Autor: Lucas Rosalem Revisão: Miriam Rosalem Lívia M. P. Rosalem Vitor Gomes Colaboração: Daniel Miorim José Augusto de Azevedo ROSALEM, Lucas A Política e a Fé Cristã 1ª Edição. São Paulo: Mente Cristã. 2022. 66p. Catalogação: 1. Política 2. Cristianismo Os direitos autorais pertencem à Editora Mente Cristã. A reprodução de qualquer parte desta publicação, por quaisquer meios e para quaisquer fins está autorizada. Copyright © 2022. 1ª Edição. ISBN-13: 979-8358142053 www.konkin.com.br SUMÁRIO Introdução..........................................................................5 A Ansiedade Política............................................................7 Você Não é Acima da Média..............................................14 A Estratégia da Política....................................................17 A Estratégia do Cancelamento...........................................21 A Polarização à Luz da Bíblia............................................28 O Custo do Discipulado....................................................42 Cristianismo à Força?.......................................................50 O Cristão e a Sociedade....................................................63 A Atuação da Igreja...........................................................65 A Esperança no Lugar Certo............................................71 INTRODUÇÃO Nos últimos anos, os cristãos começaram a discutir publicamente vários assuntos que, antes, a maioria não se interessava ou nem sequer conhecia e cujas opiniões ficavam restritas à vida privada ou à fala dos profissionais da área. Assuntos como liberdade de expressão, imigração, marxismo cultural, globalismo e vários outros temas relacionados, tudo pelo mesmo motivo: a movimentação política do país - ou melhor, a ameaça estatal. As igrejas começaram a perceber que precisavam se unir e se mobilizar por coisas importantes demais para ficarem nas mãos dos políticos. Assim, aquilo que parecia "secular demais" se tornou comum no dia a dia dos cristãos brasileiros que, além de estarem cada vez mais interessados, estão também cada vez mais participando do cenário político. Porém, diferente do que as igrejas imaginavam, isso não as uniu mais, não as tornou mais livres e fortes, não facilitou o avanço do Evangelho, nem tornou os cristãos mais socialmente responsáveis. Ao contrário, o engajamento político produziu arrogância, insensibilidade, limitações, rupturas e escândalos. Talvez já esteja mesmo na hora da igreja brasileira acordar para tantos assuntos sociais importantes e se posicionar na esfera pública a respeito deles. Mas não é preciso se esforçar muito para perceber que a falta de uma orientação mínima tem causado mais mal do que bem na teologia pública dos cristãos. Por teologia pública, estou me referindo à forma como devemos apresentar ao mundo as perspectivas cristãs que dizem respeito à vida social. Em outras palavras, a teologia pública é a "educação" do cristão com relação a como ele declara publicamente o ponto de vista cristão/bíblico sobre aquilo que é verdadeiro e justo, 5 que diz respeito não só à comunidade cristã, mas a todo cidadão. No momento, sem uma boa teologia pública, o discurso cristão tem causado mais prejuízo do que benefício à igreja e aos cidadãos brasileiros, todos tão afetados pelas artimanhas políticas do país. Sem uma teologia pública inteligente e bem desenvolvida, a igreja jamais conseguirá legitimar suas ideias na esfera pública, especialmente com a atual aproximação política. Reconhecemos também que as diferentes correntes cristãs têm dificuldades particulares para instruir seus membros sobre a forma como a teologia cristã deve se relacionar com a cultura. Esse é mais um motivo pelo qual se faz extremamente necessário discutirmos sobre como o tema da cidadania deve ser tratado à luz da Palavra de Deus. Precisamos nos posicionar? Sim! Mas precisamos melhorar a forma como expomos aquelas nossas preocupações voltadas para dentro da igreja, mas também aquelas que vão para além dela. Uma boa compreensão de teologia pública nos levará a posicionamentos muito melhores para entendermos o lugar da política na vida dos cristãos e da igreja. A Igreja deve entrar na política? Por que tantos cristãos se corrompem na política? É correto que o cristão se manifeste partidariamente? Por que há cristãos de direita e de esquerda? Como os cristãos devem se portar e se posicionar com relação às pautas morais, sociais e econômicas? Até onde deve ir a nossa esperança na política? Por fim: como seria a presença fiel do cristão na sociedade? Apesar de fundamentais, essas questões, muitas vezes, nem sequer passam pela mente de cristãos que prontamente adentram discussões intermináveis sobre assuntos políticos nas redes sociais. Estamos em busca de uma teologia pública coerente. Neste livro, veremos vários assuntos que provavelmente serão do seu interesse e de pessoas à sua volta. Ao terminar de lê-lo, considere emprestá-lo àqueles que você ama. 6 A ANSIEDADE POLÍTICA Você compreende qual é o papel da Igreja na sociedade? E mais do que isso, você compreende qual é o seu papel específico? Permita-me, brevemente, lembrá-lo de coisas que você já sabe antes de continuarmos. Tenha um pouco de paciência. Santo & Secular A partir da descida do Espírito Santo sobre a Igreja, os cristãos passaram a ser habitados e capacitados por Ele. Muitos anos depois, vemos Paulo afirmar que todos fomos selados com o Espírito (2Co 1:22, 12:13; Ef 1:1; Ef 4:30). Além de Paulo, João também diz que o Espírito passou a habitar em todos os cristãos, sem exceção (1Jo 2:20,27; 4:13). O pastor não é como o sacerdote do Antigo Testamento (AT) que, sozinho, representava o povo diante de Deus, como um mediador. Essa função agora é feita por Jesus. Através de Jesus, todos nós temos os mesmos privilégios do sumo sacerdote do AT, o único que podia entrar no Santo dos Santos (Hb 10:19-22). Em outras palavras, a função de cada membro do corpo de Cristo deve ser entendida a partir do ministério de Cristo. Nós somos uma comunidade profética e também sacerdotal, por causa de Cristo. O que antes era função reservada à classe dos sacerdotes, hoje é dever de todo membro do corpo de Cristo. Todos nós somos convocados para um mesmo serviço fundamental: tendo sido reconciliados com Deus pelo nosso único mediador/sacerdote, que é Cristo, somos responsáveis por oferecer “a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hb 13:15). Tendo em vista que todos nós recebemos uma função sacer7 dotal, precisamos entender como isso funciona no dia a dia. Todos os cristãos têm todos os benefícios de Cristo, incluindo o acesso ao Pai por intermédio dele. Cada cristão pode fazer tudo aquilo que os sacerdotes faziam: interceder por seus irmãos, ajudar com conselhos e instrução na Palavra, pregar a Palavra, chegar-se diretamente a Deus por meio de Cristo e oferecer sacrifícios espirituais a Deus (como orações e louvor). E não para por aí. O Espírito Santo não é algo que vamos buscar dentro da igreja e deixamos lá quando vamos embora, mas alguém que está conosco santificando nossa casa, nosso casamento, nosso trabalho, nosso lazer e tudo o mais que fazemos. Pense nisto: se nós entendemos que toda a existência é uma realidade de Deus – faz parte da sua criação – então, a separação "santo" e "secular" deixa de fazer sentido. Para o cristão, não existe "vida secular", pois todas as áreas da sua vida glorificam a Deus. Para o cristão bíblico, a distinção entre santo e secular não está correta porque não existe nenhuma área de nossa vida que seja secular. Toda a nossa vida é para Deus, em tudo que fazemos (Tt 1:15; Rm 12:1; 1Co 10:31). Cristãos coerentes não têm uma vida de fé e outra vida pública. A nossa vida pública é a nossa fé em ação. Para o cristão maduro, consciente de Cristo e de sua Palavra, o mundo é sagrado, pois é o mundo de Deus. Da mesma forma, as atividades culturais são sagradas, o lazer, o trabalho e o sexo são sagrados, e todas as demais áreas da existência, pois todas são para a glória de Deus, "pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém" (Rm 11:36). Não existe "arte secular", "trabalho secular" ou qualquer outra coisa nesse sentido, apesar de qualquer dessas coisas poder ser feita de forma que desagrade a Deus e até blasfeme contra o seu santo nome. Todavia, não é necessário "cristianizar" as coisas para torná-las legítimas. Por exemplo: colocar um versículo em um car8 tão de visita não irá torná-lo um "cartão cristão" ou agradar mais a Deus; não é assim que se cumpre a missão cristã; não que isso seja errado ou proibido, mas o fato é que as coisas não serão santificadas misturando-as com elementos cristãos. Elas serão santas se forem feitas com gratidão a Deus, dando glória somente a Ele por tudo, e em serviço ao próximo. Pois bem, talvez você já soubesse disso. Mas, agora, eu quero demonstrar de que forma muitos cristãos têm ignorado tudo isso. A Secularização Você já ouviu falar de "secularização"? O assunto pode parecer teórico demais, mas não é complexo. Veja: se "secular" é tudo aquilo que está fora do âmbito religioso, secularizar é afastar da vida comum o que é religioso. Historicamente, a secularização tem a ver com o espaço que a fé supostamente deveria ocupar na vida social. Ou seja, é o processo de diminuição da influência religiosa na vida cotidiana que começou a florescer na transição da Idade Média para a Idade Moderna. A partir dessa época, surgiu a ideia de que, por causa dos avanços da ciência e da filosofia, dentre outras coisas, a religião não tinha mais sentido e deveria ser relegada à vida privada das pessoas. A previsão era que a fé cada vez mais teria menos espaço para expressões públicas, até que a religião minguasse e desaparecesse da vida das pessoas. Mas não foi isso o que aconteceu. Ao contrário, vemos dia após dia a quantidade de religiões, templos e adeptos aumentando ao redor do mundo, ao ponto de muitos estudiosos estarem chamando este período de "a revanche do sagrado". Porém, a secularização não se restringiu apenas a um palpite ou uma previsão, mas se tornou também uma sugestão e até uma pressão contra a religião; um movimento cultural que pretendia que a opinião religiosa se tornasse cada vez mais apenas uma ques9 tão de foro íntimo e privado, deixando de exercer qualquer influência no debate público. Para essas pessoas, ninguém pode usar a fé para fazer uma leitura adequada da realidade e, portanto, não deveria usá-la na hora de reivindicar direitos ou sugerir pautas políticas. Aceitava-se que as reivindicações públicas dos cristãos fossem feitas a partir de fatores pessoais, posições políticas ou mesmo pela cultura, mas jamais pela fé. Com isso, houve um esvaziamento religioso da organização da sociedade que, antes, acontecia justamente a partir do temor a Deus e do relacionamento com Ele. Em outras palavras, as decisões da sociedade deixaram de ser pautadas pela percepção religiosa, Num primeiro momento, isso fez com que os cristãos fossem se distanciando pouco a pouco das decisões sociais. E foi assim que a secularização acabou triunfando, mas de um jeito diferente: está claro que a religião não irá acabar, mas já não há mais preocupação quanto às pessoas terem ou não religião, contanto que elas guardem suas convicções para si mesmas. Ao longo dos anos, de lá para cá, houve muitos desdobramentos e mudanças nessas ideias, mas não se pode negar que a secularização faz parte da construção da sociedade atual. As Reações Hoje, com o processo de secularização já formado e normalizado, as reações de cristãos mal instruídos têm sido de se deixarem dominar pela ideia secularista ou de combatê-la a todo custo. De um lado, como consequência de não perceberem o que está acontecendo, cristãos secularizados vivem um tipo de ateísmo prático: o Deus em que acreditam não os afeta no mundo real. Na igreja, eles acreditam no Deus das Escrituras, que governa o Universo e dita as questões morais, mas fora dela, apostam muito mais na autonomia e na liberdade humana; jogam o jogo político do secularismo. 10 Vamos chamar essas pessoas de "secularizadas". Quando os secularizados categorizam as coisas fora da igreja como "seculares", de certa forma, já estão entrando no jogo e pensando como os secularistas. Do outro lado, aqueles que se manifestam o fazem sem uma boa teologia pública, piorando muito toda a situação. Vamos chamar essas pessoas de "miliantes". Num primeiro momento, eles estão certos ao entender que não faz sentido exigir que, em questões públicas, os cristãos "engavetem" sua fé e assumam um discurso neutro. Em primeiro lugar, porque não existe discurso neutro. Isso é mito; uma ideia contraditória e também hipócrita. Quando alguém diz que o debate sobre questões sociais deve acontecer deixando de lado a fé, essa pessoa já está desqualificando a posição religiosa desde o início. E isso não é feito por lógica, mas com critérios arbitrários. Isso é apenas impor suas crenças e opiniões particulares, não é ser neutro de forma alguma. Os cristãos sentem que a proposta secularista não é antirreligiosa de verdade; ela é somente anticristã. Aliás, não é à toa que tão nitidamente a militância política tenha um fervor tipicamente religioso. Esse é um motivo muito forte para que os cristãos se posicionem não como cidadãos "neutros", mas propriamente como cristãos. Ainda que nós possamos questionar a qualidade da fé e da prática do povo brasileiro de modo geral, uma coisa é fato: o Brasil é majoritariamente cristão, E ainda que o Brasil seja um estado laico, o povo brasileiro não é. Por isso, o mínimo que se deveria esperar é uma grande manifestação pública da fé cristã. Contudo, nós chegamos num ponto em que precisamos não meramente nos intrometer nos debates públicos sobre questões sociais, mas precisamos aprender a pensar a nossa fé em termos de uma "teologia pública", pois é necessário reestabelecermos o diálogo antes de tentar trazer de volta a vida da fé à arena pública. O motivo disso é que, infelizmente, muitos cristãos interessados em assuntos políticos têm entrado totalmente despreparados nesses 11 debates; eles constantemente defendem coisas sem sentido e de maneiras tão absurdas que não poderíamos esperar outra reação dos não cristãos que não fosse uma total rejeição. Não temos dúvidas: a fé é mais importante que a política para o desenvolvimento pessoal e da própria sociedade. No entanto, não é possível demonstrar isso sem que antes haja muito mais reflexão por parte dos cristãos sobre os temas de debate político antes de qualquer manifestação de sua parte. É óbvio que, para isso, precisamos pensar sobre pautas sociais muito mais do que apenas no período anterior a cada eleição, e para muito além de respostas a postagens anticristãs nas redes sociais. Se, por um lado, o mínimo que se espera de um país majoritariamente cristão é um posicionamento público à luz da fé, o mínimo que se espera de cristãos que se aventurem na exposição pública de ideias é que conheçam acima da média sobre os assuntos que pretendem discutir. Graças a Deus, no meio de tanto discurso