de rocha como se também tivessem medo de cair. “Janner, eu não consigo!” Exclamou Tink. Ele estava de pé com as costas contra a rocha cinzenta — olhos cerrados. “Você precisa”, insistiu Janner. “Os Fangs que podem nos encontrar na estrada são mais perigosos do que esta trilha agora. Você tem que tentar, Tink.” Usando as pedras próximas como apoio, Leeli lançou-se para perto dele e pegou sua mão. “Vamos”, ela interveio. Tink afastou sua mão e forçou um sorriso. “Eu não estou tão preocupado assim comigo, sabe”, disse ele com uma bravata repentina. “Eu só quero dizer que, ah, acho que Leeli não deveria estar aqui.” “Ah, obrigada”, Leeli agradeceu ironicamente. Tink suspirou e desgrudou os dedos da pedra. Ele avançou atrás de Leeli e Janner, tomando cuidado para ficar o mais distante possível da borda. Conforme a luz se apagava, a trilha subia e se estreitava. Leeli escolhia seu caminho, mas Janner tinha que parar de vez em quando para que Tink reunisse coragem e conseguisse prosseguir. Janner olhava constantemente para trás, a fim de ter certeza de que Leeli era capaz de percorrer a trilha sem sua muleta. Com Nugget ao seu lado e toda espécie de raízes e pedras em que se agarrar, ela parecia mais estar dando um passeio no parque do que empoleirada sobre o Mar Sombrio. Finalmente, eles chegaram ao topo da trilha, onde esta se alargava em uma encosta gramada. Janner e Leeli tentaram não rir quando Tink irrompeu na frente deles e circulou em terreno seguro. Sua camisa estava encharcada de suor e ele se pavoneava como se tivesse acabado de ganhar uma corrida. À frente e abaixo deles, Janner viu o brilho das tochas onde a multidão estava reunida, a fim de ver os dragões. “Conseguimos”, comemorou Janner. “Tink, me ajude com Leeli.” Enquanto desciam a encosta em direção à multidão, a lua começou sua suave ascensão. Então eles ouviram o som mais dolorosamente lindo de toda Kistamos. 10 Leeli e a Canção dos Dragões Uma nota longa e calorosa, como o som de uma montanha bocejando, ergueu-se no ar e ricocheteou na superfície do céu. O eco profundo foi absorvido pelas altas árvores da Floresta Glipwood e foi respondido, um momento depois, por um som ainda mais alto, que parecia uma chuva suave. Até Janner esqueceu de se preocupar com os Fangs por um instante. Sentiu seu peito apertar e seus olhos arderem de lágrimas. “Rápido!” Apressou Tink. “Está começando!” Tink correu à frente, arriscando-se perto do penhasco. Seu medo de altura quase desaparecera. “Tink!” Janner chamou-o. Mas não havia como parar Tink — o som dos dragões o mudara de alguma forma. Janner até pensou, por um momento, que ele parecia diferente, corajosamente abrindo caminho ao longo do precipício. Janner e Leeli moveram-se o mais rápido que ousaram, até que conseguiram distinguir o aglomerado escuro de pessoas observando o oceano abaixo deles. A beira dos penhascos era entulhada de pedras, entre áreas de grama alta e lugares onde se podia sentar confortavelmente e observar o mar. O Mar Sombrio estava tão abaixo que parecia que se alguém caísse do penhasco, teria tempo de parar de gritar e tirar uma última e refrescante soneca antes de cair nele. Riscos brancos, minúsculos e silenciosos na superfície eram, na verdade, ondas caóticas, quebrando nas rochas irregulares abaixo. E o borrifo mais poderoso das águas era apenas vagamente visível, como a nuvem de poeira de um seixo atirado na areia. Janner e Leeli encontraram Tink sentado em um afloramento plano de rocha que se comprimia no centro. Eles ainda estavam a um tiro de flecha da multidão, o suficiente para satisfazer Janner quanto a estarem bem escondidos. À luz de uma lua agigantada, Tink inclinou-se sobre a borda, esforçandose para ver algo na água escura que estava abaixo deles. Como isso é possível, pensou Janner, quando, ainda esta manhã, Tink quase se molhou de medo no telhado de casa? De onde estavam sentados, podiam ver as imponentes Cataratas Fingap bem ao norte, rugindo sobre os penhascos e despencando no mar. Ao sul, os penhascos seguiam ao longe, onde por fim tornavam para trás e, numa inclinação descendente, abraçavam o Porto Shard, lar do Forte Lamendron, o maior posto avançado Fang em toda Skree. Era para lá que a Carruagem Negra carregava as crianças levadas à noite. Janner estremeceu e tentou não pensar no Forte Lamendron ou na Carruagem. Não foi difícil, porque a canção dos dragões estava aumentando em volume e tom. Escondido em sua fenda na rocha, Janner esqueceu-se dos Fangs. Ele se esqueceu da necessidade desesperada de encontrar seu avô e sua mãe. E, como Tink, ele esqueceu a precariedade das bordas altas dos penhascos enquanto se inclinava sobre o vazio e sentia seu coração arder. Tink foi o primeiro a enxergar os dragões-marinhos. Sua respiração ficou presa na garganta; ele não conseguia falar. Dando um tapinha com as costas da mão no joelho de Leeli, apontou. Ela e Janner também viram. Nas águas brancas e turbulentas na base das Cataratas Fingap, uma forma longa e graciosa irrompeu na superfície. Sua pele capturava e ampliava a luz da lua. O dragão-marinho tinha facilmente o dobro da altura da mais alta árvore da Floresta Glipwood. Seu corpo avermelhado brilhava como uma fogueira viva. A cabeça era coroada por dois chifres curvos e suas barbatanas, abertas atrás do seu corpo, eram como asas. Na verdade, parecia como se ele realmente pudesse voar, mas o dragão girou no ar e se chocou com o mar, ao que deve ter gerado um som semelhante ao de um trovão — mas foi inaudível devido ao rugido constante da cachoeira. Naquele momento, a canção do dragão ergueu-se no ar sobre um vento forte e encheu a multidão nos penhascos de mil sentimentos — alguns de paz, outros de estímulo, todos mais vivos do que o normal. Um homem de meia-idade chamado Robesbus Genteboa, que passou sua vida organizando os registros para o famoso comerciante de botões de Torrboro, Osbeck Osbeckson, decidiu que não iria passar mais um dia sequer trabalhando atrás de uma mesa; ele sempre quis velejar. O Sr. Alep Brume, que estava sentado ao lado de Ferínia Swapleton (proprietária da Floricultura da Ferínia), virou-se para ela e sussurrou que, secretamente, a amava por anos. O prefeito Blaggus jurou silenciosamente que nunca mais tiraria meleca do nariz.1 Toda a paixão, tristeza e alegria daqueles que ouviam se transformava numa rede comum de sentimento, que para Janner era como saudade de casa, embora não conseguisse imaginar por quê — ele estava apenas a uma curta caminhada da única casa que já conhecera. No entanto, os poucos Fangs azarados o suficiente para ficar de guarda nos penhascos ouviam apenas gritos, um lamento miserável que fazia seus dentes rangerem. Sua pele esverdeada estremecia e eles rosnavam e sibilavam para as pessoas mais próximas. Tink estava tão inclinado sobre a borda que parecia que poderia cair no mar. Tinha os olhos arregalados, a mandíbula cerrada e os nós dos dedos estavam brancos onde agarravam as rochas dos dois lados. Janner teve o estranho pensamento de que ele parecia a estátua de um rei, empoleirado ali, rígido e sereno demais diante da escuridão abafada. A canção prosseguiu, e mais dragões irromperam para fora d’água. Eles giravam no ar e ficavam lá por um instante, antes de pousarem de volta ao mar. Dezenas de dragões-touro com chifres, cintilando âmbar e ouro, nadavam em círculos ao redor das fêmeas, mais magras e elegantes. Estas irrompiam da água e os sobrepassavam em um padrão intrincado. Agora, nem mesmo o rugido das Cataratas Fingap era mais alto que o choque dos muitos dragões no Mar Sombrio. As notas da música se entrelaçaram e seguiram umas às outras, até que uma melodia assustadora emergiu. Janner pensou, como sempre pensava a cada verão quando os dragões vinham, que não poderia haver nada mais bonito em todo o mundo. Leeli estava imóvel como uma estátua, com as mãos cruzadas no peito. Janner ouviu um som sussurrante misturado com a canção dos dragões enquanto os lábios dela se moviam como se estivesse tentando lembrar-se das palavras de uma canção; ou como se estivesse orando. Seu olhar estava longe, descansando em algum lugar além dos dragões. Uma melodia suave e doce, cuja beleza Janner nunca ouvira antes, saía da boca de Leeli. Janner olhou para ela com admiração. Estava tão fascinado com aquela música que mal percebeu que, após um momento, era tudo o que ele conseguia ouvir. Os dragões silenciaram. Eles haviam interrompido a dança e estavam olhando para os penhascos. Embora estivessem a léguas de distância e a escuridão dificultasse a visão, Janner percebeu, com um estremecimento, que os dragões-marinhos estavam olhando para eles. Os dragões-marinhos estavam ouvindo. Ó holoré, deita-te baixo Holoél escuro nas Profundezas Abaixo da terra você vai Holoré vai rápido dormir Rápido dormir Rápido dormir Escura holoré nas Profundezas Levanta novamente holoré agora Abundante primavera holoél Torna verde o ramo moribundo Levanta a rocha onde Yurgen caiu Levanta a rocha Levanta a rocha Abundante primavera holoél.2 Um som arejado de suspiros e sussurros ergueu-se da multidão. Dentre todos os anos em que os dragões vieram, aquele era um momento inédito. Tink e Janner olhavam maravilhados para Leeli, que parecia não perceber a comoção silenciosa que estava causando. O vento carregou a voz de Leeli ao longo dos penhascos de modo que, para a multidão, parecia que a música vinha do próprio ar. Finalmente sua canção terminou. Leeli voltou a si e se concentrou nas bestas cintilantes abaixo dela, silenciosas e observando. Por um momento, o único som foi o vento, o mar e a cachoeira distante. Então, os dragões arquearam seus grandes pescoços, abriram suas barbatanas e vocalizaram uma resposta que fez Janner ranger os dentes. Ecoava a melodia de Leeli em uma triste e esperançosa repetição. Então parou. Os dragões foram embora tão rapidamente quanto vieram. A última barbatana desapareceu em um redemoinho prateado de água. Apenas o correr maçante e uniforme das Cataratas Fingap e o grito ocasional de uma gaivota interrompia o silêncio reverente. O Sr. Alep Brume assoou o nariz. Sussurros tornaram-se vozes abafadas, que finalmente se transformaram no tagarelar da multidão em pé, se espreguiçando e, logo em seguida, seguindo para o caminho de volta à cidade. Tinha acabado! Os dragões fariam seu caminho — assim as pessoas diziam — de volta ao sul, para as Montanhas Submersas, onde passariam o inverno. Tink ainda estava olhando o mar, para o lugar onde o último dragão havia sumido. Ele piscou várias vezes e, finalmente, saiu de seu próprio transe. Ele olhou para baixo e, com o rosto pálido, chiou como um floelho. Tink arrastou-se para trás e ficou ofegante, ainda no chão, a um metro e meio de distância, agarrando-se à grama como se o mundo pudesse tombar para um lado e jogá-lo borda afora. Leeli deu uma risadinha, a cabeça cheia de música. “O que foi isso, Leeli?” Janner perguntou. “Quem é Yurgen?” Ela encolheu os ombros, de rosto ruborizado. “Não sei. Acho que é uma música que mamãe costumava cantar para mim quando eu era pequena, ou qualquer coisa assim.” Ela franziu o rosto, pensativa. “Que estranho”, disse ela. “O quê?” “Não consigo mais me lembrar”, afirmou Leeli, olhando para o Mar Sombrio. “Bom, foi... muito bonito.” Janner não sabia mais o que dizer. Ele estava prestes a sugerir que procurassem Podo e sua mãe quando duas mãos frias o agarraram por trás. Janner foi girado violentamente para se ver cara a cara com Slarb, o Fang, que tinha uma ferida inchada e sangrava na têmpora escamosa. 11 Um Corvo Para a Carruagem As crianças Igiby ficaram congeladas. Mais quatro Fangs as cercaram com espadas em punho. “Tentem correr se quiserem”, ironizou Slarb com um sorriso que expôs seus dentes pontiagudos e afiados. “É uma longa descida até o mar. Tenho certeza de que aqueles terríveis dragõessss adorariam um lanchinho recheado após ssseu show idiota, não acham?” Dois dos Fangs agarraram Tink e Leeli. Com uma voz profunda e rouca, um deles disse: “O que’cê quer que façamosss cum elesss, Slarb? Jogá-losss por cima da borda ou trancafiálosss?” Slarb considerou a primeira opção por um momento. Sua língua bifurcada e arroxeada dançava sobre suas presas enquanto seus olhos frios iam das crianças para o penhasco, a poucos metros de distância. Janner olhou por cima do ombro de Slarb para a multidão se dissipando, pedindo para que Podo e sua mãe os vissem, onde quer que estivessem. Mas nenhuma das pessoas na multidão estava olhando em sua direção e, até onde conseguia ver, nenhuma delas era Podo ou Nia. Janner ficou furioso por ter se permitido à distração de não encontrar os dois adultos. Eles provavelmente estariam melhor escondidos na multidão, de qualquer maneira. “O Comandante Gnorm me disse para levá-los, mas este penhasco está tão perto e esses humanos são tão fedidosss, hein, Brak?” Sua língua flutuava a alguns centímetros do rosto de Janner. Não havia saída. Seria difícil escapar de um Fang. De cinco seria impossível. Era melhor ficar calmo e esperar que Slarb seguisse as ordens. Ser jogado na cadeia e depois mandado embora na Carruagem Negra era horrível, mas era melhor do que ser jogado no mar naquela hora, ali mesmo. Janner percebeu que Nugget há muito já havia sumido. Isso mostrou a real lealdade daquele cãozinho, ele pensava no exato momento em que o punho de Slarb atingiu sua têmpora, jogando-o no chão. Era a primeira vez que ele foi atingido com tanta força. Ele tinha sua cota de brigas com Tink, mas não era nada comparado à explosão de dor que sentiu enquanto gemia e lutava para se pôr de pé. Slarb bufou, enfurecido. “Que isso sirva de lição, garoto. Encoste em mim de novo e eu o devoro vivo.” Ele foi até Leeli, agarrou um punhado de seu cabelo loiro ondulado e jogou sua cabeça para trás. “O mesmo vale para você, garotinha fedorenta”, ameaçou ele, empurrando-a para o chão, ao lado de Janner. Tink se desvencilhou do Fang que o segurava e desferiu um soco contra Slarb, mas Slarb desviou o soco e, com o joelho, atingiu o estômago de Tink. Tink se dobrou e, ofegante, desabou no chão. Slarb curvou-se sobre ele e puxou uma faca. Com uma mão de escamas esverdeadas, segurou a cabeça de Tink contra o chão enquanto passava a ponta da lâmina suavemente pela bochecha de Tink. “E você, sua coisinha esquisita”, ele rosnou. “Lembre-se de Slarb com issso.” Ele jogou a adaga no ar, pegou-a pela lâmina e acertou a cabeça de Tink com o punho. Janner e Leeli se encolheram com o som que fez quando Tink gritou. Então ele cerrou os dentes e lutou contra as lágrimas quando uma pequena mancha de sangue emergiu de seu couro cabeludo. À vista do sangue, os Fangs ficaram agitados, sibilando e bufando como se o jantar tivesse acabado de ser servido. “Tragam-nos comigo”, ordenou Slarb, virando-se. Os irmãos foram colocados de pé e empurrados para a frente. Leeli tentou se levantar, mas sua pobre perna retorcida cedeu e ela desabou no chão. Janner abaixou-se para ajudá-la a se levantar, mas o Fang chamado Brak se colocou entre eles com um grunhido. “Eu deixava a pequena fedorenta se virar sozinha, se foss’ocê”, murmurou. “Ela não consegue andar sem ajuda!” Janner retrucou com veemência, e Brak mostrou suas presas para ele. “Deixe o menino ajudar essa aleijadinha, seu tolo. A menos que você queira carregar essa coisa fedorenta todo o caminho de volta à cadeia”, Slarb sibilou. O focinho de Brak se contraiu e seus lábios escamosos se curvaram com nojo, enquanto olhava para Leeli. Ele cedeu e Janner ajudou-a a se levantar. O lado do rosto de Janner estava latejando com o golpe, e acima da orelha de Tink um galo do tamanho de um ovo estava crescendo. Leeli chorava enquanto mancava, procurando por Nugget. A essa altura, a maioria dos turistas ou tinha ido para A Única Pousada, para jantar, ou para seu acampamento, na extremidade oposta da cidade, para cozinhar algo que compraram no mercado, naquele dia. Algumas pessoas circulavam pelas ruas iluminadas por lampiões, mas quando viam a procissão de cinco Fangs armados, carregando tochas e empurrando as três crianças assustadas, eles desviavam os olhos e se afastavam do caminho. O Comandante Gnorm era uma coisa gorda e escamosa, com olhos caídos e presas tortas, amareladas. Gostava de ficar ocioso no alpendre, na frente da cadeia, quase o tempo todo, afiando uma adaga e comendo o que quer que estivesse à mão. A mente de Janner estava acelerada. Eles tinham se metido em uma enorme confusão. As decisões do Comandante Gnorm eram tão sumárias quanto implacáveis e, pelo que sabia, estariam na Carruagem Negra, a caminho de Forte Lamendron, antes do nascer do sol.1 Eles foram empurrados escada acima até o alpendre da cadeia onde o Comandante Gnorm estava recostado em uma cadeira, nas sombras, afiando sua adaga. “Certo, pra dentro com eles”, comandou sem levantar o olhar. Os Igibys foram conduzidos a uma sala iluminada por lampiões e passaram por uma mesa cheia de ossos de peixes. Na parede de frente à escrivaninha, um alvo circular rudimentar havia sido pintado e várias adagas projetavam-se da parede. Quem quer que as tivesse atirado era perturbadoramente preciso. Slarb empurrou as crianças para outra sala, escura como um túmulo. A luz da tocha de Slarb revelou três celas e o chão coberto de feno e sujeira. Ele ergueu um molho de chaves da parede, abriu a porta gradeada e jogou as crianças numa das celas. Com um olhar de grande satisfação, ele trancou a porta, recolocou as chaves na parede e saiu. Tink e Leeli aninharam-se ao lado de Janner, no chão, como se estivesse frio, embora estivesse bem abafado. “Deixe-me ver, Tink”, Janner pediu, tomando a cabeça do irmão entre as mãos. Ele separou o cabelo de Tink e apertou os olhos na escuridão para ver o caroço, embora não tivesse ideia do que estava procurando. “Não parece tão ruim”, disse ele, tentando soar muito mais velho do que era. “Como está essa sua cara?” Perguntou Tink. “Vai ficar bem”, respondeu Janner, estremecendo ao tocar o hematoma que se formava em sua bochecha. Os irmãos se voltaram para Leeli. “Você vai ficar bem?” Janner perguntou. “Foi tudo culpa minha”, desculpou-se ela, limpando o nariz com o antebraço. “Sinto muito por nos colocar nessa confusão.” “O que aconteceu lá atrás, afinal?” Janner perguntou. “Enquanto vocês assistiam ao jogo de handyball, eu estava jogando um pedaço de pau para Nugget, perto do gramado, atrás da multidão. Um thwap despencou de uma árvore, bem na frente dele, e Nugget correu atrás. Eu os segui e, antes que percebesse, estava de volta à Rua Principal. Vi Nugget perseguir o thwap no beco, e quando ele virou a esquina, tropeçou naquele Fang.” “Slarb?” Perguntou Tink. “Sim. Acho que sim. E aquela coisa — Slarb — pegou Nugget e estava prestes a mordê-lo, então eu o chutei na canela.” Leeli disse isso como se fosse a coisa mais natural do mundo. “Você chutou um Fang?!” Os dois meninos perguntaram em uma só voz. “Bom, o que eu deveria fazer?” “Sei lá, mas é a coisa mais idiota que já vi”, constatou Janner. “E a mais corajosa”, complementou Tink. Leeli sentou-se com a cabeça baixa — os longos cabelos quase tocavam o chão sujo. “E a mais corajosa”, Janner concordou, após um momento. Leeli fungou e enxugou o nariz. “Shh...” Tink pôs uma mão nas costas da irmã. “Não foi sua culpa, sem chance. Foi aquele seu cachorro”, asseverou ele, tentando ser engraçado. Tink se arrependeu assim que disse aquilo. Leeli soluçou. “Não é normal ele fugir assim”, ela relatou, e enterrou o rosto no peito de Tink. “E se uma daquelas coisas horríveis o chutasse do penhasco?” “Ouça”, continuou Janner, “fique feliz que Nugget não está aqui conosco. Somos nós que estamos encrencados. Ou estamos prestes a ter o couro arrancado fora, ou seremos despachados para Dang. Prefiro continuar sem ver Dang, nem o Castelo Throg ou Gnag, o Sem-Nome, então vamos torcer pela tortura.” Quando a porta da cela se abriu, o Comandante Gnorm cambaleou para dentro com Slarb ao seu lado. Janner, Tink e Leeli levantaram-se e enrijeceram, enquanto Gnorm os olhava, tendo seus braços escamosos e esverdeados cruzados e apoiados em seu grande estômago, como se descansassem sobre uma mesa. Ele os examinou com os olhos negros e caídos. “Sssim, comandante”, disse Slarb, “são somente esses.” “E foram essas crianças que deram um jeito de deixar vocês inconscientes em um beco.” Gnorm virou-se para Slarb com um sorriso de escárnio. “Eles devem ser guerreiros valentes de fato, para derrotar dois Fangs de Dang armados”, constatou ele, sua voz profunda e úmida. Como lama borbulhante, pensou Janner. “Bem, senhor...” “Afinal, você seria curiosamente incompetente ssse são necessáriosss cinco de vocês pra trazer três crianças. Eu sento no meu traseiro verde o dia todo, ficando mais gordo a cada rato que devoro, e acredito que poderia açoitar essa ralé de olhos fechados. Você tem presas, não tem, Slarb, seu girino? E você diz que essas pedras vieram de lugar nenhum, não é? Uma pedrinha atinge sssua cabeça e vocês dormem como bebêsss na sujeira? Alguma velha mamãe veio colocar você na cama?” Slarb tentou intervir várias vezes, mas Gnorm ganhou ímpeto enquanto falava, até que Slarb ficou em silêncio, com as bochechas verdes inchando. Gnorm tinha a mão no cabo de sua adaga, ansioso por uma desculpa para sacá-la e enterrá-la na barriga macia de Slarb. Slarb não lhe deu oportunidade, entretanto. “Peço perdão, comandante. Minha incompetência é indesculpável”, desculpou-se Slarb, com a cabeça baixa. Gnorm sibilou, satisfeito com a humilhação. Ele se virou para sair, com um rosnado, sem perceber que, pelas costas, Slarb arreganhava suas presas. “E as crianças, sssenhor?” O gordo Fang parou na porta e virou o pescoço de costas, mirando as crianças Igiby, no chão da cela. Ele as considerou por um momento com seus olhos negros, caídos. “O que você gostaria de fazer com elas?” Slarb sorriu maliciosamente. “Comandante, se for do seu agrado, gostaria de torturá-las. Os chicotes, talvez?” O coração de Janner bateu forte. Tink apertou Leeli com mais força. “Você faria isso, agora?” Gnorm perguntou friamente. “Nesse caso, não toque neles. Se você tentasse chicoteá-los, provavelmente eles acabariam derrotando você. Vamos enviá-los para Dang, esta noite.” Ele riu enquanto se virava. “Envie um corvo para a Carruagem.” 12 Nada Parecido com Navios e Tubarões O portão se fechou com um baque e Janner sentiu seu coração cair como uma pedra atirada do penhasco no mar. De repente, um rosnado encheu o ar. Slarb arqueou as costas e abriu as mandíbulas de um modo praticamente impossível, expondo suas presas e cerrando os punhos. Janner podia ver os músculos rosados na boca de Slarb, a língua negra e úmida se contorcendo como um verme e, o pior de tudo, aquelas presas amareladas gotejando. Ele estremeceu ao pensar naqueles dentes venenosos mordendo sua pele, naquelas presas rasgando sua carne. Era fácil ver por que se dizia que nenhum Fang jamais havia sido morto por um humano. Carruagem Negra ou não, qualquer destino parecia melhor para Janner do que morrer nas mãos de Slarb. Ofegante, o Fang caminhou até o chaveiro, com um pouco de baba venenosa escorrendo do canto da boca. Ele arrancou o molho de chaves da parede, caminhou até o portão da cela e enfiou uma chave na fechadura, furioso quando a primeira não funcionou. Tink e Janner deslizaram Leeli para o canto de trás da cela, então ficaram na frente dela, imaginando o que eles poderiam fazer além de cerrar os dentes e lutar com tudo o que havia neles quando o Fang enlouquecido irrompesse pelo portão da cela. Mas Slarb nunca abriu a cela. A porta atrás dele se abriu e o corpulento Fang chamado Brak entrou pesadamente. “Olá, Slarbizinho.” Slarb se endireitou rapidamente e se virou, escondendo o molho de chaves atrás das costas. “Brak”, chamou ele, “eu já disse pra você não me chamar assim.” “Então, vamos deportar eles, hein?”, Brak perguntou com uma pitada de alegria. “Eu adoro ver eles se contorcendo quando colocamos na carruagem, né, SSSlarbizinho?” Slarb estava se esforçando para usar um tom de voz normal. “SSSim. Deportar todos eles.” Ele limpou a baba da boca com o antebraço e, casualmente, pendurou as chaves de volta na parede. “Enfim, provavelmente é pior pra eles no longo prazo”, debochou ele com um sorriso malicioso, voltando seus olhos negros para as crianças. “Muito pior no longo prazo.” Os dois Fangs deixaram a sala. Janner e Tink desabaram no chão ao lado de Leeli. “Temos que descobrir uma maneira de sair disso”, apressou Janner, tentando novamente soar mais velho do que realmente era. “Se há algo que Podo me ensinou, é que sempre há uma saída.” “Mas aquele é o vovô, um homem de uma perna só brincando de Navios e Tubarões1 com crianças pequenas”, disse Tink. “Agora não estamos num jogo.” “Eu sei que não é um jogo, Tink. Mas não adianta nada discutir com alguém maior do que você.” Janner deu um soquinho amigável no ombro de Tink. No fundo, Janner não tinha a menor ideia de como eles sairiam daquela enrascada — e, na verdade, ele temia que não conseguissem sair dela. Mas, como o mais velho, ele sentia a necessidade de manter o ânimo. Pelo que Janner já tinha ouvido falar, pessoas muito maiores e mais corajosas foram forçadas a entrar na Carruagem Negra; então, por que eles não seriam? Essas pessoas maiores e mais corajosas nunca mais foram vistas; então, por que justamente eles seriam? Janner só sabia que era melhor estar numa cela da cadeia dos Fangs com um pouco de esperança do que sem nenhuma. Leeli adormeceu com a cabeça no colo de Tink e, logo depois, Tink também adormeceu. Janner caminhou pela cela por horas, imaginando o que Podo e Nia estariam fazendo. A essa hora, eles já deviam saber que as crianças tinham desaparecido, e provavelmente souberam pelos habitantes da cidade que as crianças estavam na cadeia. Ele se ergueu usando as barras da janela alta, mas deu de frente para os sombrios fundos da cadeia. Não havia nada para ver. O portão da cela estava bem trancado e as chaves, fora de alcance. Não havia nada a fazer a não ser esperar. Tink estava certo: não se tratava de Navios e Tubarões, e talvez não houvesse uma saída. Janner gostaria de conseguir dormir como Tink e Leeli, mas sua ansiedade o impedia. Ele tentou pensar em qualquer coisa que não fosse a temida Carruagem Negra, que avançava pela colina escura e o vale estrelado até Glipwood. Pensou em como seu café da manhã havia sido bom naquela mesma manhã e em quão aconchegante era a lareira do chalé Igiby, aninhado sob os galhos das árvores de Glipwood. Seu coração estava triste por Podo, seu querido avô desarrumado, que perdera a esposa na Grande Guerra. Ele estava triste por sua mãe, a quem a Grande Guerra havia tornado viúva. Agora teriam perdas, novamente, tudo porque ele não conseguira cuidar de Leeli. Janner suspirou e encostou-se na parede com a cabeça baixa, pensando em seu pai. Ele desejou, mais do que nunca, estar velejando em um barco em mar aberto e pensou em pegar mais uma vez o retrato de seu pai, antes de perceber que não haveria como vê-lo no escuro. Certamente seu pai saberia como escapar daquela cela sombria e da terrível viagem na Carruagem Negra. Ou, se ainda estivesse vivo, certamente viria em seu socorro. Mas o jovem Janner Igiby não tinha pai nem muita esperança, com o irmão e a irmã, naquela cela vazia e horrível. Leeli ergueu a cabeça e olhou para a janela. “Ouviram isso?” Perguntou ela. Tink acordou assustado e disse: “Passa o molho”. “Acho que é Nugget”, cogitou. “Nugget! É você, garoto?” Três pares de olhos se voltaram para a janela. As crianças escutaram. Eles ouviram um gemido e um som angustiado, algo entre um latido e um uivo. Janner ficou feliz, embora não soubesse por quê. Não havia muito que um cachorro pudesse fazer por eles naquela situação difícil, mas saber que Nugget estava lá tornava a esperança mais plausível. Então, eles ouviram as vozes de Fangs discutindo, na sala da frente da cadeia. Uma das vozes — talvez Slarb — foi interrompida por um baque e um estrondo. O Comandante Gnorm resmungou algo sobre obedecer às ordens e logo em seguida passos soaram em direção à porta. A porta se abriu para revelar a silhueta rechonchuda de Gnorm. Janner viu Slarb esparramado no chão por trás do comandante. Pela segunda vez naquele dia, por causa das crianças Igiby, a cabeça de Slarb havia se encontrado no caminho de um objeto rombudo. Gnorm tirou as chaves da parede e destrancou o portão da cela. “Vocês são muito sortudas, crianças”, ele murmurou. “Alguém acha que vocês valem alguns brilhantes.” Ele balançou seus dedos rechonchudos na direção deles. Estavam cravejados com quatro anéis de ouro e joias que antes não estavam lá. Braceletes brilhantes cobriam seu antebraço e um medalhão de ouro em uma corrente de prata pendia de seu pescoço. As joias pareciam deslocadas em uma criatura tão feia. Gnorm abriu o portão e acenou para as crianças. “Então... podemos ir?” Janner perguntou timidamente. “Sim. Fora da minha vista!” Comandou impacientemente. Gnorm admirava suas novas joias enquanto as crianças saíam. Mas quando Janner passou por ele, o Fang o agarrou pelo rosto e o puxou para perto. O rosto largo do Fang preencheu a visão de Janner. Ele viu seu reflexo apavorado nas poças negras e vazias dos olhos odiosos do Fang, e sentiu suas garras cravadas em suas bochechas. “Toque em um dos meus soldados de novo e mil baús de ouro não vão salvar você nem sua família”, alertou Gnorm com um sussurro ameaçador. Ele empurrou Janner para longe com tanta violência que ele caiu. Tink o ajudou a se levantar, sem ousar olhar para o Fang ou dizer uma palavra. Os meninos ajudaram Leeli a passar pelos soldados, por Slarb, que a essa altura já havia se levantado do chão e fervia de raiva enquanto observava as crianças saírem ilesas. À luz fraca de um lampião, no meio da rua, estava sua mãe, Nia, cujo rosto estava pálido como o luar. 13 Uma Canção Para a Ilha Brilhante Janner, Tink e Leeli desceram os degraus de madeira para a rua empoeirada, olhando cuidadosamente de lado para os Fangs que espreitavam no alpendre. Janner mal podia acreditar que eles estavam livres. Seria algum tipo de truque? O Comandante Gnorm cambaleou porta afora e se deixou cair na cadeira do pórtico, ainda admirando as joias brilhando em sua mão. Com Leeli entre eles, os meninos caminharam lentamente até a mãe, cujos olhos estavam marejados. “Vamos para casa”, ordenou ela com uma voz forte enquanto colocava os braços em volta dos filhos e se afastava cuidadosamente dos Fangs. Eles desceram a rua em silêncio, como se tivessem tropeçado em um dragão adormecido e relutassem em perturbá-lo. Janner queria correr, ficar o mais longe possível dos Fangs e da cadeia o mais rápido que pudesse. Todas as crianças se sentiam assim, mas Nia, percebendo isso, as conteve. Ela conduziu os filhos pelas ruas vazias de Glipwood com a postura ereta e a cabeça erguida. Uma risada baixa veio de A Única Pousada, os postes de luz tremeluziam em amarelo; o vento levantava redemoinhos de poeira semelhantes a fantasmas ao luar. Quando já haviam avançado bastante ao longo da estrada e estavam fora de vista da cadeia, Nia finalmente falou. “Não sei o que teria feito sem vocês.” Ao som da voz dela, Janner sentiu uma onda de alívio, como se estivesse prendendo a respiração debaixo d’água e sua mãe o tivesse puxado para a superfície. “Eu simplesmente não sei o que teria feito”, repetiu. Ela se ajoelhou, juntando-os e abraçando-os com força. Leeli ergueu os olhos e viu Nugget correndo em sua direção. Em poucos segundos ele estava em cima dela tão rápido quanto um raio, ganindo e abanando o rabo freneticamente, lambendo não apenas Leeli, mas todos eles onde quer que encontrasse um pedacinho de pele descoberta. Leeli riu e caiu para trás enquanto abraçava o pescoço de Nugget. “Onde você estava, garoto?” Perguntou a menina, esfregando seu pescoço e os lados do rosto. “Por que você nos deixou daquele jeito?” “Procuramos por vocês nos penhascos”, Nia explicou. “Seu avô e eu estávamos preocupados. Mas havia tantas pessoas lá. Esperamos até depois da canção dos dragões e da maioria da multidão ter ido embora, mas ainda não encontrávamos vocês. Corremos de volta para casa, pensando que talvez tivéssemos nos desencontrado...” Nia se inclinou para o cachorrinho preto nos braços de Leeli. “Foi quando o pequeno Nugget aqui nos encontrou. Ele me levou até a cadeia.” Ela coçou atrás das orelhas de Nugget. “Eu fiz seu avô ficar em casa. Ele teria feito a cadeia em pedaços e lutado com um exército de Fangs para trazê-los de volta, mas isso teria acabado matando todos nós. Então eu vim sozinha.” “De onde vieram aquelas joias?”, Janner perguntou. “Aquelas nas mãos do Gnorm.” Nia olhou para trás em direção à cadeia. “Estavam guardadas para uma emergência”, ela respondeu como se não fossem nada de mais e, olhando nos olhos de Janner, afirmou solenemente: “Isso foi uma emergência”. “Mas onde você as conseguiu?” Tink perguntou. “Tinha muito ouro.” Nia suspirou. “Com seu pai.” Nia se virou para Janner, claramente querendo mudar de assunto. “Seu rosto.” Ela tocou o ponto machucado e ensanguentado. “Eles bateram em vocês?” Janner anuiu. Nia inclinou a cabeça de Janner em direção à luz para ver melhor, depois beijou sua bochecha. Janner fez uma careta e se esquivou, embora secretamente gostasse da sensação calorosa que o beijo de sua mãe proporcionava. Ele queria fazer mais perguntas sobre as joias de seu pai, mas sua mãe já havia se afastado. “E você, querida?” Nia perguntou a Leeli. “Estou bem, mamãe.” Nugget estava deitado de costas, na poeira, com a língua para fora enquanto Leeli esfregava sua barriga. Tink mostrou à mãe o caroço em sua cabeça, e ela o beijou, com o rosto consternado. “Você viu os dragões, mãe? Você viu como eles pararam e ouviram quando Leeli começou a cantar?” Janner perguntou. Nia pareceu surpresa, mas se recompôs rapidamente. “Foi você, querida?” “Sim, senhora.” Nia sorriu para Leeli e colocou a mão em seu cabelo. “Foi lindo.” “Mas por que os dragões fariam aquilo?” Perguntou Janner. A resposta de Nia foi um encolher de ombros. “E por que Gnorm simplesmente não pegou as joias e nos matou, afinal?” Ele sentia como se cada pergunta levasse a outra, e sua cabeça estava um turbilhão de dúvidas. Nia segurou os ombros de Janner e o olhou diretamente nos olhos. “Porque eu disse a ele que faço o melhor rocambole de vermes dos quatro mares e que, se ele deixasse vocês saírem, eu o faria para ele todo terceiro dia da semana, assim que a carne tivesse o tempo necessário para apodrecer. Eu disse a ele que tinha uma receita secreta que envolvia suor de porleitão. O ouro era apenas para chamar a atenção dele, entende? Fangs têm uma queda por joias.”1 “Você sabe fazer rocambole de verme?” Tink perguntou. “Na verdade, não faço ideia. É melhor que eu aprenda”, respondeu sorrindo. “Agora, chega de perguntas de vocês três. Janner, o que aconteceu com o seu pescoço?” Ela o virou novamente para a luz do lampião a fim de ver a mancha vermelha brilhante em seu pescoço, onde o veneno de Slarb pingara sobre ele. “Veneno de Fang. Daquele chamado Slarb”, Janner respondeu, tocando o pescoço com as pontas dos dedos. “Aquele que atacou Leeli.” “Então foi isso que aconteceu”, Nia constatou. “Por que ele te atacou?” Nia colocou um braço em volta da filha manca, que contou os acontecimentos, com Janner e Tink adicionando partes enquanto os Igibys continuavam subindo a estrada. Nia ouviu até Janner contar sobre as duas pedras que atingiram os Fangs no beco. Ela parou de andar. “E vocês não viram ninguém? Nenhum sinal de quem possa ter jogado as pedras?” “Ninguém.” Janner parecia confuso. Ele viu a testa de sua mãe franzir enquanto continuavam andando. Sua cabeça zumbia com perguntas. Onde ela havia escondido todas aquelas joias — o suficiente para comprar metade da cidade de Glipwood? E por que ela escondeu o segredo da família todos esses anos? Eles não poderiam ter usado apenas uma parte das joias para tornar suas vidas um pouco mais fáceis? Janner nunca tinha visto tanto ouro em um só lugar, e o pensamento de que aquelas joias estiveram em sua família todos esses anos o fez... o quê? Bravo? Grato? Janner não sabia o que sentir, como se seu lado de dentro estivesse tão destrambelhado quanto o de fora. Todo aquele ouro, todas aquelas pedras preciosas, tudo estava perdido. Não, não perdido: adornando os dedos e pulsos do Comandante Gnorm. Janner se perguntou o que sua família precisava e não tinha, contendo-se ao perceber que não havia nada. Ele teve que admitir para si mesmo que sua mãe e Podo forneciam tudo de que precisavam. As joias não teriam mudado nada, exceto que, sem elas, Janner ainda estaria sentado naquela cela com os seus irmãos. Ainda assim, ele pensou, olhando de soslaio para a mãe, o que mais ela está escondendo? Mas seu turbilhão de pensamentos foi interrompido pelo som de alguém cantando. No gramado em frente à casa do velho Charney Baimington,2 queimava uma pequena fogueira. Várias pessoas se acomodavam ao redor dela, ouvindo Armulyn, o Bardo cantar. O brilho laranja do fogo iluminava seu rosto e projetava uma grande sombra na casa, atrás dele. Armulyn estava cantando uma canção de Anniera, e seus olhos pareciam brilhar com luz própria enquanto olhava para além da escuridão ao seu redor. Era como se ele pudesse ver, bem à sua frente, a própria bela ilha, com seu reino de marinheiros e poetas, suas altas montanhas verdes e vales sombreados, a brilhante cidade onde um bom rei uma vez reinou e o povo cantou nos campos enquanto fazia a colheita. De alguma forma, Janner sentiu que era mais do que apenas uma canção. Armulyn transcreveu seus sonhos secretos em música. Janner se sentiu levado para aquelas montanhas e viu a mesma coisa nos rostos ao redor da fogueira. A canção terminou e por um momento, antes dos aplausos, o pequeno grupo de ouvintes ficou em silêncio. Janner ergueu os olhos para ver que o rosto de sua mãe estava molhado de lágrimas e que ela, como o bardo, estava olhando para longe. “Por que você está chorando?”, Janner perguntou, apertando a mão dela. Nia teve um leve sobressalto, como se o filho tivesse acabado de acordá-la de um cochilo. Ela sorriu para ele. “Não é nada, filho. E por que você está chorando?” Janner não tinha percebido, mas suas bochechas também estavam molhadas. “Tem alguma coisa no modo como ele canta. Me faz pensar em quando neva lá fora, o fogo está aconchegante e Podo está nos contando uma história enquanto você está cozinhando, e não há nenhum lugar onde eu preferisse estar — mas, por algum motivo, ainda sinto... saudades de casa.” Janner olhou para baixo, constrangido. Tink e Leeli ficaram em silêncio, pois Janner havia falado o que ambos também sentiam. Armulyn, ainda descalço, estava apertando as mãos e acenando timidamente com a cabeça em resposta aos elogios das pessoas. Ele pegou sua harpa eólica e se despediu, caminhando em direção a Janner e sua família. Nia respirou fundo e rapidamente conduziu as crianças pela estrada escura. “Mamãe, não podemos conhecê-lo?” Tink perguntou, virando o pescoço de costas para Armulyn, que se dirigia diretamente para eles. “Não, é hora de voltarmos para casa. O vovô vai ficar muito preocupado.” “Mamãe, por favor?” Leeli insistiu. “Eu disse não.” Nia acelerou o passo. Leeli, mesmo com a mão de Nia em seu braço, perdeu o equilíbrio e caiu. Nia parou para ajudá-la a se levantar, desculpando-se enquanto limpava a sujeira do vestido de Leeli. “Gosto do seu cachorro”, uma voz gentil e rouca disse atrás deles. As crianças congelaram. Nia parou de limpar o vestido de Leeli e se endireitou. Ela deu a volta para encarar a silhueta de Armulyn, o Bardo. Ele estava curvado, dando tapinhas na cabeça de Nugget. Janner e Tink ficaram sem palavras. “Obrigado. O nome dele é Nugget”, disse Leeli, e se apressou até onde Nugget estava sentado, abanando o rabo. Ela olhou para a silhueta ensombrada do bardo. “Eu gosto do seu canto.” “Ah, obrigado, princesinha”, Armulyn agradeceu, agachando-se na frente dela. Nia ainda estava estranhamente calada, parada um pouco atrás deles. Armulyn estendeu a mão para Leeli. “Meu nome é Armulyn. Não gosto daqui”, disse ele com um sorriso que Janner mal conseguia ver no escuro. Leeli sorriu para ele, sem se incomodar com a estranha observação. “Meu nome é Leeli. Não consigo andar muito bem.” Ao ouvir o nome dela, o sorriso de Armulyn desapareceu e ele se inclinou um pouco mais perto para ver melhor seu rosto. Ele olhou para Nia e os meninos, que ainda não haviam se movido. “E quem são vocês, pessoas gentis?” “Nosso nome é Igiby”, Nia respondeu rispidamente. Ela se aproximou rapidamente de Leeli e, puxando-a para longe do bardo, cortou a conversa: “Tenha uma boa noite”. Nia conduziu as crianças mais uma vez para casa, deixando Armulyn parado no meio da estrada, olhando para a família. Enquanto se aproximavam de casa, aconchegantemente aninhada entre as árvores, eles puderam ver lampiões acesos nas janelas. Vaga-lumes cintilavam no ar noturno e Danny, o cavalo de carga, relinchou no pasto. Janner sentiu outra onda de alegria por não estar morto ou, ainda pior, preso na Carruagem Negra. Antes de chegarem à porta, ela se escancarou. A figura alta de uma perna só, ou seja, de Podo, preencheu o vão. Ele tinha um porrete maciço em uma das mãos e brandia uma colher de pau na outra. “Onde em todo esse enorme mundo devorador de cabra vocês tavam, vagando pelas divertid’encostas enquanto eu tava aqui roendo minhas gengivas?!?! Vocês todos marchem logo até aqui co’esses pés encharcados antes qu’eu arranque suas tripas e cozinhe num…” A torrente de seu avô durou pelo menos dois minutos e teria durado muito mais tempo, mas as crianças se libertaram de Nia e dominaram o grande homem com abraços. Tanto o porrete como a colher mortal caíram no chão, e ele quase tombou, mas anos de prática com uma perna só haviam tornado Podo Helmer bastante ágil. Num instante, ele deu uma chave de braço em Tink e cutucou suas costelas com um de seus dedos retorcidos e calejados, enquanto Janner e Leeli tentavam derrubá-lo no chão. Finalmente, ele cedeu e caiu para trás dramaticamente, gritando o tempo todo sobre crianças podres e seu desrespeito aos mais velhos. Eles caíram no chão sob a luz do fogo crepitante da lareira até que a disputa acabou e o velho se levantou com um gemido. Sem fôlego e suando, Podo sorriu para eles e tirou uma mecha teimosa de seu longo cabelo branco dos olhos. “Cês vão querê um pouco da minha caldeirada de queijo com pão de manteiga, não vão, meus pequenos guerreiros?”, perguntou o avô, ofegante. “Tá fervendo a noite toda, junto com mil orações pra que vocês voltassem pro seu Podo, seguros e não devorados.” À menção de comida, Tink gemeu de prazer e desapareceu cozinha adentro, esfregando o estômago. Podo colocou Leeli nas costas e a carregou. “Perdeu sua pequena muleta, hein? Faremos outra pra você quando o sol raiar”, disse enquanto a porta da cozinha se fechava por trás dele. Janner observou Nia, cansada, fechar e trancar a porta da frente. Ela baixou a cabeça e sussurrou uma oração de gratidão. “Eu te amo, mãe”, declarou Janner, empurrando para baixo o nó em sua garganta. “Lamento ter perdido a Leeli...” “Shh. Está tudo bem”, consolou Nia. “Você se saiu bem, filho.” E com um sorriso cansado ela o conduziu para a cozinha. 14 Segredos e Caldeirada de Queijo Janner se juntou a Leeli e Tink à mesa para devorar a caldeirada de queijo. Depois do dia que teve, aquela parecia a melhor refeição que ele já havia comido. Um caldeirão de sopa fumegante encheu a cozinha com um aroma rico e amanteigado, e um pão de manteiga fresco foi cortado e posto sobre a mesa. Janner levantou-se para encher sua tigela (Tink já havia comido três) e ouviu um trecho da conversa entre Nia e Podo, no cômodo ao lado. “O que, em nome das algas fedorentas e da salada azeda, aconteceu com os pestinhas?!” Podo demandou saber, batendo seu porrete no chão de tábuas. “Bom, papai, sua netinha se distanciou. Eu disse que não me sentia bem em deixá-los ir sozinhos à cidade. Janner e Tink não perceberam que ela se foi...” “O quê?! Se eu tivesse falado só uma vez pra esse menino! Eu falei trocentas milhões de vezes! Ele tem que tomar conta deles e...” “Calma, papai. Eles estão seguros. Isso é o que importa, agora.” Uma longa pausa. O rosto de Janner ardia de vergonha. “Sim, sim. Ele ainda não passa de um garoto. Eu não devia ter deixado eles irem sozinhos para a cidade, não em um dia como este. Mas, então, o que aconteceu?” “Leeli tentou proteger Nugget de um Fang. Ela o chutou.” “O cachorro?” “O Fang.” “Ela o quê? Minha pequena guerreirinha teve a doce ousadia de partir pra cima de um Fang?” Janner não podia ver Podo, mas sabia que ele estava sorrindo orgulhosamente, com suas espessas sobrancelhas levantadas. Ele também sabia que a expressão de sua mãe era de desaprovação. Em segundos, Podo pigarreou e disse gravemente: “Ela fez isso, hein? Criança imprudente. Ela devia pensar melhor”. “E os meninos tentaram salvá-la”, Nia prosseguiu. “Aha!” Podo trovejou e Janner abriu um sorriso. Podo pigarreou novamente e disse em um sussurro alto: “Eu sabia que aqueles garotos tinham um fogo nas entranhas! Dois mirradinhos lutando contra os Fangs de Dang! Tô dizendo que eles têm o rugido e os lombos do velho Podo neles! Se o pai deles pudesse ver seus meninos agora...” Janner parou de sorrir, assim como Podo silenciou. Um silêncio pesado se instalou entre eles. “Desculpe, moça”, remendou-se Podo após um momento. Ele ficou subitamente afetuoso, de uma forma que surpreendeu Janner. “Continue”, Podo pediu a Nia. “O que aconteceu, então?” Nia respirou fundo. “Não tenho certeza, mas acho que tenho um palpite. As crianças disseram que alguém atirou duas pedras que acertaram os Fangs. Eles não viram de onde as pedras vieram. Então eles correram para nos encontrar. Foi só depois que os dragões cantaram que eles foram capturados e levados para a cadeia.” Novamente, nenhum dos dois falou por um instante. Podo quebrou o silêncio. “Bom, macacos me mordam, querida, você acha que foi... ele?” A voz de Podo baixou repentinamente e Janner ouviu seu próprio coração acelerar. Ela acha que foi quem?, o mais velho dos três irmãos se perguntou enquanto se afastava do fogão e pressionava o ouvido contra a porta. “Não sei”, respondeu Nia, “mas certamente soa como algo que ele faria.” Houve outra longa pausa. “Quem quer que tenha sido, estou grata. As crianças estão vivas.” Janner percebeu pelo tom de sua mãe que o assunto havia acabado. “Jnnmr, memnhê mais caldmmunhad” Tink murmurou, da mesa. “Hã?” Janner retrucou, virando-se um pouco rápido demais. Tink engoliu a bocada de comida e arrotou alto. “Viu, já que você tá de pé, me serve mais sopa?” Imerso em pensamentos, Janner encheu a tigela de Tink e voltou a se sentar à mesa. Leeli estava alimentando Nugget com pedaços de comida e Tink não percebia nada além da tigela de sopa fumegante na frente dele. Janner pensou em cada detalhe daquela tarde, sem conseguir sequer uma pista sobre quem poderia ter jogado aquelas pedras. O beco era tão comprido que quem quer que as tivesse atirado, tinha que ser um excelente atirador. Apenas duas pedras foram lançadas, e ambas acertaram na mosca seus alvos — e vieram no último segundo. Como era possível? E como que Podo e sua mãe tinham noção de quem era o misterioso atirador de pedras? De repente, com um estrondo e um rosnado de pirata, Podo irrompeu na cozinha. “O que é isso que ouvi sobre pequenos e bravos renegados tocando o terror nos lagartos locais?!” Ele bradou. Podo mancou até Leeli e a arrebatou com um de seus gigantescos braços tatuados, jogando-a sobre os ombros enquanto ela gritava e batia de brincadeira em suas costas. “Agora venham cá, rapazes e mocinha, e contem uma história que me fará estremecer dentro das botas.” Podo chutou a porta com seu toco de madeira e carregou Leeli para fora da cozinha como uma donzela sequestrada. Janner e Tink sorriram um para o outro e saíram da mesa, Tink com a boca cheia de pão de manteiga e Janner com a cabeça cheia de perguntas. 15 Dois Sonhos e Um Pesadelo Naquela noite, depois de contar quatro vezes a história para Podo, as crianças dormiram. Tink sonhou com dragões-marinhos e torta. Leeli sonhou com dragões-marinhos e cães. Janner sonhou com dragões-marinhos e seu pai. Janner teve um dos pesadelos que costumava ter com o pai, e tudo que conseguia lembrar pela manhã eram um barco e o fogo. Havia outro sonho, no qual ele quase podia ver o rosto de seu pai, um sonho cheio de luz dourada e campos verdes. Esse sonho brilhante o enchia com os mesmos sentimentos que a música de Armulyn havia produzido na noite anterior, sentimentos que, de alguma forma, doíam e eram bons, tudo ao mesmo tempo. Mas naquela noite em específico ele havia se debatido na cama com o calor do fogo do sonho ao seu redor, rugindo em seus ouvidos. Quando Janner acordou, estava suando, mas os pássaros cantavam e a luz dourada do amanhecer entrava pelas janelas. Parecia que os eventos do dia anterior eram parte de seu pesadelo, e o mundo de sua cama quente e do velho e robusto chalé, tão cheio de vida, era o único real. Os Fangs pareciam tão perigosos quanto as cobras daninhas. Janner espreguiçou-se e se sentou na beira da cama. Alegres raios de sol tocavam o chão e espalhavam as sombras. Encostada na cama de Leeli estava uma pequena muleta, recém-feita, que Podo devia ter passado a maior parte da noite preparando. Gravada no encaixe do apoio, em letras pequenas e elegantes, estava a inscrição Leeli Igiby: A Chuta-Lagartos. Janner podia ouvir o barulho de Nia preparando o café da manhã na cozinha, cantarolando em tons abafados. Ele sorriu para si mesmo, espreguiçou-se outra vez e entrou vagarosamente no cômodo principal, onde se deitou no sofá almofadado, bocejando enquanto coçava a cabeça. Ele estava olhando para as vigas no teto, deixando o recente fogo na lareira aquecê-lo, quando ouviu o familiar tump-pam, tump-pam, tump-pam de Podo se aproximando da frente da casa. Janner o ouviu resmungar para si mesmo antes de a porta se abrir. “Roedores podres e fedorentos... onde já se viu tocarem meus pés de totatas... sorte deles eu só ter uma perna, esses, esses comedores de minhocas, mordedores de tornozelo...” Janner espiou por cima do encosto do sofá para ver Podo mancando porta adentro com um saco cheio de vegetais sobre o ombro, com a bota e a perna de pau molhadas de orvalho. O resmungo recomeçou quando Podo passou pela porta da cozinha. Janner mal foi capaz de conter o riso. Quando a porta se fechou, o cheiro de ovos com bacon invadiu a sala e o estômago de Janner roncou. Assim que se levantou do sofá, ele ouviu a batida de Tink pulando de seu beliche para o chão, bem sincronizado com o café da manhã. Quando Janner entrou na cozinha, sua boca estava salivando. Sobre a mesa havia três pratos de comida quente. Sua mãe sorriu para ele do fogão, onde estava fritando mais ovos com bacon. “Bom dia, engaiolado.” A porta dos fundos estava entreaberta e Podo já estava cambaleando pelo campo em direção ao jardim, resmungando algo indecifrável. Janner sentou-se à mesa e mergulhou em sua comida no momento em que Tink passou cambaleando pela porta da cozinha e foi direto para sua cadeira. Nia deu uma beijoca na bochecha de cada um. “Leeli vem?” Ela perguntou. Tink assentiu, com a boca cheia de bacon. Leeli entrou pela porta e esticou-se tanto que a camisola subiu até às canelas. Nugget passou trotando por ela para sair pela porta dos fundos, ansioso para ajudar Podo na perseguição furiosa aos thwaps. Leeli cumprimentou seus irmãos com um leve tapinha nos ombros de cada um, enquanto passava com a Chuta-Lagartos de Podo. Tink e Janner resmungaram, com a boca cheia de bacon. “Vejo que você tem uma nova muleta, querida”, Nia observou. Janner e Tink repentinamente notaram a irmã e a elogiaram, entre goles de leite. “Vocês três dormiram tarde, então comam rápido e se vistam. O Festival do Dia dos Dragões acabou e a vida volta ao normal hoje”, asseverou Nia, colocando um prato de comida na frente de Leeli. “Suas tarefas e estudos estão esperando.” Janner achou que sua mãe parecia cansada, o que era estranho, já que sempre tinha a sensação de que ela estava acordada por horas antes de ele entrar para tomar café. Havia algo em seus olhos — seria preocupação? — e ela parecia se mover um pouco mais devagar. Mas quando ela colocou mais duas fatias de bacon quentinho em seu prato e bagunçou seu cabelo, ele decidiu que provavelmente não passava de sua imaginação. Desde que eles podiam se lembrar, Nia ensinou às crianças o que ela chamava de T.A.N.E.G.1 Janner estudava escrita e poesia. Tink passava seu tempo pintando e desenhando. Leeli aprendia a cantar e a tocar a harpa eólica. Tink perguntou à mãe, certa vez, o que havia de tão tradicional em aprender o T.A.N.E.G., sendo que nenhuma outra criança em Glipwood era forçada a passar horas e horas desenhando repetidas vezes a mesma árvore, de ângulos diferentes. “Você é um Igiby”, respondeu ela, como se isso respondesse à pergunta. Nenhum outro garoto em Glipwood teve que ler tantos livros antigos ou escrever tantas páginas quanto Janner, e nenhuma outra garota na cidade sabia tocar um instrumento. Todas as três crianças tinham alguma proficiência em cada um dos T.A.N.E.G., mas passavam a maior parte do tempo aperfeiçoando apenas um. Janner lembrou-se com uma pontada de pânico que, mais tarde naquele dia, ele e Tink deveriam ajudar Oskar N. Reteep na livraria — que ficava em frente à cadeia, do outro lado da rua. E se o Comandante Gnorm o visse e mudasse de ideia? Ele poderia mandar buscar a Carruagem Negra, afinal. E se Slarb os atacasse outra vez? Então ele pensou na Livros e Vãos, em todas as histórias nas prateleiras da loja, e a emoção de estar lá sobrepujou seu medo. Janner engoliu o resto de seu café da manhã. “O senhor Reteep pediu a mim e a Tink para ajudá-lo com uma grande remessa hoje. Tudo bem ir para a cidade?” Nia não teve pressa para virar os ovos e o bacon na frigideira enquanto esperavam por uma resposta. “Não, realmente não. Não está tudo bem. Nunca é seguro pra vocês irem à cidade, especialmente depois do que aconteceu ontem.” Os ombros de Janner caíram. “Mas não podemos viver com medo”, prosseguiu Nia. “Nós não vamos viver com medo.” Ela se virou e olhou fixamente para os meninos, enxugando as mãos no avental. “Basta ter cuidado e ficar longe daquele Slurp horrível.” “Slarb”, corrigiu Tink. “E não se esqueça de devolver os livros emprestados, Janner. Você os terminou, não terminou?” Perguntou Nia. “Sim, senhora.” “O que achou?” “Eu li Na Era dos Floelhos Domesticados.2 Foi bom. Mas o outro era melhor”, emendou Janner, tirando os pratos da mesa. Ele havia devorado um segundo livro, dessa vez sobre dragões que realmente voam e batalhas e um grupo de companheiros. Era cheio de grandes aventuras e Janner ficou triste quando acabou, principalmente porque sua vida em Glipwood era monótona demais em comparação àquela história. Nia se voltou para o fogão. “Seu pai adorava essa história.” Janner sorriu ao pensar em seu pai, quem quer que fosse, desfrutando do mesmo livro. Com grande comoção, Podo tump-pou com estrondo a porta dos fundos e a abriu com um chute. Ele estava sem fôlego, segurando dois thwaps peludos em um punho estendido para o mundo ver. “Dois!” Ele bradou, e enfiou os thwaps no mesmo saco que usara na manhã anterior. O velho curvou-se sobre Nugget e esfregou sua cabeça com força, depois entrou. “Não temam, não temam, senhoras. Não vou jogá-los do penhasco”, assegurou ele com uma piscadela para Janner. Quando Podo viu Leeli, seu rosto se iluminou, como sempre. “Aí está minha pequena chuta-lagartos, Leeli, a Valente!” Ele apertou a nuca de Tink. “E você! Tink, o Ligeiro, que pulou na briga — sem armas — e arrancou essa senhorita do homem-cobra! Agora, onde...” Podo esquadrinhou a sala por Janner, que estava parado na porta da cozinha, sem perceber o sorriso em seu próprio rosto. “Ah! Janner, o Forte! Quebra-Costas, que saltou sobre o Fang como uma vaca-dentada e viveu para contar a história!” “Ei, papai, pare com isso”, interrompeu Nia, enchendo o prato de Podo. “Agora, crianças, vão se vestir”, concluiu Nia, acenando para eles e colocando o café da manhã de Podo na mesa. Enquanto as crianças saíam sorridentes da cozinha, ele grunhiu com um brilho nos olhos e arrebatou Nia no ar e por cima dos ombros. A última coisa que Janner viu ao sair do cômodo foi sua mãe exigindo ser “colocada de volta no chão neste instante”. Depois de alimentar Danny, o cavalo de carga e o porleitão, os meninos tiveram que ajudar Podo a coletar fertilizante (com os cumprimentos do porleitão) e espalhá-lo na horta de verão (alimento que seria, por fim, comido por todos eles, incluindo o porleitão). Isso fez com que Janner tivesse toda espécie de pensamentos sobre vida, morte e fertilizantes. Leeli permaneceu dentro de casa com Nia, preparando a comida, costurando um rasgo em um par de calças de Podo e limpando as cinzas da lareira. Quando terminou, sentou-se na sala da frente praticando uma nova música em sua harpa eólica e memorizando a letra do clássico festivo, “Rodeando o Berimum Bailava um Meep”. Cada um deles realizou suas tarefas com alegria, até mesmo Tink e Janner quando jogaram o excremento do porleitão no carrinho de mão.3 Era difícil reclamar com aquele sol quente e de barriga cheia, sem mencionar o fato de que haviam escapado da morte e da tortura três vezes no dia anterior. Mas se estivesse mais atento naquela manhã, Janner teria visto quantas vezes sua mãe espiou pela janela em direção à cidade, e poderia ter notado a expressão preocupada em seus olhos. Se tivesse pensado nisso, Janner poderia ter se perguntado por que Podo tinha ficado tão perto dos dois meninos durante toda a manhã e por que seu confiável porrete permanecia ao seu lado. 16 Na Livraria Livros e Vãos Janner, Tink e Podo caminharam até a cidade depois de almoçarem maçãs e pão de manteiga. Podo havia insistido em acompanhá-los, o que fez Janner e Tink se sentirem mais seguros. Quanto mais perto ficavam da Rua Principal, mais ansiosos ficavam sobre serem vistos por Slarb ou Gnorm ou qualquer um dos Fangs que tiveram a infelicidade de encontrar na noite anterior. Glipwood estava estranhamente quieta, já que os muitos visitantes haviam guardado seus pertences e deixado a cidade por mais um longo e triste ano na Skree infestada de Fangs. A forma esguia de J. Bird podia ser vista dentro de sua barbearia; ele estava varrendo. A Floricultura de Ferínia tinha uma placa de Fechado pendurada na janela. As janelas e portas de A Única Pousada estavam abertas, e Podo acenou para o Sr. e a Sra. Shooster, os proprietários, ocupados em trocar a roupa de cama e sacudindo os tapetes. Crespo roncava em um banco do lado de fora de sua taverna. Sem virar a cabeça, Janner deu uma olhada rápida na cadeia. O Comandante Gnorm, para seu alívio, estava cochilando em sua cadeira de balanço no alpendre, as mãos esverdeadas, rechonchudas, cruzadas sobre o peito. Os anéis em seus dedos brilhavam, mesmo na sombra. Janner desviou os olhos e se apressou para mais perto de Podo. “Vocês, rapazes, corram para a livraria do Oskar”, mandou Podo. “Estarei olhando vocês da taverna. Sinto a necessidade de acordar o velho Crespo e molhar minha goela”. Janner começaria a protestar, mas se conteve. Embora não quisesse passar nem um minuto sozinho tão perto da cadeia, também queria que Podo soubesse que ele conseguia ser corajoso e responsável. “Sim, senhor”, concordou ele, endireitando as costas em postura ereta. “Vamos, Tink.” Os irmãos passaram cuidadosamente pela cadeia, indo para a Livros e Vãos, onde Zouzab estava empoleirado como um abutre, no topo do telhado, com sua camisa de remendos e bordados balançando como bandeira ao vento. Janner acenou para o corre-crista. “E olá para os homens Igiby”, cumprimentou Zouzab. Sua voz era suave e delicada. “Acredito que seu tempo no festival foi agradável...” Janner ficou surpreso por Zouzab parecer nada saber sobre sua experiência de quase morte na noite anterior. “Sim”, respondeu ele. “Foi um dia agitado.” “O senhor Reteep está lá dentro?”, perguntou Tink. “Lá dentro, sim. Muitas são as caixas que chegaram de carroça, há menos de uma hora. Muitos livros novos para você ler, Janner Igiby.” Zouzab era cortês, mas Janner sempre sentia que havia muito mais acontecendo por trás de seus olhinhos do que sua boca jamais falava. Zouzab não disse mais nada e os observou entrarem na livraria. A Livros e Vãos era um lugar maravilhoso. Fileiras e mais fileiras de livros, muitos deles esfarrapados, carbonizados e de aparência antiga, enchiam todas as prateleiras e cantos praticamente até o teto. Livros altos, livros magros, livros sobre peixe-adaga, livros sobre a linhagem dos reis de Skree, livros sobre a ascensão e queda do uso de amoras em bolo, livros de lendas sobre Anniera, livros sobre livros sobre outros livros, todos organizados de acordo com o assunto em um labirinto de prateleiras. Mas não eram apenas livros. Rolos de mapas e contingências e confins e surpresas surpreendentes estavam espalhados aqui e ali entre os muitos volumes, à vista de todos, mas fáceis de perder em meio à miscelânea. Não importava quantas vezes Janner entrasse na loja de Oskar, ele ainda conseguia se perder pelo menos uma vez antes de conseguir chegar ao escritório, nos fundos do edifício. Quando a porta se fechou por trás deles, Janner sorriu e respirou fundo. Ele amava o cheiro envelhecido do lugar. Tink havia feito poucas visitas rápidas, então seus olhos iam e vinham tentando assimilar tudo o que havia para ver. Enquanto caminhavam em direção aos fundos da loja, viram um recipiente de madeira cheio de óculos velhos empoeirados. Ao lado dos óculos havia um minúsculo crânio, com bico e três órbitas oculares. “Veja!” Tink sussurrou. Janner sorriu, gostando da empolgação de Tink. Em outra prateleira havia uma jarra com insetos alaranjados, brilhantes e mortos e, ainda em outra, um castelo de madeira em miniatura com um rato observando-os da janela do pináculo. Janner chegou a um beco e parou em frente a uma estante rotulada Livros Sobre Ferraria e/ou Tortas, e Tink, muito concentrado em tentar ler a lombada de cada livro que passava, colidiu com ele. Os pés de Janner se enroscaram e ele caiu para frente. Caiu no chão, derrubando da prateleira uma vela grande e redonda. Olhando para Tink, Janner pegou a vela esverdeada e oleosa, e a colocou de volta no lugar. Uma etiqueta escrita à mão, na vela, dizia Cera de Meleca. Janner quase vomitou, limpando as mãos na parte da frente de sua túnica.1 “Ei? Quem está aí?” Surgiu uma voz abafada de algum lugar próximo. De repente, vários livros na estante à direita deles deslizaram para trás e desapareceram — substituídos pelo rosto e óculos de Oskar, olhando para eles do outro lado. “Ah! Janner, Tink, não ouvi vocês entrarem”, disse ele com um sorriso. “Há muito trabalho a ser feito. Então, nada de corpo mole. Mais tarde haverá tempo para explorar por aí. Sigam-me.” Os livros voltaram ao lugar e os passos de Oskar soaram ao fundo da loja. Depois de mais três becos, Janner e Tink encontraram o dono da Livros e Vãos andando de um lado para o outro em seu depósito, com um cachimbo na boca. “Muito bem, rapazes, eu pensava que seu Podo lhes ensinara melhor do que ficar vagando por aí enquanto um velho como eu precisa de sua ajuda. O que, em Kistamos, vocês dois estavam fazendo?” Questionou. “Pegamos o corredor errado em História de Skree”, respondeu Janner, “e depois outro em Poemas sem Sentido, e...” “Não importa”, interrompeu ele com um aceno de mão. “Acredito que foi o grande Chorton quem escreveu: ‘Não vale a pena se preocupar com irmãos desnorteados quando um grande carregamento acaba de chegar’. Ou algo com o mesmo efeito.” A ampla escrivaninha de Oskar estava abarrotada de pilhas de pergaminhos, diversos modelos de cachimbos, penas e frascos de tinta. Uma vela quase gasta crepitava em um castiçal de latão e iluminava um mapa de aparência antiga que estava desenrolado no centro da mesa. Tink se aproximou para examiná-lo. “Calma, jovem Igiby”, alertou Oskar, escapulindo para trás da mesa e virando o mapa. “Certamente seu irmão mais velho lhe disse que nem tudo aqui é permitido para olhos jovens. Existem mistérios no mundo que devem permanecer mistérios para os jovens.” Tink enrubesceu, envergonhado por já estar em apuros. Janner olhou para ele e deu-lhe uma piscadela encorajadora. “De onde vieram todos esses livros, senhor?” Perguntou Tink. Os olhos de Oskar brilhavam quando contemplavam, com orgulho, sua loja. Era fácil fazer Oskar falar sobre seus livros. “A verdadeira questão, jovem Tink, é de onde esses livros não vieram. Eu viajei por todo Skree após a Grande Guerra, resgatando o que poderia ser recuperado. Vocês não acreditariam nos escombros. Esses Fangs podres queimaram nossas casas e cidades até o chão. Mas como sempre acontece, a poeira baixou. Quando os skreenianos começaram a desenterrar outra vez a própria vida, eles também desenterraram esses tesouros. Livros! Só que eles não eram mais tesouros. Não para todos. Então eu soube que precisava juntá-los, preservá-los.” À menção da Grande Guerra, os pensamentos de Janner mais uma vez voltaram-se para seu pai. Ele nunca perguntou a Oskar se conhecia seu pai, ou se sabia de algum detalhe acerca de sua morte. Até recentemente, o assunto era cuidadosamente evitado no chalé Igiby. Quando ele encontrou o retrato no quarto de sua mãe, foi como se uma rachadura se formasse na represa que retinha a memória de seu pai; Esben Igiby estava se infiltrando nos pensamentos de Janner e não havia maneira de estancar o vazamento. Janner queria perguntar a Oskar o que ele poderia saber, mas Oskar estava ocupado demais espanando pilhas de livros e divagando. “A maioria das pessoas estava trabalhando tão duro para reconstruir e se ajustar à vida com esses perversos homens-cobras fungando em seus pescoços que não tinham tempo para os livros”, murmurou o livreiro. “Eles me foram dados ou vendidos por centavos. Como o infame Bweesley, o Ladrão de Folhas, disse em suas memórias, ‘Barato é quase de graça’. Olhem ao seu redor, rapazes. Isso é o melhor da antiga Skree. Ou, pelo menos, o que sobrou dela.” Janner e Tink refletiam no silêncio do escritório. De repente, as pilhas de livros e prateleiras desordenadas eram, de alguma forma, mais do que simples prateleiras cheias de livros. O que Oskar preservou foi a memória de um mundo que já havia morrido — tão certo quanto Esben Igiby havia morrido. Oskar também parecia perdido em pensamentos sobre o passado. Ele embalava ternamente uma pilha de livros em suas mãos. “No Dia dos Dragões”, começou a contar, “as pessoas que me visitam vêm para se lembrarem de quem eram. Elas sempre saem tristes.” Janner visualizou em sua mente os rostos das pessoas da cidade com seus sorrisos refreados e risadas vazias. “Agora, então”, disse Oskar, interrompendo os pensamentos de Janner, “aqui está o que eu preciso de vocês dois. Vou sentar aqui na mesa e anotar o registro dos livros e suas categorias — muito desgastante para a mente, eu garanto a vocês — e vocês dois descarreguem as caixas e empilhem-nas onde o velho Oskar Noss Reteep lhes disser. Apenas gritem o título e o autor. Vocês dão conta?” Os acenos de Janner e de Tink pararam quando Oskar abriu a grande porta dupla para revelar uma pilha de dezoito caixotes de madeira de vários tamanhos no gramado, empilhados de forma precária. No topo do caixote mais alto estava Zouzab, que sorriu com o choque no rosto dos meninos. “Muito bem! Temos muito que fazer, eu diria!” Oskar riu enquanto se sentava à sua mesa e acendia o cachimbo. “O que foi que o grande poeta Shank Po escreveu?” “Hã?” Perguntou Tink. “Ah, sim”, disse Oskar com uma baforada de fumaça. “‘Mantenha-te ocupado’.” 17 O Diário de Bonifer Squoon Janner e Tink trabalharam por horas enquanto Zouzab deslizava daqui para ali, dando conselhos indesejados sobre como deveriam proceder e, ocasionalmente, fazendo serenatas para eles, com canções tristes e assustadoras em sua pequena e estranha flauta. Oskar N. Reteep sentou-se à sua escrivaninha com alegria, seus óculos na ponta do nariz, registrando os títulos e autores em um grande volume encadernado em couro enquanto orientava os meninos sobre onde empilhar cada livro de acordo com o assunto. “O Som de Sidgebaw, por... Riva Twotoe”, leu Tink. “Ah, uma excelente obra. Muito rara. Arquive embaixo de Utensílios de Assentamento, ali no canto, vê?” Oskar apontou um lugar acima da cabeça de Tink. “Eu Vim e Chorei Como a Mariquinha que Sou, de Lothar Sweeb”, leu Janner, em outra lombada. “Sweeb? Ah, sim, um talento medíocre, mas muito prolífico. Arquive sob Canções Sobre Bacon, logo atrás do candelabro ali.” “Fatigado, de Phinksam Ponkbelly.” “Jardinagem. Excelente livro.” Horas depois disso, os meninos estavam suados e exaustos. O estômago de Tink roncava constantemente. Por duas vezes, Oskar pediu a Zouzab que trouxesse água para eles, o que ele fez sem reclamar antes de lançar-se de volta sobre a pilha de caixotes e saltar para o telhado do edifício como um esquilo. Podo apareceu, vindo da frente do edifício, anunciando sua chegada com um arroto retumbante. “Não é falta de educação, apenas boa cerveja”, afirmou com uma piscadela. “Vejo que o velho Oskar está fazendo bom uso de vocês dois.” Janner e Tink ficaram gratos por uma desculpa para descansar um pouco. “Sim, senhor”, concordou Janner. “Estamos quase terminando, e então o senhor Reteep vai nos deixar levar alguns livros para casa.” “Sim, é gentileza da parte dele”, disse Podo com um aceno de cabeça. “Se estiver tudo certo com vocês, rapazes, vou até o chalé buscar a pá. Preciso devolvê-la aos malditos Fangs antes do pôr do sol. Tudo bem voltarem pra casa sem mim?” Janner e Tink se entreolharam. Janner ainda estava ansioso por estar tão perto dos Fangs, mas estava determinado a mostrar ao avô que era confiável. “Sim, senhor, ficaremos bem.” “Se alguma coisa acontecer”, disse Tink, “vamos chamar Leeli e ela virá chutando tudo”. Isso provocou uma gargalhada do velho pirata. “Ho! Que os lagartos tomem cuidado com Leeli Igiby e seu cão mortal!” Podo olhou os dois nos olhos. “Vocês, rapazes, fiquem na de vocês e venham imediatamente pra casa, hein?” E com uma palmada no ombro de Janner — que quase o derrubou — Podo se foi. A última caixa era menor que as outras. Parecia ser muito mais velha também. Na tampa havia uma palavra horrível: Dang. Janner e Tink engasgaram. Até Zouzab, que assistia a tudo tão tranquilamente o dia todo, engasgou. “Aha! Esperei o dia todo para dar uma olhada nessa aí, meus garotos”, disse Oskar, aparecendo atrás deles. Ele olhou para um lado e para o outro e sussurrou: “É de Dang.” “Mas... como? Quem... quem você conhece em Dang?”, perguntou Tink. “Shh!” Oskar levou um dedo aos lábios e tornou a olhar em volta. “Há Fangs circulando em Skree, se você não percebeu. Você quer ser jogado na cadeia de novo?” Era a primeira vez que ele dava qualquer sinal de saber sobre os problemas dos Igibys na noite anterior, e Janner percebeu isso. Tink baixou a voz, “Desculpe, senhor Reteep. Quem você conhece em...” “Eu não conheço ninguém em Dang. Encontrei esta velha caixa junto das outras, mas não queria chamar atenção para ela, então a coloquei no fundo da carroça. Eu a abri por tempo suficiente para ver que estava cheia de livros. Isso é tudo que sei.” Ele esfregou as mãos como uma criança feliz prestes a comer um pedaço de bolo, depois levantou a tampa. Os irmãos deram um passo para mais perto da caixa e olharam dentro. Pareciam livros comuns, mas saber que eram de uma terra distante, de perigo e mistério, os tornava fascinantes de contemplar. “Basta trazer um de cada vez para que eu possa registrá-los corretamente.” Oskar sorriu e olhou para os livros com ansiedade. “Pretendo ler todos eles esta noite.” Ele voltou a si, limpou a garganta e ergueu as sobrancelhas. “A tarde está quase acabando, meninos. Esses podem ser de vocês sabem onde, mas, afinal, ainda são apenas livros. Como disse o grande explorador Jinto Qweb, ‘Corram! Ler é divertido!’” Oskar acendeu o cachimbo e voltou para a mesa, cantarolando enquanto caminhava. Janner puxou o primeiro livro da caixa. Estava gasto e era pesado, a capa decorada com laços e nós intrincados. No centro, letras fluidas diziam Rimas Corre-Cristas: Poesia da Montanha.1 Zouzab deu um grito de alegria e saltou para o chão. Ele estava de volta ao telhado do edifício em um piscar de olhos e deixou Janner parado ali, de mãos vazias. O livro já estava aberto e os lábios do pequeno corre-crista se moviam enquanto ele lia. “Vocês estão dormindo aí fora?”, Oskar chamou, de sua mesa. Enquanto Janner e Tink corriam para trazer a Oskar livro após livro, ele sentou-se à mesa com a fumaça do cachimbo flutuando sobre sua cabeça, rabiscando notas em seus registros e resmungando. “Hmm. Fascinante! Disfunção Nasal nas Aflições de Shreve...” Janner fez o possível para inspecionar cada um dos livros enquanto os carregava, e acidentalmente deixou só quatro caírem. Alguns deles eram escritos em runas estranhas. Outros continham mapas de terras das quais ele nunca ouvira falar. Um livro era intitulado Os Contos Mais Verdadeiros dos Piratas de Symia. Janner pensou em seu avô e o abriu. Na primeira página, havia uma imagem de um reluzente navio erguendo-se sobre uma onda gigante. Seu convés estava cheio de piratas em roupas extravagantes, empunhando espadas e adagas. Ele mal conseguia esconder o prazer que sentia ao segurar aquele livro nas mãos, imaginando mares salgados e ousados marujos. Ele o entregou a Oskar com relutância. “Tudo a seu tempo, rapaz”, disse Oskar, pegando o livro com uma das mãos e pressionando duas longas mechas de seu cabelo branco sobre a testa. Tink encontrou um livro com desenhos de criaturas que ele jamais teria imaginado; pequenas criaturas semelhantes a dragões com selas e homens montados nelas, cavalos com asas e garras nos pés, grandes animais peludos que caminhavam eretos e tinham dentes do tamanho do braço de um homem. Ao lado de cada imagem havia notas e detalhes sobre os pontos fortes e fracos da criatura. Tink caminhou lentamente até a mesa do Sr. Reteep, encantado com as ilustrações. Oskar sorriu e estendeu a mão. “Criaturapédia de Pembrick,2 filho. Não se preocupe, esse é um dos que você pode olhar. Haverá tempo suficiente para examinar tudo o que quiser.” Com isso, Tink acelerou o passo e logo Janner estava pegando o último livro do monte, na caixa. Menor do que o resto, sua capa de couro gasto era decorada com a imagem de um dragão, asas estendidas. Janner abriu o livro da mesma forma que fizera com todos os outros, mas por dentro era diferente. Ele ficou surpreso ao perceber que era escrito à mão, e não impresso: Este é o diário do Bonifer Squoon Conselheiro-Chefe do Supremo Rei de Anniera Guardião da Ilha da Luz. Leia isso sem minha permissão e vou socar seu nariz. A respiração de Janner ficou entalada na garganta. Supremo Rei de Anniera? Aquilo seria verdade? Todo mundo havia sonhado com os encantos do litoral de Anniera pelo menos uma vez, mesmo os que negavam sua existência. No entanto, lá estava Janner, segurando nas mãos os genuínos pensamentos do conselheiro do rei. Claro, o diário poderia ser uma farsa, mas como todos em Skree, Janner queria acreditar que tal lugar existia — ou havia existido, antes de Gnag, o Sem-Nome destruí-lo. Janner mostrou o livro aberto para Tink, cujos olhos se arregalaram. Mas logo que Janner começou a virar a página, o livro foi arrancado de suas mãos. “Zouzab!” Janner murmurou e se virou para dar de cara não com Zouzab, mas com o Sr. Reteep, cujo rosto estava fechado. “Isso é tudo por hoje, jovens Igiby.” Oskar colocou o livro debaixo do braço e apontou para as caixas com o cachimbo. “Amontoem-nas junto à pilha de lenha e vocês poderão entrar e explorar o resto dos meus livros o quanto quiserem. Cada um de vocês pode levar três volumes para casa, mas eu preciso aprová-los antes de irem.” Janner e Tink pararam, sentindo o peso do olhar de Oskar. Janner queria desesperadamente saber o que havia no diário e se perguntava por que o Sr. Reteep estaria sendo tão reservado a respeito. “Tink”, disse Oskar. “Você gosta de desenhar, não é? Venha comigo. Pelo que me lembro, tenho uma extensa coleção de livros de arte que você pode achar útil.” E começou a vaguear pelo labirinto de estantes de livros. Quando alcançaram Oskar, a luz estava diminuindo e ele se encontrava remexendo em lampiões para cada um deles carregar pela loja. As lombadas dos livros pareciam, de alguma forma, mais ricas com o brilho do lampião e Janner pensou nas palavras de Oskar, no início do dia: “Olhem ao seu redor, rapazes. Isso é o melhor da antiga Skree. Ou, pelo menos, o que sobrou dela.” Ele estava ansioso para vagar pela loja, agonizando ao pensar sobre quais três livros pegar emprestados. “Por aqui, jovem Tink”, chamou Oskar. “Vou mostrar por onde começar e depois você se vira.” Com um olhar desamparado para Janner, Tink ergueu o lampião e seguiu Oskar pelo corredor, desaparecendo de vista. Por duas vezes, Janner e Tink viraram uma esquina e quase se chocaram, mas acabaram tomando seus próprios rumos, no labirinto de prateleiras. Tink encontrou dois livros de arte. Um de paisagens fantásticas como nunca havia sonhado; e o outro, um livro de anatomia que ensinava a desenhar um garlinói em um sem-número de posições.3 Ele ainda estava procurando o livro número três quando seu pé bateu em alguma coisa. Tink viu a vela de cera de meleca na prateleira e percebeu que estava exatamente onde Janner havia tropeçado antes. Ele baixou o lampião até o chão para olhar mais de perto. Um painel estreito havia se soltado na parte inferior da prateleira, onde se encontrava com o chão. O pé de Janner deve ter batido nele. Tink se curvou para colocar o painel no lugar, mas seus olhos encontraram algo nas sombras da cavidade, logo abaixo. Ele enfiou a mão e puxou-o apenas o suficiente para ver que era um pergaminho enrolado, amarelado pelo tempo e empoeirado. O coração de Tink disparou. Ele olhou de volta para o corredor, desejando que Janner estivesse por perto. Nada. Então ele examinou os corredores na outra direção, mas tudo o que viu foram fileiras de livros desaparecendo nas sombras. “Janner!” Sussurrou. Silêncio. Não há como dizer onde ele está, Tink pensou. Ele examinou os corredores novamente. Era seu primeiro dia ajudando na Livros e Vãos, e ele sentia que já havia esgotado a paciência do Sr. Reteep. Tink não queria incomodar mais o proprietário, mas sua curiosidade era enlouquecedora. Ele deu uma última olhada em cada direção, colocou o lampião em cima de seus livros de arte e cuidadosamente puxou o resto do pergaminho para fora. Com os dedos tremendo, Tink o desenrolou. 18 Tropeçando num Segredo O mapa era cuidadosamente desenhado à mão e extremamente detalhado, embora crivado de pequenos orifícios. Tink reconheceu o Mar Sombrio da Escuridão, preenchido com o desenho de pequenas embarcações à vela. Ele viu uma estrada que ia de alguns penhascos a um pequeno aglomerado de prédios, todos ordenadamente desenhados e rotulados. Tink se abaixou para ler sob o brilho amarelo do lampião: Floricultura da Ferínia, Cadeia e Minha Livraria. Ele percebeu, espantado, que estava olhando para um mapa de Glipwood, desenhado pelo próprio Oskar N. Reteep.1 Com o dedo, traçou a estrada principal em direção aos penhascos, até o caminho que levava ao chalé Igiby e, com certeza, lá estava. Estava até etiquetado como Igiby. No topo do mapa estava rabiscado, “Nas palavras imortais de Loshain P’stane, ‘Se alguém ler isso sem permissão, será certa e brutalmente morto. Ou pelo menos arrancarei um ou dois dedos. Ou três’”. Tink torceu as mãos enquanto seu coração murchava de medo e o pergaminho começou a se enroscar. Com dedos trêmulos, ele o estendeu novamente. Perto do topo do mapa, na orla da floresta, havia uma casa com o rótulo Mansão Pé-de-Geleia. Sobre a casa havia um grande X e, abaixo dele, estava escrito: Seja você inimigo ou amigo Cuidado com todos os que têm ido Pois nas covas que abaixo daqui estão Se encontra escondido no grande vão Um caminho que leva à angústia e dor Sofrimento, tristeza e grande horror De Brimney Stupe, o fantasma faminto Espera seus ossos ir engolindo Então pense muito bem antes de ir E o local, amanhã, aqui descobrir. Tink deu um pulo quando o terrível som dos passos pesados de Oskar N. Reteep veio em sua direção. Em pânico, ele enrolou o mapa, enfiou-o na manga da camisa, agarrou o lampião e seus livros de arte, e pegou um livro aleatório da estante à sua frente. A figura arredondada do Sr. Reteep virou a esquina e flutuou para a luz do lampião no momento em que Tink puxava o livro de seu lugar, na estante. “Ah, jovem Tink! Vejo que você encontrou seus livros. O que você tem aí?” Ele olhou para os dois livros de arte e depois para o terceiro. Tink ficou imóvel como uma pedra, implorando para que Oskar não notasse a forma engraçada como a manga de sua camisa estava saliente. “A Arte da Coceira”, Oskar leu. Com os óculos na ponta do nariz, ele olhou por cima deles para Tink e ergueu uma sobrancelha. Tink sabia que havia sido apanhado. Ele se perguntou se o Sr. Reteep iria realmente trucidá-lo ou se teria misericórdia e apenas cortaria um dedo. Mas qual dedo? Ele se perguntou. E que tipo de instrumento o velho usaria? “Algo errado?” Oskar perguntou, estreitando os olhos em Tink. “Você está escondendo algo.” O rosto de Tink ficou pálido e ele sentiu como se fosse desmaiar. “Eu entendo, garoto”, disse Oskar. “É assunto particular, né? E, pra falar a verdade, não é da minha conta, certo?” Oskar baixou a voz e se inclinou na direção de Tink, com a mão no canto da boca. “Mas se você tiver alguma espécie de erupção na pele, existem livros muito mais extensos sobre o assunto do que A Arte da Coceira. Pode acreditar, eu li todos eles.” Oskar pigarreou. “Se você entende o que quero dizer.” Tink estava tão aliviado que mal conseguia falar. Ele forçou uma risada, largou o livro que tinha acabado de pegar da estante e coçou a barriga e as axilas com a mão livre. “Ah, sim, eu entendo bem o que quer dizer, senhor. Ai... arre... ui...” Janner veio pela esquina com três livros grandes debaixo do braço, franzindo a testa ao notar o comportamento estranho de Tink. Tink parou de coçar quando Oskar se virou e aprovou as seleções de Janner, e antes que Tink percebesse, ele se viu saindo da loja com seu irmão — mapa na manga — e grato por ainda ter todos os dez dedos. Já estava quase escuro quando Janner e Tink começaram sua curta caminhada para casa, e Tink mal conseguia se conter. Ele esperou apenas até que estivessem fora do alcance de voz da Livros e Vãos e deixou escapar: “Roubei um mapa!” Janner parou no meio da rua. “Você o quê?!” “Eu não queria. Está na minha manga agora, quer dizer, eu roubei, mas não era minha intenção, eu juro”, Tink gaguejou, olhando ao redor. Janner olhou para seu irmão em choque. “Continue andando, tenha certeza de manter isso escondido e me diga o que aconteceu.” Eles caminharam rapidamente pela Rua Principal, passando pela cadeia onde uma dúzia de Fangs espreitava, mas não sentiram medo. Tink estava muito animado para contar o que havia encontrado e Janner muito absorto pela história para notar o Fang Slarb observando-os atentamente, do alpendre da cadeia, com ódio no olhar. O Comandante Gnorm estava atrás de Slarb, mas ele olhava para a rua como se esperasse por algo. “E eu tinha acabado de ler que quem olhasse o mapa sem permissão teria seus dedos cortados quando ouvi Oskar chegando”, contou Tink, ofegante. “Deve haver algum engano”, disse Janner. “Você consegue imaginar o velho senhor Reteep cortando os dedos de alguém?” Foi a vez de Tink parar no meio da rua. “Sim”, disse ele, olhos arregalados, assentindo com a cabeça. “Bom, eu não”, disse Janner. “Ele é um velho gentil demais para isso.” “Você não viu o mapa”, disse Tink, balançando a cabeça. “Quando chegarmos em casa, você verá com seus próprios olhos.” Um pocotó-pocotó-pocotó repentino e constante de cascos e rédeas e arreios paralisou os Igibys — um som que gelou o sangue dos garotos. Um chicote estalou no ar escuro, e os irmãos se viraram para ver uma carruagem sombria fazendo a curva na Esmeralda de Dunn, conduzida por uma figura trajada em uma túnica preta. Janner agarrou o braço de Tink e ambos contornaram A Única Pousada, se espremendo contra a parede. Janner fechou os olhos esperando afastar o terror, mas sua cabeça ecoava com o som da carruagem se aproximando. Em sua mente, ele podia ver as barras de ferro e o braço pálido do condutor, de manto preto, descendo para agarrá-los e trancá-los na gaiola. Ele abriu um olho e deu com Tink espiando na esquina. “O que você está fazendo?” Janner cochichou com força. “Veja! Ela parou na frente da cadeia” Tink sussurrou sem olhar para o irmão. Janner continuou imóvel. “O que está acontecendo? É a Carruagem Negra?” “Não sei dizer... Péra aí... Comandante Gnorm está falando com o condutor...” Janner não se aguentou mais. Ele espiou pela esquina e viu os dois cavalos cavoucando o chão e bufando. O condutor encapuzado se dirigiu a Gnorm e, então, deslizou do assento e abriu a porta da carruagem. Janner suspirou. A porta não era feita de ferro, mas de madeira escura polida. Nenhum corvo estava empoleirado no teto da carruagem ou circulando acima dela. Não era a Carruagem Negra, afinal. Gnorm ergueu-se até o coche e se acomodou. A porta se fechou e, com outro estalo do chicote, os corcéis empinaram. A carruagem deu uma guinada para a frente, virou-se e partiu exatamente como viera, enquanto o resto dos Fangs, situados na rua, assistiam à partida. Mas nem todos os Fangs. “E como essstá sua irmãzinha manca e aquele vira-latas dela?” Uma voz familiar sibilou nos ouvidos de Tink e Janner. 19 Angústia, Dor e Horror Tink e Janner se viraram para dar de cara com Slarb nas sombras — seus olhos negros como dois poços vazios. Quando ele emergiu da escuridão, os dentes à mostra, os dois gritaram e recuaram para a rua. “É hora de terminar o que comecei ontem, garotosss.” Slarb rangeu os dentes com avidez. Ele inclinou a cabeça para um lado e considerou Janner e Tink por um longo momento. Janner achou que ele se parecia com a cobra-de-focinho-alto que ele vira uma vez no pasto. Ela empinou o pescoço para trás e inclinou a cabeça para o lado antes de desferir o bote contra um infeliz rato-do-campo. Então, esse é o fim, imaginou Janner. Com ou sem Comandante Gnorm, Slarb iria matá-los ali mesmo. “Slarb! Esses são os meninos da mulher Igiby?” Gritou outro Fang do alpendre da cadeia. “Gnorm vai cozinhar você vivo se ficar entre ele e seu rocambole de vermes!” Slarb zombou do Fang no alpendre e hesitou. Então ele cuspiu nos pés de Janner. Pequenos tentáculos de fumaça subiram da ponta de uma das botas onde o veneno caiu. Janner resistiu à vontade de gritar e arrancar sua bota. Slarb rosnou e pareceu prestes a atacar, mas, ao invés disso, com um olhar taciturno para os outros Fangs, esgueirou-se para as sombras atrás de A Única Pousada. Janner e Tink se viraram e correram para casa. O mapa misterioso de Oskar parecia de pouca importância. Viver numa terra infestada de Fangs já era ruim o suficiente; mas agora, um deles tinha se tornado um inimigo pessoal — e a única coisa que impedia Slarb de matá- los era a esperança de que Gnorm se agradasse do rocambole de vermes de Nia. Janner e Tink, porém, sentiram seu ânimo melhorar quando chegaram ao chalé. O fogo estava crepitando, os lampiões acesos, e o aroma de carne assada enchia o ar. Podo estava cochilando no sofá ao lado da lareira, roncando tão alto que as janelas chacoalhavam. Tink deslizou silenciosamente para seu quarto e escondeu o mapa embaixo do travesseiro, justo no momento em que Nia chamava para o jantar. Quando Janner e Tink se sentaram à mesa repleta de comida, perceberam o quanto estavam cansados. Eles contaram sobre seu dia, a caixa de Dang e o diário de Anniera. Janner achou estranho que Nia e Podo estivessem tão interessados em tudo que os meninos tinham a dizer até mencionarem o diário. Janner os viu trocar olhares e então sua mãe mudou abruptamente de assunto. O que isso poderia significar? Janner se perguntava se sua mãe e seu avô, de repente, estavam escondendo segredos deles, ou se ele, apenas agora, estava começando a notar algo que sempre acontecia. Leeli interrompeu seus pensamentos. “Você viu algum livro de música escondido na Livros de Vãos? Eu gostaria muito mesmo de ver um.” Janner riu. “Se Oskar não tiver uns cem livros de música, eu como um verme.” Quando eles falaram sobre o encontro com Slarb, Podo fez várias promessas de matar o Fang de várias maneiras diferentes. Nia os lembrou de que, a cada poucos meses, os regimentos de Fangs eram substituídos. “Não será assim para sempre. Precisamos apenas passar desapercebidos e torcer para que meu rocambole de verme seja realmente horrível.” “Talvez você devesse deixar o vovô fazer esse rocambole, então”, disse Tink, colocando mais carne assada em seu prato. “Seu mingau de totata deixa minhas entranhas em frangalhos.” Todos, exceto Podo, caíram na gargalhada. “Qual é o problema com meu mingau de totata? Soberbo!” Suas sobrancelhas estavam tão altas que se misturavam ao resto do cabelo. “Uma pitada de raiz fermentada, uma pitada de pimenta de milho — e ainda tem coragem de falar em frangalhos!” Quanto mais Podo protestava, mais o resto da família ria. “Soberbo!” Podo disse novamente com indignação. Ele cruzou os braços sobre o peito largo e empinou o nariz. Mas mesmo Podo não conseguiu conter o riso. Seus lábios tremeram como geleia, então um sorriso se espalhou por seu rosto, e logo ele estava batendo nos joelhos e gargalhando com o resto deles. Janner não conseguia se lembrar da última vez que a família riu tanto, e ele sabia, como todos os demais, que não estavam rindo tanto do comentário de Tink, mas porque seus espíritos, cansados e apreensivos, precisavam daquelas risadas como remédio. Finalmente, como uma pancada de chuva que vem e vai e deixa tudo úmido e brilhante, as risadas pararam. “Vocês trouxeram para casa alguma coisa interessante da Livros e Vãos?” Nia perguntou, enxugando os cantos dos olhos. O sorriso de Tink desapareceu. Ele deu a Janner um olhar tenso e suplicante, implorando que não contasse sobre o mapa roubado. “Tink”, disse Janner, com um olhar inocente para o irmão. “Há algo que você queira dizer?” Tink olhou feio para Janner, balançando a cabeça o mais sutilmente que conseguiu. Quando não respondeu, todos voltaram os olhos dos pratos para Tink. Todos os olhos estavam nele. “Tink, o que foi?”, perguntou Nia. As bochechas de Tink coraram e ele olhou carrancudo para Janner. “Fale, rapaz! Sua carne está esfriando”, exclamou Podo. “Bom, vejam, eu encontrei... Eu encontrei...”, ele gaguejou e baixou tanto a cabeça que seu cabelo quase mergulhou no prato de carne assada. “Ele encontrou uma erupção na pele, com coceira”, disse Janner, rindo enquanto enchia seu copo com a água da jarra. “Já se espalhou para suas axilas?” A cabeça de Tink levantou, num pulo. “O quê? Não, ainda não.” Janner piscou para ele, mas Tink não estava rindo. Podo exigiu dar uma olhada na erupção cutânea de Tink ali mesmo, à mesa de jantar, e para a alegria de Janner, o interrogatório sobre a erupção durou o resto da refeição. Convencido de que Tink estava bem, de que a erupção provavelmente era apenas sua imaginação — algo causado pelo estresse, Podo permitiu que Tink fosse para seu quarto. “É um pouco estressante saber que seus dedos podem ser cortados”, Tink murmurou para si mesmo uma vez a salvo em seu beliche. “Talvez um deles pudesse ir para o rocambole de verme”, disse Janner, rindo. “Você sabe, seus dedos sujos podem ser um excelente complemento para a receita.” “Isso não tem graça”, replicou Tink. Uma melodia da harpa eólica de Leeli veio da sala principal, onde ela tocava uma vibrante música de marinheiros a pedido de Podo. Janner e Tink escalaram o beliche de cima e abriram o mapa. Eles leram e releram a inscrição ao lado do prédio com o rótulo Mansão Pé-de-Geleia, tentando imaginar o que poderia estar escondido ali para fazer Oskar manter um mapa secreto. Tink estremeceu com a linha do poema sobre o fantasma de Brimney Stupe. “Não gosto de fantasmas”, disse ele. “Qual é, Tink. Fantasmas não existem.” “Isso é o que você diz. Podo disse que viu fantasmas.” “Bom, ele nos disse que viu um navio abandonado no Mar Sombrio da Escuridão, com uma tripulação de piratas fantasmas”, relembrou Janner, “e também disse que estava acordado há três dias seguidos. Você vê coisas estranhas quando não dorme.” Ele balançou sua cabeça. “Fantasmas não são reais.” “O que você acha que são todos esses pequenos orifícios espalhados pelo mapa?”, perguntou Tink. “Sei lá.” Janner encolheu os ombros. “Provavelmente ratos. Ou insetos. Veja!” Janner apontou para a imagem de um dragão no canto inferior direito do mapa. “Isso te lembra alguma coisa?” Tink balançou a cabeça. “Lembra do diário de Anniera, na caixa de Dang? Parece o mesmo dragão.” Tink apontou para uma inscrição acima do dragão. “As Joias de Anniera”, ele leu, com o rosto perplexo. “O que são as Joias de Anniera?” Janner encolheu os ombros. “Não sei, mas tenho certeza de que o senhor Reteep tem um bom motivo para manter o mapa escondido. E para esconder as Joias de Anniera, ou o que quer que esteja na Mansão Pé-de-Geleia. Uma coisa é certa. Eu não quero descobrir. É muito perto da floresta, e mesmo antes da Guerra aquele lugar era assustador. Está abandonado há anos.” “Por quê?” “Não sei. Li sobre isso em um livro sobre a história de Glipwood,1 e Podo disse que o lugar era mal-assombrado, que as pessoas ouviam barulhos vindos de dentro. Tem sido evitado por tanto tempo que ninguém se lembra de quem o construiu, ou mesmo quem foi Pé-de-Geleia. Eu mesmo nunca vi o lugar. De acordo com o mapa, fica bem ao norte da cidade, na orla da floresta.” Tink olhou, pela janela, a noite lá fora. “Se saíssemos logo depois do almoço, amanhã, teríamos tempo para...” “Você tá maluco?” Janner interrompeu. Tink olhou fixamente para o irmão, que olhou para a porta e baixou a voz. “De jeito nenhum.” Janner balançou a cabeça. Os olhos de Tink piscaram. “Você que é o louco. Como pode encontrar um mapa do tesouro e não querer encontrar o tesouro?” “Não está escrito ‘tesouro’ em nenhum lugar deste mapa! Em dois dias estivemos em brigas com dois Fangs, fomos jogados na cadeia e quase ganhamos uma carona na Carruagem Negra. Aí, você rouba um mapa, e Slarb nos informa que pretende nos matar! E agora, você quer seguir um mapa para uma casa mal-assombrada, perto da floresta, por causa de um enigma que diz que isso leva à angústia, dor e horror?!” Tink sorriu. “Sim.” Janner soltou um gemido. “Affe!” Tink fez uma careta. “Só estou dizendo que há muito mais nesta pequena cidade do que pensávamos. Nossa mãe tem um esconderijo de joias que não conhecíamos. O senhor Reteep recebe um diário de Anniera em uma caixa de Dang. Ele tem um mapa escondido. E uma pessoa misteriosa com pontaria perfeita salvou nossas vidas ontem.” Janner inclinou a cabeça. “Você está certo”, admitiu. “Eu também ouvi Podo e mamãe dizerem que acham que sabem quem salvou nossas vidas”. A testa de Tink franziu. Janner olhou bem nos olhos de Tink. “E há outra coisa. Algo sobre nosso pai.” Tink ficou em silêncio. “O nome dele era Esben.” “Quem te disse isso?”, Tink perguntou suavemente. “Eu ouvi mamãe dizer isso ontem. Eu não acho que ela pretendia.” “Esben”, Tink repetiu o nome para si mesmo. Os irmãos sentaram-se na cama com o peso da ausência do pai sobre eles até que Leeli abriu a porta. “O que vocês dois estão fazendo na cama de cima?”, ela perguntou, sorrindo e subindo em sua própria cama, com Nugget bem ao lado dela. “Nada”, disseram Janner e Tink em uníssono — e um pouco rápido demais. Mas Leeli não percebeu e logo ela e Nugget estavam dormindo. Janner desceu para seu beliche, onde ficou acordado até tarde da noite — sua cabeça girando, cheia de perguntas, e seu coração cheio de preocupação. O olhar de ódio nos olhos de Slarb queimava em sua memória. Ele podia ouvir a voz sibilante do Fang, cheirar o hálito podre e sentir novamente a fisgada do veneno pingando em seu pescoço; ele estava por demais consciente da responsabilidade que tinha de cuidar do irmão e da irmã. A cabeça de Tink apareceu, pendurada, no beliche de cima. “Acordado?”, Tink sussurrou. “Sim.” “Saímos logo depois do almoço”, afirmou Tink, e desapareceu novamente. “Não!” Janner sussurrou, mas Tink estava roncando alto, fingindo estar dormindo. 20 Na Mansão Mesmo enquanto seguiam para o norte, em direção à propriedade Blaggus para um breve jogo de zibzy, Janner sabia que eles visitariam a Mansão Péde-Geleia naquela tarde. Durante as tarefas daquela manhã, ele havia discutido com seu teimoso irmão em sussurros acalorados, mas logo ficou claro que, para Tink, medo e bom senso não eram páreos para sua curiosidade. Nem para a de Janner. Ele não conseguia parar de pensar naquele aviso misterioso no mapa, bem ao lado do X sedutor. Além disso, disse a si mesmo, Tink iria com ou sem ele. Quem mais protegeria seu irmão mais novo? Então, no calor do início da tarde, os irmãos Blaggus ganharam o jogo como de costume, e Janner e Tink se despediram deles. Quando tiveram certeza de que não estavam sendo mais vistos, começaram a correr através do mato alto da velha estrada, fazendo a curva e subindo uma colina, até que estivessem bem fora da vista da propriedade. A estrada ao norte da propriedade Blaggus estava coberta de mato. Poucos viajavam por ela desde que as fazendas além das terras da família Blaggus foram queimadas e abandonadas durante a Guerra. Não demorou muito para que Janner se dobrasse, com as mãos nos joelhos, ofegando por ar. Tink o ultrapassara e estava esperando vários metros à frente, olhando para o campo, tentando não parecer ele mesmo sem fôlego. Os carvalhos que sombreavam a estrada estavam escassos e o terreno gramado subia para longe da cidade e dos penhascos, em direção à orla escura da floresta Glipwood. Janner se levantou com grande esforço e enxugou a testa com a frente da camisa. Tink apontou para baixo, mostrando o telhado inclinado da casa dos Blaggus, visível entre as árvores abaixo deles. Mais além ficava o centro de Glipwood, uma pequena fileira de edifícios à distância. A Única Pousada podia ser vista facilmente, uma vez que ficava um andar mais alto do que os outros edifícios, mas a leste a terra desaparecia numa extensão cinza. O Mar Sombrio da Escuridão. Em algum lugar, cada irmão pensava consigo mesmo, na beira do mar, sob a sombra das árvores de Glipwood, ficava o chalé Igiby. Por uma hora, Janner e Tink seguiram a antiga estrada o melhor que puderam. Cada vez que a estrada começava a se misturar com trechos altos de urze e a desaparecer, eles tornavam a procurar pela leve depressão do caminho, diante da grama esvoaçante. A fronteira da floresta se aproximava cada vez mais, e logo Janner estava apontando para a forma do que devia ser a estrutura em ruínas da Mansão Pé-de-Geleia. Tink acelerou o passo e logo eles pararam diante da mansão, cujos fundos deteriorados davam para a floresta. As duas janelas escancaradas do segundo andar fizeram Janner pensar nas órbitas de uma caveira observando sua aproximação. Ele parou na frente de um portão de ferro enferrujado, pendurado triste e torto em dobradiças antigas. Nenhum dos irmãos falou nada, não querendo admitir que estavam com medo e se perguntando que tolice havia feito a ideia de ir até lá parecer sensata. Estava claro que a mansão já fora um lugar bonito. Várias estátuas altas e mofadas, de pessoas em várias poses, pontilhavam o pátio. Uma era de um homem gordo comendo uma costeleta de cordeiro (a visão fez o estômago de Tink roncar alto, som que fez Janner pular alguns centímetros do chão). Outra estátua, mais próxima da casa, representava uma mulher rindo e balançando um gato apavorado pelas patas traseiras. Ainda outra estátua, coberta de vinhas, era de um homem chorando, coçando sua grande barriga com um ancinho. Pendurado no cabo do ancinho estava um cacho de uvas de pedra. O telhado da mansão desabara há muito tempo, e em todos os lugares ervas daninhas e vinhas haviam começado o lento trabalho de puxar as pedras e as madeiras envelhecidas de volta à terra. Janner se virou e olhou para trás — a longa encosta que declinava até a cidade distante. “Viemos até aqui, não viemos?” Perguntando-se incerto, respirou fundo e passou pelo portão. O ar estava quieto feito um túmulo. Nenhum pássaro cantava. Nenhum vento soprava. Janner estremeceu ao pensar nas muitas feras que vagavam pela floresta. Ele se perguntou quantas vezes aquelas feras se aventuravam para além das árvores e em lugares como a Mansão Pé-de-Geleia. Ou os animais também tinham medo de fantasmas? Tink seguiu o irmão mais velho, passando por um antigo banco de pedra no lugar que parecia ser um jardim de flores cercado de pedras, então coberto por um emaranhado de ervas daninhas. A frente do banco tinha uma inscrição. Janner afastou as vinhas e leu: Brimney Stupe Gosta de Sua Sopa. O estômago de Tink rugiu. “Trouxemos alguma coisa pra comer?” Ele perguntou, sabendo que não. Janner o ignorou. “Vamos dar outra olhada no mapa”, ele pediu. Eles se sentaram no banco e Janner examinou o mapa, tentando ao máximo ignorar o terrível aviso sobre entrar no lugar em que estavam prestes a entrar. A borda da floresta atrás da casa era uma parede verde emaranhada, silenciosa e sombria, e enquanto Tink olhava para ela, não conseguia se livrar da sensação de que a floresta o encarava de volta. “Há alguma coisa aqui que nos diga exatamente para onde ir?” Perguntou Janner. “Diz: ‘Nas covas que abaixo daqui estão se encontra escondido no grande vão...’. Acho que isso significa que precisamos encontrar um caminho para baixo.” Ele apontou para a fundação da Mansão. “Lá embaixo.” Tink olhou por um longo tempo para o olhar caveiroso da mansão e estremeceu. “Por que estamos aqui mesmo?” “Porque você me convenceu, esse é o motivo.” “Sabe, um lanche cairia bem agora”, ponderou Tink. “Talvez devêssemos voltar e...” “Nem vem”, retrucou Janner com firmeza. “Viemos até aqui e você não vai desistir.” “Foi apenas uma sugestão”, respondeu Tink, forçando uma risada. O som de sua risada não era natural ali, nas ruínas. Janner disse a si mesmo que não havia fantasmas na mansão e que as advertências no mapa só existiam para o caso de cair em mãos erradas. Tudo bem que tivesse caído, ele argumentou consigo mesmo. Mas se esse fosse realmente o caso, Oskar não havia previsto que dois garotos o encontrassem. Ele deve ter esquecido que, na mente de um menino, uma advertência não é muito diferente de um convite. “Vamos”, chamou Janner decidido, e Tink o seguiu. Eles esmagaram os arbustos espessos que cercavam a mansão de pedra, procurando por qualquer sinal da entrada de um porão. Janner sentia o cheiro mofado de coisas velhas e, dentro de cada janela por que passavam, via pedras tombadas e vigas caídas na penumbra. Dos fundos da mansão, ele e Tink espiaram por uma porta de serviço que levava ao que devia ter sido a cozinha. Videiras cobriam um balcão comprido e rachado com lavatórios cortados em mármore. O teto do primeiro andar desabara sobre a cozinha, permitindo que finos raios de sol cruzassem um emaranhado de madeira velha, potes e pedras caídas no chão. Eles seguiram em frente pelo mato, ao redor da mansão, e passaram por uma fonte seca que, no gramado dos fundos, abrigava uma roseira espinhosa. Além da fonte, a floresta os encarava. Janner ficou todo arrepiado. “Vamos voltar lá pra frente”, ele sussurrou. Tink assentiu gravemente e rodeou a casa seguindo seu irmão de volta. Nenhum dos irmãos admitiria, mas cada um se sentia melhor com algo entre eles e as árvores. Isto é, até que dobraram um dos cantos. Os dois irmãos pararam na entrada principal da casa, olhando para as sombras. O ar estava parado e pesado com o calor da tarde. “Um lampião seria bom”, confirmou Janner, olhando para a entrada sombria. Em seguida, cada um deles respirou fundo e, lado a lado, atravessaram a soleira, entrando nas ruínas da Mansão Pé-de-Geleia. 