público envergonhando a fé cristã, há pessoas se dedicando a fazê-lo com temor. porque compreenderam que é importante e urgente se posicionar - e tal como Jesus ensinou, sem depender da imposição estatal. O Despertamento e o Despreparo Cristão Infelizmente, a maioria dos cristãos certamente não começou a se atentar às questões políticas por reconhecer a necessidade de um posicionamento fiel, mas por terem virado alvo de políticos, interessados nessa gigantesca parcela da sociedade que, a essa altura, não pode mais ser ignorada. Não se engane! Cristãos não estão mais responsáveis socialmente. Eles estão apenas sendo mais manobrados, seja por incentivos de políticos favoráveis ou por medo dos opositores da Igreja. Segundo o censo de 2010 do IBGE, os católicos eram 123 mi12 lhões e os evangélicos mais de 42 milhões de pessoas. Mas segundo a pesquisa do Datafolha em 2020, evangélicos somariam mais de 65 milhões, totalizando 31% da população brasileira, para 50% de católicos brasileiros. Os católicos já eram uma parcela desejável da população, mas o crescimento assustador dos evangélicos no Brasil nas duas últimas décadas transformou-os também em uma fatia política muito atrativa. Não podemos mais ser ingênuos quanto a isso. O envolvimento dos cristãos na política não cresceu como algo natural e orgânico dos próprios círculos cristãos; não partiu de uma preocupação cristã entendendo o lugar de sua participação política. Cresceu a partir dos políticos e seus incentivos. Se, antes, os evangélicos foram afastados da política por motivos ruins, agora, eles foram reaproximados por motivos ainda piores: são vereadores prometendo doar tijolos, nomear ruas com nome de fundadores de igreja; são prefeitos prometendo asfaltar a rua da igreja; deputados garantindo que farão leis pífias em benefício dos evangélicos; candidatos à presidência se apresentando como reais representantes divinos, e por aí vai. "Muitos buscam o favor de quem governa; todos querem ser amigos daquele que dá presentes" (Pv 19:6). O cenário é triste e assustador. A política arrebanhou muitas igrejas. Esse é o verdadeiro motivo por trás de tamanha movimentação política a partir da Igreja e dos cristãos hoje. Há exceções? Sim, mas não é delas que trataremos aqui. Os cristãos precisam admitir que foram atraídos pelos políticos ao invés de fornecerem debates públicos a partir da perspectiva do povo de Deus. Aliás, isso explica grande parte da ansiedade pública cristã, tão ditada pelo cenário político. E é apenas isso que explica por que vemos mais cristãos empenhados em falar de política e defender suas visões e candidatos do que em testemunhar de Cristo e evangelizar. Será este é o seu caso? 13 Você Não é Acima da Média É importante falar sobre inflação, pobreza, aborto, ideologia de gênero nas escolas e censura às igrejas? Sim, é importante. Muitas vezes, a urgência de certas pautas até mesmo as transforma em prioridades. Mas a sua opinião não é tão importante quanto os temas, especialmente se você não está preparado para isso de verdade. Muita gente se considera inteligente acima da média; por isso é que tanta gente se arrisca em discussões que estão totalmente fora dos seus campos de conhecimento. Ao menos, você sabe algo sobre os temas acima que não seja baseado apenas nos seus palpites? Você já viu algo mais profundo acerca desses assuntos do que vídeos de Youtube? Cristãos constantemente divulgam fake news e são convencidos por teorias da conspiração, e isso não é à toa. É muito fácil encontrar crentes enchendo a boca para falar, por exemplo, contra o comunismo, mas sem nenhuma noção da diferença entre socialismo e progressismo, por exemplo. Eles têm certeza que o socialismo não funciona, mas não fazem ideia do motivo, a não ser por alguma ideia que ouviram em algum lugar e que, muito provavelmente, nenhum comunista defende. Esses cristãos, se forem questionados, passarão vergonha. Nunca leram, nem ouviram falar de livros básicos, como O cálculo econômico sob o socialismo, de Ludwig von Mises, nem acham que precisam ler. Mas não perdem uma oportunidade de discutir em redes sociais ou entre amigos; falam como doutores. Doutores da ignorância. Não pense em outras pessoas. Questione só você mesmo. É vergonhoso quando um cristão se envolve em discussões tendo apenas informações que ele ouviu aqui e ali, ou que ele simplesmente acha estarem corretas. E mais do que uma vergonha, 14 isso prejudica o lugar da Igreja e dos cristãos na sociedade. Esse é o tipo de comportamento, arrogante e sem fundamento, que dá margem à imposição da secularização e que torna mais difícil a discussão de pessoas capacitadas em pautas sociais importantes tanto para a sociedade em geral quanto para a liberdade da fé. Humildade e Temor Você provavelmente é contra o aborto, assim como eu. Mas você já considerou que para cada um dos seus argumentos certamente há uma resposta dos seus opositores com uma chance altíssima de você não saber responder? O que você fará quando for questionado na frente de outras pessoas e ficar sem respostas? Com o conhecimento que você tem hoje, teria coragem de debater no Jornal Nacional contra um filósofo abortista? Essa é a sensação que você deve ter quando se propuser a discutir com qualquer um sobre qualquer assunto: temor. Se você não quer envergonhar o nome de Jesus, você precisa agir com um mínimo de humildade, precaução e respeito ao próximo. Primeiro, porque pode mesmo ser o caso de você não saber do que está falando, e até mesmo de estar do lado errado da causa, sem saber. Cristãos estão por toda a parte discutindo sobre economia sem nunca terem lido nada sobre o assunto; usam o tema da inflação para elogiar seus candidatos sem ter a menor ideia de como ela acontece – estão até hoje confundindo inflação com alta de preços! Veja, você pode ter suas opiniões sobre os assuntos. Mas não estará ajudando em nada se metendo em discussões sem saber o básico sobre assuntos pelos quais escolhe lutar. Você se considera mais inteligente que todas as pessoas das quais você discorda em todos os assuntos? Você acredita que tem conhecimento mais profundo do que todas as pessoas que estão do lado político oposto ao seu? Imagino que não. 15 Pois bem, pense na questão do aborto. Você já tentou raciocinar sobre o motivo de pessoas mais inteligentes que você terem percepções tão diferentes da sua sobre algo tão, digamos, óbvio? Por que essas pessoas são como são? Do ponto de vista do indivíduo, ele sempre está escolhendo a ação mais relevante. É inevitável, todos nós somos assim: nós analisamos um conjunto de possibilidades e cremos que deve ser feito isto ao invés daquilo. Mas de onde vêm essas decisões? Por que certas pessoas acreditam que isto – e não aquilo – é o que se deve fazer? Enquanto você tem toda certeza de estar do lado certo, do outro lado há uma pessoa como você, que contém a imagem de Deus (Tg 3:9) e que também tem toda certeza de estar do lado certo. Então, ainda que você tenha mais conhecimento sobre o assunto do que as pessoas com quem você discute, e que a pessoa esteja defendendo algo imoral, o seu papel como cristão deve necessariamente, todas as vezes, vir antes do seu papel político-social. Nós não fomos chamados por Cristo para causar transformações na sociedade por causa da economia e afins. Nós podemos fazer isso, mas a transformação que Deus quer ver acontecer através de nós é muito, muito mais importante. Não permita que a sua maneira de lidar com as pessoas que discordam de você seja um testemunho contra a sua fé. 16 A Estratégia da Política O que há na política que faz com que cristãos se comportem de forma agressiva, sem se importar com o mau testemunho? A política atrai muitas pessoas a esse tipo de comportamento por ser muito fácil colocar nela a culpa pelos nossos próprios fracassos. Por que eu sou um miserável que não consegue vencer na vida, tampouco se esforça para isso, eu posso encontrar algum alívio brigando nas redes sociais, xingando aqueles que, supostamente, estão impedindo com que o Brasil melhore. Enquanto isso, a minha esposa não tem plano de saúde, meu filho não tem a minha presença, a igreja local não consegue contar comigo para nada e sou um filho ausente. E a culpa é toda dos governantes. Bem, dos governantes e seus eleitores, é claro. Muitas vezes, nos esquecemos de que a forma como o marido trata a esposa é mais relevante para a qualidade de vida da família do que quem ganhará a eleição. O modo como você cria seus filhos, trata os seus pais, se relaciona com os irmãos e trata os vizinhos, a forma como você se alimenta, como exercita seu corpo e sua mente, o meio que usa para relaxar etc., tudo isso é muito mais relevante para a vida do que quem será eleito. Se você não entende como, esse é só um sintoma de como nós fomos tragados para dentro desse nível de devoção política que tampa os nossos olhos e ouvidos para o mundo real. Nos acostumamos com o jogo político e, assim, fazemos dos candidatos que não gostamos o bode expiatório para a nossa miséria. Por que a minha vida está ruim? Por causa do governo eleito! Por que as coisas não vão bem? Por que os políticos não estão fazendo o que deveriam fazer! É assim que uma massa de cidadãos idolatra o papel do es17 tado, se tornando totalmente dependente dele e sem fazer aquilo que deveriam, eles mesmos, fazer como cidadãos. Resta usar as discussões políticas como um grande anestésico. No caso de cristãos, isso é ainda mais deplorável. Ao invés de buscarem mais a Deus, ficam esperando e colocando sua esperança em mudanças temporais. "Se o candidato tal ganhar", pensam, "acabou tudo. Mas se o outro ganhar, aí, sim, Deus vai abençoar!". A política conseguiu encontrar o caminho para o coração dos cristãos: a linguagem é sempre apocalíptica. "É agora ou nunca", "se fulano perder, o Brasil vai virar uma Venezuela", "se fulano perder, o Brasil vai virar uma ditadura". Há reis que preferem manter seus súditos em estado de inquietação. Se estiverem ansiosos com respeito à própria vida e preocupados por não saberem de onde virá a próxima refeição, talvez se sintam mais dispostos a obedecer às ordens do rei, a fim de poderem receber dos estoques da realeza a comida de que necessitam. A preocupação tolhe os movimentos dos súditos. O medo dá firmeza à monarquia.1 Na política, o apocalipse sempre está à porta e a responsabilidade é toda sua. Você, num dia específico, traçará o destino da nação apertando botões que salvarão ou condenarão a todos. Afinal, sempre o mal total e absoluto está quase, mas quase chegando. A única forma de impedi-lo é votando no candidato tal. Você sabia que foi justamente o discurso de medo contra a ameaça comunista que destruiu as bases da Direita americana? O medo e a sensação de urgência mudam os rumos da identidade americana e, aos poucos, abrindo cada vez mais concessões ideológicas, a Direita deu lugar a uma nova maneira de pensar, que nunca mais conseguiu fazer frente à Esquerda americana.2 Se você também já caiu nessa ladainha, não se preocupe. Todos os lados políticos usam as mesmas estratégias idênticas. E 1 O que Jesus espera de seus seguidores, p. 124, John Piper. 2 Um livro inteiro foi escrito sobre isso, traduzido para o Português pela Ed. Konkin, sob o título de "A Traição da Direita Americana, de Murray Rothbard. 18 eles se beneficiam muito desse tipo de linguagem. Esse discurso apocalíptico gera um medo, às vezes uma neurose, que é a maior arma política contra os cidadãos, mais ainda contra cristãos pouco instruídos escatologicamente – sobre o fim dos tempos. O medo por questões temporais jamais poderia ter atingido assim o coração dos cristãos. Como Piper comenta: Uma das características mais maravilhosas de Jesus é que ele não deseja que seu povo viva ansioso. Ele não mantém seu Reino à custa de espíritos inquietos. Ao contrário, o objetivo do Reino de Jesus é libertar-nos das preocupações. Ele não precisa nos manter preocupados para demonstrar seu poder e sua superioridade, pois são intocáveis e invencíveis. Ao contrário, ele exalta seu poder e sua superioridade quando leva embora nossas preocupações. Quando Jesus diz: "Não se preocupem com o amanhã" (Mateus 6.34), ele estabelece o tipo de vida que todos desejam — sem preocupações, sem medo dos homens ou de situações ameaçadoras. Quando você tiver outra vez essa sensação de urgência motivada pelos entraves políticos, lembre-se de que isso não passa de estratégia. Os políticos querem o seu coração. Se eles conquistarem o seu coração – se já não conquistaram – você será o militante engajado que eles queriam desde o início. As eleições não são uma disputa cósmica entre o bem e o mal. Essa é só mais uma estratégia diabólica tipicamente política. "Temer as pessoas é uma armadilha perigosa, mas quem confia no Senhor está seguro. Muitos buscam o favor do governante, mas a justiça vem do Senhor" (Pv 29:25-26). A Polarização Proposital Além do medo e da sensação de urgência, outra estratégia política que nunca acaba é a ideia de "nós contra eles". Eis aqui a origem da polarização e de facilidade com que cristãos, mesmo supostamente pregando amor, destilam ódio quando o assunto é a política. 19 Nos tempos de Jesus, os judeus chamavam os gentios de cães, que na época eram considerados animais imundos porque comiam carniça. Hoje, esse é um problema que existe no meio da Igreja. Ao invés de nos humilharmos em gratidão pelo Deus que nos escolheu pela graça, sem mérito nenhum de nossa parte, e oferecermos misericórdia aos perdidos, nós passamos a achar que somos melhores do que eles. Quantas vezes já ouvimos o mundo dizer que os cristãos são pessoas que se acham superiores aos outros? Até mesmo entre os próprios cristãos nós sofremos isso. É muito comum encontrarmos pessoas que se sentem superespirituais e se comportam com ar de superioridade. Até suas orações são arrogantes. Ora, onde nós já vimos algo parecido? "O fariseu, em pé, orava no íntimo: 'Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho" (Lc 18:13). Aliás, as orações de alguns conseguem superar a arrogância do fariseu descrito por Jesus, que pelo menos orava "em seu íntimo". Esse orgulho é um dos maiores obstáculos para missões e evangelização. Se você despreza ao invés de mostrar misericórdia, você já declarou que não está ali para estender a mão. Na carta aos Efésios (2:11-22), Paulo diz que, além do pecado do orgulho e da falta de misericórdia, os judeus não tinham nada de que se orgulhar. A circuncisão, motivo de orgulho, era apenas uma marca externa e não no interior do coração. Assim como muitos cristãos, os judeus se orgulhavam de algo externo, enquanto seu interior estava podre. Eles sentiam-se espirituais, mas eram carnais. Jesus também havia lançado isso na face deles: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia" (Mt 23:27). 20 A Estratégia do Cancelamento Recentemente, um youtuber chamado Paulo Muzy experimentou uma situação que nos serve bem de exemplo para este livro. Sua conta no Twitter, com uma explosão de acessos, começou a receber também a visita de militantes de esquerda atrás de saber quais eram os perfis que ele seguia; eles notaram que Muzy seguia a família Bolsonaro inteira para, segundo o Muzy, acompanhar as decisões políticas e o mais que estivesse acontecendo no Brasil, desculpa que não convenceu esses seguidores militantes. Aparentemente, Muzy apenas estava seguindo pessoas cujas propostas ele tinha alguma afinidade. Como consequência disso, Paulo Muzy foi “cancelado” nas redes sociais. A partir daqui, o capítulo será uma transcrição adaptada de um vídeo de José Augusto de Azevedo sobre o assunto.3 Paulo Muzy Cancelado Com o cancelamento de Paulo Muzy, aconteceu o que acontece com qualquer pessoa “cancelada”: ele ganhou diversos outros seguidores por conta disso. É óbvio que qualquer pessoa que tente ser cancelada por política, supostamente sendo bolsonarista, vai ganhar diversos seguidores. Porque a esquerda vai começar atacar e os bolsonaristas vão acolher. Porém, é preciso observar isto: é: o cancelamento foi muito bem sucedido nesse sentido. Por que ele foi bem sucedido? Porque, agora, a maioria dos seguidores que Paulo Muzy vai ter e associações que ele vai conseguir fazer, por mais que ele diga que não é bolsonarista e por mais que ele só vote no Bolsonaro de vez em 3 Disponível em: < https://youtu.be/2R4lYgU2iY8 >. Acesso em 15 de out. de 2022. 21 quando ou você acredite em somente algumas coisas que ele fala, mesmo que ele não seja um estereótipo do bolsonarista, todas as pessoas que se aproxima serão, necessariamente, bolsonaristas. Ele será associado a isso, pois é algo normal da conduta humana fazermos associação pelos seguidores: “me diga com quem tu andas que eu te direi que tu és”; “quem anda com porcos, farelos come”. Não dizem assim os ditados? Isso é inevitável. Por mais que ele não seja um bolsonarista, o fato da esquerda tê-lo cancelado por supostamente ser e por fazer com que bolsonaristas lhe sigam de volta. Então, esse cancelamento foi muito bem feito. Nós temos a impressão de que o intuito do cancelamento é fazer uma pessoa sumir das redes sociais, perder relevância. Mas, na verdade, não é isso. Veja: o Sleeping Giants, para quem não sabe, é um grupo de pessoas de esquerda que foca os seus esforços em boicotar e destruir a imagem das empresas e de pessoas de direita, mas eles não destroem perfis em redes sociais; os perfis não caem. Então, o que eles fazem, afinal? As pessoas perdem de vista a grande questão justamente porque estão nas redes sociais e acham que as interações se limitam às próprias redes, e é como se as pessoas, na verdade, não existissem. Pense neste exemplo: imagine que você é norte-americano e está vendo na televisão que duzentas pessoas estão fazendo um ataque em uma cidade: é o movimento Black Lives Matter, com muitas pessoas atacando lojas e propriedades. Estar em casa vendo isso pela televisão dá uma sensação de impotência. O que você pensa? Que aquelas pessoas vão destruir a sua casa também. Todavia, os habitantes nos Estados Unidos são por volta de 320 milhões. Ou seja, são 200 fazendo aquilo contra mais de 319 milhões que não estão e que também estão chocadas com aquela atitude. Enquanto você está assistindo, você está sozinho e aquelas pessoas na televisão estão juntas. A sensação física e psicológica que 22 você terá é: essas pessoas vão atacar a minha casa. Você fica temeroso, afinal, são duzentas pessoas mobilizadas Você não tem compreensão de que existe um grupo de outras pessoas que também está preocupado com isso, cujo número é imensamente maior que o número dos que estão protestando. Porque essas pessoas vivem e, diferente dos 319 milhões em suas casas, você as vê: elas existem. É mais ou menos isso que ocorre no Twitter. No twitter, você não vê as pessoas e é como se elas estivessem apenas dentro da rede. Quando você vê a televisão, você acredita que você está imerso naquilo e que aquilo se limita e se direciona somente a você naquele campo. Assim também, quando você está no Twitter, Instagram ou Youtube, você sempre raciocina em função do número de seguidores e que se você for cancelado perderá esse número de seguidores. Mas acreditar nisso é bobo, é infantil. É perder de vista o fundamental nesse jogo. O real cancelamento é especificamente você ser fortemente associado a um determinado grupo político. Por quê? Porque a vida não se limita à Internet! Você se lembra do caso do Maurício Souza, jogador de vôlei que foi cancelado também? No caso dele, foi por criticar a ideologia de gênero. Por mais que o cancelamento tenha dado a ele muitos seguidores, ele sumiu das redes – no sentido de ter perdido relevância. As pessoas não estão mais falando seu nome, mas ele ainda é um ser humano que vive seu dia a dia e, com certeza, está sofrendo problemas sociais meramente por ter sido associado a um determinado grupo político. A vitória do cancelamento não está em destruir a imagem da pessoa, mas em consolidar sua imagem da forma que a militância da esquerda ou da direita querem que você se estabeleça. Isso é verdade em todos os casos, mesmo que os “canceladores” não o façam tão conscientemente. Digamos que um grupo bolsonarista tente cancelar alguém 23 de esquerda, como no caso de Bruno Gagliasso, ator da Globo. A direita o cancelou incessantemente e a esquerda o abraçou, cooptou e se juntou a ele. Basicamente, as pessoas conseguiram, através do boicote, associar a imagem de Bruno Gagliasso à esquerda. O que isso significa? Que o boicote acontece fora da rede. Acontece no mundo real. Se você ainda não compreendeu o problema, pense novamente no caso de Paulo Muzy, que depois de ter sofrido cancelamento, ao ver o ilusório número de seguidores crescendo disse: “é isso o que acontece quando tentam cancelar pessoas sinceras”, ou algo assim. Ele não percebeu que não venceu. Ele perdeu mais do que imagina. Depois de sua associação com o bolsonarismo, vários sites de notícias começaram a dizer que produtos como Whey Protein e outros itens típicos de quem frequenta academia fazem mal à saúde. Essa maneira de agir não é uma coisa nova. Simultaneamente, Bolsonaro estava tentando diminuir o preço da Whey Protein, pois estamos numa época política e, como o próprio filho de Bolsonaro possui envolvimento com o público de academia, ele sabe que existe uma massa de votantes nesse grupo. Seu filho provavelmente o alertou sobre o caso e Bolsonaro tentou angariar público diminuindo o imposto sobre esses produtos. Ao fazê-lo, os esquerdistas imediatamente começaram a atacar tais produtos tanto quanto aos próprios grupos de musculação e afins. Como consequência dos ataques a essas pessoas que não tinham qualquer relação com o problema político em questão, boa parte delas, por estar sofrendo ataques, passará a se juntar aos grupos bolsonaristas. Essa identificação é o que se chama de “consciência de classe”. E é aqui que está todo o problema. A teoria da esquerda, o marxismo, se baseia numa teoria de classe: rico contra pobre, negro contra branco, mulher contra branco etc. Uma das grandes estratégias da consciência de classe na política é justamente fazer com que através dessa relação do tipo “nós 24 contra eles”, as pessoas comecem a ser socialmente enviesadas e passem a criticar determinados grupos políticos por determinados aspectos psicológicos que vão sendo desenvolvidos nelas mesmas a partir desse jogo. Perceba como o jogo político é uma doença. Você será associado a grupos partidários e políticos mediante determinadas características pequenas que aquele grupo tem, inclusive por questões emocionais. Dessa forma, se alguém ataca, por exemplo, a família, e você ama sua família, você vai se situar na política a partir de um grupo político que defenda a família. Isso é o natural, isso se chama dialética negativa: eu vou pela negação. Se a esquerda defende o aborto, se associará ao grupo que está defendendo a negação do aborto. E assim por diante. Essa se tornará a sua vida, a sua maneira de ver o mundo. Vejamos, a quem Bolsonaro está agora tentando se juntar? Ao grupo de musculação. Por isso, quem é de esquerda vai ter de ser contra os grupos de musculação e a todos os seus associados. Esses grupos, pouco a pouco, serão cravados em um polo político. E isso é o que chamamos de “consciência de classe”: é quando “eu” estou contra “os outros”. Perceba que tudo isso está muito bem estruturado para guiar as pessoas em torno de fixá-las numa consciência de classe, onde você verá uma pessoa de esquerda e automaticamente a vinculará a todos os estereótipos possíveis para negar a existência daquela pessoa. Isso é tão forte que muitos de nós já vimos familiares e amigos brigando, porque, a partir de um certo episódio, seu amigo ou seu familiar decidiu defender Lula ou Bolsonaro. E o que acontece? As pessoas passam a odiar umas às outras; pessoas que antes amavam, agora, foram descartadas e viraram inimigas meramente porque decidiram votar nesse ou naquele político. Isso é “consciência de classe”. É isso o que as teorias marxistas pregam: que cada sujeito dentro do esquema político, independentemente de ser de esquerda ou 25 não, consiga chegar justamente à consciência de classe. O que aconteceu quando, por exemplo, na pandemia, disseram para Bolsonaro invadir o STF? Muitos apoiaram, e isso é o que concebemos como “revolução”. Veja que a revolução não necessariamente precisa acontecer com os grupos de esquerda; não necessariamente precisa acontecer a partir dos grupos marxistas. Para os marxistas, a revolução apenas precisa acontecer. O conflito violento e o esquecimento do outro precisam acontecer a partir de uma corrente política, apenas isso. Quando você vê os bolsonaristas querendo invadir o STF e você é de esquerda, o que você pensa é: “meu Deus! Um golpe militar!”. O que você faz? Se junta à esquerda. Se você simplesmente não é de direita, não tem opinião ou posição política, mas vê os militares atacando, querendo invadir, e pensa-se: “Golpe de Estado!”, “Ditadura!”, “Direita!”, “Vou virar de esquerda, preciso votar no Lula!”. Esse é o apelo que o medo e as paixões têm no jogo político. Quando você vê as movimentações de grupos políticos, é difícil não se sentir pressionado a tomar uma posição, tomar um lado. Esse processo acontece igualmente entre todos os lados políticos, que vão cada vez criando mais consciência sobre o seu lado e o lado do “inimigo”. Todas as vezes que você interage com uma pessoa socialmente, no trabalho, na faculdade, em casa etc., e você expõe consciências políticas e afins, isso faz com que você se alinhe a um grupo e, consequentemente, afaste outras pessoas de você. E o processo de afastamento e o processo de negação sempre vão se estruturar psicologicamente a partir daquilo que você tem mais apego, porque aquilo a que você mais tem apego é aquilo que você tem mais medo que tomem de você. O real significado de cancelamento não é destruir suas redes sociais,, mas diminuir e piorar sua relação com as pessoas mais próximas de você dentro de sua vida social, dentro de sua vida familiar 26 e dentro de sua vida de trabalho. O propósito do cancelamento não é diminuir seguidores, mas sim segmentá-los e associar a pessoa a um grupo político. No fim das contas, a política é só uma plataforma que serve de desculpa para você exercer o ódio e o medo que você tem. A política é como um pinscher: 50% ódio e 50% medo. A política torna você 100% contra o outro, que é do outro partido. O meu recado a todos vocês é que não se deixem levar por essa doença chamada política. Não caiam nessa rede, nessa teia da aranha. Depois que você cai nela, o desespero é como sair, pois a aranha está vindo, e toda vez que você se mexe, você está mais preso na teia. É exatamente isso que acontece com as pessoas que entram nesse jogo. Você cada vez mais estará preocupado, com medo e com ódio. E se mexer na teia é ficar mais preso e cada vez mais profundo, com tanto medo da aranha e com tanta vontade de fugir daquilo, que você terá de enfrentar a aranha mesmo que ela nunca chegue, mesmo que ela não passe de uma alucinação e gritos coletivos socialmente. A recomendação é: largue isso! Tenha consciência de que isso está acontecendo com você. 27 A Polarização à Luz da Bíblia Alguns cristãos são tomados por uma esquizofrenia quando o assunto é política: toda a sua vida parece mesmo estar voltada para a missão cristã, exceto quando o assunto é política; com aqueles que ele não concorda politicamente, ele não sente que deve se comportar como cristão; ele pode insultar, pode tratar com desprezo, sem se preocupar com o fato de estar lidando com uma pessoa com dificuldades como qualquer outra. Discutindo sobre questões políticas, quantas vezes você já insultou outras pessoas e as tratou como inferiores, sob o pretexto de estar defendendo a Igreja, o Evangelho ou a sociedade? Às vezes, o povo de Deus começa a se esquecer de sua identidade e começa apenas a replicar aquilo que ele vê, ouve e sente, aquilo que ele está acostumado. Quando uma comunidade cristã começa a se esquecer de sua identidade, ela se esquece de que se Deus nos abençoou é para abençoar o próximo. O povo que devia sair e alcançar os perdidos, se acomoda por que está satisfeito de não ser como os descrentes. Com o tempo, começam a ter nojo dos ímpios e ficar feliz com os males que os atingem. "Bem feito! É isso que eles merecem. Tem que sofrer mesmo!", diz o "crente", tão amoroso quanto um cão raivoso. Você pode dizer em seu interior que não tem feito o mesmo em algum nível? E como igreja? Será que a nossa comunidade não está se isolando afastando os outros por questões secundárias? Se nós estivermos nos recusando a buscar quem discorda de nós politicamente, já transformamos a igreja num partido político. Nosso deus é outro. Se os adversários políticos são desprezados e chamados de “lixo” nas redes sociais, como poderemos falar do amor de Deus para eles? 28 A Igreja está cada dia mais perseguida e, em partes, porque os próprios cristãos dão muitos motivos. O mundo olha para os cristãos com menosprezo. As pessoas pensam que da mesma forma que tudo vem mudando com o tempo (crenças políticas, a ciência etc.), nós também em breve seremos convencidos a abandonar o que cremos. Eles não entendem que a Igreja de Cristo não pode ser detida. Nós, por outro lado, sabemos que eles é que estão errados: eles estão mortos em seus delitos e pecados, são filhos da ira (Ef 2:2). A identidade do mundo está ligada a vontades escravizadas pelo pecado e seduções de Satanás. Porém, nós aprendemos algo importante com Paulo. Quando Paulo fala dos povos incrédulos, ele vai além de suas transgressões. O olhar que ele tem dos descrentes é de misericórdia, de compaixão e de amor, assim como Deus teve por ele. "Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões – pela graça vocês são salvos" (Ef 2:4-5). É com esse olhar que estamos vendo essas pessoas? Sim, você encontrará muitos ateus militantes intragáveis. Você encontrará pessoas promíscuas insuportáveis. Encontrará pessoas que idolatram o trabalho, o poder e o dinheiro. A questão é: como você irá reagir? Fará como os judeus: desprezar e se isolar? Ou como Paulo, que está nos propondo a visão de Cristo: compaixão