21 Os Canicórneos Assim que entraram, Janner e Tink não conseguiam enxergar nada além de escuridão. Então eles perceberam que estavam em uma sala ampla e vazia, com paredes de pedra. Uma escada outrora elegante conduzia para cima, em direção à luz do andar superior, sem telhado. Escombros, velhas vigas de madeira e ervas daninhas cobriam o chão. Tudo de valor há muito havia sido saqueado, mas a desvanecida glória da mansão era aparente. Não era difícil imaginar jantares, muito tempo atrás, com homens e mulheres bem vestidos subindo e descendo a ampla escadaria, ou risadas misteriosas ecoando nos quartos enormes e vazios — ou Brimney Stupe, quem quer que fosse, passeando pelos corredores da mansão, à noite, segurando uma vela acima de sua cabeça. Em outras palavras, não era difícil imaginar que fantasmas existem. “Você disse algo?” Janner perguntou, sua voz nervosa ecoando pela sala. “Não, você ouviu alguma coisa?” Tink sussurrou. “Não. Você ouviu?” “Só você, perguntando se eu disse alguma coisa.” “Então, por que você perguntou?” “Porque você perguntou.” Janner caminhava cuidadosamente entre os escombros da sala principal, espiando pelas portas que levavam para o interior de outros cômodos. Ele seguiu o caminho de volta para a área da cozinha, onde o teto havia sumido e a luz do sol os deixava muito mais confortáveis. Tink vasculhou os armários vazios enquanto Janner olhava sob as vigas caídas, na esperança de encontrar alguma pista do tesouro que Oskar havia mapeado. Logo quando Janner começava a relaxar e Tink havia começado a pensar que gostaria de visitar o lugar com mais frequência, um estalar soou do lado de fora da janela da cozinha. Os irmãos Igiby congelaram. Era o mesmo som que eles próprios fizeram enquanto caminhavam entre os arbustos ao redor da casa. Alguma coisa estava lá fora e estava se aproximando. Janner prendeu a respiração e levou um dedo aos lábios. Ele acenou para que Tink o seguisse. Silenciosos como ratos, eles voltaram na ponta dos pés até a entrada da frente da mansão e espiaram pela porta. Do outro lado do quintal, uma criatura cinza estava farejando o banco onde eles haviam se sentado. Parecia exatamente com um cachorro — exceto por duas presas projetando-se acima do focinho, um chifre de aparência perigosa que coroava sua cabeça, e o fato de que era pelo menos tão alto quanto Janner. Um canicórneo, Janner observou e, sussurrando, advertiu o irmão: “Não se mova”. Tink ficou perfeitamente imóvel. Mas há horas não comia. Nós realmente deveríamos ter trazido algo para comer, ele pensou. A visão do banco de pedra lembrou a Tink a inscrição nele, que o lembrou de Brimney Stupe saboreando sua sopa, o que lembrou a Tink que ele não tinha comido nada desde que saíram do chalé, naquele mesmo dia. Seu estômago roncou. Alto. Janner paralisou de horror quando aquela fera olhou diretamente para os meninos parados dentro da casa. Ele ergueu sua cabeça chifruda e uivou um uivo lancinante e faminto. Em seguida, virou-se e avançou direto para eles. “Rápido!” Janner exclamou, disparando por uma porta à esquerda. À distância, um terrível coro de uivos respondeu ao primeiro. Janner não conseguiu pensar em nada a não ser adentrar mais a mansão e esperar encontrar um lugar para se esconder dos bichos. A porta levava a um longo corredor, onde orifícios ocasionais no teto permitiam a entrada de raios solares. O corredor era cheio de portas, de ambos os lados, então Janner escolheu uma ao acaso e puxou Tink logo em seguida. Lá fora, os uivos aumentavam em volume e número. “Psiu! Tem outra porta!” Relatou Tink. No fundo da sala havia uma porta, menor que a primeira, levando a uma escuridão ainda mais profunda. “Vamos! Está escuro, então fique perto”, asseverou Janner, correndo para a porta. Ele atravessou para — o ar vazio. Tink agarrou Janner pela camisa e o puxou de volta. Janner engasgou e firmou-se no batente da porta. Tink se pôs de joelhos e se abaixou pela abertura, esperando encontrar degraus ou outro tipo de escada. Não havia nada. “Estamos num beco sem saída”, constatou Janner. “Vamos!” Mas seu caminho estava barrado. Parado à porta por onde eles tinham passado estava a forma indistinta de um canicórneo. O único som na sala era a respiração ofegante da criatura. Seus olhos famintos brilhavam na escuridão e um rosnado baixo encheu a sala. A fera deu um passo à frente e mais duas bestas com chifres apareceram à porta atrás dele. “Então era isso que o mapa queria dizer com angústia e dor, hein?” Tink concluiu, de voz trêmula tal qual vara verde numa tempestade. Janner pensou em sua obrigação como o mais velho. Poucos dias atrás, Leeli quase morrera nas mãos de um Fang porque ele não estava atento. Agora isso. Por que não posso ser como nosso pai?!, Janner se questionou. Ele morreu na Grande Guerra, tentando proteger aqueles que amava. Por um momento vergonhoso, Janner sentiu um lampejo de raiva de Tink, por têlo convencido a ir até a Mansão Pé-de-Geleia. Por que eu é que tenho que arriscar a vida pelo meu irmão mais novo, quando é culpa dele estarmos aqui, pra começo de conversa? Janner estava cansado de assumir a responsabilidade pelas loucuras de seu irmão, e queria esquecer Tink e fugir para salvar sua vida. Talvez ele pudesse abrir caminho entre as feras e encontrar um lugar melhor para se esconder na mansão. Talvez... A ideia de fugir foi apenas um breve pensamento. Janner sabia que não iria — não poderia — deixar seu irmão mais novo para trás. Ele já conseguia ouvir a voz áspera de Podo em sua mente. “Parte de ser homem é cuidar muito bem de quem você ama.” O primeiro canicórneo na porta se enrijeceu. Janner sentiu mais do que viu, e soube que o ataque era iminente. Sem pestanejar, ele se colocou entre Tink e as feras, girou seu irmão mais novo e o empurrou pela porta. Tink gritou ao cair, e Janner ouviu as feras avançando, cujo hálito quente baforou querendo alcançar sua nuca enquanto ele também pulava na escuridão. 22 Nas Covas que Abaixo Daqui Estão A cabeça de Janner latejava. O mundo girou e ele sentiu como se estivesse dormindo há dias. Quando conseguiu abrir os olhos, viu um retângulo de luz fraca acima dele e as formas dos frenéticos animais preenchendo o vão da porta, rosnando e latindo. Um deles ganiu e recuou. Janner olhou para a direita e ainda conseguiu ver Tink arremessando uma pedra nos canicórneos. A pedra errou o alvo e pipocou através do teto de madeira podre como se fosse nada mais do que papel. Um raio de sol penetrou no cômodo. Janner afastou a tontura e cambaleou para ajudar o irmão. Pedra após pedra, muitas voaram em direção aos canicórneos que, quando atingidos, ganiam como filhotinhos e recuavam. Os irmãos começaram a se divertir como só meninos conseguem fazer quando estão atirando pedras, e iniciou-se uma disputa para ver quem acertaria a última fera. A maior de todas as bestas, um canicórneo tão alto quanto Janner, rosnava e arreganhava as presas, ameaçando, jazendo à porta. Tink avaliou o peso de uma pedra em sua mão, recuou e com um enorme brado a fez voar. A pedra atingiu o último animal bem no olho, que desabou no chão, com a cabeça pendendo sobre a borda. Os irmãos se dobraram com as mãos nos joelhos, ofegantes. Janner sorriu para o seu irmão. “Bom arremesso.” Tink sorriu de volta. “Você está bem?” Janner colocou a mão no lado da cabeça. “Eu... acho que sim. A queda não machucou você?” “Não, mas se alguma vez você planejar me empurrar pela borda de algo outra vez, me avise primeiro. Eu quase molhei as calças.” Janner olhou ao redor da sala, mas não conseguia enxergar muita coisa com aquela luz fraca. Ele pegou outra pedra. “O que vai fazer?” Perguntou Tink. Janner atirou a pedra através do teto quebradiço, deixando entrar outro raio de sol, depois atirou várias outras pedras até que pudessem enxergar claramente os arredores. O lado do porão oposto à porta alta estava entulhado com uma pilha de caixotes velhos e madeira seca, mas o resto do cômodo estava vazio. A única saída era por onde haviam entrado; a entrada tinha o dobro da altura de Janner e as paredes eram lisas demais para escalar. Janner cutucou a pilha de madeira, na esperança de encontrar algo que pudesse encostar na parede e escalar. Mas todas as tábuas suficientemente compridas eram frágeis demais para sustentá-lo. A maior parte da madeira, já antiga, estava podre e consumida. “Tink, suba nos meus ombros. Talvez você consiga alcançar a porta.” “Ah, não sei, não, viu?” Duvidou Tink, olhando para a porta acima deles. “Estamos bem longe.” “Sou mais alto do que você, e você não consegue me aguentar. Além disso, você caiu lá de cima e está bem. Agora, vamos, anda.” Janner se abaixou e com um forte gemido conseguiu se levantar com os pés de Tink em seus ombros. Tink tremia e se esforçava, mas ainda não conseguia alcançar a porta. Mesmo se ele puder alcançá-la, Janner pensou, aquele canicórneo ainda pode estar acordado. Tink desceu e Janner andou de um lado para o outro no porão, tentando pensar no que fazer, e quanto mais pensava, mais frustrado ficava consigo mesmo por estar ali. Esse negócio de caça ao tesouro era uma tolice, e Janner precisava levar seu irmão mais novo para casa. Se os dois não voltassem logo, Podo e Nia seriam, no mínimo, tão aterrorizantes quanto os canicórneos. Tink estava do outro lado do cômodo, cutucando com os pés uma pilha de madeira. “Janner!” Ele chamou. “Uma escada!” Graças ao Criador, pensou Janner. Podemos sair daqui. Ele cruzou a sala e olhou — e seus ombros murcharam. Tink estava sorrindo, apontando para uma passagem estreita que descia para as sombras. “Não, Tink”, retrucou Janner. “O que você quer dizer?” “O que você quer dizer com ‘o que você quer dizer?’” “Estamos tão perto, é isso que quero dizer. Não podemos simplesmente ir pra casa!” Janner estava sem palavras. Como esperam que eu cuide de meu irmão se ele não tem a menor noção do perigo que corremos? Apenas alguns momentos atrás eles quase foram comidos por uma matilha de canicórneos e, agora, Tink estava mais preocupado em bisbilhotar um porão do que com sua própria vida. Tink deu os primeiros passos, descendo na passagem, para ver melhor. “Aha!” Exclamou, parecendo muito com seu avô. Ressurgiu com um lampião a óleo e uma caixa de fósforos coberta com teias de aranha. Soprando a poeira do lampião, Tink o acendeu e começou a descer a escada sem dizer mais nada. Janner olhou ao redor da sala novamente, desejando desesperadamente que outra porta aparecesse, mas não havia nenhuma. Ele não tinha escolha e, com um suspiro, seguiu seu irmão mais novo para as entranhas da Mansão Pé-de-Geleia, tentando não pensar na advertência do mapa: Pois, nas covas que abaixo daqui estão, se encontra escondido no grande vão um caminho que leva à angústia e dor, sofrimento, tristeza e grande horror. Quanto mais a descida se aprofundava, mais o ar ficava frio e pesado. Teias de aranha pendiam do teto baixo da passagem, e os ouvidos de Janner estavam tomados pelo som de sua própria respiração e o eco de passos no chão de pedra. Depois de vários degraus rachados e quebrados, Tink e Janner chegaram ao pé da escada. A passagem parecia mais uma caverna do que um túnel — as paredes ásperas e úmidas. O chão estava úmido o suficiente para que nem Janner, nem Tink quisessem rastejar, mas o teto era baixo demais para permitir que andassem sem se abaixar. Eles prosseguiram desconfortavelmente curvados — Tink segurando o lampião e espiando a escuridão além do alcance da luz; Janner mal conseguia ver nada além da nuca de Tink. Nenhum dos meninos havia pensado na possibilidade de fantasmas depois de escaparem, por um triz, dos canicórneos de carne e osso, e Janner estava sorrindo, a despeito de si mesmo. Ele não podia negar a empolgação de se arrastar por uma passagem secreta no porão de uma casa antiga, e sabia que Tink também estava sorrindo. Janner quebrou o silêncio com um sussurro. “Como está aí na frente?” “Nada ainda — péra aí, a passagem tá se virando um pouco...” O caminho se torceu à direita e o teto elevou-se o suficiente para que os garotos conseguissem ficar em pé. Eles gemeram de alívio e esticaram as costas. Sua tensão, medo e excitação borbulharam à superfície como risos nervosos. Eles caminharam mais alguns metros, lentamente, e o caminho se alargou o suficiente para que os dois pudessem andar lado a lado. Nenhum deles falava enquanto avançavam cada vez mais para o fundo do corredor. Por fim, Janner e Tink chegaram ao fim da passagem, onde uma porta de ferro enferrujado bloqueava seu caminho. Suas dobradiças estavam embutidas na parede rochosa do túnel e eram tão quadradas e sólidas como se estivessem cravadas lá desde sempre. Quem quer que tenha colocado a porta ali, pretendia impedir a entrada de intrusos. No centro da porta havia uma placa de metal com várias fileiras bem alinhadas de botões metálicos redondos, do tamanho de juntas de dedos. Não havia buraco de fechadura. Tink experimentou a maçaneta e a encontrou trancada. “Claro”, disse Janner, frustrado. Um momento se passou — os garotos estudavam a porta. “Pera aí”, exclamou Tink. Ele apertou um dos botões enferrujados. Com um clique alto, o botão afundou na porta. “Janner, olha. Acho que é uma fechadura. Só precisamos descobrir a combinação certa de botões para apertar e a porta se abrirá. Vê?” Ele apertou outro botão. “Tem... dez filas de... oito botões cada. Isso dá apenas oitenta botões.” “Isso é ridículo.” Janner balançou a cabeça. “Não temos ideia de quantos botões precisam ser pressionados ou em que ordem. Ficaríamos aqui pelo resto da vida — que não pretendo gastar aqui.” Ele fez uma pausa. “Além disso, pode ser uma armadilha.” Tink respirou fundo e colocou a mão na maçaneta. Janner sentiu um momento de pânico. “Não!...” Tink piscou para Janner e tentou a maçaneta da porta novamente. A porta não se moveu, mas os botões que Tink pressionara voltaram ao lugar após um clique, alinhando-se aos demais. Janner preparou-se para algo terrível, mas nada aconteceu. Ele tentou mais uma vez convencer Tink a desistir, mas seu irmão mais novo continuou a ignorá-lo enquanto Janner se enterrava no chão e esperava. Certamente Tink ficaria entediado logo e desistiria por conta própria. Mas ele não desistia. Em vez disso, Tink desenrolou o mapa e o examinou à luz do lampião. “Deve haver algo aqui...” “Tink.” Janner suspirou, exasperado. “Se houver uma fechadura na porta, talvez ela deva permanecer trancada.” Tink ignorou seu irmão, atento ao mapa. Ele murmurava: “Algum tipo de código...” Ele estendeu o mapa com uma mão e levantou o lampião com a outra, projetando a sombra do mapa na parede do túnel. Pouco antes de Tink desistir e começar a enrolar o pergaminho, Janner os viu — pontos de luz em um padrão irregular, formados pelos minúsculos orifícios no mapa. A frustração de Janner desapareceu. “Tink, desenrole o mapa.” Tink olhou confuso enquanto Janner iluminava o mapa com o lampião e guiava cuidadosamente as mãos de Tink para posicionar o mapa na frente dos botões da porta. Os pontos de luz estavam agrupados e quase grudados no início, então Janner deu alguns passos para trás. Então Tink também enxergou, claro como a luz do dia: quatro dos pontos de luz alinhados com os quatro cantos das fileiras de botões, e o resto iluminava mais sete, aproximadamente no formato da letra W. Janner segurou o mapa e o lampião com firmeza, enquanto Tink pressionava cada um dos botões correspondentes. Tink segurou a maçaneta novamente. “Espere...” Janner alertou, colocando uma mão no antebraço de Tink. Tink olhou para Janner como se estivesse fora de si. “Você tem certeza disso?” Janner perguntou. Tink revirou os olhos. “Bom, pelo menos abra a porta devagar”, concluiu Janner. Respirando fundo, Tink girou a maçaneta e, com um clique, ela destravou. Em seguida, o irmão mais novo empurrou a porta, que se abriu com um rangido alto. 23 O Lamurioso Fantasma de Brimney Stupe Janner e Tink se viram em uma grande sala do tamanho de seu chalé inteiro. Ao redor havia pilhas de objetos com formatos estranhos cobertos por uma espessa camada de poeira. A princípio, nenhum dos dois sabia dizer em que consistiam aquelas pilhas, então Janner caminhou até a mais próxima, alguns metros à direita da porta, para ver melhor, e, inclinando-se perto de uma das formas empoeiradas, acabou espirrando inesperada e violentamente. A erupção espalhou a poeira numa nuvem, e a luz do lampião foi refletida por uma peça plana de metal polido. Janner jamais vira um machado de batalha. Podo costumava voltar da cidade com um machado de lenha emprestado, mas não era nada parecido com aquele. A arma tinha dois gumes, e as duas lâminas combinadas eram tão largas quanto o peito de Janner. Tink estava ao lado dele com a boca aberta. “O que é isso?” Tink perguntou em voz baixa. Janner não respondeu, mas passou o dedo ao longo do gume brilhante da lâmina. Tink soprou a poeira de outra coisa com algum formato ao lado dele, revelando uma espada. Rubis e pedras preciosas brilharam no punho, e uma inscrição em um idioma que nenhum dos dois reconheceu corria por toda a extensão da lâmina. Janner encontrou outra espada, mais robusta e menos ornamentada, mas polida e fina. Lentamente os dois se olharam — seus olhos arregalados de admiração. Ao redor deles havia pilhas sobre pilhas de espadas, machados, escudos e adagas. Trajes de armadura pareciam sentinelas ao longo da parede. Havia armas suficientes para um pequeno exército, escondidas no porão da Mansão Pé-de-Geleia por sabe-se lá quantos anos. Após o choque inicial, ambos correram pelo cômodo, soprando e limpando a poeira das armas. Tink encontrou uma espada curta e embraçou um pequeno escudo de madeira. Janner tentou puxar o machado da pilha, mas era tão pesado que, assim que a cabeça ficou livre, caiu retinindo no chão. Ele se perguntou se qualquer homem poderia erguê-lo, quanto mais brandi-lo em uma luta, e logo em seguida encontrou uma adaga que lhe convinha. Janner amarrou a bainha ao cinto e desembainhou a lâmina várias vezes, golpeando o ar. Tink colocou um capacete com pontas que era grande demais para sua cabeça; assim que o viu, o irmão mais velho caiu na gargalhada. “Olha isso!” Tink o chamou, jogando o capacete de lado. Ele havia encontrado centenas de flechas com ponta de aço e, ao lado delas, uma pilha de arcos sem corda encostada em um canto. Janner descobriu um rolo de corda, que o lembrou de que eles estavam presos. Os dois irmãos estavam tão fascinados com as armas que ele havia se esquecido dos canicórneos e a porta inacessível do porão. Janner deu uma boa olhada ao seu redor no arsenal. São estas as Joias de Anniera?, ele se perguntou. O que o querido Oskar N. Reteep tinha a ver com aquelas armas, afinal? Ele estremeceu ao pensar no que os Fangs fariam com eles se descobrissem aquele segredo. Oskar havia viajado por toda a Skree colecionando livros e curiosidades. Ele deve ter pegado as armas ao mesmo tempo e as escondeu. Mas por quê? A cabeça de Janner girava com todas as perguntas sem resposta que recentemente tinham feito um ninho em seus pensamentos. Mas ele teria tempo para pensar sobre tudo aquilo mais tarde — no momento, sabia que ele e Tink tinham que chegar em casa em segurança. “Tink, temos que ir.” Tink ergueu os olhos do peitoral enorme que estava tentando afivelar e, depois de pensar um momento, assentiu. Até mesmo Tink percebeu que eles não podiam ficar naquele porão para sempre. Janner ergueu a corda. “Talvez isso ajude.” “Boa. Estou faminto. Talvez o vovô faça mais daquela caldeirada de queijo.” Janner ficou aliviado porque, pela primeira vez, Tink não discutiu. “Deixe tudo aqui. A última coisa de que precisamos é ser capturados por um Fang...” “... ou mamãe”, completou Tink. “... com uma arma.” Eles riram juntos, deram uma última olhada na sala cintilante e fecharam a porta com um estrondo. Todos os botões pressionados voltaram à posição inicial, vedando a câmara para qualquer pessoa sem o mapa. Eles correram de volta pelo túnel baixo — Janner com a corda pendurada no ombro, imaginando como a usaria para escapar. De repente, da escuridão atrás deles, veio um som que gelou o sangue dos dois. Saindo da câmara de armas, veio um gemido incognoscível e ameaçador. Eles haviam despertado o fantasma de Brimney Stupe. 24 A Estrada Para Casa Janner e Tink pararam de andar e começaram a olhar para trás, mas além da luz do lampião — nada! O gemido flutuou para eles outra vez, e as mãos de Tink tremeram tão violentamente que ele deixou cair o lampião no chão úmido, onde se apagou. Isso foi o limite para Tink, que, gritando como um meep, saiu aos tropeções pelo túnel. Janner se apressou atrás dele — um medo frio percorria suas veias. Ele imaginava mil dedos ossudos arranhando suas costas e voou escada acima em dois saltos. Tink já estava no topo, empunhando perigosamente uma das velhas tábuas. Janner se perguntou o que Tink pensava fazer com a prancha, se o fantasma de Brimney Stupe realmente viesse assombrá-lo, mas admirou as intenções do irmão — e pegou sua própria prancha curta e resistente da pilha de tábuas. O longo gemido veio da boca da passagem novamente enquanto Janner amarrava freneticamente a corda no centro da tábua. Por favor, por favor, funcione, pensava. Ele mirou e arremessou a tábua pela porta, percebendo vagamente que o canicórneo não estava mais lá. Ele puxou a corda, mas a prancha estatelou-se no chão. Na segunda tentativa, Janner sacudiu a corda para que a prancha se alinhasse com o chão, contra o batente da porta. Torcendo para que os animais já tivessem ido embora e que a prancha aguentasse, ele escalou a parede e passou pela porta. Janner abaixou-se pela abertura. “Tink, anda logo!” Ele gritou sobrepondo o gemido que ecoava na sala escura. Tink desgrudou os olhos da abertura do túnel e percebeu que estava sozinho no porão. “Aiiii!” Gritou enquanto jogava a prancha de lado e trepava pela corda como um esquilo maluco. Ele ignorou a mão de Janner e desembestou para cima e através da porta, onde os dois desabaram no chão, ofegantes. Janner chutou a prancha e a corda de volta para o porão, pensando que seria melhor remover o máximo possível de vestígios da presença deles. O simples fato de estar fora do porão escuro fazia Brimney Stupe parecer menos assustador, mas agora eles tinham que lutar contra os canicórneos. Os irmãos se arrastaram de volta pela casa e espiaram pela porta da frente, semicerrando os olhos por causa da claridade. O sol do fim da tarde era tão quente e bem-vindo quanto a própria vida. Janner examinou a borda da floresta em busca de qualquer sinal de movimento. “Eu não os vejo”, o irmão mais velho sussurrou. O rosto de Tink estava pálido. Outro gemido gelado chegou até eles, das entranhas da Mansão Pé-deGeleia. “Pronto?” “Nunca estive tão pronto”, Tink se arquejou. “Corre!” Os irmãos Igiby passaram correndo pelo banco de pedra, pelo portão de ferro, descendo a longa estrada que se afastava da Mansão Pé-de-Geleia e da fronteira da floresta, e não pararam até chegar ao campo, logo atrás da propriedade Blaggus. Incapazes de dar outro passo, os dois deitaram suando na grama alta até que pudessem respirar novamente. Em seguida, levantaram-se para voltar para casa, incapazes de acreditar que ainda estavam vivos e fazendo juramentos solenes de nunca mais colocar os pés naquele lugar horrível e incrível. Janner e Tink aproximaram-se do chalé no final da tarde, no momento em que Podo estava descendo o caminho com um saco se contorcendo no ombro. “Rapazes! Parece que os véios irmãos Blaggus surraram vocês de novo, não é mesmo?” Podo olhou para suas roupas sujas e suadas. Janner e Tink forçaram uma risada. “Aonde você vai?” Janner perguntou, mudando de assunto. Podo se inclinou mais perto e colocou a mão no canto da boca. “Não diga pra sua mãe — a menos que ela pergunte, é claro —, mas sabe todos esses thwaps que eu tenho catado? Bom, eu pego e jogo tudo no quintal do velho Willie Abutre, do outro lado da cidade. Uh-hu!” Podo riu, batendo no joelho. “Aquele patife nunca me deu um momento de paz quando éramos garotinhos, aqui em Glipwood, sem mencionar como ele cortejou a doce Merna Bidgeholler, bem debaixo do meu nariz. E, além disso”, as sobrancelhas brancas de Podo se juntaram, “seus pés de totatas e amoras são sempre mais viçosos que os meus”. Ele coçou os cabelos rebeldes e murmurou: “Não sei como ele faz isso.” Podo estendeu o saco e bateu nele, feliz, produzindo um coro de tagarelice lá dentro. “Então, vejo vocês na janta, rapazes!” Podo mancou em direção à casa de Willie Abutre, assobiando e girando o saco enquanto caminhava. Janner e Tink ficaram lado a lado por um momento para observar Podo, até que ele saísse de vista. Em seguida, retomaram seu caminho para o chalé, gratos por estarem em casa novamente. Mas eles não eram os únicos olhando. Atrás de uma das árvores de Glipwood, no gramado dos fundos, Slarb, o Fang, observava Janner e Tink entrando em sua casa. Slarb tinha se esgueirado furtivamente, o dia todo, em torno da casa da família Igiby, tomando todo o cuidado para não ser visto. Ele observou em agonia, apertando as mãos contra as laterais da cabeça, enquanto Leeli praticava harpa eólica na varanda da frente. O Fang acompanhou com ódio Nia lavando as roupas do lado de fora da porta dos fundos. E várias vezes, quando Leeli atirava uma vareta para Nugget buscar, foi necessária toda a força de vontade de Slarb para não arrebatar o cachorro de uma vez para sempre. Mesmo depois de tudo aquilo, cerrando os dentes à sombra de uma árvore, ele ansiava por afundá-los em qualquer Igiby infeliz o suficiente para se aproximar. 25 No Salão do General Khrak Enquanto isso, na cidade de Torrboro, o Comandante Gnorm estava chegando ao Palácio Torr depois de viajar durante a noite e a maior parte do dia. Segundo os mapas antigos, Torrboro ficava a dois dias de viagem de Glipwood quando pela estrada principal, mas os Fangs não paravam nem para descansar, nem para comer enquanto dirigiam impiedosamente seus cavalos pelas pradarias áridas até a cidade. A cidade de Torrboro se espalhava na margem sul do rio Blapp e fervilhava de atividade. Ninguém que morava lá parecia saber para onde os outros estavam indo ou por quê, e muitos tinham pouquíssima noção de para onde eles próprios estavam indo. As pessoas caminhavam, empurravam carroças, conduziam carruagens, pastoreavam ovelhas, transportavam sacos de totatas, carregavam carroças com peixes; vendiam, compravam, gritavam, conversavam — tudo sem sorrir ou pensar muito. Espreitando entre a multidão estavam Fangs armados, de vários tamanhos e formas. Espreitando entre os Fangs estavam trols, e um único trol fedia mais do que cem Fangs. Se um trol esbarrasse em algum transeunte infeliz, o pobre sujeito deixaria sua casa fedida por semanas; então, aonde quer que os trols fossem, as pessoas se espalhavam como folhas sopradas pelo vento. Os cidadãos de Torrboro mal conseguiam se lembrar dos dias antes da Guerra, quando Fangs e trols eram apenas rumores do outro lado do Mar Sombrio da Escuridão. Agora, a visão de monstros caminhando entre eles parecia tão normal quanto as gaivotas que voavam e cantavam no ar, acima da cidade. O Comandante Gnorm começou a abrir a porta da carruagem, mas parou quando viu as joias brilhando em seus braços e dedos gordos. Ele rapidamente removeu as pulseiras e anéis e os colocou em sua bolsa, aliviado por ter se lembrado de escondê-los. Ele não queria nenhuma briga por causa de seus brilhantes recém-adquiridos. Gnorm se espremeu para fora da carruagem com um longo gemido e cutucou os pedaços de floelho entre os dentes. Ele havia lanchado no caminho. Os cavalos exaustos resfolegavam e cambaleavam enquanto o gordo comandante subia a longa escadaria que levava à entrada em forma de boca, do Palácio Torr.1 O outrora belo castelo erguia-se alto e nítido contra o céu cinza — as janelas escuras de suas torres, seus estandartes esfarrapados e brandindo frouxamente no ar denso, como se estivessem de luto por sua antiga glória. Dois soldados trols estavam de guarda na porta principal, olhando para Gnorm e o condutor. “Que negócios você tem com o general?” Questionou um deles com uma voz estrondosa que sacudiu a armadura de Gnorm. “O mesmo negócio que tive da última vez, e na vez antes daquela, e na vez antes daquela, verme de cavalo.” Gnorm torceu a cara. O trol arrotou e se afastou, gesticulando para que o outro trol abrisse a grande porta de madeira. “Idiota”, Gnorm sibilou ao passar pela soleira e entrar no palácio. O corredor principal estava cheio de ossos e lixo. O fedor deixaria um humano doente, mas para Gnorm cheirava a jantar. Fangs descansavam aqui e ali, dormindo no chão ou encostados nas paredes. Trols se amontoavam em torno de um jogo de dados no canto; alguns deles ergueram os olhos quando Gnorm entrou e então voltaram ao que lhes interessava. Sorrindo, Gnorm olhou em volta por um momento. É sempre bom estar de volta a tudo isso, pensou o comandante. Ele desceu — pisadas pesadas — pelo centro do corredor até as sentinelas Fangs, a postos do lado de fora da sala do trono. “Saudaçõesss, Comandante Gnorm”, cumprimentou um dos Fangs, levantando sua lança para que ele pudesse passar. “Bleah”, desprezou Gnorm, e entrou na sala do trono do Fang mais poderoso de toda Skree. Ao contrário do salão principal, a sala do trono estava vazia, exceto pelo General Khrak e um servo Fang que estava enchendo sua taça com uma gosma negra. Gnorm curvou-se tão baixo que sua pança escamosa quase tocou o chão, esperando por um longo tempo. Ele sabia que muitos comandantes haviam perdido a cabeça ao se levantarem sem permissão. Finalmente, ele ouviu o general grunhir e Gnorm ergueu-se de sua posição prostrada, com grande dificuldade. “Gnorm”, Khrak o chamou — sua voz ecoou no salão vazio. Ele sorveu um gole em sua taça. O teto era alto e uma luz pálida entrava pelas janelas estreitas. A sala estava vazia de móveis, exceto pelo trono dourado, então coberto de sujeira. O general era um dos servos mais antigos de Gnag, o Sem-Nome. Foi Khrak quem liderou o exército que destruiu Anniera e quem conduziu a horda Fang até Skree através do Mar Sombrio. Khrak, cujas ordens enviavam a Carruagem Negra por toda a terra para sequestrar as crianças skreenianas, era, sim, temido até mesmo pelos Fangs. Seu torso e abdômen eram longos e flexíveis e, embora seus braços e pernas fossem mais curtos e finos do que os da maioria dos Fangs, nenhum outro era páreo para as proezas de Khrak. Seus dentes eram mais longos e afiados que os de Gnorm, e dizia-se que seu veneno era capaz de matar um dragão-marinho. “Que novidadesss você traz de Glipwood?” Perguntou o general. “Sem novidades, senhor. Uma briga no dia em que os dragões-marinhos vieram, mas foi resolvida rapidamente.” Distraído, Gnorm coçou a barriga. Normalmente as reuniões com o General Khrak eram curtas, e ele estava faminto por algumas das famosas entranhas de peixes de Cavadópolis, em uma taverna chamada O Gargarejo e o Arroto. A cidade de Cavadópolis ficava numa baixada, na margem norte do rio Blapp e era a vizinha suja de Torrboro, um labirinto de edifícios decrépitos, fervilhando de ladrões e mendigos. Gnorm odiava ter que viajar tão longe para uma conversa tão curta, mas pelo menos conseguia dar uma escapada até Cavadópolis por alguns dias. “Aproxime-se, Comandante Gnorm. Eu tenho novidades do castelo Throg.” Gnorm aproximou-se, esperando que o general não demorasse muito. Ele visualizava, em sua mente, as ruas baixas de Cavadópolis, gloriosamente sujas, onde logo estaria devorando pequenos vermes contorcidos durante um jogo de dados. “O Sssem-Nome enviou uma mensagem”, relatou Khrak, saboreando a notícia, “de que está reunindo outro exército. Ele diz que será um exército maior do que qualquer um que Kistamos já conheceu.” Khrak fez uma pausa e deixou a notícia pairar no ar. “E o que nosso Mestre planeja fazer com este grande exército, senhor?” “O Sssem-Nome manteve seus propósitos ocultos de mim, mas acredito que ele planeja marchar para o oeste, rumo às terras desconhecidas. Como você sabe, o Mestre ainda busca as Joiasss de Anniera. Ele duvida que estejam em Skree, mas que agora se encontram além dela, além dos limites de todos os mapas.” “Senhor, por que o Sem-Nome procura essas joias?” Perguntou Gnorm e, curvando-se depressa, arrematou: “Claro, se me for permitido perguntar, senhor”. A cauda do general enroscou-se no braço do trono. Ele brincou com a ponta dela enquanto falava. Uma gorda e amarela centopeia se contorceu para fora da gosma, em uma tentativa desesperada de escapar do cálice, mas a língua de Khrak chicoteou para fora e recolheu a criatura em sua boca. O Fang fechou os olhos e deglutiu com vagar. “Quando nós saqueamos... Anniera” — o general regurgitou a palavra como se tivesse um gosto horrível na boca —, “foram encontrados muitos escritos do Rei Wingfeather. Neles, ele falava das Joias de Anniera e do antigo poder que elas detêm, um poder que poderia destruir o Sem-Nome e restaurar Anniera à sua glória.” Gnorm imaginou isso. Por anos Gnag se consumiu em encontrar as joias, embora o comandante sempre se perguntasse como eles localizariam algo que podia ser escondido tão facilmente. Além disso, que poder poderia sobrepujar o poderoso Gnag e seu exército? “Ele acredita que as joiasss estão escondidas... além dos mapas?” Gnorm perguntou, embora estivesse perdendo rapidamente o interesse. Cada momento passado ali era um momento que ele não passaria no Gargarejo e o Arroto, jantando cérebros de garlinói. “Ele as procurou em Skree todos esses anos”, relatou Khrak, “e sua impaciência aumenta. Os skreenianos não sabem o que está a oeste das planícies, mas se houver povos para conquistar, tenho certeza de que ele pretende fazê-lo. Não é nosso trabalho saber o que a grande mente de nosso mestre pretende”, disse ele com um aceno de mão. Khrak se inclinou para a frente. “Mas ele exige algo de você, Comandante Gnorm.” “Qualquer coisa, meu senhor”, respondeu Gnorm com uma leve reverência. Ele podia sentir o gosto das caudas de rato, senti-las deslizando deliciosamente por sua garganta. “O Sem-Nome precisa de mais prisioneiros enviados para Dang. Estou ordenando aos comandantes de todos os setores de Skree que dobrem suas prisões. Não somente as crianças, mas famílias inteiras. Vamos encher a Carruagem Negra com skreenianos e enviá-los de navio para nosso senhor Gnag, Aquele Que Não Tem Nome.” Khrak deu outra longa sorvida na gosma e sorriu. “Creio que você achará esse pedido agradável, certo?” “Ah, sim, senhor. Muito agradável.” Gnorm sorriu, pensando em que pessoas de Glipwood ele pegaria primeiro. Então pensou novamente nas tavernas de Cavadópolis e perguntou: “Isso é tudo, General?” Khrak acariciou sua cauda e olhou para Gnorm. “Sim, comandante. Vá.” Gnorm curvou-se novamente e, ao fazê-lo, um medalhão de ouro em uma corrente de prata escorregou de onde ele o havia enfiado em seu peitoral. O colar brilhou na luz e balançou em seu pescoço de forma sedutora. “Espere”, ordenou o general, deslizando para fora do trono e descendo os degraus. O ruído de suas garras no chão de mármore ecoou por toda a câmara. “E onde você adquiriu esta bugiganga?” Gnorm sentiu o suor úmido escorrendo de suas escamas. Ele não ousava se mover. “De um dos habitantes da cidade, senhor. Uma mulher. É ssseu, se o agradar”, ele gaguejou. O general arrancou o medalhão do pescoço de Gnorm com um silvo e serpenteou de volta para o trono, com um murmúrio de dispensa. Ele olhou para o medalhão com satisfação. “Gosssto da maneira como brilha”, disse o general para si mesmo enquanto o fazia deslizar pela mão. “Agora vá.” Gnorm levantou-se e saiu da sala do trono. Ele irrompeu pelo corredor, onde trols e Fangs continuavam relaxando e subiu de volta na carruagem. “Leve-me para Cavadópolis!” Esbravejou. “Agora!” O condutor precipitou-se para a carruagem e conduziu o desgostoso comandante pelas ruas de paralelepípedos até a balsa para Cavadópolis, onde ele se banquetearia com vísceras e afogaria a raiva por perder sua peça favorita da pilhagem. 26 Problemas na Livraria Na manhã seguinte, Podo ficou satisfeito ao encontrar mais thwaps no jardim, e tinha tanto prazer em ouvir Willie Abutre reclamar deles, na taverna, que passou a ansiar acordar todas as manhãs, ao nascer do sol, para pegar os pequenos ladrões com a mão na massa; parte de sua rotina diária era entrar furtivamente no quintal de Willie Abutre, despejar sacos cheios de thwaps e vê-los se espalharem. Para ser justo, depois de soltar os thwaps, Podo se esgueirava até a porta da frente e entregava a Willie uma cesta de vegetais, com os cumprimentos do florescente jardim Igiby. Janner, Tink e Leeli fizeram suas tarefas matinais e estudaram seu T.A.N.E.G. Tink estava animado com o fato de os dois livros de arte que ele havia emprestado de Oskar terem sido úteis e repletos de belas imagens. Leeli passou o tempo memorizando as palavras e melodias de várias músicas antigas que Nia conhecia desde a infância. Mas Janner estava sentado nos degraus da frente com o diário no colo, olhando para além das árvores. Nia havia lhe pedido para escrever um relatório sobre o livro Na Era dos Floelhos Domesticados, mas por mais que tentasse, Janner não conseguia passar das primeiras palavras sem pensar no mapa de Oskar. Oskar N. Reteep era um homem bem diferente do que Janner imaginava, escondendo mapas secretos e acumulando armas em uma mansão malassombrada. Janner balançou a cabeça e sorriu ironicamente, pensando em todas as joias que sua mãe mantinha em segredo. Ela também não era, exatamente, quem ele imaginava que fosse. Será que todos os adultos escondem alguma coisa? “Janner, você já está terminando?” A voz de Nia o surpreendeu. Ela parou atrás dele, franzindo a testa para a página quase toda em branco, em seu colo. As bochechas de Janner ficaram vermelhas. Ele ficou sentado lá durante a maior parte da manhã e não tinha nada para mostrar. “É só que eu tenho... muita coisa abarrotando minha cabeça pra escrever sobre floelhos e as Selvas de Plontst”, ele gaguejou. Janner então olhou para o chão, perguntando-se por que de repente sentia a necessidade de chorar. Esperou por algum tipo de repreensão, mas em vez disso sentiu sua mãe apertar seu ombro. “Então escreva sobre isso. Vai fazer bem a você”, aconselhou ela, virandose para ir embora. “E prometo que não vou ler.” Ele olhou para a pena em sua mão e lembrou-se da sensação da espada que havia empunhado, na câmara de armas. Foi bom, como se não fosse mais um menino impotente em uma cidade chata, mas alguém cuja vida poderia significar algo, como a de seu pai. Todas as lágrimas que tinham se acumulado nele, momentos antes, transformaram-se em palavras e ele começou a rabiscá-las em seu diário. Quando terminou de relatar os detalhes das aventuras dos últimos dois dias — a cabeça cheia de perguntas que ele e o irmão levantaram e o coração cheio de emoções que ambos despertaram —, sua mão doía e o tinteiro estava quase seco. Nia chamou para um almoço de galinhada e broa, e Janner fechou seu diário com uma sensação de leveza no peito, como se estivesse carregando um saco de ração nos ombros por dois dias e o tivesse jogado no chão do celeiro. Mas sua cabeça ainda girava. Tink apareceu e tentou empurrar a porta da cozinha, mas Janner agarrou seu cotovelo. “Galinhada e broa”, comemorou Tink todo esbaforido, dando um tapinha no estômago. “Que foi?” Janner baixou a voz. “Temos que devolver aquele mapa.” O rosto de Tink ficou sério e ele escondeu as mãos atrás das costas, pensando no quanto queria manter os dedos presos a elas. “Temos? E se o senhor Reteep descobrir?” “Ele vai descobrir em breve, se perceber o sumiço daquele mapa, e tenho certeza de que vai suspeitar que o pegamos. Acho que a opção mais segura é tentar recolocá-lo quando ele não estiver olhando. Confie em mim. Faremos isso hoje, quando formos à livraria.” Eles devoraram o almoço e partiram, com Leeli e Nugget logo atrás. Mais uma vez, Podo os acompanhou até a cidade — até à Taverna do Crespo, pelo menos. “Depois de bater um pouco de papo com Crespo, vou pra casa cuidar do jardim. Voltarei para buscá-los ao pôr do sol.” Com um aviso para serem cautelosos e ficarem juntos, o avô os liberou, queixando-se em voz alta de sua sede esmagadora. Leeli ainda não tinha se aventurado na cidade desde o Festival dos Dragões-Marinhos e estava ansiosa. Mas o sol estava forte e as pessoas da cidade pareciam como sempre, então seu ânimo logo se iluminou e ela começou a cantarolar enquanto mancava atrás dos irmãos. Eles acenaram para os irmãos Blaggus que empurravam um carrinho de mão, cheio de ferramentas de jardim que haviam acabado de pegar, depois de passarem a manhã preenchendo uma pilha de Formulários de Uso de Ferramentas. Os Fangs estavam em seu lugar de costume, na frente da cadeia, rindo maliciosamente de um e de outro, e zombando do povo de Glipwood que passava. Janner ficou aliviado por não ver nenhum sinal de Slarb ou do Comandante Gnorm. Zouzab estava sentado no telhado da Livros e Vãos com as pernas cruzadas, fazendo malabarismos com três pedras e observando as crianças se aproximarem. “Olá, crianças”, cumprimentou-os com sua voz baixa. “Vocês vieram para... devolver algo?” Janner e Tink se olharam furtivamente. Saberia Zouzab que eles pegaram o mapa? Janner disse a si mesmo que era só sua consciência culpada. Eles acenaram para ele — Janner tentando ser o mais agradável possível com o estranho corre-crista, embora sempre achasse difícil ser agradável com ele. Os olhos de Zouzab pareciam estudá-lo de uma forma familiar a Janner, embora não conseguisse entender o motivo. “Viemos ver se a Leeli consegue pegar alguns livros emprestados”, explicou Janner. “Tenho certeza de que ela conseguirá, sim”, Zouzab respondeu agradavelmente, enquanto se esgueirava para trás, fora de vista. Janner observou o corre-crista desaparecer e se lembrou de Nícolas, o gato de Ferínia Swapleton. Normalmente, o bichano era visto se espreguiçando e lambendo as patas na penumbra da varanda da frente da floricultura. Mas, às vezes, quando uma borboleta batia as asas à sua frente, o gato se punha de pé, num salto, e olhava o inseto com uma intensidade fria e calculada. Janner percebeu que, quando Zouzab o observava, ele próprio se sentia como uma borboleta. Estremecendo-se todo, apressou-se livraria adentro, onde encontrou Oskar em seu escritório, curvado sobre um enorme volume em sua mesa. “Os três Igibys! Entrem, entrem.” Ele abriu bem os braços e acenou para que entrassem. Sua feição, porém, ficou horrorizada quando viu Nugget andando ao lado de Leeli. “Ah, não! Sem cachorros, mocinha. A primeira coisa, como você sabe: já já ele estará mordendo algum livro antigo e raro.” Ele enxotou Nugget pela porta dos fundos, para a decepção de Leeli. Percebendo isso, a expressão de Oskar suavizou, mas nem tanto. “Como o grande treinador de animais, Yakev Brrz, escreveu, hã, deixe-me ver... como era...” Oskar fechou os olhos, um dedo no ar. “Ah! Ele fala assim: ‘Goste ou não, o cachorro fica do lado de fora’.” Um homem sábio, esse Yakev.1 Leeli fez sinal para que Nugget a esperasse ao lado da porta de carregamento, nos fundos, onde antes haviam estado as caixas cheias de livros. Oskar, então, acompanhou Leeli pela loja para encontrar a seção de música. Janner e Tink vagaram pelo labirinto de prateleiras por meia hora antes de Tink encontrar o painel solto, logo abaixo da prateleira com o rótulo Remédios e Anedotas Para Erupções Cutâneas. A vela de cera de meleca ainda estava em seu lugar. “Ele está por perto?” Tink perguntou, olhando para um lado e para o outro, no corredor. Janner caminhou até o final, espiou por entre um corredor e outro e balançou a cabeça negativamente. Tink soltou o painel, puxou o mapa da manga e deslizou-o para baixo da prateleira. Quando recolocou o painel, os dois ouviram uma voz baixa acima deles. “Deixaram cair alguma coisa?” Perguntou-lhes Zouzab. Ele estava empoleirado no topo da prateleira mais alta, acima deles, sorrindo. Janner e Tink tentaram sorrir de volta. Tink disse a ele que havia visto um rato-do-campo e estava tentando pegá-lo antes que arruinasse qualquer um dos livros de Oskar. “Ah, sim, vejo ratos-do-campo aqui o tempo todo”, afirmou Zouzab. “Só que eu” — rápido como um raio, Zouzab correu pela prateleira e fingiu agarrar algo — “me esgueiro e os agarro antes que eles saibam o que aconteceu.” Tink e Janner sorriram desconfortavelmente, ainda sem saber o que pensar de Zouzab Koit. Zouzab correu de volta para a prateleira e desapareceu novamente. Janner deu uma cotovelada em Tink e acenou com a cabeça em direção à entrada. Por mais quinze minutos, erraram corredor após corredor, tentando encontrar Leeli e Oskar. Por fim, encontraram Oskar, muito satisfeito consigo mesmo, segurando uma pilha de pelo menos dez volumes grandes, todos sobre o assunto harpa eólica. “Onde está Leeli?” Janner perguntou. “Hã?” Resmungou Oskar, olhando para eles através dos óculos. “Ah! Ela foi dar uma olhada naquele cachorrinho dela um tempo atrás.” O coração de Janner deu um pulo. A primeira vez na cidade desde o incidente que quase os matou, e ele já não sabia onde ela estava. Disse a si mesmo que estava exagerando, mas a sensação de mal-estar no estômago o fez correr e chamar o nome dela, deixando Tink e Oskar parados, sem fala. Janner disparou de um lado para outro através das voltas e mais voltas enlouquecedoras dos corredores estreitos, tentando encontrar o caminho de volta para o escritório. Ele dobrou uma esquina e derrapou até parar bem na frente de Oskar e Tink, que não haviam se mexido. Ele estava de volta ao ponto de partida. “Eu tenho que encontrar Leeli!” Janner exclamou. Oskar piscou, chocado com o tom de voz de Janner, mas deixou cair os livros no chão em uma pilha e começou a seguir em frente, indicando o caminho o mais rápido possível, com Tink na retaguarda. Janner o ultrapassou quando viu o escritório à frente e irrompeu pela porta dos fundos, orando para que Leeli estivesse sentada na grama coçando a barriga de Nugget. Mas ela não estava em lugar nenhum. A área atrás da Livros e Vãos estava vazia, exceto pela pilha de caixotes antigos, empilhados ali dois dias antes. Ao lado das caixas estava a nova muleta Chuta-lagartos, de Leeli. Janner sentiu seu interior estremecer. Ele não conseguia acreditar que já tinha falhado em proteger sua irmã e tinha a sensação de que desta vez os dois irmãos não sairiam ilesos. O mais velho estava vagamente ciente de Tink gritando o nome de Leeli o mais alto que podia e de Oskar correndo pela esquina do edifício, chamando por Leeli também. Janner caiu de joelhos, à beira das lágrimas. Ele estava passando por sentimentos de raiva por Leeli ter saído sozinha, raiva de Oskar por deixá-la, mesmo por um momento, e culpa por falhar mais uma vez com Podo, Nia e, principalmente, com Leeli. Oskar voltou virando a esquina. “Ela não está aqui”, constatou ele, ajustando os óculos com preocupação. De repente, Nugget apareceu, arrastando uma pata e choramingando. “Nugget!” Tink gritou e correu para o cachorrinho. “Onde está Leeli, garoto? Leeli?!” Nugget apontou o nariz para o campo atrás da loja de Oskar e latiu. “Lá!” Indicou Zouzab, acima deles. Ele estava de pé no telhado, novamente, apontando para o norte, em direção a um grupo de árvores. “Eu consigo ver algo se movendo... lá.” “É ela?” Janner demandou, lutando para ficar de pé. “Parece ser um Fang... e... sim, está carregando algo. Acredito que seja ela”, concluiu Zouzab, com uma nota de tristeza na voz. Com um brado, Janner saltou e correu o mais rápido que pôde para casa. Seu único pensamento era que ele tinha que encontrar Podo, porque seu avô saberia o que fazer. Janner e Tink gritaram pelo nome do avô por todo o caminho que levava até o chalé; Podo, que estivera capinando no jardim, largou a enxada e correu, com perna de pau e tudo, para ir ao encontro dos netos. “Onde que tá minha neta?” Ele demandou saber. Entre arfadas, Janner contou o que havia acontecido e, no meio da história, começou a chorar. Ele se sentiu bobo por começar a chorar, mas não conseguiu conter as lágrimas por mais tempo. Tink, sem jeito, ficou ao lado dele, olhando para o chão e torcendo para que Podo não fosse duro demais com seu irmão mais velho. Sem dizer uma palavra, Podo virou-se e correu para o celeiro. “Vovô, o que vamos fazer?!” Tink perguntou. De repente, Podo emergiu do celeiro, montado em seu velho cavalo de carga, Danny — mas tanto Podo como Danny pareciam diferentes. Danny galopava como um cavalo de guerra; sua crina girava como se estivesse pegando fogo, e ali estava Podo, montando em pelo, com o cabelo branco esvoaçando, as costas inclinadas para frente enquanto impelia o cavalo. Janner achou que o avô parecia dez anos mais jovem e duas vezes mais forte. “Fiquem aqui!” Vociferou Podo. “Mas...” Janner começou a querer retrucar. “Fiquem aqui!” Podo bradou. As veias saltavam em seu pescoço e seu rosto estava vermelho como uma ameixa. Podo partiu a galope pela estrada em direção à cidade, deixando seus netos olhando para o avô com admiração. 27 Uma Armadilha Para os Igibys Leeli estava tendo um péssimo dia. Ela havia sido pendurada no ombro de Slarb como um saco de raízes de trulhas. Naquela posição, de cabeça para baixo, ela era capaz de ver pouco mais do que seu próprio cabelo loiro saltando em seu rosto e as escamas verdes com matizes cinzas do ombro e das costas do Fang. A pele fria de Slarb era lisa e úmida, como folhas cobertas de sereno, exceto pelo fato de que a umidade em suas escamas certamente não era nada agradável quanto o orvalho da manhã. Ele fedia, um cheiro forte que lembrava Leeli da pilha de compostagem ao lado do jardim, para onde ela costumava ser enviada com cascas de vegetais e restos de comida. Por mais improvável que parecesse, Leeli, na verdade, sentia pena de Slarb. O Fang provavelmente não tinha amigos, a menininha pensou, e não importava aonde fosse, ele tinha que sentir seu próprio cheiro — a menos que tivesse se acostumado, mas ela descartou essa ideia como impossível. Qualquer compaixão que ela sentia pelo Fang desapareceu, porém, assim que ela falou com ele. “Você — nunca — vai — escapar — dessa”, protestava ela entre os solavancos. “Meus — irmãos — e — vovô — irão —...” Slarb rosnou e apertou suas garras com mais força em torno das pernas da pequena Igiby, até que ela gritou. Leeli não disse mais nada. Os meninos logo perceberiam que ela estava desaparecida e Nugget jamais a decepcionara. Depois de um tempo, ela começou a pensar que seria preferível morrer àquele fedor terrível. Ela conseguia perceber que eles haviam subido gradualmente, na direção de Floresta Glipwood, mas não havia nada que pudesse fazer. Mesmo que Leeli, de alguma forma, se libertasse, não conseguiria fugir; ela havia deixado cair sua muleta quando Slarb a agarrou e, mesmo se a tivesse, não havia chance de superar um Fang numa corrida. Finalmente eles pararam. Slarb estivera avançando pelos campos havia meia hora e o único som que ele fez foi o rosnado para Leeli, quando ela tentou contatá-lo. O Fang parou em um aglomerado de árvores no início da floresta, farejando o ar. Leeli ficou quieta e esperou para ver o que Slarb faria. Certamente ele não estava planejando levá-la para a floresta. Até Fangs sabiam que entrar na Floresta Glipwood significava uma morte estúpida. Slarb deu uma risadinha, um som nauseante, e jogou Leeli no chão. A queda a sacudiu e ela mordeu a língua com força suficiente para arrancar sangue. Ela podia sentir o gosto em sua boca enquanto lutava contra as lágrimas. Mas Leeli afastou o cabelo dos olhos e olhou ferozmente para Slarb. A ponta de sua cauda esvoaçava e farfalhava no solo frondoso, o único som que Leeli ouvia além de sua respiração irregular. Seus olhos negros viraram para ela, sem emoção. “Eu acho que seusss irmãosss vão chegar em breve”, ele ponderou e se esgueirou até uma árvore próxima, encostando-se nela, com um sorriso malicioso no rosto escamoso. Leeli ficou deitada no chão, pensando mil coisas. Ela sabia que Slarb estava certo, pois conhecia seus irmãos e sabia que eles viriam atrás dela. Mas, desta vez, ela não queria que fossem ao seu socorro. Se Slarb não os matasse, então havia uma boa chance de que as criaturas da floresta os tragassem. Leeli não queria que seus irmãos caíssem numa armadilha; olhando ao redor, viu uma grande árvore de tronco nodoso, alguns metros atrás dela, e então recuou para encostar-se nele. Slarb ouviu seu movimento, virou a cabeça em sua direção e sibilou. Sua longa língua bifurcada deslizou para fora de sua boca e sobre suas presas. Leeli recostou-se na árvore. Ela sabia que Slarb não precisava de muitos motivos para matá-la, então se movia com cuidado. “Eu não vou a lugar nenhum, Seu Fang, digo, senhor. Estou apenas encostada no...” “Silêncio!” Ele gritou. “A única coisa pior do que o cheiro de vocês, humanos, é essa sua voz estridente.” Leeli acenou com a cabeça — o coração disparado. Durante os vários minutos que se passaram, Slarb ficou em silêncio, ouvindo. O Fang estava encostado em uma árvore, aparentemente preparado para esperar dias, se necessário. A cabeça de Leeli ainda estava a mil, mas por mais que tentasse, não conseguia pensar em nada que pudesse fazer. Um pensamento continuava vindo à sua mente. Saia daqui. Movimente-se o mais rápido que sua perna torta permitir. Não se sente aqui e espere para ver seus irmãos morrerem. Era inútil, mas era insuportável não fazer nada. Leeli se inclinou, lentamente. Slarb não notou. Ele virou a cabeça para o lado, ouvindo algo. Justamente quando Leeli reuniu coragem para se virar e tentar fugir, ela ouviu uma batida na vegetação rasteira, à sua direita. Não!, ela pensou. Leeli tinha certeza de que eram Janner e Tink ao resgate. Slarb esgueirou-se para o bosque na direção do som. Usando o tronco da árvore como apoio, ela se levantou o mais rápido que pôde. “Corram!” Leeli gritou. “É uma armadilha! Corram!” Então ela se virou e cambaleou pelo mato, saltando o mais rápido que podia, esperando ouvir os gritos de seus irmãos ao seu encontro. Talvez eles tenham me ouvido em tempo, ela pensou. Talvez tenham escapado, ou conseguiram se esconder por tempo suficiente para fazer Slarb vaguear na direção errada. Mas, talvez, eles já estivessem mortos. Leeli irrompeu do aglomerado de árvores e mancou para o sul, na direção de onde Slarb a carregara. Ela ouviu, atrás de si, um rosnado frustrado e, então, o som de Slarb vindo em perseguição, batendo o mato. Ela prosseguiu, pensando apenas que tinha que se afastar da criatura bestial atrás dela. A pequena Igiby amaldiçoou sua perna torta e os Fangs e a grama alta que a retardava. Seu vestido prendeu-se no galho de um arbusto de flor-depato e a fez parar. Freneticamente, Leeli se apressou a fim de desfazer o emaranhado e olhou para trás em tempo de ver Slarb voando em sua direção com as presas amareladas à mostra. Ela se enroscou como uma bola, apertou os olhos com força e orou ao Criador para que tudo acabasse rapidamente. 