e ação? A Unidade Quebrada Muitas famílias estão brigadas, casamentos estão desmoronando e amizades antigas sendo desfeitas por causa de opiniões pessoais políticas. Isso já é bastante absurdo, mas não para por aí. Até igrejas locais estão divididas por causa da política, com ir29 mãos que não se suportam e não aceitam mais comungar uns com os outros. São pessoas cheias de si que têm sua própria opinião em altíssima estima e consideram-se mais espirituais, mais cristãs do que outros irmãos, não em questões de fé, mas em questões econômicas e sociais. Outras tantas igrejas até racharam, dando origem a outras denominações por conta não de escândalos ou de heresias, mas de gosto pessoal, opiniões mal pensadas em questões secundárias regadas a muito orgulho. É assustador que tenhamos chegado a esse ponto em tantos lugares. Mas, agora, o que fazer? Há um exemplo bíblico interessante que pode nos ajudar. Quando Paulo escreve à igreja de Corinto, ele está lidando com uma igreja dividida; aquela era uma igreja com muitas rupturas internas. O que Paulo faz, logo de início, é perguntar sobre a pessoa de Jesus: "Será que Cristo está dividido?" (1Co 1:13). Ora, teria Cristo sido estripado e seu corpo separado em muitas partes? Os cristãos são o corpo de Cristo. Nos dividirmos por questões secundárias é o mesmo que tentar romper esse corpo. Por isso, Paulo monta a figura absurda de um Jesus partido em pedaços para dizer que os coríntios não deveriam estar naquela situação. O que faz uma igreja conseguir vencer suas diferenças, seja na política ou em qualquer outra área, é olhar para o ponto que une todos os seus membros. O que nos une em um só corpo não é a nossa classe social, nossa etnia, muito menos a nossa preferência política. O que nos une é Jesus: quem Ele é e o que Ele fez. A unidade da igreja local, mesmo na diversidade de opiniões em questões secundárias, mostra qual é a prioridade dos membros. O que a sua relação com os que discordam de você politicamente tem testemunhado sobre a prioridade da sua vida pública? Diferentes Perspectivas Há um outro exemplo bíblico para os dias de hoje ainda mais 30 específico sobre diferenças políticas e unidade: os apóstolos. Jesus não promoveu uma revolução política, e nós ainda falaremos muito sobre isso mais adiante. Mas é curioso como aqueles que Jesus escolheu para fazer parte do grupo mais próximo de si para discipular e conceder autoridade revelacional para proclamar a sua mensagem – os apóstolos – foram chamados por Ele mesmo tendo posições políticas completamente antagônicas. Em Mateus 10:2-4, lemos a lista de nomes dos apóstolos. Na lista, a maioria dos apóstolos recebe alguma informação extra para facilitar a associação aos leitores da época. Para fazer isso, o escritor usou as características mais fáceis e marcantes para distinguir os apóstolos, inclusive porque vários deles tinham nomes repetidos. O que nos chama atenção é qual característica de dois deles foram citadas. Leia a passagem e preste atenção aos detalhes. "Ora, os nomes dos doze apóstolos são estes: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Zelote, e Judas Iscariotes, que foi quem o traiu". O Zelote "Simão, o Zelote". Assim era conhecido amplamente um dos discípulos escolhidos por Jesus. Os zelotes eram um grupo militante que queria incitar o povo judeu a se rebelar contra a opressão estatal romana, que havia tomado a região da Judeia, implantado pela força estatal suas próprias leis e imposto um regime de tributação sobre os israelitas, tal como faziam em todo o seu território. Nenhum judeu concordava com aquilo, mas a maioria não tinha coragem de se posicionar contra os impostos e as leis romanas. Os zelotes foram judeus que começaram a se posicionar publicamente e estavam dispostos a pegar em armas para derrubar o 31 governo romano se possível fosse, para livrar o povo. Simão, quando foi chamado por Jesus, era, em seus métodos, o que nós chamamos hoje de "revolucionário". Olhando assim, pode parecer que os zelotes eram um grupo extremista e sem razão. Mas vamos analisar isso com calma, à luz do outro componente do grupo apostólico: o publicano. O Publicano "Mateus, o publicano". Jesus transformou um publicano em um apóstolo. Você tem noção do que isso significou? Mateus, o publicano, foi quem escreveu o próprio evangelho de Mateus. Ou seja, ele fez questão de chamar a si mesmo, humildemente, pela forma como as pessoas o conheciam antes. Publicano era alguém que trabalhava para o Império Romano cobrando impostos. Ou seja, os publicanos eram um grupo que sobrevivia às custas do dinheiro extorquido do povo pela força do estado romano. Este era o motivo pelo qual eles eram tão odiados pelo povo de Deus e por isso são tão mencionados nos textos. Em algumas passagens, podemos ficar com a impressão de que apenas pessoas ruins não gostavam dos publicanos, como neste caso: "Os escribas dos fariseus, vendo-o comer em companhia dos pecadores e publicanos, perguntavam aos discípulos dele: Por que come [e bebe] ele com os publicanos e pecadores?" (Mc 2:16). Mas essa impressão é equivocada. Nenhum judeu gostava dos publicanos, nem os apóstolos. É por isso que o evangelista Lucas faz questão de dizer, de sua própria percepção, que os que se aproximavam de Jesus eram "publicanos e pecadores" (Lc 15:1-2). E em outras passagens, Lucas mostra que o próprio Jesus considerava os publicanos como pessoas que precisavam se arrepender: "Os fariseus e seus escribas murmuravam contra os discípulos de Jesus, perguntando: Por que comeis e bebeis com os publica32 nos e pecadores? Respondeu-lhes Jesus: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento" (Lc 5:30-32). Em Mateus, Jesus coloca os cobradores de impostos no mesmo nível das prostitutas: "Declarou-lhes Jesus: Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus" (Mt 21:31). Ora, e por que Jesus parece estar falando bem deles? Ele mesmo explica no verso seguinte: "Porque João veio para lhes mostrar o caminho da justiça, e vocês não creram nele, mas os publicanos e as prostitutas creram..." (Mt 21:32). O problema dos publicanos era tão sério que quando Jesus fez uma parábola para confrontar a situação dos fariseus para com Deus comparando-os com a pior coisa possível, Ele a fez justamente com a figura de um cobrador de impostos: "Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, em pé, orava no íntimo: 'Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado" (Lc 18:10-14). Se você ainda não se convenceu da posição de Jesus quanto aos publicanos na sociedade, vamos relembrar da passagem onde Ele ensina como a Igreja deveria agir com relação àqueles que, diante da correção de um pecado, não quisessem se arrepender: "Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão. 33 Mas se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros, de modo que ‘qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas’. Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano" (Mt 18:15-17). Para ficar mais claro, veja como a versão NVT traduz as palavras de Jesus, trazendo para uma linguagem mais contextualizada: "...trate-o como gentio ou como cobrador de impostos". Lealdade à Missão Essas tão diferentes perspectivas sobre política no grupo de Jesus nos ensinam muitas coisas. A primeira delas é que Deus chama à fé gente de todos os lugares, de todos os tipos. Deus converte esquerdistas e direitistas, comunistas e anarcocapitalistas. A segunda é que Jesus em nenhum momento lida diretamente com os anseios políticos dos seus discípulos. Não vemos nenhum ensino ou pregação de Jesus onde Ele estivesse preocupado em dizer que Simão e Mateus precisassem mudar de ideia sobre serem zelote e publicano. Jesus apenas prega a eles o Evangelho do reino e ensina os valores da fé. Em terceiro lugar, é interessante ver como esses homens mudam. Nenhum deles é registrado no livro dos Atos dos Apóstolos em grandes manifestações ou convocações públicas contra a opressão estatal, ainda que estivessem certos ao fazê-lo. Eles militaram por uma única causa, tal como aprenderam com o Filho de Deus. Jesus esteve mais preocupado em falar sobre perdão, sobre misericórdia e não amar o dinheiro do que sobre seus ideais políticos, por mais errados que estivessem. Com isso, aprendemos que a melhor forma de lidar com os nossos anseios políticos é "calibrá-los" com uma boa dose de Evangelho e vida cristã. Se estivermos mais preocupados com viver a 34 graça do Evangelho, certamente teremos os nossos ideais políticos colocados em seus corretos lugares. A unidade dos apóstolos, com opiniões tão distintas, não era artificial, não era uma obrigação. Era a consciência de que algo muito maior e mais importante do que suas convicções estava em jogo: o testemunho cristão e a proclamação do Evangelho. A lealdade do cristão não é a qualquer ideologia política, nem a pautas específicas, muito menos a esse ou aquele candidato. A lealdade do cristão é somente a Cristo e sua mensagem. Obviamente, isso diz respeito à forma como devemos tratar irmãos com ideais políticos diferentes de nós. Porém, é claro que isso não significa que tudo é relativo, que todas as posições políticas estão corretas e que ser cristão redime o nosso apoio a quaisquer correntes políticas, partidos, candidatos ou pautas. Direita ou Esquerda? Vamos direto ao ponto: é errado um cristão ser de esquerda? Essa é uma das perguntas mais feitas – ou respondidas sem que ninguém pergunte – no mundo cristão atual. Mas, veja, como pode um cristão, com a Bíblia em mãos, simplesmente não saber se ele pode ou não ter essa ou aquela posição política? É simples: basta que ele não saiba a que se referem esses termos, ainda que ele tenha certeza de saber. Na verdade, o problema já começa mesmo na definição dos termos. Quando pensamos em "direita e esquerda", já estamos lidando com conceitos ultrapassados. Esses são conceitos bastante ruins do vocabulário político, como bem escreveu André Venâncio, em seu artigo "Armadilhas do vocabulário político", publicado no site Teologia Brasileira; vale a pena a leitura do artigo completo. Venâncio comenta: 35 A tentação de ver o mundo como algo semelhante a um jogo de futebol se apresenta, sob diferentes formas, a toda posição política concebível [...] Na política, como fora dela, o simplismo é inimigo da verdade. Reconhecer suas manifestações em cada caso e se precaver contra elas é um dos desafios do cristão que busca compreender a dimensão política da realidade. A polarização convencional entre direita e esquerda é uma das manifestações mais amplamente difundidas do simplismo posto a serviço de uma agenda política apóstata. A popularidade de tais simplificações é um indício da dificuldade envolvida na tarefa de superá-las.4 A classificação convencional "direita e esquerda" não consegue explicar posição política, nem é específica o suficiente para que alguém que se diga de direita ou esquerda saiba antecipadamente algo consistente sobre alguém que se assume do outro lado. No artigo, Venâncio explica como os grupos de esquerda, apesar de divergirem grandemente entre si em muitas coisas e até nas pautas principais, têm em comum apenas a ideia de igualdade econômica, mais nada. E nos grupos de direita fica ainda pior. [O] que há em comum entre todas as direitas é apenas o fato de que se opõem à esquerda; mas o fazem pelas razões mais díspares e incongruentes entre si. O liberal se opõe à esquerda por ver nela um atentado ao valor supremo da liberdade individual; o conservador se opõe à esquerda por ver aí uma tentativa de subversão da ordem moral (ou espiritual) da sociedade; os fascismos se opõem à esquerda por verem nela um atentado ao espírito nacional ou racial em prol de uma ordem que transcende a da nação. Além disso, cada um desses motivos pode ser (e é), com o mesmo grau de coerência, apontado por seus respectivos defensores, não só contra a esquerda, mas também contra as demais direitas. Por conseguinte, ainda que adotemos a classificação convencional para dizer quem é direitista, não é justo nem sensato atribuir à direita uma unidade; o que existe é uma irredutível pluralidade de direitas. 4 Disponível em: < https://teologiabrasileira.com.br/armadilhas-do-vocabul-rio-politico >. Acesso em: 8 de out. 2022. 36 Se, por um lado, um esquerdista nâo tem condições de acusar um direitista de nada sem antes ouvir diretamente dele porque se denomina direitista, por outro lado, é muito comum que os direitistas nem saibam por que exatamente dizem-se de direita, a não ser pelo fato de que se oporem à esquerda de modo bem genérico. Afinal, há algum problema em ser de direita ou esquerda? Cristãos de Esquerda Se você diz que é cristão e é de esquerda, é possível entender muitas coisas diferentes que provavelmente você discordará, mas que estarão plenamente de acordo com o esquerdismo. Ser cristão e de esquerda pode significar, facilmente, que você está assumindo crer em Jesus, e ainda assim, ser um revolucionário marxista que acredita na tomada violenta dos meios de produção. Em outras palavras, se você é um revolucionário marxista, você, necessariamente, acredita na "abolição da propriedade privada" para favorecer uma "ditadura do proletariado" (expressões usadas pelo próprio Marx no Manifesto Comunista). Bem, não é preciso ter muito tempo de igreja para saber que alguém defendendo que patrões sejam assassinados com violência para que se possa tomar deles os meios de produção pode ser qualquer coisa, mas definitivamente não é cristão, nem foi tocado por qualquer coisa da fé cristã bíblica. Isso está, na verdade, em direta oposição ao cristianismo. Porém, dizer-se cristão e de esquerda pode significar apenas que a pessoa gosta da ideia de uma redistribuição de renda. Ou seja, a pessoa crê que alguns indivíduos com mais posses devem ter parte de sua riqueza distribuída por meios de certos mecanismos sociais, entre eles o confisco e a taxação de grandes fortunas. Ou então, a pessoa pode dizer-se de esquerda porque acha que deveria haver mais serviços públicos – uma ideia conhecidamente esquerdista. 37 Pode ser também que essa pessoa acredite que deveria haver uma renda mínima universal fornecida pelos governos, acredite também em salário mínimo, regime CLT, na proteção do comércio nacional e que deveria haver uma maneira de cobrar mais impostos dos ricos e menos dos pobres, por exemplo. No caso dos mais militantes, pode ser que a pessoa se diga trabalhista e sindicalista. Pois bem, na mentalidade dessas pessoas, isso tudo traria o bem para a sociedade. Essas pessoas podem ser cristãs crendo nisso? Apesar dessas pautas serem, sem dúvida alguma, de esquerda, não há algo exposto na primeira camada do raciocínio que contradiga a fé e a vida cristã. Não tenho dúvidas de que são pautas social e economicamente equivocadas, além de serem parte do discurso populista de praticamente qualquer político, mas isso não diz nada sobre a fé. Diz, sim, sobre a ingenuidade, a maturidade e a pouca informação técnica dessa pessoa, que apesar de ter certeza de que isso seria bom para a sociedade, não tem noção sobre os impactos reais dessas ideias. Contudo, essas pessoas podem ser genuinamente cristãs. Ainda que possamos questionar os meios pelos quais elas esperam que os pobres sejam ajudados, a princípio, não temos motivos para questionarmos sua fé, nem sua intenção. Perceba que esses ideais não são diretamente opostos à teologia bíblica, tais como os anteriores que citamos. Há vários cristãos que são profundamente de esquerda em pautas econômicas, mas são opositores ferrenhos à legalização do aborto; são decididamente contra a sexualização de crianças nas escolas, são contra a perseguição contra pastores que falam sobre homossexualidade etc. Ou seja, só seguem pautas de esquerda em assuntos mais específicos que entendem não ferir princípios bíblicos. E quanto aos cristãos de direita? 38 Cristãos de Direita Se você diz que é cristão e é de direita, veja: também é possível entender muitas coisas diferentes que provavelmente você discordará, mas que estarão plenamente de acordo com o direitismo. Ser cristão e de direita pode significar, facilmente, que você está assumindo crer em Jesus, e ainda assim, ser um nacionalista escondido atrás de uma máscara de patriotismo, que imagine-se de tal forma superior a outros povos e que as fronteiras devem ser fechadas e imigrantes devem ser expulsos. Bem, também não é preciso ter muito tempo de igreja para saber que alguém defendendo que emprego e boas condições de vida a pessoas do seu próprio país seja mais importante do que a pessoas de outros países é um absurdo completo e está completamente fora de sincronia com o que Jesus ensinou claramente na parábola do Bom Samaritano (Lc 10:29-37). Outro exemplo: dada a situação atual da política brasileira, não é difícil encontrar quem diga ser cristão e acreditar que o presidente seja um enviado de Deus, um representante de Deus, de forma que ir contra ele é ir contra o próprio Senhor. Isso indicaria não menos do que um problema muito sério na vida cristã dessa pessoa. Mas esses dois exemplos não são tudo o que se pode dizer de um cristão. Dizer-se cristão e de esquerda pode significar apenas que a pessoa gosta da ideia de um livre-mercado - ou, a desregulamentação do mercado, pois isso produziria muito mais bens e serviços para a sociedade, o que tiraria muito mais gente da miséria do que um governo que tenta fazê-lo não pela produção de bens, mas dividindo o que outras pessoas conseguiram por meio de impostos. Ao dizer-se de direita, você pode estar pensando apenas na defesa da família tradicional e dos costumes mais conservadores na cultura. Pode ser que você esteja pensando em liberdade de expressão, propriedade 39 privada e defesa da vida, dentre outras coisas. Essas pessoas podem ser cristãs genuínas? É claro que sim. Esses ideais não são diretamente opostos à teologia bíblica, tais como aqueles que citamos antes. Ainda que alguém queira questionar os meios pelos quais elas esperam que os pobres sejam ajudados, a princípio, também não temos motivos para questionarmos sua fé, nem sua intenção. Há vários cristãos que são profundamente de direita em pautas econômicas, mas que participam de ações sociais, são generosos na caridade e verdadeiramente se importam com pessoas em situação econômica precária. Ou seja, só seguem pautas de direita em assuntos mais específicos que entendem não ferir princípios bíblicos. Lidando com a Polarização O que fica claro é que o cristão não pode aderir incondicionalmente a nenhuma ideologia política. Ninguém pode ter dúvida de que Cristo não cabe em nenhuma delas. O que nós precisamos entender é: dentro dessas convicções políticas, o que (e por que) exatamente é antibíblico, herético e imoral? E quais são as coisas que eu apenas não concordo? Você não pode enquadrar todos da mesma forma. É preciso saber do que se está dizendo, caso a caso. No fim das contas, se estamos mesmo falando de cristãos convictos e que foram convencidos pelo Espírito Santo de seus pecados, só podemos concluir que, apesar de suas falhas em compreender corretamente como o mundo funciona, tanto direitistas quanto esquerdistas, em certas convicções, não estão se opondo a Jesus. Além disso, caso você encontre irmãos que estejam, sim, crendo em pautas anticristãs, você ainda tem o caminho da repreensão e correção; esse é o caminho entre cristãos – e não o insulto, a ira, 40 a mágoa etc. Aliás, esteja pronto também para receber correções. Se você se considera um grande conhecedor disso ou daquilo e tem certeza de que as ideias que alguns irmãos seguem são extremamente danosas ou, digamos, burras, perceba que essa não é uma situação de heresia ou apostasia. O Evangelho também é para pessoas pouco inteligentes, pouco sábias e pouco conhecedoras das coisas. Aliás, a salvação não é pelo intelecto, mas pela graça, mediante a fé. Portanto, não há motivo para cristãos romperem a comunhão em razão de diferenças políticas que não atingem valores inegociáveis da fé cristã. Se estamos unidos em Jesus, as diferenças menores devem ficar para trás. Precisamos aprender a ficar juntos pelo que importa. De fato, a união da Igreja só é possível se Jesus for o nosso valor maior. Uma igreja que se divide por causa de opinião política já tirou Jesus do seu centro há muito tempo. O pastor e teólogo John Piper, em seu livro "O que Jesus espera de seus seguidores" (p. 180), menciona que o amor é o "critério fundamental de nosso comportamento por ser o segundo aspecto destacado por Jesus na nova maneira de encarar a Lei: ele declarou que tudo se resumia ao amor: “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas” (7:12). Ao dizer isso, Jesus redirecionou o foco dos mandamentos per se para um relacionamento com ele, capaz de produzir o amor que cumpre a Lei". Se tivermos um senso de unidade em Cristo, nós teremos também maturidade para permitir que as pessoas tenham liberdade para interpretar questões secundárias diferente de nós, cada um com sua limitação intelectual e preferência pessoal, ainda que com seus equívocos. Ora, a Igreja é composta por pessoas imperfeitas, pecadoras, que tomam decisões estúpidas muitas vezes, isso inclui você. Ore para que seus irmãos o amem e suportem, apesar de suas falhas, sua falta de conhecimento e opiniões políticas. 41 O Custo do Discipulado Este capítulo não é para cristãos nominais (não-praticantes), cristãos por tradição familiar, crentes "apenas no coração". A realidade cristã dita aqui será muito difícil de ser engolida por esses grupos. Difícil não, impossível. Mas se você é cristão não só por frequentar uma igreja ou por gostar das ideias de Jesus, mas por compreender que você é pecador e nada que fizer pode reverter a situação, e que em sua morte Jesus estava literalmente pagando por seus pecados em seu lugar, e como consequência sua vida agora é dele, então este capítulo é para você. No capítulo anterior, eu disse que Mateus (publicano) e Simão (zelote) não aparecem em Atos fazendo nenhum tipo de apelo político, com nenhuma pauta social ou econômica. A missão deles era a proclamação fiel do Evangelho. Nisso estava o seu sucesso. A causa do Evangelho era a pauta de sua militância e através da qual eles precisavam ser reconhecidos pelo povo. Neste capítulo, nós veremos as implicações práticas disso. O Custo Para o Zelote Simão O chamado de Jesus a Simão teve implicações óbvias e imediatas, pois exigia uma mudança total na forma de enxergar a vida e uma entrega total à causa do Evangelho. Simão logo deve ter compreendido que precisava ser conhecido pelo seu testemunho como seguidor de Jesus, não por qualquer ativismo político. No projeto político dos zelotes havia o desejo por uma restauração da teocracia de Israel, com um rei santo no trono, assim como havia sido nos tempos de Davi. Imagine, então, o que a vinda do Messias prometido aos isra42 elitas deve ter provocado na mente daqueles homens. Cristo, porém, agiu ao contrário do que se esperava. As únicas autoridades contra as quais Jesus bateu de frente foram as religiosas. Além de não se manifestar como um líder político, tal como todos os judeus esperavam, Ele ainda fez questão de dessacralizar o poder político, se opondo com veemência ao desejo dos judeus e dizendo que o seu reino não era deste mundo. Ele não enfrentou as autoridades e pouco comentou diretamente sobre elas. Logo ficou claro que havia uma grande diferença entre o tipo de missão que Jesus estava entregando aos seus discípulos e aquele desejo revolucionário dos zelotes e do coração de tantos judeus. Pensando ainda sobre a oposição zelote ao estado, Romanos 13 pode nos ajudar a esclarecer algumas coisas, pois a passagem fala sobre uma agressão específica da força estatal: os impostos. O trecho abaixo foi retirado do livro "Pacificadores Num Mundo Violento", publicado também pela editora Konkin. Os Impostos e os Zelotes No período do ministério de Paulo, os impostos não eram muito diferentes do que são hoje. O Império Romano abusava do povo, cobrando todo tipo de imposto que minava a produção e o sustento dos cidadãos. O império tentava fornecer segurança e alguns outros serviços, mas não pela oferta, e sim pela imposição e monopólio, tal como também é comum em nossos dias. Por todo o AT, a cobrança de impostos é tida como uma espécie de punição. Geralmente, as passagens falam de impostos altos, mas toda a intervenção do governo na vida do povo está inclusa, como vemos na passagem onde o povo hebreu pede um rei para si (1Sm 8:5-21). Não é à toa que todo estado tira parte do sustento do povo, cria monopólios, atrapalha no crescimento econômico e força seus cidadãos a entrarem em guerras que governantes criaram: está 43 claro nessa passagem que o estado foi uma forma pela qual Deus escolheu punir as nações. Na dúvida, leia a passagem acima. Agora, veja o que Paulo diz: "Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também pela consciência. Por esta razão também pagais tributos, porque são ministros de Deus..." (Rm 13:5-6). Às vezes, o cristão vai ser visto como criminoso diante da lei dos homens, pois convém obedecer a Deus do que aos homens. Porém, no contexto em que há um abuso da lei dos homens vindo contra nós (e não contra a nossa fé), este é um contexto em que baixamos a cabeça, justamente por causa da nossa fé, que é onde está nossa identidade e o assunto pelo qual devemos militar. Se não é uma questão de violência física ou risco de morte, nós agimos de uma forma diferente daquela que a cultura espera. Se a atitude, seja do governo ou de uma pessoa qualquer, é contra nós em prejuízo (seja financeiro ou moral), nós damos a outra face. Ao contrário disso, os zelotes faziam da luta contra a opressão estatal a sua identidade. O ativismo político e a manifestação por causa do poder do governo era a coisa mais importante para eles. Eles lutavam e morriam pela causa. Diante disso, os cristãos foram proibidos de agir como eles. Paulo não podia deixar que os cristãos confundissem o seu chamado e as implicações sociais e culturais com militância política. Se eles fossem perseguidos e mortos, que fosse pelo Evangelho. É claro que Paulo não estava desejando que eles morressem ou dizendo que seria boa coisa que o governo os perseguisse. Ao contrário, ele até mesmo nos ensina a orar pedindo que Deus nos dê tempos de paz (1Tm 2:1-2). Paulo também não estava sugerindo que o cristão jamais deve se opor à agressão estatal. Nada disso. Aliás, a perseguição religiosa, quando é física, pode ser resistida. Em Atos 7:57-60, vemos o primeiro apedrejamento de um cristão, morrendo pela sua fé. Ele de fato teve o privilégio de morrer literal44 mente por Cristo, mas ele não fez isso por opção. Ele não teve escolha. A passagem mostra a agressividade daqueles homens que o levaram para fora da cidade e o mataram. Seria muito difícil ter escapado. Por outro lado, o verso seguinte já nos mostra uma situação completamente diferente. Leia com atenção: "...E fez-se naquele dia uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram dispersos pelas terras da Judéia e de Samaria, exceto os apóstolos" (At 8:1). Nenhum cristão que podia escapar ficou esperando a morte. Na verdade, eles não estariam fazendo nada de imoral se, diante dessa perseguição, se defendessem ou defendessem suas famílias. O estado não é sagrado. Da mesma forma, você não estaria infringindo a ética cristã de forma nenhuma ao se defender dos soldados nazistas e comunistas. Ao contrário, estaria fazendo um bem à sociedade; e isso não seria revolução, mas legítima defesa.5 Contudo, cidadãos raramente têm condições de revidar. Isso faria com que os próprios discípulos apenas morressem. Em Romanos, a orientação de Paulo aos romanos tinha o objetivo de impedir que os cristãos fossem mal vistos pela sociedade como rebeldes ou pessoas perigosas. Cristãos deveriam ser conhecidos pela conduta pacífica, caridosa e fiel à sua fé em Cristo. Resumindo, Simão poderia continuar desejando que a opressão estatal acabasse, e até mesmo agindo nesse sentido. Porém, seu ativismo agora havia mudado de pauta por completo. O Custo Para o Publicano Mateus Em Mateus 5:43-48, encontramos uma passagem que faz uma conexão interessante sobre o problema dos zelotes com o pro5 Esse tema foi melhor desenvolvido melhor no livro "Pacificadores Num Mundo Violento". 45 blema dos publicanos. O alerta de Jesus acerta em cheio, primeiro, os zelotes, ao ensinar categoricamente que além de não odiar, nem retaliar seus inimigos, seus seguidores deviam amá-los. Em seguida, para apontar a falhar daqueles que amam apenas seu próprio grupo, Jesus cita ninguém menos que os publicanos. "Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim? Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus" (Mt 5:38-48). Jesus, nessa passagem, parece dizer que os publicanos eram um tipo de gente que gostava apenas de si mesmas e apoiava apenas seus próprios interesses, contra o interesse de todos os outros. Não há muitos grupos militantes assim? Na verdade, que grupo militante não é assim? Ou melhor ainda, que posição política, incluindo as mais amenas, não olha apenas para o seu umbigo e advoga em causa própria? Nós voltaremos a esse ponto no próximo capítulo. Por enquanto, note a situação de Mateus. Mateus, como publicano, era alguém cujo sustento pessoal vinha de ajudar o estado a arrancar o sustento legítimo de outros cidadãos. Então, não nos estranha nada que ele tenha abandonado totalmente sua forma antiga de pensar e começado a viver como os demais judeus: pelo esforço do seu próprio trabalho, e não do trabalho alheio. Enquanto a mudança exigida de Simão estava não na teoria, 46 mas na prática – pois ele não devia mais agir como um revolucionário, mas podia continuar não concordando com a imposição estatal e contribuindo para amenizar o problema –, a mudança exigida de Mateus começava na teoria, na forma de pensar. Não é possível extrair muita coisa da lista de nomes dos apóstolos feita depois de tudo isso, no livro de Atos, mas talvez tenha sido por causa dessa diferença que enquanto Mateus passa a ser chamado apenas pelo nome, Simão ainda podia ser lembrado sem problema algum como zelote. "Quando ali entraram, subiram para o cenáculo onde se reuniam Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas, filho de Tiago" (At 1:13). Os Discípulos Empreendedores Voltando à questão de viver do próprio trabalho, o comentário do próprio Mateus sobre dois outros apóstolos nos chama a atenção: "Pouco mais adiante, Jesus viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes, e logo os chamou..." (Mc 1:19). É curioso que, nos evangelhos, na lista dos homens chamados para a missão apostólica, somente o custo do discipulado na vida desses dois irmãos empreendedores seja listado a nós. Tiago e João estavam trabalhando quando ouviram o chamado de Jesus, e largaram tudo para trás. Veja, eles eram pescadores; aquele era o sustento deles, era a base da segurança e do futuro de suas famílias, sua garantia de sobrevivência – era plenamente justo que permanecessem como estavam. Mas quando eles ouviram a voz divina e entenderam o chamado, foi irresistível. Não existia mais qualquer fonte de segurança, muito menos qualquer lucro que fosse mais importante do que responder positivamente àquele chamado. Eles só podiam obedecer e seguir a Cristo. 