28 Floresta Adentro Os meninos correram para o chalé sem dizer uma palavra. Nia escancarou a porta da frente e correu para encontrá-los. “Onde está o seu avô? Onde está Leeli?” Ela exigiu. Entre arfadas, os dois contaram o que havia acontecido. Por um instante, Nia olhou decepcionada para o filho mais velho, olhar que cortou seu coração. Janner sentiu seu estômago oco e frio; não havia nada a fazer a não ser esperar. Foi o que Nia disse. Janner podia ver que ela estava preocupada com a própria postura, com as costas eretas e os ombros alinhados. Quanto mais assustada a mãe ficava, mais durona parecia. Nia levou os meninos para dentro de casa — as mãos em seus ombros. Os irmãos sentaram-se no sofá em frente à lareira vazia, sem falar, por muito tempo. Os olhos de Janner percorreram a sala, e tudo o que via lembrava sua irmãzinha — o caixote de Nugget no chão, perto da lareira, a harpa eólica de Leeli pendurada com seu manto. Ele pensou, com vergonha, nas muitas vezes em que havia ficado frustrado com a irmã por atrasá-lo, como se fosse uma escolha dela ter nascido com uma perna torta. Janner pensou nas vezes em que a provocou por fazer tanto alvoroço por causa de Nugget — o cachorro que havia feito um trabalho melhor que o dele na hora de cuidar da própria irmã. Ele imaginou sua linda voz enchendo a casa de música, e sentiu falta dela. Janner recostou-se no sofá e olhou para o teto de madeira, tentando ao máximo não chorar. Slarb voou em direção à Leeli, com as presas à mostra em um rosnado cruel. Assustada demais para se mover, Leeli se esforçou intentando afastar de sua mente a imagem dos longos dentes do Fang cravando-se nela, o veneno correndo por suas veias; em meio aos batimentos de seu coração, ela pensou no chalé aconchegante, o único lar que ela já havia conhecido. A pequena estava triste porque nunca mais o veria. Leeli imaginou Janner, Tink, Podo e Nia, parados no gramado da frente, acenando para ela; pensou em Nugget. Leeli esperava que Janner e Tink se lembrassem de alimentá-lo e de fazer carinho em sua barriga de vez em quando. De repente, o rosnado de Slarb foi interrompido. Tremendo, Leeli abriu os olhos e viu as garras do Fang agarrando, desesperadamente, um braço fechado ao redor de sua garganta. Ela não conseguia ver o rosto da pessoa, apenas um tufo de cabelo branco saindo de trás do ombro de Slarb — mas o braço em volta do pescoço de Slarb tinha uma meia de tricô suja puxada até o cotovelo. Os olhos negros de Slarb giravam nas órbitas enquanto ele arranhava e cravava o braço vestido de meia, mas sem êxito. O braço manteve-se firme. O Fang cambaleou para trás e se afastou de Leeli, revelando o esguio Peet, o Homem-Meia, que era corajoso ou tolo o suficiente (e talvez ambos) para atacar um Fang com as mãos nuas — ou com as mãos emeiadas, como se via. Os olhos de Peet estavam apertados com força, enquanto ele se agarrava desesperadamente ao Fang que se debatia. Os dentes de Slarb estavam à mostra e escorrendo um veneno amarelado, mas seus movimentos estavam diminuindo. Leeli começou a ter esperanças de que, talvez, vivesse para ver novamente sua família e Nugget. Peet gemia, esforçando-se para manter o controle sobre a besta que se retorcia; embora o sangue estivesse ensopando a meia, onde as garras de Slarb se cravavam no antebraço de Peet, ele não mostrou nenhum sinal de dor. Slarb girou tão rápido que os pés de Peet voaram atrás dele. O Fang balançou para um lado e para outro — sua cauda chicoteava a vegetação rasteira. Por fim, o Fang caiu; primeiro sobre um joelho, e depois no chão, inconsciente. Peet, ofegando por ar, estava deitado por cima de Slarb. Depois de um momento, ele afrouxou o aperto e, cuidadosamente, deslizou seu braço de debaixo do pescoço da criatura. Quando Peet viu Leeli, ele relaxou e se levantou, limpando o corpo como se estivesse envergonhado. Leeli ainda estava agachada no mato, à beira das árvores, olhando atentamente para seu salvador. “Obrigada”, agradeceu timidamente. “Isso foi muito corajoso.” Peet a observou sem falar, ainda sem fôlego por causa da luta. Leeli se sentia como se falasse com um animal assustado, e seu coração se compadeceu dele, da mesma forma como havia se compadecido de Nugget quando ela o encontrou, ainda filhote. Algo em seu rosto parecia familiar — um pensamento que jamais lhe ocorrera. Ela costumava vê-lo saltitando pela cidade, mas sem nunca ter, de fato, parado e olhado para aquele homem. Leeli sabia que ele costumava falar coisas sem sentido para postes de luz e atacar placas de rua, mas nunca havia conversado com ele. Ninguém havia. A cidade de Glipwood o ignorava como a um cachorro vira-lata. Leeli sentia que deveria estar com medo, mas não estava. Não apenas havia ali um Fang que ainda estava vivo, deitado a apenas alguns metros de distância, mas ela estava na borda da Floresta Glipwood. Sem contar que Leeli estava na presença de um homem que, embora tivesse acabado de salvar sua vida, era considerado tão louco quanto o Mar da Escuridão era escuro.1 De alguma forma, a pequena Igiby sentia uma paz que a surpreendeu. Finalmente, Leeli saiu mancando, de trás do mato. Peet deu um grito e cambaleou para trás. “Está tudo bem”, Leeli o acalmou, novamente sentindo como se estivesse acalmando um cachorrinho assustado. Os olhos de Peet disparavam de um lado para o outro, como um animal encurralado. A menininha parou na frente dele e sorriu para o homem alto e esfarrapado. “Seu nome é realmente Peet?” Seus olhos ariscos finalmente pousaram nos dela. Leeli viu o medo nervoso ir embora por um momento e detectou uma tristeza em seus olhos que não tinha notado antes. Ele estendeu a mão com meia para tocar seu cabelo rebelde, e Leeli, de repente, sentiu medo novamente. Ela deu um passo para trás, tropeçou na cauda de Slarb e caiu com força no chão. Peet retraiu a mão e engasgou como se tivesse tocado em uma brasa. A inquietação voltou a seus olhos. Slarb gemeu e fez esforço para se levantar do chão. Um de seus olhos negros se abriu e focou em Leeli. Ela gritou e se arrastou para longe, mas Slarb ainda não iria a lugar nenhum. Peet o chutou com força, jogando seu rosto escamoso de volta ao chão e deixando o Fang inconsciente outra vez. Então, com passos largos, Peet foi até Leeli e a ergueu pelos braços. Para o horror da pequena Igiby, porém, Peet, o Homem-Meia, não a carregava para casa. Ele a estava levando mata adentro na Floresta Glipwood. Podo freou seu cavalo na beira das árvores. Ele não entrava na Floresta Glipwood desde que era menino, quando caçadores e guardiões mantinham os animais perigosos sob controle. Agora, lá estava ele: um homem velho, perneta e sem armas, podia-se dizer, e a floresta fervilhando com toda espécie de animais famintos. Nugget estava ofegante, olhando ferozmente para a floresta sombria. A trilha de Slarb foi fácil de achar. Ela saía da cidade, passando por várias casas e fazendas. Quanto mais Podo, Danny e Nugget se aproximavam da fronteira da floresta, mais as propriedades estavam destruídas e abandonadas. Velhas cercas sem cuidados. Tristes fachadas de casas estavam carbonizadas e abandonadas nos campos, onde outrora famílias trabalharam, viveram e amaram. Essas casas abandonadas pareciam lápides espalhadas pela pradaria. Enquanto conduzia Danny para o norte, Podo pensou em seus bons anos de glória quando menino, em Glipwood, muito antes que alguém tivesse ouvido falar de Gnag, o Sem-Nome. As memórias o alfinetaram e o encheram de raiva. “Sim, Nugget, Leeli está lá.” Podo acenou com a cabeça na direção das árvores escuras e deu um tapinha no pescoço de Danny, o cavalo de carga. “Presumo que teremos que ir buscar nossa garota.” Ele estalou a língua e Danny saiu a galope. Embora o crepúsculo já tivesse caído sobre o chalé Igiby, não havia fogo na lareira. Nenhum lampião foi aceso. Janner, Tink e Nia estavam sentados sem falar, na casa escura, esperando, por horas. “Mamãe?” Janner finalmente perguntou. Nia olhou para ele da cadeira onde estava sentada com a cabeça baixa. “Eu sinto muito. Sinto muito, mesmo. Lamento ter perdido Leeli de novo.” Janner não conseguia continuar sem chorar, então desviou o olhar. Nia cruzou a sala e acendeu um lampião; e, colocando-o no parapeito da janela, sentou-se ao lado do filho mais velho. “Calma, filho. Vai ficar tudo bem. Não adianta se preocupar com o que já aconteceu. O que importa é agora. O passado e o futuro estão fora do nosso alcance.” “Tenho medo que ela não volte”, lamentou Tink. “Você precisa se concentrar naquilo que está bem diante de você, querido. Nada mais. Pensar demais no que pode acontecer é coisa de tolo. No momento, para o seu Podo, o que está diante dele é encontrar Leeli, não pensar em como isso aconteceu ou de quem é a culpa. E o que está diante de nós é esperar, neste velho chalé, sem perder as esperanças. Mesmo que a esperança seja apenas uma brasa fumegante diante da noite escura, pela manhã ainda podemos reacender o fogo.” Janner não conseguiu conter a língua. “É por isso que a senhora e o vovô nunca falam sobre o nosso pai? Por que ‘o passado está fora do nosso alcance?’” Lágrimas enchiam seus olhos. “Se Leeli nunca mais voltar, vamos apenas fingir que ela nunca existiu, como vocês fazem com... Esben?” Nia se enrijeceu. Janner olhou para o chão e mexeu na bainha da camisa. Ele odiava a tensão que sentia na sala, mas não podia se desculpar. O filho mais velho sabia que Nia estava certa sobre a esperança. Ele sentia aquela certeza em seus ossos. Mas não conseguia suportar a maneira como sua mãe e Podo haviam enterrado as memórias de seu pai, fosse ele quem fosse. “Janner.” Ele olhou para sua mãe. Nia era uma imagem de força. Sua elegante mandíbula estava rígida, sua cabeça ereta e sua postura, firme. Mas seus olhos agitavam-se com emoções conflitantes. Parecia que ela poderia explodir em lágrimas a qualquer momento, de tristeza ou raiva. “Eu sei que é difícil, mas você precisa confiar em mim”, assegurou ela. “Há coisas que você não entende.” Janner revirou os olhos e desviou o olhar, mas ela segurou seu queixo com a mão firme e voltou seu rosto para o dela. “Um dia você saberá por que não falamos de seu pai. Vocês dois saberão — acrescentou, olhando para Tink. “Mas ele está morto há muitos anos, e sua irmã ainda vive... eu acredito nisso.” Nia olhou pela janela para a escuridão que se adensava e colocou a mão na boca. “Alguém está vindo.” Janner levantou-se de um salto e escancarou a porta. Ele viu um vulto indistinto a cavalo, subindo o caminho da casa. Ninguém se atrevia a respirar. Finalmente, Janner viu que era, de fato, Podo nas costas do velho Danny e Nugget trotando ao lado deles, mas sem conseguir dizer se Leeli estava com eles. Janner teve a terrível sensação de que, mais cedo naquele dia, na livraria de Oskar, era a última vez que veria sua irmã. Tink correu para encontrar seu avô e os demais o seguiram. Ainda a alguns passos de distância, ouviram a voz de Podo na luz fraca. “Estou com ela”, declarou Podo. “Leeli está bem.” Tink gritou de alegria e correu para ajudar Leeli a descer do cavalo cansado. Janner quase desmaiou de alívio, e voltou os olhos para sua mãe, que estava parada à porta com as mãos apertadas, cruzadas contra o peito. Seus olhos captavam a última luz antes do anoitecer, brilhando como brasas ardentes, noite adentro. 29 Murças-das-Cavernas e VerdugosEspinhentos Dentro do chalé, cada Igiby agitava-se em torno de Leeli e a ajudava a se sentar, com um Nugget muito feliz. Janner começou a acender o fogo. Ele e Tink enchiam Podo e Leeli — que ria sem parar — de perguntas sobre os detalhes. Mas Nia disse aos dois que dessem um tempo para que seu pobre avô e sua irmã descansassem. Podo, dando um gemido, acomodou-se em sua cadeira e apoiou uma perna no banquinho, enquanto Nia conduzia os meninos para a cozinha a fim de ajudá-la a preparar o jantar. Em pouco tempo, trouxeram uma bandeja com tigelas fumegantes de canja de galinha. Eles se sentaram próximos ao fogo e começaram a sorver a canja, com os meninos angustiados por terem que esperar tanto pela história. Podo pigarreou e a sala ficou em silêncio, exceto pelo crepitar do fogo. “Não consegui encontrar o Fang sugador de tripas que pegou ela”, Podo começou com um suspiro. Ele saboreou a antecipação criada e sorveu sua sopa, grunhindo de prazer e acenando com a cabeça em agradecimento para Nia. “Mas o pequeno Nugget, aqui, sim.” Ele deu um tapinha na cabeça de Nugget. “Nugget encontrou os rastros do fedorento, né, garoto?” Nugget abanou o rabo e latiu. “Foi Slarb”, contou Leeli, e todos os olhos se voltaram para ela. “Ele me arrancou dos fundos da livraria do senhor Oskar e me levou para a floresta, esperando que todos viessem atrás de mim.” Nia olhou incisivamente para Podo, que contou como havia chegado à borda da floresta e encontrado sinais de uma briga, e dois conjuntos de trilhas se afastando um do outro. Ele escolheu seguir os rastros humanos, e eles o conduziram mais para o interior da floresta do que ele jamais estivera. Janner pensou nos canicórneos e estremeceu. Tink perguntou se Podo tinha visto alguma vaca-dentada. “Não, rapaz, e graças ao Criador que não trombei nenhuma. Mas um murça-das-cavernas me atacou. Alto como uma árvore, ou mais ou menos isso”, Podo declarou, “com garras feito facas. Mas o véio Danny, o cavalo de carga, coiceou bem na mandíbula da fera, e o murça ganiu e saiu em disparada.” Tink perguntou como algo tão alto quanto uma árvore poderia “sair em disparada”, mas Podo continuou como se não tivesse ouvido.1 “O caminho ficava pior quanto mais eu avançava. No início, eram apenas algumas ravinas e o velho Danny podia descer sem muitos problemas, mas depois de um tempo comecei a pensar duas vezes antes de esporear o velho garanhão trilha abaixo. Elas eram profundas, e eu só tenho uma perna, ‘cês sabem”, continuou ele com um golpe frustrado em seu cotoco. “E então ouvi um barulho”, ele contou em um sussurro. Eles se inclinaram, aproximandose, até mesmo Nia. “Estávamos...” Leeli começou, mas Podo a silenciou. “Espere, querida; ‘cê tem que construir suspense, sabe?” Ele fez uma pausa para causar efeito e Leeli tentou não rir. “Ah, anda logo com isso”, interrompeu Nia. “Será que eu posso contar essa história, aqui?” Podo retrucou, ofendido. “Bom, já não sei mais”, respondeu Nia. “Consegue?” “Consigo, se eu não tiver mais interrupções”, reclamou Podo, murmurando algo sobre as pessoas, hoje em dia, não perceberem uma boa história mesmo se estiverem sendo quase mordidas por ela. “Enfim, ouvi alguém cantando — mas não era a nossa Leeli aqui. Foi o suficiente para assustar um velho até a morte, ouvir uma música nas entranhas de um bosque escuro, quando a única coisa que ouviu na última hora foi o bufar de um cavalo e seus próprios bufos.” Nia revirou os olhos e escondeu o rosto nas mãos. “Então, começo a olhar ao redor, pensando que devo ter ouvido errado, quando acontece de novo: uma voz cantando. De repente, Nugget late furiosamente, e eu olho pra ele, e ele tá latindo pra uma árvore. No começo eu penso, agora não é hora de ficar acossando thwaps! Mas, naquele exato momento, um verdugo-espinhento, do tamanho d’uma cabra, surge do nada e começa a mostrar as presas e a circundar. Ele eriçou seus espinhos e começou a crocitar como um falcão, e eu pensei, É, que bom que eu trouxe meu forcado de casa, caso contrário não teria nada com que lutar. Portanto, eu sabia que não tinha muito tempo antes que os espinhos do verdugo voassem, então joguei meu forcado com toda a minha força...” Podo parou, baixando os olhos dramaticamente. “E...?” Janner perguntou, pegando a deixa. Podo olhou para cima, saboreando o suspense. “E... eu errei”, constatou ele com um encolher de ombros, recostando-se na cadeira. “A coisa idiota cravou-se no chão uns trinta centímetros na frente da criatura. ‘Brilhante’, digo eu, pensando no que fazer depois. Aquele bicho sibilou e saltou pra trás e se virou pra lançar seus espinhos. Mas pouco antes daquilo, vi a última coisa que esperava ver.” Podo tomou um longo e barulhento gole de sidra, enquanto os Igibys aguardavam, na ponta de seus assentos. “Balançando num cipó, veio de algum lugar aquele tipo maluco, da cidade, Peet, o Homem-Meia.” Janner percebeu que os olhos de Nia e Podo se encontraram com a menção de Peet, como se tivessem tido uma conversa inteira naquele momento. “Ele me salvou”, interrompeu Leeli, falando rápido. “Ele lutou contra Slarb e me levou para sua casa na floresta. Foi maravilhoso, embora ele cheirasse a cebola podre.” “Então, voltando ao verdugo-espinhento”, prosseguiu Podo, impaciente. “Peet, o Homem-Meia, saltou com um bastão e acertou aquele espinhento com tanta força que a criatura virou do avesso, e enquanto saía em disparada, Peet tirou uma pedra de um saco e atirou, a pelo menos um quilômetro e meio, e acertou bem na cabeça do bicho.” O queixo de Janner caiu. “Foi Peet!” Exclamou. “Foi Peet quem jogou as pedras nos Fangs que atacaram Leeli antes, não foi?” Todos olharam para ele. “Bom, pode ter sido”, respondeu Nia, “mas ninguém o viu, então não podemos saber com certeza, podemos?” “Bom, não, mas quem mais...” “O que aconteceu depois, papai?” Nia voltou-se a Podo, secamente. Podo pigarreou. “Então, como eu dizia, estávamos bem debaixo de uma casa na árvore, bem no alto de um carvalho de Glipwood e, sem nenhuma dúvida, lá estava a pequena Leeli, sã e salva, acenando para o véio Podo como se estivesse de férias.” “Então o Homem-Meia não tentou machucar você?” Perguntou Tink. “Ele sempre me causa estranheza.” “Não!” Leeli exclamou. “Ele lutou contra aquele Fang sozinho e me levou para sua casa na árvore. Ele tem muitos livros e uma escada de corda e só precisa de alguns amigos. Mamãe, podemos levar comida pra ele? Tudo o que ele come são animais da floresta. Ele guardou o verdugo e disse que iria comê-lo mais tarde — e não estava, realmente, do avesso, a propósito —, mas pensei que, talvez, pudéssemos ajudá-lo...” “Veremos”, respondeu Nia, com um aceno de mão. “Chega de falar sobre esse personagem, Homem-Meia. Estou feliz que tenha salvado você, querida, mas está claro que ele não bate bem da cabeça. Agora é hora de vocês, crianças, se prepararem para dormir. Vocês precisam descansar.” Nia, espreitando pela porta do quarto das crianças, ouviu por um momento e escutou a respiração profunda de sono, vinda de todos os três. Apenas Nugget se mexeu. Aconchegado firmemente ao lado de Leeli, ergueu a cabeça, inclinou-a para um lado e balançou o rabo lentamente, para Nia. Acenando para Nugget, ela sorriu e fechou a porta. Podo estava quase dormindo em sua cadeira, com a perna apoiada no banquinho. Ele havia soltado a perna de pau e o toco de madeira estava no chão, ao lado dele. “O fogo está diminuindo, moça”, disse ele com um bocejo. Nia sentou-se no sofá e bocejou também. Ela olhou para as chamas e pensou muito, antes de falar. “Ele não pode chegar perto deles, papai.” “Hã?” Resmungou ele, coçando a cabeça e abafando outro bocejo. “Peet.” “Ah.” Podo levantou-se um pouco e olhou para o fogo. Eles ficaram em silêncio por um longo tempo novamente. “Amanhã de manhã terei uma conversa com as crianças”, emendou Nia. “Vou proibi-las de falar com ele.” Ela suspirou e soltou o cabelo do coque. “Estes últimos dias foram os mais longos que vivi desde que chegamos aqui, papai, e oro ao Criador para que o perigo passe logo. Se meu rocambole de verme for bom, e se pudermos resistir até aquele Fang, Sloop...” “Slarb.” “... for transferido para outra vila, acho que vai ficar tudo bem. Pelo menos estaremos juntos. E estaremos vivos.”2 “Hum, mas isso não é vida, moça!” Podo a corrigiu. “Não como deveria ser. Você vê a forma como as cabeças das pessoas se curvam? Você vê o medo que vaza delas e cobre esta cidade como uma névoa no mar? Bah! Eles já se esqueceram mesmo do que é viver. Mas seu Podo não.” Ele sorriu para o fogo e fechou os olhos. “Hoje, quando cavalgava pela floresta, lembrei de como era ter o vento no cabelo e o mundo se desenrolando diante dos meus olhos.” Podo encarou Nia. “Se Esben ainda estivesse quebrando o pau, ele teria uma ou duas coisas a dizer sobre esses Fangs exalando seu veneno em nossos pescoços. Ele teria algo a dizer sobre aquela Carruagem chacoalhando colina acima pra levar a juventude...” “Chega, papai. Ele não está aqui. E essa audácia foi exatamente o que o matou.” “Não, moça”, retrucou Podo. “Foram os Fangs que o mataram.” “Mas se ele tivesse fugido, se ele tivesse vindo conosco e se escondido, então ele estaria aqui agora...” Nia se interrompeu, à beira das lágrimas. “... Ele estaria aqui agora”, repetiu para si mesma. Podo colocou uma de suas encanecidas e velhas mãos no braço dela. “Tudo bem, moça. E não se preocupe em ter uma longa conversa com os pequenos sobre o velho Peet, o Homem-Meia. Você sabe tão bem quanto eu que, para os rapazes, uma advertência é quase o mesmo que um convite. Eles não serão capazes de parar de pensar nele se você fizer isso. Ouça o que eu digo: deixa pra lá.” Sua voz ficou ameaçadora. “E eu vou cuidar do velho Peet. Não se preocupe com ele chegando perto das crianças novamente. Eu diria que ele já deu o que tinha pra dar.” Nia não disse nada enquanto olhava tristemente para o fogo morrendo, lutando para queimar. 30 A Prematura Morte de Vop Enquanto Nia e Podo diziam boa noite um ao outro, Slarb voltava mancando para a cadeia, com o rosto inchado e um grande ferimento sangrento na perna. Ele tinha acordado na clareira da floresta com uma terrível dor de cabeça e um rateixugo mordendo sua perna. Slarb o agarrou, afundou as presas em seu pescoço com um grunhido, e jogou a criatura inerte entre as árvores. Vários segundos se passaram antes que ele se lembrasse do que estivera fazendo na floresta. Mas enquanto caminhava de volta para a cidade, Slarb se imaginou comendo as crianças Igiby, uma por uma, junto de seu cachorrinho. O po-co-tó de cascos vindo em sua direção interrompeu o devaneio. Slarb mergulhou na grama alta a tempo de ver Podo Helmer trotando na direção de onde ele acabara de vir. Quando viu Nugget ao lado do cavalo, Slarb quase saltou de seu esconderijo. A essa altura, seu ódio pelo indestrutível cachorrinho era igual ao ódio pelas crianças que o haviam humilhado tanto. Mas a humilhação para Slarb, o Fang, estava apenas começando. Os Fangs de Dang, todo mundo sabia, raramente eram feridos. Eles certamente não eram muito ameaçados pelos skreenianos, que não tinham armas e que pareciam ter pouca coragem. A única ocasião em que um Fang podia se ferir era quando um de seus próprios colegas infligia o ferimento, durante uma escaramuça por uma pulseira de ouro ou por uma tigela de mingau melequento.1 Slarb subiu mancando os degraus da cadeia, na esperança de encontrar um curativo para seu ferimento. Os outros Fangs pararam o que estavam fazendo e ficaram boquiabertos quando ele passou. O rosto de Slarb estava terrivelmente inchado, seu corpo coberto de terra e sua perna sangrando constantemente por causa das mordidas do rateixugo. Os Fangs explodiram em gargalhadas e perguntaram-lhe o que tinha acontecido. Slarb, o Fang sentou-se na sala da frente da cadeia e enfaixou o ferimento sob uma chuva de zombaria dos seus companheiros Fangs. Ele, porém, já havia aturado escárnio suficiente para aquele dia. Terminou de colocar a bandagem em sua perna e, sem aviso, atacou o Fang mais próximo, um bruto chamado Vop. Ambos caíram, rosnaram e quebraram cada peça dos poucos móveis que havia na sala da frente da cadeia. Rolaram no chão, esmurrando, arranhando e mordendo um ao outro, enquanto os outros olhavam e torciam por Vop. Com um grito, Vop girou Slarb sobre sua cabeça e o lançou contra a parede, no alvo onde as muitas adagas arremessadas estavam cravadas. Várias adagas caíram no chão. Slarb se levantou, louco de raiva, e agarrou uma das adagas. Ele a arremessou contra Vop, que estava sendo parabenizado pelos outros soldados por ter vencido a briga. Com um corte nauseante, a faca se enterrou nas costas de Vop. Os Fangs pararam de rir e observaram, chocados, enquanto ele caía sem vida. Slarb, em pé, sozinho, respirava com dificuldade e tinha um sorriso malicioso no rosto. Os Fangs já não gostavam de Slarb. Agora, ele havia esfaqueado um deles nas costas. “Ele matou o véio Vop, matou”, constatou um deles, olhando para Vop com espanto. “Vop era um bom Fang pra se ter por perto, pra dar uma boa risada”, disse um outro. “E num foi exatamente ele que começou a briga”, disse Brak, que estreitou os olhos para Slarb. “Foi Slarb que começou, e o véio Slarb aí foi e pegou ele quando ele num tava olhando”. “Eu conhecia Vop desde que viemos de Dang”, relatou outro Fang fungando. “Nós queimamosss um monte de vilarejos juntosss, eu e ele. Joguei minha primeira criança aos berros, dentro da Carruagem, com ele, eu joguei”. “O Comandante Gnorm tinha uma sssimpatia especial pelo véio Vop. Disse que era como o sobrinho que ele nunca teve”, comentou outro Fang, tirando a espada da bainha. Quanto mais eles encaravam Slarb, mais ele encarava a porta. Quando Slarb saltou na direção da porta, a gangue de Fangs furiosos deu um passo coletivo em direção a ele — mãos estendidas, armas em punho. Porém, era tarde demais. Os Fangs tentaram agarrá-lo, mas Slarb se contorceu, gritou e, em um piscar de olhos, ficou surpreso ao se ver descendo os degraus da cadeia em meio a uma saraivada de insultos e xingamentos. Slarb correu e correu mais, para fora de Glipwood, subindo a longa estrada em direção a Torrboro, embora não soubesse para onde estava indo. Não sentia mais o ferimento em sua perna ou o galo na têmpora, onde Peet, o Homem-Meia o tinha chutado. Ele sabia que o Comandante Gnorm ordenaria sua execução quando voltasse e encontrasse Vop esfaqueado nas costas. Mas Slarb também não se importava mais com tudo aquilo. A lua fria e branca brilhava com desdém enquanto Slarb corria — sorriso louco na cara, sem nada em sua mente distorcida. Exceto, é claro, seu ódio pelos Igibys. 31 O Medalhão de Khrak Na manhã seguinte, durante um café da manhã de bacon com totatas fritas, Janner, pela primeira vez em uma semana, teve a sensação de que tudo ficaria bem. O café da manhã estava bom, o sol raiava, ninguém havia se machucado e ele tinha três novos livros para ler. Quem sabe, Slarb tivesse entendido que se meter com as crianças Igiby não era uma boa ideia. Nos últimos poucos dias, até onde Janner sabia, Slarb fora nocauteado por uma pedra, golpeado pelo Comandante Gnorm e quase estrangulado por Peet, o Homem-Meia. Quem sabe não tenha sido comido inteiro por algum animal faminto da floresta. Ainda assim, Podo e Nia decidiram que todos deveriam ficar perto de casa, por alguns dias, até que a poeira baixasse. Fora uma semana agitada, mas nem Podo, Nia ou Leeli sabiam sobre o encontro de Janner e Tink com os canicórneos e sobre as armas no porão da Mansão Pé-de-Geleia. Podo estava satisfeito por ter coletado e entregado mais cinco thwaps de jardim para seu antigo rival, Willie Abutre. Era como se o pirata tivesse encontrado um novo propósito, ao coletar e realocar thwaps, em sua velhice. Embora tivesse se arrependido de seus dias de selvageria no mar, ele cantarejava de alegria enquanto se esgueirava até o jardim de Willie para soltar os thwaps. As crianças, sob a tutela de Nia, estavam trabalhando duro em seus T.A.N.E.G. Janner estava labutando em um poema que Nia o instruiu a compor. O assunto era o Festival dos Dragões-Marinhos, e ele tentava pensar em algo além de “fenomenal” para rimar com “festival”. Tink, descalço e descansando encostado contra uma velha árvore, fazia o esboço de uma pomba-travessa, que se aninhara no oco de um carvalho próximo. Era sua terceira tentativa de captá-la do jeito certo, e ele olhava o desenho inclinando a cabeça de um lado para o outro. Do lado de fora da porta dos fundos do chalé, Leeli praticava sua harpa eólica, enquanto Nugget cochilava a seus pés. A vida no chalé Igiby parecia estar voltando ao normal. “Ah, ‘Balada para Dougan’,1 uma antiga melodia dos habitantes dos Vales Verdes”, Oskar N. Reteep teve o prazer de informar Leeli, chegando por um dos cantos da casa. “Esplêndido.” Ele havia vindo para ver se estava tudo bem com Leeli e oferecer desculpas profusas por tê-la perdido de vista. Estava carregando a pequena muleta dela, debaixo do braço. “Nas palavras do famoso ladrão de sapatos Hanwyt Moor, ‘Sinto muito. Não vai acontecer de novo’.” Ele estendeu a muleta. “E você deve ser a Chuta-Lagartos, pressuponho eu.” Leeli abraçou o Sr. Reteep em torno de sua considerável cintura. “Ainda posso ir e pegar livros emprestados, de vez em quando, senhor?” Ela perguntou. “Claro! Claro, jovem princesa! Agora mais do que nunca.” Nia sorriu e convidou Oskar para uma taça de cidra. Justamente quando eles estavam se sentando, Podo voltou de sua missão no jardim de Willie Abutre e cumprimentou Oskar friamente. Oskar se encolheu sob o olhar de Podo. “Podo, você deve saber o quanto eu lamento”, disse Oskar, com os olhos baixos. Ele pressionava nervosamente uma mecha de cabelo branco solta, na testa. “Se eu soubesse... se soubesse que o Fang estava por perto, nunca teria...” Ele parou, tentando pensar em algum autor para citar. Podo suavizou e deu de ombros, com um aceno de mão, enquanto se sentava à mesa ao lado de Nia. “Nenhum prejuízo feito”, disse ele, dando o que acreditava ser um leve soco no ombro de Oskar. Isso sacudiu Oskar de tal modo que seus óculos ficaram pendurados em uma orelha só. Podo não percebeu. “A conversa, na taverna do Crespo, é que o Comandante Gnorm voltou de Torrboro e não está nada contente”, comentou Podo. “Blaggus disse que o ouviu gritando, com toda a força de seus pulmões de lagarto, algo relacionado com Slarb. Disse que ouviu que Slarb matou outro Fang.” Oskar esfregou o ombro e endireitou os óculos. “Um Fang morto? Eu não acredito que já tenha visto um desses.” “Não tem muito o que ver”, disse Podo. “Só poeira e ossos.” Oskar ergueu uma sobrancelha. “Pelo menos foi o que ouvi dizer”, acrescentou Podo. “E Slomp?” Perguntou Nia. “Slarb, querida”, corrigiu Oskar. “Bem, essa é a parte estranha”, emendou Podo. “Crespo diz que ele não é visto desde que matou o outro cara. Disse que fugiu e nunca mais voltou. Acho que se ele voltasse, Gnorm o deixaria tão morto quanto o outro.” Podo olhou pela janela. “Tenho a sensação de que podemos estar livres daquele fedorento de uma vez por todas.” “Até termos certeza, não quero as crianças indo sozinhas para a cidade”, asseverou Nia. “Sim, vamos ficar quietos por uns dias”, concordou Podo. “Mas não faz sentido nos escondermos como murças-das-cavernas pelo resto de nossas vidas, moça. Além disso, agora que o festival acabou, todos, exceto uns poucos, estarão voltando para Torrboro. As coisas vão voltar ao normal em breve.” “E eu lhes asseguro”, disse Oskar assertivamente, “as crianças estarão seguras na Livros e Vãos — caso vocês decidam confiá-las a mim novamente”. Ele olhou para as próprias mãos. “Meu velhote, não ouviu o que eu disse? Nenhum prejuízo foi feito! Não falemos mais nisso.” Podo se inclinou com um sorriso e bateu de brincadeira no ombro de Oskar, novamente, desta vez fazendo seus óculos voarem no chão. Na esperança de evitar novas demonstrações de amizade da parte de Podo, Oskar despediu-se. Saindo do chalé, encontrou Tink encostado na árvore, desenhando em um pergaminho. Oskar acenou para Tink e sussurrou, “E isto é para você, rapaz. Eu mesmo achei muito útil.” Ele entregou um livrinho para Tink, pigarreou e, com um tapinha amistoso na cabeça do garoto, foi-se caminho abaixo. Tink olhou para o livro em suas mãos. Remédios caseiros para erupções cutâneas: um estudo sobre o desconforto. O General Khrak estava cansado de se reunir com comandantes Fangs. Durante toda a semana ele havia sofrido com a impudência, com as reclamações e bajulações deles, embora as adulações o agradassem e aliviassem consideravelmente seu sofrimento. O sol estava se pondo em Torrboro e ele olhava para a chuva, pela janela alta do Castelo Torr, ignorando o Comandante Plube, um Fang que tinha o hábito de rir de suas próprias piadas. Khrak estava considerando executá-lo por seu péssimo senso de humor. “Então, esse humano entra numa taverna e diz ao porleitão de duas cabeças: ‘Quem soltou as cabras?’ E o porleitão, ele diz: ‘Eu soltei, e daí?’ ‘Ah, nada’, e ele pega o porleitão pela cauda e...” Plube parou no meio da frase quando Khrak se levantou de seu trono e desceu os degraus, encarando-o com um olhar alarmante. O salão estava vazio, exceto pelo General Khrak e por Plube. O sorriso asqueroso em seu rosto se desvaneceu, quando Khrak se aproximou até que seus narizes estivessem quase se tocando. Plube tremia em sua armadura. Nunca antes, durante qualquer de suas reuniões, Khrak havia deixado seu trono, muito menos descido os degraus. Plube fechou os olhos e esperou pela morte que certamente viria. Ele sempre achou que Khrak gostava de suas piadas e anedotas. Em sua opinião, elas tornavam os relatórios sobre seu entediante recinto de Skree muito menos monótonos, e Khrak sempre parecia tão sem humor. Ele estava apenas tentando ajudar. O General Khrak não falou nada. Ele apenas ficou olhando, esperando que Plube abrisse os olhos. Uma pálpebra se abriu, timidamente, depois a outra. Plube relaxou um pouco, rindo com cautela. “Vá. E nunca mais quero ouvir outra história sobre um porleitão em uma taverna. Nunca.” “S-sim, senhor”, Plube gaguejou debilmente enquanto se afastava. O Fang tropeçou em si mesmo, na pressa de sair e, quando caiu, o General Khrak riu pela primeira vez naquela semana. A porta então se fechou e Khrak bocejou. Ele estava com fome. “Esssscrava!” Ele gritou, e uma velha com roupas esfarrapadas entrou na sala, fazendo mesuras o tempo todo. “Leve uma tigela de salada de rabo de rateixugo para meus aposentos. E certifique-sssse de que a alface está perfeitamente marrom desta vez!” Ela saiu da sala, ainda cheia de mesuras e balbuciando resmungos e desculpas, e o Fang abriu caminho pelos corredores sujos até seus aposentos. Ele se esgueirou para uma cadeira e esperou sua refeição. Khrak partiria na próxima lua nova para o Castelo Throg, e sempre tinha que preparar sua mente para essa jornada. Gnag o havia convocado, o que significava que ele passaria quatro semanas cruzando o Mar Sombrio da Escuridão; em seguida, uma longa e seca jornada através das áridas Desolações de Shreve até as Montanhas Picos-da-Morte, onde O Sem-Nome erigiu seu lar. Ele temia a viagem. Em Skree ele era o General Khrak, governante da terra; mas no Castelo Throg, tornava-se o bajulador, o escravo. Não importava. Era um pequeno preço a pagar pelo poder que exercia em Skree. Gnag tinha planos de expandir seu reino, construir um exército maior; se Gnag permanecesse satisfeito com seu serviço, então seria ele, General Khrak, quem lideraria o grande exército rumo ao Oeste Distante. Ele fechou os olhos e se deleitou com a destruição que traria às pessoas além dos mapas. Ele queria esse comando. Khrak era um Fang de Dang, forjado para a batalha, mas lá estava ele, em Torrboro, desperdiçando seus dias com tolos como Plube. Verdade que ele gostava da comida e da excelente sujeira do lugar, e gostava da bajulação que recebia, mas também sentia que se fosse obrigado a passar muito mais tempo ouvindo comandantes de distrito falando sobre os humanos em suas cidades miseráveis, ele roeria fora o próprio pé. Khrak se levantou e começou a andar de um lado para o outro. Se ao menos conseguisse encontrar as Joias de Anniera. Encontrá-las mudaria tudo. Gnag o deixaria fazer o que quisesse. A velha entrou com uma tigela de rabos de rateixugo, ainda se contorcendo, sobre uma camada de alface marrom e pegajosa. As caudas de rateixugo eram como macarrão vivo e peludo, tão gordas quanto dedos. Khrak agarrou a tigela, segurou-a perto do rosto e aspirou o forte odor. “E seu molho de suor favorito, senhor”, disse a mulher, com a voz ligeiramente trêmula. O fato de Khrak tê-la deixado ir sem ferimentos era um sinal de que estava satisfeito com a refeição. Khrak sentou-se, sorveu o primeiro rabo de rateixugo e suspirou, recostando-se novamente na cadeira. Por hábito, sua mão vagueou até o medalhão pendurado em seu pescoço. Sua mais nova joia, cortesia de... quem, mesmo? Ah. Comandante Gnorm, um gordo, alguns dias atrás. De Glipwood. Khrak mergulhou outro rabo no molho de suor e o mastigou, pensativamente, enquanto brincava com o medalhão. Ele o olhou atentamente pela primeira vez, admirando os rubis que adornavam suas bordas, acariciando-o com seus dedos escamosos. Ele engoliu outro rabo enquanto virava o medalhão e examinava a parte de trás: e, de repente, engasgou. Khrak saltou de sua cadeira e cuspiu o rabo de rateixugo no chão. Ele atravessou a sala até um lampião que queimava em uma arandela, na parede, e segurou o medalhão contra a luz. Lá, gravado na parte de trás do medalhão, estava um dragão com asas. O Brasão de Anniera. Poderia ser?, o general se perguntou; a cabeça girava. Em Glipwood? Depois de todos esses anos? O General Khrak riu pela segunda vez naquele dia. 32 Preparando um Rocambole de Vermes Com o agravamento dos problemas com os Fangs, Nia sabia que era hora de voltar sua atenção para a preparação do rocambole de vermes para Gnorm. Ela colocou duas bandejas de carne de galinha na pilha de compostagem, onde era certo que os insetos poderiam encontrá-las. Quando verificou no dia seguinte, a carne estava pútrida e exsudando. Satisfeita consigo mesma, ela tentou pensar em outros ingredientes repulsivos. No jantar, ela anunciou que todos os membros do clã Igiby deveriam cortar suas unhas e colocá-las em uma tigela junto à porta da cozinha, pelo resto de suas vidas (ou até que Gnorm fosse transferido para outra cidade). Nugget farejou um ninho de percevejos na base de uma árvore, e Nia fez deles uma pasta grossa, enchendo uma tigela com os insetos, depois de macerá-los com uma pedra. Ela nunca admitiria, mas estava gostando de tentar fazer uma refeição tão nojenta quanto fosse possível. Depois, choveu durante dois dias. A chuva manteve as crianças dentro de casa, tristonhas, de modo que não tiveram outra escolha a não ser trabalhar em seus T.A.N.E.G. durante horas a fio. Mas a mãe das crianças ficou contente com a chuva porque ela trouxe larvas do solo. Nia mandou Tink e Janner coletarem uma tigela cheia desses seres rastejantes e as acrescentou à pasta de percevejos. No terceiro dia, a chuva foi soprada para longe e o sol quente voltou a raiar. Nia pôs um par de luvas, enrolou um lenço do nariz ao queixo e recolheu a carne de galinha estragada da pilha de compostagem. A carne estava esbranquiçada, úmida e, para o alívio de Nia, repleta de larvas. Ela assou tudo em um rocambole gordo e úmido e o guarneceu salpicando um pouco de pelo do Nugget. Nia colocou o exsudante rocambole em uma travessa e o cobriu com um trapo; depois, ela e as crianças se puseram a caminho da cidade. Um odor desagradável os acompanhava como uma nuvem negra e atraía moscas que os seguiam. As crianças deveriam esperar na livraria de Oskar enquanto ela entregava o rocambole a Gnorm na cadeia. “Se... e somente se eu descobrir que Slarb não voltou, vocês poderão ficar no Oskar durante a tarde”, afirmou Nia, segurando o rocambole de vermes o mais longe possível do rosto. “O que quer que vocês façam, fiquem longe dos Fangs. E fiquem juntos.” A mãe olhou para o filho mais velho, que assentiu com a cabeça. Ele não perderia outra vez Leeli ou Tink de vista, não importando o que acontecesse. Eles andaram o resto do caminho sem falar, o único som sendo o zumbido das moscas que flutuavam por baixo do pano. Uma vez na cidade, Janner impeliu Tink e Leeli para dentro da Livros e Vãos, de onde ficaram olhando da janela. Zouzab estava pendurado, de cabeça para baixo, como uma aranha, em uma viga, e também espiava lá fora. Corajosamente, Nia subiu os degraus da cadeia e com a mais tênue reverência apresentou sua sórdida refeição ao Comandante Gnorm. Janner, Tink e Leeli se deslocaram para ver mais claramente. Nia estava de costas para eles e tudo o que conseguiam enxergar era Gnorm sentado em sua cadeira de balanço, afiando sua adaga, de botas escoradas na grade do alpendre. Nia ficou diante dele durante o que pareceram horas, enquanto as crianças e Zouzab observavam num silêncio tenso. Finalmente, Nia virou-se e foi embora. Ela olhou diretamente para a janela da Livros e Vãos e acenou com um sorriso discreto. Janner, Tink e Leeli suspiraram em uníssono, com alívio. Eles podiam ver Gnorm empanturrando-se em meio a uma nuvem de moscas; a cara já estava enterrada no rocambole de vermes. “O que parece é que sua mãe agradou ao Fang”, comentou Zouzab. Ele subiu nas vigas, saltou para uma prateleira alta e sorriu para as crianças. “Quem sabe agora vocês não nos visitem mais vezes, né?”, o corre-crista cogitou e, sem esperar por uma resposta, desapareceu. Janner sentiu uma onda de alívio sobrevir-lhe. O aceno de Nia significava que Slarb tinha desaparecido. Talvez a vida pudesse voltar ao seu ritmo lento e normal, e, para surpresa de Janner, ele próprio estava contente. Mas o irmão mais velho tinha perguntas, e muitas delas sobre o sujeito magrelo, com as meias nos braços, agora passeando de ponta-cabeça pela rua empoeirada, diante deles. Janner estudou Peet como nunca antes. Peet costumava vir à sua mente somente enquanto passava pela cidade com um bastão na boca ou fazendo malabarismos junto aos penhascos. Agora, Janner não conseguia deixar de procurá-lo, nem de se questionar a seu respeito. “Conte-nos sobre a casa dele, a casa na árvore”, Janner pediu a Leeli, com o olhar ainda em Peet. “E sobre o cheiro dele”, acrescentou Tink. “E seus livros”, arrematou Janner. Leeli parecia impaciente com os irmãos. Janner a puxou, junto com Tink, para o chão, perto da janela, onde eles podiam se agachar, observando Peet à distância. Lá fora, Nugget abanava o rabo e olhava fixamente para a porta, esperando pacientemente por Leeli. “Ele disse alguma coisa enquanto você esteve com ele?” Tink quis saber entre mordidas num pedaço de gulomelo. “Não, eu já falei”, respondeu Leeli. A maneira defensiva com a qual tratava Peet lembrou Janner de como ela era com Nugget, antes que ele aprendesse a não levantar a pata dentro de casa. “Quando me subiu pela escada de cordas e me colocou dentro da casa da árvore, ele disse que eu estava a salvo. Fora isso, ele apenas sentou num canto como se tivesse medo de mim. Eu tentei puxar assunto, mas ele ficou lá sentado, enrolando e desenrolando um pedaço de fio em torno de seu pulso. Ele começou a balançar para frente e para trás e a cantarolar algo, e eu achei que era a música mais bonita que já ouvi. Me deixou sonolenta, então grudei na parede. Acho que adormeci. Como eu já disse, a próxima coisa que ouvi foi um som estridente horrível.” “O verdugo-espinhento”, disse Tink. “Sim. E isso é tudo. Chamei o vovô quando o vi, e Peet me desceu. Vovô não parece gostar muito de Peet, mas agradeceu. Então saímos da floresta o mais rápido que pudemos.” “Mas que tipo de livros ele tinha?” Janner insistiu. Leeli bufou. “Sei lá. Eles tinham capas de couro com desenhos. Havia um baú antigo no canto e um monte de bugigangas. Não fiquei muito tempo lá, antes de adormecer.” Ela sorriu para si mesma. “E depois, quando acordei, percebi que ele tinha colocado um cobertor em mim.” Após um momento, Tink sussurrou: “Você acha que consegue se lembrar de como chegar à casa da árvore de novo?”. Leeli olhou para ele como se o irmão fosse louco. “Mesmo se eu conseguisse, não contaria a você. Vovô estava a cavalo e ainda assim foi atacado por um murça e um verdugo. E se ele tivesse sido atacado por uma vaca-dentada? São quilômetros e quilômetros dentro da floresta. Não seja bobo.” “Eu não disse que ia lá”, afirmou Tink, dando outra mordida no gulomelo. “Mas então por que perguntou, hein?” Tink deu de ombros. Janner estava quieto, olhando na direção da floresta. “No que você está pensando, Janner?” Leeli perguntou. Janner pensou por um momento antes de falar. “Essa já é a segunda vez que Peet veio nos socorrer: primeiro, com as pedras no beco; depois, com você na floresta. Acho que ele está cuidando de nós.” “Você não sabe se foi Peet quem jogou aquelas pedras”, corrigiu Leeli, dando uma olhada para o teto. Ela baixou a voz. “Pode ter sido Zouzab. Poderia ter sido qualquer um.” Janner olhou pela janela para ver Peet virando a esquina da barbearia de J. Bird. “Tudo o que estou dizendo é que é um pouco estranho.” “Leeli, a que distância estava aquele verdugo-espinhento quando Peet jogou a pedra nele?” Perguntou Tink. “Não sei, talvez... daqui até...” Leeli semicerrou os olhos em direção ao edifício do outro lado da rua. “Daqui até a cadeia.” “Eu não contei pra vocês dois uma coisa”, confessou Janner, com a voz baixa. “Na noite em que saímos da cadeia, ouvi mamãe e vovô conversando e falando como se soubessem quem jogou as pedras, e os dois não queriam que soubéssemos.” “Olhem.” Leeli apontou pela janela para o avô subindo a Rua Principal. Podo avançava com um passo determinado: seus braços balançavam, havia uma carranca desagradável na face. Ele parou e olhou rua acima e rua abaixo, antes de entrar no beco estreito da J. Bird, o mesmo beco onde Peet acabara de entrar. “O que ele está fazendo?” Janner questionou enquanto espiava por cima de Tink e Leeli. Poucos momentos depois, Peet, o Homem-Meia, voou pela esquina, chorando como uma criança e com o lábio sangrando. Ele estava correndo como um animal assustado e o coração de Leeli se partiu ao vê-lo daquele jeito. Podo reapareceu na esquina e se limpou, antes de retornar na direção do chalé. “O que foi tudo isso?” Janner perguntou em voz alta. “Vovô simplesmente bateu nele?” “Eu vou atrás dele”, disse Tink, olhando na direção para onde Peet havia corrido. “Não!” Exclamou Leeli. “Vou atrás do Peet”, Tink repetiu, limpando as mãos meladas na frente da camisa. “Vocês podem ficar aqui se quiserem, mas eu quero saber para onde ele está indo.” Antes que alguém pudesse impedi-lo, Tink saiu da janela, abriu a porta da frente e começou a descer a rua. “Tink”, gritou Janner. “Tink!” Mas Tink continuou andando. “Vamos lá”, resmungou Janner. “Precisamos alcançá-lo.” “E o senhor Reteep?” Leeli perguntou. Janner parou. “Espere aqui.” Ele disparou pelo corredor que achou que poderia levar à mesa de Oskar e voltou alguns minutos depois, sem fôlego. “Vamos. Eu só falei que terminamos e que vamos embora. Ele nem mesmo tirou os olhos dos livros.” “Mas...” “Eu sei que é ridículo, mas não posso simplesmente deixar Tink ir sozinho. Temos que ficar juntos.” Janner entregou a muleta à Leeli e segurou a porta para a irmã. “Sinta-se à vontade para tentar dissuadi-lo, mas você conhece Tink. Ele vai seguir Peet, indo ou não com ele.” Quando o alcançaram, Tink estava espiando na esquina de A Única Pousada. “Achei que vocês não chegariam nunca”, ironizou ele com uma piscadinha. “Essa não é uma boa ideia”, repreendeu Leeli. “Mamãe disse...” “Lá vai ele”, sussurrou Tink, olhando por cima do ombro de Leeli, e se foi. Leeli observou Tink correr na direção norte, subindo a Via Vibbly. Nugget choramingou, ansioso por correr. Com um suspiro de resignação, Janner estendeu o braço para a irmã. “Depois de você.” 33 Pontes e Galhos Tink subiu com pressa a pequena encosta, passou pelas últimas casas de Glipwood, com Janner, Leeli e Nugget a apenas alguns passos atrás. De vez em quando, Tink tinha um vislumbre dos cabelos brancos de Peet disparando pelo campo e acelerava o passo para manter o Homem-Meia à vista. Janner não gostava do quão perto eles estavam da floresta. Não estavam tão longe da cidade quanto a Mansão Pé-de-Geleia, onde a floresta era mais antiga e selvagem, mas as árvores, desde aquele trecho, estavam ficando mais encorpadas e deixando Janner nervoso. Depois de vários minutos, Tink parou ao lado de uma casa em ruínas, sem telhado e carbonizada, em meio a um aglomerado de carvalhos musgosos. Janner e Leeli o alcançaram e os três ficaram parados, ofegantes, no meio da estrada empoeirada. “Consegue vê-lo?” Janner perguntou, torcendo para que eles o tivessem perdido de vista. Os três Igibys espiaram através dos galhos que cobriam o caminho até a casa. “Nós devíamos voltar.” Janner olhou nervoso para a floresta. “Acho que você está esquecendo nosso pequeno incidente com o você-sabe-o-quê em você-sabe-onde.” “Do que vocês estão falando?”, Leeli perguntou. “Na mansão?” Tink perguntou, examinando o quintal em busca de sinais do Homem-Meia. “Ah, nada a ver com aquilo. Além disso”, ele olhou para Janner, “se você tem tanta certeza de que Peet está cuidando de nós, não precisamos nos preocupar, certo?” Leeli bateu com a muleta no chão. “Que mansão?” “Eu conto mais tarde”, disse Janner, e ela bufou, cruzando os braços sobre o peito. “Olhem!” Exclamou Tink. A uma curta distância, à direita, Peet estava correndo por entre as árvores atrás da velha casa. Mas, tão súbito quanto eles o tinham visto, Peet desapareceu. “Sério, como ele fez isso?” Tink se perguntou em voz alta. Silêncio, exceto pelo cantar de alguns pássaros estranhos e o ronco ocasional do estômago de Tink. “Vamos embora”, sussurrou Janner, embora ele também estivesse procurando Peet na área. “Não há como saber para onde ele foi. Vamos!” Tink olhava fixamente para as copas das árvores, sem dar atenção a Janner. “Tudo bem, então”, concluiu Janner. “Venha, Leeli. Vamos pra casa.” Leeli não discutiu. Janner pegou a mão dela e eles se viraram para ir embora, esperando que Tink desistisse e os seguisse, quando visse que eles pretendiam realmente partir. Mas depois de dez passos, Janner percebeu que a ameaça de deixar Tink sozinho não estava funcionando. Tink ainda estava examinando as árvores, procurando por Peet. “Tink, estou falando sério”, disse Janner. “Não seja tão bobo”, repreendeu Tink sem olhar para trás, mirando fixamente as árvores. “Eu só quero ver se consigo descobrir como ele desapareceu. Ele deve ter um túnel ou algo assim. Já volto.” E sem dizer uma palavra, Tink estava correndo. De novo. “Tink, não!” Janner gritou. Janner observava, parado ao lado da velha casa, Tink andar na ponta dos pés entre as raízes e os troncos nodosos das árvores. Ele se virou e acenou para Leeli com um largo sorriso enquanto Janner balançava a cabeça e gesticulava para que ele voltasse. Tink moveu-se em direção às árvores, mais perto dos limites da floresta. Com um suspiro de frustração, Leeli se sentou ao lado de Nugget. De repente, Nugget ficou tenso e eriçou os pelos do pescoço. Ele olhava para a floresta e rosnava. “Ah, não”, Janner lamentou. Algo estava vindo e, pelo som que fazia, era algo grande. Janner e Leeli acenaram freneticamente, tentando não fazer barulho ao chamar a atenção de Tink. Janner queria correr e agarrá-lo, mas estava com medo de sair e deixar Leeli sozinha. Tink, agachado, não deu atenção aos irmãos. Enquanto investigava alguma coisa no chão, ele, de repente, também ouviu. Um barulho estrondoso veio da floresta, o som de algo grande e que se movia rapidamente. Leeli e Janner estavam apavorados demais para se mexer. Os dois viram, através das árvores entrelaçadas, uma criatura escura, do tamanho de um cavalo, correndo diretamente para cima de Tink. Janner já tinha ouvido Podo falar de vacas-dentadas e lido a descrição de uma delas, em um dos livros de Oskar.1 Janner sabia, pelo tamanho e velocidade da criatura, que a besta, agora a apenas alguns metros de seu irmão mais novo, condizia com os relatos. Tink não tinha como escapar dela. Ele girou a cabeça em