47 A cena se torna ainda mais dramática quando vemos os detalhes no verso seguinte: "e eles seguiram Jesus, deixando o seu pai Zebedeu no barco com os empregados" (v.20). Eles deixaram a família e um empreendimento para trás. Aqueles eram jovens empreendedores que com a eficiência do que faziam conseguiram não apenas trabalhar para si, mas empregar outras pessoas também com suas famílias para sustentar. Ora, o texto diz que eles deixaram seu pai. Se nem mesmo a família poderia impedi-los de obedecer a Cristo, muito menos fatores econômicos. Eles simplesmente deixaram tudo. Eles entenderam o que era realmente importante e pelo que valia a pena viver a vida. Você compreende que a economia não é a coisa mais importante no seu discurso público? Entende que os problemas sociais jamais serão resolvidos por decretos escritos em papel, pois são consequência do pecado da humanidade? Mais importante que tudo isso é onde está a nossa confiança e o que nós somos diante dos problemas econômicos e sociais. Um Chamado à Morte É compreensível que para algumas pessoas seja muito difícil aceitar isso. Mas quando você entender o quanto Jesus abriu mão para salvar você, então, tudo o que a política e o ativismo representam para você, todos os detalhes que você considera partes da sua identidade e tudo o que você possui por conquista própria não significarão nada mais. Quando você compreender o que Jesus fez pela humanidade, essa decisão será muito mais fácil. Mas talvez você só esteja confuso com isso tudo. Pois bem, naquele dia que você compreendeu, naquele dia em que o Espírito Santo abriu o seu coração para que você entendesse a verdade e aquele chamado se tornou irresistível a você, de 48 tal modo que você não teve como rejeitar, e entregou sua vida a Ele, naquele dia, o dia da sua conversão, o Senhor não apenas o salvou, mas também o comissionou. E essa comissão tem um custo. Seguir a Cristo não é uma vida de vitória triunfante. Segui-lo é uma vida, sim, de vitória eterna quando nós estivermos na glória com Ele. Mas aqui nós seguimos o nosso Senhor a caminho da Nova Jerusalém com a nossa própria cruz nas costas. "Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mc 8:34). A sua cruz não é o seu trabalho, nem sua condição financeira ou o grupo oprimido ao qual faz parte. A sua cruz não é a sua jornada política de ativismo por esta ou aquela causa. A sua cruz é a sua própria vida, sua decisão pessoal de morte por Cristo se necessário for. Porque Cristo é tudo o que importa, "pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; e quem perder a vida por minha causa e por causa do evangelho, esse a salvará" (Mc 8:34-35). Você compreende isso? Se você fizer das suas metas a sua vida, se você fizer do seu ativismo sua vida, você irá certamente perdê-la. A causa pela qual a sua comissão o chama a morrer não é a causa da igualdade econômica, da desregulamentação estatal, da luta contra o racismo ou contra os impostos. Todas essas coisas podem ser importantes, mas perto da sua comissão verdadeira, são todas desperdício de tempo. A grande pergunta aqui é esta: você está preparando para colocar tudo em segundo plano e seguir o Mestre? 49 Cristianismo à Força? O problema dos zelotes não era a oposição ao estado, mas a forma que usavam para colocá-la em prática. Hoje, o problema das visões políticas se inverteu: de modo geral, não é mais a oposição a um estado impositor, mas tentar usar o impositor o seu próprio gosto. A maioria dos cristãos parece acreditar que pode impor o cristinismo goela abaixo na sociedade, ou no mínimo, sua ética. A proclamação foi substituída por algo mais "eficaz": a força. O envolvimento de muitos cristãos com a política não é por outro motivo senão uma tentativa de cooptar o poder estatal. A Via Estatal Você sabia que é propriamente através do poder político que o anticristo irá se manifestar? Como Hank Hanegraaff comenta em seu artigo "Quem é o Anticristo?": [No] livro de Apocalipse, João identifica tanto um indivíduo como uma instituição que representam a personificação final do mal – o anticristo arquétipo. Ele refere-se a esse anticristo arquétipo como uma besta que “engana os que habitam na terra” (Apocalipse 13:14). Utilizando a descrição apocalíptica de Daniel sobre os poderes mundiais do mal (Apocalipse 13; cf. Daniel 7-8), João descreve um imperador, da sua época, que arrogantemente coloca a si mesmo e ao seu império contra Deus (13:5-6), perseguindo violentamente os santos (13:7), e violando de maneira grosseira os mandamentos mediante várias e longas demonstrações repugnantes de depravação, inclusive demandando ser adorado como Senhor e Deus (13:8,15).6 6 Disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/escatologia_reformada/quem-e-anticristo-tba2_Hanegraaff.pdf >. Acesso em 11 out. 2022. 50 Barry Gritters joga ainda mais luz sobre a questão, em seu artigo "O Anticristo": Resta pouca dúvida quando vemos que a besta tem chifres e coroas. Na Escritura, chifres são simbólicos de poder, e coroas de autoridade governamental. Além disso, Apocalipse 13:2 diz que a besta tem poder e um trono e grande autoridade, e o versículo 7 diz que ela tem poder sobre todos os povos, línguas e nações. Se resta alguma questão, Daniel 7 diz que as quatro bestas são quatro reis; e Apocalipse 17 diz que a besta da terra é um rei. Os séculos de divisão e separação sobre esta terra terminarão num único governo mundial. O Anticristo é uma realidade política, uma nova ordem mundial, uma unidade global [...] A Escritura deixa claro, contudo, que o Anticristo será um poder político. Este poder político será um poder mundial. A besta tem dez chifres e dez coroas, representando a plenitude de poder e autoridade sobre as nações do mundo.7 O verso 3 traz um detalhe importante: "O mundo inteiro se maravilhou e seguiu a besta". O poder político e as ações dos poderosos constantemente maravilha as pessoas. E isso vai encontrar seu ápice com a Besta. No mínimo, essa reação popular deveria nos estranhar. Quando falamos de política, estamos falando especificamente dos dominadores deste mundo, do desequilíbrio que aconteceu por causa do pecado. Por isso, esses poderes são constantemente mencionados como inimigos de Deus e do povo (1Co 15:24-25; Sl 2; Jr 12:10; At 4:26). "Vocês, governantes, sabem o que significa justiça? Acaso julgam o povo com imparcialidade? De modo algum! Tramam injustiça em seu coração e espalham violência por toda a terra" (Sl 58:1-2). E, sim, os poderes políticos sempre foram usados por Deus para estabelecer seus próprios planos. Ainda assim, cada governante recebe influência das forças que dominam sua mente com maior ou menor intensidade. 7 Disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/livros/o-anticristo_gritters.pdf >. Acesso em 11 out. 2022. 51 Como Israel foi uma monarquia por muito tempo, muitos cristãos confundem o que isso significou. Ao contrário do que muitos cristãos acreditam, por fazerem uma leitura enviesada das Escrituras, a Bíblia está longe de ser unânime sobre a monarquia. É possível perceber nas narrativas tradições favoráveis à monarquia (1Sm 8,1-5.21-22; 9,1-10,16; 11) e tradições contrárias a ela (1Sm 7; 8,6-20; 10,17-27; 12). Como já vimos, o próprio Deus deixou isso claríssimo quando Israel pediu para ter um governante, em 1Samuel 8. A passagem nos revela muito sobre o coração humano. As coisas que o Senhor diz sobre como seria estatizar a nação são assustadoras e ainda assim o povo desejou que assim fosse. Curiosamente, como o primeiro rei durou pouco, tudo aquilo que Deus disse se cumpriu já no segundo reinado, com o melhor rei que Israel teve: Davi. Em seu livro "No Alvorecer dos deuses" (p. 127), o pastor Yago Martins comenta: Um exemplo que pode nos ajudar facilmente com isso é o contexto de 1Samuel 7, o pano de fundo da origem da monarquia israelita, cuja origem é profundamente idólatra e remete a um desejo pecaminoso por um líder; e pior: à semelhança do faraó! – um tipo de bezerro de ouro particularmente poderoso. Diante de tudo isso, talvez a primeira pergunta seja: se é assim, um cristão pode se envolver com a política? Cristãos na Política Como deve ter ficado claro no capítulo anterior, o que define um cristão não é estritamente o que ele faz, mas em que ele crê e como ele relaciona isso com o que faz. É possível alguém ser genuinamente cristão e, no entanto, por ter uma péssima compreensão de certos assuntos, agir de forma tecnicamente incoerente sem entender. É possível também que um cristão genuíno aja de forma 52 incoerente por pecado. Ele não deixará de ser cristão, mas deverá ser corrigido por isso pelos seus irmãos. Com isso em mente, devemos considerar ainda que quando falamos de política, estamos tratando de uma zona de atividade que está recheado de problemas éticos profundos e estruturais – no sentido de que o sistema funciona naturalmente de uma forma que encoraja e recompensa a má conduta, se retroalimentando, expulsando ou convertendo os divergentes. Para um cristão, participar disso é o faria estar em posição de guerra. É possível? É. Contudo, já sabemos que Deus não nos chamou para isso. É fato que podemos nos envolver com questões para as quais não fomos diretamente comissionados, mas é claro que existem áreas mais difíceis. Existem desafios muito particulares que fazem certas áreas de atuação serem algo que, apesar de possíveis em teoria, são impossíveis na prática. No caso da política, o problema da identidade cristã e o seu testemunho é muito evidente. Em primeiro lugar, será muito difícil um cristão se envolver profundamente com a política e continuar vivendo coerentemente com a ética de Deus. No governo atual, nós estamos presenciando isso acontecer nitidamente, de forma indiscutível: nós tivemos uma entrada incomparável de cristãos e até pastores na política, inclusive no governo federal, e infelizmente isso se converteu em mais pastores presos e mais escândalos públicos envolvendo pastores. Na prática, só Deus tendo muita misericórdia para que cristãos se envolvam nesse meio saiam ilesos. Não parece compensar. Além das questões mais óbvias de corrupção, temos aquilo tudo que foi dito no capítulo anterior: o problema dos cristãos cujas vidas são caracterizadas não pelo Evangelho, mas pelo ativismo político. Dificilmente um cristão político será lembrado pela pauta de Cristo – que muitos confundem com a imposição da moral cristã. Para ser sincero, você consegue se lembrar de algum? Quando cristãos pensam no envolvimento da Igreja com a 53 política, sempre pensam em passagens bonitas, lembram de personagens cativantes e eventos marcantes. Pensam sempre em como cristãos irão salvar a sociedade. Eles nunca lembram que o sistema estatal de opressão já é Deus agindo na sociedade à sua maneira. Em Mateus 21:43, Jesus diz: "Eu lhes digo que o Reino de Deus será tirado de vocês [Israel] e será dado a um povo que dê os frutos do Reino". Ao que Piper comenta: Deus estava tirando sua obra redentora de Israel e transferindo-a para as nações gentias. O povo de Deus não mais seria definido por etnias, nem por sua participação no sistema teocrático de reis, sacerdotes e juízes, nem pelas leis cerimoniais e cívicas que sustentavam aquele sistema. O povo seria definido pela fé em Jesus e pelo fruto do amor. (2010, p. 181; grifo meu). O Desejo Político Os modelos políticos variam, mas desde os tempos antigos, todos eles têm algo gritantemente em comum: estar no controle. De início, farei uma observação meramente técnica, sem palpitar sobre o que há no coração das pessoas. Vamos lidar apenas com os fatos evidentes: independentemente da posição política, se mais à direita ou mais à esquerda, a forma dos candidatos tentarem mostrar serviço ao eleitorado é vendendo a ideia de que, quando subirem ao controle, de fato controlarão: farão leis conforme o gosto de uma parcela da população, que serão impostas contra o restante. Agora, veja como isso soa estranho à fé cristã. Primeiro, porque ser político pressupõe, pela própria função, que algumas pessoas têm tanta certeza que sabem o que é melhor para a vida das outras pessoas que, como se isso já não fosse suficientemente prepotente, acreditam que têm o "direito" de literalmente impor seus gostos à força na sociedade por meio de leis que inventam. Ás vezes, é preciso dizer até as coisas mais óbvias: a Bíblia 54 jamais legitima essa ideia de maneira alguma. Pelo contrário, essa ideia está em total oposição à fé e testemunho cristãos. Mesmo assim, os cristãos estão cada vez mais gostando de como o jogo político e a força estatal funcionam. Se, de um lado, temos militantes secularistas ansiosos por ver a dominação estatal, em menor ou maior grau, do outro lado, temos uma imensidão cristã desejosa de que a Igreja governe a sociedade e dite as regras – ao menos indiretamente. Quando a Igreja assume o controle, o que temos é uma versão ocidental da sharia islâmica, com religiosos impondo sua lei, sua moral e seus costumes ao povo em geral. Mas não, um governo que controla a moral não é um governo cristão, nem mesmo um governo genuíno. Em partes, isso acontece porque muitos cristãos têm dificuldade de ler o Antigo Testamento (AT) dentro do seu contexto. Israel e a Igreja Quando olhamos para o AT, vemos um ideal de estado judaico. Deus havia escolhido uma etnia e uma nação, deu regras civis e disse como a política interna funcionaria, abrangendo as mais diversas relações sociais. Nesse sentido, o AT é um livro é muito político; é quase uma legislação em muitos momentos. Por isso, muitos olham para aqueles textos e pensam que eles representam o modo como nós devemos nos relacionar com o nosso estado. O problema é que tudo isso perde completamente o sentido a partir de um ponto muito simples: diferente dos judeus, os cristãos não são uma etnia e um país. Os cristãos, por isso, também não receberam de Deus uma legislação, uma lista de critérios legais para que nós mesmos arbitrássemos questões sociais. No Novo Testamento (NT), Deus não entrega uma constituição ao seu povo, pois esse povo não tem e jamais voltaria a ter uma 55 nação própria. A estrutura social sobre a qual Israel vivia ficou restrita àquele povo e para aqueles dias. Nem mesmo os judeus de hoje, no Israel moderno, desenvolveram um estado judaico aos moldes da Antiga Aliança. Mas porque havia essa estrutura no AT, uma teologia pouco esclarecida sobre as continuidades e descontinuidades do AT para o NT fazem com que alguns cristãos misturem as coisas. Coloque isso em sua cabeça: o cristianismo não possui um modelo de estado. Não existe na Bíblia a pretensão de um projeto de sociedade cristã. O cristianismo, de maneira nenhuma, se propõe a fundar um estado, mas a preparar pessoas a um novo reino que o Senhor um dia trará para cá. É sobre isso que Paulo ensina na carta aos Filipenses. E eu sei que isso é muito duro de ouvir para alguns cristãos. Hoje, por causa do apelo apocalíptico da propaganda política, os cristãos rapidamente diriam que "nós precisamos agir e ocupar a política, precisamos fazer alguma coisa para impedir que o mal avance e faça a Igreja sofrer!". Paulo ficaria chocado se ouvisse isso. Veja o que ele diz exatamente sobre esse assunto: "Irmãos, sejam meus imitadores e aprendam com aqueles que seguem nosso exemplo. Pois, como lhes disse muitas vezes, e o digo novamente com lágrimas nos olhos, há muitos cuja conduta mostra que são, na verdade, inimigos da cruz de Cristo. Estão rumando para a destruição. O deus deles é seu próprio apetite. Vangloriam-se de coisas vergonhosas e pensam apenas na vida terrena. Nossa cidadania, no entanto, vem do céu, e de lá aguardamos ansiosamente a volta do Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele tomará nosso frágil corpo mortal e o transformará num corpo glorioso como o dele, usando o mesmo poder com o qual submeterá todas as coisas a seu domínio" (Fp 3:17-21). E ainda: "O que nos separará do amor de Cristo? Serão aflições ou cala56 midades, perseguições ou fome, miséria, perigo ou ameaças de morte? Como dizem as Escrituras: 'Por causa de ti, enfrentamos a morte todos os dias; somos como ovelhas levadas para o matadouro'. Mas, apesar de tudo isso, somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou" (Rm 8:35-37). O sofrimento não é acidente na vida cristã. Fomos avisados! O AT realmente dizia "feliz é a nação cujo Deus é o Senhor!". Mas isso foi escrito quando? Dentro de um contexto em que o povo de Deus tinha uma nação, oras. Qual é a nossa nação, a nação cristã, hoje? Não existe, pois a nossa cidadania é celeste; o nosso reino é divino, não humano. A Imposição da Ética Se você assumiu uma posição política no coração, eu sei que será difícil ser comparado aqui com o outro lado. Mas não será à toa. Preste bem atenção: ambos os lados, mais à direita ou mais à esquerda, são exatamente iguais no método. Um grupo pode ter pautas diferentes com relação aos demais, mas o que todos eles têm em comum é o desejo de impor à sociedade o que acreditam. Tanto crentes de direita quanto de esquerda decidiram que a sociedade deve obedecer suas diretrizes e, assim, lutam com fervor pelo mesmo objetivo: usar a força estatal para isso. Esses cristãos precisam, com urgência, ler o livro "A imaginação totalitária", de Francisco Razzo. Se você gosta de pensar que sua crença é inviolável, deveria aplicar isso também às pessoas com crenças diferentes. A fé bíblica, tanto no AT quanto no NT, jamais ensina a imposição de uma ética ou de uma cultura aos outros. No AT, o povo de Deus era um país com leis próprias dadas por Ele mesmo. As leis misturavam questões sociais e morais, e não havia distinção entre a esfera civil e a esfera religiosa. 57 Ou seja, para os israelitas, a vida pública era também a vida da fé. No NT, espera-se que a vida pública do povo de Deus continue sendo vista em sua vida pública. Porém, houve uma mudança brusca: o povo de Deus não tem mais uma pátria, nem leis próprias. Por isso, espera-se que eles testemunhem sua fé mesmo debaixo do domínio dos governantes de suas nações. No AT, a lei não servia apenas para apontar o pecado, mas também como uma constituição para Israel. Por isso, apesar das leis no AT serem de obrigação coletiva, punidas até com pena de morte em vários casos, no NT entendemos que a moral cristã deve ser anunciada, mas nunca imposta à força contra a sociedade. A moral cristã, imposta por meio da política e agressão estatal nunca salvará, nem mudará o caráter de ninguém. A nossa missão não é impor, mas testemunhar (compare Dt 19:18-21 e Mt 5:38-39). Apesar de uma mensagem com implicações políticas, Jesus jamais dava orientações de atuação política. Ao contrário disso, todas as vezes que uma mensagem de Jesus entrava no campo político, era para se opor à política e aos reinos deste mundo. Aliás, o próprio reino de Deus, tema principal das pregações de Jesus, está sempre em oposição ao reino humano. No anúncio da grande comissão, Jesus se apresenta justamente com "toda a autoridade", e ainda assim, não há qualquer tipo de ordem de imposição da ética cristã aos de fora. Na verdade, Jesus ensina-nos a fazer discípulos, e não a coagir; Ele nos ordena a ensinar, não a obrigar: "Jesus se aproximou deles e disse: "Toda a autoridade no céu e na terra me foi dada. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações [...] Ensinem esses novos discípulos a obedecerem a todas as ordens que eu lhes dei" (Mt 28:18-20). Na oração do Pai Nosso, Jesus nos ensina a orar para que sua vontade seja feita e não a impor sua vontade. Não há dúvidas: a imposição da ética é anticristã. 58 A Antipolítica de Jesus Quando analisamos os discursos de Jesus, vemos que Ele tinha uma mensagem bastante política. Porém, de oposição à política. Em todo o seu período de pregação e ensino, Jesus não forneceu esclarecimentos sobre questões específicas da política, muito menos um modelo político ou apoio político a qualquer vertente. O que Ele ofereceu foi uma contradição muito profunda entre o que é viver pela fé e os valores deste mundo. Até mesmo quando perguntavam diretamente sobre questões políticas, Jesus encontrava uma maneira de tratar dos assuntos que realmente importavam. Quando perguntaram a Ele se era certo os judeus serem obrigados a pagar imposto ao Império Romano, numa pegadinha maliciosa, Jesus confrontou os seus corações. Primeiro, Jesus disse que o dinheiro já era do imperador – e de fato era, pois tratava-se de um serviço, o uso do dinheiro, prestado pelo império sob o custo do seu uso. Então, "dai a César o que é de César". Depois, Jesus disse o que os questionadores não queriam ouvir: "dai a Deus o que é de Deus". Quando perguntaram a Jesus se eles eram obrigados por lei a pagar imposto a César, os fariseus estavam tentando pendurá-lo nas cordas do dilema político da sobretaxa. Os judeus viviam oprimidos e indignados porque a terra prometida estava sendo governada por romanos pagãos. Pagar imposto a Roma era uma ofensa religiosa, porém não pagá-lo era um ato suicida. [...] Este é o desejo de Jesus: devemos entender que o perigo enfrentado por nossa alma corre por causa dos governos injustos e seculares não pode ser jamais comparado com a magnitude do perigo que ela enfrenta diante do orgulho insubmisso. Nenhum abuso de autoridade da parte de César e nenhuma lei injusta de Roma tinha poder de lançar alguém no inferno. Já o orgulho e a rebeldia levam para o inferno todo aquele que não tem um Salvador. (PIPER, ibidem, p. 358, 362). Por isso, os cristãos, biblicamente, são chamados para serem ateus políticos. Segundo os preceitos da Palavra, cristãos não acre59 ditam que nenhum projeto terreno conseguirá construir uma nação santa, trazendo o reino de Deus. Alguém agora pode perguntar: então nós não precisamos fazer a diferença neste mundo? Não temos nada a oferecer à cultura? Onde fica o nosso mandato cultural? O Mandato Cultural Em alguns círculos cristãos, ouvimos muito sobre o mandato cultural do cristão. E há muita confusão sobre isso na prática. O mandato cultural tem a ver com a vice-regência (ou a administração) do homem sobre a criação. O homem, quando foi criado, devia desenvolver e manter tudo aquilo que fora criado por Deus. Através dessa responsabilidade, Deus estava colocando a humanidade em um relacionamento singular com a criação, para dominar e sujeitar (Gn 1:28), guardar e cultivar (Gn 2:17). É isso que justifica o trabalho e o envolvimento do cristão em áreas como: educação, artes, lazer, tecnologia, indústria e quaisquer outras. Isso é reforçado pelo apóstolo Paulo desta forma: "Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo" (Cl 3:23-24). Pois bem, sabe o que o mandato cultural não diz? Pasme: ele não diz nada a respeito de pessoas dominando umas às outras. Dominar e sujeitar é função da humanidade para com o restante da criação, não de um grupo de pessoas especiais acima das demais. As ordens em Gênesis são claras: a humanidade deve gerenciar o restante da criação, não escravizar ela própria. A nossa função como cristãos não é dominar a sociedade. Viver como cristãos neste mundo não é impor pela via política uma cultura cristã. A vida cristã, na prática, tem a ver com o que fazemos em prol do convencimento, não da obrigação. Nós trabalhamos 60 com persuasão, não com opressão. Podemos, sim, e devemos servir a sociedade para que o bem seja promovido. Porém, não exigindo que os nossos valores sejam adotados, e sim que eles sejam percebidos e entendidos. A fé em prática é o serviço, não a manipulação do próximo. Cristãos, segundo as Escrituras, devem, isto sim, apontar e sinalizar para o bem, caminhar em direção ao que é bom, testemunhar o que Cristo fez pela humanidade. A nossa missão está no anúncio. A nossa confiança jamais deve estar em coisas que nós podemos produzir com o nosso esforço ou estratagemas. No reino de Deus, Ele mesmo é o arquiteto e o construtor. Ele projetou e ele é o executor. Nós apenas o recebemos de cima para baixo. O maior reflexo público da fé, o testemunho da transformação operada em nós pelo Espírito Santo, é a empatia, a preocupação real e sincera com o próximo. Ser cidadão cristão é se ater àquilo que Jesus ensinou: “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7:12). Por Que Não Admitimos? O que dissemos neste capítulo até aqui é o que todo cristão já sabe. Mesmo assim, na prática, é extremamente comum vermos cristãos por toda a parte engajados em campanhas políticas de vereadores e deputados também cristãos, na expectativa de que essas pessoas salvem o país proibindo o pecado à base de leis. Mas o nosso papel na sociedade como cristãos não é votar em candidatos que impeçam o pecado. Por que não admitimos isso? Por que é tão difícil deixar para trás a vontade de dominar o próximo? Isso, todos sabemos, tem um nome: autoritarismo. Quando cristãos tentam usar o estado para impedir que outras pessoas façam o que elas não gostam, seja com a desculpa que 61 for, isso é fruto de uma mentalidade imatura e autoritária. A nossa luta é pela conversão das pessoas. A nossa militância é para que as pessoas conheçam o Evangelho, compreendam que estão em pecado contra Deus, se arrependam e confiem em Jesus. A nossa missão, de forma nenhuma, é proibir as pessoas de pecar. Muito menos usando a força estatal. Nem mesmo Deus faz isso conosco! Ainda assim, alguns cristãos são tão santos, tão santos, acima até da santidade do Espírito que inspirou a Palavra, que se sentem no direito de ditar como deve ser a vida das outras pessoas. Para exemplificar, pense no seguinte: e se a inveja, a arrogância, a cobiça e a fofoca, sua e dos seus familiares, também fossem punidas pelo estado com prisão? Cristianizar a política e a força estatal das leis não cabem na proposta de vida que o chamado do Evangelho oferece. É compreensível que você esteja confuso, pois deve ter passado um bom tempo de sua vida convicto de que os cristãos têm a responsabilidade moral de consertar a sociedade, mesmo nunca tendo lido isso em parte alguma das Escrituras. Nós devemos, sim, nos preocupar com a atuação de pessoas más na sociedade que prejudicam outras pessoas. Mas a forma de se fazer isso não é a via estatal. Como cristãos, não estamos aqui para tentar cristianizar o mundo politicamente. Como cristãos, agimos na sociedade para fornecer meios dignos para a vida das pessoas, para que elas possam correr atrás dos seus próprios propósitos, para que nós também, como igreja, possamos fazer o mesmo, e tentar convencer essas pessoas, pelo Evangelho, de que o propósito delas deve ser seguir a Deus Daqui em diante, veremos com mais precisão qual é o tipo de relação que Deus espera do cristão com a sociedade e como nós devemos pensar na política. 62 O Cristão e a Sociedade Será proveitoso lembrarmos agora da distinção feita anteriormente entre secularizados e cristãos. Quando os classificamos, os dividimos entre dois grupos nitidamente diferentes, com objetivos e propósitos diferentes, bem como uma forma muito diferente de definir prioridades entre seus valores e princípios. O problema é que não é tão simples fazer tal distinção na sociedade. Veja, é verdade que a nossa sociedade é ordenada por valores judaico-cristãos que influenciam as considerações de todos sobre honra, reputação, amor, confiança, dinheiro, propriedade, governo e principalmente propósito. Assim, a esmagadora maioria dos secularizados busca por alguma espécie de propósito, algo que possam “deixar para a posteridade”, algo que transcenda diretamente seu sentido individual e particular. Mesmo quando estão descontentes sobre suas carreiras, sua família ou conhecimento, o fazem sempre comparando-se com toda uma humanidade, ignorando o fato de que sem Deus não existe sentido em sequer falar de humanidade. Somos a humanidade apenas na medida em que mantemos um grande e único referencial que é estático para todos, em todos os tempos históricos e em todos os lugares: Deus. E até mesmo o ateu mais radical depende da utilização de um componente metafórico que é precisamente esse referencial para que possa, em seu quarto à noite, longe de todos os debates, sonhar com seu legado. Digo isso para que entendam o que vou dizer agora. Da mesma forma que o ensino do cristianismo foi extremamente vital e significativo para que todos contemplassem um horizonte novo em que as coisas fazem sentido e que são ordenadas e voltadas ao bem, o secularismo também deixou marcas em muitos cristãos. 8 8 Este texto é uma colaboração de Daniel Miorim. 