tempo de ver a temível vaca se lançando sobre ele — seus longos dentes à mostra, seu corpanzil tremendo. Janner, Leeli e Nugget ficaram paralisados de medo, incapazes de se mover, mas também incapazes de tirar os olhos do que era, certamente, a morte iminente de Tink. Leeli começou a gritar, mas Janner tapou a sua boca com a mão, puxando-a para a grama, para trás da parede da casa. Ele não queria que a irmã visse aquilo, e Tink estava simplesmente muito longe para receber ajuda. Se ela gritasse, a vaca-dentada faria um trabalho rápido em acabar com os três. Nem mesmo Nugget voltaria para casa. Então, eles deitaram na grama alta — os corações batiam forte, esperando com pavor o grito final de Tink. Mas esse grito nunca veio. Eles ouviram a vaca derrapar e parar, seguido de um arranhar e um bufar. Então veio um resmungo baixo que certamente não era o som que alguém esperaria de um monstro se deliciando com um menino. Janner fechou os olhos e tentou compreender o que estava ouvindo. Ele não queria correr o risco de ser visto pela criatura, mas uma leve esperança de que Tink pudesse estar vivo se acendeu em seu coração. Ele não podia mais aguentar. Janner levou um dedo aos lábios e moveu-se lentamente para espiar por trás da parede. A besta estava de pé nas patas traseiras, arranhando e farejando a árvore. Parecia que vacas-dentadas não eram boas escaladoras. Janner deu um longo suspiro de alívio. “Ele está bem”, sussurrou. “Não sei como fez isso, mas ele está bem. Tink subiu na árvore antes que a vacadentada o pegasse.” Leeli suspirou e sorriu para Nugget, que lambeu seu rosto e abanou o rabo. “Fique quieta”, sussurrou Janner. “Temos que esperar até que ela vá embora.” Janner espiou novamente e viu a vaca-dentada dar um último golpe no tronco da árvore antes de voltar, a passos pesados, para a floresta, com um mugido de descontentamento. Um longo momento se passou. Janner examinou a linha das árvores, pedindo ao Criador que Tink estivesse ileso. De repente, a cabeça de Tink apareceu. Ele estava de ponta-cabeça, nos ramos superiores da árvore. Ele acenou para Janner, que acenou de volta, incapaz de reprimir um sorriso. “Ele está bem, Leeli. Veja.” Leeli explodiu em sorrisos ao ver Tink pendurado na árvore. Era difícil ficar bravo com Tink por muito tempo. “Acho que seu medo de altura não é tão forte quando algo está prestes a comê-lo”, constatou Janner. Ele acenou para que Tink descesse, mas, para seu espanto, Tink balançou negativamente a cabeça invertida. “O que ele está fazendo?” Janner murmurou, lembrando-se de como ele estava com raiva de seu irmão apenas alguns momentos antes. “Ele quase foi morto e ainda está agindo como um idiota.” “Talvez ele tenha encontrado algo para comer lá em cima”, sugeriu Leeli. “Aquela vaca ainda pode estar por aí. Precisamos sair daqui enquanto podemos.” Janner olhou para as árvores com desconfiança. Tink assobiou, da árvore, e acenou novamente para que os irmãos se juntassem a ele. Incapaz de acreditar que não estava correndo como um louco para casa, Janner colocou Leeli de pé e ambos se moveram com cuidado em direção às árvores. O irmão mais velho ficou maravilhado com a habilidade de Tink de coagi-lo a se meter em encrencas. Janner e Leeli ficaram ao pé da árvore, olhando para Tink, mas a copa estava tão escura que eles mal distinguiam sua figura nos galhos acima. “Olhem do outro lado”, sussurrou Tink, transbordando de animação. No início, Janner não viu nada além de um tronco de árvore coberto de videira. Então, ele percebeu que as folhas e vinhas estavam escondendo uma escada de corda, pendurada contra o tronco da árvore. O estômago de Janner vibrou com a descoberta, e novamente ele ficou dividido entre sua responsabilidade e seu desejo inegável de descobrir o que havia no topo da escada, escondido nos galhos frondosos. Ele olhou, preocupado, para Leeli. “Acha que consegue escalar?” Leeli não replicou. Como resposta, encostou a muleta na árvore e afagou a cabeça de Nugget. Ela subiu a escada como se tivesse seis pernas boas, ao invés de uma só. “Volto em um minuto, garoto”, ela sussurrou quando alcançou o galho onde Tink agora estava. Janner foi atrás, murmurando para si mesmo. “Sempre causando problemas... só uma vez... queria... que ele usasse o cérebro...” Tink estava encantado, de pé sobre um galho suspenso a cerca de dez metros no ar, completamente despreocupado com a altura. “Tink, você não está com medo?” Leeli perguntou. “Por quê?” “Você está no topo de uma árvore!”, alertou Janner. Tink piscou para o irmão, olhou para baixo e ficou branco feito uma nuvem. Ele agarrou o galho mais próximo e fechou os olhos com força. Leeli balançou a cabeça. “Parabéns, Janner.” Imediatamente, cheio de arrependimento, Janner tentou acalmar os nervos em frangalhos de seu irmão. “Tink, tá tudo bem. Você escalou tudo até aqui em cima sem nenhum problema. Nós apenas temos que descer de volta. Lembra dos penhascos na semana passada? Lembra quando você ouviu a canção dos dragões e não teve medo? Seja corajoso daquele mesmo jeito. Vamos.” À menção da canção dos dragões, uma ligeira mudança ocorreu em Tink — e Janner vislumbrou um Tink mais forte e diferente, como aquele nos penhascos. Tink se desgrudou da árvore e respirou fundo. Ele até olhou para o chão e forçou uma risada. Leeli e Janner trocaram olhares. “Tudo bem”, repetiu Janner. “Tenho certeza de que você está orgulhoso de sua descoberta. Agora vamos descer daqui e ir para casa.” Janner se virou para descer a escada. “Espera!” Tink sorriu novamente. Antes que Janner pudesse protestar, Tink se distanciou ainda mais, indo para um galho grosso e empurrando um ramo cheio de folhas para fora do caminho. “Dá uma olhada nisso”, pediu ele enquanto se afastava. Para além das folhas balançava uma ponte de pranchas de madeira, suspensa por cordas, que se estendia até a próxima árvore. Através dos galhos, eles podiam ver mais uma ponte que conduzia daquela árvore para a seguinte, e assim por diante, se aprofundando na sombria folhagem da Floresta Glipwood. “É assim que Peet chega à sua casa na árvore, sem ter que se preocupar com as criaturas da floresta”, disse Leeli. “Isso deve ter levado anos”, comentou Janner lentamente, com admiração. Janner e Tink olharam para as pontes, desejando explorar a floresta do topo das árvores. Mas não com Leeli. Janner não via como ela poderia cruzar as pontes com uma muleta, mesmo se quisesse ir, o que ele duvidava. “Leeli...” Janner ia começar a falar, mas ela o interrompeu. “Vou precisar da minha muleta.” Seus irmãos olharam para ela com surpresa. “Bom, não posso sair perambulando pela floresta sem ela, posso?” Abrindo um sorriso, Tink desceu correndo a escada, pegou a muleta e subiu novamente. Janner não gostou, mas estava mais uma vez tão curioso quanto o irmão. Por que isso continua acontecendo? — pensou consigo. Agarrando as cordas que se estendiam pelo que parecia ser um mar de folhas e galhos — a terra distava deles, muito abaixo —, Tink avançou lentamente ao longo da ponte. Ele alcançou o meio, que estava inclinado, balançou um pouco e acenou com a cabeça. Janner fez Leeli passar na sua frente, e ela foi surpreendentemente ágil e capaz. Em pouco tempo, os três Igibys estavam caminhando de ponte em ponte, escalando com confiança, através dos galhos das árvores entre elas. De vez em quando, viam pombas-travessas observando-os passar. Abaixo, a vaca-dentada, ou outra igual a ela, caminhava por entre as árvores de Glipwood, com um murça morto em sua boca. A floresta estava cheia de vida, tanto abaixo como acima deles. Janner, de repente, sentiu-se um intruso, um hóspede rude que havia entrado sem permissão. As pontes ziguezaguearam pelo que pareceram quilômetros, antes de chegarem a uma bifurcação. Duas pontes se separavam de uma copa frondosa, em diferentes direções. Tink parou no topo dos galhos de um enorme carvalho, e Leeli e Janner sentaram-se por um momento para descansar. Janner estava prestes a sugerir que voltassem. Quem sabia o quão longe ficava a casa da árvore de Peet, no interior da floresta? E, mesmo se os três a encontrassem, Janner estava começando a se perguntar como Peet se sentiria em relação a invasores. “Leeli, tem certeza de que podemos confiar nele?” Janner não estava tão confiante. É verdade que Peet havia salvado Leeli e, provavelmente, todos eles, dos Fangs, mesmo antes do último acontecimento. Mas ele ainda parecia louco. “Você não acha que ele ficará chateado conosco se nos encontrar... ou se nós o encontrarmos?” “Eu vi os olhos dele.” Ela sorriu, lembrando-se daquela memória. “Ele não vai nos machucar; você vai ver.” “Ainda assim, acho que já viemos longe o suficiente. Nós nem deveríamos estar aqui”, Janner confessou. “Vocês não têm nada pra comer, têm?”, perguntou Tink. Uma voz atrás deles assustou os três irmãos, desviando-os de sua conversa: “Que tal virem comigo para comer um bom filé grelhado de verdugo?”. Lá, no meio da ponte, com as meias de malha surradas puxadas até os cotovelos, estava Peet, o Homem-Meia. Pendurada em uma das mãos tinha ele uma carcaça de verdugo-espinhento esfolada. Ele se curvou e sorriu para as crianças. “Vocês gostariam de conhecer meu castelo?” 34 O Castelo de Peet Os meninos ficaram imóveis como pedras, mas Leeli deu um passo à frente. Ela saiu mancando sobre a ponte e parou na frente de Peet. Cabelo branco selvagem, rosto manchado de sujeira, ele ficou ali, imóvel, olhando para ela. Seus olhos eram profundos e azuis, e brilhavam como joias. Imediatamente, Janner soube que, de alguma forma, por trás do fedor e da estranheza, Peet, o Homem-Meia, era cheio de bondade. Seus olhos eram tão profundos e tão pacíficos que Janner até começou a acreditar que, talvez, Peet não fosse nem mesmo louco. A ponte de cordas rangeu no silêncio enquanto eles se olhavam. “Olá, senhor Peet”, cumprimentou-o Leeli, após um momento. “Eu adoraria ir ao seu castelo de novo.” Ela estendeu a mão para o rosto dele e o homem ficou petrificado, como um animal nervoso prestes a saltar. “Aconteceu alguma coisa com o seu lábio? Está inchado.” Peet balançou a cabeça lentamente, olhando fixamente para ela. Janner pigarreou. Peet piscou e ergueu os olhos com surpresa. “Sim, bom, então. Olá. Sigam-me pati-ti-ti.” Ele se virou e se afastou, sem deixar nenhuma escolha aos Igibys a não ser segui-lo em um silêncio aturdido. Após mais seis pontes rangentes, eles viram a casa da árvore onde Podo havia encontrado Leeli, quatro dias atrás. Ela ficava aninhada nos ramos da maior árvore que eles já haviam visto, elevando-se seis metros a mais do que a ponte que os conduzia até lá. A estrutura parecia ter sido feita de madeira velha das casas abandonadas que cobriam os prados perto de Glipwood. As tábuas eram de veios e formas incompatíveis, mas perfeitamente organizadas e pregadas. Galhos com folhas esverdeadas projetavam sombras silenciosas nas laterais da pequena construção, dando a Janner a impressão de ser tão robusta e acolhedora quanto A Única Pousada. Havia até janelas no castelo da árvore de Peet. A última ponte levava a um galho, largo e sinuoso, desgastado por muito uso, e não tinha corrimão de corda. Peet caminhou pelo galho sem pensar, mas era muito precário para Leeli atravessar com sua muleta. Peet se virou e percebeu a situação, arfando. Ele saltou para trás, pegou Leeli no colo, carregando-a em um movimento fluido. Nem Tink, nem Janner receberam o mesmo serviço, mas, ainda assim, atravessaram sem problemas. Uma escada de corda do outro lado do tronco levava a um alçapão, no chão da casa da árvore, através do qual Peet já conduzia Leeli. Os meninos escalaram e entraram no castelo de Peet, nas árvores. Peet estava cantarolando enquanto trinchava a carcaça do verdugo e ia jogando-a numa panela. Leeli se sentia em casa, e sentou-se de pernas cruzadas no chão, contra a parede. “Entrem, rapazes, entrem. Verdugo cozinhando, crispado comendo, verdugo, verdugo, comida é lombo”, ele deu sequência numa voz cantante. Tink e Janner entraram na casa da árvore e sentaram-se ao lado de Leeli, que tinha uma expressão muito satisfeita no rosto. Ela olhou para Peet e gesticulou para seus irmãos. “Senhor Peet, estes são os meus irm...” “Janner e Tink, Tanner e Jink, Jinker e Tan, Janker e Teeeeen”, Peet cantarolou sem tirar os olhos da panela. “Mas... como você sabia nossos nomes?” Janner perguntou. “Cidade pequena, meninos. Gente louca ouve muita coisa, Wigybi”, Peet contou. “É Igiby”, corrigiu Tink. Peet encolheu os ombros e acendeu um pequeno feixe de gravetos e musgo que estava numa lareira rústica, sob a panela. A lareira era forrada com pedras, e acima dela o homem havia criado uma espécie de chaminé, de algum tipo de couro costurado para formar um tubo. Janner ficou impressionado com a engenhosidade de Peet — isto é, até a casa da árvore se encher de fumaça. Peet não pareceu notar. Tink tossiu. “Senhor, hã, Peet Homem-Meia, senhor, você não está preocupado com que sua casa pegue fogo?” Peet pescou uma bolsa de couro de uma pequena caixa ao lado dele e borrifou parte de seu conteúdo na panela. Um aroma delicioso subiu da vasilha e se misturou à fumaça. “Preocupado? De forma alguma, jovem Wingiby.” Ele apontou para a janela mais próxima e as crianças puderam ver três árvores cujos galhos estavam carbonizados e sem folhas, em diversos lugares. “Já queimei meu castelo três vezes, e sempre sobrevivi. Eu não estou neocupado com pada. Preocupado com nada.” Ele voltou a mexer a panela. “Mas desta vez acho que descobri o problema, veja, problema, veja, problema, veja”, ele cantarolou com uma piscadela. “Pedras. Vê essas pedras? Elas não pegam fogo. Neca.” Ele tossiu e pela primeira vez percebeu a fumaça enchendo o cômodo. “Iiih!”, ele gemeu. Peet puxou um pedaço de cordame que pendia do tubo da chaminé e a fumaça lentamente se dissipou. “Abra a chaminé, abra a chaminé, abra a chaminé pra mim e pro mané.” Janner começou a repensar sua opinião sobre Peet. Ele era tão louco quanto uma ave lunar. Peet desviou a atenção de sua panela para encarar as crianças. Ele avaliou os três, especialmente os meninos. Seus lábios estavam se movendo, e ele estava alisando distraidamente uma mecha de cabelo com uma das mãos emeiadas. A panela começou a ferver e o estômago de Tink roncou. Peet olhou para ele e um flash de dor passou pelo seu rosto. “Faminto, está você, Tink?” Ele murmurou. “Claro que você está.” Janner podia ver a pilha de livros encadernados em couro que Leeli havia mencionado, ao lado de um velho baú encostado na parede oposta. Alguma coisa a respeito dos livros acendeu uma luzinha no fundo de sua mente. “Então... podemos chamar você de Peet?”, Janner perguntou, procurando por mais respostas para suas crescentes perguntas. “Esse é seu verdadeiro nome?” O Homem-Meia mexeu o conteúdo da panela fervente com uma longa colher de pau e não respondeu. Os Igibys o encararam em um silêncio constrangedor. “O que é um nome verdadeiro?”, Peet finalmente falou. Ele apontou a colher para Janner. “Janner Igiby é o seu nome verdadeiro?” “Sim, senhor.” “Tem certeza?” Peet questionou, voltando a cozinhar. Tink não conseguia pensar em nada além da comida. Depois de vários minutos assistindo a Peet se ocupando de seu ensopado, ele pigarreou. “Está ficando pronto, senhor?” Peet levou a colher aos lábios e provou o caldo. Ele acenou com a cabeça e então tirou quatro tigelas de madeira de uma caixa e despejou o guisado nelas, estalando os lábios. Eles comeram num silêncio marcado apenas pelo grunhido ocasional de prazer expressado por Tink e Peet. Janner ficou surpreso ao se dar conta de que um verdugo-espinhento poderia ser tão delicioso. “Agora, pequenos Vingugofigs...” “Igibys”, Tink o corrigiu novamente, com a boca cheia de carne. “... Iggyfeathers, tanto faz.” Peet ficou sério e endireitou o corpo. “Agradeço vocês por tanta gentileza e pela visita.” Seu rosto escureceu. “No entanto, devo pedir que vocês nunca, nunca, jamais voltem aqui.” A voz dele falhou e ele caiu no chão. “Vocês não podem me visitar. Eu heiro chorrível. Eu cheiro horrível. Vocês, pássaros doces, poderiam ter sido comidos por um erdugo vespinhento, um verdugo espinhento, flerdugo flinhento, Igibys. Ou uma vaca-dentada! Ah, que horror. E eu posso ser perigoso — mosso pachucá-los — posso machucá-los sem querer, sabe. Eu...” Peet estancou e inclinou a cabeça para um lado, ouvindo. Ele deu um grito agudo e saltou de pé, mas sua cabeça bateu no teto baixo. Instável com o golpe, ele cambaleou, levando uma das mãos emeiadas à cabeça. “Alguma coisa... lá fora!” Ele respirou fundo e caiu estatelado no chão. As crianças olharam em choque para a figura caída — um emaranhado de membros magrelos e cabelos brancos. Então eles ouviram um ganido abaixo deles. “Nugget!” Leeli gritou e correu para o alçapão. Nugget estava abanando o rabo e olhando para ela do pé da árvore. “Ele nos encontrou!” Leeli exclamou e então entrou em pânico. Uma criatura da floresta poderia tê-lo devorado! “Temos que trazê-lo aqui pra cima!” Ela insistiu. Examinando cuidadosamente a floresta abaixo, Janner desceu pela escada e conseguiu trazer o cachorrinho debaixo do braço. Peet ainda estava inconsciente, mas não parecia ferido. Na verdade, ele parecia estar tirando uma feliz soneca da tarde. “Deixe-o dormir”, disse Tink. “Ele queria que a gente fosse embora mesmo.” Tink sorveu o resto de sua tigela. “Guisado de verdugoespinhento”, declarou ele. “Quem poderia imaginar que seria tão bom?”1 Janner passou cuidadosamente por Peet e foi até a pilha de livros, no canto. “Não sei se isso é uma boa ideia”, aconselhou Leeli. Janner sinalizou para que ela fizesse silêncio. “Eu só quero dar uma olhadinha.” Ele se arrastou até a pilha e retirou um volume. Ele o abriu e Tink e Leeli o viram suspirar e olhar para Peet com espanto. Peet se mexeu. Rapidamente, Janner colocou o livro de volta no lugar e se apressou para onde estava sentado antes. Tink e Leeli questionaram Janner com os olhos, mas ele balançou a cabeça; então pigarreou e disse em voz alta: “É melhor a gente partir.” O Homem-Meia gemeu e se sentou, esfregando a cabeça. “Tchau, senhor Peet”, Janner exagerou no tom cortês. “Obrigado pela comida.” “É o quê? O que é? Comida?” Os olhos de Peet se arregalaram. “Algo está lá fora!”, ele gritou e, saltando em pé, bateu no teto novamente. “Ai!” Ele cambaleou, com uma das mãos emeiadas sobre a cabeça. “Está tudo bem, senhor Peet”, disse Leeli. “Era apenas meu cachorro, Nugget. Lembra do pequeno Nugget?” Leeli afagou o queixo do cachorro. “Nembra do pequeno Lugget”, emulou ele, estremecendo e olhando para o cão, confuso. “Precisamos ir”, repetiu Janner. “Sim, vocês precisam”, constatou Peet, voltando a se sentar. “E não voltem. Fico muito triste em dizer isso, mas não voltem.” Ele tocou o lábio inchado. “Vocês não devem voltar.” Ficou cabisbaixo. “Adeus, Wingiby Igifeathers.” Peet carregou Leeli pelo galho alto e a colocou delicadamente na ponte enquanto os meninos o seguiam. Depois de cruzarem a segunda ponte, Janner virou-se para acenar um adeus. Peet estava de volta ao seu castelo, observando-os da janela. Janner não tinha certeza, mas parecia que Peet estava chorando. Janner não falou durante todo o caminho de volta. Várias vezes Tink perguntou-lhe o que ele havia visto no livro, mas Janner não respondeu. As crianças Igiby ziguezaguearam seu longo caminho sobre as pontes até que as árvores começaram a ficar mais finas outra vez. O único som que se ouvia era o de Nugget choramingando enquanto andava através das pontes, com mais medo de cair do que de dar de cara com uma manada de vacas-dentadas. Janner ficou maravilhado de ver Tink tentando tranquilizar Nugget, assegurando-o de que ele não tinha que ter medo de lugares altos. Na metade do caminho, Janner e Tink ouviram uivos assustadores e familiares que fizeram os três ficarem paralisados. Várias formas escuras emergiram do emaranhado de arbustos abaixo deles. Da posição em que estavam, na ponte da árvore, os Igibys observaram em silêncio uma matilha de canicórneos passar pelas árvores abaixo, como uma névoa acinzentada. Quando os cães foram embora, as folhas no chão da floresta, diretamente abaixo da ponte, farfalharam. Então, o chão tremeu como uma panela de caldeirada de queijo fervendo. Saindo de sua toca, um sapo-toupeira marrom e verrucoso, do tamanho de uma cabra, apareceu.2 Ao mesmo tempo, para o horror de Leeli e o fascínio de seus irmãos, uma desatenta pomba-travessa pousou no chão, não muito longe, bicando minhocas na terra. Sem nenhum aviso, a língua do sapo-toupeira disparou e subtraiu o pássaro para sua boca, deixando uma nuvem de penas cinzentas flutuando no ar, onde o pássaro estivera. Leeli gritou e, imediatamente, cobriu a boca. O sapo-toupeira dilatou seus olhos pretos bulbosos e olhou para as crianças por um longo e terrível momento. Finalmente, ele soltou um grasnido alto e, meio que caminhando, meio que pulando, foi para longe. Assim que o sapo-toupeira desapareceu, uma criatura menor, com pelo preto emaranhado, deslizou para a área. “Um rateixugo”, sussurrou Janner para Tink e Leeli. O rateixugo torceu suas orelhas grandes e pontudas e farejou o chão da floresta até encontrar a toca oculta do sapo-toupeira, onde entrou furtivamente, sem fazer barulho. Um momento depois, o grande roedor apareceu com um ovo amarelado sendo cuidadosamente carregado em sua boca.3 Com o que Janner supôs ser um grasnido zangado, o sapo-toupeira voltou — sua língua chicoteava enquanto perseguia o rateixugo em fuga. Em segundos, tudo estava quieto novamente. Janner ficou maravilhado com a forma como a floresta podia esconder coisas. Ela podia parecer inocente e inofensiva, até bonita, enquanto, na verdade, sob essa aparência pacífica, estavam criaturas cruéis e mortais. Por que tanta coisa no mundo de Janner não era o que parecia? Ele pensou sobre sua mãe, sobre Oskar, depois sobre Peet, o Homem-Meia. Todos eles tinham segredos. “Era um diário”, descreveu Janner, quebrando o silêncio. “E...?” Perguntou Tink. Janner olhou para Tink e Leeli. “Na frente havia uma gravura.” Janner olhou atentamente para Tink. “Uma gravura que já vimos antes.” “O que era?” “Um dragão com asas.” Os olhos de Tink se arregalaram. “O mesmo que vimos no diário de Anniera? Que encontramos na livraria de Oskar?” Janner assentiu. “E havia muitos deles na casa da árvore. Pelo menos uns vinte! Como poderia Peet pôr as mãos em diários de Anniera?” “Talvez sejam dele”, cogitou Leeli. “Acho que não. A primeira página dizia: ‘Este é o diário de Artham P. Wingfeather, Guardião do Trono de Anniera.’” Tink franziu a testa. “O que é um Guardião do Trono?” “Olha, não faço ideia.” Janner encolheu os ombros. “Não li muito sobre Anniera ou sua história. Oskar não tem muitos livros sobre o assunto.” “Parece importante”, Tink comentou, olhando para o leste através da folhagem escura da floresta. “Anniera.” Janner repetiu o nome para si mesmo. A palavra era doce em seus lábios, como uma risada ou uma bela canção. De pé, no meio da ponte oscilante, de repente, ele se perdeu em pensamentos de longínquas terras verdes, de dragões com asas, e do novo amigo misterioso com as mãos de meia que eles arranjaram. Nem Tink, nem Leeli disseram nada, mas Janner sabia que eles também estavam pensando em Anniera. Seus pensamentos foram interrompidos pelo grasnir estralejante de um murça-das-cavernas se arrastando desajeitadamente no chão da floresta abaixo deles. Sem dizer mais nada, os Igibys retomaram seu caminho para os limites da floresta. Janner fez uma pausa para se certificar de que nenhuma vaca-dentada, murça-das-cavernas, verdugo-espinhento, canicórneo ou qualquer outra espécie de besta estivesse ali por perto. Em seguida, apanhou Nugget, descendo-o pela escada de corda. Ao pé da escada, ele colocou o cãozinho agradecido no solo da floresta e esperou por Leeli. Tink veio por último, com a muleta de Leeli sob o braço. Com uma última olhada para a ponte oscilante, bem acima deles, os três irmãos voltaram para a cidade o mais rápido possível. Mas, de volta a Glipwood, arfando, Janner foi atingido por uma sensação de que algo estava errado. As ruas estavam vazias. Um vento quente soprava e lambia a poeira e as folhas. Onde o Comandante Gnorm costumava ficar, preguiçosamente, no alpendre em frente à cadeia, havia agora uma cadeira de balanço vazia, rangendo de forma sinistra com o vento. Janner se virou na direção nordeste, e seu estômago deu um nó e o pavor infiltrou-se em seus ossos. Uma nuvem de fumaça raivosa subia das árvores, na direção do Chalé Igiby. 35 Fogo e Fangs Tink!” Janner apontou para casa, e Tink apertou os olhos para ver mais longe e gemeu. Leeli já estava manquejando ao longo da estrada — seus cachos loiros chicoteavam ao vento. Nugget soltou uma série de latidos desesperados e disparou pela estrada acima, rumo ao chalé Igiby. Sem nada dizer, Janner e Tink correram. A mente de Janner corria mais rápido do que seus pés, imaginando mil coisas insanas que os Fangs poderiam estar fazendo com sua mãe e seu avô. O rocambole de vermes não foi nojento o suficiente para o gosto de Gnorm? Slarb havia retornado? No limite de seus medos, espreitava a possibilidade de que a Carruagem Negra tivesse vindo e parado no chalé Igiby — na qual Podo, com certeza, não teria entrado calmamente. Logo, Janner não conseguia pensar em nada senão na pontada em suas costelas e no ar que não conseguia respirar. Estava colado aos calcanhares de Tink, gemendo com cada respiração desesperada. A fumaça que eles viram da cidade encheu suas narinas. Os meninos correram depressa colina acima, por entre as árvores e deram de cara com o celeiro, atrás do chalé, envolto numa tempestade de fogo rodopiante. Janner sentiu o calor em seu rosto mesmo antes de passar pelo portão da cerca. Através do ar cinzento, ele viu uma companhia completa de Fangs de Glipwood se arrastando, alguns com tochas, outros com espadas em punho. Um grupo deles estava curvado sobre algo, dando estocadas com os cabos de suas lanças, e Janner viu com horror que era Podo. O velho não se movia. Janner ouviu um brado e se virou em tempo de ver Tink correndo para cima dos Fangs que estavam sobre Podo. “Tink, não!” Janner gritou. Tink voou para o amontoado de Fangs no mesmo instante em que o ar se encheu com o som dos gritos de Leeli. Um Fang se materializou da fumaça e a agarrou por trás. Por todos os cantos ao redor de Janner havia fumaça e gritos, fogo e Fangs. Podo estava sangrando e inconsciente, Leeli estava sendo arrastada pelo braço para onde o Comandante Gnorm estava parado, supervisionando o caos com um olhar presunçoso em seu rosto. Nugget saltou na perna de Gnorm, e Janner observou, impotente, o momento em que o pequeno cachorro foi traspassado por uma lança. Nugget gritou e caiu, inerte, enquanto o Fang que o perfurou colocava um pé em seu flanco para puxar a lança. Nugget permaneceu imóvel, sangrando. Janner orou para que, em meio à fumaça e confusão, Leeli não visse aquela cena. Mas ele se sentiu mal e, por um momento, considerou correr, embora não soubesse para onde. Ele poderia ir até Oskar ou Peet, o HomemMeia, mas não conseguia imaginar como algum deles poderia ajudar sua família. Foi então que dois Fangs apareceram, dos fundos da casa, arrastando Nia, que tinha as mãos amarradas. Janner sentiu uma onda de alívio em meio ao pânico — pelo menos estamos todos vivos, ainda. Seus olhos encontraram os de Nia, através da névoa de fumaça. Ela franziu os lábios e balançou a cabeça, indicando que ele não deveria lutar nem fugir. Era tarde demais, de qualquer maneira — Janner fora visto. Três Fangs, espadas em punho, marchavam em sua direção. Sem tirar os olhos de sua mãe, ele ergueu as mãos e se deixou levar. Os Fangs reuniram os Igibys na grama, onde foram alinhados, postos de joelhos, com as mãos amarradas nas costas. O celeiro foi completamente queimado e uma mortalha pairava no ar, ardendo em seus olhos. Podo estava delirando por causa de um ferimento na cabeça, mas consciente o suficiente para amaldiçoar e insultar os Fangs que os cercavam. “Melhor amarrarem o véio Podo mais forte do que isso, se quiserem salvar sua pele podre de cobra”, esbravejou ele de maneira incompreensível — seu cabelo grisalho emaranhava-se com o sangue. “Papai, quieto”, protestou Nia com os dentes cerrados, encarando Gnorm. Tink bufava, seus olhos fritavam os Fangs. Leeli estava parada e em silêncio, olhando para o monte de pelo preto no chão, atrás de Gnorm. Nugget não se movia. Janner perguntava-se, com amargor, o que teria causado aquilo tudo. Desde o Festival do Dia dos Dragões suas vidas foram viradas de cabeça para baixo. “Meu rocambole de vermes não foi satisfatório, comandante?” Nia perguntou com uma voz calma e firme. Gnorm sorriu seu sorriso horrível e coçou a papada. “Ao contrário”, declarou ele, dando um passo mais perto, “aquele rocambole de vermes é o que está mantendo vocês vivos.” Gnorm abanou sua mão diante do rosto de Nia, exibindo os anéis de ouro e a pulseira que ela lhe tinha dado em troca da liberdade dos filhos. “Eu estava disposto a ignorar o fato de que você escondeu essas joias de Gnag, o Sem-Nome, porque você jurou que não tinha mais nada escondido. Isso, e a promessa do rocambole de vermes, é claro.” Ele arrotou e uma mosca voou para fora de sua boca. “Mas acabei de receber uma mensagem interessante do General Khrak, em Torrboro.” Gnorm desembainhou sua longa adaga e brincou com ela enquanto falava. “Você sabe, há um tesouro que o Sem-Nome tem procurado todos esses anos, um tesouro além da imaginação. E o General Khrak, meu superior, acaba de enviar uma mensagem dizendo acreditar que você sabe onde esse tesouro está. Ele está esperando por nós no Forte Lamendron. Agora, eu tenho me perguntado, ‘Por que a mulher Igiby mentiria pra mim, quando ela sabe que eu poderia comer todas as suas três crianças esqueléticas?’. Hein? Por que você faria isso?” Gnorm se inclinou, sua barriga esbranquiçada balançava sobre o cinto. Ele segurou o rosto de Nia com sua mão escamosa. Com seu focinho a poucos centímetros do olhar inflexível de Nia, ele sibilou: “Onde estão as Joiasss de Anniera?” As Joias de Anniera? Janner olhou furtivamente para Tink. Talvez a mãe deles não soubesse de nada, mas ele e Tink sabiam sobre as armas na Mansão Pé-de-Geleia. O mapa dizia algo sobre as Joias de Anniera. O que quer que fossem essas joias misteriosas, elas deviam ter algo a ver com a sala de armas. Mas o que havia de tão especial nessas joias que levaria o próprio Gnag, O Sem-Nome a se dar tanto trabalho para encontrá-las? Nia sacudiu sua cabeça livrando-a das mãos de Gnorm e olhou para ele desafiadoramente. “Eu juro que dei a você todo o ouro e joias que eu tinha”, ela asseverou, de voz neutra e fria. Gnorm a encarou por um momento. “Certo. Você vai tornar isso difícil, não é?” Ele deu um tapa em Nia, com as costas da mão, derrubando-a. Podo lançou-se para a frente, forçando as cordas que prendiam suas mãos, amaldiçoando Gnorm com todo o ar em seus pulmões. Nia conseguiu se pôr de joelhos, enquanto Gnorm sorria sarcasticamente para Podo e embainhava a adaga com vigor. “Fangs”, ordenou o comandante, “vasculhem a casa!” Avidamente, os Fangs desapareceram chalé adentro, dilacerando tudo em que podiam colocar as mãos. Janner estremeceu ao som de vidro e móveis se quebrando. Ele conseguia ver os Fangs se movendo dentro da casa, rosnando suas risadas enquanto babavam veneno, viravam cadeiras, chutavam armários, arrancavam as gavetas da cômoda e rasgavam almofadas. Nia, sangrando no canto da boca, olhou friamente para Gnorm até o último Fang sair da casa, de mãos vazias. “Nada aqui, senhor”, reportou um deles. Gnorm retornou o olhar de Nia. “Tragam-nos.” Os Fangs forçaram os Igibys a se levantarem e andarem. Todos menos Leeli, que foi jogada sobre o ombro de um Fang, assim como Slarb havia feito. De repente, Janner se sentiu cansado como nunca antes. Seus pés se arrastavam enquanto ele caminhava atrás de seu avô que, apenas alguns dias atrás, parecia um guerreiro nas costas de Danny, o cavalo de carga. Agora, Podo estava mancando junto a eles, curvado como o velho que era. Tink não dizia nada, mas estava carrancudo de ódio. O coração de Janner estava pesado de pavor. Poucos dias antes, quando ele, seu irmão e sua irmã estavam na cadeia, sua única salvação tinha sido Nugget, Nia e Podo, e o ouro que Nia havia escondido. Agora, não havia mais ouro, não havia mais Nugget, e Podo e Nia estavam para ser trancafiados junto deles. Desta vez, não haveria como parar a Carruagem Negra. Ela se arrastaria pela cidade em sua sombria missão e os devoraria, levando-os para encontrar fosse qual fosse o terrível destino que Gnag, o Sem-Nome tivesse planejado para a sua família. No entanto, a força de Nia ainda emanava dela como uma vela em um quarto escuro. Janner percebeu que ela estava firme e graciosa, e mesmo com o sangue seco no canto da boca e os cabelos desalinhados, estava linda. Perguntas e mais perguntas o incomodavam. Por que minha mãe teria um tesouro que Gnag desejava? Janner não achava que era uma possibilidade. Certamente houve algum erro, e com a sorte que os Igbys tinham, esse erro levou Gnorm até eles. O dia parecia mais quente do que nunca enquanto os Igibys eram conduzidos, como participantes de algum desfile sombrio, através de Glipwood até a cadeia da cidade. Ninguém caminhava nas ruas. As portas e as janelas estavam fechadas. Os Igibys foram jogados em uma cela, e a grade trancada. Podo afastou o cabelo branco, tirando-o dos olhos e encarou o comandante. “Gnorm!”, gritou. “Vou esfolar você como uma cobra se tocar na minha família! Vou rasgar você com os dentes se for preciso!” Ele lutou com suas amarras, rosnou, e se jogou contra a porta da cela, enquanto um coro de risadas irrompia dos Fangs, que voltavam para a sala da frente da cadeia. O Comandante Gnorm olhou pela porta e arreganhou seus dentes amarelos num largo sorriso. “A Carruagem Negra em breve esssstará aqui. Então é melhor você fazer logo isso, velhote”, ironizou Gnorm com uma risada e fechou a porta. Nia se ajoelhou ao lado de Leeli e sussurrou o nome dela. Leeli ainda não tinha falado. Podo andava de um lado para o outro, torcendo as amarras sem nenhum resultado. Tink, no entanto, soltou um gemido de satisfação e estendeu as mãos à sua frente. Seus pulsos estavam esfolados e doloridos, mas a corda que antes os prendia caiu no chão. “Estava trabalhando nelas”, disse ele enquanto desamarrava Podo. “Bom trabalho, rapaz”, disse Podo. Em instantes, Tink desamarrou as mãos de todos. Leeli enterrou a cabeça na mãe, aninhada em seus braços. “Mãe?” Perguntou Janner. “De que tesouro é esse que estão falando? Que joias? Você sabe do que esse Gnorm está falando?” Nia e Podo se entreolharam em silêncio. Moscas zumbiam em torno de seus rostos cansados. “Como eu disse ao Fang”, Nia falou depois de um momento, olhando para Janner, “Eu dei a eles todo o ouro e joias que tinha. Não há mais nada escondido naquela casa.” Ela mudou seu tom abruptamente. “Agora, temos coisas mais importantes com que nos preocupar.” “Sim”, anuiu Podo. “Tipo, como vamos sair daqui. A meu ver, não há nada que possamos fazer até que eles tentem nos mover para a...” — ele estremeceu — “... a Carruagem.” Ele sacudiu a porta da cela. “Nós só temos que esperar aqui, e orar ao Criador pra que tenhamos a chance de que precisamos.” Ele se sentou ao lado de Nia e Leeli e acariciou o cabelo da neta com sua mão grande e calejada. “Está tudo bem, mocinha.” Tink e Janner deslizaram para o chão, e, sentada, a família Igiby esperou. 36 Sombrio é o Corcel com Sombrio Arreio E Sombrio Condutor Conduzindo Tem O sol se pôs sobre Glipwood e a cela começou a se encher de sombras. Janner acordou assustado. Ele olhou em volta, invadido por uma onda de decepção ao perceber que a situação deles não fazia parte de outro pesadelo. Janner pensou no chalé, em sua cama, na cadeira ao lado da lareira, onde Podo sempre cochilava. Podo estava acordado, com as cabeças de Nia e Leeli repousando sobre seu peito, ambas dormindo. Tink estava enrolado no canto, de frente para a parede. Janner não sabia se ele estava dormindo ou não. As moscas, misericordiosamente, se dissiparam, e agora a cela mofada tinha a inquieta paz da bonança que precede a tempestade. “Janner”, chamou Podo. Seus olhos brilhavam na luz fraca. Janner olhou para o avô e forçou um sorriso. “Seu avô, aqui, já esteve em piores apuros do que este. Vamos sair dessa, não tenha medo.” Algo na seriedade da voz de Podo transmitiu a Janner que o velho pirata estava tentando se convencer, e Janner, de repente, sentiu uma tristeza profunda. Ele estava triste por que nunca mais veria o jardim verdejante, ou o amplo e solitário oceano, sob as falésias, nem riria durante uma refeição quente com sua família, à luz dos lampiões. Ele podia sentir sua esperança se esvaindo, e era a Carruagem Negra que a estava afugentando. “Vovô, o que os Fangs querem? Por que eles achariam que nós sabemos alguma coisa sobre um tesouro?” Podo baixou os olhos. “Filho, os Fangs não precisam de muitos motivos pra nos aterrorizar. Se há tesouro ou não, parece que o destino está decidido a nos arruinar. Maldito seja o destino, eu digo. Chegamos até aqui, não é?” O espírito de Podo crescia quanto mais ele falava. “Eles podem nos jogar na cadeia, eles podem fazer a casa em pedaços. Eles podem até tentar levar minha pequenina Leeli, aqui. Mas enquanto o velho Podo tiver fôlego em seus pulmões e batidas em seu coração, não há destino, nem Fang, nem Gnag que possam despedaçar esta família”. Janner desviou o olhar e meneou a cabeça. “Olhe pra mim, garoto!” Podo exclamou. “Quando chega a hora de lutar, você luta. Mesmo se esses Fangs nos partirem em pedaços, encontraremos o Criador sabendo que lutamos com todas as nossas forças por algo bom. Portanto, não balance a cabeça como se estivesse desistindo.” As bochechas de Janner queimaram com a reprimenda. Ainda assim, ele não conseguia parar de pensar sobre estar trancado naquela jaula escura, sendo levado para uma morte certa e terrível. Ele estava com raiva porque a única vida que havia conhecido era uma com Fangs e Carruagens Negras e um medo diário tão profundo que engolia sua alegria. Então Tink o ouviu. Ele se endireitou e olhou para a janela alta. Nas sombras, Janner podia ver o pavor no rosto de seu irmão. Leeli gritou e Podo abraçou-a firmemente, junto de Nia. Ao longe, e chegando cada vez mais perto, se ouvia o som de cascos e o estalo de um chicote. Janner sentiu que seu coração ia explodir dentro do peito. Os Fangs do lado de fora gritaram e gargalharam. Ao som de cascos e chicotes uniu-se o barulho de arreios, o rangido de rodas de ferro, o bater de asas negras e o crocitar de corvos. A Carruagem Negra havia chegado. Podo ficou de pé em um salto, puxando Leeli e Nia para o seu lado. “Agora, escutem”, Podo vociferou. “Eles não sabem que nossas mãos não estão amarradas. Então, enrolem as cordas em volta dos pulsos e estejam prontos para correr quando vocês me virem agir. Meu objetivo é conseguir uma de suas espadas e não pretendo preencher um formulário pra isso. Leeli, você fica com Janner, e ele vai carregá-la nas costas. Segure firme e te carregará em segurança. Todos vocês corram insanamente pro chalé. Se eu não aparecer logo, então vão pra Trilha Glipper. Nia, querida, você lembra do recanto escondido que te mostrei anos atrás? Vamos nos esconder lá até descobrir o que fazer.” Nia concordou. Tink pegou as cordas do chão e as distribuiu. “Vou tentar conseguir uma espada também”, afirmou Tink. “Não, rapaz. Sei que você quer ajudar, mas preciso que todos vocês corram. Não se preocupem com o seu Podo. Estas velhas patas ainda se lembram de como brandir uma espada”, ele afirmou com uma piscadela. Janner novamente teve a terrível sensação de que Podo estava tentando convencer a si mesmo e a todos de que a situação não era tão ruim quanto deixava transparecer. “Ouça o seu avô, filho”, ordenou Nia, desta vez com um tremor em sua voz. Leeli ainda não proferia palavra. “Leeli, você está pronta?” Ela acenou com a cabeça de forma apática no instante em que a porta do escritório da cadeia se abria, deixando a luz inundar o ambiente. Um Fang caminhou até a porta — um enorme chaveiro tilintava em suas garras. Ele sorriu com desdém para eles enquanto destrancava a cela. “A carona de vocêssss está esperando.” Podo foi o primeiro e os outros seguiram atrás dele, com as mãos nas costas. Todos os Fangs estavam do lado de fora, alinhados em duas fileiras formando uma espécie de corredor que levava à porta aberta da Carruagem Negra. Mesmo Podo estremeceu ao ver a cena. Quatro lustrosos cavalos negros estavam atrelados à carruagem — seus olhos como sepulturas vazias. As narinas dos corcéis dilatavam-se enquanto com seus cascos cavoucavam o chão, chicoteando crinas e caudas. Sentada no topo da carruagem estava uma figura fantasmagórica, encapuzada em uma longa túnica preta, que balançava lentamente como uma bandeira ao vento. Um corvo estava empoleirado em seu ombro. O Fang, ou homem, ou fantasma, ou o que quer que fosse, sentava-se olhando para a frente, com as rédeas em suas mãos esbranquiçadas e ossudas. As entranhas da carruagem eram insondáveis, e ao redor da porta havia manchas pretas escorregadias que corriam como sangue seco. Um coro de moscas zumbia dentro e fora da porta da carruagem e, ocasionalmente, vermes esbranquiçados se contorciam, caíam no chão e eram engolidos por um dos muitos corvos que se agitavam pelo recinto. O Comandante Gnorm estava parado perto da porta de ferro — posto estava um sorriso malicioso em sua cara flácida. Os Fangs zombavam e sibilavam enquanto a família Igiby avançava em direção à porta aberta. Janner mal conseguia sentir seus pés enquanto seguia Podo de perto, cada vez mais próximo da carruagem. Janner tocava os laços frouxamente enrolados em torno de seus pulsos, antecipando com pavor o momento em que Podo avançaria contra um deles. Ele podia ouvir Leeli atrás dele, choramingando enquanto mancava, apoiando-se em Nia. Quando Podo se aproximou do Comandante Gnorm e da Carruagem, ele comemorou em alta voz: “Ah! Um bom dia pra dar um passeio pelo país, hein, rapazes?” Por uma fração de segundo, Gnorm perdeu o sorriso. A maior parte dos prisioneiros estava inconsciente ou histérica e tinha que ser forçada a entrar na carruagem. Ele não estava acostumado a prisioneiros que faziam piadas ao se aproximarem dela. Num piscar de olhos, Podo libertou suas mãos, arremeteu e agarrou Gnorm pela armadura. Podo o girou e o lançou contra a fila de Fangs, ao mesmo tempo agarrando a adaga em seu cinto. “Corram...”, berrou Podo, e os Igibys, a um só grito, abriram caminho contra a fila de Fangs assustados. Nia segurou Leeli com um braço, e meio que a arrastou, enquanto fugia com os meninos. Mas o grito de Podo foi interrompido. Um dos Fangs o acertou na cabeça com o punho da espada, e ele desabou no chão. Em questão de segundos, Janner, Tink, Leeli e Nia foram subjugados e amarrados novamente. Podo estava caído no chão, inconsciente. Os silvos e xingamentos dos Fangs irritados foram silenciados pela risada áspera de Gnorm. “Tolos”, debochou ele, agachando-se e pegando sua adaga da mão desfalecida de Podo. “Peguem-no e joguem-no lá dentro.” Foram necessários quatro Fangs para levantar Podo e atirá-lo na boca da Carruagem, que estava à espera; ele aterrissou com um baque úmido. Gnorm fez sinal para que Janner o seguisse. Tremendo, Janner caminhou lentamente para a porta aberta. Um cheiro nauseante, de coisas mortas e podres, exalava da carruagem, e Janner podia ouvir Podo lá dentro, gemendo e nauseado. Com um último olhar para Tink, Leeli e sua mãe, que estavam todos pálidos e trêmulos, Janner entrou na escuridão. “Espere”, ordenou Gnorm, agarrando o braço de Janner. O Fang sorriu para Nia — suas presas amarelas brilhando à luz das tochas. “Darei a você uma última chance, mulher. Diga-me onde estão as joias, e eu poupo seus preciosos filhos. O velho morre de qualquer maneira, é claro.” Nia olhou de Janner para Tink e para Leeli, com lágrimas nos olhos. Da barriga da Carruagem, Podo gemeu, “Nia, não... diga nada a eles...” “Mas, papai, eu não sei o que fazer!”, ela clamou, tremendo. “Eu não sei mais o que fazer!” A voz fraca de Podo ecoou da carruagem, novamente, “Filha, não diga nada a eles! Não podemos deixá-los...” Gnorm e os Fangs assistiam a tudo isso com sorriso posto na cara. Finalmente, Nia se pôs de pé, cambaleando, o peito ainda ofegante. Ela se levantou e afastou o cabelo dos olhos. Olhando de coração partido para seus filhos, pronunciou com uma voz firme: “Nós vamos viajar em sua carruagem, comandante. Juntos.” Ela deu um olhar carrancudo para Gnorm, levantou a bainha do vestido e entrou na carruagem de maneira tão nobre como se fosse a carruagem de uma rainha. Das sombras da porta, sua mão longa e esguia emergiu, gesticulando para que as crianças entrassem. Janner pegou sua mão e, mais uma vez, aproximou-se da carruagem com as pernas trêmulas. Não havia mais volta agora. A carruagem iria levá-los embora para seu destino sombrio. Incapaz de respirar, ele deu o primeiro passo. De repente, um grito agudo cortou o ar. Para Janner, parecia uma águia gigante, ou cem águias gigantes, todas gritando ao mesmo tempo. Vendo o olhar confuso no rosto de Gnorm, Janner se virou da carruagem bem a tempo de visualizar um borrão de cabelo branco correndo em direção a eles vindo de Via Vibbly. 