63 Pois, se o cristianismo foi capaz de expandir muitíssimo a experiência humana, universalizando a nossa forma de pensar, fazendo-nos tratar cada ser humano como irmão e parte de uma mesma servidão a Cristo Jesus, foi o secularismo que reimplementou a noção da separação dos indivíduos em nações; e substituiu nos indivíduos o seu senso de obediência a Deus pelo desejo da obediência do próximo. Se o cristianismo é universal, o secularismo é particular. Se o cristão busca o reino de Deus, o secular busca a maior felicidade possível o quanto antes. Se não participaremos daquela grande festa nos céus, depois desta vida, então precisamos participar do máximo de festas quanto possível nesta vida. Se o cristão procura amar ao próximo tal qual Deus amou, de forma mais abrangente possível, refletindo em torno do maior número de pessoas quanto possível, ao mesmo tempo que sendo inteiramente responsável e internamente responsabilizado pela suas condições materiais, familiares, psicológicas e espirituais, o secular irá amar a si mesmo e pensar no problema em termos de como obrigar o outro a tomar parte de suas responsabilidades e problemas. E esse é o tipo de terceirização que a política facilita. Diferente do adulto que, durante uma emergência em um avião, primeiro coloca sua máscara para que possa então colocar nos idosos e crianças ao seu redor, o secular busca que o próximo se responsabilize, que o próximo levante sua cruz. E com isso não se nega, nem se poderia negar, o papel vital da caridade e do apoio ao outro, mas se tenta recuperar o papel individual de cada cristão em sua família, sua comunidade e na sua vida em geral. Todas as possíveis mazelas relacionadas à forma como se vê o papel do estado, a forma de ver o voto, aquela antiga arma usada para fazer com que a vontade política de um se proste por sobre todas as outras, a forma de ver a violência, a forma de ver nossos problemas espirituais gerais, são apenas um reflexo desse tipo de distinção e o leitor é assim convidado a refletir sobre qual a consequência do pensar correto nesses assuntos acima. 64 A Atuação da Igreja Entre muitos cristãos, já há uma ideia bem melhor desenvolvida sobre a política que é o chamado "voto defensivo": a ideia de que é verdade que não devemos confiar no estado ou em qualquer político, mas vale a pena tentar votar no "menos pior" para evitar que a ameaça mais séria e mais mortífera seja eleita. Isso não lhe parece uma roleta russa? Como é que a sociedade permitiu que as coisas chegassem a esse ponto? O fato é que quando o assunto é se defender da agressão estatal, uma questão muito cara aos cristãos é a liberdade religiosa. E eu realmente entendo o anseio de cristãos que entram na política ou se engajam em campanhas de candidatos com a intenção de defender sua liberdade. É justo que cristãos lutem pela liberdade? Sim, sem dúvidas. Mas não há dúvidas de que há caminhos muito mais rápidos e eficientes para isso do que a confiança na política que, como dissemos, é uma roleta russa: absolutamente qualquer coisa que tenha sido concedida pelo estado pode ser também retirada por ele a qualquer momento, a população gostando ou não. Nós precisamos nos libertar da ideia de que a sociedade necessita da atuação e da força do estado para ser transformada, ou pior, que a Igreja precisa usar o estado para tal. • A nossa confiança não pode estar no estado; • A Igreja precisa aprender a não depender do estado; • Os estados mudam e passam; a moral e a lei de Deus, não. Transformação Profunda Cristãos que se engajam politicamente, constantemente usam como desculpa a necessidade de envolvimento como "sal" e 65 "luz" para o mundo, trazendo influência positiva. Isso está certo. Perceba como influenciar é completamente diferente de impor. Ainda que o nosso esforço não seja, jamais, de obrigar, mas de explicar e testemunhar esperando a ação do Espírito Santo, é inegável que nós podemos também agir em prol de melhorar a vida em comunidade, em busca de uma sociedade mais justa. Existe realmente, na Bíblia, um chamado para que a Igreja se engaje cultural e socialmente. Mas esse papel de transformação social da Igreja nunca é confundido com envolvimento político. Não, a Igreja não precisa do estado para nenhuma missão. Nós podemos ter projetos voltados para que as pessoas tenham uma percepção mais madura sobre a vida. E isso não é política, é cultura. É com o nosso envolvimento pessoal na vida das pessoas da nossa comunidade que a lei de Deus em nós fará seu papel transformador. Compare o AT com o NT nesse sentido. Deus fez sua lei conhecida para que o povo soubesse de sua incapacidade de fazer o bem e, portanto, de sua condenação. Hoje, essa função é feita por nós conforme testemunhamos o amor de Cristo. A lei mosaica foi uma forma mais simples que Deus usou para moldar mentes e corações usando regras morais, sociais e cerimoniais. Diferente do AT, onde a lei é apenas posta a todo o povo, que devia moldar suas ações externas a elas por força de lei, o NT nos chama para uma renovação da mente, onde a lei de Jesus, a lei do amor, é cumprida por nós por gratidão – não exigida dos outros. A antiga aliança era apenas uma preparação para a nova aliança com Jesus. Era uma ilustração sobre ela. Não do que nós deveríamos fazer contra a sociedade em nome de Deus, mas uma prévia do que Ele faria conosco em nós. Você acha que sem a imposição estatal a Igreja nunca conseguirá vencer? Sem cristãos na política o Evangelho a sociedade irá se opor a nós cada vez mais? Bem-vindo ao mundo real! Apenas o Evangelho pode transformar corações, pois só ele 66 pode mudar a relação das pessoas com o Criador. Todas as outras coisas são apenas formas de maquiar e adiar problemas. A missão da Igreja sempre estará em desacordo com o mundo. A Igreja de Jesus Cristo consiste em chamar o mundo ao arrependimento. Ao declarar lealdade ao rei Jesus por meio da fé no Evangelho, os crentes enfrentam a oposição do mundo; é isso o que se espera mesmo. Isso significa que a missão da igreja não será fácil. Jesus nunca disse que seria. Além disso, Jesus nunca impôs um estilo de vida exato e fixo, como a lei mosaica, nem mesmo aos seus seguidores, quanto mais aos de fora! Diante disso, será que não haja nada que nós possamos fazer de maneira mais efetiva na sociedade, com relação à justiça? Sim! E como há! Há três vias que os cristãos podem e devem usar para alcançar uma transformação social genuína. A principal delas é a transformação sobrenatural, da qual somos apenas os instrumentos; a segunda é a transformação que ocorre quando nós mesmos colocamos a mão na massa; a terceira é a transformação das ideias. Impacto Social Se quer mesmo melhorar o lugar onde vive, você precisa começar a pensar em soluções mais duradouras do que essa loteria que chamamos de eleições. Precisa pensar em mudança de ideias das pessoas da comunidade. E não estou falando de mudar de posição política, obviamente. Com relação à sociedade, fora a pregação do Evangelho, nós podemos e devemos propagar informações melhores sobre economia, civilidade e liberdade. Se a população entender melhor como essas coisas funcionam e por que são importantes, mesmo que péssimos governantes subam ao poder, eles pouco poderão fazer contra a nação e o que fizerem surtirá menor efeito. 67 Quanto mais a sociedade deixar de depender do estado, menos dependente dele e menos afetada será. Políticos diferentes podem nos afetar de maneiras brutalmente diferentes? Sim, podem. Porém, não é o voto que pode transformar a sociedade. As eleições não mudam a mentalidade da nação. Em grande parte, boas ideias podem fazer isso. Cristãos deviam pensar mais em como tornar a sociedade forte contra a política ao invés de tentar protegê-la através dela. É claro que se você é cristão, a ênfase da sua vida, o seu real engajamento, deve ser a propagação da mensagem da cruz. Foi para isso que fomos colocados em nossas cidades. É isso o que faremos como comunidade, como cidadãos celestiais de passagem nesta Terra. Estamos aqui para inspirar verdadeiras transformações através da operação do Espírito Santo pelo Evangelho. É assim que demonstramos a manifestação da autoridade verdadeira, não de um político qualquer ou do estado, mas de Jesus. Mas há, sim, uma transformação que pode acontecer da nossa parte. Aquela transformação que é papel exclusivo da Igreja está no modo como aqueles que já foram transformados pelo Espírito invadem as cidades com a luz de Cristo não para uma revolução armada, mas para cuidar dos feridos, acudir aos necessitados e estender a graça do Senhor através do acolhimento e do serviço às pessoas. Se você quer uma mudança, seja a mudança! Não se esqueça de que você, assim como os descrentes, também é moralmente vulnerável. Sozinho, você é incapaz, você é só mais um pecador no mundo. Nós precisamos de outros seres humanos nos ajudando, de comunidades e redes de associação que tenham relações morais para que possamos articular as nossas propostas morais. Se o que queremos é uma sociedade melhor, não há outra coisa a ser melhorada senão as relações dentro dela. A igreja local é uma dessas relações, a melhor e mais poderosa delas. A igreja é uma associação que funciona como um tipo de 68 incubadora de virtudes. Quando nos reunimos em culto, pastoreio e discipulado, celebrando o nome de Jesus e aprendendo sobre sua Palavra, nós estamos aprendendo sobre como a nova vida em Cristo nos capacita moralmente para agir a partir das virtudes do Evangelho. É assim que a Igreja fornece os meios através dos quais toda uma sociedade tem condições de ser renovada. Os cristãos que se reúnem para reafirmar vez após vez que só Jesus é o Senhor são devolvidos à sociedade, vivendo suas funções onde estão, mas agora com os valores do reino, com uma consciência realista do pecado humano e da graça de Deus. Por isso também, cristãos só estão fazendo alguma coisa pela sociedade, não quando votam ou se engajam na política, mas quando estão a serviço das suas comunidades locais, conhecendo a cultura dos vizinhos, sabendo quais são suas necessidades mais urgentes e promovendo um fortalecimento, um laço social, oferecendo respostas a cada um dos desafios, seja individual ou coletivamente, com a igreja. Quer mudar sua cidade? Proclame o Evangelho, espalhe as ideias da liberdade; se disponha a servir! Sabe por que a política não é uma ênfase bíblica? • Ela não é aquilo pelo que nós devemos ser caracterizados. • A política não é o centro de unidade da Igreja. • A política não estabelecerá o reino de Deus. • Cristãos só têm um Rei e Ele ainda está por vir. 69 A Esperança no Lugar Certo Caso não tenha ficado claro até aqui: o caso não é que o cristão seja obrigado a ser "isentão"; o caso é que nós simplesmente não somos servos dos reinos deste mundo. Aliás, não assumir uma postura política publicamente já é se posicionar; é expor uma confiança diferente daquela que encontramos naturalmente lá fora. Um cristão fiel não tem esperanças políticas. Se você é cristão, você não é brasileiro, você é do céu. O seu coração deveria se importar menos com a política brasileira. Esta aqui não é a sua morada, não é a sua terra, não é a sua nação. Aqui, somos meramente peregrinos. Os poderosos que governam este mundo, o fazem apenas momentaneamente e vão passar. Os poderes temporais ruirão um a um. Não faz mais sentido vivermos tão envoltos em tensões políticas passageiras. Quem governa o Brasil não é o presidente, nem o STF. Quem governa o Brasil e todo o resto do Universo é o Senhor. Em perspectiva, a política importa pouco. Muito pouco. Foi o próprio Jesus quem introduziu na cultura a percepção de que os governos humanos são limitados e passageiros ao dizer que a Ele, e mais ninguém, havia sido dada toda a autoridade. Foram conceitos cristãos que enfraqueceram as estruturas estatais daquela época até os nossos dias no Ocidente. Em sua hora de maior fragilidade, o sumo sacerdote perguntou se ele era o Messias, o Filho do Deus Bendito. "'Sou', disse Jesus. 'E vereis o Filho do homem assentado à direita do Poderoso vindo com as nuvens do céu'" (Mc14:62). Em outras palavras: "Embora neste momento eu esteja fragilizado e seja desprezível aos olhos de vocês, muito em breve me sentarei no lugar de absoluta autoridade sobre você e sobre Pilatos, Herodes e César" (PIPER, ibidem, p. 361). 71 Nós precisamos recuperar a noção de Senhorio de Cristo e trazer à tona a proposta clara de um ateísmo político, a proposta da desconfiança total nas figuras falhas, limitadas e pecadoras que se dispõem a dominar. Perceba que isso não é, de forma alguma, ser socialmente indiferente ou omisso. Nós podemos e devemos contribuir para que a nossa sociedade seja melhor, como foi demonstrado no capítulo anterior. A Igreja tem um poder que não vem de cima para baixo, não funciona por meio da imposição, e por isso mesmo é muito mais eficiente: é um poder capilar de penetração social. A presença fiel da Igreja na sociedade transforma pessoas apáticas em cristãos eticamente responsáveis, preocupados com o seu entorno comunitário, que começam instituições e organizações para beneficiar a comunidade local etc. E isso é importante. O grande economista chamado Frédéric Bastiat, dizia o seguinte: Deus fez a todos nós de tal forma, com tal conjunto de virtudes, que fomos feitos diferentes para que possamos servir a todos; nós nos comportamos de uma forma diferente para termos faculdades que possam servir a todos. Isso se dá de tal forma que se nós perguntarmos a alguém sobre como ele pode ajudar, ele provavelmente não saberá se dispor e ser tão útil quanto ele de fato já é para as pessoas. A presença fiel dos cristãos na sociedade é alcançada com pessoas da comunidade, pessoas bem relacionadas em seus contextos, com capilaridade social, que se conectam com as pessoas, que sabem dialogar, que ama autenticamente seres humanos, que têm interesse sincero pelo próximo e pela realidade à sua volta; e acima de tudo, que tem uma visão missional, com a verdade de Cristo nos lábios. Ele Ressuscitou Meu irmão, Jesus ressuscitou! Isso muda tudo! Muda a res72 posta que damos à existência. A origem dos projetos políticos e ideológicos são baseados no medo da morte. Todas as ideologias políticas são uma reação à finitude, ao desespero diante do fato de que esta vida é finita e que a violência está plenamente presente, tanto quanto a morte. O que nós chamamos de civilização hoje é basicamente algo construído em cima do medo da morte. Agora, imagine um povo que anda na Terra sabendo que a morte não é mais um problema. As implicações são gigantescas! Foi isso que deixou o Império Romano enlouquecido, pois os cristãos operavam não conforme o jogo do estado, mas fazendo o que precisavam fazer, pois não temiam a morte. O modo de pensar em nossa responsabilidade social e engajamento cultural não pode ser como aquele de gente desesperada, mas como o de gente cheio de esperança, que sabe que a tudo está caminhando para o bem, pois o mal está com o prazo de validade já vencido, totalmente contabilizado no triunfo de Jesus em sua ressurreição. Nós devemos olhar para a política de uma maneira absolutamente diferente da visão comum. Me despeço aqui, mas não sem antes deixar um recado de Jesus e outro do apóstolo Paulo: "Então Jesus, chamando-os para junto de si, disse: — Vocês sabem que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Mas entre vocês não será assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros; e quem quiser ser o primeiro entre vocês, que seja servo de vocês; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mt 20:25-28). "E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12:2). 73 E aí, já sabe para quem vai emprestar este livro? 74