37 Garras e Uma Funda Correndo mais rápido do que Janner acreditava ser possível, Peet, o HomemMeia, veio sobre eles — a boca aberta num grito feroz, selvageria nos olhos. Os Fangs viram-no chegar, incapazes de entender ao que estavam assistindo, chocados demais para reagir. Peet saltou no ar com a graciosidade de um animal e abriu bem os braços emeiados — seu grito ainda enchendo os ouvidos dos Fangs, os corvos afugentados diante dele. Peet caiu sobre três dos Fangs mais próximos a ele numa fúria de garras e gritos. As garras, Janner viu, eram de Peet — quatro garras longas, que, na verdade, rompiam as meias em ambos os braços e as despedaçavam. Os restos das meias flutuaram para o chão como penas. A companhia de Fangs ficou imóvel enquanto seus colegas caíram no chão, mutilados e sangrando de centenas de feridas. Peet não perdeu tempo. Cortando e girando, suas garras agora cobertas de sangue verde, derrubou mais dois Fangs, antes que qualquer um deles tivesse o bom senso de sacar uma arma. Tink e Leeli mergulharam sob a Carruagem Negra. Janner os seguiu, incapaz de acreditar no que via. O Comandante Gnorm gaguejou e rosnou enquanto observava seus soldados caírem, um a um, pelas garras rápidas de Peet, o Homem-Meia. Mais da metade dos Fangs estava morta ou morrendo. O restante caiu em si e estava avançando num semicírculo contra Peet, que ficou encurralado entre eles e a parede da cadeia. Peet gritava com eles — os golpes de suas garras os mantinham à distância. “Matem esse homem!” Gnorm berrou de uma distância segura. Os Fangs se aproximaram, golpeando Peet com lanças. Janner fechou os olhos, esperando o lamento final de Peet, mas ele nunca veio. Janner ouviu Gnorm grunhir de surpresa. Podo, coberto de fuligem, havia disparado da carruagem e estava lutando com Gnorm por sua espada. As presas de Gnorm estavam expostas e destilando veneno. Ele rosnava e esmurrava Podo, que tentava mantê-lo no chão, evitar suas presas e sacar a espada de Gnorm de sua bainha. Eles lutavam na sujeira enquanto Peet afastava os Fangs ao redor. “Venham, rápido!” Nia ordenou às crianças. Ela saiu da carruagem, também coberta de fuligem negra, e empurrou-os para longe da luta, indo para as sombras do outro lado da rua, ao lado da Livros e Vãos. Janner sabia que nem Peet, nem Podo durariam muito mais tempo, então, com uma oração ao Criador, ele escapuliu de Nia. Gnorm estava tão absorto pela luta com Podo que não percebeu Janner atrás dele, investindo para pegar sua adaga. Janner agarrou o punho, gélido em sua mão suada, puxou-o e enterrou na lateral de Gnorm. O gordo Fang virou-se, seus olhos negros arregalados de surpresa e raiva. “Um menino!” Gnorm gritou, horrorizado. Com a própria espada do Fang, Podo acabou com ele. Janner ficou em estado de choque diante do cadáver do Comandante Gnorm. De repente, acima dos sons da batalha, um assobio alto e constante rasgou o ar. Fangs e humanos pararam e cobriram suas orelhas, mas, assim como começou, o ruído estranho cessou. Eles não tinham tempo para se perguntar sobre isso. Podo esbravejou e enfrentou os Fangs que se recuperaram do ruído e se aproximavam de Peet. O brado de Podo, o grito de Peet e os rosnados dos Fangs se misturavam ao retinir de aço colidindo. Em questão de segundos, apenas Peet e Podo estavam de pé — o pirata e o Homem-Meia, cobertos de sangue verde e ofegantes, atolados até o joelho numa pilha de cadáveres escamosos. Os dois guerreiros se olharam sem falar por um longo momento. “E aí? Você está bem?” Podo perguntou secamente. Peet aquiesceu. Ele estava sem fôlego, mas altivo. A tristeza em seus olhos fora substituída por um olhar penetrante, quase nobre, embora Janner tenha notado que Peet parecia incapaz de olhar diretamente para os olhos de Podo. Ambos voltaram sua atenção para a Carruagem Negra e os corpos de Fangs espalhados pela rua, ao redor dela. O condutor fantasmagórico, esquecido durante a batalha, ainda estava sentado na carruagem, segurando as rédeas. A cabeça encapuzada virou-se lentamente na direção deles e um arrepio atravessou Janner. Podo deu um passo ameaçador em direção ao condutor, segurando uma espada Fang. “Averno!” Vociferou o cocheiro e chicoteou os cavalos negros ao galope. “Averno!” Bramiu o condutor, enquanto a carruagem acelerava. “Não!” Podo gritou. “Temos que parar a carruagem, ou aquela criatura conduzindo buscará reforços!” Podo arrancou atrás da carruagem, mas ela estava quase fora de vista. Janner ouviu um estranho ruído sibilante em algum lugar acima dele e, virando-se, conseguiu ver, ainda em tempo, Zouzab Koit, no telhado da cadeia, girando uma funda. A pedra voou da funda e zuniu no ar, atingindo o condutor fantasmagórico com um baque surdo. O condutor da Carruagem Negra caiu estatelado de seu poleiro e os cavalos negros pararam, bufando e cavoucando o chão nos limites da cidade. “Foi você!” Janner exclamou, surpreso. “Você atirou, naquele dia, as pedras nos Fangs, no beco!” Zouzab deu seu sorriso tênue e curvou a cabeça. “Sim, jovem Janner. Os corre-cristas veem muitas coisas. Não seria bom deixar as crianças Igiby se machucarem, não é?” Com isso, contudo, ele desapareceu nas sombras. “Foi ele, foi ele, foi”, murmurou Peet. “Eu tava lá, também, virando a esquina, mas Zou-corre Crista-zab atirou suas pedras primeiro, primeiro...” As palavras de Peet minguaram-se em murmúrios quando ele percebeu que os Igibys o observavam. Os olhos de Peet já estavam tristes e abatidos novamente, e Janner se perguntou se ele havia imaginado o fogo que percebera naquele olhar, momentos atrás. Uma leve brisa soprava pelas ruas de Glipwood, onde dezesseis Fangs de Dang jaziam mortos, e, de alguma forma, os Igibys ainda estavam de pé. Tink escapou de Nia, correu para Podo e o abraçou com força. Nia, Janner e Leeli o seguiram. Eles se amontoaram em um longo abraço enquanto Peet se mantinha à distância, escondendo as mãos com garras atrás das costas, arrastando os pés. Finalmente, Nia olhou para ele. “Está tudo bem, Peet”, afirmou ela. Ele parou de se remexer e olhou para o grupo de Igibys. Lágrimas encheram seus olhos e ele olhou para suas garras, cobertas com sangue de Fang. Ele as enxugou na camisa, como se isso o tornasse mais apresentável. “Peet, está tudo bem”, disse Nia gentilmente, chamando-o para mais perto. Peet, o Homem-Meia, de olhos arregalados e reluzentes, olhou para ela e, tentando ajeitar seu selvagem cabelo branco, pôs-se ereto enquanto se aproximava da família. Peet estendeu-se para abraçá-los, ainda inseguro. Olhando para baixo outra vez, para suas mãos estranhas, com garras, Janner viu uma expressão de angústia passar por seu rosto. Seu olhar encontrou o de Janner. Aqueles olhos grandes e marejados passaram de Janner para Tink, em quem também permaneceram por bastante tempo. O Homem-Meia ajoelhou-se e olhou com amor para Leeli, que pela primeira vez, desde que havia contemplado o corpo ensanguentado de Nugget, sorriu. Peet desfez-se em lágrimas e começou a beijar os pés das crianças, cada uma por sua vez, apalpando seus pés e murmurando entre soluços. “Seguros! Joiabyfeathers! Eles estão seguros, graças ao Criador.” “Basta”, resmungou Podo, afastando Peet das crianças. Podo olhou para o Homem-Meia. A expressão no rosto do velho pirata era uma mistura confusa de raiva e pena. De repente, uma porta rangeu, abrindo-se nas sombras, do outro lado da rua. Na penumbra, eles puderam distinguir uma figura emergindo da entrada da Livros e Vãos. Podo deu um passo ameaçador em direção à loja e ergueu a espada rústica que estava portando. “Quem está aí?” Ele demandou saber — sua voz ecoou na rua deserta. “Psiu! Venham, rápido!” Era Oskar N. Reteep. Podo suspirou aliviado. “Sim, vamos, crianças. Nada bom ficar aqui, ao ar livre, com toda essa imundície espalhada. Pulem logo pra dentro!” Mas Leeli soltou um soluço e saltou na direção do distante chalé, onde ela sabia que o corpo de Nugget estava. “Mocinha!” Podo já foi a chamando. “Não é hora de...” Mas Nia o interrompeu com um olhar duro, foi até Leeli e colocou um braço reconfortante ao redor dela. Janner não conseguiu ouvir o que sua mãe estava sussurrando para Leeli, mas viu sua irmã assentir com a cabeça, endireitar-se e respirar fundo, enquanto ambas retornavam na direção da Livros e Vãos. Os Igibys atravessaram a rua apressadamente. Peet acelerou, atrás deles, cuidando de manter uma distância segura de Podo. Oskar, com os olhos arregalados, os observava — seus óculos reluziam ao luar. O livreiro acenou para que todos entrassem e abriu a porta quando se aproximaram. “Isso, agora. Pra dentro, pra dentro! O que diabos você está fazendo, seu velho pirata?!” Oskar o questionou com uma risada e um tapa no joelho. “Eu bem que ouvi uma comoção e cheguei em tempo de ver o último lagarto cair! Ora, nada perto disso aconteceu desde a Grande Guerra! Pensando bem, nada perto disso aconteceu neste continente, mesmo durante a Guerra. Esse pode ser o maior número de Fangs que Gnag já perdeu em Skree.1 E o jovem Janner aqui! E Peet!” O pouco que podiam ver do rosto de Oskar mostrava que ele estava mais feliz do que nunca. “Ora, nas palavras do Sábio de Brivshap, ‘Exatamente!’” Oskar riu, batendo palmas. “Exatamente, eu digo! Zouzab! Pegue um pouco d’água da cisterna para esses guerreiros, por obséquio. Zouzab!” ele chamou. Não houve resposta. Oskar coçou a cabeça. “Agora, me pergunto para onde esse sujeitinho foi...” “Lá pra fora”, Podo informou. “Ele arrancou o cocheiro da carruagem com uma pedra e uma funda.” “Arrancou, agora?” Perguntou Oskar, olhando surpreso para Podo. “Não importa. Sigam-me, todos.” Peet, que estava parado perto da porta remexendo o cabelo, espirrou, lembrando a todos de sua presença. “Você”, Podo dirigiu-lhe a palavra rispidamente, apontando a espada de Gnorm para ele. “Você espera lá fora.” “Mas, vovô!” Leeli interveio. “Ele acabou de salvar nossas vidas!” “O que foi aquilo de se curvar e beijar nossos pés?” Tink queria saber. “Ele disse algo sobre joias?” “Tink”, mencionou-o Podo, “você sabe que o cara é doido da cabeça. Um velho tolo louco, só isso.” Janner estremeceu com a amargura que ouviu na voz de seu avô. Uma fungada veio da direção de Peet. Oskar tossiu. “Vamos, não adianta continuar no escuro. Sigam-me. Peet, você também”, concluiu ele, virando-se para ir embora. “Não!” Retrucou Podo com uma voz ameaçadora. Seu rosto estava duro feito pedra. Ignorando o avô, Leeli moveu-se até Peet e pegou uma de suas estranhas e avermelhadas garras, puxando-o para passar por Podo. Com um movimento rápido e terrível, Podo empurrou Leeli para longe do Homem-Meia, agarrou-o pelos ombros e o empurrou porta afora. “Eu disse não! Fique longe dessas crianças, está ouvindo?! Longe!” Peet estava esparramado no chão. O olhar em seu rosto, na penumbra, era de tortura, como se doesse demais até para chorar. Podo bateu na porta e encostou a cabeça nela, ofegante. Ninguém falou uma palavra. Leeli fungou, tentando esconder os soluços. Janner ficou esperando que Nia fizesse algo, para trazer algum bom senso sobre o tratamento injusto de Podo contra Peet, mas ela permaneceu em silêncio — sua expressão ilegível, no escuro. “Agora, vamos”, Podo ordenou, enquanto se endireitava e se virava para eles. Ninguém se moveu. “Oskar!” Podo exclamou. Oskar voltou a si e acenou para que o seguissem. Por entre a janela da frente da Livros e Vãos, Janner teve um vislumbre da silhueta de Peet, iluminada pelos lampiões da rua, afastando-se cabisbaixo. O coração de Janner doía pelo pobre homem. Oskar os conduziu por estantes cambaleantes até que detectaram o brilho amarelo da iluminação do escritório, à frente deles. Oskar desapareceu por um momento e voltou com uma jarra de água e cinco pequenos copos de barro. Janner ficou surpreso com a sede que sentia. Seu estômago roncou, e ele percebeu que eles não haviam comido nem bebido nada, desde o guisado de verdugo-espinhento, na casa da árvore de Peet. Janner também pensou nas garras estranhas de Peet — ele jamais vira nem ouvira falar de nada parecido com elas. E, caso tivesse dúvidas se Peet estava cuidando deles ou não, agora sabia com certeza, mesmo se estivesse errado sobre as pedras no beco. Mas por quê? Por que Peet escolheu cuidar das crianças Igiby entre todas as outras pessoas em Glipwood? Janner ficou ainda mais incomodado com o tratamento estranho que sua mãe e seu avô davam ao Homem-Meia. Por que Podo está tão zangado com Peet? Porém, medos mais imediatos afastaram esses pensamentos da mente de Janner. Sua família inteira estava em perigo. Sua casa havia sido saqueada, seu celeiro queimado e eles haviam acabado de matar uma companhia inteira de Fangs. Todos ali presentes precisavam bolar um plano sobre onde se esconder e onde morar. Com uma pontada de tristeza, Janner percebeu que havia uma chance muito boa de que eles tivessem que deixar Glipwood — possivelmente para sempre. Como eles poderiam ficar, diante de tudo o que havia acontecido? Obviamente, Gnag, o Sem-Nome procuraria as joias, onde quer que estivessem, e ele pensava que os Igibys as estavam escondendo. Os adultos se amontoaram sobre a mesa de Oskar e falavam em voz baixa. Leeli estava em um canto, sentada em uma caixa vazia, olhando para nada em particular. Tink, no entanto, estava inquieto, movendo-se como um arbusto ao vento. Seu rosto estava vermelho e ele parecia zangado. “Alguém vai me dizer o que está acontecendo?”, ele explodiu. Os adultos olharam para ele com surpresa. “Agora não, filho”, respondeu Nia. “Por que não?” Tink insistiu. Janner, tentando salvar seu inflamado irmão mais novo de problemas, colocou a mão em seu braço. Tink se afastou. “Por que não agora? Por que vovô expulsou o homem que acabou de salvar nossas vidas? Eu quero saber onde estão as joias e por que Gnag, o SemNome acha que nós as escondemos. E, afinal, o que há de tão especial nessas joias? E quem é Artham P. Wingfeather, e por que Peet, o Homem-Meia, tem diários dele na sua casa na árvore?” “O quê?!”,Podo e Nia bradaram ao mesmo tempo. Oskar olhou para Tink com os olhos arregalados. A cabeça de Tink baixou e seus olhos encontraram os de Janner, se desculpando. Nia cruzou os braços e olhou para Tink. “Como você sabe o que está dentro da casa da árvore de Peet?” Tink não ergueu os olhos nem respondeu à pergunta, então Janner falou. “Seguimos Peet até a casa dele, hoje. Nós não, hã, pretendíamos, mas...” A voz de Janner sumiu. “Foi minha culpa”, Tink respondeu bem baixinho. “Rapaz”, Podo esbravejou, “fique feliz por haver coisas mais urgentes em andamento, ou eu arrancaria seu couro. O que você estava pensando, indo pra floresta sozinho? Nunca ouviu falar das vacas-dentadas? Dos canicórneos, dos verdugos-espinhentos e dos murças-das-cavernas? Agora, já que você mostrou que não é responsável o suficiente para ser tratado como um homem, você vai ficar quieto e deixar os mais velhos na sala pensarem no que fazer. E isso vale para todos vocês”, ele terminou, olhando decepcionado para os três. Uma batida forte, na porta dos fundos da loja de Oskar, assustou todo mundo. Oskar encolheu os ombros para Podo, que levou um dedo aos lábios. Podo agarrou a espada curva de Gnorm e foi até a porta. O barulho veio de novo, mais alto dessa vez. Podo respirou fundo, ergueu a espada e abriu a porta com força. 38 Um Plano Desagradável O que você quer dizer com trazer esse problema pra nós?” “Vocês, Igibys, serão a nossa ruína!” “O que você acha que vai acontecer com esta cidade, agora que vocês foram e mataram um bando de Fangs?” Uma multidão de Glipwood se reunia na porta dos fundos da livraria de Oskar, e ninguém parecia feliz. Podo escondeu a espada atrás das costas e estendeu uma mão sinalizando calma, mas as pessoas estavam ameaçando entrar e aumentando o estardalhaço. “Vamos com calma, Alep. Vamos pensar em algu...” “Movediço como uma torta lodosa de duas toneladas!” Charney Baimington declarou, e vários cidadãos concordaram. “Só me diga uma coisa: o que você planeja fazer com dezesseis Fangs mortos, senhor Igiby? Responda!” Gritou uma mulher gorda, brandindo uma vassoura. “Ferínia, acalme-se. Exatamente o que estamos fazendo é bolar um plano.” “Um plano! Eu tenho um plano! Deveríamos enxotar os Igibys para o Mar Sombrio da Escuridão, isso é um plano!”, o prefeito Blaggus gritou, na parte de trás. Mas aquele era o limite da paciência de Podo. “Chega!”, ele esbravejou, e os habitantes da cidade ficaram imóveis e silenciosos como estátuas. “A única coisa que vai para o Mar Sombrio da Escuridão esta noite são excrementos de pássaros. Agora, me escutem, gente. Não pedimos que isso acontecesse, mas aconteceu. É o que é, e nós vamos planejar algo. Agora, se vocês fizerem a gentileza de deixar que eu e Oskar aqui tenhamos alguns minutos pra pensar, vamos resolver isso e estar com vocês em seguida.” Sob o olhar de Podo, o pessoal resmungou e murmurou, mas finalmente se dispersou. Ele fechou a porta e suspirou. “Agora, aos negócios.” Janner e Tink afundaram no chão e escutavam, enquanto Podo e Oskar se curvavam sobre a mesa e conversavam seriamente. “A cidade vai ser incendiada”, constatou Podo gravemente. Oskar ajustou os óculos e pensou por um momento antes de assentir. “Verdade. Há pouco a ser feito sobre a querida Glipwood, temo. É apenas questão de tempo antes que os Fangs no Forte Lamendron percebam que algo está errado.” “Sim, e Gnorm disse que estava sob as ordens do próprio General Khrak. Ele estará esperando Gnorm e a carruagem em algumas horas. Quando não aparecerem, eles enviarão reforços pra cá.” “Ouvi dizer que os Fangs podem correr como um raio quando querem — mais rápido do que um cavalo”, acrescentou Oskar, empurrando uma mecha de cabelo atrás da orelha. “Se isso for verdade, não temos nem até a manhã antes que mais Fangs cheguem. Só no Forte Lamendron tem centenas, talvez até milhares dessas bestas. Eles virão aqui com raiva. Eles precisam de poucos motivos para nos aterrorizar.” Oskar suspirou. “Essa situação não é coisa pequena.” “Malditos sejam”, praguejou Podo, cravando o punho na mesa. “Não há muito que o povo de Glipwood possa fazer. Ou lutam, ou fogem. Mesmo se eles tivessem armas, os habitantes da cidade não teriam a menor chance contra um regimento de Fangs. Eles terão que fugir. As estradas para Torrboro ainda devem estar seguras o suficiente. Eles podem se esconder lá e, pela manhã, os Fangs encontrarão Glipwood tão vazia quanto uma cidade fantasma. Talvez então haja uma chance de não ser queimada. E, depois que estivermos fora por um tempo e a poeira baixar, os habitantes da cidade podem ter chance de voltar.” “Alguns ficarão, você sabe.” “É”, Podo concordou após um longo instante. “Alguns se recusarão a sair.” Ele socou a mesa novamente. “Meus ossos querem ficar e lutar contra aqueles malditos lagartos!” Ele olhou para as crianças e Nia. “Mas não temos escolha. Vamos fugir, e fugir pra longe.” “As Pradarias de Gelo?” Oskar parecia sério. “Sim. É o único lugar onde as joias ainda estarão seguras.” Janner e Tink se entreolharam com os olhos arregalados. Ambos tinham perguntas, mas estavam com medo de incorrer outra vez na ira de Podo. Então, eles se sentaram em um silêncio atordoado. Realmente havia joias, e Podo e Nia as possuíam. “Não temos tempo a perder”, constatou Podo. “Eu tenho que ir ao chalé e juntar o que puder para a jornada. Não vamos voltar por um longo tempo.” Podo deu um suspiro cansado e acrescentou: “Se é que ainda voltaremos.” Janner e Tink se entreolharam novamente com os olhos arregalados. Estamos indo para as Pradarias de Gelo?1 “Vamos precisar de suprimentos, velho amigo.” Podo olhou para Oskar. “Armas reais, não essas coisas frágeis.” Podo olhou com desgosto para a lâmina do Gnorm. “Mansão Pé-de-Geleia, é claro”, citou Oskar, com um aceno de cabeça. Janner sentiu suas bochechas ficarem vermelhas. “Você encontrará mais do que o suficiente para o que precisa”, Oskar acrescentou. “Boa. Vou levar os meninos comigo até o chalé, para pegar o que precisamos. Pode manter Nia e Leeli seguras até voltarmos?” Oskar deu uma piscadela e correu até um dos cantos do escritório, onde se abaixou e puxou uma ponta do tapete. Abaixo estava um alçapão. “Há lampiões, cobertores e alimento desidratado suficiente para durar um bom tempo, lá embaixo, só para garantir. Nas palavras de Aman Putan, ‘Vamos escondê-las lá até que você volte, momento em que vocês sairão para um alojamento mais seguro.’ Estarei com o mapa e a chave para a câmara de armas quando vocês voltarem.” “Meninos, venham comigo”, ordenou Podo, e eles se levantaram em um salto. Enquanto Nia e Leeli desciam para o porão secreto de Oskar, Janner e Tink seguiram o avô para fora, onde a pequena multidão de Glipwood esperava, impaciente. Podo limpou a garganta e a conversa cessou. “Nós consideramos nossas opções, amigos, e nenhuma é fácil.” Podo olhou atentamente para os cidadãos de Glipwood — pessoas com quem havia trabalhado durante anos, algumas que conhecia desde menino. Ele respirou fundo, relutante em dizer o que tinha a dizer. “Teremos que fugir.” Ninguém falou mais nada. “Vocês podem ficar aqui e queimar com a cidade, ou podem fugir. Um regimento de Fangs do Forte Lamendron virá para cá assim que sentirem o cheiro do que aconteceu aqui esta noite. Imaginamos que eles estarão aqui antes do amanhecer. Quando eles chegarem, provavelmente destruirão o lugar por rancor e destruirão vocês com a cidade. Então, se quiserem evitar uma morte cruel, devem pegar o necessário e seguirem para o norte, para Cavadópolis ou Torrboro. Pela manhã, temo que Glipwood não existirá mais.” O vento gemia nas copas das árvores. Podo esperou por uma contestação ao seu veredito, mas nada veio. O povo via a verdade do que Podo havia dito. Sem palavras, eles se dispersaram, lançando olhares ressentidos para Podo e também para os meninos. Janner sentia o desprezo das pessoas que, até àquele momento, eram só sorrisos para ele; e não queria nada mais do que consertar as coisas. Mas como? O que foi feito, foi feito e não havia como desfazer. Crespo, o dono da taverna, sentou-se em uma cadeira de balanço, em seu alpendre e acendeu um cachimbo. Estava claro que ele pretendia ficar. Um velho desgrenhado se aproximou, lágrimas profusas escorriam pelo rosto e caíam na barba branca desalinhada. “Willie Abutre...” Podo acenou com a cabeça, em saudação. “Oi, velho companheiro. Eu nunca disse, apropriadamente, que sinto muito ter roubado Merna Bidgeholler de você quando éramos meninos. Estou querendo dizer isso há anos, seu malandro.” Ele fungou. Podo sorriu desconfortavelmente e apertou o ombro de seu amigo, envergonhado pelos muitos, muitos thwaps de jardim que ele havia jogado no quintal de Willie. “Merna? Deixa eu dizer, Willie: me esqueci disso. Quase totalmente, pelo menos.” E acrescentou, baixinho: “Águas passadas, é só isso. Águas passadas. Agora, vá pra Cavadópolis e fique com seus netos, hein? Te vejo qualquer dia desses, velho amigo.” Willie Abutre acenou e passou a manga da camisa pelo rosto choroso. “Ah, e sinto muito sobre o seu celeiro queimando. Parecia que aqueles Fangs realmente fizeram a festa. Estive lá mais cedo para dar a vocês algo do meu jardim, cortesia minha. Deixei na sua varanda. Um presente, por conta de Merna.” “Ah, Butre, agora...” lamentou Podo. Mas seu velho amigo já estava atravessando a rua em direção à sua casa para pegar a esposa e seus pertences. Podo olhou para seus netos. “Bom, rapazes”, comentou o avô, mudando de assunto, “foi melhor do que eu esperava. Parece que estão todos indo embora. Todos menos Crespo e os Shoosters, claro.” Ele disse isso com uma pitada de orgulho por seus amigos, que estavam sentados na varanda de A Única Pousada, fazendo um brinde à sua cidade e dando adeus a vizinhos e amigos. Os moradores que estavam saindo tinham amigos e familiares em outros lugares e corriam para chegar em segurança ao refúgio, sem serem pegos.2 Mas para alguns, como Crespo e os Shoosters, tudo o que eles tinham e tudo que sempre quiseram estava ali, em Glipwood. Eles não tinham para onde ir e pretendiam morrer lutando por seu lar. “Vamos, garotos”, chamou Podo, e eles o seguiram até a cadeia onde os cadáveres de Fang estavam espalhados, enrugados e secos como se estivessem apodrecendo por anos, não minutos. Tudo o que restava eram peles de cobra fendidas, ossos empoeirados e armaduras. Podo puxou a espada de um deles e a mão em garras se desfez em uma pilha de poeira, que foi levada pelo vento. “Vão em frente e peguem mais duas espadas”, Podo falou, enquanto recolhia algumas adagas, incluindo a que Janner havia enterrado no torso de Gnorm. Podo soprou a poeira das armas, foi até a taverna e as ofereceu sombriamente a Crespo e aos Shoosters. Janner e Tink ouviram algumas palavras murmuradas entre eles, antes de seu avô abraçar seus velhos amigos, um por vez. Então, em silêncio, Podo e os meninos saíram rapidamente da cidade de Glipwood, onde por mil anos as pessoas compareceram ao Festival do Dia dos Dragões e se alegraram. Janner mal podia acreditar que, em questão de horas, tudo ali seria escombros. “Isso, jovem Leeli”, estimulou Oskar, enquanto ajudava uma Leeli Igiby apática a descer os degraus de madeira, até o porão úmido. “Para baixo vocês vão!” Ele a sentou no chão de terra, ao lado de Nia. Acendeu um lampião que iluminou uma pequena sala, com algumas caixas contra a parede oposta. Oskar se ocupou em arrumar as caixas e verificar os suprimentos e, quando achou que tudo estava bem, voltou sua atenção para a mãe e a filha. Ele as olhou pelos óculos. “Eu sei que não é a acomodação mais confortável, queridas. Nas palavras de Burley, o Pancada, ‘Este lugar é resistente. E úmido’. Mas vocês não devem ficar aqui por muito tempo, dependendo de quanto tempo Podo leve para buscar os suprimentos. É melhor mantermos vocês escondidas, caso algo dê errado.” Oskar lançou um olhar saudoso para a luz aconchegante de seu escritório. “Temo que não haverá tempo para salvar meus livros. Todos os meus mapas e tomos e volumes e volumes de tradições: todos perdidos para sempre. E este lugar era o último da espécie, queridas. Todos os livros que sobraram em Skree foram mantidos em segurança aqui. Mas não mais. Não mais.” Ele piscou os olhos e voltou a si. “Ah, mas as joias. Para que servem os livros se as joias de Anniera se perderem para nós?” Ele voltou os olhos para Leeli. “Vou embalar o pouco que for capaz de levar. E onde está aquele pequeno corre-crista? Eu poderia usar a ajuda dele”, disse consigo mesmo. “Vou fechar isso até a hora de irmos. Nas palavras de Adeline, a Poetisa, ‘Descansem um pouquinho. É sempre um bom caminho’.” Nia apertou a mão dele. “Obrigado, Oskar. Você é um bom amigo.” Oskar fechou o alçapão, e elas ficaram no escuro, exceto pelo único lampião em cima de uma caixa. Leeli aninhou-se bem perto da mãe, que sentia a filha tremer. O celeiro atrás do chalé Igiby havia se reduzido em fumaça e cinzas, mas a estrutura do chalé ainda estava de pé. Janner tentava assimilar o fato de que estava vendo sua casa pela última vez e, por mais que o entristecesse, sentia uma empolgação inegável. Repetidas vezes ele sonhara em ver o que havia além das grandes árvores de Glipwood, mas sempre achou que teria que esperar até ser muito mais velho para conseguir. E lá estava ele, com doze anos e a caminho das Pradarias de Gelo, um lugar que ele só conhecia pelo nome em um mapa antigo. “Vocês, meninos, entrem e comecem a pegar as coisas”, ordenou Podo. “Não muito. Basta pegar algumas túnicas e calças para cada um e amarrá-las em um saco de dormir. Façam o mesmo para sua irmã. Vou sair pra buscar Danny, no campo norte, onde o pobre animal ficou atrelado à carroça desde que os Fangs apareceram. Eu só espero que ele ainda tenha energia pra nos rebocar longe o suficiente, ainda esta noite. Estarei de volta em um minuto pra pegar o que mais precisarmos.” Podo caminhou escuridão adentro, para o pasto. “Não consigo acreditar que estamos realmente indo embora”, lamentou Tink enquanto ele e Janner se aproximavam da casa, sob uma lua brilhante. “Onde ficam as Pradarias de Gelo, afinal?” “Tudo que sei é que ficam ao norte, além das Montanhas Rochosas. Muito longe daqui.” Janner encontrou, no escuro, o lampião e os fósforos guardados na varanda, perto da porta. Ele acendeu o lampião e os dois irmãos empurraram a porta da frente, e ficaram olhando para a bagunça feita na casa durante a desenfreada busca de Gnorm pelas joias. Se não fosse o cheiro de fumaça no ar, talvez eles tivessem detectado o odor vil e persistente de Fang. E se eles não estivessem pensando na longa jornada à frente, conseguiriam ter notado o som de uma respiração, ou visto a longa língua serpenteante esvoaçando, avidamente, atrás da porta. 39 Um Presente de Willie Abutre Leeli e Nia olharam para o teto de seu esconderijo, alarmadas com a comoção que ouviam. Passos. Muitos passos correndo, batendo, arrastando os pés. Uma briga, seguida por uma batida alta, fez entrar poeira por entre os vãos de onde elas estavam. Leeli ameaçou espirrar, mas Nia tapou a boca da filha com a mão. Nia só podia imaginar o que estaria acontecendo acima delas, e não devia ser nada bom. Ela se sentia como um animal preso. Não havia para onde se virar e ela não tinha armas com que lutar. Nia agarrou-se a Leeli, e ambas recuaram o máximo que puderam, para um canto, e esperaram, orando. Os passos se arrastaram lentamente em direção ao alçapão, e Nia deu um suspiro de alívio porque parecia Oskar quando foi se ocupar de seu escritório, mais cedo. Talvez ele tenha, acidentalmente, derrubado uma prateleira em sua pressa para salvar alguns livros importantes. Mas, então, ela ouviu uma voz, e não era a de Oskar. Nia apertou Leeli com força. O alçapão foi lentamente aberto, e elas olharam para a luz que entrava. Os olhos de Nia se ajustaram e ela viu a silhueta esguia de Zouzab, girando sua pequena e estranha flauta entre os dedos. “Ufa...” Nia suspirou, “Zouzab, é você. Oskar estava mesmo...” A respiração de Nia ficou presa na garganta quando, ao lado dele, outra figura esguia apareceu — outro corre-crista. Os dois sorriram para ela de uma forma que fez seu sangue gelar. “Aqui estão elas, sargento”, relatou Zouzab, e um Fang saltou para o porão, enquanto Zouzab e o outro corre-crista se apressavam para o topo de uma estante. A porta do chalé bateu atrás de Janner e Tink, quando Slarb, o Fang surgiu à luz do lampião e os empurrou para o outro lado da sala. Os meninos se chocaram e se estatelaram no chão, em cima do tapete de pele de bolhado. O ar foi expulso dos pulmões de Janner e ele se dobrou — a água escorria de seus olhos. Ele estava vagamente ciente de que Tink se movia por baixo dele. Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, mediante o borrão e as luzes em sua visão, ele viu Slarb movendo-se lentamente em sua direção — uma espada longa e curva em seu punho escamoso. Slarb estava em frangalhos, e mais magro do que antes; havia lodo endurecido entre suas escamas. E sua pele, em vez do verde frio de sempre, tinha uma palidez fantasmagórica, como uma alface velha caída na sarjeta. Um fedor envolvia o Fang como uma nuvem de insetos. Para Janner, era cheiro de loucura, de assassinato. A pele escamosa de Slarb pendia de seu corpo como uma fantasia toda esfarrapada. Seu tempo na selva transformara a criatura maligna, e ainda para pior, se é que fosse possível. “Igibysss”, Slarb murmurou. “Indo para as Pradarias de Gelo, né? Vão tentar escapar com as joias? Ah, sim, não fiquem tão surpresos. Eu vejo e escuto. Eu me escondo nas sombrasss. Eu sei que os Igibys têm as joias, e agora que Gnorm falhou, farei o trabalho que ele não conseguiu fazer. Vou levar as joias para Gnag, o Sem-Nome, certo?” Slarb apontou a espada para Tink e olhou para Janner. “Porque, se você não me disser onde estão as joias, garoto, vou pensar em algo horrível para fazer com o seu querido irmão, entende? Eu sei que vocês vieram aqui para buscá-las, e eu sei para onde vocês estão planejando fugir.” A voz de Slarb rangia como pedra sobre pedra, enquanto ele observava os meninos de olhos reluzentes e famintos. Tink se recuperou do golpe e ficou de pé, enquanto Slarb dava outro passo ameaçador para mais perto. Janner matutava uma saída. Slarb estava bloqueando a porta da frente, e o caminho para a cozinha ficava à direita do Fang. À esquerda havia uma janela. Era possível que um deles conseguisse passar antes que Slarb pudesse atacar, Janner pensou, mas apenas um deles. E mesmo que, de alguma forma, os dois conseguissem passar, Slarb os alcançaria em questão de segundos. Janner não conseguia ver nada próximo que pudesse ser usado como arma, a menos que os Fangs tivessem um medo desconhecido de tapetes de pele de bolhado. Não havia nada que os garotos pudessem fazer. As pernas de Janner tremiam como varas verdes numa ventania. Onde está o vovô?, ele pensou, desesperadamente. Quanto tempo poderia levar para pegar a carroça? Ágil como um gato, Slarb lançou-se à frente, agarrou o cabelo de Tink e o jogou de volta no chão. No mesmo movimento, ele agarrou o braço de Janner e o puxou para perto, apontando a ponta da espada entre os olhos do menino. Tink gritava e lutava para se mover, mas Slarb tinha uma de suas patas com garras sobre suas costas, prendendo-o no chão. Janner se esforçava para não respirar o odor forte que envolvia a criatura. “Onde essstão as joias de Anniera?” Slarb sussurrou, respirando tão perto do rosto de Janner que seu cabelo se moveu. Janner não conseguiu mais segurar a respiração e engasgou. Slarb torceu sua pata nas costas de Tink, que mais uma vez gritou de dor “Se você quer que seu irmão viva, me diga onde as joias estão escondidas, garoto!” Janner olhou freneticamente ao redor da sala, com medo demais para orar, lutar ou pensar. Então, surgiu o barulho da carroça se aproximando do chalé. Janner puxou o ar para gritar, mas Slarb tapou sua boca com a mão fria e úmida. “Nenhum barulho”, ordenou o Fang, baixando a ponta da espada para descansar na nuca de Tink. Janner esperou em agonia quando ouviu Podo gemer enquanto descia da carroça e fazia o costumeiro tump-pam em direção à porta da frente. Os passos pararam. Eles ouviram um som arrastado do lado de fora, e então Podo gemeu, como se estivesse levantando algo. “Janner? Tink?” Podo os chamou, entrando no chalé com um grande baú de madeira nos braços. Ele parou no meio do caminho, petrificado, quando viu Slarb parado sobre Tink. “Se você se mover, velho, mato os dois”, ameaçou Slarb, olhando para o baú com avidez. Sua cauda esvoaçava no chão, ao lado de Tink. O Fang sibilou e gotas fumegantes de veneno pingaram, chiando, no chão. Tink choramingava. Podo estava congelado. E, mesmo diante da névoa de medo e do fedor da mão de Slarb sobre sua boca, Janner conseguia se perguntar, vagamente, de onde o baú nos braços de Podo teria vindo. Com um só movimento, Slarb arrebatou Janner para sua frente e enlaçou um braço em volta de seu pescoço, usando Janner como escudo contra Podo. “O que há no baú, velho?” “Não sei”, confessou Podo, nivelando sua voz. “Agora, deixe os rapazes em paz e nós resolveremos isso, você e eu.” Slarb riu e apertou Janner com mais força. “A única maneira de resolver isso é você me dar as joias, velho. Então, vou perguntar de novo. O que há no baú?” “É um presente do Willie Abutre, lá da cidade. Não tenho a menor ideia do que seja, lagarto.” “Você é um péssimo mentiroso, velho.” Podo baixou a voz. “Você não vai passar dessa noite se machucar um dos meus rapazes. Você não viu minha ira quando ela é suficientemente provocada, e nem quer ver.” Podo deu um passo à frente. Slarb rosnou e torceu a cabeça de Janner para o lado, expondo a lateral de seu pescoço. O Fang abriu bem as mandíbulas e aproximou suas presas gotejantes. Uma expressão de derrota surgiu no rosto de Podo e ele deu um passo para trás. “Por favor, não. Eu imploro”, suplicou Podo. “Não faça isso.” Slarb deu um sorriso pavoroso. “Bom. Agora coloque o baú no chão e vá embora.” Podo obedeceu e Slarb atravessou a sala, ainda segurando Janner por trás. Tink se levantou e ele e Podo assistiram, impotentes, enquanto Slarb se agachava para destravar o baú. Janner estava se perguntando o que Slarb faria quando não encontrasse as joias no baú. A expressão de preocupação no rosto de Podo foi o que mais o assustou. Se Podo não sabia o que fazer, o que poderia ser feito? A trava do baú se abriu e Janner se esforçou para olhar. “E agora, veremos essas joias que causaram tanta confusão.” Slarb deu um sorriso largo e doentio enquanto levantava a tampa. Trinta dos mais raivosos e famintos thwaps de jardim que já respiraram o ar de Kistamos saíram da caixa como uma praga peluda. Janner se desvencilhou e caiu no chão. Os thwaps cobriram Slarb da cabeça aos pés, tagarelando e gritando em cacofonia tal que Janner e Tink taparam seus ouvidos. Slarb parecia um boneco bolhado gigante e peludo, cambaleando, chocando-se contra as paredes, pulando de um lado para o outro. Podo agarrou a lâmina de Slarb e conduziu o Fang pela porta, cozinha adentro. Os irmãos ouviam, ansiosos, os sons tumultuados do grito de guerra de Podo, os berros de Slarb e os guinchos dos thwaps. Por fim, Podo emergiu, sem fôlego e respingado novamente com o sangue verde de Fang. Ele viu que Janner e Tink estavam ilesos e sorriu — suas sobrancelhas se ergueram de uma forma feliz que deu a Janner esperança de que eles conseguiriam sair vivos de Glipwood. Um dos thwaps furiosos saiu correndo da cozinha, mas Podo deu um berro e o chutou de volta. “Lembrem-me de agradecer ao velho Willie Abutre, hein? Aquele patife.” Podo desapareceu em seu quarto enquanto os meninos se ocupavam, juntando roupas extras e enrolando-as em um cobertor. Janner estava feliz por não precisar de nada da cozinha, pois não queria ver o cadáver ossudo de Slarb no cômodo onde ele havia feito tantas refeições alegres com sua família. Os meninos fizeram sacos de dormir para Leeli e Nia e os carregaram, junto dos seus, para a carroça. Imediatamente, Janner sentiu algo errado — um cheiro no ar ou algum som sutil no vento que ele não conseguia identificar. Ele olhou para a estrada em direção à cidade e viu, de relance, o brilho alaranjado de centenas de tochas na borda da cidade de Glipwood. “Vovô!” Ele gritou. “Venha rápido!” Podo saiu de casa com uma trouxa sobre os ombros. “O que é?” Janner apontou. Agora ele podia distinguir centenas, talvez milhares de tochas em duas colunas, serpenteando na distância escura, movendo-se em direção a Glipwood, vindas do leste — vindas do Forte Lamendron. “Mas já?” Podo sussurrou. “Criador, ajuda-nos.” 40 Traição Com um olhar feroz, Podo jogou a trouxa na parte de trás da carroça e subiu, sem esperar pelos meninos. Eles pularam para dentro assim que Podo começou a gritar “Hya!” para Danny, o cavalo de carga, que relinchou e avançou na direção de Glipwood. Os olhos de Janner lacrimejavam com o vento, enquanto observava os galhos oscilantes das árvores de Glipwood voarem. Ele orou ao Criador para que Leeli e Nia ainda estivessem em segurança. Janner se perguntava de que maneira eles escapariam com Nia e Leeli se, de fato, os Fangs tivessem invadido a cidade. Ele olhou para Podo, para o cabelo branco esvoaçando, agora azulado, ao luar, e se sentiu melhor. Talvez Podo não tivesse um plano, mas saber que seu avô estava com ele, mesmo em face dos Fangs de Dang, fazia Janner sentir que poderia manifestar mais do seu próprio potencial. Ele extraía força do velho avô, como água de um poço, e descansava nisso. E ele olhou com admiração para Tink, que encontrara uma espada Fang entre os pertences, na carroça, e a segurava com os dois punhos — os dentes cerrados. Podo freou o cavalo quando eles conseguiram ver as luzes das tochas, entre os prédios, à distância. “Ei, Danny, garoto. Calma, agora”, sussurrou. Ele fez sinal para que Tink e Janner o seguissem e desapareceu no mato ao lado da estrada, rápido como um thwap. De onde pararam, podiam ver vagamente os postes de luz na Rua Principal, e ouvir uma mistura de tagarelice, risadas e movimentos que era estranhamente familiar. Janner percebeu, com um estremecimento, que a última vez que ele havia ouvido tão volumoso ruído foi quando a cidade estava cheia de centenas e centenas de visitantes, para o Festival do Dia dos Dragões. Será que realmente poderia haver tantos Fangs em Glipwood? Janner pegou sua própria espada da carroça. Como as armas na Mansão Péde-Geleia, era mais pesada do que ele esperava. Janner sentiu sua juventude no peso daquela arma. Ele tentou parecer confiante para Tink, mas seu irmão mais novo já estava se movendo nas sombras, ao lado da estrada, atrás de Podo. “Tudo bem, rapazes”, Podo sussurrou sob uma cobertura de folhas. “Escutem. Eu preciso que vocês sejam homens, estão ouvindo?” Ambos concordaram. “Há sangue forte em suas veias, e se confiarem em mim e deixarem o Criador guiá-los, podemos viver para ver o sol nascer esta manhã. Estou arquitetando o que fazer enquanto vamos, então vocês me sigam de perto e façam o que eu digo. Sem perguntas. Se nos separarmos, nos encontraremos em um lugar chamado Mansão Pé-de-Geleia.” Janner e Tink instintivamente olharam para o norte. Podo arqueou uma sobrancelha. “Vejo que vocês sabem de onde estou falando. E vocês, provavelmente, já estiveram lá, pelo jeito.” Janner olhou para baixo. “Humph. Precisamos conversar sobre muitas coisas quando tudo isso acabar, eu acho. Mas não esquentem com isso agora. Vocês sabem que amo vocês, meninos. E também amo sua mãe e sua irmã. Além disso, elas são um pouco mais bonitas do que vocês, piolhos. Então, temos que resgatá-las, ouviram? Vamos pegá-las e sair como loucos para a Mansão Pé-de-Geleia. Fora isso, agimos de acordo com o que vier. Está claro?” “Sim, senhor”, os irmãos consentiram em uníssono. Sem uma palavra, Podo novamente desapareceu nas sombras. Janner e Tink seguiram pelos jardins e campos atrás dos edifícios voltados para a Rua Principal. Eles pularam uma cerca e Janner ficou novamente surpreso com a ágil velocidade de Podo. Os três pararam entre dois edifícios e tiveram o primeiro vislumbre nítido da rua. Fangs por toda parte. Alguns permaneciam em formação, enquanto um oficial berrava ordens. Outros circulavam ao redor como bêbados, rindo ou brigando uns com os outros. Alguns se sentaram e cochilavam, exatamente no beco pelo qual eles olhavam, a poucos passos de distância. Estava claro que os Fangs tinham acabado de chegar e estavam fora de serviço. A pulsação de Janner acelerou e ele sentia o perigo de novo. Um ruído, um Fang olhando na direção errada na hora errada, e eles seriam encontrados, apanhados como floelhos em uma armadilha. Duas cercas à frente ficava o campo atrás da loja de Oskar. Podo saltou outra cerca e chamou os meninos. Com uma última olhada no beco, para ter certeza de que nenhum Fang estava olhando, Tink e Janner o seguiram. Eles chegaram ao quintal de Oskar sem incidentes e se agacharam de costas para o tronco grosso de uma árvore. Podo espiou ao redor da árvore, enquanto os irmãos lutavam para recuperar o fôlego e acalmar os nervos. “A porta do Oskar ‘tá aberta e o lampião ainda aceso lá dentro”, ele sussurrou. “Não consigo ver mais nada. Precisamos correr pra parte de trás da loja. Aí, é só questão de esgueirar pela esquina e passar pela porta. Prontos, meninos?” A lua brilhante tornava arriscada a distância aberta, até o prédio. Havia ainda mais Fangs vagando na frente e entre a Floricultura da Ferínia e a Livros e Vãos do que no primeiro beco. Podo não esperou. Com outro olhar para o beco, ele disparou em direção ao prédio. Janner respirou fundo e se preparou para ir. Mas, assim que deu o primeiro passo, Tink o puxou de volta para trás da árvore. Um Fang avançava a passos largos na direção deles, ao longo da lateral do prédio. Janner e Tink prenderam a respiração e agarraram as espadas, de costas para a árvore. Mas o Fang perdeu o interesse no que quer que estivesse fazendo e seus passos se afastaram. Janner deu outra espiada e viu que o caminho estava livre. Eles correram para a segurança das sombras, na parte de trás da Livros e Vãos. Podo acenou com a cabeça para os netos, com uma piscadela orgulhosa. Ele olhou ao redor da esquina e para o beco. Após alguns segundos, acenou para que os meninos o seguissem. Com uma última respiração profunda, os dois dobraram a esquina e dispararam pela porta dos fundos de Oskar. O gemido de Podo transpareceu a Janner que sua mãe e irmã haviam sido capturadas. O alçapão estava aberto e escuro como uma cova vazia. Podo ficou parado perto do buraco, respirando pesadamente e bufando de uma maneira que fez Janner temer que ele pudesse explodir. “Sinto muito”, veio uma voz fraca atrás deles. Eles se viraram para ver Oskar N. Reteep, caído no chão ao lado de sua mesa, com um ferimento sangrando no peito. Ele estava pálido e fraco, os óculos pendurados, tortos, no rosto redondo. Ele tossiu. Podo se ajoelhou ao lado de Oskar e segurou sua mão inerte. “O que aconteceu?” Podo gentilmente afastou uma mecha úmida do cabelo pegajoso de Oskar, dos olhos do velho. “Zouzab... nos traiu. Nas palavras de Chonk”, Oskar suspirou, ‘Eu já deveria saber’.” Podo baixou a cabeça, num misto de raiva e tristeza. “Ele sinalizou para Lamendron... com sua flauta... durante a batalha...” Janner se lembrou do som estridente que ouviram, logo após a morte do Comandante Gnorm. Oskar estremeceu e tossiu novamente. “Somente outro corre-crista poderia tê-lo ouvido a essa distância. Todos esses anos, ele esteve observando, espionando. Ele parou a Carruagem Negra com sua funda, apenas para que pensássemos que tínhamos mais tempo.” “Mas ele nos salvou com as pedras, no beco”, lembrou Tink. “Sim, ele salvou... porque ele suspeitou...” Os olhos de Oskar caíram e sua voz falhou. “Suspeitou do quê?” Janner pensou. “Como você sabe de tudo isso?” Podo perguntou, sua raiva levando a melhor sobre sua tristeza. “Zouzab... me contou”, Oskar murmurou. “Ele me disse depois dos Fangs... levarem Nia e Leeli. Ele se ajoelhou exatamente onde você está ajoelhado agora... e me contou tudo.” Oskar desaparecia a cada respiração. “Sinto muito, velho amigo. As joias... mantenha-as com você. Guarde-as bem com você!” “Guardarei. Pelo Criador, eu guardarei”, asseverou Podo, apertando a mão inerte de Oskar. Os olhos de Oskar se arregalaram e focaram em algo acima e por trás de Podo. Janner ergueu os olhos em tempo de ver Zouzab desaparecer no labirinto de estantes. “É ele!” Janner gritou. Com um berro, Podo saltou atrás de Zouzab — os livros tombando em todas as direções. “Janner, Tink. Escutem”, sussurrou Oskar, debilmente. Eles se curvaram sobre o velho companheiro e se esforçaram para ouvi-lo, em meio à louca busca de Podo, pelos corredores. Oskar agarrou o braço de Janner. “É tarde demais. Ele é muito rápido... em questão de segundos Zouzab já terá informado aos Fangs que vocês estão aqui. Vocês têm que ir agora. Fujam! Fujam!” O coração de Janner se partia por seu mentor. Ele não conseguia se imaginar deixando-o à morte, deixando Podo para ser capturado pelos Fangs, ou deixando Leeli e sua mãe entregues a qualquer destino que Gnag tivesse para elas. Sua mente era uma enxurrada de memórias sobre o velho Sr. Reteep, que o ensinou a amar os livros, que lhe dera seu primeiro diário. Tink ficou em silêncio atrás de Janner e baixou a cabeça. “Fujam!” Oskar respirou fundo, seus olhos fracos implorando. Sufocando as lágrimas, Janner se virou para ir — e colidiu com o corpo pesado e fedorento de um Fang. 41 Um Estrondo e Um Grito Foi como se Janner estivesse envolvido por um borrão de silvos, garras, presas e dor. Ele se sentiu de mãos atadas e, então, o mundo virou de cabeça para baixo quando, primeiro, foi jogado no chão e, depois, agarrado pelos braços e pés por mãos frias. Janner podia ouvir Tink gritando, mas tudo o que via era um mar de caras escamosas e olhos negros com bordas vermelhas. Ele sentia o estalar de línguas bifurcadas e o cheiro podre de carne de Fang. O ar estava cheio de uivos e rosnados. Então ele percebeu que o som não vinha apenas dos Fangs, mas de outra pessoa também. Ele esticou o pescoço para ver pela janela da frente da Livros e Vãos, onde o cabelo branco de seu avô esvoaçava no centro de um círculo de Fangs. Podo estava no meio da rua, brandindo uma espada e mantendo à distância uma hoste de Fangs, ao redor. Os Fangs pareciam estar gostando, vangloriando-se e golpeando-o com os cabos de suas lanças. Janner foi carregado para fora e jogado no chão, aliviado ao encontrar Tink, Leeli e Nia deitados ao lado dele. A sensação de conforto com a presença dos três, mesmo em um mar de maldade, era mais do que seu coração podia suportar, e ele chorou. Janner desejou que suas mãos estivessem desamarradas, não para que ele pudesse correr, mas para que pudesse abraçar aqueles que amava. Então, sem aviso, Nia foi arrebatada do chão. “Basta! Ou a mulher morre!”, ordenou um Fang ágil que parecia estar no comando. Ele levantou Nia pela cintura e puxou sua espada. A fúria de Podo desapareceu como o apagar de uma vela. Ele olhou ao longo do mar de cabeças escamosas para sua filha e suas sobrancelhas espessas tremeram. O único som era da respiração pesada do velho pirata. A seus pés estavam vários Fangs mortos, já em decomposição. “Não”, Podo suspirou — sua voz falhava. “Então, abaixe a espada, velho, ou diga adeus à mulher.” Podo, cheio de tristeza, olhou longamente para a filha. Nia estava em silêncio — sua mandíbula cerrada, seus olhos fechados. “General Khrak”, chamou um dos Fangs. “Agora não, seu tolo”, repreendeu Khrak, baixando a voz. “Não vê que estou subjugando esse humano? Esse é maisss durão do que parece.” “Nia, garota? Você tá bem?” Podo a chamou. “General Khrak”, o Fang inferior repetiu. “Silêncio, verme!” Khrak rosnou. “Sim, papai”, Nia respondeu. Podo suavizou o rosto. Ele ergueu a espada acima da cabeça em um gesto de submissão, prestes a depor a arma. “General Khrak.” “O quê?!” Khrak esbravejou, virando-se para o soldado enquanto jogava Nia no chão. “Algo está vindo, senhor.” “Hã?” “Algo vindo nesta direção. Olhe.” O Fang apontou. Khrak olhou, e todos os olhos em Glipwood o imitaram. Alguma coisa, com certeza, estava chegando — uma sombra veloz e saltitante atravessava o campo, e ninguém tinha a menor ideia do que era — mas era grande. E, à luz da lua cheia, eles conseguiram discernir que alguém estava montando na coisa. Dois ruídos laceraram o ar e lançaram um arrepio de pânico por todo o regimento de Fangs. Um estrondo — como a explosão de um trovão próximo — junto ao grito crescente de uma ave de rapina abateram-se sobre os Fangs de Dang, cobrindo-os feito uma onda poderosa. O queixo de Podo caiu com a visão diante dele. Peet, o Homem-Meia, com os braços abertos e as garras à mostra, cavalgava nas costas de um cão preto gigante, do tamanho de um cavalo. “O que, pelas barbas de...?” Podo balbuciou. A última visão que Podo tivera de Nugget foi a de um monte de pelo inerte, com uma lança atravessada em seu flanco, perto do chalé, quando foram capturados pela primeira vez. A besta que saltava em sua direção, no entanto, diferia de tudo que ele já vira. Trinta Fangs foram achatados no chão, como ervas daninhas ao vento, quando Peet e a criatura Nugget gigante se chocaram contra eles. Os Fangs ficaram tão paralisados com a enorme coisa negra em seu meio, que Podo foi capaz de abrir caminho num instante, até as crianças e Nia. Até Khrak estava imóvel, olhando estupefato para o Homem-Meia, de cabelo selvagem, que atacava seu exército com garras e um cachorro gigante. “Rastejem!” Podo ordenou. “Solto vocês quando estivermos livres dos Fangs!” Eles se contorceram como vermes e abriram caminho entre centenas de pernas de Fangs, enquanto os soldados emergiam do pavor e começavam um ataque à besta e seu cavaleiro. Quando o General Khrak percebeu que eles haviam partido, os Igibys já estavam subindo na carroça, na borda da cidade, tontos com a própria respiração em seus pulmões. Podo virou a carroça para o norte, em direção à Mansão Pé-de-Geleia, e incitou Danny, o cavalo de carga: “Como um raio, Danny, meu garoto!”. “O que foi aquilo, vovô?” Janner perguntou, enquanto se acotovelavam para o norte, passando pela propriedade Blaggus. “Era Peet fazendo toda aquela gritaria?” Perguntou Tink. “Sim!” Podo gritou, da frente da carroça. “E o que era o outro ruído?” Janner perguntou. “O rosnado, quero dizer.” Podo assoviou e bateu no joelho. “Leeli, garota”, ele a chamou de costas. “Preparada pra isso?” Podo se virou e aproximou o rosto de Leeli. Ele segurou o queixo dela com sua velha mão enrugada. “Era Nugget. Aquele seu cachorrinho está vivo. Sim, e ele pode ser mais do que parece.” O rosto de Leeli era a imagem perfeita da admiração. Lágrimas brotavam de seus olhos arregalados e sua boca se abria, implorando para sorrir. “Mas... como? Todos aqueles Fangs! Como você pode ter tanta certeza de que ele está vivo?” Ela perguntou, sentindo, lá no fundo, que o que Podo dizia era verdade. O rugido grave que ela ouvira tinha-lhe soado maravilhosamente familiar. Janner sorriu, feliz em ouvir que a voz forte de Leeli havia voltado. “Ah, tenho certeza de que Nugget está bem”, garantiu Podo, rindo. “Não há muito que um Fang possa fazer com ele agora, eu garanto. Espere e veja, moça. Acho que Nugget seguirá nossa trilha e estará com você em breve.” Enquanto Danny, o cavalo de carga puxava a carroça a trote, as crianças Igiby começaram a sentir a canseira de seus sufocos. Tanta coisa aconteceu desde que eles seguiram Peet, o Homem-Meia, até sua casa na árvore, na floresta, e não parecia haver qualquer descanso à vista. Leeli se apoiou em Janner e logo adormeceu. Ele colocou um braço ao redor dela, então sentiu um peso em seu outro ombro. Tink também tinha adormecido — a cabeça pousada inconscientemente no irmão. Janner pensou, com um sorriso, em como Tink ficaria horrorizado ao saber que se aninhara junto a seu irmão mais velho. Nia se inclinou e beijou Janner na cabeça. Enquanto subiam a longa e regular encosta ao norte, longe de Glipwood e dos penhascos sobre o Mar Sombrio da Escuridão, eles podiam ver as luzes aconchegantes dos postes da cidade, piscando à distância — uma ironia, à luz do mal que infestava as ruas de lá. Janner fez uma oração silenciosa por Oskar, depois por Peet, que mais uma vez emergiu da escuridão e salvou suas vidas quando tudo estava perdido. Janner se perguntava por que Podo o odiava tanto. Que história secreta tinham eles, e como Podo não conseguia substituir aquela raiva por gratidão, sendo que Peet os resgatou não uma, mas três vezes? “Mãe?” Janner não aguentava mais o silêncio. “Hum?” “Pra onde estamos indo?” Nia parecia apreensiva. Ela esfregou o vestido e olhou para a lua. “Eu realmente não sei, filho. As Pradarias de Gelo, por enquanto. Oskar nos disse que os Fangs são letárgicos no frio e o evitam quando podem. Ele disse que há um posto avançado de rebeldes lá, gente que arrastaria os Fangs de volta pelo mar, até as terras de Dang. Oskar disse que conhecia alguns deles, então seu avô planeja se refugiar lá. Mas chegando lá...” “É longe?” “Muito longe. Mas primeiro precisamos viver esta noite. Não se preocupe. Seu avô tem um plano.” Nia riu, um som bem-vindo na escuridão. “Ou pelo menos ele está no processo de matutar um.” Nia acariciou a cabeça de Janner. “Você deveria descansar seus olhos agora. Ainda vai levar um tempo pra chegarmos lá.” A voz de sua mãe acalmou Janner e seus olhos se fecharam. Um baque surdo na escuridão, atrás da carroça, despertou Janner. Ele se preveniu quando uma forma escura se aproximou da carroça, movendo-se mais rápido do que um cavalo a galope. Podo, ouvindo o suspiro de Janner, ergueu a espada com uma das mãos e segurou as rédeas com a outra. Mas quando ele viu, à luz da lua, o que se aproximava, sua atitude se iluminou e, para a surpresa de Janner, ele freou Danny, o cavalo de carga. A carroça parou e Leeli e Tink se espreguiçaram e esfregaram os olhos. Uma sombra negra saltou na direção deles — uma sombra estranhamente familiar para Janner. Montada nela, e coberto por manchas escuras de sangue verde de Fang, estava a figura esguia e de cabelos brancos de Peet, o Homem-Meia. Com olhos sonolentos, Leeli perscrutou a noite enluarada, tentando entender o que estava diante de seus olhos. Ela se inclinou sobre a borda da carroça enquanto a criatura negra se aproximava e Podo descia de braços abertos. A criatura deixou escapar um ruído profundo e feliz — como um latido, só que muito, muito maior. “Nugget, garotão!” Exclamou Podo, esticando o braço para coçar a criatura atrás de uma grande orelha mole. Os olhos de Leeli se arregalaram, sem acreditar. Peet escorregou das costas de Nugget, afastando-se de Podo, que nem mesmo notou a presença do Homem-Meia. “Nugget?” Leeli arriscou-se, timidamente, com medo de acreditar que fosse realmente ele. O cachorro gigante latiu, se é que se pode chamar assim, pois foi um som que sacudiu o ar e fez os pássaros esvoaçarem a mais de meio quilômetro de distância. Leeli soltou um grito alegre e tombou para fora da carroça. Ela caiu no chão, esquecendo, em sua euforia, que tinha apenas uma perna boa. Nugget se aproximou dela e começou a lambê-la com uma língua quase tão grande quanto ela própria. Leeli gritou de alegria e descrença. Tinha certeza de ter visto um Fang matar seu melhor companheiro e, agora, ele estava vivo e tão grande quanto um cavalo. Nugget agachou seu corpo no chão e Leeli riu enquanto subia em suas costas. Ela sentou-se, montada em seu cachorro, enterrando as mãos profundamente em seu pelo macio. Nugget ficou ali, ofegante — a cauda tão longa quanto um cabo de vassoura e balançando perigosamente. Da grama alta, a vários passos de distância, Peet, o Homem-Meia, pigarreou. Janner queria correr para o homem estranho e abraçá-lo, mas ele estava inseguro quanto a isso. Podo havia deixado claro que Peet deveria ficar longe das crianças, e Janner estava com medo de trazer mais da ira de seu avô sobre o pobre homem. Ele também não tinha certeza quanto às garras letais que serviam de mãos para Peet. Se Leeli não tivesse ficado tão extasiada com Nugget, ela teria estendido a mão para ele com sua típica compaixão e indiferença à rudeza de Podo. Mas do jeito que as coisas aconteceram, a família se agrupou em volta do cachorro gigante e Peet ficou sozinho. “Peet”, perguntou Janner com um olhar cauteloso para Podo, “como Nugget ficou tão grande? Como foi que ele voltou à vida?” “Nuggetinho e eu conseguimos escapar”, relatou Peet, ignorando a pergunta. “Mas por pouco, quase nos ossos. As cobras. Elas estão vindo. Vindo rápido. Você tem que esconder as poias, Jodo. Joias, Podo. Você não pode deixá-las cair nas mãos dos Fangs.” “Não me diga o que tenho que fazer”, esbravejou Podo. As crianças ficaram espantadas. Até Nugget choramingou e escondeu o rosto sob as patas gigantes. “Acho que sei como manter as coisas seguras melhor do que você.” “Pai”, Nia o chamou, colocando a mão no braço de Podo. Ele olhou para a filha e parecia prestes a responder, mas com muita força de vontade segurou a língua e saiu pisando com força, rumo à carroça. Então as joias estão por aqui em algum lugar, pensou Janner. Tentou imaginar o que eram as joias e se estavam ou não embrulhadas na trouxa que Podo carregara com ele para fora do chalé — o embrulho na carroça, logo atrás de seu avô. “De volta à carroça”, ordenou Podo, tentando falar com calma. “Alguém conduziu os Fangs diretamente até nós.” Ele parecia envergonhado com a injustiça de sua própria observação. “De qualquer forma, temos que seguir adiante. A mansão está logo à frente, e é nossa única esperança de ver o amanhecer chegar. Agora escutem. Vocês, crianças, vão esperar lá dentro enquanto eu tento encontrar as armas de que Oskar me falou. Ele nunca teve a chance de me dar o mapa.” Ele olhou de volta para o reluzir da cidade onde vira seu velho amigo pela última vez. “Nós sabemos onde elas estão, vovô”, confessou Tink. “Vocês sabem?” Podo questionou, mirando os meninos. “Vocês estiveram muito ocupados, eu diria.” Tink começou a responder, mas Podo o interrompeu com um aceno rápido de mão. Uma silhueta de Fang surgira ao luar, sobre uma elevação, a não mais que um tiro de flecha. “Lá estão eles!” Gritou o Fang. Peet, o Homem-Meia, não perdeu tempo, gritando em disparada pela campina em direção ao lagarto maligno. O Fang saiu correndo, agitando os braços e gritando para o resto dos soldados que havia encontrado sua presa. “Para a carroça! Agora!” Podo comandou. Nia e os meninos subiram na parte de trás, e Podo pôs Danny em movimento. Leeli agarrou-se ao pescoço de Nugget enquanto ele galopava ao lado de Danny, o cavalo de carga — que não estava lá tão seguro quanto ao imenso animal feliz que seguia a seu lado. 42 Adeus Iggyfings O semblante sinistro e parecido com uma caveira da Mansão Pé-de-Geleia se materializou na escuridão, quando eles se aproximaram. Iluminada pelo luar fantasmagórico e emoldurada pelo paredão escuro formado pela Floresta Glipwood, a visão da antiga mansão causou um arrepio que desceu direto para os dedos dos pés de Janner e o fez suar. Ele tentou não pensar nos canicórneos ou no gemido fantasmagórico que escapava do túnel que levava às armas. Atrás deles, outro grito de Peet ecoou pela ampla campina. Ele corria em direção a eles e para longe dos Fangs a toda velocidade — centenas de soldados corriam atrás dele pelo campo. Podo conduziu a carroça através dos portões dilapidados, passando pelas estátuas estranhas e a fonte coberta de mato, até que os paralelepípedos e os destroços revirados foram demais para Danny. Podo saltou para o chão e rapidamente soltou o arnês e o arreio. Assim que Danny estava livre, Podo deu um tapa nas ancas do cavalo. “Agora vá! Vá!” Danny relinchou e partiu, galopando ao longo da borda da floresta e para longe da batalha que se aproximava. A Mansão Pé-de-Geleia era assustadora o suficiente durante o dia. Porém, o que pairava naquele momento era a noite profunda, com uma horda de Fangs se aproximando rapidamente. A borda da floresta aparecia a um tiro de flecha, repleta de criaturas invisíveis que dariam medo até mesmo em um Fang. Pareceu a Janner que não havia para onde correr — nenhuma das opções parecia segura, fosse correr para a floresta, fosse para os Fangs, fosse para a Mansão Pé-de-Geleia. Pelo menos, na mansão eles teriam acesso ao armamento militar. O que algumas espadas poderiam fazer ele não sabia, não contra um exército de Fangs. Mas, pelo menos, eles tinham Peet e Nugget. Mesmo assim, aliados formidáveis que eram, Peet e Nugget não conseguiriam derrotar centenas de Fangs. Janner começou a se desesperar. Mesmo que seu avô tivesse talento para improvisar em situações perigosas, mais cedo ou mais tarde ele certamente ficaria sem ideias. Essa hora parecia ter chegado. Ele observou Podo ajudando Nia a descer da carroça, enquanto a apenas alguns minutos de distância vociferava uma horda de Fangs. “Janner!” Podo exclamou. “Você sabe onde estão as armas?” “Sim, senhor! Tink e eu sabemos!” Relatou Janner. “Lá dentro, debaixo do porão.” Podo assentiu. “Boa. Janner, você mostra o caminho. Temos que descer lá e rápido.” “Mas, vovô, ficaremos presos!” Contestou Janner. “Há um longo túnel, e há canicórneos, e há um fantasma lá embaixo, e...” “Um fantasma, hein?” Podo debochou, jogando a trouxa do chalé por cima do ombro. “Bom, você prefere enfrentar sua imaginação ou uma espada Fang?” “Mas, nós ouvimos!” Tink insistiu. “Ouvimos o fantasma e ele nos perseguiu pra fora do túnel!” “Esse som nada mais é do que o vento. É apenas algo que Oskar armou em um eixo para assustar as pessoas que não deveriam estar lá — como você e seu irmão, por exemplo. Agora, vocês precisam confiar em seu Podo e chegar logo lá.” “O que você planeja fazer com mais armas, afinal? Ainda seremos apenas nós cinco!” Retrucou Janner. “Janner!” Podo berrou. A boca de Janner se fechou. “Leeli, desça daí”, Podo requeriu gentilmente. “Nugget vai ter que cuidar de si mesmo agora. Não há muito em Kistamos que ele precise mais temer, e ele não pode ir para onde estamos indo. Ele vai estar bem ao nascer do sol, você vai ver.” Leeli protestou e abraçou Nugget com força, enquanto Podo a puxava para baixo. O cachorro ganiu e acariciou-a suavemente. “Tink, ajude sua irmã”, Podo ordenou. De repente, Peet se materializou na escuridão. Sua respiração estava irregular e ele cambaleava, cansado. “Eu queria dizer adeus, jovens Iggyfings. Lutarei por vocês enquanto eu puder.” Peet olhou para Podo com uma nova ousadia. “Lutarei por eles.” Mas, sem sequer uma palavra de agradecimento ou mesmo um olhar, Podo subiu as escadas de pedra e entrou na boca negra da mansão. “Eu não seguirei”, Peet gritou para o velho. “Vou ficar longe de todos vocês, como você mandou. Mas eu vou lutar por eles”. Peet se virou para as crianças e fez uma reverência. “Adeus, Iggyfings”, ele os cumprimentou, e então se virou e caminhou através do portão em direção ao oceano de Fangs — braços abertos e garras à mostra. Desviando os olhos de seu protetor, Janner respirou fundo e seguiu Podo para a escuridão da mansão. “Nugget”, Leeli gritou por cima do ombro. “Vá para algum lugar seguro. Encontre-me quando tudo isso acabar. Vá!” Mas Nugget ficou lá — sua cabeça gigante inclinada para o lado, orelhas em expectativa. “Senhor Peet! Poderia tomar conta dele?!” “Sim, princesa”, respondeu Peet do outro lado do gramado iluminado pela lua. Nugget ganiu outra vez enquanto Leeli era conduzida por Tink pela porta, engolida pela escuridão. Nia foi a última, e assim que ela entrou, o primeiro dos Fangs se lançou pelos portões da Mansão Pé-de-Geleia — uma turba sibilante de serpenteios e rosnados. 43 Um Fantasma ao Vento Tudo jazia na escuridão. Janner tentava lembrar qual porta levava à sala com as escadas faltantes. Da última vez que eles estiveram na mansão dilapidada, já fora escuro o suficiente, e, na ocasião, era de dia. Mas dessa vez era noite e Janner estava morrendo de medo. Seus olhos se ajustaram e Janner foi capaz de detectar sinais do luar azulado entrando furtivamente por rachaduras no teto e se dispersando pelo chão. Ele só conseguia divisar a ampla escada que levava aos andares superiores. A mão de Podo estava no ombro de Janner, e Tink, que estava ajudando Leeli, colocou a mão nas costas de Podo. Nia segurava o cotovelo de Leeli. Janner virou à esquerda e o trem de Igibys entrou num corredor escuro. “Rapaz, não quero apressá-lo”, sussurrou Podo. “Mas aquele barulho que você ouve do lado de fora são Fangs vindo com rapidez.” Janner não tinha certeza, mas aquele parecia ser o corredor certo, o que tinha portas de cada lado. Fosse o caso, ele apenas teria que encontrar a terceira porta à esquerda. Ele deslizava os pés para frente com cuidado, com as mãos estendidas, até sentir a primeira porta. A fila de pessoas atrás dele ficava mais frenética a cada segundo. “Eu gostaria de ter um pouco de luz”, ele murmurou. “Sim, filho. Eu também. Mas mesmo se tivéssemos algum fogo, não há nada que canicórneos gostem mais do que uma boa chama. Eles e um grande número de outras criaturas na floresta são atraídos por ela, especialmente à noite. Não precisamos de vacas-dentadas e Fangs atrás de nós, precisamos?” “Não, senhor.” “Você consegue, rapaz.” “Eles estão se aproximando”, alertou Nia, na parte de trás. Janner tateou o caminho até a segunda, depois até a terceira porta. “É essa.” Como uma rajada de vento, o medo do fantasma de Brimney Stupe invadiu o coração de Janner. Todos os outros horrores que então os visitavam pareciam inofensivos. Lá estava ele, prestes a descer para o porão escuro e sem escadas, e rastejar por um túnel vigiado por um fantasma. Podo havia dito que o som não era nada além do vento, mas a imaginação de Janner era forte e trabalhava com afinco. Morrer nas mãos dos Fangs parecia melhor do que enfrentar o fantasma de Brimney Stupe, imaginário ou não. Sentindo a urgência silenciosa de sua família, atrás dele, Janner avançou, chutando pedrinhas e escombros enquanto seguiam em frente. Ele esperava ver a forma medonha de Brimney Stupe erguer-se da porta do porão e começar a comer seu cérebro diretamente de sua cabeça. Então, ele alcançou a porta escura que dava para o porão. “Chegamos”, ele suspirou. Janner balançou a cabeça, frustrado consigo mesmo por chutar a corda e a tábua de volta para o porão, quando ele e Tink escaparam, da última vez. “Não há escadas, então temos que pular lá pra baixo.” Ele tentou esconder o tremor em sua voz. “Você primeiro, então”, disse Podo. “Eu vou ajudar a baixar sua mãe e sua irmã.” Janner pensou em protestar, mas ficou em silêncio. Em sua mente, ele viu uma figura sem rosto, parada no fundo do porão, esperando para envolvê-lo com seus braços frios e devorá-lo. Não é real, Janner disse a si mesmo. É apenas o vento. Apenas o vento. Não existe fantasma de Brimney Stupe. Ele se sentou na soleira, virou-se de bruços, deslizou-se até ficar pendurado pelos dedos, contra a parede do porão, e, fechando os olhos, reuniu toda sua força de vontade. Apenas o vento. Confie em Podo. Com uma oração ao Criador, ele se deixou ir. O solo não pareceu tão chocante dessa vez, agora que ele sabia o que esperar e não estava caindo da altura completa. Ele se levantou. “Estou bem. Não é tão alto assim”, assegurou ele. “Muito bem, rapaz”, parabenizou-o Podo. Então, vindo da escuridão, Janner ouviu o gemido. AAAAAAAAAAAAhhhhhhh… O gemido saiu do túnel e contornava o salão. Janner tapou os ouvidos com as mãos e fechou os olhos com força. Sua mente ficou entorpecida de pânico enquanto tentava se convencer de que, se abrisse os olhos, não veria os olhos brilhantes de um fantasma faminto. Ele se sentiu ridículo por ter acreditado em Podo de que um som tão horrível poderia ser o vento. “Janner!” Ele podia ouvir a voz de Podo fracamente, cortando o gemido fantasmagórico. “É o vento, rapaz! Não existe nenhum fantasma!” O velho gritou. AAAAAAAAAAAAAhhhhhhhhhhh… Já por diversas vezes, Podo havia provado ser confiável, Janner disse a si mesmo. Por que não deveria confiar nele agora? Janner cerrou os maxilares e preparou-se para ver Brimney Stupe e, depois, o Criador. Finalmente, Janner abriu os olhos. Trevas. Podo bateu no chão, ao lado dele, e tirou as mãos de Janner de seus ouvidos. Na escuridão, Janner sentiu o rosto de seu avô perto do seu, e sentiu seu hálito quente quando ele falou. “Está tudo bem, rapaz. Apenas o vento. Sinta minhas mãos. Elas são reais.” Janner assentiu. Ao toque dos grandes dedos calejados de Podo, o gemido encolheu em sua mente e foi substituído por vergonha. Ele estava grato porque na escuridão seu rosto estava oculto. “Desculpa”, Janner emendou. “Sem tempo pra isso”, apressou Podo, bagunçando o cabelo de Janner. Assim que ele estendeu a mão e chamou Leeli, o barulho de passos e um rosnado flutuaram pela casa, acima deles. Os Fangs estavam lá dentro. Sombras se moviam sobre sombras na mansão, enquanto os Fangs se espalhavam como fumaça pela casa. Janner não ouvia mais lutas do lado de fora, o que significava que Peet e Nugget ou estavam mortos, ou finalmente haviam fugido. Janner estava com raiva de si mesmo por ter tido mais medo do fantasma imaginário do que dos Fangs. Ele lhes custou um tempo precioso. “Nia! Passe Leeli aqui pra baixo!” Podo sussurrou. Nia pegou Leeli pelas mãos e a desceu até os braços dele. Ela fez o mesmo com Tink e, logo em seguida, jogou a trouxa de Podo e, por último, também desceu. Quando ela escorregou e tocou o chão, surgiu um sibilar de surpresa, da sala acima deles. De repente, o contorno vago de um Fang apareceu na porta, olhando para baixo. Os Igibys congelaram. Um momento sem respirar se passou, durante o qual Janner teve certeza de que Podo cometera um grave erro ao levá-los até ali. Embora eles não pudessem ver, um sorriso lento se espalhou pelo rosto do Fang. “Eu posso sentir o cheiro de vocêsss”, o Fang sibilou. “General Khrak!” O soldado Fang o chamou, desaparecendo da porta, e eles o ouviram chamar novamente: “General Khrak! Eu os encontrei!”. 44 Seguindo Podo Tink!” Podo não perdeu tempo. “Onde fica o túnel?!” Tink se lembrou dos fósforos e do lampião que ele e Janner descobriram na última vez em que estiveram lá. Ele tateou o caminho até o canto da sala, perto da pilha de tábuas de madeira, e agarrou a caixa de fósforos, mas... o lampião tinha desaparecido. Ele sentiu o peito apertar, até que ele se lembrou de que o havia deixado cair ao pé da escada, em seu terror com o gemido de Brimney Stupe. Respirando fundo, Tink se apressou escada abaixo. Seu pé atingiu o lampião e ele o agarrou e subiu os degraus. Uma batida de fósforo e o porão se encheu de luz amarela, iluminando a boca do túnel e as escadas que desciam para as sombras. Tink acendeu o lampião a óleo e ergueu-o. “Tink, não!” Janner gritou. “A luz atrai...” Mas Podo o interrompeu. “Tarde demais pra isso. Pra dentro, rápido!” Podo empurrou Leeli e Nia escada abaixo. O ar ficou úmido e fechado e, de repente, a mansão acima deles parecia muito, muito distante. Foi difícil para Janner conduzir Leeli pela passagem de teto baixo, mas, depois que ela se abriu, ambos conseguiram se mover rapidamente. “Tink, eles estão vindo!” Gritou Podo, da retaguarda. Janner virou um canto e viu Tink olhando para a velha porta. Ao ver o rosto de Tink, Janner sentiu um baque de desespero. Como puderam esquecer? O mapa era a chave para abrir a porta e ainda estava na loja de Oskar. “Por que a demora?” Podo questionou, ao virar a esquina com Nia. “O mapa... ele tinha uma chave. Orifícios que mostravam qual desses botões apertar. Tink, você se lembra de quais?” “Tinha a forma de um W”, descreveu Tink, apertando os botões. Ele girou a trava... a porta não se mexeu. Tink sacudiu a maçaneta freneticamente. Agora eles podiam ouvir os Fangs atrás deles, provavelmente no porão. “Eu não sei o que está errado!” ele gritou. “Janner! Não era assim?!” “Depressa, rapazes!” Janner olhou para as fileiras de botões na porta. Podo olhou pela esquina do túnel. “Eles estão no túnel!” Sua voz era urgente. “Conseguiram?!” Janner fechou os olhos e repassou várias vezes em sua cabeça. Os botões tinham a forma de um W, centrado na porta. Ele tinha certeza de que estava certo. Por que a porta não abriu? Tink apertou todos os botões novamente, com firmeza, e experimentou a maçaneta. Mesmo assim, a porta não se mexia. “Espere... os cantos!” Lembrou Janner. “Pressione os cantos!” “É isso aí!” Em um frenesi, Tink clicou nos botões novamente, desta vez com os quatro cantos pressionados. A porta se abriu e os Igibys entraram na sala cheia de armas empoeiradas. Podo não perdeu tempo em escolher um escudo e uma lança de uma pilha. “Não haverá espaço para brandir uma espada naquele túnel”, disse a si mesmo, às pressas, enquanto voltava para a porta de ferro. “Vovô, você não pode voltar lá!” Leeli exclamou. Podo não pareceu ouvi-la. Ele parou e olhou para Tink, que estava usando o lampião a fim de acender uma tocha na parede. “Janner, encontre uma lâmina e me siga com aquele lampião. Tink, você se arma e fica aqui com Nia e Leeli. Se cairmos, você mantém esta porta fechada até que esses Fangs morram de velhice, ouviu?” Então ele se virou e reentrou na passagem. Janner parou no vão pelo qual seu avô acabara de sair, pensando que estava vendo o tipo de coragem sobre a qual apenas havia lido. Quem sabe quantos Fangs armados infestavam a mesma passagem na qual seu velho avô, de uma perna só, tinha acabado de entrar? Janner não queria nada mais do que possuir esse tipo de coragem, mas lá estava ele, tremendo, de pelos arrepiados, sentindo-se tão inútil quanto um tronco de árvore. Ele ouviu um barulho atrás de si e se virou, encontrando Tink remexendo nas armas e armaduras. Nia ergueu uma espada curta da pilha, deu a Leeli uma longa adaga e puxou-a para perto. Eles ficaram no centro da sala; Tink permaneceu na frente de sua mãe e irmã com escudo e espada. Janner respirou fundo, agarrou a espada mais próxima e seguiu Podo para dentro do túnel, com o lampião, mal conseguindo manter as pernas sob si. O som de aço contra aço que ecoava da passagem era quase abafado pelos brados de Podo. Janner não conseguia ver nada além das paredes de pedras úmidas, a ponta de sua espada e as costas de Podo. Além de Podo, ele ouvia os Fangs enfurecidos e vislumbrava punhos escamosos e dentes à mostra. Podo se mantinha firme no túnel baixo, bloqueando o caminho com um grande escudo brilhante. Sempre que via uma abertura, ele cravava a lança com toda a força. Os Fangs gemiam e rosnavam, e Podo conseguiu dar alguns passos à frente. Janner quase tropeçou em algo e viu, com desgosto, que estava pisando no corpo de um Fang que Podo acabara de matar. Ele se perguntava o que deveria estar fazendo. Janner não conseguia lutar de sua posição, atrás de Podo; e, para melhorar ainda mais as coisas, mesmo que conseguisse lutar, ele não seria lá de grande ajuda. Se Podo caísse, Janner não duraria um minuto. E por que ele trouxe o lampião? Podo estava bloqueando toda a luz que pudesse ser de alguma ajuda para ele mesmo. Janner pensou em colocar o lampião no chão, para que talvez pudesse se espremer ao lado de Podo e dar uma ou duas investidas. Mas então ele ouviu a voz de Podo em sua cabeça. Apenas confie em mim, garoto, e faça o que eu digo. Podo queria que ele trouxesse o lampião. Ponto-final. Janner fez uma careta ao passar por cima de mais um Fang morto. Por que eles estavam forçando o caminho de volta pelo túnel? Para ele, fazia muito mais sentido se Podo fizesse sua resistência na sala das armaduras. Eles poderiam trancar a porta e mantê-la fechada; e se a porta fosse arrombada, eles poderiam, pelo menos, matar os Fangs um de cada vez, quando estes entrassem na câmara. De qualquer maneira, Janner percebeu que eles pareciam irremediavelmente encurralados. Confie em mim, garoto. Podo matou mais dois Fangs e forçou seu caminho mais adiante, no túnel. Janner percebeu que eles estavam se aproximando cada vez mais do porão. E, aí, o que fariam? Ele não sabia, mas seu pânico aumentava mais e mais à medida que se aproximavam. Talvez Podo planejasse morrer gloriosamente com Janner, no porão, fazendo sua resistência final nas pilhas de madeira... As pilhas de madeira. “Nada atrai mais as feras da floresta do que uma boa chama.” Podo garantiu. Janner de repente entendeu. E as perspectivas o apavoraram. Podo avançou novamente e, de repente, ele e Janner estavam escalando mais Fangs mortos e subindo os degraus para o porão. Ambos irromperam na sala escura para dar de cara com mais dois lagartos, prontos para atacar. Um terceiro Fang saltou da porta alta, e mais estavam vindo. Podo começou a agitar sua lança freneticamente, forçando-os a recuar. “Janner!” Ele bradou, golpeando um Fang que havia avançado. “Eu sei! A pilha de madeira!” Janner caminhou ao lado da parede em direção à pilha de madeira velha, mantendo um olhar atento sobre os Fangs, embora estivessem preocupados demais com o pirata louco, de uma perna só, berrando contra as feras. Janner segurou o lampião sobre a cabeça, cerrou os olhos com força e jogou-o sobre a pilha de madeira velha e seca. O óleo do lampião respingou na madeira, manchando-a com fogo líquido que se espalhou pelas tábuas secas. Em questão de segundos, o incêndio disparou acima e além da cabeça de Janner e avançou para a madeira antiga do teto do porão, o mesmo teto contra o qual ele e Tink haviam atirado pedras, para fazer entrar a luz. Podo arriscou um olhar para as chamas e pagou por isso com o primeiro ferimento real que recebeu em muitos anos. Um dos Fangs o feriu na barriga. Os outros ficaram tão surpresos com o fato de o velho guerreiro ter realmente se machucado, que pararam em choque, por um momento. Com um brado, Podo transpassou o Fang e arremessou sua lança contra os outros. A lança cravou-se em um deles e, antes mesmo de seu corpo desabar no chão, Podo havia arrastado Janner à sua frente e saltava de volta, descendo os degraus de pedra. Os outros Fangs, indiferentes às chamas crescentes, despertaram do choque e começaram a persegui-los. Janner correu com todas as suas forças. Ele irrompeu na sala de armas, encontrando um Tink surpreso, pronto para atacar a primeira coisa que passasse pela porta. “Vovô está vindo, e os Fangs estão atrás dele!” Janner acudiu sem fôlego, derrapando no chão. Tink correu, ficou de costas para a parede ao lado da porta e, agarrando sua espada com as duas mãos, cerrou os dentes. Com um berro, Podo tombou porta adentro e desabou na soleira: seu sangue reluzia cobrindo-lhe as mãos e a frente de sua túnica. Dois Fangs vinham logo atrás. Eles pisotearam seu corpo como se já estivesse morto, uivando em sinal de vitória. Tink girou a espada com toda a força quando o primeiro irrompeu câmara adentro. A lâmina cortou a criatura em duas partes, embora continuasse correndo em direção a Leeli e Nia, enquanto sua metade inferior e a metade superior se separavam e desabavam no chão, a centímetros delas. O segundo Fang recebeu um impacto menor do mesmo golpe, mas ainda devastador. Ele vociferou diante do ferimento em seu torso, mas ainda avançou em direção dos Igibys, tendo sua lâmina apontada diretamente para Leeli. Janner recobrou sua confiança e, com sua espada, golpeou a lâmina do Fang para cima. O Fang, contudo, avançou para cima de Leeli e Nia, e os três caíram embolados, no chão. Em uníssono, Janner e Tink gritaram e correram para aquele emaranhado, para descobrir a ponta da espada de Nia projetando-se das costas do Fang. “Vovô!” Leeli gritou, contorcendo-se de debaixo da criatura. Todos os olhos se voltaram para Podo, enquanto Leeli se aproximava dele. Gemendo, de costas, no vão da porta, Podo estava prestes a perder a consciência. Mais Fangs estavam prestes a entrar no salão e, com eles, calor e cheiro de fumaça. 45 Uma Longa Noite Rápido!” Janner chamou Tink, e tiraram Podo da soleira da porta. Eles bateram e trancaram a pesada porta, no momento em que os perseguidores Fangs se chocavam contra ela. Janner e Tink escoraram a porta com os ombros, enquanto aqueles lagartos se lançavam com força contra sua estrutura. Tink olhou para o irmão. “Não sei por quanto tempo podemos segurá-los.” Antes que Janner pudesse responder, o som de pânico infiltrou-se nas raivosas vozes dos monstros, e a luz alaranjada do fogo tremeluziu pela fresta, sob a porta. Janner e Tink ficaram escorando a porta, exaustos por causa dos Fangs que arranhavam e batiam do outro lado. Podo estava deitado de costas e gemia. Leeli segurava a cabeça dele no colo enquanto Nia pressionava um pedaço de sua túnica no ferimento. “Você ouviu isso?” Janner perguntou, inclinando a cabeça para o lado. “Além dos Fangs lá fora?” Tink questionou, o suor escorrendo de sua testa. “Canicórneos”, esclareceu Janner. Um uivo de gelar os ossos abriu caminho através da rocha e do fogo. Em seguida, outro uivo, e mais outro. Podo estava certo mais uma vez. A luz do fogo havia atraído os cães, do seio da Floresta Glipwood. Por horas eles ficaram assim, Janner e Tink de costas para a porta, segurando-a firmemente contra o que quer que estivesse do outro lado. Os uivos penetrantes dos canicórneos misturavam-se aos rosnados dos Fangs, que lutavam cada vez mais violentamente para entrar. Janner pensou várias vezes que a velha porta de ferro certamente se soltaria das dobradiças e a câmara de armas se tornaria a sepultura, sem epitáfio, de todos eles. Mas a porta aguentou, firme. Por fim, as batidas cessaram, embora muito acima deles continuassem os uivos e, em seguida, sons diferentes: gemidos terríveis, sons gorgolejantes. A respiração de Podo se tornou cada vez mais áspera e superficial. Seu rosto estava suado e pálido, e ele ficou inconsciente. Leeli deitou a cabeça em seu ombro e adormeceu. Nia se sentou ao lado do pai e segurou sua mão. Seus olhos estavam fechados e ela cantarolava uma velha melodia da harpa eólica, que ecoava pela câmara. Janner sentiu seus olhos se fecharem. Muito tempo se passou sem quaisquer sinais de perturbação do outro lado da porta. Tudo o que ele conseguia ouvir era o rugido das chamas e o ruído ocasional de madeiras caindo. “Você deveria descansar”, Janner aconselhou o irmão. Tink enxugou a testa e meneou a cabeça. “Estou bem.” Sua família havia sobrevivido muito mais tempo do que Janner pensava ser possível. Ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, teriam que sair da câmara. E o que encontrariam? Fangs? Canicórneos? Paredes e pisos da mansão queimados até o chão, deixando-os com ainda menos lugares para se esconder? Embora sua cabeça girasse com preocupação, as pálpebras de Janner se fechavam. Quanto mais sonolento ficava, menos se preocupava com os Fangs, ou quaisquer monstros que estivessem tentando pegá-los. Ele balançou a cabeça para se manter acordado, mas ver as formas adormecidas de Nia e Leeli, à luz fraca da tocha, tornava tudo difícil. “Não sei quanto tempo mais eu consigo... ficar acordado”, murmurou para Tink, cuja resposta foi um ronco longo e alto. Tink tinha escorregado para o chão com as costas contra a porta, num sono profundo. A última coisa que Janner percebeu ao adormecer foi o gemido baixo do fantasma de Brimney Stupe. Ele encheu a câmara e fez tremular a chama da tocha, com uma brisa invisível. Nada além do vento, pensou Janner, e então adormeceu. Janner acordou assustado e pôs-se de pé num salto. A câmara estava completamente escura. Ele pensou, por um momento, que estava na Carruagem Negra, que ainda podia ouvir o crocitar dos corvos, os restos de um sonho sombrio agarrado a ele como teias de aranha. O ronco familiar de Tink o trouxe de volta à câmara subterrânea. A tocha deve ter acabado, ele pensou — mas os Fangs! As matilhas! Janner encostou o ouvido na porta de ferro frio e escutou. Silêncio. Nenhum canicórneo uivava. Nenhum Fang rosnava ou sibilava. Tudo estava quieto. Janner cutucou Tink — sem sucesso. Ele tateou no escuro e podia sentir a figura de Tink, encolhida e dormindo a poucos metros da porta. Ele pensou em abrir a porta sem acordar os outros. Poderia fazer isso silenciosamente, apenas para ver se o sol já havia nascido e se, por algum milagre do Criador, os Fangs haviam sumido ou, pelo menos, estavam ocupados. Janner posicionou a mão suada na maçaneta da porta, hesitou por um instante e a girou. A fechadura ecoou pela sala e Janner estremeceu, com medo de ter alertado os monstros lá fora e acima deles. Respirando fundo, ele puxou a grande porta e ela se abriu, rangendo. Seus olhos tinham se acostumado tanto à escuridão que mesmo a fraca luz escorrendo pelo túnel os fazia doer. Enquanto Janner protegia os olhos, seu queixo caiu ante o que estava diante dele. Uma pilha de cadáveres enrugados de Fangs obstruía a passagem. Eles estavam tão decompostos que era impossível dizer o que os matou, mas por suas posições emaranhadas, Janner sabia que suas mortes haviam sido horríveis. Ele ultrapassou a soleira e passou pela pilha de esqueletos com armaduras, tentando em vão evitar tocá-los. Ele tocou um dos Fangs mortos. A armadura de couro fez pouco barulho, quando os ossos desmoronaram numa nuvem de poeira. Janner virou a esquina e apertou os olhos novamente, quando uma luz mais forte brilhou sobre ele, descendo a passagem do porão. Mesmo assim, ele não ouviu nenhum som, mas enquanto subia na ponta dos pés os degraus do túnel, o cheiro de fumaça aumentava e ele podia ver, pela entrada, focos de chamas agitando-se fracamente em pedaços de madeira carbonizada. Janner emergiu para espiar um céu tão azul e plácido que seu peito deixou escapar um soluço sem lágrimas. A Mansão Pé-de-Geleia havia queimado e sido reduzida a destroços, e muitos Fangs queimaram com ela. Pedaços de armadura carbonizada jaziam espalhados pelo chão do porão. O teto se foi, as paredes se foram, e grande parte da construção de pedra desabou, quando o madeiramento antigo tombou. Ele não conseguia ver muito acima da borda do porão, que agora era apenas um buraco retangular no chão, mas, de algum modo, sabia que os Fangs haviam sumido. Também sumiram os canicórneos e toda espécie de bestas atraídas pelas chamas. O vento soprou, as brasas crepitaram e Janner se viu sorrindo ao ouvir o som límpido de pombastravessas arrulhando. Um lamento lacerou o ar. Janner quase tropeçou em si mesmo ao tentar se lançar de volta para o túnel. Seu coração disparava enquanto o lamento aumentava, a cada segundo. Era algum tipo de armadilha, ele pensou amargamente. Ele deveria saber que era bom demais para ser verdade que seus inimigos tivessem sido destruídos. Então ele parou. Ele reconheceu algo no som e sentiu vontade de rir. Só Peet, o HomemMeia conseguiria produzir um ruído tão lamurioso. Janner voltou ao espaço aberto. “Peet?”, ele chamou, ainda tímido e com medo de fazer barulho demais. “Peet!” O choro parou abruptamente e Janner sorriu. Ele ouviu um som embaralhado, seguido pelo súbito aparecimento de uma nuvem de cabelo branco na borda do porão. Ao ver Janner, os olhos vermelhos e lacrimejantes de Peet se arregalaram de descrença, depois alegria, riso e, por fim, descrença novamente. Um latido estrondoso soou, e a cabeça gigante de Nugget apareceu ao lado da de Peet. “Igiby! Louvado seja o Criador, é um Igiby!” Peet sorriu e saltou para o porão. Ele passou os braços ao redor do menino, levantou-o e o girou. Janner percebeu que Peet estava usando novas meias de tricô nos braços. Os dois riram juntos sob o céu azul de anil. Peet o colocou no chão e segurou os ombros de Janner, com as testas quase se tocando. “Leeliby? Tinkifeather? Eles estão seguros? Seguros?” Janner acenou com a cabeça, ansiosamente. Nugget ganiu na beirada do porão, querendo pular, mas com medo da queda. Janner estendeu a mão e disse-lhe para ficar, temendo que, se Nugget entrasse, teriam trabalho demais para retirá-lo. “Venha”, chamou Janner, levando Peet pelo túnel. Janner escancarou a porta da câmara e a luz caiu sobre sua família. Eles pareciam tão em paz que preferiria não os acordar. Mas quando os olhos de Peet pousaram em Leeli e depois em Tink, ele engasgou-se de alegria e disse: “Eiiii!” De uma só vez, Leeli, Tink e Nia se espreguiçaram, concentraram o olhar e bocejaram, confusos com o que ou quem os havia acordado. Tudo o que conseguiam ver eram as silhuetas de Janner e Peet, no vão da porta. “Janner?” Nia chamou. “É você? Os Fangs... se foram?” “Todos mortos, mortos, escente e dama, dente e escama”, relatou Peet. “Sim, mamãe”, respondeu Janner com um sorriso. “O Amanhecer chegou.” “Vovô?” Leeli perguntou, correndo até onde ele estava deitado no chão. O sangue encharcara o pano que cobria a ferida de Podo, e tinha se acumulado no chão, numa poça ao redor dele. Nia segurou seu rosto e chamou seu nome, com uma voz trêmula. A respiração do velho pirata era superficial e aquosa. Por mais que tentassem, eles não conseguiam acordálo. Podo estava prestes a morrer. 46 A Água do Primeiro Poço A luz estava mais forte na câmara de armas, e uma leve brisa movia as longas teias de aranha que pendiam das armas e armaduras. O gemido do vento continuava, mas à luz do dia, havia perdido seu teor fantasmagórico. A família se punha, de pé ou de joelhos, ao redor de Podo, sem saber o que fazer. O velho pirata sempre esteve no comando, e eles se sentiam desamparados sem tê-lo gritando as ordens. Nia respirou fundo e, graciosamente, assumiu essa função. “Janner, Tink. Ajudem-me a colocá-lo em uma luz melhor. Preciso ver a cor de seu rosto.” Podo gemeu enquanto o arrastavam para mais perto da porta. O rosto de Nia estava sério quando ela olhou para seu pai. “Peet”, ela o chamou. “É hora de você nos contar o que aconteceu com Nugget.” Peet desviou o olhar e ficou remexendo a frente de sua camisa. “Peet”, Nia insistiu. “Meu pai vai morrer, e tenho a sensação de que você pode ajudá-lo. Eu sei que vocês dois têm... um histórico”, rememorou com um olhar para Leeli, “mas ele precisa de você agora. Todos nós precisamos.” Peet assentiu, mas sem a olhar nos olhos. “Como você curou Nugget?” Perguntou Nia. “Já li sobre coisas assim nos livros antigos, mas nunca vi nada parecido antes.” Peet lançou olhares ansiosos para a porta e mudou seu peso de um pé para o outro, como se quisesse fugir. Depois de um longo momento, ele falou. “Água do primeiro poço”. Os olhos de Nia se arregalaram. “O quê?” Ela sussurrou. “Eu curei cugget, o não — Nugget, o cão — com água... do Primeiro Poço.” “Mas... onde você, digo...” “O que é o Primeiro Poço?” Leeli perguntou. Ela estava sentada ao lado de Podo, segurando uma de suas grandes mãos retorcidas entre suas mãozinhas. “O Primeiro Poço”, Nia respondeu, ainda olhando atentamente para Peet, “é, é... o primeiro poço do mundo. O primeiro poço em Kistamos. Um presente do Criador para Dwayne e Gladys.”1 “Os primeiros companheiros?” Janner perguntou. “Sim. Os antigos contos dizem que a água foi derramada na boca do poço pelo próprio Criador. Ela corre sob o solo e é a força vital de Kistamos. Sem ela as árvores nunca floresceriam e a grama jamais cresceria. Toda a vida arrefeceria até finalmente desaparecer. O Criador nos deu o poço como um presente, que, por muito tempo, foi guardado e usado para curar e restaurar.” “E o poço se perdeu?” Tink questionou. “Sim, se perdeu. Muito tempo atrás. Antes mesmo de Anniera ter um nome.” Nia observou Peet. “Até agora.” Peet estava fungando, grandes lágrimas mais uma vez enchiam seus olhos cansados. “Anos atrás, antes de vir pra cá, eu o encontrei.” Peet estremeceu com alguma memória terrível. “Encontrei o Primeiro Poço e trouxe um pouco da água pra cá. Quando vi o pequeno Mugget norrendo — Nugget morrendo —, peguei um pouco, lá do meu castelo, e dei ao cão uma gota pra beber.” Peet sorriu para Leeli em meio às lágrimas. “E funcionou.” “Onde está a água agora?” Nia perguntou com tanta paciência quanto conseguia reunir. “Você pode pegar um pouco e trazer aqui?” Peet assentiu, limpou o nariz com uma das meias e partiu. Janner olhou para seu querido avô, que lutou tanto por eles, e sorriu ao pensar nele ficando um metro mais alto — e mais largo — com um gole da água ancestral. Podo já era a maior alma que ele conhecia. Mas naquele momento, Janner pensou, seu avô parecia estar encolhendo e seu rosto avançara do pálido para o cinza. “Por favor, se apresse, Peet”, Nia implorou com um sussurro, acariciando o rosto de seu pai. Janner e Tink puxaram Leeli do lado de Podo e ajudaram-na a sair do túnel para ver seu amado cachorro. Os Fangs que morreram no túnel não passavam de poeira e armaduras, e as crianças passaram facilmente por eles. Nugget estava deitado, com o focinho pendurado na borda do porão. A visão de Leeli o fez latir, abanar o rabo e correr o mais rápido que podia, em círculos de tremer o solo. Leeli deu uma risadinha e bateu palmas. Ela acenou para seu cachorrocavalo, e reclamou que ainda não havia como chegar até o amigo. Mas seu ânimo estava mais leve, e isso deixou o coração de Janner feliz. “Não acredito que conseguimos”, comemorou Tink consigo mesmo. Ele estreitou os olhos para o céu, da mesma forma que Janner havia feito, apreciando, talvez pela primeira vez, como o céu era maravilhoso de se ver. “Devíamos ficar com a mamãe”, ele aconselhou. “Ela não deveria estar sozinha se vovô...” “Você está certo. Vamos, Leeli”, chamou Janner. “Nós voltaremos”, assegurou Leeli a Nugget, que gemeu em resposta. Nia parecia pequena, sozinha com Podo na câmara. Ela estava com a cabeça do pai deitada em seu colo e orava por ele, balançando suavemente de um lado para o outro. Ela parecia desesperada. Até onde Janner podia conjecturar, Podo não tinha chances de sobreviver. O mais velho dos irmãos Igiby sentia o coração afundar no peito, pesaroso de tristeza e endurecido de raiva. Ele estava com raiva dos Fangs por terem colocado os pés em Skree. Janner estava com raiva de Zouzab por tê-los traído. Ele estava até começando a sentir raiva do Criador, por criar um mundo onde coisas como aquelas podiam acontecer. Podo havia lutado bravamente, incansavelmente, para proteger aqueles que amava, por liberdade e pelo que é bom, e ali estava ele, morrendo. “Seu pai era um bom homem. Um homem valente. Ele lutou bem e morreu bem, na Grande Guerra.” Janner podia ouvir Podo dizendo isso sobre seu pai, Esben, e agora estava acontecendo o mesmo com o velho guerreiro. Ele certamente lutou bem, e logo morreria bem, embora não na Grande Guerra. E era tudo por eles, pensou Janner, por sua filha e seus três netos, que sobreviveram para ver o amplo céu azul naquela manhã. Então Janner se lembrou das Joias de Anniera. Nada daquilo teria acontecido se não fosse por aquelas malditas joias que Gnag e todos os seus asseclas estavam tão empenhados em encontrar. E nada daquilo teria acontecido se Podo e Nia não estivessem tentando mantê-las escondidas. Janner sentiu sua raiva voltando-se para Podo e sua mãe, por se importarem mais com as Joias de Anniera do que com ele e seus irmãos. Por que eles simplesmente não desistiram das joias? Será que aquelas joias realmente valiam o preço de perder sua casa? Valia a pena morrer por elas? Janner sentia as lágrimas querendo emergir, sentia o nó na garganta, e se virou para que Tink não o visse chorar. Mas a cabeça de Tink estava enterrada em seu braço; ele estava encostado na parede — soluços abafados vinham dele, em ondas. A espera parecia uma eternidade, enquanto Podo gemia e Nia orava e as três crianças choravam pelo avô. E então Janner ouviu um farfalhar. Peet, o Homem-Meia apareceu na porta da câmara. Com uma mão emeiada estendida, ele oferecia um pequeno frasco de couro. Leeli empurrou Peet na direção de Nia, que segurava a cabeça de Podo. Tink e Janner juntaram-se a eles, reunidos em torno de Podo, enquanto Peet removia a tampa do frasco. Nia ergueu a cabeça de Podo e abriu sua boca para que Peet pudesse derramar um pouco da água. Mas Peet balançou a cabeça e, em vez disso, puxou a tira da bandagem improvisada, expondo a ferida. A abertura era mais profunda e pior do que eles imaginavam, e Leeli cobriu os olhos. Peet derramou um fio d’água sobre o ferimento, assentiu com a cabeça e tapou novamente o recipiente. “Tem certeza de que é tudo o que ele precisa?” Nia fitava o rosto de Peet. “Ele mal respira.” “Eu usei um pouco demais no Nugget, você não acha? Não precisamos de um Podo gigante, precisamos?” Peet riu nervosamente. “Eu não, certamente.” Vendo que ninguém ria com ele, o rosto de Peet se endireitou. “A água é forte. Pode curar feridas mais profundas do que essa.” Peet olhou para suas mãos com meias e a velha tristeza voltou ao seu rosto. Ele suspirou, enxugando as mãos na túnica, como se pudesse limpar as garras que estavam escondidas sob o tricô. “Estarei lá fora”, avisou. “Não quero ser a crimeira poisa que ele veja quando acordar.” Peet saiu do cômodo. “O que eu não daria por uma panela de floelho ensopado, agora”, resmungou uma voz calorosa e cheia de brio. Podo estava deitado no chão olhando nos olhos de sua filha e sorrindo. Muito felizes, as crianças correram até o avô, com cuidado para não esbarrarem na ferida. Apenas uma cicatriz rosada permanecia sob o sangue seco, cristalizado pela água do Primeiro Poço. Podo se sentou e bocejou como se estivesse cochilando em sua cadeira favorita. Ele sorriu para Janner, Tink e Leeli com olhos que pareciam mais jovens do que deveriam ser, e os Igibys choraram, riram e o apertaram como se ele tivesse acabado de voltar de uma longa jornada. Depois de se esticar bem, Podo levantou-se e pegou sua trouxa. Havia uma ginga de menino em seus passos, enquanto passava, com sua família, pela porta de ferro. Eles pisavam sobre pilhas empoeiradas e armaduras, enquanto Janner e Tink contavam os eventos da longa noite: o incêndio da mansão, os uivos das matilhas e os gritos dos Fangs, e sobre a água de Peet, do Primeiro Poço. Nia ouvia com orgulho, enquanto seus filhos regalavam o velho pirata com uma história que rivalizava com as dele mesmo. Podo ouvia tudo, abaixando e levantando suas sobrancelhas a cada passo da história. Leeli, mancando, aninhou-se sob o braço do avô. Seu rosto se iluminou quando eles alcançaram a borda da parede do porão. Peet estava lá, sentado na beira do porão, ao lado de Nugget. Sem falar ou olhar para Podo, Peet jogou uma corda. Ele ergueu Podo primeiro, e então, com outra de suas silenciosas e intensas trocas de olhares, Peet recuou, deixando que Podo puxasse para a luz do dia o resto de sua família. 47 Velhas Feridas Nugget latiu (um latido alto e denso) e Leeli subiu em suas costas novamente. Montada em Nugget, ela brilhava como a luz do sol. Em direção ao oriente, o céu começava a nublar sobre o Mar Sombrio da Escuridão, onde se formava uma densa tempestade. A grama alta da planície ondulava feito o mar, e, perto de sua borda âmbar, havia incontáveis corpos de canicórneos. As feras estavam espalhadas pelo campo e ao redor da Mansão Pé-de-Geleia em grupos, a maioria ao lado de pilhas reveladoras de armaduras Fang, cujos restos brancos e empoeirados eram soprados pelo constante vento leste. Perto da floresta, Janner avistou seis vacas-dentadas mortas, do tamanho de Nugget, e ao redor delas havia um denso agrupamento de armaduras e armas Fang. Uma poderosa batalha fora travada enquanto os Igibys dormiam nas entranhas da mansão. Agora, apenas as moscas zumbiam em torno dos cadáveres, enquanto onde eles se encontravam o sol batia cada vez mais alto e mais forte. Podo mandou Janner e Tink de volta à sala de armas várias vezes, para pegar espadas, escudos e arcos com um bom suprimento de flechas. Após vasculharem as pilhas de armas, Tink e Janner escolheram as espadas que haviam usado na noite anterior. Com uma última olhada para o arsenal secreto de Oskar, eles fecharam a porta de ferro e puxaram a maçaneta para se certificar de que estava bem trancada. Os meninos passaram as armas para Podo e escalaram a corda. “Certo, então”, constatou Podo. “Temos um longo caminho a percorrer até as Pradarias de Gelo. E não demorará muito para que alguém descubra o que aconteceu aqui esta noite. Com certeza, teremos toda espécie de bestas e feras atrás de nós, procurando as Joias de Anniera.” Janner se irritou, cansado de ouvir sobre as joias que haviam arruinado a vida deles. Cansado de não saber o que elas eram e por que Gnag, o SemNome as queria tanto. Janner estava farto de adultos e de seus segredos, e embora estivesse feliz por seu avô estar vivo e feliz por todos terem sobrevivido à noite, ele tinha uma rajada de ressentimento em seu peito que estava se transformando em uma tempestade — uma tempestade que ele não conseguia mais conter. “Vocês ficam falando dessas joias preciosas! Tudo o que nos aconteceu foi por causa delas, mas ninguém vai nos dizer onde estão! Perdemos nossa casa, nossos amigos — e quase perdemos o senhor, vovô — tudo porque Gnag, o Sem-Nome quer essas joias. Por alguma razão, vocês acham que essas ‘joias preciosas’ são mais preciosas do que nós, ou, pra começo de conversa, vocês não as guardariam, não é? Por que não podemos simplesmente pegá-las e jogá-las no Mar Sombrio para que parem de destruir tudo ao nosso redor? E, agora, o que estamos fazendo? Agora estamos fugindo, para as Pradarias de Gelo, onde quer que isso seja, e ainda assim vocês não nos dirão o que está acontecendo!” Podo esperou pacientemente que Janner terminasse. Janner respirou fundo e deixou escapar: “Então, o que está acontecendo?” Para sua surpresa, Podo não estava zangado e Nia estava até sorrindo. “Sim!” Tink acrescentou, cruzando os braços. “O que está acontecendo?” Agora foi Podo quem sorriu. Ele olhou para Nia e eles riram. Janner não conseguia entender, e nem Podo, nem sua mãe tentaram ajudar. “Vamos contar a vocês tudo sobre isso, esta noite”, afirmou Podo, virando-se em direção à estrada, “assim que encontrarmos um lugar seguro para descansar.” O velho jogou a trouxa por cima do ombro e respirou fundo, com alegria, o ar salgado. “Sigam o velho Podo!”, e então bradou com gosto e marchou na direção sudoeste, para longe da floresta. “Papai”, Nia o chamou. “Oi?” Podo respondeu, parando a alguns passos de distância. “Acho que devemos ir para a casa da árvore de Peet. Ele tem comida e...” “Comida?” Perguntou Tink. Peet, o Homem-Meia animou-se e olhou para Nia, com um brilho de esperança nos olhos. “Nós não vamos pra lá”, asseverou Podo, com as sobrancelhas espessas franzidas. “Estamos indo pra Torrboro, depois subindo a Estrada Norte, até encontrarmos uma passagem segura pras Pradarias de Gelo.” Ele virou a cabeça e saiu novamente, mas Nia não se moveu. Podo se virou outra vez, com o rosto vermelho. “Vamos, eu disse!” “Não.” As costas de Nia se endireitaram. “O quê?!” Podo deu um passo de volta, em direção à filha. “Eu disse não.” Nia deu um passo à frente. “Você tem carregado sua raiva por tempo suficiente, papai, e agora essa raiva está se tornando um fardo que você não carrega mais sozinho. Isso está nos fazendo sofrer com você — seu velho tolo teimoso.” Podo ficou pasmo. “Peet salvou as vidas de todos nós”, Nia emendou, “e mais recentemente, a sua. Você pode se sentir bem agora, mas há menos de meia hora, a morte jazia à porta. E você sabe a quem deveria estar agradecendo pela respiração em seus pulmões?” Peet estava recuando, timidamente, mas Nia agarrou seu braço e o puxou para frente. “A este homem”, afirmou ela. “Ele tem mantimentos e abrigo na floresta, onde nenhum Fang vai querer se aventurar por muito tempo, depois do que aconteceu aqui. Agora, eu amo você, papai, mas sou a mãe dessas crianças e minha intenção é colocar comida em suas barrigas e travesseiros sob suas cabeças. Vamos para a casa da árvore de Peet, e ponto-final.” Olhares misturados de perplexidade, vergonha e raiva brilharam no rosto de Podo. Janner teve vontade de rir. Podo gaguejou e formou o início das palavras com a boca, mas não encontrou nada para dizer. “Peet, mostre o caminho”, Nia ordenou. Peet obedeceu à ordem de Nia com os olhos arregalados e um sorriso nervoso, marchando na direção oposta à de Podo. Nia e os meninos o seguiram. Leeli cavalgou Nugget até onde Podo estava, sozinho e estupefato, e, aproximando-se dele, inclinou-se e beijou-o na bochecha barbuda. Nugget fez o mesmo, arrastando uma língua rosa desleixada pelo braço de Podo, ensopando sua camisa. Então, eles também se afastaram de Podo e seguiram Peet, movendo-se para o norte e para o oeste, na direção da floresta. Podo olhou para os restos fumegantes da Mansão Pé-de-Geleia. “Humf”, finalmente resmungou, marchando atrás de sua família. 48 Abrigo O céu cinza havia se tornado um rio de nuvens agitadas, voando baixo, movendo-se tão pesadas e próximas que pareciam raspar as copas das árvores. Os Igibys, um cachorro gigante e Peet, o Homem-Meia caminharam ao longo da borda da floresta por uma hora. Janner manteve um olhar cuidadoso nas árvores, à direita, mas Peet não dava sinais de preocupação. Ele caminhava sem falar — seu cabelo branco era chicoteado pelo vento forte. Janner se consolava com a confiança do estranho homem. Ele tinha provado ser um bom amigo e um guerreiro capaz. Atrás deles, outro homem de cabelos brancos caminhava em silêncio. Podo não havia dito uma palavra desde que saíram para a casa da árvore, de Peet, mas seus olhos mostravam que seu espírito estava mais leve. Ele não parecia mais tão zangado e aparentava estar considerando algum assunto que exigia cuidadosa reflexão. Leeli cavalgava ereta, como uma rainha em um cavalo real — o sorriso não cessava de seu rosto. Ela tinha sua família e seu cachorro, e não precisava mais da muleta enquanto Nugget estivesse por perto. Suas patas peludas eram grandes como travessas, mas faziam pouco barulho enquanto caminhava. O braço de Nia estava em torno de Tink, cujo corpo magro mostrava sinais de fadiga. Ele se apoiava na mãe e descansava a cabeça em seu ombro. Janner olhou para trás, na direção de Glipwood, mas não conseguiu ver nada da cidade. Eles passaram por algumas fazendas abandonadas, mas, fora isso, não viram nenhum sinal, fosse de humano, fosse de Fang. Janner pensou no chalé da família, no fim terrível de Slarb com os thwaps e com a espada rápida de Podo. Ele estremeceu ao pensar o quão perto ele e Tink estiveram de morrer nas mãos daquela criatura enlouquecida. Mas não morreram. Mesmo com um oceano de Fangs em perseguição, eles, de alguma forma, graças ao Criador, permaneceram vivos e inteiros. Mas nem todos sobreviveram. A última vez que Janner o vira, Oskar estava deitado no chão de sua querida livraria, instando os Igibys a fugirem. Com seu último suspiro ele tentou salvá-los. Foi Oskar quem lhes proveu refúgio sob a Mansão Pé-de-Geleia, que perdera a vida tentando proteger Leeli e Nia. Mas por que Oskar escondeu as armas? Janner se perguntava. E como ele chegou até elas? Janner lembrava que Oskar havia passado muitos anos, desde a guerra, viajando por Skree, reunindo livros e curiosidades. Mas armas? Será que ele estava, na verdade, procurando pelas Joias de Anniera? Seria isso o que Podo estava carregando na trouxa sobre seus ombros? Por que seu avô desprezava tanto Peet, o Homem-Meia? E o maior questionamento de todos: por que os Igibys estavam na posse de algo que Gnag, o Sem-Nome desejava tão implacavelmente encontrar? Janner estava consumido por tantas perguntas que quase não ouviu o anúncio de Peet. “Aqui estamos.” Peet parou em frente ao maior carvalho à vista. O carvalho se projetava para além das outras árvores da floresta e estendia seus densos e pesados galhos acima e ao redor deles, como uma galinha protegendo seus pintinhos. “Rugget estará seguro aqui”, garantiu Peet enquanto se lançava para os galhos mais baixos e estendia a mão para ajudar Nia a subir. Muito acima deles, quase invisível por trás das folhas, estava uma das pontes de corda e tábua de Peet, pendurada entre as árvores. “Pra cima nós vamos”, declarou, ainda sem olhar para Podo. Ele puxou todos, exceto o velho, nem ofereceu ajuda, mas se afastou de Podo e abriu caminho pelos galhos até a ponte. Podo passou a trouxa para Janner e subiu, com muito menos graciosidade, na árvore. Janner sentiu um respingo de chuva e ergueu os olhos. O céu havia escurecido e as pontes de corda começaram a balançar com o vento de uma tempestade crescente. Peet, Podo e os Igibys correram ao longo das pontes, enquanto a tempestade precipitava sua forte chuva; eles já estavam encharcados quando finalmente subiram pelo alçapão, gratos por entrarem no castelo de Peet. Para Janner, com a tempestade soprando lá fora, a casa da árvore era a melhor acomodação em todo o país. Ele ajudou Peet a acender depressa três lampiões, e saboreou a reconfortante luz amarela e laranja que lançavam nas paredes e no teto. Peet fechou a porta e o uivo do vento quase desapareceu. Leeli encontrou um lugar e se sentou com as costas contra a parede — cobertor seco sob o queixo. Peet apontou para uma pilha de colchas velhas ao lado dela. “Muitos cobertores secos para vocês. Fica muito frio aqui no inverno, viu, viu?” “Senhor Peet, e quanto ao fogo?” “Hãn? Ah, o fogo. Estou aqui há tempo suficiente para que os canicórneos me deixem em paz, Jangiby. Além disso, a maioria das feras não consegue escalar. O pastelo de Ceet é seguro.” “Humf”, resmungou Podo, inspecionando a casa da árvore e se esforçando ao máximo para não ficar impressionado. Nia deu uma cotovelada nele. “Peet, é adorável. Posso ajudar você em alguma coisa?” Peet estava radiante. Ele se ocupou com potes e panelas, vasculhando sacos de grãos e carnes secas e vegetais, minúsculas garrafas de especiarias e ervas. Enquanto Peet preparava a refeição, cada um dos outros encontrou um recanto e uma colcha e se acomodou. Podo recusou um cobertor e encostouse na parede, olhando para as mãos. A chuva batia nas janelas e nas laterais da casa, mas Peet havia selado bem a estrutura. Nem uma gota d’água vazava. A casa da árvore balançava e rangia em seu poleiro, e o cheiro de ensopado encheu a narina de todos. Janner, como todos os Igibys, adormeceu, agradecendo ao Criador por estarem seguros e secos no castelo de Peet. Inclusive Podo. 49 As Joias de Anniera Janner acordou muito antes de seus olhos se abrirem. Ele estava deitado sob um cobertor quente, sentindo o movimento de vaivém da casa da árvore, ouvindo o murmúrio de conversa suave e a chuva nas janelas. Ele ainda não queria acordar. O uivo do vento e o estrondo dos trovões intensificavam sua alegria, ali no abrigo. Nia percebeu que ele se mexeu e beijou sua bochecha. “Olá, querido”, cumprimentou-o. Ele sorriu, espreguiçou-se e forçou-se a sentar. Tink e Leeli estavam acordados e sorrindo para ele. O alçapão se abriu e Podo entrou no cômodo, com as roupas ensopadas. “O velho Nugget tem um lugar seco, agora”, assegurou ele alegremente. “Obrigada, vovô”, agradeceu Leeli, abraçando a perna do avô. Ela olhou pelo alçapão para o abrigo improvisado que Podo havia montado, com madeira e peles de animais que Peet havia providenciado. “Sim, moça. Seu cachorro está seco como um osso e satisfeito por estar por perto”, tranquilizou-a Podo. “Ele enviou uma mensagem pra você, também.” Leeli parecia confusa, e Podo a ergueu para fungar em volta do queixo e ombros, como um cachorro. Ela gritava de alegria e todos se juntaram às risadas. Peet pigarreou e declarou que o guisado estava pronto. No alto dos galhos de um carvalho de Glipwood, no meio da tempestade mais violenta que Skree viu em mil anos, os Igibys, Podo Helmer e Peet, o Homem-Meia compartilhavam uma refeição juntos. Embora Peet ficasse em silêncio e, às vezes, soturno, havia muitas risadas e ações de graças pela provisão e bondade do Criador, enquanto eles comiam e bebiam até que suas barrigas estivessem cheias. Janner viu a trouxa de Podo caída no canto e decidiu que era hora de respostas. Ele não era o único. Sem uma palavra, uma sensação de gravidade se abateu sobre todos eles, e ficaram em silêncio, enquanto mastigavam a comida. Finalmente, Janner colocou sua tigela vazia no chão, ao lado dele. “As Joias de Anniera”, começou ele, cruzando os braços. “Onde estão elas?” Nia e Podo olharam um para o outro, depois para Peet. Tink e Leeli mal respiravam, tão ansiosos quanto Janner para saber a verdade. Nia assentiu para Podo e colocou a mão no antebraço emeiado de Peet, enquanto Podo apanhava sua trouxa, da porta. O velho pirata tinha um brilho nos olhos novamente, e uma expectativa crepitante se movia como faíscas invisíveis entre as crianças. Podo fez uma pausa, saboreando o momento, e então disse, com as sobrancelhas espessas erguidas: “Para começar, você não está fazendo a pergunta certa.” Sua declaração ficou suspensa no ar por um momento. Tink semicerrou os olhos para o avô. “É... então, o que o senhor tem na trouxa?” “Não. A verdadeira questão é...” Podo fez uma pausa dramática. “O que são as Joias de Anniera?” Janner sentiu seus braços formigarem. Havia algo estranho na maneira como os três adultos os observavam, sorrindo. “As joias de Anniera”, Nia emendou, “têm sido procuradas por Gnag, o Sem-Nome desde que a Grande Guerra se abateu sobre o litoral da Ilha Brilhante e a sobrepujou. Gnag destruiu tudo o que havia de bom e belo naquele lugar... exceto as joias. E ele as tem procurado desde então. Gnag ficou obcecado por elas e arruinou nações em sua busca porque acredita que as Joias de Anniera detêm um poder oculto. Sua busca pelas joias é o que o trouxe a Skree. Se ele não acreditasse que vieram pra cá, acho que ele não teria se incomodado em cruzar o Mar Sombrio da Escuridão.” “Mas ele veio”, emendou Podo gravemente. “Alguém deu as joias ao senhor?” Tink deixou escapar. “Como você acabou com as joias se eram de Anniera? Você concordou em esconder as joias?” Janner podia sentir suas emoções crescendo novamente. “Como você pôde fazer isso quando sabia que nos colocaria — e a todos em Glipwood — em perigo? E por que, pra começo de conversa, você daria algumas das joias para o Gnorm, se sabia que elas poderiam trazer Gnag até aqui?” “Janner, as joias que dei a Gnorm não tinham valor para mim”, Nia respondeu gentilmente. “Antes, elas podem ter significado algo, mas foram mantidas escondidas para um momento como aquele. Gnag não daria a mínima para aquelas joias. Deve ter havido algo que não notei nelas que as identificaram como sendo de Anniera.” “Anniera?” Leeli perguntou. “Como você conseguiu ouro e joias de Anniera?” Nia fez uma pausa. “Porque eu as trouxe pra cá. De Anniera.” A confusão das crianças era tão evidente que Podo riu. “Minhas crianças, viemos pra cá de Anniera pra escapar de Gnag e seu exército, durante a Grande Guerra.” “Mas, vovô, o senhor é de Glipwood! E mamãe também!” Leeli foi ficando cada vez mais confusa. “Não, querida”, Nia corrigiu a filha. “Seu avô é de Glipwood. Mas eu nasci em Vales Verdes, do outro lado do Mar Sombrio, onde ele conheceu sua avó. Quando me casei com seu pai, todos nós fomos morar em Anniera. Mas quando a guerra nos alcançou, fugimos.” “Tínhamos que proteger as joias, viu?” Observou Podo. “Então, onde elas estão?” Tink demandou. “Eu disse a você, rapaz. Essa é a pergunta errada.” “Tá bom, tá bom. O que são as Joias de Anniera, então?” A pergunta pairou no ar como fumaça, ou como partículas de poeira capturadas por um feixe brilhante de luz. Os três adultos sentados e olhando para as três crianças. As crianças olhando de volta para os adultos. O estômago de Janner deu uma cambalhota e sua cabeça ficou tonta. Ele não sabia qual era a resposta, mas sentia em seus ossos que, qualquer que fosse, mudaria tudo. Tudo. Peet, o Homem-Meia pigarreou e se inclinou para frente. Seus grandes olhos carregavam menos tristeza do que Janner jamais vira, e ele sorriu para os rostos das crianças Igiby — primeiro Janner, depois Tink, depois Leeli, e depois Janner novamente. “Vocês”, revelou ele. “Vocês são as Joias de Anniera.” Ninguém falou. Nenhuma das crianças respirava. Seus corações vibravam com a verdade do que havia sido dito. O ar em torno das palavras de Peet teria brilhado, fosse possível ver tal coisa, e as crianças sabiam que aquilo era verdade. Janner engoliu em seco. “O que... O que você quer dizer?” “O pai de vocês...” Nia explicou lentamente — lágrimas lhe sufocavam as palavras e começaram a transbordar de seus olhos. “O pai de vocês era o Rei Supremo da Ilha Brilhante.” 50 Os Guardiões do Trono Eu era a rainha”, Nia revelou. “Vocês três”, ela deixou escapar um longo e melancólico suspiro, “são tudo o que resta do grande reino de além-mar.” “As joias de Anniera”, Peet sussurrou, e se curvou tão baixo que sua testa tocou o chão. Podo, para surpresa deles, fez o mesmo. Janner pensou no retrato de seu pai na proa do barco, com os braços tão abertos quanto seu sorriso. Um rei? E não qualquer rei, mas o rei de Anniera? Janner mal conseguia acreditar no que estava acontecendo. Na verdade, ele não acreditava. Mas ele sabia. E agora ele percebia que sempre soube, mas o pensamento o atingiu tanto com medo quanto com admiração. “Então, se meu pai está morto, isso significa... Eu sou... rei?” Janner gaguejou. Nia o fitou. “Não, filho. Não, você não é.” As bochechas de Janner coraram. “Está tudo bem, querido”, consolou-o, colocando a mão em seu braço. “Veja, em Anniera, a realeza é preterida ao filho mais velho. Desde os primórdios do governo de Anniera, a posição de maior distinção é a de protetor. Muitos reinos caíram por causa da inveja, ganância e desejo de poder. Então, o segundo filho herda a coroa.” Ela olhou para Tink. “Seu irmão é o legítimo herdeiro do trono.” Tink corou e desviou o olhar dos olhos plácidos de sua mãe. Janner sentiu um arrepio indesejado de inveja em seu estômago. “Mas uma grande honra é concedida ao mais velho”, Nia continuou, tomando a mão de Janner. “O filho mais velho, com o nascimento do mais novo, torna-se o protetor do rei. É o dever de sua vida servir ao irmão mais novo e defendê-lo de todos os perigos. Ele é forjado para a batalha, e seu nome é honrado em todas as casas do reino.” Janner pensou em toda a pressão que sua mãe e Podo haviam colocado sobre ele para cuidar de Tink e Leeli. Não se passava um dia sem que tivessem lhe dito que era seu dever, como irmão mais velho, cuidar deles. Era sempre tão sufocante, e agora ele imaginava seu futuro como um velho rebaixado, acorrentado ao irmão para sempre, incapaz de fazer qualquer coisa por si mesmo — uma vida inteira se preocupando com seu imprudente irmão caçula e irmã aleijada, enquanto Tink haveria de reinar e Leeli faria — bom, o que ela quisesse. Nia pressentiu os pensamentos do filho. Ela pegou o rosto de Janner nas mãos e fixou seus olhos nos dele. “Não é pouca coisa ser um Guardião do Trono de Anniera. Eles têm sido louvados por bardos por mil anos e recebido um lugar de honra como em nenhum outro reino — como nenhum outro rei no mundo —, não porque são senhores, mas porque são servos. Houve muitos dias em que seu pai desejou ser um Guardião do Trono, e não o Rei Supremo. Mas Janner havia parado de ouvir. A inveja ardente em seu peito esfriou quando ele se lembrou de algo que vira em um dos diários de Peet. “Guardião do Trono?” Questionou Janner. “Sim, é o nome para...” “Artham P. Wingfeather, Guardião do Trono de Anniera”, adiantou Janner. Peet ergueu a cabeça do chão. “Sim, meu senhor”, respondeu a Janner. Tink engasgou. “Mas, isso faria de você...” “Nosso tio!” Leeli concluiu. “Sim, Senhora Leeli”, anuiu Peet, curvando-se ao chão outra vez. Podo estava observando Peet com um olhar carrancudo. Seu bom humor estava desaparecendo. “Já é o suficiente, Artham”, Podo interrompeu, tentando, por causa de Nia, não soar tão rude. “Mas o que aconteceu com você? Com seus braços?” Janner perguntou. “Isso é algo que eu mesma queria perguntar a ele”, emendou Nia, virandose para Peet. Mas Peet balançou a cabeça violentamente. Ele recuou contra a parede da casa da árvore e fixou-os com um olhar de tal terror, que Janner ficou de pé. Peet arfava, respirando rápido e estava coberto de suor. “Para trás!” Podo disse para as crianças. Elas se amontoaram na parede da casa da árvore e Podo se colocou entre elas e Peet. Nia colocou a mão no braço de Podo e caminhou lentamente até o Homem-Meia. “Shh...” Ela sussurrou para ele. “Artham. Artham, sou eu, Nia. Você está seguro.” Sua voz parecia ter um efeito calmante até sobre o vento que batia lá fora. E, por um tempo, a chuva caiu mais devagar. Peet olhou para Nia e sua respiração começou a suavizar, a cada inspiração. Ela se sentou ao lado dele e o aconchegou junto a si. Abraçando-o como uma mãe que acalma uma criança que acorda de um pesadelo, Peet, tal qual uma criança, deixou seus olhos finalmente se fecharem. Ele logo adormeceu. Os olhos de Nia cintilavam de tristeza enquanto ela o segurava. “Vocês deveriam tê-lo visto em Anniera, quando ele era o Guardião do Trono”, Nia relatou calmamente. “Seu cabelo era negro como a meia-noite, e ele estava na mira de todas as donzelas do reino. Ele compunha a mais bela poesia. Escrevia grandes contos e poemas bobos e os lia para vocês, Janner e Tink, enquanto deitados em seus berços, à noite. Seu pai costumava dizer que não havia melhor homem no reino do que seu irmão, Artham.” Peet choramingou em seu sono. “Shh...” Nia o acalmou novamente. As crianças se afastaram dos cantos da casa. Podo sentou-se bufando, meneando a cabeça. “Ele é perigoso, Nia.” “Ele morreria antes de machucar essas crianças, papai.” “Mas o que aconteceu com ele?” Janner perguntou. “Não sabemos”, Nia respondeu. “Quando Gnag e seu exército atacaram Anniera, eles nos levaram para o Castelo Rysen, em Dorminey, no centro do reino. Foi lá que fizemos nossa casa.” Nia olhou para a chuva escorrendo pelo vidro da janela da casa da árvore. “Os Fangs, os trols e outras feras nojentas, que nunca tínhamos visto antes, romperam os muros — Leeli, você havia acabado de nascer. Janner, você tinha três anos; Tink, você tinha dois. Seu pai disse a Peet para nos pegar e ir embora. Havia uma rota de fuga antiga, uma saída secreta do palácio que levava ao Rio Rysen e, depois, ao Mar Sombrio. Mas seu pai não iria em seguida. Ele disse que lutaria o quanto pudesse e então nos encontraria no rio.” “Seu pai”, continuou Podo, “insistiu que fôssemos. Ele disse que havia algo no palácio que precisava pegar. Algo que devia manter longe das garras de Gnag.” “E você não sabe o que era?” Perguntou Janner. “Não faço ideia”, respondeu Podo. “Vejam, crianças”, explicou Nia, “proteger o irmão estava no sangue e nos ossos de Peet. É a própria respiração de um Guardião do Trono.” Janner e Tink olharam um para o outro, sem jeito. “Mas seu pai ordenou que ele nos levasse a salvo até o rio. Peet não sabia o que fazer. Ele amava a todos nós e queria nos ajudar, mas não suportava a ideia de deixar seu irmão para trás. Os monstros estavam no palácio e procuravam por nós. Artham — Peet — deixou seu pai, mas apenas para nos ajudar.” Nia acariciou o rosto de Peet. “Pode ter sido a coisa mais difícil que ele já fez.” Ela ficou em silêncio por um instante, o único som sendo o tamborilar da chuva contra as janelas. “Ele jurou voltar assim que estivéssemos seguros”, Nia rememorou, perdida na memória. “Peet enfrentou os Fangs e nos conduziu à saída secreta, onde seu avô ficou de nos encontrar com um barco. Eu carregava você, Leeli. Janner, você tinha idade suficiente para segurar minha mão e acompanhar. Tink, minha mãe carregava você.” Podo olhou para o lado de fora. “Nossa avó?” Leeli ficou repentinamente com os olhos arregalados. “Ela nos conheceu?” “Sim”, revelou Podo — sua voz densa de tristeza. “E ela ainda os conheceria, se não fosse por esse seu tio.” Podo cuspiu. “Papai, chega!” Podo enxugou uma lágrima do rosto. Janner nunca o tinha visto chorar. “Chegamos à margem do rio antes do seu avô”, Nia continuou. “Fangs e trols surgiram do nada e nos atacaram. Peet era o melhor espadachim do reino, mas mesmo ele não poderia lutar contra tantos.” Ela fez uma pausa para engolir o nó na garganta. “Mamãe — sua avó — foi morta.” “Mas por que culpar Peet por isso?” Questionou Janner. “Sendo que você acabou de dizer que havia Fangs demais.” Podo tremia as sobrancelhas. Seguiu-se um silêncio desconfortável. Seu olhar voltado a Peet era de rancor. “O que aconteceu com ela não foi culpa de ninguém”, asseverou Nia com firmeza. “Isso é tudo o que precisa ser dito.” Podo transpareceu o começo de um protesto, mas o olhar no rosto de Nia o silenciou. Ela se virou para Leeli e colocou a mão em seu rosto. “Peet os segurou o melhor que pôde enquanto embarcávamos, mas... um dos Fangs agarrou você, querida.” Ela pegou a mão de Leeli. “Ele tentou arrancar você de meus braços, e...” “Minha perna”, Leeli concluiu com um suspiro. “Sinto muito”, Nia sussurrou. Ela cobriu os olhos e lutou para manter a compostura. Leeli se aproximou dela. “Está tudo bem, mamãe”, retocou Leeli. “Eu tenho Nugget, agora.” Nia respirou fundo e abraçou Leeli, com força. “Descemos o rio”, Nia prosseguiu seu relato depois de um momento. “Peet correu de volta, passando pelos Fangs e pra dentro do palácio, tentando encontrar seu pai, mesmo enquanto tudo queimava. A última coisa que vi de Anniera foi fogo e morte. Navegamos o rio por horas até o estuário do Mar Sombrio e não vimos nada além de chamas altas em cada lado do rio.” “Não conseguia ver nada”, comentou Podo, olhando para a tempestade. “Eu estava navegando em um rio negro, entre paredes de fogo. Percorremos o rio Rysen até o Mar Sombrio. Gnag havia saqueado cada aldeia por onde passamos, e eu vi coisas que nunca esquecerei, embora o Criador saiba que eu tentei.” Ele ficou em silêncio por um momento. “Quando chegamos ao mar, pedimos ao Criador que nos guiasse, que protegesse as Joias de Anniera, e eu lhes digo, ele protegeu. Ele enviou uma forte tempestade que quase despedaçou aquele pequeno barco. As ondas eram altas montanhas e criaturas marinhas como eu nunca tinha visto surgiram das profundezas e nos observavam passar com olhos tão grandes quanto uma casa. Nunca tive tanto medo, e digo a vocês que senti como se o Criador nos tivesse amaldiçoado, com certeza. Mas quando a tempestade passou, vi que estávamos melhor do que antes — estávamos nas ilhas Phoob, ao norte e a leste daqui, do outro lado das Cataratas Fingap. Cruzamos o Mar Sombrio em cinco dias. Isso é algo que eu nunca disse a ninguém, por me preocupar que eles pensassem que eu fosse louco. Além disso, estávamos em um pequeno esquife com nada além de uma vela. É impossível, eu digo.” Podo estendeu as mãos. “Mas aqui estamos.” Ele mirou atentamente os netos. “O nome de sua avó era Wendolyn Igiby”, revelou ele. “Vocês adotaram o nome Igiby quando viemos pra cá, e deixamos o nome Wingfeather pra trás...” “Então, como Peet nos encontrou?” Janner perguntou. Nia parecia confusa. “Ainda não sabemos. Cerca de cinco anos depois de nos estabelecermos aqui, nós o vimos na cidade. Mal o reconhecemos e, quando percebemos que era ele, ficamos assustados. Tínhamos certeza de que, de alguma forma, ele traria Gnag até nós. Por tudo que sabíamos, Gnag o tinha transformado num dos seus. Podo disse a ele para ficar longe de vocês, de nós. E ele ficou, por um tempo. Então ele apareceu de volta à cidade, agora fazendo um espetáculo de si mesmo, por algum motivo. Isso eu não consigo explicar.” Nia prosseguiu, meneando a cabeça. “Antes de ontem à noite eu não entendia por que ele usava as meias. Achei que o velho Artham estava perdido para sempre. Mas ele está aí dentro.” Ela acariciou seu cabelo selvagem. “O que quer que tenha acontecido com você”, ela sussurrou para Peet, “estou feliz por você reter, em sua mente, a proteção de meus filhos da mesma forma como teria protegido Esben.” Nia olhou para Janner. “E deixe-me dizer, você pode ficar tranquilo quando sabe que um Guardião do Trono de Anniera está vigiando.” Janner sentiu uma onda de orgulho. Nia sorriu para ele. “Vovô, o que o senhor tem na trouxa?” Perguntou Tink. “Ah, sim”, reagiu Podo, colocando o cobertor no chão, entre eles, e desdobrando as pontas. 51 Uma Carta de Casa Pra você, rapazinho”, anunciou Podo a Janner, entregando um antigo livro com capa de couro. “É um dos livros mais antigos do mundo, um dos Primeiros Livros, de acordo com alguns.” Janner olhou maravilhado para o avô. “Ao longo das eras, entre os tesouros de Anniera estavam vários livros antigos, que eram passados para os Guardiões do Trono”, explicou Podo. “É dito que este dá ‘sabedoria aos sábios’, seja o que for que essa profundidade signifique. Eu nunca comecei a ler. Artham aqui, se não estiver louco demais, conseguirá contar mais a respeito. Seu pai me deu antes de sairmos do palácio. Disse-me que, não importando o que acontecesse, eu tivesse certeza de que ele chegaria até você.” Janner segurou o grande livro com cuidado, mas não o abriu. “E pra você, jovem Tink. Supremo Rei Kalmar, devo dizer. Afinal, é o seu verdadeiro nome.” “Você não pode apenas me chamar de Tink?” Perguntou, corando. “Como quiser. Tink, então. Isto é pra você.” Podo entregou a Tink um caderno velho e esfarrapado. “O caderno de desenho do seu pai”, revelou Nia. “Ele era um artista, assim como você. Ele encheu este livro com desenhos e retratos de Anniera, e junto deles seus próprios escritos. Eu queria que você tivesse algo para lembrá-lo de sua terra natal. É um lugar mais bonito do que qualquer retrato poderia mostrar, mas seu pai amava sua terra, e você pode ver esse amor nessas imagens. Eu o peguei para ele, no meu caminho para fora do palácio, porque ele nunca o deixaria pra trás. Achei que ele iria querê-lo, assim que estivéssemos todos seguros e longe. Mas agora é seu.” Os olhos de Tink brilharam quando ele aceitou o presente. “E pra você, minha moça.” Podo ergueu a última dobra do cobertor e entregou a Leeli uma harpa eólica de prata. “Isso pertenceu à sua bisavó, Mádia, Rainha de Anniera, e está no reino há mais tempo do que isso. Veja, sempre que um terceiro filho nasce, essa criança, de acordo com as tradições de Anniera, deve aprender a cantar e compor música. É por isso que ensinamos a você todas essas músicas antigas ao longo dos anos. A lenda diz que há um poder para proteger Anniera na música de uma rainha que conhece as canções certas. Ninguém acredita mais nisso, veja bem, mas esta mesma harpa eólica está em Anniera desde o início da Segunda Época.” “Isso foi há três mil anos”, revelou Janner com espanto. “Sim”, Podo anuiu. Leeli levou a brilhante harpa eólica aos lábios e hesitou. “Vá em frente”, incentivou-a Podo, sorrindo. Leeli tocou “O Cotovelo do Pescador”, uma das músicas favoritas de Podo, e a música alegre encheu seus corações. Peet acordou com a canção familiar de sua terra natal. Ele parecia mais um homem e menos um animal ali, no brilho da melodia. Espreguiçando-se, ele se levantou para atiçar o fogo, afastando ainda mais o frio úmido. A noite havia chegado e a tempestade ainda rugia fora de seu refúgio. As crianças Igiby riram umas com as outras e sentiram o vínculo de seu sangue ficar mais forte do que nunca. Nia e Podo, livres de segredos carregados por tantos anos, recostaram-se entre devaneios da memória e da música. Janner achava que Tink não se parecia tanto assim com um rei, mas, quem sabe, em alguns anos. Afinal, ele tinha só onze anos. Tink abriu a primeira página do caderno de seu pai e viu o esboço de uma ilha surgindo de um mar agitado. No centro da imagem, erguendo-se entre as árvores, estavam as altas torres de um castelo. Ao lado, sob o desenho de uma nuvem macia, estava escrita uma palavra pela mão de seu pai: Lar. Enquanto Tink se maravilhava com os desenhos de seu pai, Janner abriu o antigo livro em seu colo. As páginas estavam amareladas e esfarrapadas. As palavras, escritas à mão, estavam em outro idioma, mas era bonito de se ver, mesmo assim. Janner sentiu um formigamento na barriga enquanto virava as páginas de um livro que ainda não havia lido. Para sua surpresa, um pedaço de papel dobrado caiu do livro, em seu colo. O papel era branco e nítido em comparação com as folhas velhas do livro, mas Janner ainda foi cuidadoso ao desdobrá-lo. Janner, Você tem apenas dois anos agora. Todos dizem que você se parece com seu pai, e eu considero isso um grande elogio. Um lindo menino você é! Não sou poeta como o seu tio Artham, mas vendo você dormir, aqui, esta noite inspirou-me a sentar e escrever algumas palavras para você ler um dia. Sua mãe ama muito você e seu irmão. E ela está com um barrigão com outro pequeno prestes a sair! Inimigos deste reino, cuidado! Esses três pequenos Wingfeathers manterão esta ilha boa e segura. Eu sei disso. Você tem sangue real em suas veias, não importa qual seja seu nome ou lugar neste mundo. O Criador fez de você o Guardião do Trono, para o seu irmão mais novo, e eu não desejaria mais ninguém, além de você, para mantê-lo seguro. Há rumores de guerra e, embora eu mal acredite na metade deles, caso Anniera caia (e tenho certeza que não vai!), lembre-se de sua terra natal. Segredos antigos jazem sob estas pedras e cidades. Eles se perderam para nós, mas, ainda assim, não devemos deixá-los para o mal. Ocorre-me como é bobo escrever isso para um bebê de dois anos. Mas talvez um dia, quando estiver sozinho, inseguro e duvidando de si mesmo, você precise dessas palavras. Lembre-se disto: você pertence à Anniera. Seu pai é um rei. Você é filho do rei. Esta é a sua terra e nada pode mudar essa realidade. Nada. Ah, e ninguém consegue trocar suas roupas de baixo, exceto eu. Posso sentir, pelo cheiro, que você as sujou, outra vez. Se eu cair morto por causa do fedor de suas ceroulas saiba, quando ler isso, que seu pai o ama como nenhum outro. Seu Papai No final da carta, havia o esboço de um bebê dormindo pacificamente, em um berço cercado por flores que haviam murchado com o cheiro das roupas de baixo sujas do bebê. O coração de Janner parecia grande e cheio. Ele se deitou na casa da árvore e olhou para uma janela escura e golpeada pela chuva, pensando em seu pai. Esben. Ele podia ouvir Nia e Podo no outro cômodo, conversando baixinho, mas ouviu o suficiente para entender que ambos concordavam que seria melhor ficar na casa da árvore, com Peet, por várias semanas, talvez mais. Peet lhes garantiu que havia aprendido a viver com segurança entre as criaturas da Floresta Glipwood, e os Fangs não se aproximariam da floresta por muito tempo, depois que vissem os restos da batalha na Mansão Pé-de-Geleia. Skree, entretanto, estava envolta em trevas. A tempestade negra agitava-se no céu e mesmo a lua reluzente não conseguia penetrá-la. O Mar Sombrio da Escuridão gemia e se erguia sob a expansão trovejante. Entre as árvores de Glipwood, premelinhos e thwaps e vacas-dentadas, todas as feras igualmente procuravam abrigo da forte ventania e da tempestade, e a cidade de Glipwood estava tão árida e devastada pelo vento quanto uma cidade fantasma. Naquela noite, enquanto se remexiam e se reviravam em leitos lúgubres, o coração das pessoas e dos trols e dos Fangs, em toda Skree, permanecia sombrio. A escuridão habitava em toda parte. Exceto, é claro, em uma casa na árvore, bem no escuro coração da Floresta Glipwood, onde as Joias de Anniera reluziam como o sol. Apêndices A Lenda das Montanhas Submersas Tradicional (Extraído de Uma História Abrangente de Canções Tristes, Muito Tristes, de Fencher) Venha da montanha submersa: chama a meia-lua de verão! No gemido pesaroso a melodia já se fez ouvir do rei dragão Os salões que às nuvens subiam agora jazem sob as ondas Em tumbas rochosas no mar o reino caído de Yurgen ressona O filho de Yurgen, o justo dragão, Omer, filho de Dwayne, vai encontrar E então o cavaleiro e o herdeiro de Yurgen decidem na chuva lutar E, vejam, ferido caiu o dragão, vindo de Omer o golpe fatal. O cavaleiro, em angústia, sai a correr pra salvar seu inimigo mortal E Omer, de tristeza curvado, perante Yurgen, na montanha, se prostrou E como seu único herdeiro caiu, Omer ao antigo dragão informou Então, do topo de sua fortaleza, Yurgen, poderoso rei-dragão, Em pedaços rasgou a brilhante e íngreme montanha até o chão Todos os dragões ele convocou para através do solo cavar E o mítico minério com o som mutilado finalmente encontrar Mas, enquanto o herdeiro de Yurgen estava frio e morto, no monte enterrado, Dragões túneis mais profundos abaixo das fontes do oceano haviam cavado Finalmente, com trovejante estrondo, a elevação da enevoada montanha Desmoronou sobre as feras na escuridão das minas, suas entranhas. Do oceano, então, Yurgen para procurar seu moribundo filho surgiu Mas onde sua montanha uma vez ornou, apenas uma meia-lua dourada viu Seu herdeiro-dragão morreu, seu reino-dragão mofou A tristeza do Rei Yurgen ardeu e ele novamente afundou Os salões que às nuvens se erguiam agora jazem sob as ondas Em turvas tumbas no mar o reino caído de Yurgen ressona A dourada lua de verão o veranil anoitecer em dois partiu, e a solitária melodia dos dragões todo aquele que veio ouviu! Sobre o Autor Andrew Peterson é um artista e compositor aclamado pela crítica, bem como autor da premiada Saga Wingfeather. Ele também é o fundador da The Rabbit Room, uma organização que promove o desenvolvimento de comunidades por meio de histórias, da arte e da música. Ele e sua esposa, Jamie, moram em Nashville. Visite www.andrew-peterson.com para obter mais informações sobre Andrew, ou www.wingfeathersaga.com para obter mais informações sobre Kistamos e suas criaturas terrivelmente perigosas. Notas Capítulo 2 1 O jogo zibzy ganhou grande popularidade em Skree, no ano 356 da Terceira Época. Um jogo de gramado jogado com dardos gigantes (jogados alto no ar pela equipe ofensiva), um trambolho (uma tábua plana com um cabo) e três pedras. As lesões abundavam, porém, e por causa do clamor do público, o jogo foi proibido. Em 372, descobriu-se que se podia jogar uma versão pacífica do jogo substituindo os dardos gigantes por vassouras. Para regras completas e um olhar mais profundo sobre a fascinante e sangrenta história do zibzy, veja Nós Jogamos, Nós Sangramos, Nós Varremos, de Vintch Trizbeck (Três Forquilhas Publicações, Valberg, 3/423). Capítulo 3 1 Bip Thwainbly. A Mastigação do Gambá (Editor e data desconhecidos). 2 De A Lenda das Montanhas Submersas, poema tradicional de Skree. Uma versão posterior do conto foi impressa em Uma História Abrangente de Canções Tristes, Muito Tristes, de Eezak Fencher. Veja as páginas 279–280, nos Apêndices. Capítulo 5 1 Glipwood havia prosperado muito ao longo dos anos e agora era um aglomerado ligeiramente maior de edifícios, em parte graças ao turismo gerado pelo Festival do Dia do Dragão. Willibur Smalls. Aconteceu em Skree (Torrboro, Skree: Blapp River Press, 3/402). 2 Corre-Cristas são uma raça reclusa que, desde os seus primórdios, habitam as montanhas de Dang. Sua grande fraqueza são as frutas de qualquer espécie, em qualquer forma, sejam colhidas da árvore ou assadas em uma torta crocante. Por causa disso, os corre-cristas são os principais inimigos do povo de Vales Verdes, que cultivam frutas de vários tipos. A cada ano, enxames de corre-cristas descem as encostas ao norte dos Picos-da-Morte e roubam as frutas de Vales. Reza a lenda que, desde que você não seja uma fruta, um corre-crista não o comerá. Como não havia frutas diretamente envolvidas na Grande Guerra, os corre-cristas permaneceram neutros, é claro. Padovan A’Mally. O Flagelo de Vales (Ban Rona, Vales Verdes: The Iphreny Group, 3/111). 3 Para que Podo pudesse capinar o jardim, ele precisava preencher o Formulário de Permissão Para Capinar Jardim e, em seguida, O Formulário de Permissão Para Uso de Enxada, para tomar emprestada a enxada. Se a ferramenta não fosse devolvida até o pôr do sol do prazo de uso, a pena era severa demais para ser mencionada nesta parte feliz da história. Veja as páginas 281–282, nos Apêndices. Capítulo 6 1 Um esporte delicioso em que cada equipe tenta colocar a bola num gol sem usar os pés de forma alguma, nem mesmo para se mover. B’funerous Hwerq. Preparar, Apontar, Despontar! Uma Vida na Jogada (Três Forcados, Skree: Vanntz-Delue Publishers, 3/400). 2 As funções de Blaggus como prefeito incluíam cuidar da prensa móvel da cidade, que agora imprimia vários formulários de permissão ao uso de ferramentas, ordenados pelo Comandante Gnorm. Sendo uma pessoa obcecada por papelada e regras de ordem, a incumbência convinha bem a Blaggus. Ele também escalava qual cidadão prepararia refeições para os Fangs, quem limparia seus alojamentos governamentais e quem faria pedidos formais ao Comandante Gnorm pelos cidadãos que desejavam viajar para Torrboro. Blaggus havia perdido sua filha mais nova para a Carruagem Negra, seis anos antes, e Gnorm o manteve em seu emprego sob a ameaça de levar seus outros dois filhos. Compreensivelmente, por causa disso, o povo de Glipwood não mostrava má vontade para com o prefeito. 3 Muitos skreenianos duvidavam que a lendária Ilha de Anniera existisse. É triste que algumas pessoas só acreditem que algo existe se puderem ver com seus próprios olhos. Por essa razão, Bandy Travinquieto, por exemplo, argumentou por horas, uma noite na Taverna do Crespo, que não existia essa coisa chamada Vento. Seu telhado foi arrancado durante uma tempestade naquele mesmo inverno. O pensamento de Bandy, no entanto, permaneceu inalterado. 4 As Lendas de Kistamos são uma coleção de histórias sobre o Criador e os Primórdios das Coisas. A saudação de Dwayne e Gladys, Os Primeiros Companheiros, por exemplo, é conhecida em todas as terras de Kistamos. As lendas também incluem a tragédia de “Will e a Receita Perdida”, “As Holorés Enterradas” (pedras de cura que o Criador enterrou na terra), e uma versão primitiva de “A Queda de Yurgen”. As lendas já estavam contidas em livros antigos cuja autoria afirmava ser proveniente do próprio Criador, obras dadas a Dwayne para guardá-los. Mas os livros antigos — junto das Holorés, da famosa receita de sopa de creme de galinha de Will, e das montanhas de Yurgen — estão perdidos. 5 Não está claro onde se originou a harpa eólica. Cada cultura em Kistamos afirma ter inventado o instrumento, e cada cultura tem boas evidências para apoiar suas reivindicações. Melodias de harpa eólica são referenciadas nos escritos de Hzyknah, que datam do final da Primeira Época. Capítulo 7 1 De acordo com a obra Uma História Abrangente de Canções Tristes, Muito Tristes, de Eezak Fencher (Torrboro, Skree: Rio Blapp Impressões, 3/113), Lanric e Rube cresceram mais unidos que irmãos, mas ambos se apaixonaram pela mesma moça, uma donzela chamada Illia. Armulyn cantou sobre como eles lutaram como amargos inimigos por sua mão antes de, finalmente, resolverem cavalgar até sua casa, nas colinas verdes, e pedirem-lhe para apontar qual homem ela preferia. Quando lá chegaram, encontraram-na já casada com seu primo Doug — e os irmãos foram embora chorando sua própria loucura. Capítulo 9 1 A trilha Glipper já existia antes de Podo nascer. Os pais de Podo, Edd e Yamsa Helmer, planejaram tirar proveito da proximidade da casa com os penhascos, fazendo sua pesca de lá. Após abrir caminho, Edd comprou uma caixa de linha de pesca de um comerciante em Lamendron (que mais tarde se tornaria Forte Lamendron), amarrou um anzol à linha, colocou um verme aterrorizado no anzol, e baixou a linha até o Mar Sombrio da Escuridão. Só para colocar o anzol na água levou a maior parte da manhã e, é claro, Edd não tinha como saber, daquela grande altura, se a isca e o anzol estavam ou não submersos. Perto do anoitecer, naquela noite, Edd sentiu um puxão em sua linha e começou a puxar sua presa. Algum tempo depois da meia-noite, Edd finalmente recolheu um pequeno peixe saltitão. Yamsa não ficou nada feliz ao ser acordada pelo brado de vitória de Edd, nem com o fato de, na calada da noite, ele ter limpado, cozinhado e comido seu peixinho. Edd decidiu, no dia seguinte, que apesar de todos os problemas que teve para pegar aquele peixe, ele bem poderia ter pescado vários. Então, comprou um carretel de corda do mesmo comerciante em Lamendron, prendeu-o a uma rede e, mais uma vez, passou a manhã inteira descendo a rede até o mar. Desta vez, ele prendeu a corda a uma parelha de bois e fez com que puxassem a presa. Ao pôr do sol, os bois estavam exaustos e a pesca estava apenas na metade do penhasco. Edd amarrou a corda e a deixou pendurada lá, durante a noite. Na manhã seguinte, ele pôs os bois para trabalhar novamente. Ao meio-dia, a rede cheia de saltitões, pequenos tubarões, cavalinhas e lulas foi puxada sobre a borda e posta em terra firme. Até Yamsa teve que admitir que fora uma boa pesca, e eles comeram apenas peixe, nas três semanas seguintes. Bolinhos de peixe no café da manhã, sanduíches de peixe para o almoço, peixe frito no jantar. Eles comeram tanto peixe que tanto Edd quanto Yamsa ficaram doentes e nunca mais conseguiram comer peixe sem engasgar. Edd nunca mais pescou nos penhascos, mas o caminho pelo qual seus bois puxaram a pesada rede permanece lá. Capítulo 10 1 O prefeito Blaggus quebrou sua promessa na caminhada de volta à cidade. 2 Embora seja impossível ter certeza, a maioria dos eruditos concorda que esta é, provavelmente, a canção que Leeli Igiby cantou nos penhascos naquela noite. Holoré é uma palavra antiga com vários significados. Sua definição mais comum é “a sensação de esquecer-se de fazer algo sem saber o que é essa coisa”. Por exemplo: Foom foi perturbado com holoré durante toda a viagem, mas quando voltou para casa e encontrou sua esposa ainda esperando na escada da frente, percebeu o que havia esquecido. A palavra holoré também é usada para descrever o cheiro de biscoitos queimados e é frequentemente aplicada a qualquer coisa potencialmente boa que se tornou inesperadamente ruim. Por exemplo: Quando Foom percebeu que tinha esquecido de trazer sua esposa nas férias de três dias, o feriado foi holoré. O significado antigo da palavra, que é como provavelmente está sendo usado na canção, refere-se às pedras enterradas nas profundezas da terra pelo Criador na criação de Kistamos. As pedras, de acordo com As Lendas de Kistamos, são imbuídas de poder para manter o mundo vivo e repleto de vigor, funcionando quase da mesma forma, presume-se, como a Água do Primeiro Poço. O significado de holoél é incerto, mas provavelmente também tem a ver com biscoitos. Capítulo 11 1 Quando os habitantes da cidade infringiam a lei ou, sem motivo nenhum, eram escolhidos pelos Fangs, às vezes, eram levados para a prisão, onde eram espancados por Gnorm e seus soldados. Se isso acontecesse, o povo da cidade considerava uma ventura maravilhosa, e após a liberação do prisioneiro (se ele estivesse consciente), sua família e amigos o parabenizavam e seguiam a vida como se ele tivesse acabado de ganhar um prêmio importante. Se alguém não tivesse a sorte de receber prisão e tortura, Gnorm enviava um corvo mensageiro para convocar a Carruagem Negra. Capítulo 12 1 Navios e Tubarões é um jogo de gramado apresentado aos skreenianos por mercadores de Vales Verdes. Normalmente, as crianças desempenham o papel de Navios e os adultos são os Tubarões. O jogo começa quando o Tubarão grita aos Navios “Gwaaaaah!”, onomatopeia aceita como o som que o tubarão produziria se não fosse uma criatura do mar. Os Navios, então, correm como loucos para escapar do Tubarão. Se um navio é dominado por um Tubarão, o Navio é rolado na terra e recebe cócegas graves e severas. Esta simplicidade brutal é típica dos jogos inventados pelo povo de Vales. Outro jogo popular de Vales Verdes é chamado, simplesmente, de Surra. Capítulo 13 1 As mulheres de Skree tinham uma queda semelhante por joias, mas eram menos inclinadas ao assassinato para as obter. 2 Dos Baimingtons de Torrboro, que se orgulhavam de ter um ancestral que cunhou a frase “Movediço como uma torta lodosa de duas toneladas”. Os Baimingtons tinham o cuidado de inserir a frase em todas as conversas das quais participavam. Capítulo 15 1 Três Assuntos Nobres e Grandiosos: Palavra, Forma e Canção. Algumas pessoas tolas acreditam que existe um quarto Assunto Nobre e Grandioso, mas esses matemáticos estão terrivelmente enganados. 2 Por Jonathid Tchontio Brownman, o explorador conhecido por ter sido o primeiro a encontrar uma passagem pelas Selvas de Plontst. Embora ninguém contestasse o sucesso da expedição em si, as pessoas questionavam a veracidade de muitas das afirmações de Brownman acerca de suas descobertas. Quando suas memórias de viagem foram publicadas, em 421, a maior parte foi considerada uma invenção. Isso se deveu, em parte, à insistência de Brownman de que, enquanto estava na selva, ele viveu por um tempo entre uma comunidade de floelhos. Brownman insistia que eles eram dóceis, ao contrário dos floelhos carnívoros de Skree. Escandalizados, seus leitores o desafiaram a ir buscar em Plontst um dos assim chamados floelhos domesticados, e Brownman concordou. Foi a última vez que alguém viu Jonathid Tchontio Brownman, embora as pessoas ainda gostem de dizer seu nome do meio. 3 Essa atitude foi executada com uma pá que Podo havia retirado com o prefeito Blaggus, naquela manhã, preenchendo o Formulário de Permissão Para Remoção de Excrementos de Porleitão. Consulte a página 283, nos Apêndices. Capítulo 16 1 A Cera de Meleca é algo repulsivo demais para merecer uma nota de rodapé apropriada. Capítulo 17 1 De acordo com O Flagelo de Vales, de Padovan A’Mally (Ban Rona, Vales Verdes: Grupo Iphreny, 3/111), “Corre-cristas gostam particularmente de versos artísticos, embora seu tema de apreciação seja quase exclusivamente frutas. Um corre-crista, livre pensador, chamado Tizrak Rzt, escandalizou a cultura corre-crista quando compôs um poema intitulado ‘Amor, Amor, Amor Sem Fim’ e, notoriamente, não fez menção a frutas”. 2 Veja, nos Apêndices, a página 284, para uma amostra do trabalho seminal de Pembrick. Criaturapédia de Pembrick, de Bahbert Pembrick (Ban Rona, Vales Verdes: Graff Publicações, 3/221). 3 Garlinóis são grandes aves que não voam e habitam sobretudo os climas frios. O assentamento de Kimera, nas pradarias de gelo, gaba-se de possuir um rancho de garlinóis, onde os grandes pássaros são selados, arreados e treinados para uso como os cavalos, no sul de Skree. Os pés espalmados de um garlinói possuem um aglomerado de farpas retráteis que permitem ao pássaro fixar o pé no gelo e na neve profunda. Em raras ocasiões, garlinóis machos nascem com asas grandes o suficiente para sustentar voos curtos, embora não se considere prudente montá-los quando isso acontece. Capítulo 18 1 Veja o mapa (provavelmente duvidoso) de Oskar, na página 285. Capítulo 19 1 Janner provavelmente está se referindo a Entre o Blapp e a Baía: Uma Cidade Chamada Glipwood, de Randolt Mynerqua (Cavadópolis, Skree: Ribeiro D’Água Impressões, 3/404). Era uma leitura popular entre o povo de Glipwood, em parte porque tinha apenas dezessete páginas. Capítulo 25 1 Thorn, o Torr, o rei guerreiro que construiu o palácio no início da Terceira Época, gostava de gatinhos. Em cada torre do Palácio Torr havia estátuas de gatinhos em posturas variadas. De um penhasco na margem norte do Blapp, ficava claro que o próprio palácio fora construído para se parecer com um gatinho feliz, agachado. A espiral superior era a cauda, o pórtico lembrava dentes e a ponte levadiça era, inegavelmente, semelhante a uma língua. Durante séculos, a Dinastia Torr nutriu uma afeição perturbadora por tudo relacionado a gatinhos. Então, veio a Grande Guerra, quando Fangs capturaram o Rei Oliman, o Torr e o forçaram a assistir enquanto as estátuas de gatinhos eram demolidas e destruídas, uma por uma. Quando todos os gatinhos do reino foram colocados em uma jangada e deixados à deriva, no rio Blapp, Oliman, o Torr desfaleceu morto de tristeza. Para os cidadãos de Torrboro, entretanto, foi a única coisa boa que os Fangs fizeram. Capítulo 26 1 Yakev Brrz abominava todo abuso de animais, principalmente o hábito de se referir a animais de estimação como “bebês” e atribuir a eles características humanas. A primeira esposa de Yakev, Zaga, estimava tanto seus dois Beckitt Terriers que insistia em que eles se sentassem à mesa com eles no jantar e que dormissem ao pé da cama. Yakev, cujas habilidades de comunicação com todos os tipos de animais eram incomparáveis, não conseguiu convencer Zaga de que seus “bebês” detestavam as práticas alimentares dos humanos e preferiam não usar o pijama de renda lilás combinando para dormir em sua cama humana. Tarde, numa noite fatídica, quando Zaga estava profundamente adormecida, Yakev foi na ponta dos pés até o pé da cama, pegou Schpoontzy e Kiki cuidadosamente em seus braços, carregou-os para fora, puxou de sua manga uma faca afiada e os livrou de seu sofrimento. O que quer dizer que ele cortou fora o pijama de renda lilás dos cães oprimidos e os deixou fugir livres, ao luar, para nunca mais voltarem. Diz-se que, uma vez que a notícia da libertação dos cães, pelas mãos do poderoso Yakev Brrz, se espalhou entre os outros caninos, onde quer que Yakev passasse, todas as raças de cães uivavam e respeitosamente rolavam de costas. Nada mais se sabe sobre Zaga. Capítulo 28 1 De As Terras Imensas, de Stawburn: “O Mar Sombrio da Escuridão não era mais escuro do que qualquer outro oceano que já naveguei. Assim, não tenho certeza de onde vem seu nome, a menos que, talvez, seja por causa da sensação que se tem quando está lá, no meio dele. Você se sente como podendo ser engolido por qualquer uma das gigantes criaturas que vivem sob a superfície. Ele pode ter esse nome devido a todas as tempestades que surgem dele e chutam você e seu navio como uma criança chuta uma bola. Todas as noites, há uma névoa que engole as estrelas e deixa você flutuando cego, lá fora, na escuridão. Você começa a sentir que nunca mais vai voltar para casa, e que mesmo seus melhores amigos no navio não o conhecem ou querem conhecer, como se eles nunca fossem notar se você tombasse sobre a amurada e caísse direto na água. Pensando bem, talvez a água fosse mais escura do que o normal”. Capítulo 29 1 A presença de murças-das-cavernas na Floresta Glipwood pode surpreender o leitor diligente, em razão da usual ausência de cavernas em uma típica floresta. Os murças-das-cavernas receberam seus nomes porque seus grandes olhos cinzentos e semblantes queixosos são tão desagradáveis de se ver que é comum, ao ver um, pensar: “Gostaria que aquele murça estivesse numa caverna em algum lugar, para que eu não tivesse que olhar para ele”. 2 Embora os skreenianos não tivessem certeza do motivo, os soldados Fangs faziam um rodízio regular, de cidade em cidade, e cada regimento navegava de Forte Lamendron de volta a Dang, por algumas semanas, a cada ano. Fangs que voltavam para Skree gabavam-se de ter “descansado bastante” e se mostravam mais perversos do que o normal, nos primeiros meses após o retorno. Capítulo 30 1 De acordo com fontes em Cavadópolis, a receita de mingau melequento é simples: duas xícaras de farinha, uma colher de chá de manjericão esmagado e um galão de matéria nasal viscosa de qualquer animal disponível. Mexa em fogo baixo até engrossar. (O método de coleta do referido muco não é muito claro). Capítulo 31 1 Dougan dol Rona, de Vales Verdes. Os cidadãos de Vales são conhecidos sobretudo por duas coisas: frutas e luta. Vales Verdes é um país de vales ondulantes e vinhas, cuidados com carinho pelos seus cidadãos. As frutas de Vales são mais graúdas, suculentas e saborosas do que qualquer outra em Kistamos, em parte porque o solo é muito fértil, em parte por causa de milhares de anos de tradição de fruticultura, conhecida apenas pelos seus cidadãos. Vales Verdes também é conhecido por seu festival anual de jogos, chamado Fynneg Durga. Os homens de Vales são notoriamente turbulentos, dispostos a lutar tão facilmente quanto a rir, e consideram uma competição de socos um entretenimento da mais alta ordem, especialmente se isso significar um dente perdido ou um nariz quebrado. As mulheres de Vales são famosas por sua beleza e sabedoria, a provável causa primária da cultura de luta entre os homens. Qualquer forasteiro que desejasse casar-se com uma mulher de Vales Verdes era submetido a uma violenta (mas bem-humorada) zombaria e obrigado a participar de uma versão especialmente brutal dos jogos, o Banick Durga, para ganhar a mão da mulher. Passasse ou não no teste, o competidor seria premiado com frutos copiosos. Dougan dol Rona pediu a mão de Meirabel Lannerty, de Vales, e foi forçado a competir por ela no Banick Durga. Surpreendentemente, ele superou os homens de Vales em todas as dez lutas, mas, acidentalmente, matou o irmão de Meirabel em uma luta de boxe, com um golpe mal dado, na têmpora. A melodia “Balada Para Dougan” (compositor desconhecido) captura, na música, a tristeza de Dougan por nunca ter se casado com Meirabel e a velocidade com que ele fugiu dos homens de Vales para salvar a própria vida. Capítulo 33 1 Rumpole Bloge. Domando a Floresta Assustadora (Torrboro, Skree: Phute & Phute & Cia., 3/112), uma autobiografia fascinante, detalhando seus anos como guardião na Floresta Glipwood, nos primeiros dias da Terceira Época. Nele, Bloge descreve as vacas como sendo “quadráticas na estrutura, com um focinho úmido e olhos que, a princípio, parecem opacos como uma tigela de lama. Mas ai daquele que não considerar o potencial letal naquele trambolho bovino! Naqueles sabres amarelados que se projetam de sua boca beiçuda! Como eu gostaria que minha querida Molly não tivesse rejeitado meus avisos sobre a astúcia da vaca-dentada, antes que aquela brutamontes dentada a devorasse!” Consulte a página 284, nos Apêndices. Capítulo 34 1 Durante a Segunda Época, Tombilly, chefe de Ban Rona, em Vales Verdes, adoeceu com uma enfermidade para a qual os médicos de Vales não encontravam cura. O chefe estava definhando e não conseguia comer, embora sua esposa lhe preparasse uma refeição fresca todos os dias. Os sábios vasculharam a terra em busca de uma refeição que pudesse curar sua doença. Quando a velha Ma Vorba, a apanhadora de sementes, sugeriu ensopar um verdugo espinhento, ela foi ridicularizada como uma tola. Mas ela cozinhou o verdugo com cebolinhas e totatas, e serviu para o chefe Tombilly, quando sua esposa estava fora. A saúde do chefe voltou. Por anos, acreditou-se que o verdugo tinha poderes de cura, até que foi descoberto que a pobre esposa do chefe era apenas a pior cozinheira que Kistamos já vira, e Tombilly preferia morrer de fome a comer mais uma vez de sua comida. Até o dia de hoje, um viajante comendo uma boa refeição em Vales Verdes corre o risco de ouvir alguém dizendo: “Ma Vorba, estava uma delícia!”. 2 O instável sapo-toupeira é conhecido por atacar humanos, embora não haja notícias de nenhum ataque fatal. Vítimas de um ataque de sapo-toupeira queixam-se da “sensação macia e gosmenta” de ser violentamente atacado por uma língua pegajosa. Visto que o sapo-toupeira não tem dentes, diz-se que suas vítimas se sentem como “empadas sendo mastigadas na boca de um velho”. 3 O rateixugo é perigoso não só por causa de suas garras longas ou dentes irregulares, ou mesmo por causa de seu temperamento agressivo. A maior arma do rateixugo é sua flatulência com odor de ovos. Capítulo 37 1 Era verdade. Antes da Grande Guerra, os skreenianos ouviam rumores de Gnag, o Sem-Nome, rumores de que criaturas como cobras e trols e outros monstros imaginários, dos contos assustadores de crianças, haviam conquistado as terras de Dang, do outro lado do mar, mas eles não conseguiam acreditar que a própria Skree corresse qualquer perigo. No 442.º ano da Terceira Época, mil navios carregados com tais criaturas infestaram o Mar Sombrio da Escuridão, na costa de Skree. É dito que o grito de guerra dos invasores Fangs podia ser ouvido de tanta distância quanto Torrboro distava daquelas terras, continente adentro. Com poucas exceções, os skreenianos se renderam sem lutar. Capítulo 38 1 As Pradarias de Gelo ficam ao norte das Montanhas Rochosas. Poucos humanos se estabeleceram lá, e que vilas possam existir é difícil de saber, porque não há estradas. De fato, alguns que moravam nas Pradarias de Gelo visitaram os climas quentes da baixa Skree, nas férias, e nunca mais foram capazes de encontrar suas casas novamente. 2 A estrada para Torrboro era bastante percorrida, tanto por humanos quanto por Fangs. As tropas Fangs, viajando de e para Forte Lamendron, marchavam para o norte e para o leste, a partir da costa, através de Glipwood, e seguiam a estrada ao longo da borda da Floresta Glipwood, até onde ela se encontrava com o Rio Blapp. O toque de recolher noturno era devidamente aplicado, de modo que os Fangs faziam pouco para patrulhar a estrada à noite. Pessoas de Glipwood, portanto, viajando durante a noite para Torrboro, tinham pouco com que se preocupar até chegarem à cidade. Mas, então, de toda a forma, a manhã já teria chegado e eles não levantariam suspeitas. Claro que a proximidade da estrada com a floresta apresentava suas próprias dificuldades, e vários dos viajantes provavelmente seriam atacados pela habitual gama de criaturas noturnas de Skree. Capítulo 46 1 De acordo com O Declínio da Primeira Época, de Frobentine, a Mamne, o Primeiro Poço ficava escondido perto da cidade sem muros de Ulambria, onde Dwayne e Gladys governaram seu povo com paz, sabedoria e uma abundância de alimentos com queijo. Frobentine situa a localização de Ulambria em algum lugar ao norte e a leste das Montanhas Picos-da-Morte, no coração do que hoje é a Floresta Byg’oal. Outras fontes discordam, alegando que Ulambria ficava nas selvas de Plontst, no reino dos trols. Todos os estudiosos concordam, entretanto, que Ulambria é um nome que soa bem para uma cidade. Table of Contents Créditos e Direitos Sumário Mapa Uma Breve Introdução ao Mundo de Kistamos Uma Introdução um Pouco Menos Breve à Terra de Skree Uma Brevíssima Introdução ao Chalé Igiby 1 | A Carruagem Vem, A Carruagem Negra 2 | Nuggets, Martelos e Totatas 3 | Thwaps em um Saco 4 | Um Estranho Chamado Esben 5 | O Livreiro, o Homem-Meia e a Cidade de Glipwood 6 | Um Bardo na Esmeralda de Dunn 7 | Descalço e Mendigo 8 | Duas Pedras Atiradas 9 | A Trilha Glipper 10 | Leeli e a Canção dos Dragões 11 | Um Corvo Para a Carruagem 12 | Nada Parecido com Navios e Tubarões 13 | Uma Canção Para a Ilha Brilhante 14 | Segredos e Caldeirada de Queijo 15 | Dois Sonhos e Um Pesadelo 16 | Na Livraria Livros e Vãos 17 | O Diário de Bonifer Squoon 18 | Tropeçando num Segredo 19 | Angústia, Dor e Horror 20 | Na Mansão 21 | Os Canicórneos 22 | Nas Covas que Abaixo Daqui Estão 23 | O Lamurioso Fantasma de Brimney Stupe 24 | A Estrada Para Casa 25 | No Salão do General Khrak 26 | Problemas na Livraria 27 | Uma Armadilha Para os Igibys 28 | Floresta Adentro 29 | Murças-das-Cavernas e Verdugos-Espinhentos 30 | A Prematura Morte de Vop 31 | O Medalhão de Khrak 32 | Preparando um Rocambole de Vermes 33 | Pontes e Galhos 34 | O Castelo de Peet 35 | Fogo e Fangs 36 | Sombrio é o Corcel com Sombrio Arreio E Sombrio Condutor Conduzindo Tem 37 | Garras e Uma Funda 38 | Um Plano Desagradável 39 | Um Presente de Willie Abutre 40 | Traição 41 | Um Estrondo e Um Grito 42 | Adeus Iggyfings 43 | Um Fantasma ao Vento 44 | Seguindo Podo 45 | Uma Longa Noite 46 | A Água do Primeiro Poço 47 | Velhas Feridas 48 | Abrigo 49 | As Joias de Anniera 50 | Os Guardiões do Trono 51 | Uma Carta de Casa Apêndices A Lenda das Montanhas Submersas Formulário de Permissão para Capinar Jardim Adendo ao Formulário de Parmissão para Capinar Jardim Permissão para Coletar Excremento de Porleitão Vaca Dentada Um mapa de Glipwood desenhado por Oskar N. 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